Mostrando postagens com marcador Reflexões Teológicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reflexões Teológicas. Mostrar todas as postagens

domingo, abril 16, 2017

9

Foi o túmulo que ficou vazio, não a cruz!




Por Hermes C. Fernandes

Se o túmulo de Cristo ficou vazio, então, Deus aceitou Sua oferta pelo pecado, e estamos livres. Mas se a Cruz estiver vazia, nosso velho homem escapou ileso, e, portanto, ainda vivemos sob a égide do pecado.

A Cruz é eterna! E a prova disso é que as Escrituras nos informam que o Cordeiro foi morto desde antes da fundação do mundo.[1] Há uma cruz histórica ocorrida na plenitude dos tempos, e que nada mais é do que a manifestação de uma cruz meta-histórica, ocorrida fora do tempo e do espaço.

O que acontece na eternidade não tem começo nem fim. Nesse sentido, a cruz é coexistente com Deus. Desde que há Deus, também há Cruz. Por isso, quando o céu se descortina diante dos olhos de João, o trono que se vê é ocupado por um cordeiro "como que houvesse sido morto".[2]

Ele ressuscitou! Porém, Seu sacrifício não durou apenas seis horas. As mãos que criaram o Universo foram mãos crucificadas. Aos olhos de Deus, tanto o trono, quanto a Cruz, estarão sempre ocupados por Jesus.

Enquanto esteve na cruz histórica, o trono não ficou vago. E enquanto ocupa Seu trono de glória, a Cruz não está vazia. Nisso reside nossa salvação. Se Jesus houvesse descido dessa Cruz meta-histórica, não haveria razão para que Paulo declarasse: "Estou crucificado com Cristo"[3]. Ele não disse que havia sido crucificado, no passado. Ele disse que estava, naquele momento, crucificado com Cristo. Portanto, Cristo continuava na Cruz, e Paulo com Ele. Se Ele desce da Cruz, nosso velho homem escapa.

O sepulcro, porém, está vazio. O sepultamento de Jesus é um fato histórico, porém, não meta-histórico. Sua ressurreição também é histórica. Mas Sua Cruz vem antes de todos os antes, e será sempre viva depois de todos os depois. Por isso, no dizer de Paulo, o Cristo que pregamos é o CRUCIFICADO e não o ex-crucificado. 

Engana-se quem imagina que a Cruz foi a vergonha que só foi sublimada pela glória da Ressurreição. Não! Jamais houve manifestação maior da glória de Deus do que a revelada no Gólgota. Foi aquela glória que Ele desejou, ao pedir que o Pai lhe restituísse a glória que recebera antes que houvesse mundo,[4] posto que o Cordeiro foi morto antes da fundação do mundo. 

As mãos que mantém as órbitas planetárias ainda exibem as cicatrizes. Sob a coroa de glória que há em sua cabeça ainda se vê as marcas deixadas pelos espinhos. O resplendor dos Seus pés é incapaz de disfarçar as feridas feitas pelos cravos. Embora tenham sido feitas num determinado tempo, tais feridas adentraram a eternidade e por isso, tornaram-se co-eternas em Deus. Se fôssemos capazes de retroceder no tempo, e reencontrássemos o Criador caminhando com Adão pelo Jardim, certamente veríamos as marcas. Ele as exibe como troféus, prova do Seu grande e incompreendido amor por Sua criação.

Num certo sentido, pode-se dizer que nem o túmulo, ou mesmo a manjedoura que ocupou ao nascer, ficaram vazios. Aliás, nada do que Ele ocupou ficou vazio novamente. Permita-me explicar: Um dos atributos divinos é a Onipresença. Geralmente, entendemos a Onipresença como um atributo espacial. Ser Onipresente é estar em todos os lugares. Mas como tempo e espaço são duas facetas de uma mesma dimensão, logo, para que esteja em todos os lugares, Ele também teria que estar em todos os tempos. Nenhum lugar por onde Ele tenha passado historicamente ficou vazio. Ele sacralizou cada espaço e eternizou cada momento. 

Aquele que é chamado "Pai da Eternidade"[5] eternizou o que era fugaz e efêmero e sacralizou o que era secular e profano. 

As implicações disso são amplas e profundas. Ao viver cada etapa do desenvolvimento humano, por exemplo, Ele igualmente o eternizou, e assim, Ele segue sendo o Deus-Menino, bem como o Deus-Adolescente, o Deus-Jovem, o Deus-Homem. Tudo quanto Ele foi dentro do tempo e do espaço, Ele segue sendo na Eternidade, porque n'Ele não há mudança, nem sombra de variação.[6]

Ao ocupar Seu trono de glória, elevado sobre tudo e todos, Ele preenche todas as coisas, no passado, no presente e no futuro. Nem mesmo o futuro do pretérito, ou qualquer realidade paralela, escapa-lhe o domínio.



[1] 1 Pedro 1:20; Apocalipse 13:8
[2] Apocalipse 5:6
[3] Gálatas 2:20
[4] João 17:5
[5] Isaías 9:6
[6] Hebreus 13:8; Tiago 1:17




quarta-feira, abril 12, 2017

1

Páscoa: Travessia e Travessuras da Humanidade




Por Hermes C. Fernandes


A Páscoa é celebrada por duas das principais religiões monoteístas do mundo, a saber, o judaísmo e o cristianismo. Para os judeus, é comemoração de sua saída do Egito, depois de mais de 400 anos de escravidão. Para os cristãos é a comemoração da morte e ressurreição de Cristo, através das quais somos libertos da escravidão do pecado e da morte. Gostaria de sugerir uma interpretação que englobasse ambas as celebrações, baseada no sentido original da palavra. “Páscoa” (Pesach, em hebraico) significa literalmente “Passagem”, ou “Travessia”.

Desde os primórdios da civilização, a humanidade tem sido desafiada a atravessar fronteiras que delimitam não apenas sua morada, mas também sua compreensão de Deus, da vida e da realidade como um todo (cosmovisão). Esta “travessia” tem sido instigada pelo próprio Deus, e patrocinada pelo Cordeiro cuja vida foi entregue antes da fundação do Mundo. É este “Cordeiro” o elo entre ambras celebrações, a judaica e a cristã.

O cordeiro que cada família hebréia teve que sacrificar antes de deixar o Egito tipificava o Cordeiro de Deus que remove o pecado do mundo, e que, para os cristãos, é ninguém menos que Jesus de Nazaré, Unigênito de Deus, engendrado pelo Espírito Santo no ventre de uma virgem judia chamada Miriam (Maria).

Foi Sua entrega anterior ao start da história que garantiu que Ele mesmo seria o guia da humanidade em sua travessia rumo à maturidade. Deus sabia que nesta travessia, o homem faria muitas travessuras. Somente o sangue de Seu Unigênito seria capaz de impedir que tais travessuras nos fizessem atolar em nossa travessia.

João refere-se a isso ao declarar:”Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram sobre ela (…) A luz verdadeira que ilumina a todos os homens estava vindo ao mundo” (Jo.1:4-5,9).

