quarta-feira, março 29, 2017

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A "inutilidade" da Cruz




Por Hermes C. Fernandes

Tomando por certa a disposição de Deus em nos perdoar graciosamente, deparamo-nos com uma intrigante questão: qual teria sido a necessidade da morte vicária de Cristo? Ou em outras palavras: por que Cristo teria que se oferecer pelos nossos pecados?

Não seria mais simples se Ele tão somente nos perdoasse? Não é justamente isso que Ele requer que façamos àqueles que nos magoam?

Na oração do Pai Nosso, Jesus nos ensina a pedir que sejamos perdoados assim como temos perdoado os nossos devedores.[1] Não há ali qualquer menção à reparação do dano. Perdoar é abrir mão de um direito. É aceitar o prejuízo. Se devemos buscar o padrão divino (“Sede imitadores de Deus como filhos amados”[2], lembra?), então, nada mais justo do que perdoar mediante reparação. Mas, peraí, isso não seria perdão!

É verdade que o pecado se constitui uma dívida com Deus. Ele nos fez com um propósito específico, mas insistimos em viver à nossa própria maneira. Ele nos fez para o outro, mas preferimos viver para nós mesmos. Por isso, contraímos uma dívida com Aquele que nos projetou e criou.

Geralmente, acredita-se que a morte de Cristo tenha sido um pagamento feito a Deus. Ficamos quites com Ele mediante a oferta da vida de Seu próprio Filho. Passa-se a impressão de um Deus relutante em nos oferecer perdão. Não é de se admirar que os cristãos tenham tanta dificuldade em perdoar. Ninguém aceita ficar no prejuízo. A gente até perdoa, mas desde que alguém se disponha a reparar o dano.

Sinceramente, prefiro acreditar que haja um grande mal entendido.

Não era Deus que precisava da cruz para poder nos perdoar. Éramos nós que precisávamos de algo que nos revelasse a gravidade de nossos pecados, a fim de que atribuíssemos o devido valor à Sua graça.

A salvação nos saiu a um custo zero, mas custou-Lhe a própria vida.

Foi o próprio Deus quem arcou com a consequência da nossa rebelião.

Na cruz, vemos um Deus exposto, vulnerável, fragilizado. Um Deus justo que não pode ser conivente com o pecado, e que, por isso, estabelece uma sentença, mas aplica-a a Si mesmo.

O amor ali revelado deve nos constranger ao ponto de nos fazer sentir nojo de nossos próprios pecados.[3] Um constrangimento análogo ao experimentado pelo filho pródigo ao ser recebido de volta ao lar. [4]

Já ouvi argumentos contrários à necessidade da cruz baseados justamente nessa parábola. Afinal, o pai recebeu em casa o seu filho sem exigir qualquer ressarcimento dos bens desperdiçados.  Se conhecêssemos melhor o contexto social e cultural em que esta parábola transcorre, entenderíamos o que significou àquele pai sair correndo em direção ao filho, abraçá-lo e beijá-lo, dar-lhe um anel, bem como roupas e calçados novos, mandar matar o bezerro cevado (especialmente preparado para ocasiões especiais) e ainda por cima, recepciona-lo com festa. Numa sociedade patriarcal, aquele homem expôs sua autoridade, abrindo um perigoso precedente.

Na cruz, dois dos principais atributos divinos que correm paralelos convergem e se cruzam. A justiça e o amor se harmonizam. Apesar de jamais ter havido qualquer atrito entre eles, era necessário que percebêssemos através de um gesto radical o alto custo para mantê-los devidamente afinados. A haste horizontal da cruz bem que poderia representar a justiça. Ela não poderia pender nem para a esquerda, nem para a direita, mas manter o equilíbrio (equidade). A haste vertical representaria o amor. Ele que dá sustentação à justiça. Ele é a base que se ergue entre o céu e a terra. É sobre o amor que a justiça está estabelecida. Sem a haste vertical fincada no chão da existência, a haste horizontal não se elevaria. O lugar de encaixe entre as duas hastes se chama graça. Ela é o árbitro que anuncia a vitória da misericórdia sobre o juízo.

Deus jamais poderia ser acusado de agir com impunidade ou conivência. Sua justiça segue imaculada. Nossos pecados foram perdoados. Porém, o prejuízo que eles causaram custou Sua própria vida.

Não há perdão sem cruz! Cada vez que perdoamos a alguém, experimentamos a crucificação do nosso ego. Arcamos com o prejuízo. Liberamos o outro da obrigação de se retratar.

Lemos que o Cordeiro foi morto desde antes da fundação do mundo.[5] No momento em que Deus decidiu criar todas as coisas, sabendo o que Lhe esperava, Ele Se entregou. Portanto, a cruz não foi um plano tapa-buraco. Não foi um improviso. Um Deus soberano e todo-amoroso resolveu apostar Suas últimas fichas em Sua criação. Ele decidiu nos perdoar muito antes que houvéssemos pecado.

Ele não pagou a nossa dívida. Ele rasgou a promissória. Pelo menos, é disso que Paulo fala em Colossenses 2:14: “E havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz.”

Ele simplesmente aceitou o prejuízo. Por amor.

Isso é graça! O resto é contabilidade. Sem amor, a conta nunca vai fechar. Sempre haverá quem nos deva e não nos possa pagar.




[1] Mateus 6:12
[2] Efésios 5:1
[3] 2 Coríntios 5:14
[4] Lucas 15:11-32
[5] Apocalipse 13:8; 1 Pedro 1:20

domingo, março 26, 2017

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INFERNO: FECHADO PARA BALANÇO



Por Hermes C. Fernandes

No penúltimo parágrafo do meu último post sobre o inferno, fiz uma afirmação que inquietou algumas mentes. Qual seria a vantagem de se crer e obedecer às demandas do evangelho, uma vez que todos indistintamente serão alvos da misericórdia divina? Apesar de relutar em responder a tal questão (apesar de pertinente, não gosto de falar em vantagens. Soa-me pretensioso demais), declarei que os que crerem serão preservados íntegros, corpo, alma e espírito para o dia de Jesus Cristo, e, por conseguinte, para toda a eternidade. Enquanto os demais estarão como que fragmentados, haja vista que sua existência terá sido descartada, porém, sua essência será redimida e preservada.

Em que me baseei para chegar a esta conclusão? De primeira mão, na passagem em que Paulo diz que o mesmo Deus de paz nos santificaria em tudo, de modo que o nosso espírito, alma e corpo fossem plenamente conservados íntegros (1 Tessalonicenses 5:23). Geralmente, pensamos em integridade como uma virtude moral. Mas neste texto em particular, está se falando de inteireza, de totalidade, de completude. Nosso ser não se dissipará, mas chegará inteiro à eternidade. Quando se fala de “espírito” (pneuma), está se falando da essência, daquela centelha divina que existe em cada ser humano. Trata-se de consciência, o maior de todos os mistérios. Já a “alma” (psique) é onde reside nossa personalidade, com suas qualidades, seus traços peculiares, sua memória, suas emoções, suas vontades. O “corpo” (soma) é o instrumento através do qual interagimos com o mundo à nossa volta.

Permita-me uma analogia: o computador que estou usando agora pode ser dividido em três partes distintas, mas que trabalham em conjunto. Há o hardware, que é a parte física, a máquina em si, com seus transistores, suas placas, sua tela, teclado e entradas. Este equivale ao nosso corpo. Há o software composto pelos programas instalados. Sem ele, a máquina não roda. Este equivale à alma, nossa psique. E finalmente, há a internet que conecta o computador, via provedor, a uma rede mundial de computadores. Este é o espírito! E nem precisa dizer que o tal provedor é o Espírito Santo, mediante quem temos acesso a Deus (Efésios 2:18).

A salvação proposta em Cristo é plena e abarca o ser por inteiro. Nada se perde! O escritor de Hebreus afirma que Cristo “pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus” (Hebreus 7:25). Em Cristo, existência e essência se fundem. Tudo o que há no céu e tudo o que há na terra convergem (Efésios 1:10), tornando-se um todo indivisível, dois lados de uma mesma moeda.

