quinta-feira, janeiro 17, 2019

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Um pedido sincero



Caros amigos, estou no final de uma etapa muito complicada em minha vida. Passei metade do ano de 2018 acamado devido uma forte crise de coluna que afetou o nervo ciático e me deixou incapacitado de andar. Foram seis meses de muito sofrimento. Aos poucos, fui retomando minha vida e recobrando os movimentos. Tão logo consegui andar, voltei a pregar na igreja pelo menos uma vez por semana, mesmo que para isso, tivesse que recorrer a um banquinho. Ainda não estou 100%, mas já estou bem melhor em vista do que estava. Mesmo assim, nosso ministério não parou. Pulamos de 78 famílias do Lixão assistidas em novembro para 117 que receberam cestas básicas, roupa, calçados e brinquedos em dezembro. Esperamos que neste mês, consigamos atender a todas elas, atenuando assim o sofrimento de quem vive abaixo da linha da miséria. Devido a tudo isso e as situações de nossa vida particular, nosso ministério vem tendo muita dificuldade financeira. Precisamos urgentemente suprir algumas necessidades emergenciais. Por isso, recorro ao carinho que vocês têm a mim e ao meu ministério em busca de um socorro providencial. Sei que a situação não está fácil para ninguém. Porém, aprendemos com Jesus que são nessas horas difíceis que devemos partilhar o nosso pão. Se você puder fazer algo pra nos ajudar a prosseguir com o nosso trabalho, por favor, faça imediatamente. E que o Senhor das Circunstâncias se manifeste em sua vida de maneira surpreendente. Abaixo seguem os dados para eventuais depósitos ou transferências:

Hermes Carvalho Fernandes - CPF 936697207-15
BRADESCO agência 0582 c/c 220676-5

Toda contribuição será bem-vinda. 


Desde já, agradeço de coração.

Hermes C. Fernandes

sábado, janeiro 05, 2019

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DOZE INSTRUÇÕES APOSTÓLICAS PARA DOZE MESES DO ANO



Por Hermes C. Fernandes

Se espera encontrar aqui uma receita de bolo, aconselho a parar por aqui mesmo, pois vai se desapontar. Mas se busca por instruções legítimas que possam lhe proporcionar um tempo de refrigério em sua jornada, leia até o fim. Todas essas instruções se encontram na primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses, capítulo 5, do verso 12 ao 22.

1 – Líderes e trabalhadores devem ser honrados“Agora lhes pedimos, irmãos, que tenham consideração pelos que trabalham entre vocês, e pelos que os lideram no Senhor e os aconselham. Tenham-nos na mais alta estima, com amor, por causa do trabalho deles. Vivam em paz uns com os outros” (1 Tessalonicenses 5:12,13). Não se pode honrar líderes enquanto se despreza os trabalhadores, tampouco se pode considerar a mão de obra sem levar em conta os que a instrui. Ambos cumprem um importante papel na promoção do bem comum. Deve-se, portanto, estima-los, não como quem os bajula por algum interesse, mas exclusivamente por amor; não em função do título que ostentem, mas unicamente por causa de seu trabalho. Somente assim, haverá paz entre os do andar de cima e os do andar de baixo, entre o pico da pirâmide e a sua base. A paz não deve ser confundida com uma trégua temporária, mas com uma condição alcançada quando há justiça, e nenhuma das partes se locupleta do prejuízo da outra.  

2 – Os insubmissos devem ser admoestados“Exortamo-vos também, irmãos, que admoesteis os insubmissos” (v.14). Interessante notar que algumas traduções trazem a palavra “ociosos” no lugar de “insubmissos”, o que nos leva a crer que na percepção do apóstolo, o insubmisso é aquele que faz do ócio um instrumento de sabotagem. Ele sabe criticar e pôr defeito em tudo o que os outros fazem, mas não move uma palha visando o bem comum. O tal deve ser advertido. Somos orientados pelas Escrituras a que sejamos submissos uns aos outros, isto é: devemos colocar o bem comum à frente de nossos próprios interesses.

3 – Os desanimados devem ser consolados – “...consoleis os desanimados” (v.14). Infelizmente, muitos invertem a ordem e acabam consolando os insubmissos e admoestando os desanimados. Na maioria das vezes, o estágio de desânimo antecede ao da insubmissão. Antes de sabotar o bem comum, tornamo-nos céticos e cínicos por já não encontrarmos razão para acreditar. Consolar um desanimado poderá evitar que ele se torne num insubmisso. E consolar aqui tem o sentido de encorajar, botar para cima, reanimar.

4 – Os fracos devem ser sustentados – “...sustenteis os fracos” (v.14). “Ninguém solta a mão de ninguém!” Ninguém é forte o tempo inteiro. Todos temos nosso momento de fraqueza, quando nossa humanidade fica à flor da pele. E nestas horas, procuramos estar com os que não desistem de nós, apesar de nós mesmos. Abandonar o fraco em sua jornada constitui-se num das mais covardes atitudes que um ser humano possa tomar. Ao deparar-se com alguém nesse estado, lembre-se de que amanhã poderá ser você. A ovelha que se desvia do redil deve ser admoestada, e para isso, o pastor faz uso de sua vara. A ovelha que cai em um barranco deve ser resgatada, e para isso, o pastor faz uso de seu cajado. Mas a ovelha machucada e fraca deve ser carregada nos ombros do pastor.

5 – Devemos ser pacientes com todos – “...e sejais pacientes para com todos” (v.14). Quem nunca se sentiu como o Chaves em sua lamúria? “Ninguém tem paciência comigo...! Todos os grupos descritos acima carecem de nossa paciência. Sem paciência, não honraremos nossos líderes, nem tampouco os trabalhadores. Sem paciência, os insubmissos ficarão exatamente como estão, os desanimados serão desprezados, os fracos serão postos de lado para não atrapalhar, e assim por diante. Mas antes de procurar ter paciência para com os outros, pense no quanto eles têm tido que lhe aturar em suas falhas e fraquezas.  A paciência que você sonega a eles é a mesma de que você carece para continuar em sua jornada desfrutando de sua companhia.

6 – O ciclo do mal precisa ser interrompido – “Tenham cuidado para que ninguém retribua o mal com o mal, mas sejam sempre bondosos uns para com os outros e para com todos”(v.15). Longe de ser um atestado de idiotice, oferecer a outra face é a única alternativa para quem não almeja retroalimentar o ciclo da violência. Devemos, antes, ser bondosos, não apenas com os que pertencem ao nosso grupo, com os que professam a nossa fé, mas com absolutamente TODOS.

