quinta-feira, janeiro 21, 2021

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EM CELEBRAÇÃO AO DIA NACIONAL DE COMBATE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA


Por Hermes C. Fernandes

Que perseguidores eventualmente se tornem perseguidos, temos inúmeros exemplos, a começar por Saulo de Tarso, que veio a se tornar no maior disseminador da mensagem cristã de sua época. Quando Cristo apareceu numa visão a um cristão chamado Ananias, comissionando-o a levar o evangelho àquele que se tornaria conhecido na história como Paulo, o apóstolo dos gentios, ele respondeu: “Senhor, a muitos ouvi acerca deste homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém; e aqui tem poder dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome.” Pelo que o Senhor lhe respondeu: “Vai, porque este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel. E eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome” (Atos 9:13-16). Anos mais tarde, aquele que testemunhou e consentiu com a morte do primeiro mártir cristão, foi decapitado por ordem de Nero, imperador de Roma. Foi ele mesmo quem disse em uma de suas despedidas: “Em nada tenho a minha vida como preciosa para mim, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus”( Atos 20:24).

Assim como Paulo, muitos perseguidores acabam se tornando perseguidos por sua fé em Cristo. Mas posso assegurar que transformar perseguidos em perseguidores jamais constou da agenda de Deus. Trata-se, portanto, de uma anomalia. 

Não precisamos concordar com os dogmas da religião alheia para respeitarmos os seus adeptos. Apesar das gritantes diferenças, todas têm em comum o fato de buscarem um sentido para a existência. O próprio Paulo, o apóstolo dos gentios, disse que Deus permitiu que cada povo o buscasse como quem está tateando. Respeitá-los não significa abrir mão do que cremos, nem relativizar o papel único de Cristo como Salvador dos homens. 

Ora, se o mundo tateia em busca de Deus, deveríamos nos portar de maneira tal que nossa vida oferecesse uma espécie de escrita em relevo como a linguagem conhecida como braile. Uma vida relevante não é aquela que impõe aos outros os seus valores, mas a que aponta a direção servindo como exemplo. 

Cada cultura e tradição espiritual trazem traços da chamada graça comum . O Criador não nos deixou entregues à própria sorte, mas deu testemunho de si mesmo e do seu amor através da própria criação. 

Se insistirmos na intolerância, ela poderá nos custar a tão cara liberdade de culto que prezamos. Se não queremos ser importunados em nosso momento de culto, não queiramos calar os tambores dos terreiros, nem os sinos das catedrais, nem interromper o silêncio dos monastérios budistas.

Nosso papel como discípulos de Jesus não é atacar o credo alheio, mas amar incondicionalmente aos adeptos de qualquer expressão religiosa. Antes de pregar com palavras, preguemos com gestos. Como dizia São Francisco de Assis, “pregue em todo o tempo, e se precisar, use palavras.” 

Em vez de acusá-los de possessão demoníaca, como frequentemente se faz nos cultos televisionados de algumas igrejas, deveríamos exorcizar os demônios do preconceito que assombram nossas próprias almas. Antes de acusá-los de idolatria, deveríamos nos livrar de nossa devoção aos ídolos secretos, dentre os quais, o dinheiro e o poder. Antes de acusá-los de bruxaria, deveríamos abdicar da presunção de manipular a vontade de Deus a nosso favor através de dízimos, ofertas sacrificiais e intermináveis correntes.

Ora, se todos temos telhados de vidro, não seria melhor que fôssemos mais compassivos uns para com os outros? O diálogo sempre funciona melhor do que o embate. Mãos estendidas costumam ser mais eficazes do que dedos apontados.

Devo confessar que cada vez que vejo um cristão sofrer por sua fé, sinto orgulho de ser cristão. Mas cada vez que vejo um cristão causar sofrimento em alguém, sinto vergonha. Como bem disse Platão, “praticar a injustiça é pior do que sofrê-las.”

Pode-se anunciar o evangelho sem atacar a fé alheia?

Creio, piamente, que sim.

O problema é que estamos usando como abordagem evangelística a mesma tática usada pelo Israel dos tempos bíblicos em suas investidas militares. Com isso, ainda que inconscientemente, reduzimos o nosso Deus a uma divindade tribal que deve ter sua primazia garantida pela destruição de qualquer outra entidade rival. Diferentemente das nações daquela época, vivemos sob a égide de um estado laico, em que o credo professado por cada cidadão deve ser respeitado.

Em vez de nos espelharmos em Jesus, temos tomado o profeta Elias como referência, incorrendo no mesmo erro dos discípulos ao sugerirem que se orasse para que Deus enviasse fogo do céu e consumisse os que se interpunham ao avanço da boa nova. A paradigmática resposta dada por Jesus deveria ecoar continuamente em cada nova geração de cristãos: “Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las”( Lucas 9:55-56).

Se tivéssemos que buscar referências no Antigo Testamento, ninguém seria mais indicado do que Daniel e seus amigos Sadraque, Mesaque e Abede-nego. Apesar de não se dobraram ante aos deuses da Babilônia, também não atacaram a religiosidade alheia, indicando, assim,  a possibilidade de se conviver amistosamente inserido numa sociedade de múltiplas expressões religiosas sem com isso violar nossa consciência.

Se vivesse em nossos dias, Daniel certamente seria acusado por muitos cristãos de ser um ecumenista. Ele não apenas coexistia pacificamente com indivíduos que cultuavam a outros deuses, como foi promovido, pasmem, a mestre dos magos (Daniel 5:11). Todavia, em momento algum, ele comeu dos manjares oferecidos a tais divindades, nem se prostrou ante a elas, mas manteve-se fiel à sua fé e à sua consciência.

Embora jamais tenha tentado converter o rei da Babilônia ou a sua corte, Daniel teve o prazer de ouvi-lo declarar: “Certamente o vosso Deus é Deus dos deuses” (Daniel 2:47). 

