terça-feira, setembro 27, 2016

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A verdadeira história de Cosme e Damião




Por Hermes C. Fernandes

Filhos de uma nobre família de cristãos, os gêmeos árabes Cosme e Damião nasceram por volta do ano 260 d.C. Desde muito jovens manifestaram um enorme talento para a medicina, profissão a qual se dedicaram após estudarem e diplomarem-se na Síria. 

Amavam a Cristo com todo o fervor de suas almas, e decidiram dedicar suas vidas ao serviço do amor. Por isso, não cobravam pelas consultas e atendimentos que prestavam, o que lhes rendeu o apelido de "anárgiros", ou seja, “aqueles que são inimigos do dinheiro" ou "que não são comprados por dinheiro". A riqueza que almejavam era fazer de sua arte médica também o seu ministério para o bem de todos. Inspirados no amor de Cristo, usavam a fé aliada aos conhecimentos científicos para atenuar a dor dos enfermos e inválidos. Ao invocarem o nome de Jesus, muitos eram curados, alguns à beira da morte. Até animais eram sarados, pois entendiam que “toda a criação aguarda, com ardente expectativa, pela manifestação da glória de Deus em Seus filhos” (Rm. 8:18:19). 

Seu testemunho de amor produziu inúmeras conversões ao evangelho da graça, chamando a atenção das autoridades. Durante a perseguição promovida pelo Imperador romano Diocleciano, por volta do ano 300, Cosme e Damião foram presos, levados a tribunal e acusados de se entregarem à prática de feitiçarias e de usar meios diabólicos para disfarçar as curas que realizavam. Ao serem questionados quanto as suas atividades, eles responderam: "Nós curamos as doenças em nome de Jesus Cristo, pela força do Seu poder". 

Diocleciano odiava os cristãos porque eles eram fiéis a Jesus Cristo e se recusavam a adorar ídolos e esculturas consideradas sagradas pelo Império Romano.Eles conheceram os princípios da fé cristã desde sua infância, e por isso recusaram-se a adorar os deuses pagãos, apesar da imposição e das ameaças do império. Diante do governador Lísias, ousaram declarar que aqueles falsos deuses não tinham poder algum sobre eles, e que só adorariam o Deus Único, Criador do Céu e da Terra. Mantiveram a Palavra do testemunho de Cristo, impressionando a todos por seu Amor, fidelidade e entrega a Jesus. 

Por não renunciarem aos princípios de Deus, sofreram terríveis torturas. Mas mesmo torturados, jamais negaram a fé. Em 303, o Imperador decretou que fossem condenados à morte na Egéia. Os dois irmãos foram colocados no paredão para que quatro soldados os atravessassem com flechas, mas eles resistiram às pedradas e flechadas. Os militares foram obrigados a recorrer à espada para a decapitação, honra reservada só aos cidadãos romanos. E assim, Cosme e Damião foram martirizados. 

Ironicamente, cem anos depois de morrerem por não se render à idolatria, seus restos mortais começaram a ser alvo de veneração, bem como as imagens esculpidas em sua homenagem. Dois séculos após sua morte, por volta do ano 530, o Imperador Justiniano ficou gravemente doente e deu ordens para que se construísse, em Constantinopla, uma grandiosa igreja em honra de Cosme e Damião. A fama dos gêmeos também correu no Ocidente, a partir de Roma, por causa da basílica dedicada a eles, construída a pedido do papa Félix IV, entre 526 e 530. A solenidade de consagração da basílica ocorreu num dia 26 de setembro e assim, Cosme e Damião passaram a ser festejados pela igreja católica nesta data. 

Os nomes de Cosme e Damião são pronunciados inúmeras vezes, todos os dias, no mundo inteiro. Até hoje, os gêmeos são cultuados em toda a Europa, especialmente na Itália, França, Espanha e Portugal. Além disso, são venerados como padroeiros dos médicos e farmacêuticos, e por causa da sua simplicidade e inocência também são invocados como protetores das crianças. Por isso, na festa dedicada a eles, é costume distribuir balas e doces para as crianças. 

Aqui no Brasil, devido ao sincretismo, a devoção trazida pelos portugueses misturou-se com o culto aos orixás-meninos (Ibejis ou Erês) da tradição africana yorubá. Cosme e Damião, os santos gêmeos, são tão populares quanto Santo Antônio e São João. São amplamente festejados na Bahia e no Rio de Janeiro, onde sua festa ganha a rua e adentra aos barracões de candomblé e terreiros de umbanda, no dia 27 de setembro, quando crianças saem aos bandos, pedindo doces em nome dos santos. 

Uma característica marcante na Umbanda e no Candomblé em relação às representações de Cosme e Damião, é que junto aos dois santos católicos aparece uma criancinha vestida igual a eles. Essa criança é chamada de Doúm ou Idowu, que personifica as crianças com idade de até sete anos de idade, sendo considerado o protetor das crianças nessa faixa de idade. Na festa de tradição afro, enquanto as crianças se deliciam com as iguarias oferecidas às entidades, os adultos ficam em volta entoando cânticos aos orixás. 

Mesmo não compactuando com a devoção que lhes é prestada, não se deve ignorar ou desprezar o testemunho de Cosme e Damião, muito menos demonizá-los como fazem alguns. 

Os médicos gêmeos jamais se deram aos ídolos, tampouco praticaram magia ou ocultismo, embora tenham sido acusados de fazê-lo. Pelo contrário, foram cristãos fiéis até o fim, amando o Senhor sem medida e manifestando Seu amor no serviço ao próximo. Tal testemunho deve continuar a nos inspirar, como tem inspirado a tantas gerações.

P.S.:  Uma pergunta recorrente quando o assunto é "Cosme e Damião" é se um cristão pode comer balas e doces oferecidos a eles. Vou deixar que Paulo, o apóstolo dos gentios, nos responda através de uma paráfrase que fiz do texto em que trata do assunto "Comidas sacrificadas aos ídolos":

“Ora, no tocante aos doces oferecidos a Cosme e Damião, já temos conhecimento suficiente. Mas devo salientar que o conhecimento incha, enquanto o amor edifica. E, se alguém pensa que já sabe alguma coisa, ainda não sabe como convém saber. O importante é amar a Deus e ser conhecido por ele. Logo, quanto ao comer comidas oferecidas a qualquer entidade, sabemos que o ídolo em si nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só. Ainda que haja alguns que se apresentem como deuses (ou santos), sejam em igrejas ou religiões de quaisquer matizes, inclusive africanas ou orientais, todavia, para nós, há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por intermédio dele. Mas nem todos têm este conhecimento; porque alguns até agora comem coisas consagradas em homenagem aos ídolos, e por terem consciência fraca, ficam contaminados. Ora, comer ou deixar de comer não faz qualquer diferença em nossa relação com Deus. Mas devemos ter cuidado para que essa liberdade não sirva de escândalo para os de mente fraca. Porque, se alguém te flagrar correndo atrás de doces consagrados (visto que tens conhecimento da verdade), não será a consciência do que é fraco induzida a comer também (mas sem ter o mesmo conhecimento)? E assim, pelo teu conhecimento prejudicará o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu. Ora, pecando assim contra os irmãos, e ferindo a sua fraca consciência, pecais contra Cristo. Por isso, se comer tais doces escandalizar a meu irmão, nunca mais os comerei, para que meu irmão não se escandalize.” 1 Coríntios 8:1-13

sábado, setembro 24, 2016

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Ajuste sua mira! Acerte o alvo de sua existência


Por Hermes C. Fernandes

“Um só alvo, uma só chance, uma visão além do alcance”. Este foi o lema adotado pela REINA, igreja que pastoreio, anos atrás. Proponho que o examinemos, ponto a ponto.