7 – O prazo da nossa alegria deve ser prorrogado – “Regozijai-vos sempre”(v.16). O prefixo ‘re’ tem o sentido de ‘novamente’. Portanto, ‘regozijar’ significa literalmente ‘gozar de novo’. E que estória é essa de “gozar de novo sempre”? Sabemos que nada é mais efêmero do que o gozo, tanto o sexual, quanto o de qualquer outra natureza. O gozo é intenso, porém, é fugaz e dura bem menos do que gostaríamos. Nesta passagem, Paulo diz que é possível estender nosso gozo de maneira ininterrupta. E como se dá isso? Não permitindo que nada roube nossa alegria. Que nossas tristezas sejam momentâneas, mas nossa alegria seja perene. Que a alegria seja muito mais que uma sensação e se torne em um estado permanente subsidiado pela graça. E caso não percebamos qualquer razão imediata para estarmos alegres, busquemos em nossas memórias ou mesmo em nossas esperanças. O certo é que, em se tratando de gozo/alegria, não devemos nos contentar com pouco. Porém, usando a vida sexual como analogia, o gozo só vem quando há tesão/desejo. E se este for muito, é possível gozar várias vezes em um único intercurso. Infelizmente, muitos adotam uma espiritualidade brochante, que corta o barato de qualquer um, pois pensam que Deus é uma espécie de estraga-prazer cósmico. Ao contrário disso, Deus foi quem inventou o prazer. O gozo é uma celebração, um aperitivo do que nos espera na eternidade.   

8 – Devemos permanecer em Stand-By – “Orai sem cessar” (v.17). Particularmente, não conheço ninguém capaz de orar ininterruptamente. Todos temos nossos afazeres. Se não fizéssemos outra coisa que não fosse orar, morreríamos de fome. Por isso, recuso-me a crer que Paulo estivesse sugerindo algo nesse sentido. O que seria, então, orar sem cessar? Imagine um celular. Ainda que você não esteja atendendo a alguma ligação, ou ligando para alguém, seu aparelho se encontra em stand-by. A qualquer momento, alguém poderá lhe alcançar ou vice-versa, a menos que você esteja fora da área de cobertura ou com o seu aparelho em modo avião ou desligado. Assim também deve ser nossa comunhão com Deus. Não precisamos seguir nenhum protocolo para acessá-lo. Nem carecemos de “entrar em Sua presença” a cada vez que oramos, visto que vivemos em Sua presença em todo o tempo. Basta que nos dirijamos a Ele, seja de maneira audível ou apenas em pensamento, e imediatamente seremos ouvidos. Da mesma forma, a qualquer momento, em qualquer lugar, Ele poderá nos acessar através do Seu Espírito.

9 – Não deixe espaço para a ingratidão“Em tudo dai graças, pois esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (v.18). Repare que o apóstolo não diz que devemos dar graças POR TUDO, mas EM TUDO.  Como vou agradecer a Deus por algo que não veio d’Ele? Há situações que são frutos de escolhas equivocadas. Portanto, não faz sentido agradecer a Deus POR elas. Entretanto, nada há que não tenha a permissão divina, e por isso, mesmo não agradecendo por tais situações, devo agradecer a Deus por me permitir atravessá-las. Não vejo sentido em agradecer a Deus por uma doença, mas creio ser importante manter-se grato a Deus mesmo em meio a uma enfermidade. Devo ser grato por Sua provisão contínua, ainda que por um instante passe por privação. Permitir-me vivenciar algo é dar-me um voto de confiança. Como não Lhe serei grato? Nada fere mais o coração de Deus do que a ingratidão. É dela que brota a murmuração e todo tipo de insolência. O simples fato de estarmos vivos já deveria ser suficiente para sermos gratos a Deus que todos os dias renova a Sua misericórdia para conosco, dando corda em nosso coração.

10 – Não apague o que não foi você quem acendeu – “Não apagueis o Espírito” (v.19). Não, o Espírito Santo não é uma chama. Ele é uma Pessoa. Então, o que Paulo quis dizer com esta instrução? Embora Ele seja uma Pessoa, Sua presença em nós é como uma chama, e o combustível que a mantem acesa se chama COMUNHÃO. Quando ignoramos Sua presença, deixando de dar ouvidos aos Seus sussurros em nossa consciência, Sua presença em nós vai ficando cada vez mais tênue até que um dia deixe a impressão de ser ausência. Jesus estava no barco quando os discípulos enfrentaram aquela tempestade que por pouco não os fez naufragar. Se eles se mantivessem conversando com o mestre durante todo o trajeto, Ele não teria descido para a polpa do barco para dormir. Semelhantemente, se ignorarmos a presença do Espírito, será como se o confinássemos nos porões de nossa alma. Em vez de ficar papeando com os seus botões, gaste tempo estreitando sua comunhão com o Deus que reside em você.

11 – A Palavra não pode ser desprezada – “Não desprezeis as profecias” (v.20). Se falamos com Deus através da oração, Deus fala conosco através da Sua Palavra. Desprezar as profecias é o mesmo que desprezar o cumprimento delas: JESUS. Ele é a Palavra Encarnada que cumpre fielmente a Palavra Encadernada, isto é, o Antigo e o Novo Testamento.  Preste atenção no que diz o escritor da epístola endereçada aos Hebreus: “Havendo Deus outrora falado, muitas vezes, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez o mundo” (Hebreus 1:1-2).

12 – Não compre pacotes fechados – “Examinai tudo. Retende o bem. Abstende-vos de toda espécie de mal” (vs.21-22). Em vez de sair por aí comprando pacotes fechados, devemos examinar item por item, absorvendo apenas o que for bom, que promova o bem de todos, e descartando o que só desperta o que há de pior em nossa natureza, realçando nosso egoísmo, nossas presunções, nossos preconceitos. Nem mesmo as Escrituras devem escapar do escrutínio de nossa consciência iluminada pelo Espírito Santo. Qualquer coisa ali que não nos remeta a Jesus deve ser rechaçada, venha de quem vier, de Abraão, de Moisés, de Davi ou de qualquer outro. O mesmo critério deve ser usado ao examinarmos qualquer obra, seja literária, cinematográfica, política, ideológica, etc. Sempre haverá algo bom que seja fruto do gênio humano. Porém todas as nossas obras possuem as digitais de nossa condição existencial pecaminosa. Somos filhos de nosso próprio tempo, e tudo quanto produzimos vem contaminado pela leitura que fazemos com as lentes de nossa própria cultura.  

