domingo, março 27, 2016

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Páscoa: Travessia e Travessuras da Humanidade




Por Hermes C. Fernandes


A Páscoa é celebrada por duas das principais religiões monoteístas do mundo, a saber, o judaísmo e o cristianismo. Para os judeus, é comemoração de sua saída do Egito, depois de mais de 400 anos de escravidão. Para os cristãos é a comemoração da morte e ressurreição de Cristo, através das quais somos libertos da escravidão do pecado e da morte. Gostaria de sugerir uma interpretação que englobasse ambas as celebrações, baseada no sentido original da palavra. “Páscoa” (Pesach, em hebraico) significa literalmente “Passagem”, ou “Travessia”.

Desde os primórdios da civilização, a humanidade tem sido desafiada a atravessar fronteiras que delimitam não apenas sua morada, mas também sua compreensão de Deus, da vida e da realidade como um todo (cosmovisão). Esta “travessia” tem sido instigada pelo próprio Deus, e patrocinada pelo Cordeiro cuja vida foi entregue antes da fundação do Mundo. É este “Cordeiro” o elo entre ambras celebrações, a judaica e a cristã.

O cordeiro que cada família hebréia teve que sacrificar antes de deixar o Egito tipificava o Cordeiro de Deus que remove o pecado do mundo, e que, para os cristãos, é ninguém menos que Jesus de Nazaré, Unigênito de Deus, engendrado pelo Espírito Santo no ventre de uma virgem judia chamada Miriam (Maria).

Foi Sua entrega anterior ao start da história que garantiu que Ele mesmo seria o guia da humanidade em sua travessia rumo à maturidade. Deus sabia que nesta travessia, o homem faria muitas travessuras. Somente o sangue de Seu Unigênito seria capaz de impedir que tais travessuras nos fizessem atolar em nossa travessia.

João refere-se a isso ao declarar:”Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram sobre ela (…) A luz verdadeira que ilumina a todos os homens estava vindo ao mundo” (Jo.1:4-5,9).

Apesar das trevas que insistem em cobrir os povos, Cristo tem sido o farol que tem guiado a civilização humana nesta travessia. Não há sociedade em que não encontremos Seus rastros de luz. No dizer de Paulo, ainda que Deus “nos tempos passados”, tenha deixado andar todas as nações “em seus próprios caminhos”, “contudo, não deixou de dar testemunho de si mesmo” (At.14:16-17). Em outro sermão, desta vez pregado no centro do saber filosófico, Paulo diz que Deus, “de um só fez todas as nações dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra, determinando-lhes os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação. Deus fez isto para que o buscassem, e talvez, tateando, o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós” (At.17:26-27).

Podemos encontrar lampejos de Sua presença entre os povos pré-colombianos nas Américas, entre os ameríndios nas ilhas do pacífico, e até entre os esquimós nas geleiras. Se Deus nos houvesse deixado entregues à própria sorte, há muito teríamos nos auto-extinguido.

Esta “travessia” tem sido feita em etapas, nas quais a humanidade tem sido conduzida a uma compreensão mais madura acerca de Deus.

No início da saga humana, nossa busca primordial era por sobrevivência. Nesta etapa de nossa travessia enxergávamos Deus como o Supremo Provedor. A Terra era um jardim de onde coletávamos aquilo de que necessitávemos para sobreviver. Não tínhamos ideia de quão vasta era a Terra para além do território em que vivíamos. Aquele era o nosso jardim, nosso lar, cenário da comunhão entre nós e Aquele Ser que nos havia criado.

