quinta-feira, setembro 13, 2018

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O CÉU DOS BURROS - Parte 2



Por Hermes C. Fernandes


O jumentinho que carregara Jesus mal havia chegado ao céu dos burros e já estava se ambientando. Seu novo amigo, a mula de Balaão, fez questão de introduzi-lo a outros jumentos.

Havia, porém, um que chamara sua atenção por estar tão quieto em seu canto.

- Quem seria aquele que parece tão tímido? – perguntou à mula.

- Você certamente deve ter ouvido falar dele também – respondeu.

- Se é tão conhecido, acho que deveria ser um pouco mais sociável, não?

- Ele tem suas razões. Gostaria de conhece-lo?

- Não sem antes saber de sua história. Se não se importar de me contar...

- Não me custa nada, meu rapaz. Ele é o jumento sobre o qual Absalão pretendia entrar em Jerusalém para tomar o trono de seu próprio pai.

- Você se refere a Davi, aquele de cuja linhagem viria o Messias?

- Exatamente.

- E o que levou Absalão a conspirar contra seu pai? Não me parece razoável, já que ele seria seu sucessor natural.

- Sim, mas ele umas ideias malucas e muita pressa. Sua cabeça estava a mil. Não soube esperar o tempo certo e acabou metendo os pés pelas mãos.

- Ora, se tinha tanta pressa, deveria ter encontrado outro animal para montar, não um jumento como nós – disse em tom jocoso.

- Verdade. Mas não foi só isso. Desde que seu pai o expulsou do palácio e o proibiu de voltar à cidade, ele deixou que seu coração fosse tomado de mágoa e de um forte desejo de vingança.

- Ele provavelmente deve ter aprontado alguma coisa muito séria para que seu pai agisse assim, não é verdade?

- Com certeza. Ele armou uma cilada para matar seu meio irmão que havia estuprado sua irmã. Por isso, seu pai entendeu que sua presença ali era uma ameaça aos demais. Mas depois de algum tempo, seu pai abriu o coração e o recebeu de volta.

- Ele deveria ser grato por isso em vez de planejar um golpe para derrubar o pai.

- Em vez disso, ele começou a impedir que as pessoas tivessem acesso ao pai, alegando que ele era um homem ocupado demais e se oferecendo para resolver seus problemas.  Aos poucos, ele foi ganhando o coração de todos, e de maneira sutil, os jogava contra o rei. Até que chegou o dia em que reuniu tanta gente que formou um exército e marchou em direção a cidade para tomar o trono.

- E onde entra o nosso colega na história?

- Você sabe... desde Davi, era esperado que os reis de Israel montassem jumentos em vez de cavalos como faziam os reis de outras nações. Isso representava humildade, despojamento. Deus queria que o povo os visse como um deles, e não como membros de uma classe superior.

- Sem querer você acaba de responder uma pergunta que sempre me fiz: Por que Jesus teria escolhido a mim, um animal de carga, para entrar em Jerusalém? Finalmente, agora entendo de maneira clara. E o que houve com Absalão e o nosso amigo burro?

- A rebelião teria que ser contida. Davi enviou seus homens mais leais para desbaratá-la, porém, pediu que se encontrassem a seu filho Absalão, tratassem-no com humanidade, poupando sua vida.

- E eles obedeceram?

- Sinto lhe informar que não. Durante a batalha, Absalão montou seu jumento e tentou fugir. Os homens de Davi o flagraram numa situação inusitada. Ao passar debaixo de um carvalho, as tranças de seus cabelos ficaram presas num dos ramos, enquanto seu jumento prosseguiu. Vendo-o preso, suspenso no ar, Joabe, o general do exército, o matou.

- Você não acha que nosso amigo deveria ter parado e esperado que Absalão se desvencilhasse, em vez de continuar a sua marcha sem ele?

- É justamente disso que muitos aqui o acusam. Por isso, ele prefere ficar isolado em seu canto. E para ser sincero, até hoje, eu pensava exatamente assim. Mas nosso papo anterior me fez mudar de ideia. Você me fez ver que cada um cumpre sua parte dentro do propósito divino. Você, por exemplo, prosseguiu carregando Jesus até a cidade onde seria crucificado. Eu, entretanto, empaquei ao ver o anjo do Senhor e assim, impedi que Balaão fosse  morto por sua espada. Acho que nosso amigo apenas cumpriu seu papel ao prosseguir, enquanto seu amo ficou dependurado, preso pelos cabelos entre os ramos da árvore.

- Interessante ver desta maneira. No seu caso, você parou juntamente com seu amo. No meu caso, eu prossegui juntamente com Jesus. Mas no caso dele, foi seu amo que parou enquanto ele prosseguiu.

- Acho até que ficar preso pelas tranças de seus cabelos pode representar tornar-se refém de seus próprios devaneios. Na sua cabecinha, tudo estava esquematizado. Seu plano parecia perfeito como suas tranças. Mas foi justamente isso que o paralisou. Ele tinha tanta pressa de chegar ao trono, que acabou paralisado.

- Mas o jumento seguiu seu caminho!

- Sim!  O que pode significar que os planos de Deus não dependem de nós. Se pararmos, ele prosseguirá. Nada coloca em risco a sua execução. Além do mais, não era Absalão que deveria ascender ao trono, mas aquele de quem viria o Messias.