Ora, se há um só alvo, qual seria? Quando falamos de alvo, falamos de objetivo, propósito. Qual seria, afinal, o propósito de nossa existência como igreja, ou mesmo como seres humanos?

Uns responderiam: ganhar almas; outros diriam: adorar a Deus; e ainda outros: tornarmo-nos parecidos com Cristo. Todas as respostas estão corretas, porém não abrangem o principal. Ganhar almas é o nosso alvo evangelístico. Mas por que devemos ganhar almas?  Adorar a Deus é o nosso alvo cúltico. Porém, qual a razão pela qual devemos adorá-lO? Tornarmo-nos parecidos com Cristo é o alvo do nosso discipulado. Mas qual a finalidade disso tudo? Haveria um alvo que englobasse todas estas respostas?

Imagine um alvo formado de vários círculos. Há um círculo menor no centro de todos os outros. Quem atingir a este círculo estará atingindo a todos os demais. Partindo do maior círculo para o menor, todos sobrepõem-se uns aos outros. Portanto, o menor que está no centro sobrepõe-se aos demais. A flecha que o perfurar estará perfurando a todos. Mas se atingirmos os maiores, negligenciaremos os demais que estiverem sobrepostos a eles.

Qual, portanto,será o alvo dos alvos, aquele que engloba em si mesmo todos os demais? Para onde devemos direcionar nossa mira?

          Deixemos que a própria Palavra nos indique:
“Olhando firmemente para Jesus, autor e consumador da nossa fé” (Hb.12:2a).
Olhar firmemente nada mais é do que mirar, fixar pontaria. Ele é o alvo-mor de nossa existência. É para Ele que todas as coisas devem convergir, pois não é o alvo apenas da igreja, mas de todas as coisas que estão no céu na terra (Ef.1:10).

Ele encerra em Si mesmo toda a realidade. Nem o céu dos céus O podem conter (2 Crônicas 6:18), porém todas as coisas estão contidas n’Ele. No dizer de Paulo, “nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At.17:28). Ele é o ponto de encontro entre o Criador e a criação. N’Ele habita, ao mesmo tempo, a plenitude da criação e a plenitude da divindade (Cl.1:19; 2:9). Por isso Ele pode reconciliar “consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus” (Cl.1:20).

N’Ele todas as coisas existentes são ressignificadas. Mirando n’Ele, miramos o Mundo para o qual Ele foi enviado. Nosso alvo é Ele, mas Seu alvo é o Mundo. Nosso amor ao mundo deve derivar-se de nosso amor a Ele. Amamos o Mundo n’Ele, e não à parte d’Ele.

Se mirarmos no mundo, atingiremos os círculos periféricos do alvo, e não o seu centro. O nome disso é pecado. Por isso se diz que se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele (1 Jo.2:15).

Permita-me uma analogia.

O sexo é bom. Foi Deus quem o criou. Porém, deve ser cultivado dentre de um relacionamento perene. Assim também, o mundo, enquanto criação de Deus é bom (1 Tm.4:4). Foi Deus quem o criou, e amou a tal ponto de dar Seu Unigênito para redimi-lo. Porém, nosso amor a ele deve ser fruto de nosso amor a Cristo. Amar ao mundo à parte de Cristo é o mesmo que praticar sexo casual, descomprometido. 

Quando nos casamos com a pessoa a quem amamos, o sexo é como um bônus. Quem não se sentiria ofendido se soubesse que seu cônjuge casou-se interessado somente em sexo?

Ao buscarmos o Reino de Deus em primeiro lugar, fazendo de Cristo, o padrão da justiça divina, nosso alvo, todas as demais coisas nos são acrescentadas. O que não podemos é inverter a ordem e fazer de tais coisas nosso alvo. Quando nos dispomos a perder tudo por Cristo é que ganhamos todas as coisas.
“E, na verdade, tenho também por perda TODAS AS COISAS, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem sofri a perda de TODAS ESTAS COISAS, e as considero refugo, para que possa ganhar a Cristo”(Fp.3:8).
Portanto, não sobra nada. É perda total! Porém, perda momentânea que resulta em ganho eterno.
“Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele TODAS AS COISAS?” (Rm. 8:32).
Quando focamos nossa vida n’Ele, perdemos tudo, para ganharmos tudo. Ele Se torna nosso único bem. “Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti”(Salmos 73:25).

Fomos conquistados por Cristo para conquistarmos a Cristo (Fp.3:12). Não se trata de conquista no sentido de posse, mas no sentido de nos assemelharmos a Ele.  Fomos enxertados n’Ele e agora Sua Palavra tem que ser implantada em nós (Jo.15:7). Ele está em nós e devemos ser achados n’Ele (Fp.3:9). Ele nos adquiriu, agora temos que ganhá-lO (Fp.3:8). Em termos de salvação, sou monergista. Creio numa salvação que parte d’Ele, sem qualquer colaboração nossa. Porém, em matéria de comunhão, sou sinergista. Fomos escolhidos para ser Sua esposa. Isto foi obra inteiramente d’Ele. Porém, quando adentramos os Seus aposentos, somos seduzidos por Seu amor, e não violados. Há, portanto, uma cumplicidade. E quem poderia resistir ao Seu galanteio? Ele Se torna nosso único tesouro, pelo qual nos dispomos a abrir mão de tudo.

O mundo já não nos enche os olhos. Já não é objeto de nosso desejo, porém, torna-se objeto de nosso amor à medida que nos tornamos canais de Seu amor. Amamos a criação por ela remeter-nos ao Criador, mas jamais a honraremos e serviremos no lugar d’Ele (Rm.1:25).

Porém, como honraremos e serviremos ao Criador, se não nos dispusermos a honrar e servir à Sua obra? Creio que a resposta a esta aparente contradição está no expressão “n’Ele”. O problema não é honrar e servir à criatura, e sim, honrá-la e servi-la ‘no lugar’ do Criador. Assim como o problema não é o dinheiro e sim o amor ao dinheiro. Não é o sexo, mas sim a promiscuidade. Não é a comida, e sim a glutonaria. Não é o vinho, e sim o alcoolismo. Não é o sono, mas a preguiça.

Tudo quanto fizermos, deve ter como alvo a Cristo.

Mesmo quando estendemos as mãos aos necessitados, o fazemos por identificarmos neles o próprio Cristo, de quem um dia ouviremos: “Tive fome, e me destes de comer…” (Mt. 25:35). É por amarmos a Cristo, que amamos tudo e todos quanto Ele ama, da mesma forma como repudiamos tudo quanto Ele repudia. Por isso Ele diz: “Buscai o bem, e não o mal, para que vivais (…) Aborrecei o mal, e amai o bem” (Amós 5:14-15). E mais: “Vós, que amais o Senhor, detestai o mal” (Sl.97:10). Assim, amamos o pobre, mas detestamos a injustiça que causou sua miséria. Amamos o pecador, mas detestamos o pecado que o destrói. Devemos, portanto, nutrir os mesmos sentimentos que houve em Cristo”(Fp.2:1). Tudo o que foi alvo de Seu amor, deve ser igualmente alvo do nosso.