A expressão “Deus dos deuses” parece indicar a possibilidade de uma espiritualidade plural e diversificada. Admitir que o Deus a quem Daniel servia estava acima de qualquer outra divindade cultuada naquela sociedade era, sem dúvida, um grande salto. O salmista parece ter expressado o mesmo ideal ao declarar: “Eu te louvarei, de todo o meu coração; na presença dos deuses a ti cantarei louvores”(Salmos 138:1). Ora, se eliminarmos qualquer culto ou espiritualidade que divirja da nossa, como poderemos oferecer nossos louvores ao nosso Deus na presença de outros deuses?

Para muitos cristãos, o ideal seria viver numa sociedade uniformizada, onde a fé numa única divindade fosse imposta por lei. 

Uma abordagem religiosa que não se paute no respeito deveria ser prontamente descartada. Antes de atacar qualquer expressão de fé, deveríamos nos lembrar de que alguns dos que deram boas vindas ao recém-nascido Jesus não eram judeus devotos do Deus de Abraão, mas magos, expoentes de uma espiritualidade que poderia ser considerada, no mínimo, exótica. 

Ademais, depois de sermos duramente perseguidos por séculos, deveríamos ser complacentes com os que sofrem perseguição por causa de sua opção religiosa. De acordo com Jesus, não seríamos reconhecidos como seus discípulos devido ao nosso radicalismo intransigente, mas por amarmos uns aos outros (João 13:35). 

Todavia, a questão nevrálgica parece perdurar: como anunciar a verdade do evangelho sem confrontar o que consideramos engano, ou, na melhor das hipóteses, superstição?

Primeiro, precisamos mudar alguns paradigmas. Cristo não comissionou seus discípulos a converter o mundo à sua fé. À luz do evangelho, tal tarefa é atribuição exclusiva do Espírito Santo.  Nosso papel como cristãos é tão-somente o de dar testemunho do seu amor, sendo uma espécie de amostra grátis do que o evangelho é capaz de produzir no ser humano. Um "evangelho" que produza gente intolerante não me parece muito promissor, concorda?

De fato, Jesus ordenou a seus seguidores que saíssem pelo mundo fazendo discípulos.   Ele disse “discípulos”, não “prosélitos”. Há uma linha tênue entre discipulado e proselitismo.  Quem discipula tem o objetivo de partilhar o que recebeu de seu mestre. Quem faz proselitismo tem como alvo duplicar a si mesmo, fazendo com que o outro abrace suas ideias, seus valores, seus preconceitos, pressupostos, e até seus trejeitos. O discipulado respeita a alteridade. O proselitismo, não. O discipulado costuma ser discreto, sutil. O proselitismo é, por natureza, panfletário e ostensivo. Para se ter um ideia do mal que o proselitismo pode produzir, repare no que Jesus diz acerca dos seguidores de uma das vertentes mais sectárias do judaísmo de Seu tempo:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.” Mateus 23:15

A proposta de Jesus estava na contramão de tudo isso.  Não precisamos percorrer o mundo para nos duplicarmos. Basta que comuniquemos a mensagem do reino de Deus de maneira discreta através de nossa vida, sem imposição, sem querer exercer controle, sem a presunção de sermos donos da verdade.

* Trechos do meu livro “INTOLERÂNCIA ZERO”.

segunda-feira, janeiro 18, 2021

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A VACINA É DOM DE DEUS


 Por Hermes C. Fernandes

Finalmente, chegou o grande dia. Duas das vacinas desenvolvidas para o combate ao novo coronavírus foram aprovadas pela ANVISA. Minutos depois da aprovação, São Paulo saía na frente, vacinando a primeira pessoa no país. Independentemente do marketing político, aquele gesto trouxe esperança a milhões de brasileiros. No dia seguinte, vacinas foram distribuídas pelo ministério da saúde para todos os estados. E cedendo à pressão dos governadores, o ministro anunciou que a vacinação começaria no mesmo dia e não dois dias depois como havia sido programado. 

Era de se esperar que toda a população brasileira celebrasse a chegada das vacinas. Porém, a onda do negacionismo deixou um rastro que impediu que muitos vislumbrassem o valor de tal proeza. 

Da parte do governo federal não há qualquer esforço para conscientizar a população a se vacinar. Pelo contrário, além de enfatizar o fato de não ser obrigatório, o presidente ainda faz questão de inculcar dúvidas acerca de supostos efeitos colaterais, incentivando as pessoas a preferirem recorrer a um tratamento precoce com remédios sem qualquer comprovação de eficácia. Não há interesse em vacinar a população, visto que isso representaria um enorme gasto aos cofres públicos. 

Fake News se espalham pelas redes sociais, principalmente em grupos de whatsapp. E para completar, pastores que aderiram à onda negacionista e antivacina, usam seus púlpitos e redes sociais para dissuadir os fiéis a tomarem a vacina, alegando, entre outras coisas, que não houve tempo suficiente para as que vacinas comprovassem sua eficácia. Soma-se a isso as teorias da conspiração que dizem que as vacinas vão alterar o DNA humano e associam à marca da besta do Apocalipse. 

Como enfrentar esta onda negacionista? Como persuadir as pessoas a serem vacinadas?

Lembre-se que não se trata apenas de proteger o indivíduo de um eventual contágio pela COVID-19, mas também de proteger toda a sociedade. Se a vacinação não atingir a um percentual significativo da população, sua eficácia não alcançará o resultado esperado, permitindo que a pandemia siga sua marcha destruidora. E aí, os negacionistas tripudiarão, alegando que tinham razão desde o início. 