Nem mesmo nosso corpo será descartado. Ele ressuscitará incorruptível! É um baita equívoco acreditar que seremos espíritos desencarnados feitos fantasminhas vagando entre as nuvens. Receberemos um corpo novinho em folha! Convém, porém, salientar que, a Bíblia fala da ressurreição do "corpo" (soma), não da "carne" (sarx). Isso, porque "carne e sangue não podem herdar o reino de Deus; nem a corrupção herda a incorrupção" (1 Coríntios 15:50).  O corpo espiritual de que fala Paulo será tangível, material, mas não carnal, nem tampouco sujeito ao desgaste do tempo e à morte (Leia mais sobre a ressurreição do corpo aqui).

O novo corpo não será a continuidade do atual. Paulo compara nosso corpo atual a uma tenda portátil (tabernáculo), enquanto nosso corpo celestial seria um edifício, reservado no céu para nós (2 Coríntios 5:1).  As moradas a que Jesus se refere como estando preparadas para nós não são mansões literais, mas nossos corpos celestiais. Essa "tenda" é apenas o andaime que precisará ser removido para dar lugar ao edifício glorioso que emergirá. Ou se preferir, este corpo é o casulo que se romperá para que possamos usufriur plenamente da vida em seu novo estágio na eternidade. Nossos novos corpos serão, ao mesmo tempo, continuação dos atuais no que tange à morfologia (forma), e algo totalmente novo no que tange à natureza.  Sem este novo corpo, jamais poderíamos viver no ambiente da eternidade, composto do novo céu e da nova terra, que nada mais são do que os atuais inteiramente restaurados.

Mesmo que não seja exatamente o mesmo corpo, creio que nosso corpo espiritual guardará várias de nossas características físicas, sobretudo, as fisionômicas. É como se Deus guardasse nos arquivos celestiais um backup com a sequência exata de nosso DNA, acrescido de uma espécie de código de nossa consciência, que preservará intacta a memória de todas as nossas experiências. Nada se perderá! A única coisa que será removida de nossa natureza será o pecado, causador da morte. Seremos nós, nosso código genético, nossa personalidade, nossa fisionomia, porém, aperfeiçoados, sem enfermidades ou deformações, sejam de caráter físico ou psicológico. Talvez, apenas algumas cicatrizes que serão como troféus, marcas de uma vida dedicada à causa do reino de Deus e de Sua justiça.

Fique tranquilo, que certamente nos reconheceremos lá, mesmo com as eventuais correções em nossa aparência. Nossa personalidade, e, por conseguinte, nossa memória serão preservadas. Nossa história jamais será esquecida. Caso contrário, não seríamos nós, mas outros. E não haveria qualquer razão para ações de graça.  Como agradecer por algo de que não temos qualquer lembrança? Como poderemos louvar ao Cordeiro, se não nos lembrarmos dos nossos pecados que O levaram à cruz? Quando a Bíblia diz que não haverá mais lembranças das coisas passadas, não é no sentido de que seremos submetidos a uma espécie de amnésia. Mas no sentido de que não serão mais essas lembranças que determinarão nossa vida. Assim como Deus diz não se lembrar dos nossos pecados. Todavia, ninguém deduz daí que Ele sofra de amnésia.

E quanto aos que serão alvos tão somente da reconciliação universal? O que eu quis dizer ao afirmar que os tais estarão como que fragmentados? Sua existência terrena terá sido descartada, restando-lhe apenas a essência, a centelha divina. Terão que conviver com a vergonha de terem desperdiçado a oportunidade de existirem por algo mais significativo que suas próprias vidas.

Algo análogo pode ser visto em Paulo. Sua vida pregressa era motivo de grande vergonha. Afinal, ele foi um perseguidor voraz dos seguidores de Cristo. Apesar de inteiramente convertido, o apóstolo dos gentios teve que conviver com um espinho em sua carne, que segundo ele, era um mensageiro de Satanás que o esbofeteava, jogando em sua cara seu passado tenebroso. Suas orações não foram suficientes para que tal espinho fosse removido. Em vez disso, ouviu de Cristo que a Sua graça lhe bastava.

Pense nisso numa proporção astronômica. Mesmo não tendo o diabo para acusá-los, nem mesmo um mensageiro dele para esbofeteá-los, os que forem alvos da soberana graça de Deus após sua morte terão que conviver com a lembrança de haver desperdiçado sua existência, insistindo em viver para si mesmos. Nada lhes poderá remover tal espinho. Todavia, a mesma graça que bastava a Paulo, ser-lhes-á suficiente para sempre.

Uma pista disso pode ser encontrada na profecia de Enoque citada por Judas em sua epístola: “Vede, o Senhor vem com milhares de seus santos, para fazer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e de todas as duras palavras que ímpios pecadores contra ele proferiram” (Judas 1:14b-15). Quão profunda e perturbadora será essa convicção! Se o olhar de Jesus fez com que Pedro passasse uma noite inteira chorando arrependido por tê-lo negado, como se sentirão aqueles que o houverem negado por toda sua vida?

Contudo, devo salientar que não creio que haverá distinção entre cidadãos de primeira classe (que houverem sido salvos durante sua existência terrena) e cidadãos de segunda classe (que se beneficiaram unicamente da reconciliação universal). Todos terão consciência de que foram alvos da mesma misericórdia. A graça que nos salvou em vida, os terá salvado de uma eternidade de tormento. E não será uma salvação meia-boca. Abarcará igualmente seu ser por inteiro, corpo, alma e espírito.

Serão como filhos pródigos, recebidos com festa por um pai amoroso. Duvido que seus irmãos primogênitos se neguem a participar da grandiosa recepção que os aguarda, como fez o irmão mais velho da parábola. 

Primícias. É assim que as Escrituras se referem a nós, os que houvermos sido alcançados pela graça salvadora ainda em vida. De acordo com o testemunho de Tiago, “ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tiago 1:18). Somos os que “foram comprados dentre os homens para serem as primícias para Deus e para o Cordeiro” (Apocalipse 14:4).

Este termo é oriundo da agricultura e refere-se aos primeiros frutos da terra. O termo também era aplicado à primogenitura. Somos os primeiros a gozar das bem-aventuranças da nova criação. Porém, não os únicos.

Formamos o que o escritor sagrado chama de “igreja dos primogênitos inscritos nos céus(Hebreus 12:23). Não somos chamados de unigênitos, e sim de primogênitos, indicando que haja outros depois de nós.

Enquanto nos dedicamos ao nosso pai, temos irmãos que como o pródigo da parábola estão desperdiçando suas vidas nos prazeres terrenos. O mesmo pai que celebra nossa fidelidade e companhia, há de celebrar seu retorno, declarando em alto e bom tom: o que havia se perdido, foi achado e o que estava morto, reviveu.

É importante que se diga que o que tenho proposto aqui está longe de ser comparado à doutrina do purgatório. O inferno serve ao propósito de conscientização, não simplesmente de punição ou retribuição. Quem para lá for enviado terá que reconhecer a gravidade de seu pecado, bem como sua desesperadora necessidade de redenção. Porém, esta redenção é mediante o sacrifício de Jesus somente. Não se trata da pessoa pagar por seu pecado, para então ter direito à vida eterna.

Por quanto tempo viverão no inferno? Esta é uma pergunta que perde o sentido quando nos damos conta de que se trata de uma esfera atemporal. Um milionésimo de segundo no inferno poderia equivaler a uma eternidade em nosso tempo. Neste caso, a intensidade conta mais que a durabilidade. Imagine o estrago feito por uma gota de lava vulcânica? A quantidade não significa tanto quanto a intensidade.

Há razões bíblias para se crer que haverá graduações de castigo. Na parábola contada por Jesus, aquele servo que disser em seu coração: “O meu senhor tarda em vir; e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, virá o senhor desse servo num dia em que não o espera, e numa hora de que não sabe.” Porém, “o servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoitesmas o que não a soube, e fez coisas que mereciam castigo, com poucos açoites será castigado. Daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá” (Lucas 12:45-48). Uma boa hermenêutica não nos permite elaborar uma doutrina a partir de uma parábola. Entretanto, esta parábola, aliada ao bom senso, nos oferece indícios de que a justiça divina requeira penas proporcionais ao delito praticado.

Obviamente que “açoites” deve ser entendido com um eufemismo. O algoz que nos aplica tal açoite é a nossa própria consciência.