Estas instruções poderiam ser lidas de baixo para cima, ou de frente para trás. Se examinássemos tudo, retendo somente o que fosse bom, não desprezaríamos as profecias. E se não desprezássemos as profecias, não apagaríamos o Espírito, visto que Sua presença em nós se alimenta da Palavra. Se não apagássemos o Espírito, certamente daríamos graças em tudo, e o faríamos em constante oração. Se orássemos sem cessar, nada interromperia nossa alegria. E assim, não haveria qualquer razão para que retribuíssemos mal com mal, pois seríamos pacientes com todos, até com os que nos prejudicassem de alguma maneira. Justamente esta paciência que nos possibilitaria sustentar os fracos, de modo que eles jamais se desanimariam. E caso se desanimassem, deveríamos consolá-los para que não se tornassem insubmissos e ociosos. E assim, somente assim, haveria paz para que líderes e liderados trabalhassem em harmonia em prol do bem comum.


A todos os que leram atentamente essas linhas, desejo-lhes um surpreendente ano novo sob os auspícios da graça de Deus revelada em Cristo. 

quarta-feira, dezembro 19, 2018

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2019: O PIOR AINDA ESTÁ POR VIR



Por Hermes C. Fernandes

“O melhor de Deus ainda está por vir!” é o brado de muitos pregadores no culto de Réveillon. Quem não almejaria viver um tempo de vitórias e realizações? Não é à toa que tantos votos são feitos na reta final de cada ano no afã de que o vindouro não seja uma mera repetição dos anteriores. Porém, ano após ano, a fórmula se repete exaustivamente e a vida segue seu fluxo inexorável, da maneira como deve ser, alternando entre altos e baixos, vitórias e fracassos nem sempre evitáveis.

Haveria alguma garantia de que a presença de Deus resultaria em sucessivas vitórias em todas as áreas de nossa vida? Romper o ano novo na igreja garantiria que durante o transcorrer de 2019 não correríamos o risco de amargar um desemprego, um divórcio, uma dívida, uma enfermidade?

Há um episódio bíblico que talvez nos ajude a encontrar resposta para isso. A narrativa começa afirmando que “veio a palavra de Samuel a todo o Israel; e Israel saiu à peleja contra os filisteus e acampou-se junto a Ebenézer; e os filisteus se acamparam junto a Afeque” (1 Samuel 4:1).

Repare que tal iniciativa foi tomada com base em uma palavra proferida pelo profeta. Portanto, eles estavam sob a orientação de Deus. Como se não bastasse, escolheram acampar em um lugar chamado Ebenézer, que significa “Até aqui nos ajudou o Senhor.” Não creio que tal escolha tenha sido aleatória. Israel vinha de sucessivas campanhas militares bem-sucedidas desde os tempos de Josué. Se Deus os havia ajudado até ali, era de se esperar que seguisse ajudando-os ininterruptamente. É razoável que nos fiemos em experiências exitosas obtidas ao longo de nossa jornada. Assim como um time de futebol que segue ileso no campeonato, entramos em campo de salto alto, subestimando o adversário. Afinal, as estatísticas nos são favoráveis. Porém, o placar ainda está em aberto. Tudo pode acontecer.

Para a surpresa dos israelitas, os filisteus venceram a batalha, ceifando a vida de pelo menos quatro mil homens.

“O que terá saído errado?”, indagaram.  Por que Deus os metera naquela furada? Por que permitiu que Seu povo passasse tão grande vexame?

Alguém, então, teve a inusitada ideia de voltarem ao campo de batalha, mas desta vez, acompanhados da Arca da Aliança, a mesma que acompanhou o exército de Israel em tantas outras investidas militares.

A Arca da Aliança era a representação física da presença de Deus no meio do Seu povo. Mas somente sacerdotes poderiam carrega-la. Por isso, Eli, o Sumo-sacerdote de Israel, destacou seus dois filhos, Fineias e Hofni para conduzir o utensílio sagrado no campo de batalha. Quando a Arca chegou ao arraial israelita, a euforia foi tamanha, que os gritos dos soldados fizeram tremer a terra. “E os filisteus, ouvindo a voz de júbilo, disseram: Que voz de grande júbilo é esta no arraial dos hebreus? Então souberam que a arca do Senhor era vinda ao arraial. Por isso os filisteus se atemorizaram, porque diziam: Deus veio ao arraial. E diziam mais: Ai de nós! Tal nunca jamais sucedeu antes. Ai de nós! Quem nos livrará da mão desses grandiosos deuses? Estes são os deuses que feriram aos egípcios com todas as pragas junto ao deserto. Esforçai-vos, e sede homens, ó filisteus, para que porventura não venhais a servir aos hebreus, como eles serviram a vós; sede, pois, homens, e pelejai” (1 Samuel 4:6-9).

De fato, os israelitas estavam com a faca e o queijo na mão. O efeito psicológico que a presença da Arca causou nos inimigos foi devastador.

Mesmo apavorados, os filisteus não entregaram os pontos, pois reconheciam que toda a opressão que fizeram aos israelitas voltaria contra eles como um bumerangue caso fossem derrotados. Resultado: os filisteus venceram novamente. E desta vez, sua vitória foi ainda mais esmagadora, ceifando a vida de trinta mil homens.

Como assim? E a Arca de Deus? E toda aquela euforia dos soldados israelitas? Como se não fosse suficiente a épica derrota, algo ainda pior lhes sucedera: A Arca da Aliança foi tomada pelos filisteus. Para se ter uma ideia do quanto isso  era considerado grave, quando a notícia chegou aos ouvidos de Eli, o sumo-sacerdote caiu de seu assento, quebrou o pescoço e morreu na hora. Não pelo fato de Israel ter perdido a batalha, nem mesmo pela morte de seus dois filhos responsáveis pela segurança da Arca, mas por ela ter sido levada por seus adversários. Uma de suas noras estava grávida e ao ouvir a notícia, deu a luz. Não resistindo às fortes dores, antes que morresse, deixou escapar de seus lábios o nome que queria dar ao seu filho: ICABODE, que significa “Foi-se a glória de Israel.” Ela se importou mais com a Arca roubada do que com a sua repentina viuvez.

Vivemos hoje sob a égide da Nova Aliança em que não há mais utensílios sagrados, nem templos, nem ritos, nem sacrifícios a serem feitos. Tudo isso era sombra do que haveria de se cumprir em Cristo. Ele é a nossa Arca da Aliança, e nos afiançou que estaria conosco todos os dias até a consumação dos séculos. Todavia, Sua presença entre nós não é a garantia de que nunca amargaremos uma derrota, uma injustiça, uma adversidade. Pelo contrário, Ele nos deixou claro que no mundo teríamos aflições, mas que isso jamais deveria nos tirar o ânimo.