Fico imaginando como foi que Moisés conseguiu convencer a todos os hebreus a espargirem o sangue de um cordeiro nos umbrais de suas portas para que ficassem imunes ao anjo da morte que passaria pelo Egito ceifando a vida de todos os primogênitos (Êxodo 12:1-13). Aquela foi a primeira imunização em massa da história.  É claro que não se tratava de uma vacina. Mas o paralelo entre o que ocorreu naquela ocasião e o que está ocorrendo em nossos dias é inevitável. O anjo da morte que está visitando os lares de toda a população mundial é a COVID-19. E o equivalente ao sangue do cordeiro espargido nos umbrais das portas é a vacina, seja ela qual for. Moisés disse que quem não tivesse um cordeiro, poderia lançar mão de um cabrito. Da mesma forma, se não nos for possível recorrer a uma vacina como a da Pfizer que tem mais de 90% de eficácia, recorramos a uma da Oxford/FioCruz que tem 70% ou a uma CORONAVAC do Butantan/Sinovac que tem pouco mais de 50%, O importante é sermos imunizados o quanto antes. Não se pode brincar com a vida. 

Naquela fatídica noite, o anjo da morte passou, Somente os primogênitos dos hebreus foram poupados. Não por serem hebreus, mas por causa do sangue espargido nos umbrais das portas. 

O anjo da morte não faz distinção entre hebreus e egípcios. A única coisa que ele respeita é o sangue do cordeiro. De maneira análoga, o vírus não respeita distinções étnicas, culturais, religiosas, sociais ou de qualquer outra natureza. De acordo com a ciência, só há uma maneira de combate-lo: A VACINA. 

Já pensou se algum negacionista da época resolvesse inventar um tratamento precoce? Que trabalheira Moisés teria para desfazer o estrago feito pela disseminação dessa mentira. 

Os próprios cientistas, diretores da ANVISA, deixaram claro que não há alternativa terapêutica comprovada pela ciência. 

Portanto, só nos resta uma esperança quanto ao fim desta pandemia que já ceifou a vida de mais de dois milhões de pessoas (210 mil somente no Brasil). Esta esperança é a vacina.

Sabemos que os cordeiros sacrificados pelos hebreus eram uma representação do Cordeiro de Deus, o Cristo, Aquele em quem encontramos “todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Colossenses 2:3).

Não tenho qualquer dúvida quanto à inspiração divina por trás da descoberta dessas vacinas. Não me causa qualquer espanto o fato de terem sido descoberta em tempo recorde. Conforme previsto nas Escrituras, a ciência está se multiplicando. O espaço entre uma descoberta e outra diminui cada vez mais. Seria devastador se tivéssemos que esperar oito ou dez anos até que a vacina contra o novo coronavírus fosse desenvolvida. Provavelmente teríamos um resultado semelhante ao da gripe espanhola que ceifou a vida de cinquenta milhões de pessoas no século passado. 

Por isso, só me resta dizer: louvado seja Deus pela vacina!

E quem negar-se a toma-la, estará tentando a Deus ao colocar em risco a sua vida e a vida de seus amigos e familiares. 


sexta-feira, janeiro 15, 2021

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PORQUE RESPONSABILIZO O DESGOVERNO DE BOLSONARO PELO CAOS EM MANAUS E NO BRASIL

 


Por Hermes C. Fernandes

Ontem, assisti à live semanal do presidente Jair Bolsonaro. O que vi foi um show de horrores e de negação da ciência. Num dado momento, Rodrigo Constantino dirigiu uma pergunta ao general Pazzuelo, ministro da saúde. O jornalista bolsonarista questionou as medidas preventivas da COVID-19 como o distanciamento social, o uso de máscaras, e por fim, questionou as vacinas. Segundo ele, os governos estariam nos tratando como meros súditos. Surpreendentemente, Pazzuelo elogiou a pergunta de Constantino, chamando-a de inteligentíssima. Sinceramente, para mim, a resposta de Pazzuelo foi uma confissão de culpa. Ele relativizou, na maior cara de pau, todas as medidas que seu próprio ministério tem adotado. E, pasmem: ele disse que o que aumenta nossa imunidade contra o vírus é o fato de estarmos felizes, nos divertindo, transitando livremente. Logo, o distanciamento social, por nos privar de tudo isso, seria o responsável pela queda de nossa imunidade e consequente disseminação do vírus. É justamente este discurso anticientífico que deve ser responsabilizado pelo caos que se instalou no país. Discurso esse que tem sido reverberado em milhares de púlpitos de igrejas pelo Brasil afora. Pelo jeito, o vírus da ignorância tem letalidade igual ou maior que o da COVID-19.

Não adianta repassar milhões para os governos estaduais só para poder culpá-los pela má gestão da crise sanitária. O discurso negacionista reduz a nada qualquer esforço de atenuar os efeitos da pandemia. 

O que o país está vivendo agora é fruto das festas de fim de ano. O discurso bolsonarista insiste em que as pessoas devam circular livremente e que o comércio e demais atividades devam funcionar normalmente. Deputados bolsonaristas como Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, Bia Kicis e Carla Zambelli comemoraram quando o povo de Manaus desafiaram as medidas tomadas pelo governo local, saindo às ruas em protesto e pedindo a reabertura do comércio. 

Eles precisam ser responsabilizados, juntamente com o seu mentor e mito. Não dá para fazer vista grossa com o que está ocorrendo no país. 

Não se trata de incompetência. Antes fosse. Pelo contrário, eles estão sendo competentíssimos em convencer as pessoas a tomarem atitudes suicidas e se negarem a tomar a vacina. Eles não querem ter gastos com vacinação em massa. Preferem um genocidio que já está em andamento. O vírus é um aliado deste desgoverno. 

Minha esperança é que a história os julgará. E ainda que escapem dos tribunais humanos, não escaparão do tribunal divino.

Enquanto isso, a Venezuela envia cilindros de oxigênio para socorrer a população de Manaus. Diante das cenas que se propagam mundo afora, ninguém mais tem receio de que seu país se torne numa Venezuela. O receio do mundo é se tornar num Brasil.