Apesar das trevas que insistem em cobrir os povos, Cristo tem sido o farol que tem guiado a civilização humana nesta travessia. Não há sociedade em que não encontremos Seus rastros de luz. No dizer de Paulo, ainda que Deus “nos tempos passados”, tenha deixado andar todas as nações “em seus próprios caminhos”, “contudo, não deixou de dar testemunho de si mesmo” (At.14:16-17). Em outro sermão, desta vez pregado no centro do saber filosófico, Paulo diz que Deus, “de um só fez todas as nações dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra, determinando-lhes os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação. Deus fez isto para que o buscassem, e talvez, tateando, o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós” (At.17:26-27).

Podemos encontrar lampejos de Sua presença entre os povos pré-colombianos nas Américas, entre os aborígenes nas ilhas do pacífico, e até entre os esquimós nas geleiras. Se Deus nos houvesse deixado entregues à própria sorte, há muito teríamos nos auto-extinguido.

Esta “travessia” tem sido feita em etapas, nas quais a humanidade tem sido conduzida a uma compreensão mais madura acerca de Deus.

No início da saga humana, nossa busca primordial era por sobrevivência. Nesta etapa de nossa travessia enxergávamos Deus como o Supremo Provedor. A Terra era um jardim de onde coletávamos aquilo de que necessitávemos para sobreviver. Não tínhamos ideia de quão vasta era a Terra para além do território em que vivíamos. Aquele era o nosso jardim, nosso lar, cenário da comunhão entre nós e Aquele Ser que nos havia criado.

Tão logo comemos daquele fruto que nos tinha sido vetado, vimo-nos expulsos do conforto daquele jardim, e partimos em nossa peregrinação pelo mundo. Expostos a todo perigo, nossa busca passou a ser por segurança. Desenvolvemos clãs, tribos, e mais tardiamente, nações. Nossa compreensão de Deus atribuiu-Lhe o caráter de Protetor, guerreiro, e não apenas provedor. Daí surgiu o politeísmo. Cada tribo desenvolveu sua compreensão particular acerca da divindade. E quando guerreavam, era como se seus deuses também guerreassem. Quando perdiam uma batalha, achavam que seu deus não estava satisfeito e deveria receber algo em troca, alguma oferta, para que lhes garantisse o êxito da próxima batalha. Surgia a religião. Não demorou para que pessoas se destacassem como mediadoras entre a divindade e os demais.

Quando algumas tribos resolveram se reunir, somar forças contra um inimigo comum, surgia uma nação. Com isso, também surgia o sincretismo, reunindo elementos de ambas as religiões numa teologia e cosmovisão únicas. Nesta etapa da travessia, nossa busca passou a ser por Poder. Surgiam os impérios e sua sede de domínio. Povos menores eram conquistados e assimilados. O deus territorial adorado por cada tribo era substituído por panteões, onde os deuses disputavam a lealdade de seus povos. Cada deus passou a ser visto como responsável por uma área específica da realidade. Surgiram deuses da agricultura, da fertilidade, da guerra, etc. Entretanto, sempre havia um lugar de honra dedicado ao “Deus dos deuses”, tivesse o nome que fosse. Esta visão de Deus nos ajudou a estabelecer a ordem civil, impedindo-nos de sermos dissolvidos num caos social. O rei era visto como o representante dos deuses, e às vezes era identificado como um deles. Seus decretos tinham peso de ordens divinas, que não podiam ser contestadas.

Logo, surgiram os abusos. Povos dominados eram escravizados. Impostos insuportáveis eram exigidos de seu próprio povo. Isso nos empurrou para uma próxima fase de nossa travessia. Os injustiçados e dominados passaram a buscar Independência. Ninguém mais suportava o jugo dos dominadores. Havia um clamor que subia incessantemente ao céu. A compreensão acerca de Deus evoluiu mais uma vez. Ele agora era visto não apenas como o Soberano, Rei dos reis, mas também como o Juíz da causa dos oprimidos, e o seu Libertador. Um Deus que desdenha dos panteões criados pela imaginação humana, e intervém em favor dos desprezados. Um Deus que não se dobra aos caprichos dos dominadores, mas que pauta Suas ações na justiça. Um Deus que promulga leis as quais até os maiorais dentre o povo devem se submeter. Um Deus que nos convida à liberdade consciente, assistida pela responsabilidade. Foi, de fato, um grande salto na compreensão da humanidade acerca de Deus. Porém, a travessia não terminou.

Em cada nova etapa de sua travessia, a humanidade faz suas travessuras. Aos poucos, passamos a enxergar a lei como um fim em si mesmo. A Lei Moral foi cedendo espaço às leis da física. O Universo tornou-se como um relógio, onde leis fixas regem seu funcionamento. Esquecemo-nos do Relojoeiro. A chegada da Era da Razão, com seu paradigma cartesiano, declarou nossa autonomia de Deus. A fé tornou-se obsoleta. A relatividade, antes confinada ao campo da física, agora era aplicada também às questões morais e éticas. Embora neglicenciado por Sua criatura, Deus não a abandonou à própria sorte, mas acompanhou de perto sua chegada à adolescência.

Nessa busca por autonomia, aportamos em mais uma escala de nossa travessia: o Individualismo. O velho lema dos mosqueteiros, “Um por todos e todos por um”, foi substituído pelo “Cada um por si…”. A reação ao fato de que o mundo funciona como uma máquina, é o desejo de transcender o papel de mera engranagem. Cada indivíduo passou a se ver como o centro do Universo. Tudo deve funcionar para seu próprio bem, independente do que isso venha proporcionar ao semelhante. Esta é a era do bem-estar. Cada consciência estabelece sua própria escala de valores. O que é certo para um, não é necessariamente certo para o outro, e vice-versa. O importante é sentir-se bem consigo mesmo. É desse narcismo/egocentrismo que emerge a Teologia da Prosperidade, em que as pessoas são estimuladas a buscar sua própria fatia do bolo. Surgem igrejas pra todo gosto, com suas teologias ajustáveis às demandas de uma sociedade individualista e consumista. A mensagem que dizia “negue a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” foi descartada e em seu lugar impera a mensagem da auto-estima, do amor próprio. Chegamos a um terreno pantanoso em nossa travessia.

Ao ver-nos atolados nesse tremedal, ou mesmo afundando na areia movediça do individualismo, o Espírito de Deus, enviado para guiar-nos em nossa travessia rumo à Terra Prometida, nos introduz à uma nova etapa: a Honestidade/Avaliação. Somos confrontados com o resultado de nossas próprias escolhas. Em que nos tornamos? Que legado deixaremos para a posteridade? Temos que admitir que nossa civilização está definhando. Produzimos regimes totalitários, ideologias excludentes, escravidão, segregação, destruição do meio-ambiente, exploração econômica, duas Guerras Mundiais, terrorismo, religiões que não sabem co-existir respeitosamente, pornografia, etc. E o pior é que quanto mais tentamos reagir, mais parecemos afundar. Definitivamente, precisamos de ajuda de fora. Temos que voltar ao ponto de partida e descobrir onde erramos como civilização. Chegou a hora de repensar cada uma de nossas posturas, e nos abrir ao diálogo. Ninguém está só. O individualismo é uma farsa. Todos dependemos uns dos outros. E o que afeta ao nosso semelhante, também nos afeta a todos. Se formos, de fato, honestos em nossa avaliação, seremos conduzidos a um estágio de humildade. Teremos que reconhecer que erramos e que precisamos de uma mudança radical. Caso contrário, nos auto-destruiremos.