- A quem você está se referindo agora?


- Ah, esta já é outra história... E envolve outro jumento que também pretendo lhe apresentar.

* Continua. 


terça-feira, setembro 11, 2018

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O CÉU DOS BURROS - Parte 1



Por Hermes C. Fernandes

O céu dos burros estava agitadíssimo, pois acabara de chegar uma figura ilustre. Todos abriam alas para que ele passasse. Um dos jumentos mais antigos ali parecia alheio à sua chegada. Curioso, perguntou a um colega:

- Quem é a figura? Por que todos o estão bajulando assim?

Pelo que respondeu seu colega:

- Você não sabe? É o jumentinho usado por Jesus para entrar em Jerusalém.

O burro velho, sentindo-se enciumado, ficou à espreita, esperando a oportunidade para abordar o recém-chegado jumentinho.

Na primeira chance, aproximou-se e se apresentou:

- Olá, amigão. Então você é o famoso jumentinho que carregou o Filho de Deus pelas ruas da Cidade Santa?

- Sim, sou eu. E o senhor, quem é?

- Nunca ouviu falar de mim? - indagou indignado.

- Desculpe-me, senhor. Mas sou novo por aqui. Acabei de chegar. Mas ficaria muito contente se o senhor pudesse se apresentar.

- Eu sou a mula que carregou o profeta Balaão.

- Ah sim, já ouvi falar a seu respeito lá embaixo. O senhor é muito famoso entre os burros. Todos o consideram uma lenda.

- Eu, uma lenda? Assim você me deixa constrangido. Sou apenas uma mula que serviu por anos a um profeta.

- Mas todos dizem que graças ao senhor, a vida de Balaão foi poupada.

- Ora, apenas cumpri o meu dever. Ele insistia num caminho que desagradava a Deus. Por isso, tive que tomar providências. Se ele prosseguisse em sua rebeldia, o anjo que apareceu à nossa frente com uma espada desembainhada o mataria.

- Ele deve ter sido muito grato ao senhor por sua lealdade, não é mesmo?

- Quem dera... Ele nem sequer percebeu que eu o estava salvando. Em vez disso, quando me desviei daquela rota, ele me bateu. Quando espremi seu pé contra o muro sem querer, ele me espancou. E quando empaquei de vez, ele me deu a maior surra que recebi em minha vida.

- E o senhor não fez nada? Deixou por isso mesmo?

- Você não ficou sabendo o que me ocorreu naquele dia? Deus abriu minha boca para que eu falasse diretamente com ele.

- Sério? Um burro falante? E o que o senhor lhe disse?

- Disse-lhe que não era justo que ele me espancasse daquela maneira, pois, afinal, até aquele dia eu o havia servido lealmente, sem jamais ter empacado. Deus abriu minha boca, porque seus olhos permaneciam fechados. Ele não conseguia enxergar o anjo à nossa frente pronto para decepá-lo.

- E o que o anjo fez, afinal?

- Você não vai acreditar se lhe contar. O anjo saiu em minha defesa. Disse-lhe que graças a mim, sua vida foi poupada.

- Uau! Que honra! Um anjo saindo em defesa de um animal de carga como o nós.

- E quanto a você? O que fez para que todos lhe dessem tanta importância?

- Eu? Fiz nada não. Apenas transportei o Filho de Deus, enquanto a multidão o aclamava como o tão esperado Rei dos Judeus. 

- Espera aí... Você não sabia o que o esperava no dia seguinte?

- Nem desconfiava. O povo parecia tão alegre de recebe-lo.

- Caso não saiba, aquele mesmo povo que gritava “Hosanas!”, um dia depois estaria gritando no pátio do palácio de Pôncio Pilatos: “Crucifica-o!” No mínimo, você deveria ter feito o mesmo que eu fiz. Se houvesse empacado, você teria salvado a vida do Filho de Deus. Sinceramente, não entendo a razão de lhe darem tanto valor aqui. Você falhou! Você foi negligente. Mesmo apanhando injustamente, eu fiz a minha parte.

- Mas você viu o anjo com a espada na mão. Você sabia o que o esperava. Eu não. Nenhum anjo apareceu para mim. Eu só ouvia os gritos, os louvores, e via o tapete improvisado que se estendida diante de mim. Como eu poderia supor o que aconteceria depois?

- Por um acaso, Jesus não trazia um chicote nas mãos?

- Sim, ele tinha um chicote. Mas não o usou em mim. Em vez disso, usou-o para expulsar os cambistas que negociavam no templo.

- O que vocês foram fazer no templo? Ele não deveria ter se dirigido ao palácio para depor Pilatos e Herodes e assumir o trono deixado vago por Davi? Não era este o plano?

- Acho que o senhor está muito mal informado. Quando atravessamos os portões da cidade, havia uma bifurcação. Eu até imaginei que iríamos para o palácio. Mas Ele preferiu ir para o templo.

- Então está explicado! Foi por isso que as mesmas pessoas que o recepcionaram na porta da cidade, pediram que as autoridades o crucificassem no dia seguinte. Ele traiu suas expectativas.

- Não posso discordar do senhor. Mas acho que tanto eu quanto o senhor trabalhamos por um mesmo propósito.