E para os pastores que insistem em apoiar esta necropolitica, deixo a exortação do apóstolo Paulo:

“E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as.” Efésios 5:11 

Lembrem-se que o próprio diabo citou a Bíblia diversas vezes para enredar Jesus durante a tentação no deserto.

quarta-feira, janeiro 13, 2021

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A CULTURA DO CANCELAMENTO E O TRIBUNAL DAS REDES SOCIAIS

Por  Hermes C. Fernandes

O termo cultura do cancelamento tem ganhado destaque nos últimos anos no ambiente virtual e diz respeito à resposta dada por internautas a políticos, artistas, esportistas, empresas, influenciadores digitais ou qualquer outra figura pública (inclusive líderes religiosos) com o objetivo de provocar uma debandada de seguidores em reação a algum tipo de postura considerada condenável, ofensiva ou preconceituosa.

Trata-se, portanto, de uma espécie de tribunal cibernético. Trocando em miúdos: alguém se depara com uma ação que considera errada nas redes sociais; registra esta falha e posta para os seus seguidores com críticas ácidas (às vezes, desproporcionais). Em pouco tempo, cria-se uma onda de protestos que conta com a adesão de milhares de internautas, muitos deles, formadores de opinião. O estrago está feito. A pessoa criticada passa a sofrer um “cancelamento”, perdendo seguidores em ritmo acelerado. 

Não haveria punição pior para os que vivem em função de sua imagem e da repercussão de seu trabalho pelas redes sociais. 

A "cultura do cancelamento" tem sido tão marcante que o dicionário australiano Macquarie a elegeu como a palavra do ano de 2019, classificando-a como  "uma atitude tão persuasiva que ganhou seu próprio nome e se tornou, para o bem ou para o mal, uma força poderosa”.

De acordo com o dicionário Merriam-Webster, a definição do termo "cancelar" é "destruir a força, efetividade ou validade". Portanto, quando uma pessoa diz que está cancelando uma celebridade, é isso que ela está intentando fazer.

Quais as origens desse fenômeno? O que levaria alguém a ser cancelado? A cultura do cancelamento realmente funciona? Haveria precedentes que remontem a eras anteriores à cibernética?

Cancelar representa um ataque à reputação do alvo. Ele pode perder o emprego ou um contrato, perder seguidores e ter baixas representativas que afetam tanto a sua vida profissional, quanto a pessoal. 

Argumentos favoráveis à cultura de cancelamento afirmam que o movimento faz com que as manifestações das figuras públicas nas redes sociais sejam mais responsáveis. Mas seus críticos dizem que, apesar da ideia sugerir uma nobreza de intenção, na prática pode apresentar problemas, sobretudo, quando não se oferece à pessoa cancelada a oportunidade de se redimir ou de se desculpar. Sem contar que um dos elementos que podem levar a tal veredito são as fake news divulgadas por haters, trolls ou mesmo por alguém que se beneficie deste cancelamento, como por exemplo, uma empresa concorrente. 

Portanto, o cancelamento pode ser uma ferramenta útil, desde que usada com responsabilidade. Não há razão, por exemplo, de repercutir discursos de ódio, exceto com o objetivo de expô-los e contradizê-los. 


Encontramos diversas orientações bíblicas acerca disso. O próprio Jesus diz: “Não julgueis pela aparência, mas julgai segundo o reto juízo” (João 7:24). Nem tudo é o que parece. 

Por outro lado, temos que saber separar. Não preciso cancelar um artista por discordar de seu posicionamento político, a menos que ele mesmo esteja usando de sua fama para disseminar ódio e intolerância. Há que se tomar os devidos cuidados para não jogar fora a criança com a água do banho. O apóstolo Paulo diz que devemos examinar tudo, retendo o que for bom (1 Tessalonicenses 5:21). Mas por outro lado, também não podemos fazer vista grossa a certas posturas simplesmente por admirarmos a uma personalidade do mundo artístico, político ou esportivo. 

Segundo o apóstolo Paulo, “há muitos insubordinados, faladores vãos, e enganadores (...) aos quais é preciso tapar a boca; porque transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância” (Tito 1:10,11).

Imagine alguém que não se submeta às orientações da OMS com relação à pandemia, e ainda por cima, divulgue fake news que levem pessoas a arriscarem suas vidas e a vida de seus entes com atitudes inconsequentes.  Não se trata de impor censura, mordaça, cerceando a liberdade de expressão, mas de não reverberar seu discurso, servindo-lhe de megafone. Por isso, concordo com medidas drásticas como as tomadas pelas redes sociais em banir pessoas que incentivem a intolerância, o preconceito e a desinformação, não poupando nem mesmo autoridades como Donald Trump, presidente dos EUA. O que ocorreu no Capitólio nos últimos dias é um exemplo do que um discurso de ódio é capaz de promover. 

CANCELAMENTO E OSTRACISMO

Atenas, o berço da democracia, deparou-se com um sério problema que poderia ameaçar o novo modelo de sociedade que emergia próximo do final do século seis a.C.  Este seria, por assim dizer, um efeito colateral indesejável que exigia reparação, sob pena de colocar em risco a ordem democrática. Se pela democracia se elegiam os representantes da pólis, como se livrar daqueles que só pensavam em si mesmos e em suas próprias ambições?  Se tais indivíduos fossem deixados à vontade, poderiam semear a discórdia, atiçando as pessoas umas contras as outras no afã de tirarem alguma vantagem, promovendo assim a ruína da recém-nascida democracia. Em vez de apelar para medidas violentas, os cidadãos atenienses encontraram uma solução mais civilizada, e, por conseguinte, satisfatória.

A cada ano, eles se reuniam na praça do mercado (Ágora) e escreviam num pedaço de cerâmica chamado de ostrakon,  o nome do indivíduo que desejassem ver banido da cidade por dez anos. Alguns dicionaristas veem nesse ostrakon uma concha de ostra propriamente dita untada de cera; outros acreditam que não passava de um caco de cerâmica. Se um determinado nome recebesse sete mil votos, a pessoa era imediatamente exilada, e, assim, confinada à solidão. Se ninguém alcançasse tal número, então, aquele que houvesse recebido mais votos ficava dez anos em “ostracismo” (ostrakhismós).  Tal ritual tornou-se tão importante que se transformou numa celebração festiva, dado o alívio causado pela expulsão de pessoas consideradas desagregadoras do convívio social. O isolamento social do banido seria análogo à solidão de um molusco encerrado em sua concha. Mas nem sempre o resultado era justo.