Tão logo comemos daquele fruto que nos tinha sido vetado, vimo-nos expulsos do conforto daquele jardim, e partimos em nossa peregrinação pelo mundo. Expostos a todo perigo, nossa busca passou a ser por segurança. Desenvolvemos clãs, tribos, e mais tardiamente, nações. Nossa compreensão de Deus atribuiu-Lhe o caráter de Protetor, guerreiro, e não apenas provedor. Daí surgiu o politeísmo. Cada tribo desenvolveu sua compreensão particular acerca da divindade. E quando guerreavam, era como se seus deuses também guerreassem. Quando perdiam uma batalha, achavam que seu deus não estava satisfeito e deveria receber algo em troca, alguma oferta, para que lhes garantisse o êxito da próxima batalha. Surgia a religião. Não demorou para que pessoas se destacassem como mediadoras entre a divindade e os demais.

Quando algumas tribos resolveram se reunir, somar forças contra um inimigo comum, surgia uma nação. Com isso, também surgia o sincretismo, reunindo elementos de ambas as religiões numa teologia e cosmovisão únicas. Nesta etapa da travessia, nossa busca passou a ser por Poder. Surgiam os impérios e sua sede de domínio. Povos menores eram conquistados e assimilados. O deus territorial adorado por cada tribo era substituído por panteões, onde os deuses disputavam a lealdade de seus povos. Cada deus passou a ser visto como responsável por uma área específica da realidade. Surgiram deuses da agricultura, da fertilidade, da guerra, etc. Entretanto, sempre havia um lugar de honra dedicado ao “Deus dos deuses”, tivesse o nome que fosse. Esta visão de Deus nos ajudou a estabelecer a ordem civil, impedindo-nos de sermos dissolvidos num caos social. O rei era visto como o representante dos deuses, e às vezes era identificado como um deles. Seus decretos tinham peso de ordens divinas, que não podiam ser contestadas.

Logo, surgiram os abusos. Povos dominados eram escravizados. Impostos insuportáveis eram exigidos de seu próprio povo. Isso nos empurrou para uma próxima fase de nossa travessia. Os injustiçados e dominados passaram a buscar Independência. Ninguém mais suportava o jugo dos dominadores. Havia um clamor que subia incessantemente ao céu. A compreensão acerca de Deus evoluiu mais uma vez. Ele agora era visto não apenas como o Soberano, Rei dos reis, mas também como o Juíz da causa dos oprimidos, e o seu Libertador. Um Deus que desdenha dos panteões criados pela imaginação humana, e intervém em favor dos desprezados. Um Deus que não se dobra aos caprichos dos dominadores, mas que pauta Suas ações na justiça. Um Deus que promulga leis as quais até os maiorais dentre o povo devem se submeter. Um Deus que nos convida à liberdade consciente, assistida pela responsabilidade. Foi, de fato, um grande salto na compreensão da humanidade acerca de Deus. Porém, a travessia não terminou.

Em cada nova etapa de sua travessia, a humanidade faz suas travessuras. Aos poucos, passamos a enxergar a lei como um fim em si mesmo. A Lei Moral foi cedendo espaço às leis da física. O Universo tornou-se como um relógio, onde leis fixas regem seu funcionamento. Esquecemo-nos do Relojoeiro. A chegada da Era da Razão, com seu paradigma cartesiano, declarou nossa autonomia de Deus. A fé tornou-se obsoleta. A relatividade, antes confinada ao campo da física, agora era aplicada também às questões morais e éticas. Embora neglicenciado por Sua criatura, Deus não a abandonou à própria sorte, mas acompanhou de perto sua chegada à adolescência.

Nessa busca por autonomia, aportamos em mais uma escala de nossa travessia: o Individualismo. O velho lema dos mosqueteiros, “Um por todos e todos por um”, foi substituído pelo “Cada um por si…”. A reação ao fato de que o mundo funciona como uma máquina, é o desejo de transcender o papel de mera engranagem. Cada indivíduo passou a se ver como o centro do Universo. Tudo deve funcionar para seu próprio bem, independente do que isso venha proporcionar ao semelhante. Esta é a era do bem-estar. Cada consciência estabelece sua própria escala de valores. O que é certo para um, não é necessariamente certo para o outro, e vice-versa. O importante é sentir-se bem consigo mesmo. É desse narcismo/egocentrismo que emerge a Teologia da Prosperidade, em que as pessoas são estimuladas a buscar sua própria fatia do bolo. Surgem igrejas pra todo gosto, com suas teologias ajustáveis às demandas de uma sociedade individualista e consumista. A mensagem que dizia “negue a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” foi descartada e em seu lugar impera a mensagem da auto-estima, do amor próprio. Chegamos a um terreno pantanoso em nossa travessia.