Nem sempre estes "açoites" vêm em forma de castigo propriamente. Muitas vezes se manifestam através de gestos de amor que nos constrangem. Trata-se de uma graça que nos deixa absolutamente sem graça. Muito da ética cristã brota daí. Daí a instrução de Cristo para que amemos e tratemos bem a nossos inimigos. "Portanto", conclui Paulo, "se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber, porque, fazendo isto, AMONTOARÁS BRASAS DE FOGO sobre a sua cabeça" (Romanos 12:20). De fato, como disse Paulo, "o amor de Cristo nos constrange" (2 Coríntios 5:14). Juntar brasas sobre a cabeça de alguém é como incendiar sua consciência, deixando profundamente constrangido ante o amor por ele demonstrado. Um exemplo clássico disso é encontrado no livro "Os Miseráveis" de Victor Hugo.  Jean Valijean, um ex-presidiário rejeitado por todos é recebido na casa do benevolente bispo Myriel. Mas em vez de mostrar gratidão, rouba-lhe os talheres de prata durante a noite e foge. Logo é preso e levado pelos policiais à presença do bispo, que em vez de incriminá-lo, prefere inocentá-lo, alegando que a prata flagrada com ele havia sido um presente. Após esta demonstração de bondade, Jean Valijean tem sua vida transformada. Ninguém jamais o havia amado como aquele bispo. Pode-se dizer que aquele gesto de amor foi o açoite mais doloroso que ele recebeu na vida, mas que transformou-o em um novo homem. 

A eternidade é o reino da consciência. O inferno representa uma consciência perturbada e torturada pela culpa. O céu representa uma consciência apaziguada, em plena harmonia com os propósitos do Criador.  


Na medida em que nossa consciência vai se ampliando através do processo chamado de arrependimento (metanoia = expansão de consciência), é-nos concedida entrada cada vez mais ampla no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (Confira 2 Pedro 1:10-11).

Quão gratificante é saber que no universo restaurado por Deus não haverá lugar para uma câmara de tortura e que a misericórdia divina é bem mais ampla do que nos contaram. Como é bom saber que mesmo os que morreram sem o conhecimento desta surpreendente graça há de por ela ser contemplada, pois as misericórdias do Senhor não têm fim, mas se renovam de eternidade em eternidade. 

sexta-feira, março 24, 2017

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O FIM DO INFERNO!



"Se eu te adorar por medo do inferno, queima-me no inferno. 
Se eu te adorar pelo paraíso, exclua-me do paraíso. 
Mas se eu te adorar pelo que Tu és, não escondas de mim a Tua face." 
Rabia, 800 d.C.

 Por Hermes C. Fernandes

Se alguém entendeu através dos posts anteriores que não creio na existência do inferno, sinto informar que se enganou. O inferno existe. Mas não é a câmara de tortura eterna que muitos imaginam que seja. As imagens usadas para descrever o inferno nada mais são do que uma tentativa de conscientizar às pessoas sobre a gravidade de se levar uma vida autocentrada, alienada de Deus e de seus semelhantes. O inferno é uma condição existencial. Ele começa a ser experimentado já nesta vida e se plenifica após a morte. Suas chamas são uma metáfora do juízo divino sobre toda impiedade e injustiça. Isso está claro em passagens como a de Deuteronômio 32:22, onde lemos: “Porque um fogo se acendeu na minha ira, e arderá até ao mais profundo do inferno, e consumirá a terra com a sua colheita, e abrasará os fundamentos dos montes.”

Portanto, pode-se afirmar que o inferno seja a resposta de Deus à injustiça perpetrada pelo homem.

Mesmo o batismo de fogo a que se refere o movimento pentecostal nada mais é do que a manifestação da justa ira de Deus contra a iniquidade. Ao referir-se àquele que o sucederia, João Batista declarou: “Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das sandálias; esse vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele tem a pá na sua mão; e limpará a sua eira, e ajuntará o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga” (Lucas 3:16-17). Repare nisso: são dois tipos de batismo que Jesus traria: o do Espírito que visa a restauração e renovação de tudo e o de fogo que visa a purificação. Para que haja purificação, algo precisa ser consumido. Tudo que é palha deve ser consumido pelo fogo da justiça divina. Tudo o que é fruto da vaidade e presunção humanas. Tudo que tem no ego a sua base de sustentação. É a isso que o escritor sagrado se refere ao falar da “remoção das coisas abaláveis (...) para que as inabaláveis permaneçam” (Hebreus 12:27).

O próprio Jesus dá testemunho de que para tal Ele viera ao mundo: Vim lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está aceso?” (Lucas 12:49). É este fogo que põe à prova nossas obras. Tudo o que é feito para durar, escapa ileso à sua fúria. Mas o que visa tão-somente alimentar nossa arrogância e narcisismo e suprir nossa busca desenfreada por prazer será fadado a ser consumido. Só vale a pena manter o que transcende à nossa própria existência; o que não tem prazo de validade; o que visa não apenas o nosso bem, mas o do nosso próximo. É o que Jesus chama de "ajuntar tesouros no céu." E quando digo “próximo”, não me refiro apenas à proximidade geográfica ou similitude, mas também àquele que vem depois de nós, e que desfrutará do nosso legado. Amar o próximo também é amar que vem após nós; aquele que ocupará o lugar que hoje ocupamos, e que usufruirá do fruto de nosso trabalho. Tudo o que for feito visando apenas nosso aprazimento, não resistirá à prova do fogo, e, portanto, não sobreviverá a nós.

Viver para si é a essência do que as Escrituras chamam de pecado. Se repararmos na natureza, nada vive para si. As árvores não se alimentam dos frutos que produzem. Os rios não bebem de sua própria água. O sol não brilha para si. As flores não sentem a fragrância que exalam. Tudo o que Deus criou, Ele o fez para que existisse para além de si. Isso é transcendência! Somente isso poderia nos garantir a eternidade. De acordo com Paulo, Cristo morreu por todos “para que os que vivem não vivam mais para si” (2 Coríntios 5:15).

Este é um dos assuntos principais abordados por Paulo em suas cartas. Ele mesmo deu testemunho em sua despedida dos efésios: “Em nada, porém, considero minha vida preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24). Por isso, ele não se importava de sofrer qualquer que fosse o prejuízo, até mesmo a morte. Sua obra no Senhor seria a evidência de que sua vida não teria sido em vão.

Só há, por assim dizer, uma maneira de ser poupado das chamas do juízo de Deus: deixar-se consumir em vida por amor. O que não for consumido pelas chamas do amor, será consumido pelas chamas do juízo. Era tal consciência que movia o apóstolo de modo que não se importava em exaurir suas forças e energias pelo bem de todos. “Eu de muito boa vontade gastarei”, testifica, “e me deixarei gastar pela vossa alma, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado” (2 Coríntios 12:15). Tal postura subversiva era alimentada pelas palavras de Cristo: “Quem ama sua vida, a perderá, mas quem odeia a sua vida neste mundo a guardará para a vida eterna” (João 12:25). “Odiar” aqui tem o sentido de desprezar, não atribuir valor, fazer pouco caso, desdenhar. Somos desafiados a abrir mão de nossa própria vida por algo infinitamente maior. “Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá”, diz o Cristo, “mas quem perder a sua vida por minha causa e do evangelho, esse a salvará” (Marcos 8:35). Para nós, seguidores de Cristo, o inferno não é o outro como dizia Sartre, o filósofo existencialista francês. O outro é a possibilidade do céu. Viver para o outro é poupar-se de uma vida desprovida de significado. Viver para o outro é deixar vago seu lugar no inferno. É garantir que suas obras continuarão a repercutir mesmo depois de sua partida, ecoando na eternidade. Eis a promessa: “Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansarão dos seus trabalhos, pois as suas obras os acompanharão” (Apocalipse 14:13).

Tanto Paulo, quanto Moisés, parecem ter captado tal verdade. Somente isso justificaria certas posturas radicais adotadas por eles. Paulo, por exemplo, diz que preferia estar separado de Cristo se isso resultasse na salvação de seus patrícios. “Porque eu mesmo”, afirma o apóstolo, “desejaria ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne; os quais são israelitas...” (Romanos 9:3-4a).  Repare: Ele estava disposto a abrir mão da própria salvação caso isso garantisse que os judeus fossem alcançados. Ele hipotecaria a eternidade pelo bem de quem o perseguia. Moisés adotou postura semelhante ao pedir que Deus riscasse seu nome do livro da vida, mas não desistisse do Seu povo (Êxodo 32:32). Uma espiritualidade egocêntrica como a que tem sido pregada em nossos dias jamais produziria tal disposição. Cada qual está interessado em salvar a sua própria pele.