Por exemplo: Aristides, um dos grandes generais atenienses responsáveis pela derrota dos persas na batalha de Maratona foi vítima deste processo. Sua integridade lhe rendeu o apelido de “O justo”.  Aos poucos, os atenienses começaram a nutrir uma antipatia à sua figura, principalmente no exercício da função de magistrado. Depois de ter sido quase uma unanimidade entre os atenienses, Aristides foi banido em 482 a.C.  Outro general que teve o mesmo fim foi Temístocles , que após muitas vitórias no campo de batalha, tornou-se no principal líder da cidade. Acusando-o de ser arrogante e autoritário, os atenienses se esqueceram dos templos que construíra e dos perigos de que os havia livrado, exilando-o através do ostrakon em 472 a.C.

Até mesmo Péricles, considerado o “pai” da democracia ateniense, recebeu muitos votos para ser ostracizado, mas nunca chegou a sofrer efetivamente tal sentença.

Nem Sócrates foi poupado, sendo acusado de corromper os jovens a quem ensinava seu método filosófico. Mas o filósofo preferiu a sentença de morte por cicuta à saída de Atenas.

Aristóteles defendeu a utilização de tal mecanismo como método preventivo que evitasse que certos indivíduos acumulassem poder e prestígio em razão de suas riquezas e influência política. Apesar de defender sua utilidade, Aristóteles também foi o primeiro a reconhecer os riscos que representava: “Este princípio, contudo, não tem sido aplicado justamente nos Estados, pois, ao invés de procurarem o bem para a sua Constituição, o ostracismo tem sido usado para beneficiar algumas facções.”

Há presenças que trazem incômodo aos que optam pela mediocridade, pois expõem de maneira eloquente suas vicissitudes. Estes sempre buscam apagar a luz daqueles que os ofuscam.  Foi por isso que Saul perseguiu a Davi depois de ouvir as mulheres de seu povo cantando: “Saul matou a milhares, mas Davi matou a dez milhares!”  Foi também por isso que o próprio Davi intentou se livrar de Urias, marido de Bate-Seba, pois encontrou nele um homem mais justo, íntegro e leal do que ele mesmo.  Não foi só para varrer seu pecado para debaixo do tapete.

Foi também por isso que os sacerdotes tramaram para matar a Jesus.

Ninguém que desafie os falsos escrúpulos de uma sociedade fica impune. Mesmo que não recorramos a um processo semelhante ao dos atenienses, sempre damos um jeito de nos livrar daquela pedra em nosso sapato. Obviamente que para submeter alguém ao ostracismo, faz-se necessária uma justificativa plausível que não nos renda a fama de injustos. Saul acusava Davi de usurpar seu trono. Davi nem se deu o trabalho de acusar Urias, preferindo agir sorrateiramente, sem qualquer justificativa a seu ato cruel e desumano. Os sacerdotes alegaram que a presença de Jesus era uma ameaça ao bem-estar da população, pois poderia despertar a fúria dos romanos. Mas no fundo, o que movia Saul em sua perseguição implacável a Davi era o ciúme. O que moveu Davi em sua decisão de ordenar que Urias fosse abandonado na frente da batalha foi a inveja, posto que queria para si o que era dele, isto é, sua mulher. O que moveu os sacerdotes a tramarem para matar a Jesus foi a ganância, principalmente depois do prejuízo dado ao templo ao derrubar as mesas dos cambistas e expulsá-los ao sabor do chicote.

De fato, há pessoas que precisam ser colocadas numa espécie de quarentena a fim de não contagiarem os demais com seus intentos malévolos e facciosos. Paulo nos fala disso abertamente, advertindo  a Timóteo a evitar “as conversas inúteis e profanas, porque produzirão maior impiedade. E a palavra desses se alastra como câncer” (2 Timóteo 2:16-17a). Se não forem devidamente tratados, suas palavras se espalharão como numa metástase, comprometendo a saúde de todo o organismo.  

O que é a síndrome do ostracismo?

Chamamos de “síndrome do ostracismo” o estado mórbido caracterizado por uma série de sintomas que algumas pessoas passam a manifestar após a perda de uma posição de poder,  fama ou prestígio, e que tem como consequência a experiência de anonimato, do isolamento, da exclusão social. Tal síndrome ocorre justamente com as pessoas que, acostumadas aos holofotes, sem mais, nem menos, perdem o poder ou o status social, sendo involuntariamente confinadas ao seu mundinho particular.

Quando alguém alcança a posição de notoriedade, passando a ser o centro das atenções do grupo social, o ego e a autoestima se inflam de tal maneira que é natural que ele se sinta querido e amado. As constantes adulações e elogios podem leva-lo a se considerar superior e mais importante que os demais à sua volta. Sem contar que sua posição social pode lhe conferir acesso a uma série de condições, privilégios e regalias que as pessoas comuns não possuem. A notoriedade, todavia, pode privar a pessoa da consciência de sua própria realidade, da brevidade da sua vida, e dos objetivos prioritários a serem alcançados para que possa crescer e evoluir como ser humano.

As pessoas devem ser amadas, queridas e valorizadas não pelo poder que ostentam, ou pela posição de privilégio que alcançaram, mas pelo que são.  Sair de cena, deixar de ser o centro das atenções, perder os holofotes, não deveria ser motivo de autocomiseração ou autopiedade.