- Que propósito seria esse, afinal? Eu fiz a minha parte. Impedir que o pior acontecesse ao profeta. Você, não. Simples assim. Mesmo que não empacasse como eu, você bem que poderia ter se rebelado como geralmente os jumentos fazem, e em vez de marchar para o templo, marchar para o palácio.
- Mas se eu fizesse assim, Ele não teria morrido na cruz.

- Exatamente. E você teria sido um verdadeiro herói.

- Perdoe-me, mas o senhor está equivocado. Ele tinha que morrer na cruz para salvar a humanidade e redimir toda a criação. Era este o propósito. E o senhor contribuiu com ele ao impedir que o profeta Balaão prosseguisse em seu caminho.

- Como assim?

- Para onde Balaão estava indo? O que ele iria fazer naquele dia?

- Ouvi quando o anjo disse para que ele não amaldiçoasse o povo de Israel como lhe havia sido pedido por um rei chamado Balaque.

- Percebeu a conexão? Imagine se o anjo não se opusesse a ele, e se o senhor não empacasse, ele lançaria uma maldição sobre o povo de onde viria o Messias, o Salvador do Mundo, que deveria morrer na cruz pela restauração de todas as coisas.

- Agora as coisas começam a fazer sentido. Quer dizer então que eu tive que empacar para que lá na frente você tivesse que prosseguir. Eu empaquei para salvar a vida do profeta. Você prosseguiu para salvar a humanidade. Um foi poupado para que o outro tivesse que morrer e assim, todos fossem poupados da destruição eterna. Quer saber de uma coisa? Que bom que você não sabia o que o esperava no dia seguinte. Porque, se soubesse, talvez fizesse o que eu fiz, e assim, pusesse tudo a perder.

- Sim. O senhor está coberto de razão. Deus me abençoou com a bênção da ignorância. E graças a esta ignorância, prossegui em minha marcha para que o propósito de Deus se cumprisse.


* Moral da estória: Não meça a lealdade de ninguém pela sua própria lealdade. Cada qual contribui à sua maneira na execução dos propósitos divinos. 


* Esta estória continua em breve. Aguarde. 

domingo, setembro 02, 2018

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A dimensão política do amor



“Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor.”
Desmond Tutu


C
omo poderíamos dizer que amamos a alguém sendo condescendentes com as estruturas que o oprimem? O amor nos impele a lutar por justiça. Este é o imperativo do amor.  Não se pode dizer “eu te amo” enquanto se faz vista grossa à todo tipo de opressão, exploração e descalabro de que o ser amado é vítima. E para tal, há que se mobilizar, lançando mão de todos os recursos disponíveis para viabilizar a existência do outro com dignidade. Ao menor sinal de que seus direitos estão sendo violados, nosso amor nos fará abrir a boca em seu favor, ainda que ao custo da própria vida. Pelo menos, é o que aprendemos com Jesus.

Lamentavelmente constatamos que muitos dos que se dizem seguidores de Cristo preferem cerrar fileiras com o que há de mais retrógrado, sujeitando-se,  assim, à agenda dos poderosos. Como discípulos de um preso político, torturado e morto por um Estado opressor, devemos nos posicionar invariavelmente ao lado dos desvalidos, dos que foram vítimas deste sistema cruel de que os poderosos se valem. “Até quando defendereis os injustos, e tomareis partido ao lado dos ímpios?”, questiona o salmista, para então arrematar: “Defendei a causa do fraco e do órfão; protegei os direitos do pobre e do oprimido. Livrai o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, e nada entendem. Andam em trevas.”[1]

Foi com vista a isso, que Paulo engrossou o coro ao declarar que “os poderosos deste mundo” estão destinados a serem aniquilados, pois nenhum deles conheceu a verdadeira sabedoria, “pois se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória.”[2] Por isso, o salmista diz que “eles nada sabem, e nada entendem”. Aliar-se a tais poderes, é o mesmo que aliar-se a algo destinado a ser completamente aniquilado, ou ainda, é como embarcar num navio em pleno naufrágio. Devemos, antes, como povo de Deus, optar pelos oprimidos, pelos fracos, pelos explorados, pelos excluídos, pelos pobres, pelas minorias.

Até quando os que alegam representar a Cristo na Terra continuarão se promiscuindo com os opressores? Não há meio termo. Quem deseja viver e propagar a justiça do reino tem que fazer opção pelos oprimidos, e não pelos opressores, trabalhando para tirá-los das mãos dos seus algozes. Isso é amor. Esta é, por assim dizer, a dimensão política do amor que o evangelho nos requer.

O sábio rei Salomão declarou: “Informa-se o justo da causa dos pobres; mas o ímpio não quer saber disso.”[3] O ímpio está sempre “lavando as mãos”, como fez Pilatos. Ele prefere omitir-se, em vez de tomar posição em favor dos menos favorecidos.

Tanto os profetas, quanto os apóstolos, aliaram-se às camadas mais necessitadas, e não aos poderosos. Por serem considerados subversivos, foram duramente perseguidos e mortos.

Entenda: não se trata de predileção, mas de prioridade. Deus não tem filhos prediletos. Porém, o pobre ocupa lugar de proeminência na agenda divina.