Sempre que as coisas desandam, buscamos encontrar uma razão, uma explicação que aplaque nossa frustração e apazigue nossa consciência. “Onde foi que errei?” é a pergunta que nos persegue, revelando que ainda somos reféns de uma mentalidade legalista e moralista, baseada na lei da causa e efeito.

A verdade é que nem sempre encontraremos uma boa razão que justifique nossas derrotas. Talvez pelo fato de que o que realmente importa não seja a razão em si, mas o propósito. E este, por sua vez, nem sempre é óbvio, tampouco nos é revelado durante o transcorrer da situação.  Na maioria das vezes, só entendemos o propósito em retrospectiva, isto é, depois do fato consumado.

Enquanto os israelitas digeriam o amargo sabor da derrota, longe dali algo surpreendente acontecia, mas que escapava totalmente ao seu conhecimento.

Atribuindo ao seu próprio deus a vitória conquistada, os filisteus tomaram a Arca e a puseram no templo dedicado a Dagom. De manhã cedo, quando os sacerdotes de Dagom vieram prestar-lhe culto, depararam-se com sua imagem caída com o rosto em terra, como se estivesse prostrada diante da Arca de Deus. Assustados, ergueram a Dagom e o puseram novamente em seu lugar. “E, levantando-se de madrugada, no dia seguinte, pela manhã, eis que Dagom jazia caído com o rosto em terra diante da arca do Senhor; e a cabeça de Dagom e ambas as palmas das suas mãos estavam cortadas sobre o limiar; somente o tronco ficou a Dagom” (1 Samuel 5:2-4).

Metade homem, metade peixe, Dagom era uma das mais perversas divindades do panteão cananeu, que dentre outras coisas, exigia o sacrifício de crianças. Com a queda da imagem, restou-lhe apenas a calda de peixe. Sua cabeça e seus membros superiores foram espatifados. O que havia de humano nele (pelo menos do ponto de vista morfológico) foi-lhe decepado, sobrando-lhe apenas o que lhe havia de irracional.

O Deus de Israel permitira que o Seu povo amargasse aquela derrota para que Sua Arca fosse introduzida no templo daquela divindade perversa, e assim, os filisteus reconhecessem e temessem o Seu nome, deixando de oprimir o Seu povo. O que para Israel era tão somente uma questão militar, para Deus a batalha era de ordem espiritual.

Dagom representava a opressão que os filisteus exerciam sobre Israel, assim como os deuses egípcios ao longo de mais de quatrocentos anos de escravidão. A prostração de Dagom ante a Arca da Aliança, bem como seu esfacelamento, representavam a rendição dos opressores à causa dos oprimidos.

Mas não ficou só nisso. Seus adoradores, habitantes de Asdode, foram acometidos de hemorroidas. Se o seu deus foi atingido na parte superior de seu corpo, seu povo foi atingido na parte inferior, mas precisamente nas partes íntimas, justamente a parte onde Dagom foi poupado. Por razões óbvias, peixes não podem ter hemorroidas...

Desorientados, os filisteus enviaram a Arca para a cidade de Gate e depois para Ecrom, e o fenômeno se repetiu entre os seus moradores. Enquanto a Arca de Deus foi joguete entre os filisteus, o juízo divino os acompanhou, não só com hemorroidas, mas também com uma súbita invasão de ratos que representavam o que eles haviam se tornado para os israelitas: devoradores.

Só então, eles concluíram que o Deus de Israel os estava punindo pela opressão e exploração feitas ao povo de Israel, e decidiram que a Arca da Aliança deveria ser devolvida ao seu lugar (1 Samuel 5:7-12). E para tal, eles teriam que devolvê-la juntamente com um cofre carregado de ouro no formato das pragas que lhes acometeram: ratos e hemorroidas! Por mais cômico que nos possa soar, esta foi a maneira de fazer com que o produto da exploração a que os israelitas foram submetidos fosse-lhes devolvido.

A vitória do opressor poderá se transformar em seu pior pesadelo, sobretudo quando esta se dá de maneira injusta, calçada na mentira e com vista a perpetuar a exploração dos mais fracos e vulneráveis. Tudo o que foi tomado do oprimido, agora clama aos céus por justiça, anelando retornar a quem de direito. O fruto da extorsão deve voltar para o seu lugar de origem. Por isso, vemos o corrupto Zaqueu prometendo devolver quadruplicadamente tudo o que havia extorquido de seu próprio povo enquanto cobrava impostos em nome de Roma. Seu encontro com Cristo levou-o a isso.

O que era Dagom nos dias de Samuel, Mamon era nos dias de Jesus. Razão pela qual Jesus o denunciou como principal rival do reino de Deus. "Ninguém pode servir a Deus e as riquezas (Mamon)", disse o Mestre Galileu. Interessante frisar que Jesus nunca enxergou o Estado como o grande inimigo, e sim, o capital. Ele não disse que não se podia servir a Deus e a César. Pelo contrário, Ele disse que deveríamos dar a Deus o que era de Deus e a César o que era de César. O maior ídolo contra o qual lutamos em nossos dias segue sendo o dinheiro. De acordo com Paulo, "o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males." Veja: não é o sexo, nem a indústria pornográfica, nem as outras religiões, nem mesmo as drogas, mas o amor ao dinheiro. Por causa dele, muitos se desviaram da fé.

O que vai garantir que sejamos vitoriosos nessa guerra espiritual não é um retumbante sucesso financeiro ou coisa parecida, mas uma fidelidade à toda prova. Nossa fidelidade e obediência nos porão frente a frente com Mamon, assim como a Arca de Deus fora posta frente a frente com Dagon. É lá fora, no terreno do inimigo, que a vitória se dá. É quando dizemos não às propostas de Mamon. É quando nos tornamos numa ferramenta para emperrar este sistema de exploração e opressão.

Aos olhos do mundo, a cruz foi um grandioso fracasso. Jesus não parecia ser quem dizia ser. Ele não estava preocupado em provar nada a quem quer que fosse. Mas quando Ele deu Seu último suspiro, Sua alma desceu ao inferno. Seus pés pisaram o terreno do inimigo. O império das trevas foi desbaratado. Principados e potestades foram depostos e despojados.