Quem nos abandona nesses momentos revela jamais ter nutrido qualquer sentimento legítimo de amor para conosco. Amavam apenas as vantagens e benefícios que poderíamos proporcionar-lhes no exercício do poder de que dispúnhamos.  Queriam nossa companhia para tirarem uma casquinha do nosso prestígio. Mas jamais amaram nossa essência, aquilo que somos à parte dos papéis sociais que nos cabem.

Deixar-nos só pode ser um grande favor feito por quem dizia nos amar, mas só queria mesmo se locupletar. Às vezes precisamos de certa dose de isolamento para que, tal qual uma ostra, aprendamos a lidar com a nossa dor e transformá-la numa pérola de grande valor.

terça-feira, dezembro 15, 2020

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SER CONTRA A VACINA É SER CONTRA CRISTO

Por Hermes C. Fernandes

Em um tempo marcado pela ignorância e pelo obscurantismo, muitos preferem dar crédito às fake news que se disseminam nas redes sociais do que à própria ciência. Se fossem apenas mentiras que visassem destruir a reputação de adversários políticos não seriam tão nocivas. Mas trata-se de mentiras que põem em risco a vida de milhões de pessoas. Refiro-me ao movimento antivacina que tem contado com a adesão de políticos e líderes religiosos.  

As vacinas têm se revelado no meio mais efetivo e seguro para se combater e erradicar doenças infecciosas. Uma vacina contém um agente que se assemelha ao microrganismo causador da doença que se pretende combater, e geralmente é feita a partir de formas enfraquecidas ou mortas do vírus ou de partes do mesmo. O agente estimula o sistema imunológico do corpo a reconhecê-lo como ameaça, destruí-lo e manter um registro para que possa reconhecer e destruir qualquer um desses microrganismos que eventualmente possa encontrar. 

Para facilitar a compreensão da lógica por trás da vacina, sugiro que recorramos, de maneira análoga, ao Evangelho. 

De acordo com a teologia cristã, a criação como um todo fora infectada por um vírus letal chamado “pecado”. Não se trata, entretanto, de algo restrito ao campo da moralidade, mas de uma condição existencial marcada pela alienação de sua fonte primeva, Deus. Como afirma Paulo, toda a criação ficou sujeita à vaidade. Em outras palavras, o que deveria ser eterno, tornou-se fugaz. 

Somente uma poderosa vacina livraria a criação desse vírus. Paulo escreve: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós” (2 Co.5:21). Sem jamais ter cometido pecado algum, Cristo assume nossa condição existencial. Como toda vacina, Cristo teve que entrar no corpo infectado, para que Sua presença despertasse nosso sistema imunológico, e, assim, eliminasse o vírus. O corpo infectado a que me refiro é o Universo. O Deus transcendente, isto é, que vive para além do tempo e do espaço, Se fez imanente, penetrando a Criação, para restaurar sua saúde original.

Por Sua morte, Cristo restaurou a saúde do Universo. O vírus do pecado foi banido! “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!”, exclamou João Batista. Embora os sintomas pareçam persistir, o vírus já foi eliminado. Paulo nos informa que “Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne” (Rm.8:3b). Entretanto, ainda teremos que conviver com suas sequelas até que o corpo recupere plenamente o seu vigor.

Diferente dos sacrifícios exigidos na Antiga Aliança, que tinham que ser renovado ano após ano, o sacrifício de Cristo foi definitivo. Não se trata de um remédio em doses homeopáticas, mas de uma única dose. “Doutra forma”, declara o escritor sagrado, “necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hb.9:26).

A vacina foi preparada de antemão, antes mesmo da criação do cosmos. Por isso se diz que o Cordeiro foi morto antes da fundação do mundo. Mas a aplicação dela se deu na plenitude dos tempos, quando Cristo Se humanizou.

Uma vez livres do poder do pecado, somos reintroduzidos no projeto original de Deus: a eternidade. Uma vez vacinados, não há como ser infectados novamente. Nas palavras de Paulo, simplesmente estamos “mortos para o pecado” (Rm.6:11). Ele não exerce mais o mesmo poder que antes tinha sobre nós. “Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e por fim a vida eterna” (Rm.6:22). Esse “por fim” não deve ser entendido como sendo algo que só teremos no fim de todas as coisas. Creio que a vida eterna é para ser desfrutada agora. Esse “por fim” significa “por objetivo”. O objetivo de Deus ao nos libertar do poder do pecado é conceder-nos a vida eterna.

O amor de Deus exige que o objeto amado se torne eterno. É porque o “seu amor dura para sempre” (Ed.3:11), que “tudo o que Deus faz durará eternamente” (Ec.3:14). O único empecilho a isso era o pecado. Porém esse foi definitivamente vencido na Cruz.

Quem entende a lógica do evangelho não terá qualquer dificuldade em entender a lógica por trás das vacinas. Graças a elas, moléstias que assolaram a humanidade por milênios foram banidas. Dar ouvidos aos que propagam mentiras acerca das vacinas é negar a ciência e contrariar a vontade de Deus que é o bem-estar de Suas criaturas. Por trás do movimento antivacina está o espírito do anticristo. Ser antivida é ser pela morte e contra o espírito do evangelho.

quinta-feira, dezembro 10, 2020

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SINCERAMENTE, ACHEI QUE SERÍAMOS ENGOLIDOS VIVOS



Por Hermes C. Fernandes

Por favor, leia o relato até o fim. Milagres ainda acontecem.

Finalmente chegara o dia do tão anunciado "Choque de Amor", ação social promovida pela Igreja Reina no ex-Lixão de Jardim Gramacho, Duque de Caxias, RJ. Estávamos todos exaustos depois de uma semana inteira dormindo entre 4 a 5 horas por noite. Também estávamos apreensivos, pois três dias antes ficamos sabendo que uma ONG, com a qual não chegamos a celebrar parceria, havia distribuído senhas para mil famílias receberem nossas cestas básicas. Como poderíamos atender a tanta gente? Tentamos desfazer o mal entendido, porém, já estava muito em cima. 