Contrário a qualquer tipo de discriminação social, Tiago escreve:

“Se na vossa reunião entrar algum homem com anel de ouro no dedo, e com trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e atentardes para o que tem os trajes de luxo, e lhe disserdes: Assenta-te aqui em lugar de honra, e disserdes ao pobre: Fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do estrado dos meus pés, não fazeis distinção entre vós mesmos, e não vos tornais juízes movidos de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos: Não escolheu Deus aos que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Não são os ricos os que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais?”[4]

Fica claro nessa passagem que o próprio Deus é que prioriza o pobre, o oprimido, o necessitado. Portanto, se pretendemos imitá-lo como filhos amados, não nos resta alternativa.

Como discípulos do Libertador, temos a obrigação de livrar o fraco e o necessitado, transmitindo-lhes a verdade emancipadora do evangelho. Eles precisam ser informados através dos nossos lábios acerca da dignidade que Cristo lhes conferiu. “Glorie-se o irmão de condição humilde na sua alta posição”, conclama Tiago, “o rico, porém, glorie-se na sua insignificância, porque ele passará como a flor da erva.”[5]

O evangelho preconiza a chegada de uma revolução sem precedentes, mas que não demandará derramamento de sangue, nem violência. Trata-se, antes, da revolução do amor, da paz e da justiça, anunciada exaustivamente pelos profetas. Porém ela não será fruto de uma intervenção divina futura, mas de nossa resposta aos Seus constantes apelos. Quem dera se tais apelos ecoassem agora mesmo no coração de todo ser humano que habita este planeta.

“Assim diz o Senhor: Exercei o juízo e a justiça, e livrai o oprimido das mãos do opressor. Não oprimais mais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva, e não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar.”[6]

Violência gera violência. Não se apaga fogo com fogo. Devemos transformar nossas armas em arados, e qualquer desejo de vingança em perdão. A profecia messiânica diz que Cristo “exercerá o seu juízo entre as nações, e repreenderá a muitos povos. Estes converterão as suas espadas em arados e as suas lanças em podadeiras. Não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerra.”[7]  Eis a nossa esperança, razão que nos impulsiona a apostar no futuro da civilização humana.

O exercício da justiça nada mais é do que o amor em ação. Porém, isso, não pode ficar restrito a um conjunto de doutrinas. Não basta o assentimento intelectual da verdade. O verbo tem que se tornar carne. O discurso tem que se transformar em práxis. A fé que opera pelo amor se manifesta através de obras de justiça. “Executai justiça verdadeira”, diz o Senhor, “mostrai bondade e misericórdia cada um a seu irmão. Não oprimais a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente o mal cada um contra o seu irmão em seu coração.”[8]

As viúvas e os órfãos representam para nossa sociedade as classes desassistidas, aqueles para os quais a corda rompe primeiro. Nossa sociedade está cheia de órfãos de pais vivos. Nossas crianças e adolescentes estão crescendo sem qualquer assistência. Embora o Estatuto da Criança e do Adolescente represente um avanço considerável, precisamos de políticas mais eficazes, que promovam uma educação de qualidade para os nossos filhos. O que será de uma geração inteira que cresceu aos cuidados da babá eletrônica?

E quanto aos nossos velhos? Até quando morrerão nas filas do INSS? São viúvos do Estado. Estão entregues à própria sorte, vulneráveis às aves de rapina a serviço deste sistema pérfido, carcomido pelas traças da corrupção.  

O estrangeiro representa o diferente, o pertencente a outra realidade, outra crença, outra ideologia, outra cultura. É triste verificar como os imigrantes brasileiros são explorados no Exterior. Geralmente, trabalham por menos que o salário mínimo do país. Mas é igualmente lamentável que tratemos os imigrantes que chegam ao nosso país de maneira semelhante e até pior, fazendo-os de escravos.

Membros de uma etnia não têm o direito de dominar os de outra etnia. Não há raças superiores, nem física, intelectual, ou espiritualmente. Todos possuem a mesma dignidade intrínseca e, por isso, devem ser respeitados e ter seus direitos assegurados.

Também é deprimente assistir ao crescimento dos bolsões de miséria, das favelas e guetos, habitados por aqueles que deixaram seus rincões, no afã de obterem melhores oportunidades na cidade grande.

O mandamento de Deus quanto ao tratamento que devemos dispensar ao imigrante é categórico: “O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás, pois estrangeiros fostes na terra do Egito.”[9] E mais: “Como o natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco. Amá-lo-eis como a vós mesmos, pois fostes estrangeiros na terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus.”[10]E ainda: “Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno. Ele faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe alimento e vestes. Amai o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.”[11]

O Deus Eterno apela à compaixão. Só podemos nos compadecer daquele que passa por algo pelo qual um dia também passamos. Somos um país de imigrantes. Quem não é imigrante, é, no mínimo, filho, neto ou bisneto de imigrante. Os únicos que têm suas raízes fincadas nesta terra há muito mais tempo são os indígenas. Os demais descendem de europeus, africanos e orientais. Portanto, antes de agirmos com preconceito, ou explorarmos mão-de-obra estrangeira, lembremo-nos de nossos ancestrais.

