sexta-feira, fevereiro 24, 2017

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Silas, onde você se perdeu?




CARTA ABERTA AO PASTOR SILAS MALAFAIA 

Jesus disse que os escândalos seriam inevitáveis, porém, advertiu: “ai daquele homem por quem o escândalo vem”[1]. Parafraseando o apóstolo Pedro, por causa desses o caminho da verdade é blasfemado, pois movidos de ganância fazem do evangelho um lucrativo negócio.[2]

Mais uma vez, a atenção da mídia se volta para você. Não por sua obra, nem pela agenda conservadora e fundamentalista que defende, mas pelo indiciamento numa investigação da Polícia Federal por lavagem de dinheiro batizada de Operação Timóteo. Aliás, não poderia haver um nome mais sugestivo, pois justamente em uma das epístolas de São Paulo a seu pupilo Timóteo que lemos:
 “Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram a si mesmas com muitos sofrimentos.”1 Timóteo 6:9,10 
Como não poderia evitar, você veio a público vociferando, xingando o jornalista que teria publicado a matéria na ISTOÉ de bandido, vagabundo, etc. Postura bem diferente da encontrada n’Aquele a quem você diz servir, pois Jesus, “quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça.”[3]  Todavia, você tem o direito de se defender. O problema não é o tom de sua voz, mas a incongruência de seus argumentos. Você diz que não havia como saber a origem da tal oferta de cem mil reais depositada em sua conta pessoal (geralmente, ofertas são depositas na conta da igreja). Ora, ora... vamos combinar: Não é todo dia que se recebe uma oferta tão vultuosa. Quem milita nesta trincheira sabe da dificuldade que é, principalmente em tempos de crise, quando as pessoas vendem o almoço para garantir a janta.

Pela sua linha de raciocínio, subtende-se que oferta é oferta, não importa de onde venha. Afinal, Jesus recebeu oferta até de uma prostituta, não é verdade? Mas, cá entre nós, o dinheiro advindo da prostituição é mais digno do que o da corrupção. A prostituta não tomou nada de ninguém, mas apenas negociou seu próprio corpo. Crianças não deixaram de receber sua merenda. Pacientes não foram negligenciados por falta de leitos nos hospitais. Famílias inteiras não deixaram de ser assistidas.

O mesmo Jesus que não demonstrou qualquer embaraço ao receber aquela oferta das mãos de uma meretriz, desafiando os escrúpulos religiosos de sua época, não recebeu oferta alguma de Zaqueu, cobrador de impostos cuja fortuna se originava da corrupção. Pelo contrário, ao entrar em sua casa anunciando a salvação, ouviu dos lábios de seu anfitrião: “Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado.”[4] O que você diria numa situação dessas, Malafaia? Você tentaria dissuadi-lo disso? Tentaria convencê-lo a ofertar o seu ministério em vez de reembolsar os que haviam sido lesados?

Sendo franco, não acho que você tenha agido com dolo. Mas, certamente, isso não lhe isenta de culpa. Para se defender, você atira para todo lado. Não poupa nem o rapaz que lhe ofertou. Mas não seria ele resultado do que você tão veementemente prega? O que teria levado um fiel a envolver-se em falcatruas e ainda por cima ofertar seu pastor predileto com o fruto de seu roubo? Que tipo de mensagem ele tem ouvido do púlpito da igreja a que frequenta? Arrisco dizer que provavelmente seja o tal evangelho da prosperidade (aquele que você abominava no início de seu ministério, mas que abraçou quando se rendeu à proposta megalomaníaca de figurar entre os mais ricos pastores do país). É o evangelho segundo São Maquiavel, em que os fins justificam os meios. Um evangelho que não esboça qualquer compromisso com a ética, mas apenas com uma agenda moralista visando o poder político a todo custo. Um evangelho que crucifica o homossexual, que insulta os fiéis das religiões de matrizes africanas, mas solta e acolhe Barrabás, um ladrão contumaz, e ainda o chama de irmão. Um evangelho que flerta com os poderosos enquanto menospreza os excluídos.

Você não sente saudade de quando subia ao púlpito para pregar sem se preocupar em defender-se das acusações dos que percebem sua incoerência? Não sente saudade daquele Malafaia que conheci cursando psicologia na Universidade Gama Filho? Bons tempos, não? Onde você se perdeu, amigo? Parafraseando São Paulo aos cristãos gálatas: Você corria tão bem. Quem o impediu de perseverar naquele caminho?[5] Ainda há tempo de dar meia volta e se reencontrar consigo mesmo. Caso contrário, não será uma matéria de revista que minará sua credibilidade, mas sua própria postura arrogante e intransigência. Lembre-se que você é referência para muitos jovens ministros. De quê serve ser uma referência de sucesso, mas não de integridade? De quê adianta figurar entre as fortunas elencadas pela Forbes e ser indiciado numa investigação de desvio de dinheiro público? Pregue menos sobre riqueza e mais sobre caráter. Abandone a teologia da prosperidade e volte à pregação simples do evangelho de Jesus Cristo. Aquele mesmo que diz que a vida do homem não consiste na abundância dos bens que possui.[6]

Ainda dá tempo, Silas. Amanhã poderá ser tarde.




[1] Mateus 18:7
[2] 2 Pedro 2:2,3
[3] 1 Pedro 2:23
[4] Lucas 19:8
[5] Gálatas 5:7
[6] Lucas 12:15

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

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Entre Blocos e Retiros: Uma parábola do papel da igreja no Carnaval


Por Hermes C. Fernandes

Uma parábola sobre o papel da igreja durante o Carnaval

Epêneto era o presbítero responsável pela igreja em Roma, desde que Priscila e Áquila tiveram que deixar a cidade em busca de novos campos missionários. Epêneto foi um dos primeiros a se converterem através do trabalho realizado por Paulo nessa cidade.