Era por volta de 9:45h quando chegamos ao Lixão. Atrás do meu carro, dezenas de outros. Tão logo entramos na rua do evento, deparamo-nos com uma multidão à espera do que fora prometido.  E agora, como faremos? 

Tentei acalmar os membros de nossa equipe, dizendo que Deus tinha tudo sob controle. Mas eu mesmo estava muito nervoso e imaginando o que aquele povo poderia fazer se não pudéssemos atender a todos.

Chegando em frente à igreja do Nazareno, resolvemos montar ali nossas barracas e começar a descarregar as centenas de cestas, brinquedos, material escolar e roupas que havíamos trazido.

Orientei aos voluntários que só receberiam as cestas os que houvessem sido cadastrados pela nossa própria equipe duas semanas antes. Tínhamos distribuído apenas 130 senhas, e ficamos de retornar na semana seguinte para distribuir mais até inteirarmos 200. Porém, vieram as chuvas, as enchentes, e algumas igrejas nossas tiveram que acudir seus membros que perderam tudo. Disse à equipe que não nos responsabilizaríamos pelas senhas distribuídas pela ONG, uma vez que a parceria não havia sido celebrada, e que, sequer havíamos combinado aquilo.

Decidimos que antes de entregar as cestas, entregaríamos os presentes do projeto Fada Madrinha, através do qual cerca de 130 crianças foram apadrinhadas, recebendo roupas e calçados novos, além de brinquedos e material escolar.

Quando terminamos de descarregar os carros e fretes, vimos que havíamos ultrapassado em largo nossas expectativas. Tínhamos, ao menos, 300 cestas básicas, muitas com itens natalinos. Combinei com a minha equipe que priorizaríamos as 130 famílias que receberam as senhas, e o que sobrasse, distribuiríamos entre as demais famílias. 

Após entregarmos as 130 cestas, a impressão que tínhamos era que nenhuma cesta havia sido entregue ainda, pois o lugar onde estavam postas continuava tão cheio quanto antes. Era como se presenciássemos uma reedição do Milagre da Multiplicação. Era hora de convocar as demais pessoas que não tinham senha. Temi. Achei que não deveríamos anunciar pelo autofalante para evitar tumulto. Seria melhor boca-a-boca. Mas não adiantou nada. A multidão se aglomerou. Era assustador. 

E as crianças que não haviam sido apadrinhadas? Como era duro para mim vê-las tristinhas, decepcionadas por não terem recebido nada. Tomei-as pelas mãos como um professor toma a turma na hora do sinal para conduzi-la à sala. Levei-as até onde estavam os demais brinquedos. O sorriso brotou em seus rostinhos. Conseguimos presentear a todas! Bonecas, carrinhos a pilha, bolas, jogos, e muitos outros. 

A montanha de roupas e calçados que se formou foi desaparecendo aos poucos. As pessoas tinham liberdade de escolher os que quisessem. 

Ao término do evento, eu e a equipe de voluntários da Reina estávamos surpresos com o resultado. Como que por um milagre tínhamos dado conta daquela multidão. Ainda pudemos visitar algumas casas para levar compras para aqueles que estavam impossibilitados de vir até o largo. Um dos casos foi de uma família com duas crianças autistas vivendo na mais absoluta miséria. O outro foi de uma família com uma senhora com câncer já em estado avançado. 

Ao todo, distribuímos quase 6 toneladas de mantimentos, mas isso não é nada comparado ao que recebemos. Era como se o próprio Jesus estivesse escondido por trás de cada sorriso, de cada lágrima de emoção e gratidão, de cada abraço apertado. 

Lá se vão 7 anos desde aquele fantástico dia que marcou para sempre a nossa vida e ministério.  Louvo a Deus por nos permitir viver esse momento ímpar em nossa caminhada. Foi bom demais encontrá-lo ali, na última fronteira, entre os pobres, desprezados e excluídos, entre os que têm fome e sede de justiça. 

No próximo sábado, dia 19, teremos mais uma edição do CHOQUE DE AMOR. Desta vez, 200 famílias receberão cestas básicas contendo também itens natalinos e de prevenção ao COVID-19. Mais do que nunca, precisamos de ajuda. Na verdade, precisamos mesmo é de um milagre como o que ocorreu sete anos atrás. Você não gostaria de ser um canal de provisão para este projeto de amor? 

Cada cesta básica custa por volta de 100 a 120 reais. Peço a Deus que toque o coração de quem estiver lendo essas linhas. Toda ajuda importa! 

Se desejar participar conosco, deposite ou transfira sua contribuição para: BRADESCO Agência 0582 c/c 73784-4 em nome de Hermes Carvalho Fernandes, CPF 936697207-15. Se preferir usar o PIX, nossa chave é hermescfernandes@hotmail.com

Se puder, faça ainda hoje. Estamos realmente correndo contra o tempo. Queremos proporcionar àquelas famílias um Natal inesquecível.


Desde já, grato de coração!

terça-feira, dezembro 08, 2020

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NOÉ E O FLAGRANTE DO CANGURU


Por Hermes C. Fernandes

Noé inspecionava os animais que entravam perfilados na arca de dois em dois. De cada espécie, um casal para garantir a preservação da espécie após o dilúvio. Todos entravam pacientemente, esperando a sua vez. Tigres, leões, crocodilos, hipopótamos, todos se comportavam super bem. Mas, de repente, o patriarca percebeu uma movimentação estranha no meio da fila. Deixando sua esposa encarregada da inspeção, retirou-se da entrada da arca e foi verificar o que estava causando aquele tumulto.

Chegando lá, Noé deparou-se com um casal de cangurus que pareciam muito afoitos. Os animais à sua volta os acusavam de estar furando a fila. Cada vez que a fila andava, em vez de dar um passo como os demais, eles saltavam, e assim, passavam a frente de pelo menos outros dois ou três casais.

– Vocês poderiam fazer o favor de esperar a sua vez? – apelou Noé.