O trato que Deus ordenou que Seu povo dispensasse ao estrangeiro era de tal ordem, que é usado como referência para o trato que devemos dispensar a nossos irmãos, quando estes atravessarem alguma dificuldade econômica: “Quando teu irmão empobrecer e as suas forças decaírem, sustentá-lo-ás como a um estrangeiro ou peregrino, para que viva contigo.”[12]

Quem diria? Em vez de o estrangeiro ser tratado como irmão, o irmão que deveria ser tratado como estrangeiro. Porém, hoje, tratar um irmão como se fosse um estrangeiro, seria considerado um total descaso, dado o desprezo com que o tratamos.

Urge que se levantem políticos comprometidos com o bem comum, e não com suas ambições pessoais ou com interesses econômicos. A igreja cristã bem que poderia fornecer à sociedade tais políticos. Mas na maioria das vezes, candidatos evangélicos se apresentam apenas como defensores da moral cristã, da família tradicional ou dos interesses de sua própria denominação, garantindo-lhe cargos, privilégios, concessões de rádio e TV, etc.

Não creio que um seguidor de Cristo deveria opor-se aos direitos de qualquer que seja o segmento social. Ser cristão não é ser anti-gay, anti-feminista, anti-direitos trabalhistas, anti-qualquer coisa. Não deveríamos ser vistos como a turma do contra, os estraga-prazeres. Em nome de uma agenda conservadora, boa parte dos políticos ditos evangélicos prefere ser flagrada ao lado dos que defendem o porte de arma, a pena de morte, a redução da maioridade penal, etc. E foi assim que surgiu a união de três bancadas conhecidas pela sigla BBB: Bancada da Bíblia, da Bala e do Boi.[13]

Imagine se os políticos e líderes evangélicos defendessem os direitos das minorias com a mesma veemência com que defendem a moral religiosa. Mas seus escrúpulos religiosos, bem como seus interesses ideológicos não os permitem. E assim, o bem se passa por mal, e o mal por bem. Aos tais, vale a advertência: “Ai dos que ajuntam casa a casa, e reúnem herdade a herdade, até que não haja mais lugar, e fiquem como únicos moradores da terra (...). Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade, que põem o amargo por doce, e o doce por amargo.”[14]

Em uma sociedade capitalista, onde o capital tem supremacia sobre o trabalho, enriquecer às custas do trabalho alheio é visto como um sinal de esperteza, de sagacidade, de inteligência. Trata-se de uma clara inversão de valores.

Infelizmente, assistimos à igreja sucumbindo a este espírito. Pastores bradam de seus púlpitos que o crente deve almejar ser patrão, em vez de conformar-se em ser empregado. Deve ser cabeça em vez de cauda, alusão à promessa contida na Lei de Moisés: “E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo, se obedeceres aos mandamentos do Senhor teu Deus, que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir.”[15] Em contraste a isso, Paulo diz que não devemos fazer nada “por contenda ou por vanglória, mas por humildade”, e que cada um deve considerar “os outros superiores a si mesmo”, não atentando “cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros” (Isso é revolucionário!), “de sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.”[16] De fato, a Nova Aliança da graça contém promessas infinitamente superiores às da Antiga Aliança da Lei.[17] E a maior delas é a de nos tornarmos semelhantes a Cristo. Portanto, o que vale agora não é mais ser cabeça ou cauda, mas ser coração. O que está em jogo não é mais quem está por cima ou por baixo, mas no centro. E o centro ao redor do qual tudo deve orbitar é o amor. Já não vivemos em função de provar nada a quem quer que seja. Já não nos preocupamos em ficar nos comparando aos outros para ver quem é melhor ou mais bem sucedido. O que nos interessa é parecermos cada vez mais com Cristo, a começar pelo mesmo sentimento que o motivava.

O problema não está em encorajar as pessoas a melhorarem sua condição econômica. Não há nada de errado em querer ascender socialmente. O problema é quando esta ascensão é desejada apenas pelo glamour, pela vaidade, desprezando a responsabilidade social que ela demanda. Quem dera estivessem atentos à sabedoria que diz que “onde os bens se multiplicam, ali se multiplicam também os que deles comem.”[18]

Ao estimular seu povo a ascender socialmente, o pregador deveria focar as oportunidades de trabalho que um empregador poderia criar, diminuindo assim o alto índice de desemprego, e consequentemente, a criminalidade. Mas em vez disso, enfatiza-se apenas o conforto material e o status social que tal ascensão poderá promover a ele e à sua família.

Testemunhos são colhidos de pessoas que usam suas conquistas materiais, como a aquisição de carros luxuosos, ou coberturas de frente para a praia, como aferidor de sua fé. Ainda não se viu um pastor midiático perguntando a tais empresários emergentes, quantos foram beneficiados através de sua prosperidade, quantos chefes de família foram empregados, quantas iniciativas foram tomadas para ingressar os jovens no mercado de trabalho, etc. O que tem sido chamado de “testemunho” não passa de ostentação. Testemunhar tornou-se sinônimo de contar vantagem, estimulando os ouvintes à inveja e à esperança de que um dia chegará a sua vez de ganhar nesta loteria de fé.