O sétimo estágio de nossa travessia é o da Reconciliação. Primeiro, com a fonte primeva da existência, DEUS. Uma vez reconciliados com o Criador, estamos prontos a nos reconciliar com toda a criação, incluindo nossos parceiros de jornada (todos os seres humanos), os seres vivos em sua totalidade (tudo o que tem fôlego), e todas as demais coisas, visíveis e invisíveis. Os profetas hebreus chamavam este estágio de Shalom (Paz).

Foi por isso que o Cordeiro Se deixou imolar antes mesmo da fundação do cosmos. “Foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus” (Cl.1:19-20).

A Terra Prometida que almejamos não é um pedaço de chão em algum lugar do Universo, mas o Universo como um todo, concebido por uma consciência renovada pelo Espírito de Deus. Ao fim de nossa travessia, tomaremos nossos tamborins, como fez Miriam, a cantaremos e dançaremos na presença do Cordeiro. Ação de graças haverá em nossos lábios, quando o cosmos inteiro for visto como sacramento eucarístico, e Deus for tudo em todos (1 Co.15:28).

Desejo a todos uma bem-sucedida TRAVESSIA.

Feliz Páscoa!


Postado originalmente em 1/4/10

sexta-feira, junho 24, 2016

70

Para onde vão os animais ao morrer?



Por Hermes C. Fernandes

Para alguns, trata-se de uma questão descabida, sem qualquer pertinência. Mas para quem já teve ou tem um animal doméstico quase membro da família, o assunto é de extrema importância. Creio que se dependesse de muitos dentre nós, os animais compartilhariam conosco o mesmo destino eterno. Porém, se almejamos por respostas, devemos examinar o que dizem as Escrituras.

Não somos melhores do que os bichos!

E não sou eu quem diz isso, mas o sábio Salomão:
“Disse eu no meu coração: Isso é por causa dos filhos dos homens, para que Deus possa prová-los, e eles possam ver que são em si mesmos como os animais. Porque o que acontece aos filhos dos homens, isso mesmo também acontece aos animais; a mesma coisa lhes acontece. Como morre um, assim morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego, e nenhuma vantagem têm os homens sobre os animais…” Eclesiastes 3:18-19
Alguém poderá objetar: Os seres humanos temos espírito, os animais não. Será? Então, Salomão errou ao dizer que não temos qualquer vantagem sobre eles. E veja o que ele diz mais:
“Todos vão para o mesmo lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão. Quem sabe se o espírito dos filhos dos homens vai para cima, e se o espírito dos animais desce pra terra?” (vv.20-21).
Então, os animais também têm espírito, certo? Corretíssimo! Pelo menos é o que acabamos de ler. O amor de Deus não se limita ao ser humano. Deus ama a todas as Suas criaturas, racionais e irracionais. Ele é quem “dá mantimento a toda a criatura, porque o seu amor dura para sempre” (Sl.136:25).

Davi entendia isso perfeitamente, e declara de maneira poética em seu salmo de número 104. Como que em êxtase, o rei salmista declara: “Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas. Há o mar, vasto e espaçoso, onde se movem seres inumeráveis, animais pequenos e grandes (…) Todos esperam de ti que lhe dê o seu sustento em tempo oportuno” (v.24-25,27). Até os leõezinhos “de Deus buscam o seu sustento” (v.21). Era como se Davi mergulhasse no fundo do oceano e se maravilhasse com o que visse ali.

Tive uma sensação de deslumbramento semelhante ao visitar o maior aquário do mundo no SeaWorld em Orlando. É de cair o queixo! Foi deveras emocionante poder tocar nos golfinhos, assistir aos espetáculos com as baleias, adentrar o ambiente artificial reproduzindo o ártico e ver onde descansa o urso polar, assistir ao balé dos pinguins como no filme Happy Feet. Minha mulher e eu fomos literalmente às lágrimas. Disse aos meus filhos que aquele entrosamento entre o homem e os animais era uma amostra grátis do que será na Terra restaurada.

Ou será que seremos a única espécie que desfrutará dos novos céus e da nova terra profetizados pelas Escrituras? O que será das inúmeras espécies animais e vegetais, frutos do gênio divino? Terá Deus criado todas elas apenas como figurantes da trama cujo protagonista é o ser humano? Recuso-me a crer nesta hipótese.

Se Deus não se importasse com os animais, por que os teria poupado no dilúvio?

Seria um desperdício enorme de espaço se somente nós, humanos, habitássemos a Nova Criação. Engana-se quem pensa que nosso destino final será vivermos num céu etéreo, como fantasminhas angelicais tocando suas harpas. Não! Seremos seres humanos completos, dotados de todas as nossas faculdades originais.


A hostilidade que o reino animal nutre contra o homem se deve ao pecado. Deixamos de ser os guardiões do jardim de Deus para sermos sua maior ameaça. Toda a natureza geme na expectativa de ser libertada do cativeiro imposto pela vaidade humana. Quando os filhos de Deus se manifestarem, a natureza será finalmente livre (Rom.8). A Terra não caminha para uma catástrofe final, mas para a libertação. Quando isso ocorrer, a hostilidade terminará, e o homem voltará a integrar-se à criação.

Enquanto não chega o grande dia, devemos zelar pela vida de todos os seres com os quais compartilhamos a Terra. Deus no-los confiou. Tanto os selvagens quanto os domésticos.

Hoje, depois de minha caminhada diária, parei à margem de um lago para fotografar alguns animais (tartarugas, pássaros e patos). Recentemente descobri este novo hobby: fotografar a natureza. Um rapaz americano chamado John me abordou. Ele estava acompanhado de um cão branco a quem chamava carinhosamente de pig (porco). Conversa vai, conversa vem… ele me contou de um acidente automobilístico que sofreu há dois anos, me disse que perdera seus amigos, e que estava perdendo sua casa (por sinal, uma linda casa à beira do lago). A única coisa que lhe restara era seu cão. Mas pra completar seu sofrimento, seu cão, agora com doze anos, estava prestes a morrer. Teria que gastar 8 mil dólares para tentar salvar-lhe a vida numa cirurgia. Por estar financeiramente quebrado, não lhe restou alternativa senão deixá-lo partir. 

Embora não fosse cristão, e de ter-me confidenciado sua ojeriza a religião, John demonstrava um grande amor por seu bicho. O que me remete ao que diz Salomão: “O justo olha pela vida dos seus animais” (Pv.12:10a). Desejei do fundo d’alma que Deus restaurasse a saúde daquele animal. Lembrei-me de Franscisco de Assis que tinha o hábito de orar pelos animais.