E não basta ter o mesmo sentimento. Devemos adotar a mesma postura, o mesmo procedimento:
“Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (1 Jo.2:6).
“Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós. E devemos dar a nossa vida pelos irmãos” (1 Jo.3:16).
“E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor. Quem  está em amor está em Deus, e Deus nele. Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo (…) E dele temos este mandamento, que quem ama a Deus, ame também a seu irmão” (1 Jo.4:16-17,21).
Não buscamos a Deus em templos feitos por mãos humanas. Quem assim faz, erra o alvo, pois “Deus não habita em templos” (At.7:48). Em vez disso, buscamos a Deus no outro, no excluído, no marginalizado, pois com os tais que Ele Se identifica. Ele não está nas catedrais, mas sob as marquises. Ele não é encontrado sob as abóbadas das mesquitas, mas sob a abóbada celeste, entre aqueles que dormem a relento. Se quisermos encontrá-lO, saiamos ao Seu encontro lá fora, no Mundo. “Saiamos, pois, a ele, fora do arraial” (Hb.13:13a).

O sacrifício que Lhe agrada não se resume em louvor. Mãos erguidas a Ele em adoração, devem ser estendidas ao próximo em doação, caso contrário, seu louvor não passará de bajulação. Deus já está farto de tais sacrifícios! Ele mesmo diz: “De que me serve a multidão dos vossos sacrifícios, diz o Senhor? (…) Cessai de fazer o mal, e aprendei a fazer o bem!” (Is.1:11,16b-17a).

Sacrifícios só Lhe são aprazíveis quando oferecidos “”por meio de Cristo” e resultem na prática do bem, na partilha com os outros.
Portanto, ofereçamos sempre por meio dele a Deus sacrifício de louvor, que é o fruto dos lábios que confessam o seu nome. Não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir com outros, pois com tais sacrifícios Deus se agrada” (Hb.13:15-16).
Pecado é errar o alvo. É viver em função de seu próprio aprazimento. Em suma, pecado é viver para si. Constrangidos por Seu amor, somos desafiados a desviarmos o foco de nós mesmos para Cristo, e assim, passar a nos importar com o que Ele Se importa. “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu” (2 Co.5:15).

segunda-feira, setembro 19, 2016

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Onde é que foi parar aquele menino?




Por Hermes C. Fernandes

Eu não queria estar na pele dele naquele dia.  A missão que recebera do Senhor era a mais complicada de sua trajetória de profeta.  Como dizer ao homem mais poderoso do mundo que ele estava em pecado? Como confrontar aquele que se acostumara com alcunha de “homem segundo o coração de Deus”?

Ainda com olheiras que denunciavam a noite mal dormida, Natã se dirigia ao palácio de Davi. Enquanto caminhava, se indagava:

- O que aconteceu com Davi? Ele está irreconhecível! Aonde foi parar aquele menino que pastoreava as ovelhas do seu pai? Será que ele vai receber bem a palavra que o Senhor me ordenou que lhe dissesse? Será que amanhã a estas horas ainda estarei vivo? Já não bastou ter que dizer a ele que Deus não lhe permitiu construir o tão sonhado templo?

O fato é que Davi pecara contra o Senhor. Seu pecado teria que ser exposto e confrontado.

Dias antes, enquanto seu exército lutava bravamente por seu reino, Davi, que sempre estava à frente da batalha, resolveu tirar uns dias de folga, desfrutando do requinte de seu palácio real.

Numa bela tarde, enquanto passeava no terraço, avistou uma mulher que se banhava, e que, a seus olhos, parecia se insinuar. Foi paixão fulminante à primeira vista. Davi não titubeou, e mesmo sabendo que era mulher de um dos homens mais leais de seu exército, mandou trazê-la aos seus aposentos e a possuiu.

Tudo não teria passado de uma puladinha de cerca básica não fosse a inusitada notícia: Bate-seba estava grávida.  E agora, José? Ou melhor... e agora, Davi?

Desesperado ante a possibilidade de ter seu pecado exposto à opinião pública, o que traria enorme desgaste à sua imagem, Davi arquitetou um plano. Mandou chamar Urias e tentou convencê-lo de tirar alguns dias de descanso, curtindo sua linda e carente mulher. Para todos os efeitos, a criança seria resultado daquelas noites de amor. Mas para sua surpresa, Urias disse não.
- Como eu poderia usufruir do amor de minha mulher sabendo que meus homens estão no front de batalha? Obrigado pela oferta, rei. Mas minha resposta é não.
Davi ainda tentou embriagá-lo, mas não adiantou. Urias não cedeu.

Só restou-lhe uma alternativa. Enviou, por mãos do próprio Urias, uma carta ordenando que Joabe, seu general, pusesse-o à frente da batalha, e quando os inimigos atacassem, retiram-se, deixando-o sozinho. Davi confiava tanto em Urias que sabia que ele não abria a carta que continha sua sentença.

Se Davi tivesse um espelho mágico semelhante à rainha má do conto de Branca de Neve, e lhe perguntasse: “Espelho, espelho meu, haveria no reino alguém mais íntegro do que eu?”, ele certamente responderia: “Sim! Urias.” Por isso, Davi tinha dois motivos para desejar a morte de Urias. 

Como Davi conseguiu dormir depois disso? Onde foi parar aquele menino que derrotara Golias e se tornara na maior referência de heroísmo que Israel tivera em toda a sua história? Em que ele se transformou?
Agora o velho Natã tinha que confrontá-lo.

Tanto Deus, quanto Natã sabiam que Davi apresentaria algum argumento para justificar seu pecado. Por isso, inspirado pelo Espírito, Natan resolveu tomar uma via inusitada para alcançar a sua consciência.

Em vez de confronto direto, Natan contou-lhe uma estória que transcrevo abaixo:

“O Senhor, pois, enviou Natã a Davi. E, entrando ele a ter com Davi, disse-lhe: Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre. O rico tinha rebanhos e manadas em grande número; mas o pobre não tinha coisa alguma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; ela crescera em companhia dele e de seus filhos; do seu bocado comia, do seu copo bebia, e dormia em seu regaço; e ele a tinha como filha. Chegou um viajante à casa do rico; e este, não querendo tomar das suas ovelhas e do seu gado para guisar para o viajante que viera a ele, tomou a cordeira do pobre e a preparou para o seu hóspede. Então a ira de Davi se acendeu em grande maneira contra aquele homem; e disse a Natã: Vive o Senhor, que digno de morte é o homem que fez isso. Pela cordeira restituirá o quádruplo, porque fez tal coisa, e não teve compaixão. Então disse Natã a Davi: Esse homem és tu!” 2 Samuel 12:1-7

Davi fora pego em suas próprias palavras! Ele mesmo lavrou sua sentença. Nem mesmo chegou a usar qualquer argumento para justificar-se, pois fora sumariamente desarmado diante dos olhos de todos os que o rodeavam.

Creio que Natã usou aquela estorinha envolvendo ovelhas, rebanhos, para de alguma maneira relembrar a Davi de onde Deus o tirara. Num encontro anterior entre Natã e Davi, Deus lhe dissera pela boca do profeta: “Eu te tomei da malhada, de detrás das ovelhas, para que fosses príncipe sobre o meu povo, sobre Israel” (2 Sm. 7:8).