Aquela igreja era muito ativa, sempre aberta a acolher as pessoas. Quando havia algum cataclismo, fome ou guerra, os cristãos se mobilizavam para socorrer as vítimas. Por causa de seu envolvimento com a dor humana, ganhou a simpatia de todos, inclusive de funcionários do palácio de César.

Num belo dia, ouviu-se o clangor do clarim. Todos se reuniram para ouvir o que o mensageiro do império tinha para anunciar. Em duas semanas, o exército romano estaria chegando de uma campanha militar bem-sucedida. O próprio César o receberia com uma Parada Triunfal, que seria seguida de um feriado prolongado dedicado aos deuses Marte e Saturno, também conhecidos como Apolo e Baco, divindades da guerra e do vinho, respectivamente. Seria uma grande festa, regada a bebidas alcoólicas e todo tipo de luxúria. A população sairia às ruas para assistir ao desfile das tropas romanas, dando-lhes boas-vindas, e assistiriam à execução de milhares de prisioneiros. Ninguém trabalharia naqueles dias.

Epêneto ficou preocupado com a notícia. Qual deveria ser o papel da igreja durante essa festa pagã? Ainda inexperiente como líder, reuniu alguns dos mais antigos membros da igreja para discutir o que fazer.

Um deles, chamado Narciso, pediu a palavra e deu sua sugestão:

- Amados no Senhor, por que não aproveitamos o ensejo para promover um desfile paralelo, onde demonstraremos ao mundo a nossa força, revelando a todos nossa lealdade ao Rei dos reis, Jesus Cristo? Podemos até copiar algumas de suas canções, adaptando-as à nossa fé. Em vez de exibirmos prisioneiros, exibiremos testemunhos daqueles que foram salvos. Vamos montar nosso próprio bloco, quer dizer, nossa própria parada triunfal. Pode ser uma grande oportunidade evangelística.

Epêneto, depois de algum tempo pensativo, respondeu: Caro Narciso, a idéia parece muito boa. Porém, quem ouviria nossa voz durante os momentos de folia? Nosso modesto bloco se perderia no meio de toda aquela devassidão. Ademais, a maioria das pessoas estará embriagada, incapaz de entender nossa mensagem. Também não estamos preocupados em dar uma demonstração de força. Jesus disse que nosso papel no mundo seria semelhante à de uma pitada de fermento, que de maneira discreta, sem chamar a atenção para si, vai levedando aos poucos toda a massa. Por isso, acho que sua idéia não é pertinente. Quem sabe em gerações futuras, haja quem a aproveite?


Levantou-se então Andrônico, que gozava de muito prestígio por ser parente de Paulo, e sugeriu:

- Amados, durante o Desfile Triunfal e as Saturnais, a situação espiritual da cidade ficará insuportável. Divindades pagãs serão invocadas, orgias serão promovidas em lugares públicos à luz do dia. Não convém que estejamos aqui durante essa festa da carne. A melhor coisa a fazer é nos retirarmos, buscarmos um refúgio fora da cidade, e aproveitamos esse tempo para nos congratularmos, sem nos expormos desnecessariamente às tentações da carne.

Todos acenaram com a cabeça, demonstrando terem gostado da idéia. Já que seria mesmo feriado, ninguém precisaria trabalhar. Um retiro parecia a melhor sugestão.

O velho presbítero ficou um tempo em silêncio, meditando. Todos estavam atônitos esperando sua palavra, quando mansamente respondeu:

- Irmãos, não nos esqueçamos de que somos o sal da terra e a luz do mundo. Se no momento de maior trevas nos retirarmos, o que será desta cidade? Por que a entregaríamos ao controle das hostes espirituais das trevas? Definitivamente, nosso lugar é aqui. Não Precisamos de exposição, como sugeriu nosso irmão Narciso, nem de fazer oposição à festa, retirando-nos da cidade, como sugeriu Andrônico. O que precisamos é estar à disposição para acolher aos necessitados, às vítimas da violência, aos desassistidos, aos marginalizados.

A propósito, não temos estado sempre disponíveis para atender as pessoas durante as tragédias que tem abatido o império? E o que seriam tais desfiles, senão tragédias morais e espirituais? Saiamos às ruas, mesmo sem participar da folia, e estendamo-los as mãos, em vez de apontar-lhes o dedo, oferecendo compaixão em vez de acusação, amor em vez de apatia. Que as casas que usamos para nos reunir estejam de portas abertas para receber quem quer que seja, e assim, revelaremos ao mundo Aquele a quem amamos e servimos. Afinal, o reino de Deus se manifesta sem alarde, sem confetes, sem barulho, mas perturbadoramente discreto.

Depois dessas sábias palavras, ninguém mais se atreveu a dar qualquer outra sugestão.


* Esta é apenas uma parábola que elaboramos para emitir nossa humilde opinião acerca do papel da igreja durante o período carnavalesco.

Postado originalmente em 11/02/2010

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

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A complicada relação da igreja com o carnaval



Por Hermes C. Fernandes

Duas igrejas. Duas posturas diferentes quanto às demandas do mundo. Posturas que se evidenciam durante a época da festa da carne. Encontramo-nas, de maneira metafórica, num episódio relatado por Lucas envolvendo duas multidões que vinham de lados opostos, mas que, eventualmente, se chocaram.

A primeira multidão era liderada por Jesus, e seguia euforicamente na direção da cidade de Naim. Pessoas que haviam deixado tudo para seguir o mestre da Galileia. Não se importavam com o calor escaldante da região. Nem em passarem  por alguma privação durante o cortejo. A razão de toda a sua alegria e esperança estava personificada naquele jovem carpinteiro.

A multidão que seguia na direção oposta era liderada por um defunto. Enquanto a primeira entrava na cidade, a segunda a deixava. Enquanto a primeira parecia celebrar, a segunda só fazia lamentar. E, de fato, havia motivo para isso. Ao lado do defunto ainda moço, estava sua mãe, inconsolável, que não fazia muito tempo perdera também o marido. Sem um arrimo para sustentá-la, só lhe restava chorar, chorar e chorar.