Não se preocupe com a conclusão precipitada a que as pessoas possam chegar a seu respeito devido ao momento que você está vivendo atualmente. Lembre-se: Deus está trabalhando para que Seus propósitos prevaleçam em sua vida. Não ceda a oferta alguma. Não se renda às propostas indecorosas deste mundo. Siga fiel. Siga obediente. Siga firme. Vai que Deus pretenda lhe infiltrar em algum "templo de Dagon" como fez com a Arca... Vai que tudo o que você está vivendo hoje seja com o propósito de levá-lo a um lugar em que você jamais chegaria se não passasse por isso. Se Paulo e Silas não houvessem sido presos injustamente em Filipos, a igreja não teria nascido na casa do carcereiro que por pouco não tirou sua própria vida. Se Paulo não houvesse sofrido um naufrágio em sua viagem para Roma, os moradores da Ilha de Malta não teriam tido a oportunidade de conhecer o evangelho. Portanto, em vez de perguntar "por quê?", pergunte "por quem?" e "para quê?

Caso você experimente o pior momento de sua história ao longo do novo ano, saiba que após a tempestade, sempre vem a bonança. Ainda que passe pelo vale da sombra da morte, o bom pastor o conduzirá aos pastos verdejantes e às águas tranquilas. O pior pode até vir, mas o melhor está a caminho. E cá entre nós, se Paulo está certo ao dizer que a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria dos homens e a Sua fraqueza mais forte que a força humana, é lícito crer que o pior de Deus ainda é infinitamente melhor que o melhor dos homens. 


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OS DIREITOS HUMANOS E A BÍBLIA



Por Hermes C. Fernandes

A origem dos direitos humanos

O movimento pelos direitos humanos teve sua origem na era moderna. Lá, pelos idos do final do século XVIII, em plena revolução industrial, acontece a Revolução Francesa, que teve seu programa esboçado em seu documento central chamado de “Declaração dos Direitos do Homem.”[1] Anos antes, em 1776, os Estados Unidos da América tinham produzido em sua “Declaração de Independência”, uma declaração de princípios bem semelhante, que poderia ser considerada como um embrião da Declaração dos Direitos do Homem.

A Declaração de Independência dos Estados Unidos afirma a origem divina desses direitos quando se postula que “todos os homens são iguais, porque Deus os dotou com os mesmos direitos.” Por outro lado, ainda que a Declaração dos Direitos do Homem da Revolução Francesa não mencione o Deus Criador, falando apenas do “Ser Supremo” transparece nela sua herança religiosa ao declarar que esses direitos são sagrados e invioláveis.

Apesar de mencionar os direitos dos cidadãos como sagrados, ao definir quem seriam considerados cidadãos, a declaração francesa deixa a maioria da população fora do seu escopo. Já nos Estados Unidos, nem índios, nem negros eram incluídos entre os seres humanos “que Deus tinha criado.” Portanto, percebe-se claramente que tais declarações ainda eram expressões de uma classe social: a burguesia. Entretanto, devem ser consideradas um passo importante na luta e afirmação pelos direitos de todos os seres humanos.

Somente no final da década de quarenta, mais precisamente em 1948[2], após duas grandes guerras mundiais em que a crueldade humana pareceu chegar ao seu apogeu, a Comissão de Direitos Humanos da recentemente criada ONU elaborou um documento que consagraria os direitos fundamentais do ser humano. Nessa declaração são listados todos os direitos próprios e inalienáveis de todo ser humano, os quais devem ser respeitados por todos os países signatários.
O principio básico pelo qual é regida afirma que todo ser humano nasce em condições de liberdade e igualdade de direitos e que por estar dotado de raciocínio e de consciência, deve procurar a convivência com seus congêneres. Daqui se derivam as premissas de liberdade de pensamento e consciência, independentemente de raça, sexo ou religião. Atribui-se, também, o direito de uma vida livre e com segurança, e se sublinha a unidade essencial da família humana.

O que as Escrituras teriam a dizer acerca de tão caro tema? Seria correto afirmar que elas oferecem a base de sustentação para qualquer reivindicação de direitos humanos? Acredito piamente que sim.

Dentre todos os profetas, talvez nenhum tenha se debruçado mais sobre o tema do que Amós, o profeta caubói. Seu ministério profético aconteceu durante o reinado de Uzias em Judá e de Jeroboão II em Israel. O reino, agora dividido entre reinos do norte e do sul, estava sob o domínio Assírio. Diferentemente de outros profetas de pedigree, Amós não vinha de uma família sacerdotal. Vaqueiro e agricultor[3], atividades nômade e sedentária respectivamente, conhecia profundamente a realidade na qual seu povo estava mergulhado. Por isso mesmo, tornou-se num ferrenho crítico ao poder econômico, político e religioso de seu tempo, conclamando seus concidadãos à tomada de consciência, e a uma postura condizente com as demandas da justiça e da misericórdia.

Críticas ao poder econômico

Sem dúvida, o período em que Jeroboão II[4]  reinou em Israel foi um dos mais prósperos de sua história. Graças ao comércio com outras nações vizinhas, a riqueza do reino aumentou consideravelmente. Entretanto, isso não impediu uma acentuada desigualdade social entre ricos e pobres. Escavações arqueológicas realizadas na região da Samaria, então capital de Israel, evidenciavam a existência de moradias miseráveis ao lado de um bairro residencial rico. Eram como favelas vizinhas de condomínios luxuoso, efeito colateral de um sistema erigido sobre a ganância.

Os moradores de Samaria pareciam estar em paz com esta realidade. Afinal de contas, a teologia de muitos dos profetas contemporâneos de Amós afirmava que a prosperidade econômica era um sinal de aprovação e bênção divinas. Portanto, independentemente dos efeitos colaterais indesejados, o importante era que Israel estava vivendo um florescimento quase sem precedentes de suas atividades econômicas. Porém, enquanto o rico estava cada vez mais rico, o pobre estava cada vez mais pobre. Na contramão de seus colegas, Amós denunciou aquela prosperidade como ilusória, haja vista que apenas uma ínfima parcela da sociedade desfrutava dela. Mas colocar em xeque a visão teológica prevalecente em seus dias lhe renderia a pecha de excêntrico, doido varrido, uma espécie de maluco-beleza, o profeta Gentileza de sua época.

Sem titubear, Amós mirou sua metralhadora profética nos comerciantes que se justificavam no ritualismo religioso enquanto exploravam seus concidadãos.