Para Paulo, Cristo é o fundamento da nova humanidade, assim como Adão foi o fundamento da humanidade original. Cada ser humano é convidado a escolher com que material vai edificar sua vida em cima deste fundamento.  Uns escolhem material de primeira, resistente ao tempo e ao fogo, outros, porém, escolhem material de qualidade duvidosa.

“Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio construtor, o fundamento, e outro edifica sobre ele. Mas veja cada um como edifica sobre ele. Pois ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento levantar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará, porque o dia a demonstrará. Pelo fogo será revelada, e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou sobre ele permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda; o tal será salvo, todavia como pelo fogo.” 1 Coríntios 3:10-15

Repare nisso: o fogo é o instrumento de controle de qualidade usado por Deus. O que sobrevive a ele, está destinado a durar para sempre. O que sucumbe a ele, está destinado a perecer para sempre. Mas há algo que geralmente passa despercebido nesta passagem: “Se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda; O TAL SERÁ SALVO, todavia como pelo fogo.” Leia quantas vezes quiser. O texto seguirá sendo o mesmo. Nenhum tradutor da Bíblia ousou modificá-lo para encaixá-lo em sua doutrina.

É esta mesma esperança que encontramos numa outra passagem igualmente ignorada: “E apiedai-vos de alguns que estão na dúvida, salvai-os, arrebatando-os do fogo (Judas 22-23a). Que bom que as portas do inferno não prevalecem contra nós! Podemos simplesmente invadi-lo e tirar de lá os que estão perecendo ainda em vida. Se é verdade que podemos salvar o que perecem em vida, que dirá Cristo poderá arrebatar os que lá estiverem após a morte (vamos nos aprofundar nisso adiante).

Então, o inferno não teria a última palavra? Não! Ele visa consumir o que não foi “consumido” pelo amor. A palha do egoísmo, o feno da avareza, a madeira da corrupção e da promiscuidade que coisifica o ser serão devorados por suas chamas. Porém, no final, a essência do ser será salva. Embora sua existência terrena não tenha passado no controle de qualidade dos céus, sua essência (espírito) será salva, ainda que pelo fogo.

E como lemos anteriormente, este fogo já está aceso. Suas labaredas podem ser sentidas desde já. O escritor de Hebreus afirma que “se voluntariamente continuarmos no pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas certa expectação horrível de juízo e ardor de fogo que há de devorar os adversários” (Hb.10:26-27). Observe bem: apesar de filhos, não somos poupados deste “ardor de fogo”, porém, não somos devorados por ele. Afinal, o inferno foi “preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41). Por isso, lemos que este fogo “há de devorar os adversários”. Aliás, para quem diz que se trata de “fogo” diferente, como explicar esta passagem? O fogo é exatamente o mesmo! Uma metáfora para o juízo de Deus contra toda a injustiça. Este fogo devora uns, purifica outros. Devora demônios, purifica humanos.

Vasos de honra x vasos de desonra

Estariam todos destinados à salvação? Não! Quer dizer... depende do que chamamos de salvação. A Bíblia é clara ao afirmar que há “vasos de honra” destinados à salvação, e “vasos de desonra” destinados à perdição. Todavia, precisamos entender o sentido disso, e para tal, recorreremos a duas passagens. Em Romanos 9:21-23 lemos que da mesma massa, Deus, o Oleiro, fez um vaso para honra e outro para desonra. Para o autor desta epístola, o objetivo de Deus ao criar vasos para desonra era “mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder”,  e que os mesmos estaria “preparados para a perdição”. Em contraste, o mesmo Oleiro teria criado vasos de honra, através dos quais “desse a conhecer as riquezas da sua glória”. Estes também são chamados de “vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou”.

Geralmente, quando lemos “vasos de misericórdia”, entendemos que se trata de recipientes destinados a serem alvo da misericórdia divina, resultando em sua salvação. Acho que não entendemos direito. Ser vaso não é ser receptáculo, mas ser instrumento através do qual algo será servido. Portanto, ser vaso de misericórdia é ser o canal pelo qual a misericórdia será servida a outros. E como bem disse Jesus, “bem-aventurados os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia” (Mateus 5:7). Contudo, Tiago nos alerta que “o juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia”;  mas apesar disso, mesmo que o juízo divino seja severo, “a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tiago 2:13).

Pena que muitos se atêm à passagem em que Paulo distingue os vasos de misericórdia dos vasos de ira. Bom seria se avançassem um pouco no texto e lessem, dentre muitas coisas, o que ele diz no capítulo 11: “Assim como vós também outrora fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia pela desobediência deles, assim também estes agora foram desobedientes, para igualmente alcançarem misericórdia a vós demonstrada. Pois Deus colocou a todos debaixo da desobediência, a fim de PARA COM TODOS USAR DE MISERICÓRDIA”(vv.30-32).

Portanto, a misericórdia revelada através dos “vasos de honra” é apenas uma amostra grátis da que se revelará indistintamente a todos. Se invariavelmente ela triunfa sobre o juízo, logo, a única conclusão possível é que ela, a misericórdia, terá a última palavra. Quem se sente desconfortável com isso precisa rever sua fé, pois esta não parece estar baseada no amor, a não ser que seja no amor próprio.

A figura do vaso é uma referência à nossa existência terrena. O vaso, portanto, está sujeito às contingências desta vida. Como disse Paulo em outra passagem, “numa grande casa não há somente vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar dessas coisas, será vaso para honra, santificado, idôneo para uso do Senhor e preparado para toda a boa obra” (2 Timóteo 2: 20). Mesmo os vasos de desonra servem a um propósito divino: ser instrumentos através dos quais a justa ira de Deus é demonstrada.

Vasos de ouro e de prata estão destinados a terem suas existências eternizadas. Suas obras os acompanharão, como vimos há pouco. Vasos de pau e de barro são aqueles cujas existências foram desperdiçadas numa vida autocentrada. Em se tratando de "existência", não há segunda chance. Só existimos uma vez. Falo de existência de acordo com a definição existencialista. Vamos levar daqui exatamente o que houvermos vivido. Mas as obras de alguns serão queimadas. Entretanto, seu "eu essencial" será salvo. Como disse o sábio Salomão, o corpo volta para o pó, mas o espírito volta pra Deus que o deu.  O que mais importa não é o recipiente em si, mas seu conteúdo. Por isso Paulo identifica o homem interior, a essência, como um tesouro em vaso de barro (2 Coríntios 4:7), e conclui afirmando que “ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (v.16).

Com isso em mente, fica mais fácil entender o que Paulo intentava ao afirmar haver entregue alguém a Satanás “para a destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus” (1 Coríntios 5:5). Obviamente que foi uma medida disciplinar drástica, usada pelo apóstolo para poupar a igreja de um escândalo sem precedentes. Quem se atrever a acusa-lo de falta de misericórdia, deve repensar sua postura ao defender que alguém padeceria eternamente no inferno sem dó, nem piedade. Apesar de drástica, a disciplina apostólica não excluía a certeza de que aquela vida seria poupada de um sofrimento eterno.  Entregar o corpo ao diabo é um eufemismo, e pode ser considerado o mesmo que colocar a existência sob o escrutínio e juízo divinos.  

Ainda que a existência se perca, que a vida tenha sido um completo desperdício, destino à lixeira do universo, a essência não pode ser perder, haja vista ter sua origem no próprio Deus.

Para fins didáticos, faço uma distinção entre salvação e a reconciliação. Salvação diz respeito à existência, reconciliação diz respeito à essência.  Repare no que diz Paulo aos Romanos:
“Pois se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida (...) Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens, para justificação e vida.” Romanos 5:10,18
Parece-me claro que haja uma distinção entre salvação e reconciliação. Através da cruz, toda a criação foi reconciliada com Deus. Somos reconciliados pela morte de Cristo e salvos pela sua vida em nós. Esta reconciliação, todavia, não se restringe aos que têm sua existência ressignificada, mas a todos os homens indistintamente.  O que não significa que não possam ser condenados, isto é, ter suas existências reprovadas pelo juízo divino e sofrer as devidas sanções. Entretanto, sua essência será plenamente redimida para além do tempo e do espaço.

E como se dará isso? Da mesma maneira como ocorre durante a vida terrena, mediante o reconhecimento e confissão do senhorio de Cristo sobre todas as esferas da existência. “Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor(...) serás salvo”, declara Paulo (Romanos 10:9).