Imagine o 'choque térmico' provocado pelo encontro das duas multidões. Uns sorrindo, outros chorando. Se ao menos entendessem a razão uns dos outros... Quem chorava, ao deparar-se com quem sorria, devia pensar: quem é este idiota que não respeita a dor alheia? Quem celebrava, ao avistar os que choravam, provavelmente pensava:  será que não percebeu a presença de Jesus entre nós?

Quando Jesus se viu de frente com aquela viúva, seu coração se encheu de ternura e compaixão. Dirigindo-se a ela, disse: Não chores!

Como assim, “não chores”? Será que não viu o menino morto que era carregado? Será que não percebeu que a partir daquele dia, ela poderia ficar desamparada? Obviamente que a resposta a estas perguntas é um sonoro sim. O “não chores” não soou petulante. Não foi uma ordem. Bastava observar as feições de Jesus para perceber a doçura do seu olhar. Quase que concomitantemente, Jesus paralisa o cortejo fúnebre, toca o esquife e diz ao morto: “Jovem, a ti te digo: Levanta-te”.

Se o jovem não o tivesse atendido, Jesus teria sido considerado um louco varrido e talvez até fosse linchado pela multidão. Mas o fato é que ele atendeu, levantou-se vivo e foi entregue à sua mãe. Agora, já não havia duas multidões caminhando em direções opostas, mas uma única multidão que se mesclara. Os que antes choravam, agora tinham uma razão para celebrar. Os que já celebravam, agora tinham uma razão a mais para fazê-lo.

Durante esta época, muitas igrejas preferem deixar a cidade. A alegria do mundo parece incomodá-las, pois rivaliza com sua própria alegria. Talvez até preferissem vê-lo chorar. Elas se esquecem que essa alegria é fugaz, e que, invariavelmente, termina em cinzas. Por trás de cada máscara e fantasia há um ser fragilizado, que depois de trabalhar o ano inteiro, se entrega à folia para tentar driblar o vazio que há em sua alma. Todavia, a alegria provida pelo Carnaval pode ser tudo o que ele tem. Por isso, não acho que seja sábio desdenhá-la ou desrespeitá-la, mesmo que não nos pareça possível endossá-la. 

Não me atrevo a generalizar, porém, constato que muitas dessas igrejas parecem ser guiadas por um morto. Uma espiritualidade mórbida. Um cristianismo em estado de putrefação e decomposição. Essa igreja é viúva. Seu marido é um Cristo que não deixou o túmulo. Que fez da própria igreja o seu sepulcro. Por isso, não lhe resta alternativa senão enterrar agora os seus filhos. Enterrá-los a sete palmos de alienação para que se decomponham fora das vistas do mundo. Seus filhos parecem destinados a serem devorados pelos vermes da religiosidade apática e performática.

Todavia, há uma igreja que toma o caminho inverso. Que se volta para a cidade. Que se dispõe a acolher os que choram sem se importar em misturar-se a eles. Quem está à sua frente é ninguém menos que o Cristo de Deus, o porta-voz da vida, o única capaz de reverter o quadro caótico em que se encontra o mundo. Deixe que Ele toque o esquife! Para os doutores da Lei, tocar o esquife tornava-o imundo. Mas quem disse que Jesus se importa com a higiene religiosa? Quem toca num esquife, equivalente ao caixão dos nossos dias, também toca num carro alegórico, num trio elétrico, numa vida arruinada pelas drogas, num homossexual vítima de todo tipo de preconceito, numa mulata em trajes sumários na avenida.  O Jesus que está à frente desta multidão não se deixa domesticar por convenções sociais ou ditames religiosos. Ele toca em quem quiser, onde estiver, na data que lhe aprouver, sem ter que se desculpar com ninguém.


* Texto baseado em Lucas 7:11-16 

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Meu caso de amor com o violão



Por Hermes C. Fernandes

Entre tantos instrumentos, nenhum me conquistou o coração como o violão. Eu já havia experimentado o sax. Tive aulas de piano. Iniciei-me na bateria. Mas o violão foi amor à primeira vista. Amor não se explica. A gente ama e ponto final. Mas creio haver algumas explicações para o meu caso de amor com este fascinante instrumento. Permita-me listá-las.

Primeiro, o violão é daqueles que é capaz de nos acompanhar em qualquer lugar. Tente levar um piano para a floresta ou para a praia! O violão é leve, descolado e não precisa de eletricidade para funcionar. Sabe a diferença entre a guitarra e o violão? A guitarra só funciona ligada em algum amplificador. Já o violão tem ressonância. Seu corpo oco faz com que os sons emitidos por suas cordas reverberem e sejam ouvidos à distância. O violão dispensa fios e cabos. Ele por si só se basta. Já guitarra, se quiser leva-la para tocar em algum lugar, terá que levar no mínimo uma caixinha amplificada. Peso extra. O violão é como aquela pessoa de coração grande, cujos sentimentos reverberam e tocam o coração de todos à sua volta, sem a necessidade de aditivos.

Segundo, o violão se encaixa anatomicamente em nosso corpo. Suas curvas são convidativas. É como se ele pedisse para ser tocado. É irresistível. Não há como encontrar um violão e resistir à tentação de tocá-lo. Nada como deslizar a mão esquerda pelo seu braço, enquanto a outra arpeja suas cordas. Enquanto a gente toca com a guitarra pendurada nos ombros, o violão a gente toca abraçado. Repare que nas pausas entre as músicas, a gente não costuma colocá-lo de lado num canto qualquer. A gente prefere abraçá-lo com ele em pé ou deitado em nosso colo, como se ele pedisse para ser abraçado. Há uma relação afetuosa, quase uma simbiose, entre o músico e seu instrumento.