“Ouvi isto, os que esmagais o pobre, que excluís os humilhados do país! “Quando vai passar a festa da lua nova — dizeis —, para negociarmos a mercadoria? Quando vai passar o sábado, para expormos o trigo, diminuir as medidas, aumentar o peso, utilizar balanças mentirosas, comprar o fraco por dinheiro, o indigente por um par de sandálias, para negociarmos até o farelo do trigo.” [5]

Algo semelhante fora denunciado por Isaías: “Pois dia a dia me procuram; parecem desejosos de conhecer os meus caminhos, como se fossem uma nação que faz o que é direito e que não abandonou os mandamentos do seu Deus. Pedem-me decisões justas e parecem desejosos de que Deus se aproxime deles. ‘Por que jejuamos’, dizem, ‘e não o viste? Por que nos humilhamos, e não reparaste? ’ Contudo, no dia do seu jejum vocês fazem o que é do agrado de vocês, e exploram os seus empregados.”[6]

Sempre há um jeitinho de conciliar nossas crenças e práticas religiosas com nossa insaciável ganância e o nosso hedonismo. Somos capazes de guardar dias santos, oferecer nossos dízimos e ofertas, jejuarmos e refrearmos nossos apetites carnais, enquanto prosseguimos em privar nossos semelhantes de seus direitos fundamentais.

Os comerciantes dos dias de Amós cumpriam fielmente os preceitos religiosos da Lua nova, prescrito uma vez ao mês, e do sábado. Durantes as celebrações religiosas abstinham-se de fazer negócios. Entretanto, anelavam ansiosamente para retornarem ao balcão de negócios no dia seguinte na busca desenfreada por lucro às custas da exploração alheia.

Críticas ao poder político-religioso

A religião costuma a ter poder inebriante sobre os que preferem viver em função de seus interesses mais mesquinhos. Definitivamente, Deus não se deixa comprar pelos nossos cultos mais pomposos. Pelos lábios de Amós, Ele mesmo confessou:

“Sou contra, detesto vossas festas, não sinto o menor prazer nas vossas celebrações! Quando me fazeis subir fumaça dos holocaustos... não aceito vossas oferendas nem olho para os sacrifícios de carne gorda. Afasta de mim a algazarra de teus cânticos, a música de teus instrumentos nem quero ouvir. Quero apenas ver o direito brotar como fonte, e correr a justiça qual regato que não seca.”[7]

É óbvio que alguém que contesta uma religiosidade frívola e denuncia nossas tentativas de comprar Deus, certamente será convidado a se retirar. Por isso, Amós ouviu dos lábios de Amasias: “Ó visionário, vai embora! Some para a terra de Judá! Vai ganhar a vida fazendo lá tuas profecias. Não me venhas mais profetizar em Betel. Isto aqui é um santuário real, uma dependência do palácio do rei!.”[8]

O sistema combate qualquer um que queria emperrá-lo, mas incentiva os que insistem em lubrificar suas engrenagens. A religião pode servir a ambos os intentos. Amasias era chefe dos sacerdotes de Betel, e como funcionário do rei, respondia direto ao palácio real, negligenciando, assim, seu papel de servo de Deus. Por isso, vê em Amós uma ameaça ao status quo.  Seu inusitado pedido tinha o propósito de conservar a ordem econômica, social, política e religiosa na região.

Amós revelou-se contrário à prática religiosa descomprometida com o direito e a justiça, que visava garantir tão somente a tranquilidade de consciência e o bem estar da elite de Israel.

Seguindo a tradição dos profetas hebreus, Amós faz diversas denúncias pertinentes que transcendem a realidade de seu tempo, tornando-o, por assim dizer, um precursor na defesa dos direitos humanos. Dentre as denúncias, destacamos algumas abaixo:

Denúncia de Xenofobia

Israel se orgulhava de ser o povo eleito de Deus, porém, havia se esquecido de que a promessa feita a Abraão, seu patriarca, era de que através de sua descendência, todas as nações da terra seriam igualmente abençoadas.[9] Ser a nação escolhida não significa ser detentor do monopólio do sagrado. Apesar das Escrituras afirmarem que Israel seria propriedade exclusiva do Senhor, título repassado à igreja, Deus não é exclusividade de povo algum.[10] Ele é o Deus de todos os povos, o rei das nações, o Senhor dos mundos.

Amós deixa claro que o mesmo Deus que agiu em benefício de Israel, também agiu em benefício de outros povos, inclusive daqueles considerados seus desafetos.

“Por acaso, filhos de Israel, sois diferentes dos etíopes para mim? Eu não tirei Israel da terra do Egito? Mas não tirei também os filisteus de Caftor? Não fiz os sírios saírem de Quir?”[11]

Esta palavra, sem dúvida, foi um golpe na arrogância nacionalista de Israel. Os filisteus, assim como os sírios, também tiveram o seu próprio êxodo. Portanto, não fazia sentido olhá-los de cima para baixo, como se fosse a nação predileta de Deus. Ainda que Deus, “nos tempos passados”, tenha deixado andar “todas as nações em seus próprios caminhos”, “contudo, não deixou de dar testemunho de si mesmo”, beneficiando-as desde o céu, provendo-lhes de chuvas e estações frutíferas, e enchendo de mantimento e de alegria os seus corações.[12] Mesmo não recebendo as devidas glórias, Deus não as desamparou, entregando-as à própria sorte. Mas garantiu a sua subsistência.

Em seu discurso no Areópago de Atenas, Paulo testifica que “de um só sangue”, Deus fez “toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação.”[13] O que nos leva a concluir que as fronteiras que delimitam os territórios das nações têm um prazo de validade. A atual configuração geopolítica mundial é fruto de guerras e acordos internacionais. Não há um pedacinho de qualquer que seja o território de uma nação que não tenha custado derramamento de sangue, seja na história recente ou antiga.

Não importa a cor e a tonalidade de nossa pele, o sangue que corre em nossas veias é invariavelmente vermelho. Ainda que haja diversidade de etnias, todavia, só há uma raça humana.

Não há razões para se crer numa superioridade étnica, como a defendida por Hitler e sua agenda eugenista.[14] Portanto, todos devem ser igualmente tratados com respeito e dignidade.