Para muitos, esta confissão só tem validade durante nosso prazo de vida terrena. Após a morte, todas as possibilidades estão esgotadas. Porém, não é isso que encontramos nas Escrituras. O mesmo Paulo diz ao nome de Jesus se dobrará “todo joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra e que toda língua confessará “que Cristo Jesus é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Filipenses 2:10).

João reverbera o mesmo ensino apostólico na descrição de sua visão no Apocalipse:

“Então ouvi a toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e no mar, e a todas as coisas que neles há, dizerem: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o poder para todo o sempre.” Apocalipse 5:13

Ora, a expressão "debaixo da terra" é uma alusão àquela esfera existencial a que chamamos de inferno. Se os que lá estiverem reconhecerem a Jesus como Senhor, serão igualmente salvos, podendo, então, usufruir da reconciliação provida pelo sacrifício de Jesus.  O que João descreve é a cena desta promessa divina concretizada: toda criatura, inclusive as que estiverem no inferno, prestando tributos e louvores ao Cordeiro, reconhecendo-O como Senhor.

Ainda que suas existências tenham sido desperdiçadas, sendo lançadas no lixão da história, sua essência será restaurada.

Então, qual a vantagem de se servir a Cristo se no final das contas todos serão alcançados por esta mesma graça? Caso você tenha feito esta pergunta, sugiro que reveja sua fé. Você está adotando a mesma postura do irmão mais velho da parábola do Filho Pródigo.

O mesmo Cristo que é “a propiciação pelos nossos pecados”, também é “pelos de todo o mundo” (1 João 2:2). Não ouse subestimar o alcance de Sua graça.

E isso também não é justificativa para deixarmos de trabalhar pelo avanço do reino de Deus. Cada vida salva durante sua jornada neste mundo é poupada do ardor do fogo da justa ira divina. "Pois para isto é que trabalhamos e lutamos”, conclui Paulo, “porque esperamos no Deus vivo, que é o salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis”(1 Timóteo 4:10). Ele não é salvador de alguns. Ele é salvador de todos, ainda que, de maneira especial, seja o salvador daqueles que n’Ele depositam sua fé. Portanto, Ele é salvador de crentes e incrédulos! A diferença é que uns são alcançados durante a História, enquanto outros, após ela. Os que são salvos durante sua jornada existencial são os vasos de honra, aqueles através de quem a misericórdia é servida ao mundo. Os que são salvos após a história são os vasos de desonra, cujas vidas servem ao propósito de serem um sinal de advertência da justiça divina.

A parte d’Ele está feita! Resta apenas a nossa parte.

“E tudo isto provém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação, isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens os seus pecados, e nos confiou a palavra da reconciliação.” 2 Coríntios 5:18-19

Deus não está de mal com o mundo! Esta é boa nova do evangelho! Nossa missão é anunciar tal fato a todos para que desfrutem imediatamente o favor divino. Não se trata de garantir passagem de ida para o céu, mas de trabalhar para que a vontade de Deus seja feita aqui na terra como é feita no céu.

Conhecida como “reconciliação universal”, tal perspectiva teológica considera a possibilidade de que todos, eventualmente, desfrutarão da comunhão com Deus, ainda que após o final da história. Se alguém imagina que tal perspectiva seja algo novo, devo salientar que muitos cristãos sinceros a têm esboçado ao longo dos séculos. Entre eles, destacamos C.S. Lewis, anglicano, autor de “As Crônicas de Nárnia”, Philip Yancey, celebrado autor norte-americano, Gerald Mann, pastor batista, Charles Schulz, metodista e criador do Snoopy, Robert Short, pastor presbiterianos, Carl Rahner, teólogo católico, Tony Campolo, pastor batista, Brennan Manning, ex-monge franciscano e autor também muito celebrado entre os evangélicos brasileiros, Karl Barth, teólogo protestante, Hans Küng, teólogo católico, Paul Tournier, psiquiatra protestante, Emil Brunner, teólogo protestante, Rob Bell, considerado o mais influente pastor norte-americano das últimas décadas, e tantos outros. Até o século V era uma das vertentes mais fortes dentro da teologia cristã. Outros como John Stott, pastor e autor episcopal, não acreditavam propriamente numa reconciliação universal, mas se recusam a endossar o ensino de um inferno eterno por considerá-lo incompatível com o amor de Deus. Para estes, só uma chama poderia ser eterna, e não era a do inferno!

Alguns como Jürgen Moltmann, autor de “Teologia da Esperança” não chegam a afirmar categoricamente a reconciliação universal, mas deixam aberta a porta da possibilidade de que esta seja a vontade de Deus. "Não prego a reconciliação total, prego a todos a reconciliação na cruz de Cristo”, declarou o teólogo suíço. “Não anuncio que todos serão remidos, mas confio que a mensagem será anunciada até que todos se salvem. Se o futuro de Deus se chama realmente: eis que faço novas todas as coisas, todos estão convidados e ninguém está excluído. Mesmo para aqueles que rejeitam o convite ele continua de pé, pois vem de Deus. Eu não sou um universalista, mas Deus pode sê-lo. Eu não ensino a reconciliação total, mas também não nego. Deus não sossega até que todas as suas criaturas, como o filho pródigo da parábola, tenham retornado a seu seio.”

Durante muito tempo, estive entre estes. Torcia para que fosse verdade. E acho que este deveria ser o desejo de todo discípulo de Cristo. Até que um dia, deparei-me com um verso que deixa claro que esta não era apenas a minha vontade, mas a vontade do próprio Deus. A partir daí, deixei de torcer para que tal possibilidade se comprovasse verdadeira, e passei a pregá-la em alto e bom tom, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado. Refiro-me à maravilhosa passagem que diz que Deus “quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4). Esta passagem é confirmada pelo testemunho de Pedro de que Deus não quer “que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se” (2 Pedro 3:9).

Uma coisa sou eu querer. Outra coisa é Deus querer.

Quem poderá impedir que Seu desejo se cumpra? “Operando eu, quem impedirá?” (Isaías 43:13).

E se alguém insiste em que as coisas só possam ser resolvidas durante nosso prazo de vida, dou-lhe a resposta dada pelos santos lábios de Jesus: “Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25). Quem diria que alguém já estando morto, ainda assim, poderia crer?


Chegará o momento em que já não haverá razão para que o inferno exista. Seu destino está selado. Ele terá que devolver os que nele estiverem, e por fim, será lançado no lago de fogo (Apocalipse 20:13-14). O inferno deixará de ser.

Sabe quando você decide apagar um arquivo de seu computador? Ele primeiro vai para a lixeira. Mas ainda está ali, na memória da sua máquina. Até que você resolva deletá-lo de uma vez, de modo que jamais possa recuperá-lo. De igual modo, toda existência que houver sido desperdiçada pelo egoísmo, será banida, aniquilada para sempre, juntamente com o inferno no lago de fogo.

Se puder enumerar vantagens (detesto este termo), posso dizer que os que creram durante sua vida terrena serão preservados íntegros, corpo, alma e espírito por toda a eternidade (1 Tessalonicenses 5:23). Os demais estarão como que fragmentados, posto que sua existência terá sido descartada, mas sua essência preservada pelos séculos dos séculos em honra às entranháveis misericórdias de Deus.

Não desperdice sua vida! Não queira fazer escala no inferno. Um milionésimo de segundo lá vale por uma eternidade. Viva para a glória de Deus! E só há uma maneira de fazê-lo: vivendo para o bem de todos, gastando-se e se deixando gastar por amor. 

P.S. - Já que insistem com rótulos: Calvinismo - Deus pode, mas não quer salvar a todos. Arminianismo - Deus quer, mas não pode. Universalismo - Deus tanto pode, quanto quer. Ele é tanto Todo-Poderoso, quanto Todo-Amoroso. Haveria glória maior? Todo joelho se dobrará, toda a língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor para a GLÓRIA de Deus Pai. 

quarta-feira, março 22, 2017

11

DOSSIÊ INFERNO 4 - Quanto durará o castigo eterno?





Por Hermes C. Fernandes

O vocábulo mais usado por Jesus para referir-se ao que comumente chamamos de inferno é geena.  O geena era o aterro sanitário que havia do lado de fora da cidade de Jerusalém. Era considerado um lugar maldito, onde o verme não morria e o fogo nunca apagava.