Recentemente o SeaWorld foi cenário de uma tragédia envolvendo uma Orca e sua treinadora. Apesar do entrosamento entre eles, a treinadora veio a falecer afogada, depois de ter sido arremessada pelos cabelos num ato aparentemente de fúria do animal.

A AFA (American Family Association), criada pelo reverendo Donald Wildmon defendeu o apedrejamento até a morte da orca. A influente entidade cristã cita passagens da Bíblia para justificar a morte do animal, cuja carne, diz, não deve ser consumida por ninguém. Organizações de defesa de animais de todo mundo reagiram à proposta do apedrejamento. Se depender da AFA, até o proprietário do parque aquático deve ser morto a pedradas, também de acordo com o que manda a Bíblia, argumenta a entidade.

Este é um tipo de fundamentalismo que deve ser rechaçado por cristãos conscientes, que entendem que vivemos sob a égide da Graça e não da Lei.

Uma das mais impressionantes imagens pintadas no livro de Apocalipse está registrada no capítulo 5, do verso 11 ao 14:
“Então olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos seres viventes, e dos anciãos; e o número deles era milhões de milhões e milhares de milhares, proclamando com grande voz: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor. Então ouvi a TODA CRIATURA QUE ESTÁ NO CÉU, E NA TERRA, E DEBAIXO DA TERRA, E NO MAR, e a todas as coisas que neles há, dizerem: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o poder para todo sempre. E os quatro seres viventes diziam: Amém. E os anciãos prostraram-se e adoraram.” 

Repare a forma como o céu e a terra são apresentados unindo-se para formar um enorme coral em adoração ao Cordeiro. Gradativamente, todas as coisas vão sujeitando-se a Cristo. Não só as invisíveis, mas também as visíveis, não só as pertencentes ao mundo espiritual (anjos, querubins e cia), mas também as do mundo animal.

Aos poucos o caos vai se tornando em harmonia; o barulho se transforma numa fenomenal orquestra! Cada evento vai encontrando o seu lugar na majestosa sinfonia composta pelo Cordeiro. Nada fica de fora de escopo desta restauração! O reino animal, o reino vegetal, e o reino mineral se unem para saudar o Rei dos Reis.

No capítulo anterior, João diz que viu um trono, e Alguém assentado sobre ele, e “ao redor do trono havia um arco-íris” (4:3). Este arco-íris nos remete ao episódio em que Deus fez uma aliança com Noé, e estabeleceu o arco-íris como símbolo dessa aliança. O que poucos observam é que aquela aliança de preservação não se limita ao ser humano, mas abrange toda a criação. Assim afirmou o Senhor: “Agora estabeleço a minha aliança convosco e com a vossa descendência depois de vós, e com TODOS OS SERES VIVENTES que convosco estão; assim as aves, os animais domésticos e os animais selvagens que saíram da arca, como todos os animais da terra (...) Este é o sinal da aliança que ponho entre mim e vós e entre todos os seres viventes que estão convosco, POR GERAÇÕES PERPÉTUAS; O meu arco tenho posto nas nuvens, e ele será por sinal de haver uma aliança entre mim e a terra (...) O arco estará nas nuvens, e eu o verei, para me lembrar da ALIANÇA ETERNA entre Deus e todos os seres viventes de todas as espécies, que estão sobre a terra” (Gn.9:9-10,12-13,16).

Esta aliança jamais vai caducar. Não tem prazo de validade a ser vencido. Por ser eterna, ela não perdeu a validade com o lançamento da Nova Aliança, antes foi confirmada. Oséias, profetizando acerca da Nova Aliança, disse: “Naquele dia farei por eles aliança com os animais do campo, com as aves do céu e com os répteis da terra” (2:18). A Nova Aliança diz respeito à salvação do homem, e, por conseguinte, à restauração da ordem criada. O coral só estará completo quando as vozes angelicais, e as vozes humanas unirem-se às vozes de toda criatura, incluindo os pássaros, os répteis, os mamíferos e os peixes."Tudo o que tem fôlego louve ao Senhor!" (Sl.150:6).

sábado, novembro 21, 2015

44

O Dízimo já era...










Por Hermes C. Fernandes


Muito se tem discutido sobre a legitimidade do dízimo durante o regime da Nova Aliança. Para muitos, com o fim da Lei, encerra-se também a obrigatoriedade do dízimo. Vamos deixar as paixões de lado, e examinar o assunto com o coração aberto, a despeito de todo abuso perpetrado por líderes inescrupulosos cujo único afã é locupletar-se em cima dos incautos.

De fato, o dízimo figura nas Escrituras Sagradas mesmo antes da instituição da Lei. Portanto, o Dízimo já era praticado muito antes de Moisés receber as tábuas no Sinai. O escritor de Hebreus diz que o patriarca Abraão separou o dízimo de tudo, e o entregou a Melquisedeque, sacerdote de Salém. Nesta passagem é dito que o fato de Abraão lhe haver entregue o dízimo demonstrava o quão grande era Melquisedeque (Hb.7:4). Portanto, tributar-lhe o dízimo de tudo era o mesmo que reconhecer sua superioridade. Abraão, o menor, foi abençoado por Melquisedeque, o maior (7:7).

Ainda não havia templo em Jerusalém, nem mesmo havia sido instituído o sacerdócio levítico, mas isso não impediu que o patriarca entregasse seus dízimos. Portanto, cai aqui a idéia de que os dízimos só valiam enquanto houvesse um templo para ser mantido. O Dízimo já era praticado muitos antes de haver templo em Jerusalém.

Somente séculos depois, com a instituição da lei, os filhos de Levi foram autorizados por Deus a “tomar o dízimo do povo, isto é, de seus irmãos” (v.5). Neste caso, “recebem dízimos homens que morrem” (sacerdotes levíticos), mas no caso de Melquisedeque, figura de Cristo, “os recebe aquele de quem se testifica que vive” (v.8). Portanto, onde houver sacerdócio, ali também haverá quem receba dízimos.

Alguém poderá objetar dizendo que não há nenhuma palavra sobre o dízimo no Novo Testamento. Ledo engano! O próprio Jesus o endossou ao censurar a hipocrisia dos religiosos de Seu tempo:
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas negligenciais o mais importante da lei, a justiça, a misericórdia e a fé. Devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas” (Mt.23:23).
Mais claro que isso? Impossível. Jesus não os censurou por darem o dízimo, e sim por omitirem aspectos mais importantes da lei. Deveriam ser zelosos tanto na entrega do dízimo, quanto na observação da justiça, da misericórdia e da fé. E repare quão detalhistas eles eram. Davam o dízimo até do tempero da comida!

Pode até parecer legalismo de Sua parte, mas Jesus declarou que se a nossa justiça não excedesse a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entraríamos no reino dos céus (Mt.5:20).

A graça nos ensina a ir muito além do dízimo!

Por que Paulo e os demais apóstolos não precisaram ensinar sobre o dízimo? Porque para os cristãos primitivos, dar o dízimo era fichinha. Eles aprenderam a ir muito além do dízimo.