A advertência profética diz que Deus esperava que Seu povo exercesse justiça, mas viu opressão, esperou retidão, mas ouviu clamor, e um tipo de clamor que jamais gostaria de ouvir.[19] De quem seria este clamor? Daqueles que são explorados pelos que almejam concentrar riquezas. Quem dera atentassem ao mandamento que diz: “Não explorarás o assalariado pobre e necessitado, seja ele teu irmão, seja ele estrangeiro que mora na tua terra e nas tuas cidades. No mesmo dia lhe pagarás o seu salário, para que o sol não se ponha sobre a dívida, pois ele é pobre, e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado.”[20] Para os tais, isso não passaria de uma sugestão divina, não propriamente um mandamento. Se se recusam a dar ouvidos ao mandamento, que ouçam ao menos a advertência: “Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus aposentos sem direito, que se serve do serviço do seu próximo sem paga, e não lhe dá o salário do seu trabalho.”[21]

A expressão “ai” encontrada em algumas advertências divinas visa ressaltar a seriedade e o rigor com que Deus trata certas injustiças, sem jamais fazer-lhes vistas grossas. O Deus revelado em Jesus está sempre atento ao clamor dos injustiçados. E ainda que estes não saibam como clamar reivindicando seus direitos, a própria injustiça por eles sofrida deporá diante do tribunal divino: “Vede! O salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, e que por vós foi retido com fraude, está clamando. Os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor Todo-poderoso.”[22] Não obstante, Deus se recusa a ouvir o clamor dos exploradores, dos que trabalham com o único intuito de concentrar bens, e que para isso, não hesitam explorar descaradamente a seu semelhante:

“A vós que aborreceis o bem, e amais o mal, que arrancais a pele de cima deles, e a sua carne de cima dos seus ossos, que comeis a carne do meu povo, e lhes arrancais a pele, e lhes esmiuçais os ossos, e os repartis como para a panela, e como carne do meio do caldeirão. ENTÃO CLAMARÃO AO SENHOR, MAS ELE NÃO OS OUVIRÁ, antes esconderá deles a sua face naquele tempo, visto que eles fizeram mal nas suas obras.”[23]

Os ricos deste mundo precisam acordar para o fato de que todas as nossas obras são sementes, que mais cedo ou mais tarde, resultarão em colheitas. Como diz o adágio bíblico, “eles semeiam ventos, e colhem tempestades.”[24]  Toda a injustiça praticada pelas elites brasileiras, tem resultado numa escalada da violência sem precedentes na História deste país. Os mesmos que se negam a pagar um salário justo a seus empregados são obrigados a gastar fortunas em segurança, blindando seus carros, colocando sistemas de alarme caríssimos em suas residências, e contratando equipes de vigilância. De fato, Deus está exercendo juízo sobre essa elite indiferente, que enriquece às custas da injustiça feita ao trabalhador: Depois, não adianta querer espiritualizar as coisas, atribuindo a miséria à atuação de demônios. Como disse Thomas Hobbes, “o homem é o lobo do homem.” Isto é, o homem é o maior inimigo do próprio homem. Ou como repetia exaustivamente meu saudoso pai: “De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados.”[25] Deus exerce Seu juízo sobre nós, simplesmente permitindo que colhamos exatamente o que plantamos. Deus é tão bom que nos confere a liberdade de semear o que quisermos, mas é tão justo que não nos permitirá colher senão o que houvermos semeado. “Chegar-me-ei a vós para juízo”, adverte o Senhor, “e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o trabalhador, e pervertem o direito da viúva, e do órfão, e do estrangeiro, e não me temem.”[26] Para Deus, não há diferença entre o que pratica a feitiçaria, o adultério e o que defrauda o trabalhador. São todos, por assim dizer, farinha do mesmo saco. O feiticeiro usurpa o poder de Deus, achando-se capaz de manipulá-lo a seu favor, o adúltero usurpa a companhia da mulher alheia, e o que defrauda o trabalhador usurpa o inalienável direito de quem sobrevive do suor do seu rosto. Ambos praticam a injustiça e eventualmente colherão o que houver sido semeado.

Por que há tão poucos em posse de tantas riquezas, enquanto grande parte da sociedade humana vive abaixo da linha da pobreza? Como poderíamos reverter isso? A mensagem do reino, sempre na contramão do sistema deste mundo, constitui-se na mais subversiva mensagem jamais pregada. Todavia, não basta pregá-la. Temos que encarná-la, isto é, trazê-la da teoria para a prática. Em outras palavras, precisamos semear justiça, onde até hoje só se semeou opressão e exploração.

“Semeai para vós em justiça, ceifai o fruto do constante amor, e lavrai o campo de lavoura, porque é tempo de buscar ao Senhor, até que venha e chova a justiça sobre vós.”[27]

Observe que semear em justiça é sinônimo de buscar ao Senhor. Ainda que as mudanças não ocorram com a rapidez que desejamos, não podemos nos cansar de fazer o bem, até que chova a justiça sobre a terra.  A admoestação apostólica ecoa esta verdade: “Não vos enganeis: Deus não se deixa escarnecer. Tudo que o homem semear, isso também ceifará (...). E não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido. Então, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé.”[28] E o escritor de Hebreus complementa: “Não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir com outros, pois com tais sacrifícios Deus se agrada.”[29]

Cada vez que praticamos o bem, repartindo com alguém aquilo que o Senhor nos deu, estamos semeando no reino de Deus. Em breve, a chuva virá, e toda a terra será renovada. É sobre isso que repousa nossa esperança.