Para entendermos melhor a natureza do geena, proponho que reflitamos sobre as implicações práticas de algumas das exortações feitas por Jesus. Repare, por exemplo, na advertência abaixo:

“E se a tua mão te fizer tropeçar, corta-a; melhor é entrares na vida aleijado, do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. {onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga.} Ou, se o teu pé te fizer tropeçar, corta-o; melhor é entrares coxo na vida, do que, tendo dois pés, seres lançado no inferno. {onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga.} Ou, se o teu olho te fizer tropeçar, lança-o fora; melhor é entrares no reino de Deus com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no inferno.” Marcos 9:43-47

Ora, sabemos que ao ressuscitarmos no último dia, teremos novos corpos, perfeitos e incorruptíveis. Ninguém vai ressuscitar com ausência de algum membro de seu corpo. Não haverá mutilados na glória eterna! Então, o que Jesus quis dizer com isso? O que significaria “entrar no reino de Deus com um só olho”? Trata-se de uma analogia. Algo só era jogado no lixo, quando não tinha mais utilidade. As figuras dos vermes e do fogo inextinguível foram usadas por Jesus para enfatizar. Enquanto ali se depositassem lixos orgânicos (restos de comida, carcaças de animais e etc.), os vermes jamais morreriam. O cheiro era insuportável. Para diminuir a quantidade dos detritos, ateava-se fogo, que por sua vez, nunca se apagava, porque era constantemente alimentado por lixo novo. Jesus faz uma comparação entre “entrar na vida” e ser lançado na lixeira. Era melhor viver sem os membros, do que ser considerado inútil por Deus, mesmo tendo todos os membros.

O geena é o destino de tudo o que se faz inútil dentro do escopo dos propósitos divinos. Isso nos remete a Romanos 3:10-12a:

“Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis...”

Não fosse a misericórdia de Deus, todos terminaríamos na lixeira do Reino de Deus.

Portanto, podemos afirmar que o geena representa o fim dado a tudo o que não pode ser aproveitado, que teve sua existência como um fim em si mesmo, que se negou a abrir-se para a vida e que, por isso mesmo, será descartado.

Jesus faz referência ao geena em várias passagens: Mateus 5:22,29-30; 10:28; 18:9; 23:15, 33; Marcos 9:43,45,47; Lucas 12:5.

É neste contexto que quem chama seu irmão de “tolo” estará sujeito ao fogo do geena (Mt.5:22). Devemos temer, não os que matam o corpo, e não podem matar a alma, e sim “aquele que pode fazer perecer no geena tanto a alma como o corpo” (Mt.10:28).

Jesus também denuncia os escribas e fariseus hipócritas, que percorriam “o mar e a terra para fazer um prosélito (novo convertido)”, para depois torná-lo filho do inferno duas vezes mais do que eles. Com isso, Ele estava demonstrando a inutilidade de todo o esforço empreendido por eles (Mt.23:15). “Como escapareis da condenação do inferno” (v.33)?

Em Tiago 3:6, lemos: “A língua também é fogo, mundo de iniquidade situada entre os nossos membros. Ela contamina todo o corpo, inflama o curso da natureza, e é por sua vez inflamada pelo inferno (Geena)”. O “inferno” aqui é uma referência clara à lixeira. Tiago está falando da lixeira que há no coração humano, e confirmando o que Jesus disse: “Ainda não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre, e é lançado fora? Mas o que sai da boca, procede do coração, e é isso o que contamina o homem. Pois do coração procedem maus pensamentos, assassínio, adultério, prostituição, furto, falso testemunho, blasfêmia”(Mt.15:17-19). Em outra passagem, Jesus diz: “Pois da abundância do coração fala a boca”(Lc.6:45b). No dizer de Paulo quanto àqueles que se extraviaram e se fizeram inúteis, “a sua garganta é um sepulcro aberto; com as suas línguas tratam enganosamente. Veneno de víbora está debaixo dos seus lábios”(Rm.3:13). Não me admira Jesus ter-lhes chamado de “raça de víboras”!

O quanto durará o inferno?

“Assim será na consumação do século. Virão os anjos e separarão os maus dentre os justos, e os lançarão na fornalha de fogo, onde haverá pranto e ranger de dentes.” Mateus 13:49-50

À luz desta advertência concluímos que ser lançado no geena envolve dor, sofrimento e privação (ranger de dentes é não do que se alimentar). Talvez por isso Jesus fosse tão enfático em Suas admoestações. Ele sabia o que estava em jogo e queria poupar-nos a todos de tal destino.

Surge, então, uma questão inevitável: quanto tempo durará tal sofrimento no inferno? Para a maior parte dos cristãos atuais, a resposta inequívoca, deve ser dada em uníssono: eternamente.

Por mais que se acredite nisso, isso jamais deveria nos deixar confortáveis. Afinal, estamos nos referindo a seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus. Recuso-me a acreditar que alguém tenha prazer nesta “verdade”. Só mesmo um sádico se alegraria no fato de alguém ser condenado a uma pena irrevogável e eterna. Que pecado seria tão grave que deveria valer o sofrimento de alguém por eras intermináveis? Não seria algo desproporcional? Haveria desproporcionalidade na justiça divina? Antes de nos atrevermos a uma resposta, vejamos o que leva muitos a crerem que o inferno será eterno.

Em Mateus 25:41 lemos que o justo Juiz dirá “aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, destinado ao Diabo e seus anjos.”

Ora, se o fogo é eterno, logo, o sofrimento provocado por ele também deverá sê-lo. Esta é a conclusão a quem muitos chegam a partir desta passagem em particular. Porém, precisamos entender o significado da palavra “eterno” neste texto. Quando o adjetivo aionios significando “eterno” é usado no grego juntamente com substantivos de ação, ele se refere ao resultado da ação, não ao processo. Assim a expressão “castigo eterno” é comparável a “redenção eterna” e a “salvação eterna”, sendo todas expressões bíblicas. Os que se perdem não passarão eternamente por um processo de castigo, mas serão punidos uma vez por todas com resultados eternos.

Bem da verdade, os linguistas discutem o sentido das palavras hebraicas e gregas que se traduzem por “eterno” e “eternamente” nas Escrituras (olam, em hebraico; aion, aionios, no grego). Isso pode parecer meio complicado para um leigo, mas uma maneira de entender a questão mais facilmente é comparando várias traduções. Por exemplo, há traduções bíblicas que trazem no Salmo 23:6: “E habitarei na casa do Senhor por longos dias”. Outras dizem, “habitarei na casa do Senhor para sempre”. O texto original é o mesmo, mas um tradutor verteu o termo hebraico olam por “longos dias” e outro por “para sempre”, o que não significa exatamente a mesma coisa, obviamente.

Na lei mosaica havia um arranjo pelo qual um escravo serviria ao seu amo “para sempre” (olam) (Êxodo 21:1-6), mas esse “para sempre” é relativo ao tempo de vida do indivíduo, o que poderia significar “por breve período” ou “por longos dias”, dependendo da longevidade do mesmo.

Vejamos, por exemplo, o caso da guarda do sábado: o concerto divino com Israel foi “perpétuo”, no entanto findou na cruz! Então, como uma coisa perpétua pode ter um fim? Pela linguagem hebraica, assim é. O termo olam tem um caráter relativo ao tempo de duração daquilo a que se refere.

No Novo Testamento não é diferente. Paulo se refere a Onésimo, o escravo convertido, que devia voltar a servir “a fim de que o possuísseis para sempre (aionios)” (Filemon 15 e 16). Mas esse “para sempre” significava até o fim da vida do escravo!

E o que dizer do “fogo eterno” que queimou Sodoma e Gomorra, mas não está queimando até hoje? Comparando-se diferentes traduções bíblicas percebe-se que o texto de Judas 7 foi alterado ilegitimamente por tradutores na Versão Almeida Revista e Atualizada em português. No original grego consta pyròs aioniou (fogo eterno), caso genitivo, que qualifica o termo “punição”. Então, não resta dúvida que a melhor tradução é “sofrendo a punição do fogo eterno”.

Se nos atentarmos nos versos abaixo percebe-se algo que talvez nunca haja chamado a atenção de muitos leitores da Bíblia e que ilustra bem a relatividade de sentidos das palavras hebraicas traduzidas por “eternamente”, “para sempre”. Profetizando acerca de Jerusalém,  o profeta Isaías declara:

“O palácio será abandonado; a cidade populosa ficará deserta;  Ofel e a torre da guarda servirão de cavernas para sempre (...) até que se derrame sobre nós o Espírito lá do alto: então o deserto se tornará em pomar e o pomar será tido por bosque.” Isaías  32: 14 e 15.