A atual onda nacionalista que varre o mundo é uma ameaça ao futuro da sociedade humana. Um retrocesso! Devo concordar com Albert Einstein ao afirmar que o nacionalismo é uma doença infantil, o sarampo da humanidade. Assim como a chegada da modernidade pôs fim ao regime feudal, a pós-modernidade deve pôr um fim à noção que temos de nação. Desde que Yuri Gagarin[15] avistou a terra como um globo azul, nossa perspectiva de mundo mudou drasticamente. Somos uma aldeia global. Não faz mais sentido matar e morrer por um patriotismo cego. E nada medida em que nossa visão do universo foi se alargando, percebemos nosso minúsculo planeta como um grão de areia girando em torno de uma estrela de quinta grandeza, perdida nas periferias da galáxia, o que nos remete à Escritura que diz: “Na verdade as nações são como a gota que sobra do balde; para ele são como o pó que resta na balança; para ele as ilhas não passam de um grão de areia.”[16]

Nenhum Estado deveria ser objeto de nossa devoção. Pelo menos, é o que entendo ao ler as Escrituras a partir de Jesus. Ele relativizou todas as estruturas de poder. Muito mais importante do que elas é a humanidade. Cristo não ofereceu Sua vida por Estados ou governos, mas pela humanidade. Portanto, devemos abandonar esta visão provinciana, atendendo ao convite do escritor de Hebreus: “Saiamos, pois, a ele (Cristo) fora do arraial, levando o seu vitupério. Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura.” [17] “Cidade” aqui deve ser entendida como civilização. A pátria pela qual anelamos não tem fronteiras, nem bandeiras. Trata-se, antes, de uma realidade celestial, não no sentido de ser algo etéreo, pós-morte, mas de ser uma sociedade erigida ao redor do trono da graça, em que o único vínculo que nos une é o amor.[18]

Que chegue logo a hora em que ser brasileiro, ou americano, ou  irlandês, já não será motivo de orgulho. Nascer aqui ou acolá é inevitável, mas vangloriar-se disto é uma postura estreita e potencialmente danosa. Paulo compreendeu isso claramente. Por isso, ainda que pudesse gloriar-se de sua origem étnica, sendo “hebreu de hebreus”, preferiu encarar a aparente vantagem como verdadeiro prejuízo. “O que para mim era lucro”, conclui o apóstolo, “considerei-o perda por amor de Cristo.”[19]

A humanidade é uma única comunidade, composta de povos de diversas etnias e línguas que formam um enorme caldeirão cultural. Conceitos racistas e separatistas como o nacionalismo nos privam deste entendimento.

Concordo com comediante norte-americano Doug Stanhope ao dizer que o nacionalismo ensina a odiar as pessoas que nunca conhecemos e ter orgulho de realizações das quais não participamos. É, portanto, um tipo de alienação.

Prefiro fazer coro com Pietro Gori: “Nossa Pátria é o mundo inteiro, nossa lei é a liberdade.” [20] O que parece fazer eco às palavras de Paulo: “A Jerusalém que é de cima é livre; a qual é mãe de todos nós.”[21]Somos filhos do futuro. Filhos da liberdade. Filhos de um mundo sem fronteiras. Não somos filhos da “Jerusalém que agora existe”, que “é escrava com seus filhos.”[22]Em outras palavras, não pertencemos a esta configuração geopolítica atual prestes a caducar, nem a este sistema opressor que explora e devora seus próprios filhos. Pertencemos a outra ordem, cuja origem é celestial e não terrena. Somos cidadãos do reino de Deus, em que distinções sexistas, sociais e étnicas já não existem.[23] Celebremos, pois, o fato de que “as coisas velhas já se passaram e tudo se fez novo.”[24]


Denúncia de tortura e táticas cruéis de guerra

“Assim diz o Senhor: Não perdoarei a Damasco por seus três crimes e, agora, por mais este: trilharam a Gileade com trilhos de ferro.”[25]

“Por seus três crimes e, agora, por mais este...” – Trata-se de um recurso estilístico que visava indicar que a paciência de Deus estava se esgotando.  Damasco era a capital da Síria, um reino poderoso, adversário frequente de Israel ao longo de sua história. Gileade era uma região ao leste do Jordão, que apesar de pertencer a Israel desde a sua conquista, era disputada pelos sírios que eventualmente a conseguiam dominar. A expressão “trilharam com trilhos de ferro” indica crueldade e desumanidade na guerra. Após a ceifa, o trigo era disposto na eira, uma superfície plana e dura como a pedra ou terra batida. Um boi puxava um trenó de madeira pela eira. O ferro engatado no fundo do trenó separava os grãos das cascas de trigo. Era assim que os exércitos sírios estavam fazendo aos filhos de Israel no afã de tomar Gileade.

Mesmo em tempo de guerra, deve-se levar em conta os valores humanos, respeitando, sobretudo, a população civil. Até o maior adversário deve ser tratado com humanidade. Daí vem o conceito de “guerra justa”, cunhada por Agostinho, inspirada em Cícero, e defendida por vultos como Tomás de Aquino, dentre outros. A doutrina da guerra justa é um conjunto de regras de conduta que define em quais condições a guerra é uma ação moralmente aceitável. Não é por ser uma guerra que pode-se apelar ao vale tudo. Até mesmo nossos inimigos devem ter seus direitos garantidos.

Quem luta do lado oposto da trincheira é tão humano quanto quem luta ao nosso lado. Sem as devidas precauções, seremos reduzidos a monstros, desprovidos de qualquer traço de humanidade. Ainda que o outro lado já tenha se desumanizado, lançando mão de procedimentos cruéis, devemos nos manter leais à nossa consciência, preservando assim a nossa humanidade. Como disse Nietzsche, “aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Para o filósofo alemão, as dificuldades da vida são como uma escola que pode nos endurecer e até nos transformar em pessoas cruéis, todavia, no final, essa será uma opção pessoal. Como dizia Sartre, “não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.” Cada um responde de acordo com que tem dentro de si.

Viktor Frankl[26] comenta em seu  livro “Em busca de sentido” que até nas circunstâncias mais adversas o ser humano tem o direito de decidir qual será sua postura diante do mundo. Sobre sua passagem pelos campos de concentração em Auschwitz, Viktor relatou que alguns prisioneiros se embruteciam e colaboravam em atos de tortura, agindo contra os próprios companheiros, ao passo que outros consolavam os doentes acamados e dividiam com eles seu último pedaço de pão. “Mesmo que não esteja em suas mãos mudar uma situação dolorosa, é sempre possível escolher a forma de lidar com o sofrimento”, afirmou.[27]

Há quem prefira esconder-se por trás da maldade do mundo para dar asas à sua própria perversão. Entretanto, os atos alheios jamais devem justificar os nossos.

Tortura

O uso da tortura é injustificável, levando-se em conta a dignidade humana. Se a crueldade com os animais é terminantemente proibida na Bíblia[28], quanto mais a crueldade contra seres humanos que são a imagem e semelhança de Deus.[29]

Ao ser esbofeteado por ordem do sumo sacerdote, Paulo declarou que dar um tapa em um prisioneiro antes da condenação sob o devido processo legal seria uma violação da lei.[30] Ora, se um simples tapa era contrário à lei, logo, impingir qualquer sofrimento a um ser humano antes que seja devidamente julgado e condenado deve ser considerado ilegal. E veja que não estou me referindo à violação dos direitos humanos, mas a infringir a lei do próprio Deus.  E convém salientar que a lei não se aplica somente ao “natural da terra”, mas também ao “estrangeiro que peregrina entre vós”, tendo em vista que há uma “mesma lei” para ambos.[31]

Nicodemos, o mestre fariseu, argumentou ante os seus pares que julgar um indivíduo ou uma multidão como inimigos do Estado sem que tenham sido condenados em um tribunal é contrário à lei.[32] Lançar mão do expediente da tortura para extrair informações de um suspeito é presumir que o indivíduo seja culpado sem o devido processo judicial a que ele tem direito.