Mas agora, ele já não trazia consigo o cheiro das ovelhas. Os odores palacianos o substituíram. O mesmo filho de Jessé que se atracara com um urso e um leão para livrar uma única ovelha do rebanho que seu pai lhe confiara, transformara-se num insaciável predador.

Porém, por baixo de todas aquelas camadas ainda havia um menino que precisa ser redescoberto. Não creio que a intenção de Deus fosse a de envergonhar a Davi. Aquela estória foi o artifício usado por Deus para promover o reencontro entre Davi e um velho conhecido.

Naquele dia, através dos lábios do profeta, o velho Davi recebeu a visita do menino Davi. Naquele dia Deus matou a saudade que sentia do pastorzinho de Israel.

Se fôssemos visitados hoje por quem éramos quando meninos, será que seríamos reconhecidos? Em que temos nos tornado? Teríamos orgulho ou vergonha de nós mesmos? Como explicaríamos aos pastorzinho de ovelhas as atitudes precipitadas tomadas pelo rei?

Como seria receber a visita do Hermes de 33 anos atrás, que com o coração cheio de alegria descia às águas batismais? Em que me tornei, afinal?

Teremos perdido o idealismo? Tornamo-nos cínicos, gananciosos, presunçosos, insuportáveis? Que sentença a criança que fomos aplicaria ao adulto em que nos tornamos?

O problema é que nunca estamos satisfeitos com o que temos. Queremos sempre mais... Não nos contentamos com a vida com abundância prometida por Jesus, e reivindicamos uma vida com ganância proposta por um Cristo impostor.

O mesmo Davi que um dia compôs um dos mais célebres salmos de todos os tempos, dizendo que o Senhor era seu pastor e que nada lhe faltaria, finalmente encontrou algo que lhe faltava: a mulher do seu próximo.

Estamos mais preocupados com o que temos adquirido, do que com o que temos nos tornado. Por mais que sejamos bem-sucedidos do ponto de vista profissional, material, ou mesmo familiar, queremos mais... E para isso, pisamos em todos os valores que antes nos eram caros. Vendemos a nossa alma a preço de banana. Mesmo tendo um harém à nossa disposição, não é o bastante. Queremos Bate-seba. Queremos a mulher de Urias.

Onde é que foi parar aquele menino...

Se o virem por aí, diga que estou com saudade.

Saudade de quem um dia era. Saudade da minha ingenuidade. Do meu romantismo. Do meu primeiro amor. Quem sabe Deus use um velho profeta para me fazer relembrar o cheiro das ovelhas do meu pai.

Talvez o próprio Deus esteja com saudade de você.


* Se conhece alguém além de você e eu, que também necessita ler isso, envie por e-mail ou compartilhe o link deste post.


Depois de ler este post, sugiro que ouça esta linda canção de Guilherme Arantes.

 


Eu e meu primeiro violão aos 11 anos

sábado, setembro 17, 2016

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Eleições chegando: Com o futuro não se brinca!



Por Hermes C. Fernandes

Mais uma eleição se avizinha e duas opiniões antagônicas e radicais têm sido adotadas por muitos cristãos.  Dois extremos que precisam ser evitados para que a igreja não caia no fosso entre a alienação e o comprometimento.

De um lado estão os que se envolvem no processo, apoiando candidatos indicados pela liderança da igreja. Qualquer que ouse questionar é reputado por rebelde.

Do outro lado estão os que defendem o distanciamento da igreja do processo político eleitoral.

Há que se buscar o ponto de equilíbrio. A igreja, enquanto instituição, deve manter-se isenta, permitindo que seus membros exerçam cabalmente sua cidadania. Porém isso não lhe tira a responsabilidade de orientá-los quanto ao uso consciente do direito de votar.

Não confundamos isenção com alienação, nem engajamento com comprometimento.

Uma igreja pode engajar-se no processo de conscientização, desempenhando o papel de agente politizador. Mas jamais deve comprometer-se com qualquer que seja a ideologia, partido ou candidatura, sob pena do prejuízo de seu papel profético.

Cada membro deve ser estimulado a pensar por si mesmo, e fazer suas próprias escolhas. Portanto, a função da igreja é pedagógica, não ideológica.

A despeito disso, um número cada vez mais expressivo de cristãos tem se engajado em campanhas políticas. Uns até movidos por ideais (ainda que ingenuamente), outros por interesses pessoais.

Aproveitando-se disso, candidatos ávidos pelos votos dos fiéis assediam sistematicamente as igrejas durante a época de eleições.

O que para alguns líderes pode ser traduzido como provisão de Deus em tempo de crise, para outros menos ingênuos, tal assédio revela o caráter oportunista e desonesto de nossa classe política, e por isso, deve ser rechaçado.

Para fazer a ponte entre pastores e políticos surge a figura do pulpiteiro, geralmente alguém pertencente ao meio evangélico ou egresso dele, e que domina o evangeliquês. Num País de 46 milhões de evangélicos, o pulpiteiro pode pesar mais para uma candidatura do que o marketeiro profissional.

Mesmo alguns líderes tidos como referência ética no meio, acabam cedendo ao assédio do pulpiteiro. A lógica é simples: se a maioria se beneficia disso, por que ficar de fora? Que mal haveria em aceitar uma oferta generosa para apoiar publicamente um candidato?

Ademais, parece mais simples (e conveniente) apontar um candidato, do que ensinar o povo a votar com consciência.

Não é debalde que durante esta época muitas igrejas concluem suas obras, adquirem equipamento novo de som, ou aquela tão sonhada propriedade para a construção do novo templo. É também nesta época que muitos líderes eclesiásticos desfilam de carro novo, ou anunciam à igreja que depois de tanto tempo de trabalho ininterruptos, finalmente sairá em férias com a família logo após os festejos de fim de ano.

O que está em jogo, afinal?

Não é apenas a postura ética que escorre pelo ralo da conveniência. Um candidato capaz de oferecer propina (este é o nome correto) em troca de votos, do que será capaz depois de eleito?

E mais: de onde ele consegue tanto dinheiro para bancar esta compra de votos no atacado? Que grupos estariam por trás de sua candidatura? Que interesses têm?

Portanto, líderes que se rendem (ou se vendem) às propostas destes políticos estão cometendo traição. Traem seu povo, sua consciência, seus votos ministeriais, e o pior, seu Deus.

Deveriam ler atentamente a advertência proferida pelos lábios do profeta Isaías:

“Os teus príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno, e corre atrás de presentes. Não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas”. Isaías 1:23

Está na hora de darmos um basta nesta famigerada prática. Púlpito não é palanque, e igreja não é curral eleitoral, mas aprisco das ovelhas de Cristo.

Pastores, preparem-se para prestar contas ao dono da Igreja.  Deus não os terá por inocentes. Portanto, “apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente, não por torpe ganância, mas de boa vontade, não como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando se manifestar o sumo Pastor, recebereis a imarcescível coroa de glória” (1 Pe. 5:2-4).

Embora reconheçamos a postura antiética e vexatória de muitos líderes no que tange à política, não podemos nos afastar do processo político, mas nos engajar no afã de produzir entre as ovelhas de Cristo uma consciência política sadia e honrosa.

Cidadania celestial e cidadania terrena não são necessariamente excludentes. Como cristãos comprometidos com o futuro da humanidade, precisamos encarnar os valores e princípios do reino de Deus e expressá-los através de nossa conduta no processo político/eleitoral.