Também convém salientar que se os apóstolos fossem contrários ao dízimo, eles teriam combatido-o com a mesma veemência com que combateram a circuncisão (também anterior à Lei). Temos até uma epístola dedicada quase que exclusivamente a combater a circuncisão (Gálatas), mas não encontramos uma única palavra contra a prática do dízimo.

Os mesmos que hoje combatem o dízimo deveriam reconhecer que se o Evangelho chegou até nós, foi graças à fidelidade daqueles que deram muito mais do que o dízimo, patrocinando empreendimentos missionários ao redor do globo.

Entregar 10% de nossos rendimentos é dar o que já é esperado. Jesus nos ensinou a transpor os limites das expectativas que nos são postas.

Veja o que Ele diz sobre isso:
“Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser demandar contigo e tirar-te a túnica deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas” (Mt.5:39b-41).
Este princípio também se aplica à questão das contribuições na igreja. E podemos ver um exemplo disso na segunda epístola de Paulo aos Coríntios, onde o apóstolo dos gentios dá testemunho da surpreendente atitude dos irmãos das igrejas da Macedônia. Devido à sua pobreza, Paulo quis poupá-los de ter que enviar ofertas para a igreja em Jerusalém. Porém eles imploraram para participarem desse privilégio (2 Co.8:4).
“Sua profunda pobreza transbordou em riquezas de sua generosidade. Pois segundo as suas posses ( o que eu mesmo testifico), e ainda ACIMA DELAS, deram voluntariamente (...) E não somente fizeram como nós esperávamos, mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor, e depois a nós, pela vontade de Deus” (vv.2b-3,5).
Entregar o dízimo é dar de acordo com a nossa posse.

Uma das coisas que me causam admiração no dízimo é que ele nivela a todos dentro da congregação. Ninguém dá mais, nem menos. Tanto o dízimo de um empresário bem-sucedido, quanto o de uma empregada doméstica têm o mesmo valor, a décima parte.

Porém, somos desafiados pelo Senhor a sermos imitadores das igrejas da Macedônia, transpondo a lei do Dízimo, e dando além de nossas posses.

Interessante que Paulo dá testemunho da generosidade dos Macedônios em sua carta aos Coríntios, e ao mesmo tempo diz que se gloriava da prontidão dos Coríntios perante os Macedônios (9:2). Generosidade e prontidão devem andar de mãos dadas.

Se deixarmos a obra de Deus por último, talvez não sobre nada. Temos que aprender a colocar o reino de Deus em primeiro lugar. Nossas contribuições, sejam a título de dízimo ou de oferta, devem ser preparadas de antemão, e que sejam expressão de generosidade, e não de avareza (v.5).

Muita gente dá o dízimo como o desencargo de consciência. Acham que já estão fazendo muito. O dízimo deve ser considerado o piso, e não o teto de nossas contribuições.

A mesma passagem usada pelos pregadores para exortar a igreja a ser fiel nos dízimos, também menciona outro tipo de contribuição que estava sendo sonegado. Repare no que diz a passagem em questão:
“Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas” (Ml.3:8).
Nem todo mundo está devidamente familiarizado com a expressão “oferta alçada”. A maioria de nós nem sequer ouviu falar disso. Oferta alçada é qualquer oferta cujo valor exceda o valor do dízimo.

O que os cristãos macedônios estavam fazendo era cumprir este mandamento. Oferta alçada é aquela que vai além de nossas posses.

O Dízimo é o mínimo que um cristão pode fazer pela manutenção das obras realizadas pela igreja.

Dele dependem aqueles que vivem do Evangelho. Ministros que se dedicam integralmente à igreja, e quem têm filhos para criar, aluguel de casa para pagar, contas, compras, etc. Alguns são obrigados a cumprir jornada dupla, porque a igreja não atende às suas necessidades. Não há nada de mal nisso. O próprio Paulo teve que fazer tendas para garantir sua subsistência por um tempo. O problema é que, ao trabalhar fora, o pastor já não poderá dedicar cem por cento do seu tempo ao rebanho.

O padrão estabelecido pelas Escrituras está claro:
“Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho” (1 Co.9:14).
Veja ainda a recomendação de Paulo a Timóteo:
“Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e no ensino. Porque diz a Escritura: Não atarás a boca do boi quando debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário” (1 Tm.5:17-18).
Se as igrejas abolissem os dízimos, e contassem exclusivamente com as ofertas voluntárias, como se manteriam e fariam planos para o futuro?

A vantagem do dízimo é a sua regularidade. Dá para se fazer um planejamento, comprar uma propriedade para igreja, contratar novos funcionários, enviar missionários, etc., porque se tem um orçamento fixo.

A diferença básica entre dar o dízimo na Lei, e entregá-lo voluntariamente na Graça está na motivação com que se faz. O que se faz sob a Lei, se faz por mera obrigação religiosa. Mas o que se faz sob a égide da Graça, se faz por gratidão.

Detesto constatar que a maioria daqueles que dão o dízimo, o faz por medo de um suposto espírito maligno identificado como “o devorador”. Definitivamente, não há demônio ou legião com este nome. O que a Bíblia chama de “devorar” são as circunstâncias adversas sobre as quais não temos poder. Mesmo sabendo que o Senhor repreende o devorador, não deve ser esta a nossa motivação.

Seja a título de dízimo ou de oferta voluntária, tudo o que fizermos deve ser feito por amor e gratidão, jamais por coação ou constrangimento.

Mesmo sendo favorável ao dízimo, não creio que deva ser imposto a ninguém. Se não for voluntário, fruto de uma consciência grata e dependente de Deus, simplesmente não tem valor algum. Considero abominável o tipo de exposição feita em algumas igrejas para forçar seus membros a dizimarem. Listas com os inadimplentes são colocadas no mural. Membros são proibidos de participarem da Ceia, caso não estejam em dia com o dízimo. Alguns são até excluídos. Daí a ojeriza que muitos têm contra o dízimo. E não lhes tiro a razão. Todavia, há que se buscar um equilíbrio. Ninguém deve dizimar por medo ou por interesse, mas unicamente por amor. Sem neuroses. Sem culpa. Sem imposições. Só amor e nada mais. 

E se você prefere não dizimar, tudo bem. Mas não julgue quem o faça em amor. Lembre-se que para que o Evangelho chegasse a você, muitos que vieram antes foram fiéis em seus dízimos e generosos em ofertar, possibilitando assim que a mensagem fosse divulgada pelo mundo afora. E se você prefere ser um fiel dizimista, não julgue que não o seja. Ame-o. Acolha-o. Não o discrimine, sem se atreva a achar-se melhor do que ele.  

terça-feira, agosto 18, 2015

16

Que esperança haveria para os que partiram sem conhecer a Cristo?



Por Hermes C. Fernandes

Recentemente estive em um debate radiofônico em que uma mesa formada por quatro pastores abordou suas perspectivas acerca dos conflitos geracionais e da evasão de jovens das igrejas. Contei-lhes sobre a maneira como meu pai logrou conquistar meu coração com um singelo gesto de amor no momento de maior rebeldia em minha conturbada adolescência.