Terceiro, o violão representa para mim todas as possibilidades que a vida descortina. Basta pressionar as cordas certas, na posição correta, ele é capaz de tocar qualquer música, em qualquer ritmo. Simplesmente não há limite. O violão nos acompanha no samba, no rock, no jazz, no blues, na MPB, e até no rap e no funk. Não duvide! Não há acordes que ele se negue a tocar. Às vezes, de tanto tocar, suas cordas se afrouxam e ele necessita parar e ser afinado. E não tão frequente, precisa ter seu encordoamento substituído por um novo. Se acha isso incômodo, experimente afinar um piano ou trocar as cordas de um contrabaixo. Em alguns minutos, ele soa como se fosse novo, pronto para ser dedilhado em serenatas de amor oferecidas por corações apaixonados.

Por estas e outras, não troco o violão por nenhum outro instrumento. Ele será meu companheiro por toda a minha vida. Nele comporei canções que expressem meus sonhos, minhas fantasias, minhas dores, e os mais profundos anseios do meu coração.

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

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Vamos falar de apropriação cultural?



Por Hermes C. Fernandes

Uma jovem branca que usava um turbante teria sido abordada por uma negra que a acusou de apropriação cultural. O que uma branca estaria fazendo com um adorno africano? De acordo com seu relato, o uso do turbante se devia ao tratamento de quimioterapia que ocasionara a queda de seus cabelos. Bastou que o episódio chegasse às redes sociais para que viralizasse, tornando a “apropriação cultural” no assunto do momento, provocando muito bate-boca e discussões infindáveis.

O verbo “apropriar” significa tomar para si. “Apropriação cultural” é um conceito da antropologia que se refere a adoção de elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. O conceito passa por uma reflexão política, e possui conotação negativa, especialmente quando a cultura de um grupo que foi oprimido é adotada por um grupo de uma cultura dominante. Pode incluir a introdução de formas de vestir ou adorno pessoal, música, arte, língua ou comportamento social. Estes elementos, uma vez removidos de seus contextos culturais, podem assumir significados diametralmente divergentes dos originais, ou simplesmente menos significativos. 

Cada cultura deve ser vista como um universo de símbolos, frutos de experiências humanas dentro de um contexto particular. Um turbante, por exemplo, carrega significados mais complexos e profundos do que simplesmente ser um adorno. Bem da verdade, por muito tempo, foi visto de forma pejorativa, considerado “coisa de macumbeiro”. Ao usá-lo, o negro não o toma apenas como um elemento estético, mas, sobretudo, como um símbolo de resistência, afirmação e orgulho de suas raízes. Não que haja qualquer problema em um branco resolver usá-lo. Vivemos numa sociedade teoricamente livre, onde cada um opta pelo que bem lhe convém. Porém, antes de usá-lo, deve considerar a questão ética acima da estética. Como sua postura será interpretada pelos que atribuem ao adorno um significado de resistência? Até que ponto seu uso por indivíduos pertencentes à etnia dominante não esvaziará seu significado original, banalizando-o, transformando-o em mais um item da moda?

Recentemente, o mundo fashion se apropriou dos turbantes com estampas étnicas. Modelos brancas posam para editoriais de revistas de moda. Ao ser adotado por uma determinada elite, o turbante passa a ser visto como estiloso. A propósito, por que não usaram modelos negras? Seria, no mínimo, mais digno.

Quando um símbolo de um povo marginalizado é tomado pela classe dominante, ele se esvazia de seu sentido. Trata-se de um processo que envolve privilégios, desigualdade e desrespeito. Mesmo que a intenção seja outra, como por exemplo, elogiar aspectos estéticos de uma cultura. A reapropriação de símbolos da cultura africana por negros do mundo inteiro deve ser encarada como um ato legítimo de afirmação de identidade, sobrevivência, empoderamento e resistência histórica. Não é o simples ato de usar um turbante ou outro adorno qualquer que ofende alguns grupos, mas o fato de usá-lo sem a devida consciência de seu valor simbólico. De onde teria vindo aquele artefato?

Que história ele conta? O que representa? A ofensa se agrava quando um símbolo é usado para fins econômicos e que não resultem em qualquer benefício para a comunidade de origem. Tomei o turbante como exemplo, mas isso se aplica igualmente à música, às tradições, etc.

Há uma passagem bíblica que exemplifica uma situação de apropriação cultural. Trata-se de um salmo composto durante o tempo em que os judeus estavam no exílio babilônico.
“Junto aos rios da Babilônia, ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião. Sobre os salgueiros que há no meio dela, penduramos as nossas harpas. Pois lá aqueles que nos levaram cativos nos pediam uma canção; e os que nos destruíram, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos uma das canções de Sião. Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha? Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, esqueça-se a minha direita da sua destreza. Se me não lembrar de ti, apegue-se-me a língua ao meu paladar; se não preferir Jerusalém à minha maior alegria.” Salmos 137:1-6
Os mesmos babilônios que os mantinham em cativeiro, agora pediam que os entretivessem com os cânticos que eram entoados em sua terra natal. O que fizeram os judeus? Penduraram suas harpas. Recusaram-se a divertir seus algozes. Pode até parecer uma coisa banal, mas o que estava em jogo era sua identidade étnica.

Quando se diz que em Cristo se acabam as distinções étnicas, sociais e sexistas, não significa que a diversidade cultural deva ceder à uniformidade (Gl.3:28). O que o evangelho faz é nivelar todos os povos e suas respectivas culturas. Mas jamais foi seu propósito dissolvê-las, descaracterizá-las, eliminá-las. Não há lugar para etnocentrismo no reino de Deus. Portanto, a produção cultural de um povo deve ser preservada, pois se constitui no que as Escrituras chamam de “as riquezas das nações”, destinadas a serem introduzidas na nova sociedade criada em Cristo (Is.60:11).