“Porque, como a terra produz os seus renovos, e como o jardim faz brotar o que nele se semeia, assim o Senhor Deus fará brotar a retidão e o louvor perante todas as nações.”[30]

Tudo o que nos é concedido pelo Senhor, tem como objetivo abençoar aos que nos cercam. Não temos o direito de concentrar nada em nossas mãos. Fazê-lo constitui-se em injustiça e franca rebeldia à Sua Palavra. Tomemos, portanto, o exemplo da igreja primitiva em que “era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns.”[31]



[1] Salmos 82.2-5a
[2] 1 Coríntios 2.6,8
[3] Provérbios  29.7
[4] Tiago 2.2-6
[5] Tiago 1.9-10
[6] Jeremias 22.2
[7] Isaías 2.4
[8] Zacarias 7.9-10
[9] Êxodo 22.21
[10] Levítico 19.34
[11] Deuteronômio 10.17-19
[12] Levítico 25.35
[13] A Bancada BBB é um termo pejorativo usado para referir-se conjuntamente à bancada armamentista ("da bala"), bancada ruralista ("do boi") e à bancada evangélica ("da bíblia").
[14] Isaías 5.8,20
[15] Deuteronômio 28.13
[16] Filipenses 2.3-5
[17] Hebreus 8.6
[18] Eclesiastes 5.11
[19] Isaías 5.7
[20] Deuteronômio 24.14-15
[21] Jeremias 22.13
[22] Tiago 5.4
[23] Miquéias 3.2-4
[24] Oséias 8.7a
[25] Lamentações 3.39
[26] Malaquias 3.5
[27] Oséias 10.12
[28] Gálatas 6.7,9-10
[29] Hebreus 13.16
[30] Isaías 61.11
[31] Atos 4.32

sexta-feira, agosto 24, 2018

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A onda nacionalista e a xenofobia no Brasil



Por Hermes C. Fernandes

A reação exacerbada de alguns brasileiros à imigração de venezuelanos fugindo da crise que abate o seu país deveria soar-nos como um alerta e coincide com a onda nacionalista que tem varrido o país de norte ao sul. O brasileiro, que é conhecido no mundo inteiro por sua hospitalidade, passou a enxergar o estrangeiro com olhar hostil e preconceituoso. A crise humanitária dos venezuelanos exige acolhimento, não xenofobia. De acordo com o Wikipédia, "xenofobia é o medo, aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros, a desconfiança em relação a pessoas estranhas ao meio daquele que as julga ou que vêm de fora de seu país com um cultura, hábito, raca ou religião diferente." Não se trata de um fenômeno recente na história humana. Pelo contrário, trata-se de um vírus que tem infectado os povos desde os seus primórdios. O Israel dos tempos bíblicos nos oferece um exemplo disso.

Israel se orgulhava de ser o povo eleito de Deus, porém, havia se esquecido de que a promessa feita a Abraão, seu patriarca, era de que através de sua descendência, todas as nações da terra seriam igualmente abençoadas.[1] Ser a nação escolhida não significa ser detentor do monopólio do sagrado. Apesar das Escrituras afirmarem que Israel seria propriedade exclusiva do Senhor, título repassado à igreja, Deus não é exclusividade de povo algum.[2] Ele é o Deus de todos os povos, o rei das nações, o Senhor dos mundos.

Amós, o profeta boiadeiro, deixa claro que o mesmo Deus que agiu em benefício de Israel, também agiu em benefício de outros povos, inclusive daqueles considerados seus desafetos.

“Por acaso, filhos de Israel, sois diferentes dos etíopes para mim? Eu não tirei Israel da terra do Egito? Mas não tirei também os filisteus de Caftor? Não fiz os sírios saírem de Quir?” Amós 9.7

Esta palavra, sem dúvida, foi um golpe na arrogância nacionalista de Israel. Os filisteus, assim como os sírios, também tiveram o seu próprio êxodo. Portanto, não fazia sentido olhá-los de cima para baixo, como se fosse a nação predileta de Deus. Ainda que Deus, “nos tempos passados”, tenha deixado andar “todas as nações em seus próprios caminhos”, “contudo, não deixou de dar testemunho de si mesmo”, beneficiando-as desde o céu, provendo-lhes de chuvas e estações frutíferas, e enchendo de mantimento e de alegria os seus corações.[3] Mesmo não recebendo as devidas glórias, Deus não as desamparou, entregando-as à própria sorte. Mas garantiu a sua subsistência.

Em seu discurso no Areópago de Atenas, Paulo testifica que “de um só sangue”, Deus fez “toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação.”[4] O que nos leva a concluir que as fronteiras que delimitam os territórios das nações têm um prazo de validade. A atual configuração geopolítica mundial é fruto de guerras e acordos internacionais. Não há um pedacinho de qualquer que seja o território de uma nação que não tenha custado derramamento de sangue, seja na história recente ou antiga.

Não importa a cor e a tonalidade de nossa pele, o sangue que corre em nossas veias é invariavelmente vermelho. Ainda que haja diversidade de etnias, todavia, só há uma raça humana.