Assim que terminei meu relato, um dos pastores pediu para compartilhar sua própria experiência com o seu pai. Imaginei que seria algo próximo do que relatei. Em vez disso, sua história conseguiu embargar minha voz. Contou-nos que fora criado num lar ateísta, e que seu pai detestava qualquer tipo de religiosidade. Já na adolescência, foi trabalhar na empresa de seu pai. Qual foi sua surpresa quando um dia a secretária convidou-o para fumar um baseado de maconha. Constrangido, disse-lhe que não poderia fazer tal coisa, pois seu pai estava ali. Pelo que a secretária retrucou, contando que seu próprio pai também consumia a droga. Com o dinheiro dado pelo pai, ele e a secretária dirigiram-se a uma boca de fumo próxima e adquiriram quantidade suficiente para ser consumida pelos três. Sob o efeito da droga, pai e filho acabaram compartilhando os favores sexuais da secretária.

Imaginei que seu relato sofreria uma guinada, mas em vez disso, ele contou que seu pai morreu ateu, e que ele, por sua vez, veio a conhecer Jesus enquanto desfolhava uma Bíblia. Impactado pelo Jesus que emergia das páginas dos Evangelhos, saiu à Sua procura em várias igrejas, mas aquilo que era pregado dos púlpitos não parecia em nada com a proposta do Jesus que conhecera. Mais tarde, ainda desiludido, entrou numa igreja onde o discurso se assemelhava com o de Cristo, ficando ali até tornar-se pastor após a conclusão de seu seminário. Passei o dia pensando sobre aquilo.

Como me sentiria sabendo que meu próprio pai teria tido um fim daqueles? Como conviveria com a ideia de que ele poderia estar no inferno, enquanto eu estivesse convidando pessoas a desfrutarem do céu?

Sou a terceira geração de pastores da minha família. Meu avô materno foi pastor. Meu pai, idem. Meus tios e primos por parte de mãe, meus cunhados e irmãos, são todos cristãos comprometidos com o Reino de Deus. Isso me traz um enorme conforto. Sei que ao deixarmos este mundo, reencontrar-nos-emos na glória celestial.

Como compartilhar tal conforto com quem tem uma história diferente da minha? Creio firmemente que um dos papéis que devem ser desempenhados pela igreja é a promoção da conversão dos pais aos filhos e dos filhos aos pais. Em se tratando de famílias onde os pais e os filhos servem ou serviram a Cristo, tal missão é relativamente fácil. Mas como podemos reconciliar pais e filhos quando os mesmos se encontram em posição antagônica com relação a Cristo? Para responder a isso, temos que considerar a abrangência da obra reconciliadora promovida por Cristo em Sua Cruz.

“E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.” 
Colossenses 1:20

Nada ficou fora do escopo desta reconciliação. Todas as gerações passadas, presentes e futuras. Em termos espaciais, podemos dizer que o termo “céus” refere-se ao avesso da realidade, isto é, àquilo que não é perceptível aos sentidos, à esfera espiritual, também chamada de “regiões celestiais”. Não se trata, portanto, de uma localização geográfica, algum ponto para além das galáxias. Quando se fala de céu como estando acima de nós, trata-se de uma metáfora que indica a sua superioridade em relação à esfera terrena. 

Lembrando a teoria dos conjuntos que aprendemos ainda no ensino fundamental, o céu contém a terra. Estamos rodeados pelos céus, tanto o sideral, quanto o espiritual. Por isso, Paulo cita os filósofos gregos no areópago de Atenas: “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração” (Atos 17:28).

No sentido temporal, o termo “céus” refere-se ao futuro, ao porvir. O que hoje é latente, no futuro será patente. O que hoje se oculta, no futuro será revelado. Coisas que nossos olhos ainda não viram e nossos ouvidos jamais ouviram, todavia, já estão preparadas para aqueles que amam a Deus. Embora reais hoje, são imperceptíveis aos sentidos humanos, mesmo estando imersos nesta realidade.

Já o termo “terra” é uma referência ao presente, ao que nos é contemporâneo e patente aos olhos, ao momento histórico em que estamos vivendo.

Para nós, humanos, céus e terra são realidades distintas. Vivemos o presente e ansiamos pelo futuro. Porém, para Deus, são facetas da mesma realidade, para quem não há distinção entre passado, presente e futuro. Ele os habita concomitantemente, podendo transitar livremente entre eles. Para Deus, o passado não passou e o futuro é tão presente quanto o próprio presente.

Com estas definições em mente, podemos dizer que céus e terra, presente e futuro, bem como os que neles habitam, foram reconciliados com Deus em Cristo Jesus. Mas não para por aí. Em outra passagem, Paulo vai um pouco mais longe, incluindo também o passado no escopo desta reconciliação.

“Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.” Filipenses 2:10-11

A expressão “debaixo da terra” refere-se ao passado e seus habitantes, àquela esfera existencial abaixo de camadas sucessivas de poeira histórica. Aquilo que foi e já não o é. Metaforicamente, é o mundo dos mortos, às vezes chamado de inferno (grego Hades, hebraico Sheol).

Tudo quanto hoje está na superfície, um dia estará “debaixo da terra”. O que hoje é presente, amanhã será passado. O dia chamado “hoje”, o momento chamado “agora” é que determinará o que vai pra debaixo da terra e o que será remetido aos céus, o que vai ficar perdido no passado para sempre, e o que será remetido ao futuro.

O escritor de Hebreus afirma que há coisas abaláveis que precisam ser removidas, para que somente as inabaláveis permaneçam (Hb.12:27-29). Todas terão que passar pela prova de fogo. Nas palavras de Paulo, aquilo que for palha não subsistirá, mas o que for ouro, prata ou pedra preciosa permanecerá. O dia demonstrará com que material edificamos nossa existência. Se o que houvermos feito se mostrar resistente ao tempo e ao fogo, seremos galardoados. Caso contrário, sofreremos prejuízo. Ainda nas palavras do apóstolo, “o tal será salvo todavia como que pelo fogo” (1 Co.3:15). Em outras palavras, sua existência será condenada ao passado (de lá não passará!), porém, sua essência será reconciliada com Deus, mesmo que pelo fogo. Não haverá segunda chance! O que se viveu, viveu. O passado se manterá intocável. O inferno só é eterno porque Deus decidiu que o passado não pode ser alterado.

A despeito disso, o passado pode ser relido, ressignificado, reinterpretado à luz da contribuição que deu ao futuro. Dizer que Cristo tem a chave do hades (inferno) pode significar que em Cristo temos a chave hermenêutica da história (e não apenas das Escrituras!). Através d’Aquele que era, que é e que há de vir, podemos reexaminar o passado e ressignificá-lo.

Dizer que os habitantes das esferas inferiores haveriam de confessar o senhorio de Cristo é o mesmo que afirmar que teriam suas consciências finalmente reconciliadas com Deus. Afinal, como afirmou Paulo, quem quer que com sua boca confessar que Jesus é o Senhor, “será salvo” (Rm.10:9).