Vejo com muita reserva a apropriação cultural de elementos judaicos por parte das igrejas cristãs. Festas judaicas sendo celebradas completamente fora de seus contextos. Apetrechos e elementos cúlticos surrupiados. Danças folclóricas que remontam a diáspora judaica pelo leste europeu adotadas como se fossem provenientes dos tempos bíblicos. Será que alguém se deu o trabalho de perguntar a um rabino judeu o que acha de tal apropriação?

Em momento algum fiz apologia de qualquer tipo de segregação. A cultura é dinâmica. Ela invariavelmente se mescla a outras, produzindo sínteses culturais. O que não se pode é reduzir símbolos caros a uma tradição em meros bens de consumo, artigos da moda para serem ostentados por classe dominante alheia ao sofrimento do povo que os produziu.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

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A Santa Anarquia do Reino de Deus



Por Hermes C. Fernandes

Nenhuma ideologia política tem sido alvo de tantos maus entendidos como o anarquismo. Para o senso comum, anarquismo ou anarquia são sinônimos de desordem, caos ou vandalismo. Foi baseado neste conceito equivocado que a profetiza norte-americana Cindy Jacobs relatou à cantora Ana Paula Valadão uma visão que teria tido com uma letra A dentro de um círculo (logo do anarquismo) que pairava sobre o Brasil, o que levou ambas à conclusão de que um “principado de anarquia” estava tomando o país de assalto, resultando em rebeliões nos presídios e o caos nas ruas do Espírito Santo devido à paralisação da política militar.

“Anarquismo” nada tem a ver com isso. Trata-se, antes, de um conjunto de princípios políticos, sociais e culturais que defende o fim de qualquer forma de hierarquia e dominação (política, econômica, social e religiosa). Em suma, os anarquistas defendem uma sociedade baseada na liberdade total, porém, responsável. O objetivo do anarquismo é superar a ordem social vigente através de um projeto construtivo fundamentado na autogestão, tendo em vista a constituição de uma sociedade libertária que tenha por base a cooperação e a ajuda mútua entre seus indivíduos livremente associados.

A própria origem etimológica do termo aponta para este conceito. “Anarquismo” deriva-se do grego anarkhos (ἀναρχος) que significa “sem governantes”.

Justamente por questionar a necessidade da autoridade,  o anarquismo tem sido visto por cristãos como incompatível com a proposta do evangelho. Afinal de contas, somos ensinados a nos submeter às autoridades constituídas, reconhecendo-as como ministros de Deus, ainda que sejam déspotas, tiranos, sanguinários.

Infelizmente, estamos habituados a ler as Escrituras com as lentes ideológicas que visam justificar o status quo. Não foi em vão que Napoleão Bonaparte disse: “Religião é uma coisa excelente para manter as pessoas comuns quietas.” Ou como bem conclui Karl Marx, “a religião é o ópio do povo.”

O que a maioria parece desconhecer é que a proposta cristã original nada tinha de religião (pelo menos, não o que hoje consideramos religião). Ela estava bem mais próxima de uma proposta revolucionária. Mas desde que se tornou numa religião estatal, o cristianismo perdeu boa parte de seu poder subversivo. O Estado apropriou-se de seu discurso e adaptou-o aos seus interesses. A mensagem do Cristo que antes fazia tremer os tronos dos poderosos, passou a justificar a sede de poder das classes dominantes.

O Cristo que emerge das páginas do Novo Testamento jamais poderia ser considerado rei nos moldes deste mundo. Ele está bem mais para um anti-rei. Seu discurso desarticula qualquer ambição de dominação.

Certa feita, Jesus flagrou um bate-boca entre seus discípulos para ver quem seria o maioral. Sua resposta foi paradigmática:

“Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores. Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve. Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve.” Lucas 22:24b-27

O que foi isso, senão um golpe desferido sobre a pretensão de se estabelecer uma hierarquia entre seus discípulos? Propositadamente, Jesus subverte a ordem baseada na autoridade imposta de cima para baixo. Em seu reino, o maior é aquele que serve à mesa, e não aquele que almeja ser servido. Ele nos introduz um novo conceito sobre o exercício da autoridade. Em vez de ser aquele que exerce controle, é aquele que exerce cuidado.

Alguém com um discurso desses teria que ser banido o quanto antes. Não eram seus milagres que preocupavam as autoridades da época, e sim o seu discurso revolucionário. O que Ele propunha não era uma insurreição contra os romanos, mas algo bem mais profundo e amplo. Um levante contra o modelo social baseado em hierarquias e controle. E a única arma que deveria ser usada para emperrar este sistema era o amor.

A natureza do reino que Ele representava era, indubitavelmente, anárquica. Ele mesmo, sendo o Rei enviado do céu, não pretendia impor-se como tal, mas apresentar-se como um servo, o menor de todos, o que se apresentava para lavar os pés dos demais.

A igreja por Ele iniciada tinha como objetivo oferecer ao mundo uma amostra grátis de como as coisas funcionam no reino de Deus. Uma comunidade formada por pessoas oriundas de todas as classes sociais, porém, niveladas pela graça. Qualquer distinção classista deveria desaparecer. Entre eles já não haveria distinção étnica, social ou mesmo sexista.

Muito antes da constituição da igreja neotestamentária, Israel experimentou um período de três séculos e meio de anarquia. Eis a prova cabal de que a utopia pode ser alcançada. Mesmo sem a presença operante do Espírito Santo iluminando as consciências (o que só ocorreria a partir de Pentecostes), as doze tribos de Israel coexistiram por 349 anos sem se submeterem à figura de um monarca.

Há um livro da Bíblia inteiramente dedicado a este período da história de Israel. Nele lemos que “naqueles dias não havia rei em Israel; porém cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos” (Juízes 21:25).