Não há razões para se crer numa superioridade étnica, como a defendida por Hitler e sua agenda eugenista.[5] Portanto, todos devem ser igualmente tratados com respeito e dignidade.

A atual onda nacionalista que varre o mundo é uma ameaça ao futuro da sociedade humana. Um retrocesso! Devo concordar com Albert Einstein ao afirmar que o nacionalismo é uma doença infantil, o sarampo da humanidade. Assim como a chegada da modernidade pôs fim ao regime feudal, a pós-modernidade deve pôr um fim à noção que temos de nação. Desde que Yuri Gagarin[6] avistou a terra como um enorme globo azul, nossa perspectiva de mundo mudou drasticamente. Somos uma aldeia global. Não faz mais sentido matar e morrer por um patriotismo cego. E nada medida em que nossa visão do universo foi se alargando, percebemos nosso minúsculo planeta como um grão de areia girando em torno de uma estrela de quinta grandeza, perdida nas periferias da galáxia, o que nos remete à Escritura que diz: “Na verdade as nações são como a gota que sobra do balde; para ele são como o pó que resta na balança; para ele as ilhas não passam de um grão de areia.”[7]

Nenhum Estado deveria ser objeto de nossa devoção. Pelo menos, é o que entendo ao ler as Escrituras a partir de Jesus. Ele relativizou todas as estruturas de poder. Muito mais importante do que elas é a humanidade. Cristo não ofereceu Sua vida por Estados ou governos, mas pela humanidade. Portanto, devemos abandonar esta visão provinciana, atendendo ao convite do escritor de Hebreus: “Saiamos, pois, a ele (Cristo) fora do arraial, levando o seu vitupério. Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura.” [8] “Cidade” aqui deve ser entendida como civilização. A pátria pela qual anelamos não tem fronteiras, nem bandeiras. Trata-se, antes, de uma realidade celestial, não no sentido de ser algo etéreo, pós-morte, mas de ser uma sociedade erigida ao redor do trono da graça, em que o único vínculo que nos une é o amor.[9]

Que chegue logo a hora em que ser brasileiro, ou americano, ou  irlandês, já não será motivo de orgulho. Nascer aqui ou acolá é inevitável, mas vangloriar-se disto é uma postura estreita e potencialmente danosa. Paulo compreendeu isso claramente. Por isso, ainda que pudesse gloriar-se de sua origem étnica, sendo “hebreu de hebreus”, preferiu encarar a aparente vantagem como verdadeiro prejuízo. “O que para mim era lucro”, conclui o apóstolo, “considerei-o perda por amor de Cristo.”[10]

A humanidade é uma única comunidade, composta de povos de diversas etnias e línguas que formam um enorme caldeirão cultural. Conceitos racistas e separatistas como o nacionalismo nos privam deste entendimento.

Concordo com comediante norte-americano Doug Stanhope ao dizer que o nacionalismo ensina a odiar as pessoas que nunca conhecemos e ter orgulho de realizações das quais não participamos.

Gerações futuras nos acharão tão idiotas quanto consideramos os povos pré-históricos, por defendermos com unhas e dentes nossas fronteiras.

Prefiro fazer coro com Pietro Gori: “Nossa Pátria é o mundo inteiro, nossa lei é a liberdade.” [11] O que parece fazer eco às palavras de Paulo: “A Jerusalém que é de cima é livre; a qual é mãe de todos nós.”[12]Somos filhos do futuro. Filhos da liberdade. Filhos de um mundo sem fronteiras. Não somos filhos da “Jerusalém que agora existe”, e que “é escrava com seus filhos.”[13]Em outras palavras, não pertencemos a esta configuração geopolítica atual prestes a caducar, nem deste sistema opressor que explora e devora seus próprios filhos. Pertencemos a outra ordem, cuja origem é celestial e não terrena. Somos cidadãos do reino de Deus, em que distinções sexistas, sociais e étnicas já não existem.[14] Celebremos, pois, “as coisas velhas já se passaram e tudo se fez novo.”[15]. Rejeitamos, portanto, qualquer discurso inflamado que vise reavivar uma chama que já deveria ter sido extinta há tempos. Amemos o Brasil. Não meramente seus símbolos, suas cores, seu hino, seus poderes, mas, sua cultura, sua natureza, e, sobretudo, sua gente, fruto da mais surpreendente miscigenação ocorrida na história da civilização. 



[1] Gênesis 22.11
[2] Êxodo 19.5 / 1 Pedro 2.9
[3] Atos 14.16,17
[4] Atos 17.26
[5] Eugenia é um termo criado em 1883 por Francis Galton (1822-1911), significando "bem nascido". Galton definiu eugenia como "o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente". Fonte: Wikipédia.
[6] Yuri Alekseievitch Gagarin foi um cosmonauta soviético e o primeiro homem a viajar pelo espaço, em 12 de abril de 1961, a bordo da Vostok 1. É dele a célebre frase: “A terra é azul.”
[7] Isaías 40.15
[8] Hebreus 13.13-14
[9] Hebreus 11.14-16
[10] Filipenses 3.4-7
[11] Pietro Gori foi um advogado anarquista italiano nascido em Messina (1865 – 1911).
[12] Gálatas 4.26
[13] Gálatas 4.25
[14] “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28).
[15] 2 Coríntios 5.17