Ao ver-nos atolados nesse tremedal, ou mesmo afundando na areia movediça do individualismo, o Espírito de Deus, enviado para guiar-nos em nossa travessia rumo à Terra Prometida, nos introduz à uma nova etapa: a Honestidade/Avaliação. Somos confrontados com o resultado de nossas próprias escolhas. Em que nos tornamos? Que legado deixaremos para a posteridade? Temos que admitir que nossa civilização está definhando. Produzimos regimes totalitários, ideologias excludentes, escravidão, segregação, destruição do meio-ambiente, exploração econômica, duas Guerras Mundiais, terrorismo, religiões que não sabem co-existir respeitosamente, pornografia, etc. E o pior é que quanto mais tentamos reagir, mais parecemos afundar. Definitivamente, precisamos de ajuda de fora. Temos que voltar ao ponto de partida e descobrir onde erramos como civilização. Chegou a hora de repensar cada uma de nossas posturas, e nos abrir ao diálogo. Ninguém está só. O individualismo é uma farsa. Todos dependemos uns dos outros. E o que afeta ao nosso semelhante, também nos afeta a todos. Se formos, de fato, honestos em nossa avaliação, seremos conduzidos a um estágio de humildade. Teremos que reconhecer que erramos e que precisamos de uma mudança radical. Caso contrário, nos auto-destruiremos.

O sétimo estágio de nossa travessia é o da Reconciliação. Primeiro, com a fonte primeva da existência, DEUS. Uma vez reconciliados com o Criador, estamos prontos a nos reconciliar com toda a criação, incluindo nossos parceiros de jornada (todos os seres humanos), os seres vivos em sua totalidade (tudo o que tem fôlego), e todas as demais coisas, visíveis e invisíveis. Os profetas hebreus chamavam este estágio de Shalom (Paz).

Foi por isso que o Cordeiro Se deixou imolar antes mesmo da fundação do cosmos. “Foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus” (Cl.1:19-20).

A Terra Prometida que almejamos não é um pedaço de chão em algum lugar do Universo, mas o Universo como um todo, concebido por uma consciência renovada pelo Espírito de Deus. Ao fim de nossa travessia, tomaremos nossos tamborins, como fez Miriam, a cantaremos e dançaremos na presença do Cordeiro. Ação de graças haverá em nossos lábios, quando o cosmos inteiro for visto como sacramento eucarístico, e Deus for tudo em todos (1 Co.15:28).

Desejo a todos uma bem-sucedida TRAVESSIA.

Feliz Páscoa!


Postado originalmente em 1/4/10

Um comentário:

  1. Missionário Barbosa8:00 AM

    Irmão Hermes, graça e paz somente em Jesus Cristo de Nazaré o homem encontrar! Ele é Deus! Oh Glórias! Aleluais! Para todo sempre Amém!
    Meu irmão, gostaria de comentar alguns assuntos se o irmnão assim pemitir amém?
    Deus te abençõe.
    No livro de João 1.1 diz:
    No princípio, era o Verbo, e o Vervo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
    Jão começa seu Evangelho denominando Jesus Cristo o Senhor de "o Verbo" no grego( logos). Mediante este título de Jesus, João o apresenta coma a Palavra de Deus personificada e declarada que nestes últimos dias Deus nos falou através do seu Filho Jesus; leiam
    Hebreus 1.1. As Escrituras declaram que Jesus Cristo é a sabedoria multiforme de Deus; leiam
    I Coríntios 1.30; Efésios 3.10,11;
    Colossenses 2.2,3 e a perfeita natureza e da pessoa de Deus; leiam João 1.3,5; 14.18; Colossenses 2.9.
    Hermes, meus irmão amado em Jesus, que bela colocação dos versiculos de João 1.4,5,9.
    " A LUZ DOS HOMENS." Jo 1.4.
    Jesus Cristo é a personificação da genuína e Verdadeira Vida. Sua vida era a Luz para todos, e, a Verdade de Deus, na sua natureza, propósito e Poder tonaram-se disponíveis a todos por meio dEle "Jesus"; leiam João 14.6; 17.3; 8.12; 12.35,36,46.
    " A LUZ RESPLANDECE NAS TREVAS." Jo 1.5.
    A luz de Jesus Cristo brilha intenssamente mesmo sendo num mundo mau e pecaminoso controlado por Satanás. A maior parte do mundo não aceita sua vida, nem a sua luz; mesmo assim "as trevas não a compreenderam", e não prevaleceram contra ela "Jesus Cristo de Nazaré".
    No versículo 10b de João 1 diz:
    Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele e o mundo não o conheceu.
    " O MUNDO NÃO O CONHECEU, COMO NÃO CONHECE ATÉ HOJE."
    O "mundo" se refere à totalidade da sociedade organizada e que age independente de Deus, da sua Palavra de retidão, e justiça e do seu governo. O mundo nunca concordará com Jesus Cristo e sua Palavra de vida eterna; permanecerá indiferente ou hostil a Jesus e ao seu evangelho, até o final dos tempos. O mundo é o grande oponente do Salvador Jesus Cristo na história da salvação; leiam Tiago 4.4;
    João 2.15,17; 4.5.
    Em João 1.12 diz:
    Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no seu nome.
    " FILHOS DE DEUS."
    O homem tem o poder(o direito) de se tornar filho de Deus somente se crer no nome de Jesus. Quando ele o recebe, nasce de novo e é feito filho de Deus; João 3.1,21. Portanto, nem todas as pessoas são "filhos de Deus" no sentido Bíblico.
    É importente notar que João nunca emprega o substantivo "fé" no grego significa( pistis).
    entretanto, emprega o vervo "crer" no grego significa( pisteuo) 98 vezes. Para João, a fé salvifíca é, pois, uma atividade; algo que as pessoas realizam. A Verdadeira fé não é crer e confiar de modo estático em Jesus Cristo e na sua obra redentora, mas uma dedicação amorosa e abnegada que continualmente nos aproxíma de Jesus Cristo com Senhor e Salvador; leiam Hebreus 7.25.
    Para alguém se tornar filho de Deus, deve "receber" no grego significa( elabon), de lambano) a Cristo. O tempo pretérito do aoristo aqui denota um ato definido de fé.
    Após este ato de fé, de receber a Jesus Cristo como Salvador, deve haver da parte do pecador uma ação contínua de crer. O Vervo "crer" no grego( pisteuosin, de pisteuo) é um particípio presente ativo, indicando a necessidade da perseverança no crer. A fé genuína precisa continuar após o ato inicial da pessoa aceitar a Jesus Cristo para que ela seja salva.
    "ENTÃO" " Aquele que persevrá até ao fim será salvo";
    Mateus 10.22; 24.12,13; Colossenses 1.21,23;
    Hebreus 3.6,12,15.
    HERMES, IRMÃO COOPERADOR NA OBRA DE JESUS CRISTO, BREVE MUITO BREVE, JESUS CRISTO DE NAZARÉ VIRÁ.
    NÃO PARE DE ANUNCIAR O EVANGELHO ORIGINAL DE JESUS, MUITAS ALMAS PERDIDAS ESTÃO ESPERANDO UMA PALAVRA DE PODER DE SALVAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO ATRAVÉS DE SUA BOCA SUA VIDA.

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