Apesar de não terem reis, as tribos se articulavam entre si sob a orientação do seu Deus que falava pelos lábios de profetas.  Com o passar do tempo, os israelitas começaram a almejar constituir uma monarquia semelhante à de outros povos da região. Bastou que um dos juízes se destacasse para que eles o vissem como um pretenso candidato ao trono. Foi assim com Gideão que se recusou bravamente a ocupar a vaga. A proposta que lhe fora feita pelo povo que acabara de libertar da exploração dos midianitas era que Gideão não apenas se fizesse rei, mas também fundasse uma dinastia. “Domina sobre nós”, disseram eles, “tanto tu, como teu filho e o filho de teu filho; porquanto nos livraste da mão dos midianitas.” Quem em sã consciência recusaria a uma oferta dessas? Pois Gideão a recusou peremptoriamente: “Sobre vós eu não dominarei, nem tampouco meu filho sobre vós dominará; o Senhor sobre vós dominará” (Juízes 8:22,23). Ele teria sido o primeiro rei de Israel, caso se dobrasse ante as reivindicações do seu povo. Mas preferiu passar a vez. Se dependesse do herói hebreu, Israel seguiria sendo uma perfeita anarquia.

Séculos mais tarde, quando o oráculo de Deus pesava sobre os ombros de Samuel que reunia o triplo ofício de profeta, sacerdote e juiz, “todos os anciãos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá, e disseram-lhe: Eis que já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora um rei sobre nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações.” Por razões óbvias, Samuel sentiu-se ofendido pela demanda popular e trouxe o assunto a Deus que lhe disse: “Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles” (1 Samuel 8:4-7).

Apesar de sentir-se preterido por seu próprio povo, Deus resolveu atender ao seu apelo. Todavia, convém salientar que a monarquia foi uma concessão divina, não significando que expressasse “a boa, perfeita e agradável vontade de Deus” para o seu povo.

Alguém poderá objetar dizendo que já era plano de Deus para que mais adiante, Davi, que era um homem segundo o seu coração, ascendesse ao trono. Fica subentendido que Saul, o primeiro rei, foi um improviso, alguém que deveria esquentar o trono para aquele que seria, de fato, a provisão de Deus, de cuja descendência viria o governante dos povos, o Filho de Deus.

Permita-me uma analogia. Digamos que a anarquia experimentada por Israel naquele longo período equivalesse ao primeiro andar de uma construção. Deus, então, resolve ceder à pressão popular, permitindo a construção de um segundo andar que seria a monarquia. Davi e sua descendência equivaleriam à escada que ligaria ambos os andares. Através dele, Deus traria ao mundo um rei diferente de todos, que abriria mão do controle pelo cuidado, do poder pelo amor.

Em outras palavras, a provisão divina é tão vasta que abarca até nossos mais desastrosos improvisos.
Porém, isso não significa que Deus tenha desistido de seu plano original. Não há plano B. As eventuais contingências no percurso não impedirão a execução de seu propósito.

Dentro do contexto do Novo Testamento, ouso afirmar que Maria, a mãe de Jesus, foi a primeira pessoa a perceber o teor subversivo da proposta de Deus para a sociedade humana. Em seu cântico conhecido como Magnificat, ela expressa eloquentemente suas expectativas anárquicas:

“A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador; porque atentou na baixeza de sua serva; pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque me fez grandes coisas o Poderoso; e santo é seu nome. E a sua misericórdia é de geração em geração sobre os que o temem. Com o seu braço agiu valorosamente; dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs dos tronos os poderosos, e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos.” Lucas 1:46-53

Depor os poderosos? Elevar os humildes? Esvaziar o bolso dos ricos? Distribuir bens para os famintos? Quem diria que a mãe de Jesus pintada pela tradição como uma figura inofensiva tivesse ideias tão revolucionárias e ideais tão libertários? Que educação ela não teria dado a Jesus, hein? Que tipos de valores ela não lhe teria passado?

Por incrível que pareça, este tipo de ideário perpassa todo o Novo Testamento. Dos Evangelhos sinóticos a Apocalipse.

Foi justamente este ideário subversivo e anárquico que bancou a postura dos apóstolos diante das ameaças recebidas da casta sacerdotal. Expressamente proibidos de ensinarem em nome de Jesus, Pedro e os demais responderam às maiores autoridades religiosas de seu tempo: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29). O que repesentaria tal postura senão desobediência civil? A mesma pregada por Martin Luther King Jr, Mahatma Gandhi, Mandela, Leon Tolstói e tantos outros.

Nenhuma autoridade, por mais legítima que seja, tem a palavra final. Suas ordens devem passar pelo crivo da consciência. A submissão requerida nas Escrituras, sobretudo nas epístolas de Paulo e de Pedro, não pode ser confundida com subserviência (falaremos mais sobre isso num próximo post). Recuso-me a crer que Deus requeresse que obedecêssemos cegamente a alguém, violando nossa consciência em nome de um capricho qualquer.

Embora creiamos que as autoridades constituídas servem a um propósito divino, não atribuímos a elas inerrância, infalibilidade, tampouco vitaliciedade. Toda autoridade tem escopo e prazo de validade. Nenhuma autoridade pode extrapolar as bordas da sua esfera de atuação, nem o prazo estabelecido para o seu exercício.

O mesmo apóstolo que nos advertiu a que nos submetêssemos às autoridades, afirmou que agora mesmo os poderosos deste mundo “estão sendo reduzidos a nada” (1 Coríntios 2:6). O Cristo de Deus é aquele em cuja mão há um cetro de ferro com o qual está quebrando toda estrutura de poder. O anúncio da boa nova do reino é seguido pela denúncia das estruturas hierárquicas que visam manter os homens num cativeiro. E não imagine que a revolução virá de cima para baixo. Pelo contrário. Ela acontece de baixo para cima. Não se trata de uma intervenção apoteótica, mas de uma insurreição pacífica, motivada exclusivamente por amor.