Movido exclusivamente por este interesse, resolvemos assumir a responsabilidade pela produção de uma pequena cartilha para os cristãos. Chamamo-la de Cartilha Reinista pelo Voto Consciente, pois não está vinculada a qualquer denominação, e sim aos ideais do Reino de Deus e a sua justiça.

Confira e compartilhe a Cartilha.



VOTO DO CAJADO - Por Hermes C. Fernandes 

Profanaram nosso altar 
Violaram os seus votos 
Tentam nos manipular 
Induzindo nossos votos 

Quem lhes deu procuração 
pra pensar pelo seu povo? 
Já cansei desta armação 
Nesta marcha não me envolvo 

Quem abriu nossa porteira 
para que entrasse o lobo? 
Armadilha traiçoeira 
pra fisgar só quem for bobo 

Esta guerra contra gays 
Não convence mais ninguém 
Seus decretos, suas leis 
Já não me fazem refém 

Sai pra lá seu impostor! 
Aqui você não se cria 
Assedia meu pastor 
e lhe oferece porcaria 

Ainda que isso fosse 
Por dinheiro ou por cargo 
O que hoje é tão doce 
Amanhã será amargo 

Boas obras podem até 
driblar sua consciência 
Será mesmo que sua fé 
justifica a conivência? 

Mais cedo ou mais tarde 
Suas máscaras cairão 
Imagine o alarde... 
Pra que tanta exposição? 

Na busca por relevância 
fere-se a credibilidade 
Mas no fundo é a ganância 
que negocia a verdade

quarta-feira, setembro 14, 2016

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SUICÍDIO - Como prevenir e como lidar com o fato já consumado



Por Hermes C. Fernandes 

Sem sombra de dúvida, o suicídio é um dos principais tabus entre os cristãos, tanto católicos, quanto evangélicos. Alguns o classificam como um pecado imperdoável. No outro extremo, há uma tentativa assustadora de glamourização do suicídio, principalmente entre os adolescentes.

Não há como não se chocar com o fato de alguém ter atentado contra sua própria vida. Somos tomados por um misto de sentimentos. Preferimos condenar severamente o ato como uma medida preventiva para que outros não se sintam estimulados a cometê-lo. Mas neste afã, esquecemo-nos da dor dos familiares que acaba por intensificar-se significativamente por achar que a alma do suicida está irremediavelmente condenada ao suplício eterno.

O que dizer a uma avó cuja netinha de apenas 15 aninhos se suicidou com uma overdose de medicamentos depois de haver brigado com o seu namorado? E o que pensar de uma pastora que durante o sepultamento desta menina foi capaz de dizer diante dos familiares que aquela alma teria se perdido para sempre? Quanta falta de sensibilidade!

A primeira vez que lidei com a questão do suicídio, eu tinha apenas nove anos. Estávamos voltando de uma visita a uma tia de minha mãe que morava em São Gonçalo. Durante a travessia entre Niterói e Rio, eu e Maria, a moça que auxiliava minha mãe nos serviços domésticos, estávamos debruçados no parapeito do segundo andar da barca quando flagramos um homem que ameaçava pular no mar. Saímos ao seu encontro e conseguimos dissuadi-lo de cometer o desatino. Apesar de não ter ainda consciência das implicações do ato, ouso dizer que foi o Espírito Santo quem colocou palavras em meus lábios, bem como nos de Maria, para convencer àquele homem do valor de sua vida.

Estou convencido de que a melhor maneira de prevenir o suicídio não é condenando suicidas ao inferno, e sim, nos oferecendo para ouvi-los e acolhê-los em sua luta interna. Há várias razões que levam alguém a desistir de viver. Antes de julgá-lo e sentenciá-lo, deveríamos considerar seus motivos, tentando nos imaginar em seu lugar.

Em meados da década de 90, eu estava num shopping center na zona norte do Rio quando avistei um conhecido que não via há anos. Sem muita disposição para conversar, entrei numa loja e fiquei esperando que ele passasse sem me perceber. Subitamente, uma voz falou ao meu coração: Quem ama não evita. Reconhecendo ser a voz do Espírito, saí do meu esconderijo e fui em sua direção. Ele havia parado e se debruçado sobre a grade de proteção do segundo andar e estava chorando muito. Dirigi-me a ele que, assustado com minha presença, me abraçou e confessou que estava disposto a tirar a sua vida naquele dia. E ali mesmo, no meio de um dos mais movimentados shoppings da cidade, consegui dissuadi-lo do suicídio. Além de ser um rapaz de ótima aparência, ele tinha uma das mais belas vozes que já ouvira em toda a minha vida, porém, sofria de uma deficiência física. Sentindo-se rejeitado por quem ele desejava ser amado, decidiu dar cabo à sua existência.

De todas as experiências que tive envolvendo potenciais suicidas, nenhuma me marcou mais do que a que tive durante a apresentação de um programa de rádio. Dentre os ouvintes que atendi no ar, uma mulher chorava copiosamente, dizendo estar diante de uma janela, pronta a se atirar. Tentei acalmá-la e pedi que me contasse o que estava havendo. Ela me explicou que havia crescido em uma igreja evangélica extremamente legalista, mas que se desviara e se tornara numa garota de programa. Para piorar as coisas, ela se engravidou de uma dos seus clientes, mas não tinha a menor ideia de qual deles era a criança. Foi um momento muito difícil e delicado para mim, pois nossa conversa estava sendo ouvida por milhares de pessoas, e se ela resolvesse pular da janela, eu me sentiria culpado para o resto de minha vida. Com muito custo, consegui dissuadi-la de pular. Insisti que voltasse para igreja, mas ela argumentou dizendo que todas as vezes que visitava sua antiga igreja, as pessoas a olhavam de cima a baixo, julgando-a e condenando-a. Em vez de amor, ela só encontrava juízo. Mesmo sustentando sua família com o dinheiro advindo da prostituição e de filmes pornográficos, sua família a rejeitava. Depois de muitas lágrimas, ela aceitou orar comigo, reconciliando-se com Deus. Após a oração, ela pediu para conversar comigo fora do ar. Contou-me que tinha um contrato com uma produtora internacional de filmes pornôs, e que, se resolvesse abandonar aquela vida, teria que pagar uma alta soma pela quebra de contrato. Procurei mostrar-lhe que todo o dinheiro que aquela vida lhe proporcionava não valia a pena, e que, mesmo sofrendo eventuais prejuízos, nada seria melhor do que voltar-se para Cristo e retornar ao seio de sua família.

Infelizmente, nem sempre fui bem sucedido em minhas abordagens com suicidas em potencial. Não faz muito tempo, um rapaz me procurou pelo in box do facebook. Ele se apresentou como um cristão em crise por causa de sua homossexualidade. Tanto sua família, quanto a igreja que frequentava, o rejeitaram. Seus comentários em meus posts nas redes sociais revelavam-no uma pessoa de extrema sensibilidade e aguçada inteligência. Apesar disso, confessou-me ter tentado suicídio algumas vezes. Disse-me que meus textos o haviam ajudado a desistir de se matar. Até que um dia, percebi a súbita ausência de seus comentários em minhas postagens e resolvi visitar seu perfil para saber o que havia acontecido. Levei um choque. No auge de seus vinte e poucos anos, aquele rapaz desistiu de viver. Foi uma das piores sensações que senti em minha vida, como se eu houvesse falhado. Se eu, sem conhecê-lo pessoalmente, senti-me assim, como não devem ter se sentido seus familiares?