Seu passado continua lá, onde sempre esteve. Porém, agora, seus olhos são desvendados, e sua mente capaz de processar a síntese, dando-lhe uma visão panorâmica da história, e de como sua própria existência se encaixa no propósito divino, ainda que pareça ter sido um completo desperdício. Deus, o grande Alquimista e Reciclador do Universo sabe como transformar lixo existencial em ouro! Mesmo um pecado como o de Davi com Bate-seba pode resultar numa bênção como Salomão.

O propósito de Deus é alinhar todas as coisas, como quem justifica as linhas de um texto digitado no computador. Prelúdio, interlúdio e poslúdio se harmonizam na grande sinfonia da história, composta e regida pelo sumo maestro.

João ficou estupefato quando se lhe descortinou a realidade por trás do cenário da existência. Em seu relato registrado no livro de Apocalipse, o vidente afirma ter ouvido “toda a criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que está no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre” (Apocalipse 5:13). Nenhuma esfera existencial ficou de fora do escopo da redenção.

Se faltasse uma só esfera, seria como um coral em que não houvesse uma das várias categorias de vozes: contralto, tenor, barítono, baixo e soprano. Sob a batuta de Cristo, as diferentes categorias vocais se harmonizam.

Poderíamos definir a reconciliação como uma harmonização de cada fato dentro do quadro geral da história. Cada peça do mosaico encontrará seu lugar e se harmonizará com as demais, provendo um sentido amplo e profundo da trama universal.

Ser reconciliado é compreender seu papel dentro da execução dos propósitos divinos e assim, ter sua alma apaziguada. É compreender o dom da vida sob a perspectiva de um propósito que a transcende.

A maior necessidade do ser humano não é de sobrevivência ou de conforto material, mas de encontrar sentido para sua existência. O acaso não nos convence. O caos não nos parece razoável. Almejamos desesperadamente beleza, simetria, destino, propósito. A razão pela qual nos sentimos tão miseráveis perante as tragédias é que elas não fazem o menor sentido. Que sentido haveria num pai enterrar seu próprio filho? A ordem natural não é que os filhos enterrem os pais? Que sentido há num cataclismo que ceifa milhares de vidas? Não nos soa como um desperdício? Como explicar a prodigalidade da natureza? Ainda que não admitamos, no fundo, achamos que Deus nos deve alguma explicação. Mas na maioria das vezes, Ele parece manter-Se em silêncio. É como se sussurrasse em nossos ouvidos o que disse a Pedro: “O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois” (João 13:7).

A vida precisa valer a pena, e para tal, tem que fazer sentido. Salvar-se é perceber-se parte de um plano maior. Somos salvos da insignificância. Ser salvo seria viver por aquilo pelo qual se dispõe a morrer. É reconhecer que a missão que recebemos ao nascer é mais importante e sagrada do que a vida em si (At.20:24).  E segundo Jesus, somente abrindo mão dela é que se pode salvá-la. O inverso também é verdadeiro. Quando se faz questão de preservá-la, ela escorre por entre os dedos (Lc.17:33). Quem nunca se dispôs a um sacrifício por um bem maior, não sabe realmente o que é viver.

Viver pela fé é encontrar este sentido na perspectiva do futuro. É ter a certeza de que no final tudo se encaixará perfeitamente, e de que não ficarão perguntas sem respostas. Não que Deus nos deva explicação, mas Ele certamente fará questão de nos desvendar os olhos a fim de que nos maravilhemos e nos regozijemos em Seu glorioso plano.

Ao deixarmos a esfera temporal, encontramos a plenitude do sentido em retrospectiva. Por enquanto, resta-nos alegrar-nos com vislumbres proporcionados pela fé. Há coisas que ainda não compreendo, mas prefiro confiar. O futuro justificará as aflições do tempo presente. Como bem disse Paulo: “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Rm.8:18).

Lembro-me da última viagem que fiz com meu pai antes de seu falecimento em 2001. Estávamos caminhando pelas ruas de sua terra natal, a pacata cidade de Irupi no interior do Estado do Espírito Santo. De repente, ao pararmos de frente a um barranco, meu pai começou a chorar. Contou-me que ali seu pai lhe havia dado a última surra aos 19 anos. Sem jamais ter-lhe dado uma explicação, seu pai tomou um chicote usado em burro, e bateu nele até deixa-lo arriado. Na madrugada seguinte, meu pai pegou suas coisas e saiu de casa em direção ao Rio de Janeiro. Senti a dor que ainda havia no coração do meu velho pai e quis atenuá-la, consolando-o de alguma maneira. Como que por insight, disse-lhe: Acho que tenho uma resposta, pai. Não sei o porquê, mas imagino que haja um ‘pra quê’. Não fosse aquela surra, o senhor não teria ido para o Rio, onde conheceu a minha mãe, e principalmente, a Jesus. Logo, não fosse aquela surra injusta, eu não estaria aqui ao seu lado.

Dizer que Jesus é o Senhor é reconhecer que Ele sempre esteve por trás dos bastidores da história, conduzindo-a segundo o Seu eterno propósito. É reconhecer que nada aconteceu, acontece ou acontecerá por acaso. Tudo coopera para o bem daqueles que O amam e que são chamados segundo o Seu propósito (Rm.8:28). Cada nota dissonante tem seu lugar na sinfonia composta por Deus. Isolando-a, não tem beleza alguma. Mas colocando-a entre outras notas, percebe-se sua beleza.

Que beleza haveria na grotesca cena da crucificação? Isaías exprime seu horror ao vislumbrá-la:

“Não tinha formosura nem beleza; e quando olhávamos para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos. Era desprezado, e rejeitado dos homens; homem de dores, e experimentado nos sofrimentos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” Isaías 53:2-5

A cruz, como um evento isolado, parece-nos brutal, sem sentido, pitoresco, mas na perspectiva do plano de redenção, é o capítulo mais glorioso da história da humanidade. É o amor revelado em toda a sua majestade.

Jesus sabia o que teria que passar, e quando Seus discípulos tentaram dissuadi-lo, Ele respondeu:

“Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas para isto vim a esta hora.” João 12:27

Quando não se vive na perspectiva da fé, valorizamos o momento em si, e não o que ele representa no contexto geral. O que importa é livrar-nos da dor, do sofrimento momentâneo, e não cumprir o propósito que nos trouxe até aqui. Porém, a fé nos faz vislumbrar o resultado de tudo aquilo, de sorte que a dor é sublimada para que a missão seja cumprida. Ainda que a alma se perturbe, ela não esmorecerá. O que tiver que ser, será. Então, que se cumpra em nós a Sua vontade, mesmo que nos custe nosso conforto.

O problema é que não enxergamos a vida em perspectiva. Tudo o que nos importa é o aqui e o agora. Esquecemo-nos do longo caminho percorrido por todos os que nos antecederam para que chegássemos até aqui. Somos frutos de todas as contingências permitidas pelo arquiteto das circunstâncias. Com isso em vista, Paulo vaticina: “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1 Co.15:19). Nossa vida é apenas um elo numa corrente interminável de elos que nos antecederam e que nos sucederão.