A igreja é convocada a participar de uma conspiração divina que visa depor os poderosos e elevar os humildes, estabelecendo assim a anarquia do reino de Deus. Somos, por assim dizer, a ferramenta pretendida por Deus para emperrar a máquina, sabotar o sistema de dominação, opressão e exploração.

É a isso que Paulo alude no primeiro capítulo de sua primeira epístola aos Coríntios:

 “Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele.” 1 Coríntios 1:26-29

Por isso, a igreja precisa caminhar par a par com os movimentos sociais, identificando-se com seus clamores e aspirações. Em vez disso, temos nos alinhado aos poderosos, sem perceber que assim, estamos nos insurgindo contra o projeto do reino de Deus.

O último capítulo da história já foi escrito. Paulo nos oferece um irresistível spoiler:

“Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder. Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés.” 1 Coríntios 15:24,25

Não se trata do fim do mundo, mas da conclusão do processo histórico. Todas as estruturas de poder terão sido demolidas. A mensagem libertária do evangelho terá sido espalhada por todo o tecido social, gerando uma nova consciência que resultará no apogeu do processo civilizatório, em que governos se tornarão obsoletos.  Seremos, então, governados pela consciência iluminada pelo Espírito de Cristo. Cumprir-se-á a última pincelada profética de Paulo: Quando todas as estruturas de poder houverem se sujeitado a Cristo,  então, Ele mesmo “se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos” (1 Coríntios 15:28). Haveria um desfecho melhor que esse? Deus será tudo em todos! Nada de hierarquias! Nada de governantes! Não mais nações divididas por fronteiras! Não mais a hegemonia do capital! Nada de exploração! Nada de opressão! Apenas Deus sendo tudo em todos.  Seja bem-vindo à santa anarquia do reino de Deus.


Na próxima semana, abordaremos Romanos 13 à luz do que expusemos até agora. 

Segue abaixo a palestra que dei recentemente sobre o tema em questão. Acho que vale a pena dar uma conferida.

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

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A vergonha de Deltan Dallagnol na Lagoinha e a tolice de André Valadão



Por Hermes C. Fernandes

Que pastor midiático esperaria que seu rebanho virasse as costas e deixasse o recinto do templo no momento em que seu púlpito fosse entregue a um procurador da república responsável pela Lava Jato? Pois isso ocorreu na igreja da Lagoinha em Belo Horizonte no “culto fé” dirigido pelo pastor e cantor André Valadão. Pelo menos, de acordo com o próprio, em seu desabafo feito no mesmo culto na semana seguinte. Valadão fez críticas ácidas aos frequentadores de seu culto após a sua inusitada reação ao receber Deltan Dallagnol.

Segue abaixo o desabafo seguido de meu parecer sobre o episódio.

 “Eu falo com você esta noite: Chega de tolice! Vamos dizer? Chega de tolice! São 16 anos que Deus tem me dado a graça de estar aqui na igreja pastoreando voluntariamente e é um prazer muito grande. O “culto fé”, já são aí mais de quinze anos que este culto acontece e tem sido uma grande bênção. Mas os irmãos não entendem aqui, talvez, a força que eu tive que fazer para estar com vocês esta noite, devido à tristeza e a decepção que eu tive com vocês na terça-feira passada. Os irmãos não tem ideia da vergonha que eu passei com a movimentação no culto de tantas pessoas indo embora na terça-feira passada. A atitude da falta de educação de vocês, falta de respeito, falta de interesse. E eu não quero que ninguém saia, por favor. A atitude que vocês tiveram na terça-feira passada me fez repensar em ter o prazer está com vocês na terça-feira. Foi uma atitude completamente infantil, sem educação; uma atitude de desprezo. Uma postura que eu fiquei pensando comigo: quem são estas pessoas que frequentam este culto. Qual o seu interesse de estar aqui neste culto? Tu tá fazendo o que aqui nesta igreja? Eu falo com amor com vocês. Pode ter certeza que eu falo com amor. O que aconteceu na terça-feira passada nesta igreja eu espero que não aconteça nunca mais nos próximos anos na terça-feira. Vocês foram sem educação, desrespeitosos, absurdamente egoístas. Tiveram uma atitude completamente irreverente com a pessoa que veio nesta igreja. Em mais de quinze anos de culto fé, a pessoa mais importante humanamente dizendo foi a pessoa que veio a este culto terça-feira passada e subiu neste altar. É um procurador da república de 36 anos de idade, com uma formação em Harvard. Um cara que tem mudado a história do Brasil através da Lava-jato. Que é de interesse direto no teu bolso, meu irmão. Mais de 70% de vocês que estão aqui hoje estão passando dificuldade financeira e estão vindo na igreja pedindo a Deus ajuda. Estão com problema de dinheiro e estão vindo na igreja pedindo a Deus ajuda. Aí vem um cara, uma batista... quem aqui é batista? Eu sou batista. Vem um batista, crente, líder de célula, referência de Deus, 36 anos de idade, pisa neste alta e você levanta e vira as costas. Você é um tolo, meu irmão. Você é um tolo! Se você quer sua vida mudada, você tem que ouvir pessoas que não ficam apenas espiritualizando as coisas de Deus, mas traz para a realidade cotidiana da vida o que muda a história da humanidade. Eu falo com amor pra você. Eu falo com amor. Que isso nunca mais aconteça! Por favor! Por favor! Por favor! Não sei qual é a situação que você vive ou passa. Mas eu sei que cada um de nós, Deus pode nos usar para mudar a história desta nação. Mas pra isso, nós temos que sair de um posicionamento tolo, limitado, e entender que temos um papel importante. Talvez você hoje é um funcionário. Pode até estar desempregado. E vem uma pessoa com esta trazer uma palavra na igreja, um irmão em Cristo, alguém que está mudando, dando um sinal de mudança na história. A gente ora para mudar o Brasil e quando Deus traz alguém que pode estar sendo usado para mudar a nação, nós viramos as costas e vamos embora? Vocês estão achando que o evangelho é o quê? É contar anjinho? Um anjinho, dois anjinhos, três anjinhos. Tá achando que o evangelho é o quê? Fazer oração para Deus te dar a esposa ideal? Tá pensando que o evangelho é o quê? É na realidade a vida de Deus que transforma, transforma as pessoas. É o reino de Deus na terra. Enquanto nós estamos aqui olhando para o nosso umbigo, tem pessoas, trabalhos e leis sendo feitas, leis contra a família, leis que querem destruir as nossas vidas, leis com liberação de drogas na nação, leis com liberações onde seja proibido pregar o evangelho nas escolas,  nas faculdades,  coisas terríveis acontecendo, e nós estamos contando anjinhos na igreja?”