Inteligência e sensibilidade não impedem que alguém cometa tal desatino. Basta lembrar-se de que Santos Dumont, o pai da aviação, tirou a própria vida. Getúlio Vargas, o pai dos pobres, o mais popular presidente que este país já teve, também cometeu suicídio. Kurt Corbain, líder da banda Nirvana, em sua carta de despedida, atribui à sua aguçada sensibilidade a decisão de se matar.

Ainda mais triste é quando o suicídio é cometido por uma criança, como aconteceu recentemente com um menino de apenas doze anos, colega de algumas crianças que frequentam nossa igreja. Cansado de sofrer bullying na escola, tomou chumbinho (veneno de rato) e pôs um saco plástico na cabeça. O que deveríamos dizer aos pais dessa criança? Condená-lo ao inferno vai evitar que outra criança cometa o mesmo ou só agravará o sofrimento de seus familiares e amigos?

E o que a Bíblia diz acerca do suicídio? Haveria algum mandamento específico? A resposta é não. A menos que coloquemos o suicídio no mesmo pacote do “Não matarás”. Entretanto, as Escrituras nos apresentam alguns casos que podem nos auxiliar na compreensão deste ato de desespero.

Em Juízes 9:52-54 lemos sobre Abimeleque que, ferido gravemente por um pedra que lhe foi arremessada por uma mulher, percebendo a iminência da morte, implorou que seu escudeiro lhe tirasse a vida. Tecnicamente não foi um suicídio, mas a decisão de morrer foi dele, ainda que pelas mãos de outro. Neste caso, o suicídio foi motivado por uma questão de honra. Era considerado vergonhoso a um guerreiro morrer pelas mãos de uma mulher. Certas culturas levam muito a sério questões relativas à honra. Não são raras notícias de executivos ou políticos japoneses que se suicidaram envergonhados de sua má gestão ou por terem sido pegos em atos de corrupção.

Em 1 Samuel 31:4 lemos que Saul, gravemente ferido, ordenou que seu escudeiro o matasse. Como não conseguiu fazê-lo, o próprio Saul se lançou sobre sua espada. Diante da cena, o escudeiro também acabou se matando. Em 2 Samuel 17:23, Aitofel, conselheiro de Absalão, se enforcou, amargurado pelo fato de seu senhor ter se recusado a atender seu conselho. 

Em 1 Reis 16:18-19, lemos que Zinri, tornou-se rei depois de um golpe de estado. Sem o esperado apoio popular, foi à cidadela do palácio e o incendiou estando dentro dele.

Um dos mais famosos casos de suicídio registrados na Bíblia é o de Sansão (Juízes 16:29-30). Ao derrubar o templo de Dagon, o herói hebreu sabia que morreria juntamente com os seus inimigos. Portanto, foi uma espécie de suicídio heroico. Sansão agiu como os camicazes, os pilotos japoneses da segunda guerra mundial que arremessavam seus aviões contra alvos inimigos sabendo que morreriam também. Algum se atreveria a dizer que Sansão foi para o inferno? Ora, se Deus sabia qual era o propósito de Sansão ao pedir que lhe devolvesse suas forças, por que o atendeu?

Outro caso emblemático é o de Judas, que se enforcou consumido pela culpa após ter traído o seu Mestre.

E finalmente, encontramos nas páginas do registro apostólico o caso do carcereiro que optara pelo suicídio após o terremoto que poderia ter resultado na fuga dos presos sob sua responsabilidade, pois sabia que se fosse acusado de haver facilitado, tanto ele quanto sua família seriam condenados à morte. Graças à intervenção de Paulo, a fuga foi contida, e o carcereiro foi dissuadido de cometer o suicídio. Naquela madrugada, na casa de um pretenso suicida, nascia a igreja na cidade de Filipos. Ele e sua família foram os primeiros a serem batizados (Atos 16:26-28).

Culpa, vergonha, medo, depressão, desespero, são alguns dos ingredientes capazes de levar alguém a atentar contra a própria vida. Em muitos casos, até a química do organismo é comprometida, de modo que um eventual desequilíbrio é capaz de afetar o juízo da pessoa que momentaneamente perde a noção de certo e errado. Naquele fatídico instante, ela não consegue enxergar alternativa se não tirar a própria vida.

Dois dados interessantes é que o maior número de suicídios ocorre entre os ricos e não entre os pobres, e o maior índice se encontra nos países desenvolvidos. Quando estive em Logano, na Suíça, conheci o edifício de onde muitos executivos saltavam com suas maletas 007 e seus ternos Armani, encorajados pela turba que gritava: Pula! Pula! Pula!

Não dá para comparar o caso de um executivo que acaba de perder milhões num negócio arriscado e de alguém que pula de um prédio em chamas, como aconteceu durante os atentados terroristas nas Torres Gêmeas em Nova York em 11 de setembro de 2001.

Especialistas apontam vários tipos de suicídio. Há, por exemplo, o suicídio egoísta, resultado do individualismo excessivo que impede a pessoa de se importar com o sofrimento que vai provocar na família e nos amigos. Não se trata de um ato de coragem, mas de covardia. Não resolve o problema, mas deixa a bomba para os que ficarem.

Há o suicídio altruísta, heroico , em que se abre mão da vida por uma causa considerada justa. Paulo se reporta a este tipo de suicídio em 1 Coríntios 13:3: “Ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.” Este tipo de suicídio era comum nas sociedades orientais primitivas. Visando o bem da coletividade, a pessoa se entregava a morte. Para poupar a outros, ela abria mão de seu direito de viver.

Há ainda o suicídio fatalista, decorrente do excesso de regulamentação da sociedade sobre o indivíduo. Pelo fato de as paixões serem reprimidas de forma violenta, alguns preferem morrer. Shakespeare trata disso em seu clássico “Romeu e Julieta”. O casal apaixonado, dada a impossibilidade de viver plenamente seu romance, opta pelo suicídio.

Há também casos de pessoas que sofreram rejeição na infância, perderam, quando adultas o interesse pela vida. Outras guardam tanta mágoa no coração que se entregam a uma espécie de suicídio gradual; matam-se à prestação através do consumo de cigarro, bebidas, drogas, etc. Outros praticam um tipo de roleta russa, vivendo desregrada e promiscuamente, sabendo dos riscos de se contrair uma DST. Outras, optam por viver perigosamente, afirmando que só se sentem vivas quando estão próximas da morte.

Num certo sentido, somos todos suicidas, em menor ou maior grau. Todos fazemos coisas que reconhecemos que nos são prejudiciais, mas preferimos correr todos os riscos, mesmo sabendo o quão frágil é a vida. Freud se refere a isso como pulsão de morte. Não seria a isso que Paulo se referia?: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço” (Romanos 7:19). Porém, isso não é desculpa para se viver de maneira inconsequente, flertando com a morte. Jamais nos esqueçamos de que não pertencemos a nós mesmos. Nosso corpo é templo do Espírito Santo, e que, um dia teremos que prestar contas do que fizemos a ele (1 Coríntios 3:16; 6:19).