De acordo com os princípios bíblicos que regulam os procedimentos numa guerra, um inimigo poderia ser morto em combate, mas se o conflito terminou, os prisioneiros não devem ser tratados de forma desumana. Um exemplo disso pode ser encontrado em  2 Reis 6:21-23:

“Quando o rei de Israel os viu, perguntou a Eliseu: "Devo feri-los, meu pai? Devo feri-los? "Ele respondeu: "Não! Costumas matar prisioneiros que capturas com a tua espada e o teu arco? Manda-lhes servir comida e bebida e deixa que voltem ao seu senhor". Então preparou-lhes um grande banquete e, terminando eles de comer e beber, mandou-os de volta para o seu senhor. Assim, as tropas da Síria pararam de invadir o território de Israel.”

Tal procedimento era adotado como regra, tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento. Tanto Salomão, quanto Paulo vaticinam:

“Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe pão para comer; se tiver sede, dá-lhe água para beber. Assim fazendo, amontoarás brasas vivas sobre a cabeça dele, e o Senhor te recompensará.” Provérbios 25:21-22

 “Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.” Romanos 12:20,21

“Amontoar brasas sobre a sua cabeça” aponta para o fato de que tratar o inimigo com gentileza e humanidade faria com que sua consciência se abrasasse, sensibilizando-o e constrangendo-o pelo amor. É neste mesmo sentido que Davi pede em seu famoso Salmo 23: “Prepara-me uma mesa na presença dos meus inimigos.” Engana-se quem pensa que Davi estivesse rendido a um espírito vingativo, almejando tripudiar sobre seus desafetos. Pelo contrário, o homem segundo o coração de Deus desejava partilhar seu próprio pão com aqueles que o odiavam. Ele não pretendia tortura-los ou coisa parecida, mas constrange-los com um gesto de amor e solidariedade.

Algo parecido com o que se vê no livro “Os Miseráveis” de Victor Hugo.[33] Jean Valjean, o protagonista do célebre romance, é um homem que vive uma situação de miserabilidade que leva-o ao crime. Depois de 19 anos de prisão (cinco por roubar um pão para sua irmã e seus sete sobrinhos que estavam passando fome, e mais catorze por inúmeras tentativas de fuga) acaba sendo libertado. Marginalizado por todos que encontra por sua condição de ex-presidiário, ele acaba tendo que dormir nas ruas, mas é recebido na casa do benevolente Bispo Myriel. Em vez de se mostrar grato, Valjean  rouba-lhe os talheres de prata durante a noite e foge. Ao ser preso, é levado pelos policiais à presença do bispo para acareação. Em vez de confirmar o roubo, o bispo salva-o alegando que a prata encontrada com ele foi um presente e que ele havia se esquecido de dois castiçais de prata por causa de sua pressa. Após esta demonstração de bondade, o bispo recomenda que ele use a prata para tornar-se um homem honesto. Transformado, Jean Valjean reaparece no outro extremo da França, tornando-se em um próspero empresário, dono de uma fábrica, e um homem respeitado pela sua bondade e caridade. Eis um exemplo de um inimigo em cuja cabeça se amontoou brasas que consumiram o velho homem, fazendo-o renascer como uma renovada fênix.

Abaixo, um poema de minha autoria dos tempos de faculdade:

O Grito dos Bravos

Onde se testou nossa bravura?
Onde se esgotou a vã doçura?
Onde se expôs tanta loucura?
Capaz de destilar tão vil agrura?
Não, não foi nos campos de batalha
Onde o ódio se esvai, fogo de palha
Como nos tornamos desumanos?
Tão sagrados, tão profanos.
Tão sensatos, tão insanos.
D’onde vêm os gemidos que ouço?
Ecos vindos de um frio calabouço
Nada excede a frieza e a feiura
De quem covarde aos seus dedura?
Que beleza pode haver na captura?
Na verdade extraída sem lisura?
Requintes de crueldade.
Acintes à liberdade.




[1] Publicada em 27/8/1780.
[2] Em 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral da ONU votou pelo reconhecimento e respeito a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
[3] Amós 1.1; 7.14
[4] 787- 747 a.C.
[5] Amós 8.46
[6] Isaías 58.2,3
[7] Amós 5.2124
[8] Amós 7.1213
[9] Gênesis 22.11
[10] Êxodo 19.5 / 1 Pedro 2.9
[11] Amós 9.7
[12] Atos 14.16,17
[13] Atos 17.26
[14] Eugenia é um termo criado em 1883 por Francis Galton (1822-1911), significando "bem nascido". Galton definiu eugenia como "o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente". Fonte: Wikipédia.
[15] Yuri Alekseievitch Gagarin foi um cosmonauta soviético e o primeiro homem a viajar pelo espaço, em 12 de abril de 1961, a bordo da Vostok 1. É dele a célebre frase: “A terra é azul.”
[16] Isaías 40.15
[17] Hebreus 13.13-14
[18] Hebreus 11.14-16
[19] Filipenses 3.4-7
[20] Pietro Gori foi um advogado anarquista italiano nascido em Messina (1865 – 1911).
[21] Gálatas 4.26
[22] Gálatas 4.25
[23] “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28).
[24] 2 Coríntios 5.17
[25] Amós 1.3
[26] Viktor Emil Frankl (Viena, 26 de março de 1905 — Viena, 2 de setembro de 1997) foi um médico psiquiatra austríaco, fundador da escola da logoterapia, que explora o sentido existencial do indivíduo e a dimensão espiritual da existência. Sobreviveu aos campos de concentração nazistas em Auschwitz.
[27] FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Editora Vozes, 1991.
[28] Gênesis 49.5-7; Provérbios 12.10
[29] Gênesis 9.6; Êxodo 6:.9; Salmos 71.4; 74.20
[30] Atos 23.3
[31] Êxodo 12.49
[32] João 7.47-53
[33] HUGO, Victor, Os miseráveis (Volume I: Fantine/ Livro sétimo: O Processo de Champmathieu/ XI. Champmathieu cada vez mais admirado). Lisboa: Editorial Minerva, 1962.