Antes de tudo, deixo claro que reconheço o constrangimento passado pelo pastor André Valadão. Talvez não tenha sido maior do que o meu quando me neguei a ceder meu púlpito ao deputado Eduardo Cunha numa visita surpresa que fez à nossa igreja tempos atrás. Dada a insistência de um de nossos membros que o estava assessorando, permiti, com muita relutância, que ele apenas saudasse a audiência. Confesso que meu arrependimento foi imediato, mesmo que ele ainda não estivesse envolvido nos escândalos de corrupção que estourariam posteriormente.  Foi a última vez que recebi um político em nossa igreja. Lá se vão uns dez anos.

Apesar de entender seu constrangimento, não o considero uma boa justificativa para ser tão deselegante com o seu próprio povo. Nenhuma autoridade, por maior e mais importante que seja, merece isso. Se o tal procurador tem feito algo de bom pelo país nos últimos dias, aquele povo tem sustentado seu ministério por dezesseis anos.

Creio que a atitude das pessoas que deram as costas no momento em que Deltan Dallagnol assumiu o microfone deve ser levada a sério, não como um desrespeito, mas, quiçá, como uma demonstração de conscientização. Em tempos de mídias sociais, as pessoas estão cada vez mais informadas, assumindo posturas que nem sempre convergem com a de seus líderes.

Qualquer pastor ou líder religioso deveria pensar duas vezes antes de franquear seu púlpito a um político. No caso de Dallagnol, ele não é bem o que poderíamos chamar de político, mas sua atuação, bem como a de seus pares (inclusive a do juiz Sérgio Moro) tem se revelado cada vez mais política (alguém ainda duvida disso?). Senão em sua intenção (queira Deus que não!), ao menos em seus desdobramentos.

Algumas coisas na fala de Valadão me provocaram reações adversas. Por exemplo: dizer que jamais aquela igreja havia recebido alguém tão importante quanto Dallagnol. Nem é preciso estar tão familiarizado com os ensinamentos de Jesus para perceber o quão distante isso está no espírito do evangelho. Repare no que o mestre nazareno diz aos seus discípulos:

“E houve também entre eles contenda, sobre qual deles parecia ser o maior. E ele lhes disse: Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores. Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve." Lucas 22:24-26

Um procurador da república nada mais é do que um servidor público. Suas credenciais não o tornam melhor do que qualquer cidadão comum.

Veja que não era a primeira vez que esta questão surgia entre os discípulos (e pelo jeito, está longe de ser a última). Capítulos antes, lemos que “suscitou-se entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior. Mas Jesus, vendo o pensamento de seus corações, tomou um menino, pô-lo junto a si, e disse-lhes: Qualquer que receber este menino em meu nome, recebe-me a mim; e qualquer que me receber a mim, recebe o que me enviou; porque aquele que entre vós todos for o menor, esse mesmo será grande” (Lucas 9:46-48).

O fato de estar estudo em Harvard, não constitui ninguém mais importante que os demais. Nem mesmo o fato de ser considera um benfeitor do povo. A graça preconizada no evangelho nos nivela a todos. Entre nós, Dallagnol não é mais importante que uma empregada doméstica ou um porteiro de um prédio qualquer.

Bem faria Valadão se atentasse para a advertência de Tiago, um dos mais engajados discípulo de Jesus:

“Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se entrar na vossa reunião algum homem com anel de ouro no dedo e com traje esplêndido, e entrar também algum pobre com traje sórdido e atentardes para o que vem com traje esplêndido e lhe disserdes: Senta-te aqui num lugar de honra; e disserdes ao pobre: Fica em pé, ou senta-te abaixo do escabelo dos meus pés, não fazeis, porventura, distinção entre vós mesmos e não vos tornais juízes movidos de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que são pobres quanto ao mundo para fazê-los ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não são os ricos os que vos oprimem e os que vos arrastam aos tribunais?” 
Tiago 2:1-6 

À luz deste texto, deveríamos honrar a quem Deus estabeleceu como prioridade em sua agenda e não os figurões que se destacam sob os holofotes da mídia.

Quanto o restante de sua fala, tenho a impressão de que André Valadão fez uma crítica ao seu próprio ministério, bem como ao de sua irmã, a cantora e pastora Ana Paula Valadão, com sua mania de espiritualizar tudo, colocando tudo na conta dos principados e potestades de plantão (termos relacionados a entidades malignas que seriam responsáveis pelos males que assolam a humanidade).

Tantas “palavras proféticas” já foram liberadas daquele “altar”. Sem contar os "atos proféticos" (ou seriam patéticos?). Pena que as pessoas tenham memória tão curta. 

O que a igreja precisa não é de heróis, salvadores da pátria, “referências de Deus” como disse Valadão. A igreja precisa é de consciência política.

Espero, sinceramente, que o ocorrido na Lagoinha seja um precedente que leve os líderes a colocarem suas barbas de molho e a desistirem de manipular politicamente seus rebanhos. 

Abaixo, o vídeo do esculacho do pastor André Valadão no povo da Lagoinha.