Carregamos conosco o DNA que recebemos de nossos progenitores e que repassaremos aos nossos herdeiros. Podemos dizer que em certo sentido, nossa salvação pessoal implica também na reconciliação do tronco do qual somos ramos. Nossos pais foram redimidos em nós. Sua história foi justificada pelo fruto que ela produziu: nós. Repare: eu não disse que eles foram redimidos POR nós, mas EM nós.

Talvez tenha sido neste sentido que Paulo afirmou que a mulher seria salva “dando à luz filhos” (1 Tm.2:15). Um filho é capaz de redimensionar nossa vida, atribuindo-lhe novo significado. Toda dor que a mulher sente ao parir é justificada quando se lhe é dada a alegria de embalar nos braços o fruto do seu ventre. Nas palavras de Jesus, “a mulher quando está para dar à luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora, mas, depois de nascida a criança, já não se lembra da aflição, pelo prazer de ter vindo um homem ao mundo” (Jo.16:21).

Se nossos filhos são a nossa “salvação” (a justificação de nossa existência), somos, por assim dizer, a “salvação” dos nossos pais. Eles não são salvos por nós, mas EM NÓS!

O escritor de Hebreus diz que em Abraão, Levi, seu descendente de quarta geração, deu o dízimo (Hebreus 7:9). Portanto, o que meus filhos fizerem, de certo modo, será creditado a mim. E o que eu faço hoje, de igual modo, pode ser creditado àqueles que trago latentes em mim. Sou fruto de uma árvore, e ao mesmo tempo, trago em mim as sementes que originarão muitas outras árvores e seus respectivos frutos. Foi nesta perspectiva que Paulo escreveu a pupilo Timóteo: "Dou graças a Deus, a quem desde os meus antepassados sirvo com uma consciência pura..." (2 Timóteo 1:3a). Como alguém poderia servir a Deus desde os seus antepassados, senão através deles mesmos? 

Em mim, Deus resgata a história dos meus pais. Nos meus filhos, minha própria história será justificada. Não seria disso que Paulo falava ao citar a curiosa e misteriosa prática de batismo pelos mortos? Repare no contexto:

“Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. (...)  Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte. (...) E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos. Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?” 1 Coríntios 15:21-22, 25-26, 28-29

Muito já foi dito sobre a misteriosa passagem. Há até uma igreja que promove batismo pelos mortos. 

Particularmente não creio que Paulo estivesse falando de uma prática à parte do habitual batismo promovido na igreja primitiva. Outrossim, creio que o apóstolo estivesse reportando à abrangência da obra realizada por Cristo, representada na cerimônia batismal.

Creio que tanto a passagem em que Paulo diz que a mulher seria salva gerando filhos, quanto a que fala do batismo pelos mortos apontam numa mesma direção. Somos salvos ‘pelo’ futuro! Não me refiro à salvação em termos soteriológicos, mas no sentido de ressignificar a vida, dando-lhe um propósito que vá além de nosso horizonte existencial. No caso da mulher dando à luz parece ser claro. Quanto ao batismo pelos mortos, precisamos considerar que para nossos antepassados, nós somos o futuro. Portanto, em nós suas vidas são ressignificadas [1]. Quando somos batizados, tudo aquilo de que somos compostos, nossa bagagem existencial, nossa carga genética, nossa história desde nossos tataravôs, desce conosco às águas batismais. Nossa história é redimida.

Isso parece encontrar ressonância na promessa em que Deus afirma: “Sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, mas faço misericórdia até MIL GERAÇÕES daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Êx.20:5b-6).

Repare nisso: Deus visita a maldade dos pais NOS filhos. Os filhos são perpetuadores da história dos pais. Portanto, a redenção deles implica na redenção da história começada em seus pais. Uma vez que a misericórdia triunfa sobre o juízo, sua abrangência é sempre maior. O mesmo Deus que visita a maldade dos pais nos filhos até quatro gerações, tem misericórdia dos pais nos filhos até MIL GERAÇÕES.

Jesus ratifica este princípio ao desmascarar a hipocrisia dos fariseus:

"Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês edificam os túmulos dos profetas e adornam os monumentos dos justos. E dizem: ‘Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos antepassados, não teríamos tomado parte com eles no derramamento do sangue dos profetas’. Assim, vocês testemunham contra si mesmos que são descendentes dos que assassinaram os profetas. Acabem, pois, de encher a medida do pecado dos seus antepassados!” Mateus 23:29-32

Ora, se um indivíduo impenitente ajuda a completar a medida do pecado de seus antepassados, o que acontece com aquele que se arrepende? Este não apenas começa uma nova história, mas também provoca uma guinada na história dos seus ancestrais. Nossa história particular é um capítulo da saga de nossa família. Por isso, Deus promete a Abraão que através dele seriam benditas todas as famílias da terra. Sempre que alguém se volta para Deus, seu tronco familiar é abençoado.

Ao responder à pergunta do carcereiro de Filipo, Paulo afiançou-lhe que se cresse em Jesus Cristo, tanto ele quanto sua casa seriam salvos (At.16:31). Seria isso uma referência aos seus descendentes, à sua família atual, ou também englobaria seus ancestrais? O termo grego para casa é oikos, que em alguns textos do Novo Testamento alude às origens de uma pessoa. Em Lucas 1:27 lemos que José era da “casa de Davi”. Por isso mesmo, Jesus era chamado de “filho de Davi”.

Trago latente em mim aqueles que do meu tronco ainda brotarão. Da mesma maneira como estive latente em meus ancestrais. Por isso que quando Adão pecou, todos pecamos com ele, pois já existíamos nele. 

Quando ele caiu, todos caímos. Porém, fomos enxertados na Videira Verdadeira que é Cristo, de maneira que também estávamos n’Ele durante o tempo de Sua peregrinação, desde o Seu nascimento até Sua ascensão.

Mesmo quando partirmos, continuaremos nossa peregrinação no mundo através daqueles que carregarem nosso DNA. Viveremos neles de maneira imanente, assim como eles vivem em nós agora de maneira latente. Porém, quando Cristo Se manifestar, também nos manifestaremos com Ele, de sorte que deixaremos a existência imanente pela existência patente. Porém, em Cristo existimos de maneira transcendente. Repare nisso: quatro formas de existência.

Latente, imanente e patente, transcendente.

Existimos de forma latente em nossos ancestrais. Existiremos de forma imanente em nossos descendentes. Existimos de forma patente durante o tempo de nossa peregrinação. Existiremos de forma transcendente através de Cristo pelos séculos dos séculos, e através disso, nossa essência será preservada para sempre.




[1] Ressignificação é o método utilizado em neurolingüística para fazer com que as pessoas possam atribuir "novo significado" a acontecimentos pela mudança de sua visão de mundo.

* Este texto foi publicado originalmente no dia 04/09/2012 sob o título "Salvos pelo futuro: a reconciliação dos que partiram."