Concluindo a nossa reflexão, resta saber como devemos reagir diante do suicídio de alguém a quem amamos ou conhecemos? Ou ainda: o que dizer a família que perdeu um ente querido desta forma?

1 – A psicologia e a psiquiatria têm revelado que geralmente o suicídio é resultado de um transtorno emocional, ou mesmo de um desequilíbrio bioquímico associado a um profundo estado de depressão. Se a pessoa está revelando tendências suicidas, além de orar e cobri-la de amor, sugiro que procure ajuda profissional.

2 – A justiça de Deus que é perfeita e leva em consideração o impacto que nossa mente perturbada tenha sobre nós. Há quem nunca tenha tido a disposição de tirar sua vida, mas seja capaz de fazer verdadeiras orações suicidas, como as de Elias e de Jonas. Ambos suplicaram que Deus lhes tirasse a vida depois de obterem um estrondoso sucesso em seus ministérios. Quão complexa a mente humana!
3 – Muitas famílias se sentem culpadas, achando que não fizeram o suficiente para evitar a tragédia. Com a ajuda de Deus pode-se encarar e vencer a culpa, admitindo que o suicida precisava de ajuda profissional que nós mesmos não pudemos proporcionar. Entretanto, estejam atentos aos sinais. Ao menor sinal, busquem ajuda imediatamente. Não acreditem no argumento de que quem ameaça, nunca comete. Promessas e tentativas não visam só chamar a atenção.

Para a família do suicida, digo: Há esperança. Entre a tentativa do suicídio e a morte pode haver um tempo de arrependimento. Mesmo que em milésimos de segundo, alguém pode se arrepender. Entre o décimo andar do edifício até o chão é tempo suficiente para o Espírito Santo trabalhar na consciência de alguém. E ainda que não haja, Deus é justo e misericordioso.

Para quem pensa em tirar sua vida, digo: Não posso ser conivente. Suicídio é um ato covarde, muitas vezes, fruto de excessivo amor próprio. Já que o mundo não lhe dá a importância que julga merecer, ela prefere privá-lo de sua vida. Se tivesse mais amor às pessoas do que a si mesma, pensaria na dor que provocaria. Pense: quantos tentaram e não conseguiram dar cabo de sua própria vida, passando o resto da vida vegetando, dando trabalho aos outros? Não é isso que você quer, é? Então, trate de tirar isso de sua cabeça. Qualquer coisa que faça, pode ser revertida e consertada, menos o suicídio. Trata-se de caminho sem volta. Lembre-se de que “o Senhor é quem tira a vida e a dá. Faz descer a sepultura e faz tornar a subir dela” (1 Samuel 2:6). Portanto, finque seus pés da estrada da vida. Viva e deixe viver.

terça-feira, setembro 13, 2016

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ALMA CANHOTA - O mundo não foi feito sob medida para você



Por Hermes C. Fernandes

Por muito tempo, eles foram perseguidos e condenados à morte na fogueira da Santa Inquisição. Eram considerados verdadeiras aberrações, abominações responsáveis por atrair a ira divina. Quem pensa que estou me referindo aos homossexuais ou às bruxas está redondamente equivocado. Refiro-me aos canhotos. Isso mesmo. 

Quando me perguntam se sou destro ou canhoto, costumo responder que sou ambidestro. Escrevo com as duas mãos. Obviamente que não com a mesma destreza. Em algumas tarefas, sou melhor com a esquerda do que com a direita. Por exemplo: meu soco é sempre com a esquerda. Não tenho muita força com a direita. Quando aponto para algo, uso o olho esquerdo. Seguro o garfo com a direita, mas para a sobremesa, seguro a colher com a esquerda. Dá pra entender uma coisa dessas? Toco violão como um destro, mas toco piano como um canhoto. Desconfio que originalmente eu fosse canhoto, mas minha mãe me forçou a ser destro. Claro que não fez isso por mal. Certamente, quis me poupar por perceber que o mundo não é feito para os canhotos. 

O mundo sempre nos impõe seus padrões. Qualquer coisa que fuja a eles é considerado anormal. Apesar de socialmente destro, reconheço-me como uma alma canhota. Aspiro coisas que o mundo é incapaz de suprir. Tenho sonhos que extrapolam as bordas da realidade que me circunda. 

Desafortunadamente, a maior parte das pessoas se deixa adestrar (verbo que significa literalmente “tornar-se forçosamente destro”). E assim, abrem mão de sua essência, tornando-se naquilo que a máquina social as programou para ser. Vivem como manda o figurino. E assim, deixam de viver algo extraordinário, sacrificando seus sonhos no altar da conveniência. Sorte do mundo que haja rebeldes entre nós. 

Pessoas que prezam a autenticidade e se dispõem a correr o risco que for para que sua biografia seja motivo de inspiração a outros. Só há uma maneira de se copiar alguém absolutamente autêntico: sendo igualmente autêntico. É um tributo que se presta aos tais. 

Por que tanta gente prefere a comodidade dos padrões pré-estabelecidos? Por que preferem seguir mapas desenhados por outros em vez de abrirem sua própria trilha? Simples. Seguindo as rotas previstas no mapa, sabe-se com certeza aonde se vai chegar. Quem abre seus próprios caminhos deve estar preparado para surpresas. Entre uma vida de certezas e uma vida de surpresas, a maior parte opta pela primeira. E assim, deixa-se de viver plenamente. A expectativa cede ao tédio. A adrenalina e a dopamina são substituídas pelo excesso de melatonina. 

Há um episódio bíblico de proporções épicas desconhecido pela maioria e que relata a proeza de um herói canhoto. Os moabitas estavam oprimindo Israel quando Deus ouviu o clamor de seu povo, enviando-lhe um libertador. Eúde, um benjamita canhoto, foi a Eglom, rei dos moabitas, para entregar o dinheiro do “tributo” que os israelitas pagavam. Ele portava uma espada feita sob medida na coxa direita, por baixo da capa. Provavelmente, antes de ser admitido à presença de Eglom, ele foi revistado, mas apenas do lado esquerdo, onde os homens destros costumavam guardar suas armas. Quando Eúde chegou, o rei estava em seu aposento privativo, sem ninguém por perto. Aproveitando a oportunidade, Eúde sacou sua espada contra Eglom e fugiu, mas não pela entrada normal. Em vez disso, ele trancou a porta da sala privativa do rei, escapando sem ser visto. Demorou algum tempo até que seus servos percebessem que algo estava errado. Mas ninguém ousava interromper a uma reunião do rei. Quando, finalmente, destrancaram a porta, eles o encontraram morto (Juízes 3:12-31). Um canhoto livrou Israel da opressão de um rei déspota, possibilitando ao seu povo viver oitenta anos de paz. O fator preponderante na proeza de Eúde foi a surpresa. Talvez este devesse ser o nosso trunfo. 

Quem sabe por isso que Jesus orientou a seus discípulos a oferecerem a face esquerda a quem lhes ferisse a direita (Mt. 5:39). Não se trata de passar um atestado de idiotice, mas de surpreender nosso oponente com uma reação inusitada. Não basta fazer a coisa certa com destreza. Há que se fazer com a motivação sincera que parte do lado esquerdo do peito, isto é, do coração, sem se preocupar com censura de quem quer que seja. 

Que nos julguem! Que nos enviem para a fogueira de suas inquisições! Mas estaremos certos que vivemos plena e autenticamente, de acordo com os desígnios divinos e os mais legítimos anseios do nosso coração.