Repare que as expressões “para sempre” e “até que” aparecem num contexto imediato. Como algo pode ser estipulado para sempre e ao mesmo tempo até que aconteça certo fato? Isso no português não faria sentido, mas no hebraico sim.

Outra passagem muito significativa encontra-se pouco adiante. Ao falar dos edomitas que Deus havia destinado “para a destruição”, o profeta Isaías se vale da mesma figura de linguagem:

“Os ribeiros de Edom se transformarão em piche, e o seu pó em enxofre; a sua terra se tornará em piche ardente. Nem de noite nem de dia se apagará; subirá para sempre a sua fumaça; de geração em geração será assolada, e para todo o sempre ninguém passará por ela.” Isaías  34: 9 e 10.

Ora, os edomitas desapareceram há muitos séculos. Será que poderíamos afirmar que ainda existem piche ardente e fumaça subindo na terra de Edom? É óbvio que não! Trata-se, portanto, de uma hipérbole com o objetivo de enfatizar algo.

Tanto Jesus , quanto João no livro de Apocalipse, lançaram mão dessa mesma linguagem para descrever a sorte final dos ímpios. O fogo é eterno (como o que destruiu Sodoma e Gomorra), e queimará de dia e de noite com sua fumaça subindo “para sempre”, como também se deu na terra de Edom séculos atrás!

Um castigo com duração eterna não parece fazer jus à imagem de Deus que emerge das Escrituras como um todo. Lemos, por exemplo, no verso 5 do Salmo 30 que “a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.”  Leia novamente para não ter dúvida: Sua ira dura só um momento. Enquanto “sua misericórdia dura para sempre”(Sl.106:1). Tenho a impressão que temos apresentado ao mundo um deus que é o inverso deste, cuja misericórdia dura só um momento, mas sua ira dura para sempre.

O Salmo 103, versos 8 e 9 nos oferece um quadro ainda mais nítido: “Compassivo e misericordioso é o Senhor; tardio em irar-se e grande em benignidade. Não repreenderá perpetuamente, nem para sempre conservará a sua ira.”

Estou certo de que não estamos tratando com uma divindade bipolar! Se Ele diz que não repreende perpetuamente, quem somos nós para discordar? E há uma razão lógica para isso. O profeta Miquéias diz que “Ele não retêm a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia” (Miquéias 7:18). Somente uma divindade sádica teria prazer no sofrimento de suas criaturas. Mas pelo jeito, tem quem tenha mais prazer em saber que enquanto uma pequena minoria estará gozando das beatitudes eternas, a grande maioria estará ardendo num inferno eterno.

Além de não ter prazer no sofrimento de ninguém, o Deus revelado nas Escrituras não sofre de amnésia: Mesmo na Sua ira, Ele se lembra da misericórdia (Habacuque 3:2).

E para reforçar ainda mais a imagem de um Deus absolutamente clemente e misericordioso, convém salientar que “a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tiago 2:13). Logo, ela sempre tem a última palavra. Não há sentença que ela não possa revogar.

As únicas chamas verdadeiramente eternas são as do amor. “Suas brasas são fogo ardente, são labaredas do Senhor” (Cantares 8:6).

Se é verdade que o amor jamais se acaba, logo, estamos “condenados” a amar para sempre os que nos acompanham na estrada da existência. Mesmo depois que adentrarmos os portais celestiais, nosso amor por cada um deles permanecerá e, talvez, até aumente, uma vez que estaremos livres dos ruídos de nossa natureza pecaminosa.

Quem ama, certamente se importa com o bem do ente amado. Como, então, poderíamos nos sentir plenamente felizes desfrutando da glória destinada aos filhos de Deus, sabendo que em algum lugar do universo, as pessoas a quem tanto amamos estarão sendo torturadas, e que seu sofrimento não duraria um dia, nem um ano, ou mesmo um século, mas por toda a eternidade?

Será que teremos que desistir de amá-las? Será que Deus nos submeterá a uma amnésia? Será que pais que foram salvos terão que se esquecer da existência dos filhos condenados à perdição? Por duas vezes lemos no livro de Apocalipse que Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima (7:17; 21:4). As razões pelas quais não haverá mais choro é que também “não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor.” Se ainda houver dor em algum lugar do cosmos, então, haverá motivo para lágrimas. Não apenas por parte dos que forem condenados, mas também dos que com os tais se importarem.


No próximo post, estaremos respondendo a questões levantadas a partir do posicionamento que assumimos quanto à duração do inferno.  Questões do tipo “então, todos serão salvos?” serão respondidas à luz de passagens bíblicas geralmente relegadas e outras que julgamos mal compreendidas. 

5

DOSSIÊ INFERNO 3 - O Império da Morte



Por Hermes C. Fernandes

“Quem dizem os homens que eu sou?”, foi a pergunta dirigida por Jesus aos Seus discípulos. Pedro foi o único a oferecer uma resposta satisfatória: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Segundo Jesus, tal declaração não era uma conclusão proveniente da mente humana, mas uma revelação vinda diretamente de Deus, sobre a qual a igreja seria edificada, “e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt.16:18).

O que seriam as portas do inferno?

Possuir as portas significa possuir limites, fronteiras, domínio. Era como se Jesus atribuísse ao Hades o status de cidade ou reino. Quando um exército marchava contra uma cidade para tomá-la, seus moradores reforçavam seus portões para impedir que a conquistassem. A igreja, representante do reino de Deus, seria o exército invasor que marcharia contra o império da morte para conquistá-lo.

Paulo captou este conceito e o expressou como ninguém ao afirmar que “pela ofensa de um só, a morte reinou por esse”, mas que agora, “os que recebem a abundância da graça, e o dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo” (Rm.5:17).

O pecado foi a pedra fundamental na construção do império da morte. Toda a humanidade estava refém daquele que o detinha, a saber, o diabo.

Como para os gregos, o Hades era o território sobre o qual a morte exercia seu domínio, tanto Jesus quanto Paulo se apropriam deste conceito para designar o domínio exercido pela morte desde a queda do primeiro homem, Adão.

A igreja fundada sobre a revelação da identidade de Cristo seria uma espécie de célula rebelde cuja missão é provocar uma insurreição contra o império da morte.  Não há no mundo uma comunidade de caráter mais subversivo que a igreja. Na medida em que ela marcha, o império da morte retrocede. Igualmente, se ela retrocede, o mal avança. Cada passo que a igreja dá para trás é espaço que ela cede a Satanás. Todavia, não é a igreja que deve estar numa posição defensiva contra os ataques do Hades. São as portas do Hades que enfrentam o assédio da igreja. O império da morte sofreu a invasão da igreja e não foi sequer necessário que se arrombasse a porta, pois nosso general, Cristo Jesus, tem as chaves do inferno e da morte (Ap.1:18). E é bom que se diga que Ele não a tomou do diabo, como geralmente se crê. Ele as tem porque é soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores. Ele é Senhor da vida e da morte, do céu, da terra e de todos os infernos.

Apesar de sua rebelião, o Diabo jamais se constituiu numa ameaça à soberania divina. Poderíamos dizer que ele era um problema para o homem, mas não para Deus. Seu império jamais teve sua legitimidade reconhecida, funcionando sempre na clandestinidade. Todavia, teve no homem seu aliado, cúmplice e, ao mesmo tempo, refém e escravo.

Ao rebelar-se contra o Criador, o homem sujeitou-se ao Diabo e entregou-lhe de mão-beijada sua posição de domínio neste mundo que lhe havia sido outorgada. Por isso, o Diabo se tornou o príncipe deste mundo. Em vez de interferir como Deus, passando por cima da autoridade que Ele mesmo constituiu, e recobrando a posição usurpada por Satanás, Deus preferiu fazer-Se um de nós, para que, como homem, reaver seu domínio.

O Diabo jogou sujo desde o início, mas Deus não Se rebaixou a jogar em seus próprios termos. Ele preferiu agir dentro das regras que Ele mesmo instituiu. O escritor sagrado diz que devido ao fato de sermos participantes comuns de carne e sangue, “também ele semelhantemente participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o Diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à escravidão” (Hb.2:14-15).