– Perdoem-nos, Noé. Não fazemos isso propositadamente. Está em nossa natureza saltar. Simplesmente, não conseguimos evitar – respondeu o senhor canguru.

– Sim, assim como está na natureza dos coelhos, nem por isso estão furando a fila – retrucou o patriarca.

Um papagaio pousou subitamente no ombro de Noé e sussurrou em seu ouvido.

– Então é isso – disse Noé, balançando a cabeça e fitando seriamente o casal de marsupial.

– Já avisaram a vocês que só pode entrar na arca um casal de cada espécie? Filhotes não serão aceitos. Sinto muito, mas são ordens superiores.

– Não estamos trazendo filhote algum – respondeu o senhor canguru.

– Então o que é isso que sua excelentíssima esposa traz na bolsa? – indagou o patriarca.

–Nãooo é na... na... nada – respondeu gaguejando.

– Está na cara que vocês estão escondendo – concluiu Noé.

– Por que faríamos tal loucura? – perguntou a senhora canguru.

– Então, não se importaria que eu a examinasse, não é mesmo?

Noé se aproximou calmamente, temendo que o macho lhe desferisse um golpe, e apalpou a região da bolsa da senhora canguru.

– Aqui está! Eu sabia que escondiam algo. Bem que o papagaio me alertou.

Quando meteu a mão por dentro da bolsa para checar o que havia ali, deparou-se com algo que possuía duas texturas diferentes, uma dura, compacta, e outra mole e gosmenta. Definitivamente, não era um filhote de canguru.

Segurando-o firme, tirou-o rapidamente.

– O que é isso?

O senhor canguru respondeu por entre os dentes:

– É meu amigo caracol.

– E por que precisou escondê-lo? Vocês não sabem que todas as espécies são bem-vindas à arca?

– Sim, mas o caso dele é bem diferente, senhor.

– Se importa em me dizer por quê?

– O senhor foi claro ao dizer que de cada espécie deveria entrar um casal, certo?

– Sim. Qual o problema com isso? Bastava entrar o caracol e sua digníssima esposa... qual é mesmo o nome da fêmea do caracol? Caracolina, certo?

Todos começaram a rir.

– Pois é... Este é o problema. Caracóis são hermafroditas, senhor. Cada um possui os dois sexos. Não há caracol macho e caracol fêmea.

– Agora vocês me arrumaram um baita problema. A instrução que recebi foi muito clara. Somente casais. Ninguém me falou sobre esse tal de herma...

– Hermafrodita, senhor – completou o canguru.

– Isso aí. Isso não estava previsto.

– Então, nosso amigo caracol vai ficar de fora?

– Receio que sim.

– Está vendo por que tivemos que escondê-lo? Sabíamos que não o aceitariam.

– Como já disse, apenas obedeço ordens –justificou Noé.

– E o senhor acha justo deixa-lo morrer no dilúvio? Ele tem culpa de ter nascido com os dois sexos? Não foi o próprio Deus que o criou assim? – argumentou o canguru.

– Acho que vocês estão pegando pesado demais. Já observaram que seu amigo caracol tem uma concha para protegê-lo? Talvez Deus o tenha feito assim já prevendo o que aconteceria. Portanto, nada de caracóis na arca! Ele que se proteja em sua própria concha.

– Então, presumo que o senhor vai liberar também outros animais que tenham algum tipo de proteção como cascos ou conchas, certo? Isso deve incluir tartarugas – disse o canguru.

Ao ouvir isso, o casal de tartarugas protestou:

– Deixem-nos fora disso!

– Exatamente isso, senhor e senhora tartaruga. Esta é a ideia. Deixá-los fora disso, isto é, fora da arca – disse o canguru.

– Nós temos cascos, mas não somos hermafroditas como esta aberração aí – respondeu a senhora tartaruga.

– Aberração? Então Deus criou alguma aberração? – questionou o canguru.

– É melhor vocês se acalmarem, senão ninguém mais entra – ameaçou Noé.

– Se o caracol não puder entrar na arca, nós também não entraremos – protestou o canguru.

– Vocês não podem fazer isso! A sobrevivência de sua espécie está em jogo – argumentou Noé.

– Ou ele entra ou nos afogaremos juntamente com ele no dilúvio.

Alguns outros animais resolveram comprar as dores do caracol e se recusaram a continuar na fila. Entre eles, os camelos, as girafas, as zebras, os tamanduás, os coalas e as avestruzes.

– Gente, não faça isso. O céu já está ficando coberto de nuvens carregadas. A chuva vai cair a qualquer instante – alertou Noé.

– Se o caracol ficar de fora, nós também ficaremos – disseram em uníssono.

– O senhor já parou para pensar que o Criador possa estar nos testando? Por isso somos todos tão diferentes uns dos outros. Olhem ao redor. Vejam quão variadas são as obras de Deus! Quantas cores! Quantas texturas! Quantos sons! – disse o canguru que ousadamente subiu pela tromba de um elefante, transformando-o em um púlpito.

– Ok. Vocês venceram. Mas só deixarei entrar com uma condição: encontrar outro caracol para ser seu par. Sabem como é. Ordens são ordens. Só podem entrar na arca de dois em dois.

– Não seja por isso, senhor – respondeu o canguru. – Nosso amigo caracol já tem um parceiro.

– Se importam de me dizer onde ele se meteu?

– É pra agora, senhor – respondeu o canguru, sinalizando para que o avestruz sacudisse as penas de sua cauda na tromba do elefante para provocar-lhe uma reação alérgica.

Todos se abriram uma clareira, receosos do efeito do espirro do elefante.

- Aaaaaaaaaahhhhhhhh....tim!!!

De sua tromba saiu o caracol, companheiro daquele que se escondera na bolsa da senhora canguru.

Sem conseguir se segurar, Noé danou a gargalhar diante de tão inusitada cena.

"Ó SENHOR, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas." Salmos 104:24