Repare que o texto é claro ao afirmar que o Diabo “tinha” o império das trevas. Tinha, não tem mais. Ele nem mesmo continua sendo o príncipe deste mundo. Quando Jesus o chamou deste modo, ainda não o havia aniquilado pela morte. No entanto, estava prestes a fazê-lo. Confira o que Ele diz:
“Agora é o juízo deste mundo; AGORA será expulso o príncipe deste mundo.” João 12:31
Pouco depois, Ele disse: “O príncipe deste mundo já está julgado”(Jo.16:11).

Foi à luz desta verdade que Paulo pôde declarar veementemente que Jesus “tendo despojado os principados e potestades, os expôs publicamente ao desprezo e deles triunfou na cruz” (Cl.2:15).

A cruz de Cristo desbaratou completamente o império do Diabo. Numa só tacada, ele perdeu sua posição de príncipe deste mundo, o império da morte e, de quebra, seu emprego de promotor de acusação na corte celestial (Ap.12:10). Sabe o que lhe restou? O cartaz que muitos ainda dão a ele. E isso, devido à sua ignorância.

Quem antes era chamado “príncipe deste mundo”, agora é chamado “príncipe das potestades do ar” (Ef.2:2), indicando que ele perdeu o chão, o seu quinhão, o seu domínio. O Diabo foi desterrado. Expulso tanto do céu, quanto da terra. Seu castelo de areia ruiu. Com os escombros do império da morte, ele construiu o império das trevas (At.26:18, Cl.1:13).

Quando as Escrituras falam de trevas, referem-se à ignorância. Apesar de ter sido destituído, o Diabo se aproveita da ignorância que ainda predomina entre os homens, mas mantê-los cativos (Ef.4:18). Por isso, somente o conhecimento da verdade pode libertá-los (Jo.8:32). Os homens precisam ouvir as boas novas do reino para que se libertem das amarras de Satanás. E as boas novas do reino constituem-se no fato de que “os reinos deste mundo passaram a ser do Senhor e do seu Cristo, e Ele reinará para todo o sempre” (Ap.11:15). Não há, portanto, um único centímetro quadrado desde mundo sobre o qual o Diabo tenha direito de exercer domínio.

As portas do Hades foram escancaradas e compete à igreja tomar de assalto o que por muitas eras tem sido mantido em cativeiro.

* Para uma compreensão mais abrangente, leia os artigos anteriores e os que serão publicados na próxima semana. 

segunda-feira, março 20, 2017

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DOSSIÊ INFERNO - Parte 2



Por Hermes C. Fernandes

O Inferno como recurso retórico

O termo Hades foi usado por Jesus em outros contextos que fugiam ao conceito original. Por exemplo, quando quis chamar a atenção dos moradores de Cafarnaum, cidade que foi cenário do maior número de milagres que realizou em Seu ministério terreno:

“E tu, Cafarnaum, que te ergues até ao céu, serás abatida até ao inferno; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje.” Mateus 11:23

Estaria Jesus ameaçando os habitantes daquela cidade a uma eternidade de horrores no inferno? Estou certo que não. Mesmo porque, Jesus tinha um número crescente de discípulos ali. Os termos “céu” e “inferno” nesta advertência significam “exaltação” e “humilhação”, respectivamente. Quando foi que aquela cidade foi elevada até o céu? Quando Deus a escolheu como cenário para alguns dos mais notáveis milagres de Jesus. Todavia, isso não foi suficiente para que ela se arrependesse e se convertesse a Deus, por isso, estava destinada a se deteriorar até sucumbir. Sua incredulidade e indiferença a tornavam tão pecadora quanto Sodoma, que, por sua vez, se ao menos houvesse presenciado tão grandes manifestações da graça de Deus, teria se arrependido e sido poupada do fatídico fim que teve. 

Paulo faz usou da mesma analogia em Efésios 4:9-10, onde diz que o mesmo Cristo que desceu às partes mais baixas da terra, também subiu acima de todos os céus para encher todas as coisas. A expressão “partes mais baixas da terra” é uma referência clara ao submundo, ao Hades. Algo similar pode ser encontrado em Filipenses 2:6-11, onde lemos que Jesus, “sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.” Repare que neste texto, temos a nítida impressão de que a chamada kenósis (esvaziamento) experimentada por Cristo foi como o descer uma escada, degrau por degrau, humilhando-se até chegar ao fundo. De fato, como diz o Credo Apostólico, Cristo desceu ao inferno, quer tenha sido literalmente ou figuradamente, ao descer o mais baixo degrau experimentado pelo ser humano destituído da glória original. Ele não morreu a morte dos mártires, dos heróis, mas a morte dos proscritos e marginais. Foi no mais profundo inferno existencial que Ele, sentindo-se abandonado e entregue à própria sorte, indagou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc. 15:34). Não creio que houvesse um degrau a mais para que Ele descesse além deste. O sepulcro seria apenas o lugar onde Seu corpo seria depositado. Mas sua alma experimentou a fúria do inferno no momento que antecedeu a rendição do Seu espírito ao Pai.

Num certo sentido, Vitor Hugo tinha razão ao afirmar que “todo o inferno está contido nesta única palavra: solidão”. Durante toda a Sua peregrinação terrena, o Pai estava com Ele. Porém, naquele instante em que todos os pecados da humanidade lhe foram imputados, abriu-se um abismo entre Ele e Seu Pai (Jo.16:32). O Pai estava com Ele no Getsêmane, durante os flagelos perpetrados pelos romanos, e durante as seis horas em que esteve pendurado no madeiro. Mas nos instantes finais, pela primeira vez, Jesus Se viu inteiramente só. Este era o preço que teria que ser pago para que, ao ser exaltado, recebendo um nome sobre todos os nomes, então, todos os joelhos se dobrassem, tanto no céu, quanto na terra e... debaixo da terra. Cristo é o Senhor de todos os céus. Ele é o Senhor de toda a terra. Ele é o Senhor até do inferno. Não há esfera existencial da qual Ele não seja soberano. Portanto, Dante, Milton, Mary Dexter e outros estão redondamente equivocados ao atribuir a Satanás o senhorio do inferno, seja de que natureza for.

Receber um nome que é sobre todos os nomes é o mesmo que “subir acima de todos os céus”, assim como humilhar-se tomando a forma de homem, se fazendo servo e sendo obediente até a morte é o mesmo que “descer às partes mais baixas da terra”.

O inferno não é um lugar geograficamente localizável. Lendas urbanas se propagam afirmando que cientistas teriam ouvido os gemidos de almas presas no centro da terra, onde estaria o destino final dos ímpios. Mesmo que Cristo e os apóstolos tenham se utilizado de categorias que pareçam afirmar isso, seu objetivo era tão-somente facilitar a compreensão dos seus interlocutores.

Há uma corrente ligada à teologia da prosperidade que defende que Cristo teria descido ao inferno para ser torturado por Satanás, e, assim, pagar por completo o preço de nossa redenção. Se isso fosse verdade, Ele não teria dito antes de Seu último suspiro: “Está consumado” (Jo.19:30). A obra da redenção foi finalizada na cruz. Ainda que tenha descido a um inferno literal, não foi para completar nada, mas tão somente para anunciar o que já havia feito (1 Pe.3:18-19).


Outra lenda que se tem disseminado entre muitas igrejas é a de que o Diabo promovia um verdadeiro carnaval no inferno enquanto Jesus era crucificado. Porém, Jesus teria interrompido a celebração e tomado das mãos do Diabo as chaves do inferno. Nada mais distante da verdade que isso. Jamais foi intenção do Diabo que Jesus morresse na cruz. Pelo contrário. Ele fez de tudo para impedir que isso acontecesse, pois sabia que através de Sua morte, seu império seria desbaratado. Por isso, foi capaz de usar até os lábios de Pedro para tentar dissuadir Jesus (Mt.16:22-23). Já no início do ministério de Jesus, o Diabo lhe ofereceu um atalho para reaver os reinos deste mundo, e assim, não precisasse passar pela cruz (Mt. 4:8-9). Mesmo durante Seu suplício no calvário, o Diabo insistia em que Ele descesse da cruz, valendo-se dos lábios de várias pessoas, incluindo um dos ladrões que morriam ao Seu lado (Lc.23:39; Mc.15:30). A cruz sempre foi o centro do plano divino para a redenção de toda a criação (At.2:23). Ela foi a porta pela qual Jesus passou para adentrar o território da morte e libertar os que ali estavam cativos. 

Acompanhe esta série até o fim. Leia o artigo anterior e os que sucederão a este.