Abaixo, "Brincar de viver", linda canção de Guilherme Arantes na voz de Maria Bethânia.

"A arte de sorrir, cada vez que o mundo diz não..."

sábado, setembro 10, 2016

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A falência da Indústria Religiosa



Por Hermes C. Fernandes

Por que despertamos o ódio de tanta gente quando expomos a Verdade em contraposição dos métodos e estratégias usadas pela igreja atual? Basta um artigo sobre assuntos polêmicos como a famigerada teologia da prosperidade, para que o ânimo de alguns se altere. Quando comentam em nossos artigos, em vez de exporem seus pensamentos com base nas Escrituras, preferem os ataques pessoais, tentando minar nossa credibilidade e pôr em xeque nossas motivações.

Por incrível que pareça, este não é um fenômeno recente. A igreja primitiva teve que lidar com as mesmas reações, ora por parte dos judeus, ora por parte dos gentios.

Um episódio que pode atestar o que estamos afirmando é o que lemos em Atos 19, e que nos mostra o efeito causado pela atuação do ministério de Paulo em Éfeso.

À medida que as pessoas iam se convertendo à Fé, elas abandonavam suas superstições e crendices. O texto diz que “muitos dos que tinham praticado artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos” (v.19). Até aí, tudo bem. Cada um faz o que quer com o que é seu. Quer rasgar, queimar, quebrar, dar fim, o problema é dele. Mas alguém que assistia resolveu calcular o prejuízo. “Feita a conta do seu preço, acharam que montava a cinqüenta mil moedas de prata”. Uau! Se Judas traiu Jesus por trinta moedas de prata, e isso já era uma quanta considerável, imagine o que representava uma quantia tão vultuosa: cinqüenta mil moedas de prata!

Pra se ter uma idéia do montante, as trinta moedas recebidas por Judas foram suficientes para adquirir um campo. Isso significa que as 50 mil moedas de prata daria pra comprar cerca de 1666 campos! Tudo isso em livros. O mercado editorial de Éfeso entrou em colapso. Aquelas pessoas que dispuseram seus livros para a fogueira, jamais voltariam a consumir tal literatura.

Devemos estar cientes que a pregação do genuíno Evangelho sempre fere interesses. Alguém vai ter que arcar com o prejuízo.

Não bastasse a quebra do mercado editorial, sobrou também para a indústria religiosa.

O texto diz que “por esse tempo houve um não pequeno alvoroço acerca do Caminho. Certo ourives, por nome Demétrio, que fazia de prata miniaturas do templo de Diana, dava não pouco lucro aos artífices. Ele os ajuntou, bem como os oficiais de obras semelhantes, e disse: Senhores, vós bem sabeis que desta indústria vem a nossa prosperidade. E bem vedes e ouvis que não só em Éfeso, mas até quase em toda a Ásia, este Paulo tem convencido e afastado uma grande multidão, dizendo que não são deuses os que se fazem com as mãos. Não somente há perigo de que a nossa profissão caia em descrédito, mas também que o próprio templo da grande deusa Diana seja estimado em nada, vindo a ser destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo veneram” (At.19:23-27).

Em outras palavras, a mensagem pregada por Paulo doía no bolso e ainda maculava a reputação deles, colocando-os em descrédito perante a opinião popular. Portanto, era uma questão que envolvia dinheiro e reputação, avareza e vaidade. Para disfarçar, eles alegavam que Diana, sua deusa, estava sendo ultrajada, dando assim um ar de piedade religiosa às suas reivindicações. Foi o suficiente para que houvesse uma manifestação popular. – Grande é Diana dos Efésios! Bradava a turba.

No fundo, no fundo, o que os incomodava não era o culto à deusa. Se o templo de Diana fosse reputado em nada, o que fariam os que viviam da venda de miniaturas dele? Imagine se convencêssemos as pessoas que a Arca da Aliança (tão em voga no meio evangélico hoje em dia) não passava de uma figura de Cristo, e que já não serve para nada. O que fariam os pastores que distribuem miniaturas da Arca por uma oferta módica de 100 reais?

O que seria daquela cidade se o culto a Diana foi exterminado? E os milhares de romeiros que vinham de todas as partes do mundo para ver de perto da imagem que, segundo o dogma, havia caído de Júpiter?

A pregação do Evangelho causou tamanho impacto que bagunçou o coreto daquela sociedade. Todos os esquemas foram desmontados. Era como se a correia dentada do motor que a mantinha em movimento se arrebentasse. De repente, todas as engrenagens pararam. Alguma providência tinha que ser tomada!

Tomaram dois dos companheiros de Paulo e os levaram ao teatro para apresentá-los à turba enfurecida. Paulo quis se apresentar, mas foi dissuadido por algumas autoridades que lhe eram simpáticas. No meio do tumulto, “uns clamavam de uma maneira, outros de outra, porque o ajuntamento era confuso. A maioria não sabia por que se tinha reunido”(v.32). Eis o retrato fiel de um povo “Maria-vai-com-as-outras”, que só serve de massa de manobra nas mãos dos poderosos.

A maioria nem sequer sabia o que estava acontecendo. Mas não hesitavam em unir suas vozes aos demais em protesto gratuito e desprovido de sentido.

Quando Alexandre se apresentou diante do povo, acenando com a mão como quem queria apresentar uma defesa, “todos unanimemente levantaram a voz, clamando por quase duas horas: Grande é a Diana dos Efésios!” (v.34). Repare nisso: Diana era considerada deusa em todo o império romano. Mas em Éfeso, seu culto tomou um vulto inédito. Ela não era apenas “Diana”, e sim “Diana dos Efésios”. Algo parecido com o apego que muita gente tem à sua denominação. Cristo deixa de ser Cristo, para ser o “Cristo dos Batistas”, o “Cristo dos Presbiterianos”, o “Cristo dos Pentecostais”, o "Cristo dos Católicos", e assim por diante.

Finalmente, o escrivão da cidade (provavelmente um figurão da sociedade efésia), conseguiu apaziguar a multidão, dizendo: “Efésios, quem é que não sabe que a cidade dos efésios é a guardadora do templo da grande deusa Diana, e da imagem que caiu de Júpiter? Ora, não podendo isto ser contraditado, convém que vos aquieteis e nada façais precipitadamente” (vv.35-36). Para tentar controlar o manifesto, o tal escrivão apelou ao dogma religioso. Dogma é aquilo que não se pode contestar. É tabu. Está acima do bem e do mal. Por isso, não se discute. É isso e tá acabado.

A igreja evangélica também tem seus dogmas. Ninguém se dá o trabalho bereano de averiguar se o que está sendo pregado bate ou não com as Escrituras. Se o líder falou, está dito. E se alguém se atreve a questionar, é logo tachado de herege, e acusado de estar tocando no ungido do Senhor. E há quem ainda critique o dogma católico da infalibilidade papal!

Alguém viu quando a estátua caiu de Júpiter? De onde provinha tal certeza? Quem anunciou o fato? Provavelmente foram os sacerdotes do templo de Júpiter que queriam atrair o público de volta ao templo a qualquer custo.

Há uma indústria religiosa que se alimenta de mentiras, de dogmas inquestionáveis, e de superstições baratas. É esta indústria que corre o risco de quebrar se a verdade do Evangelho for anunciada, e suas mentiras desmascaradas.

Os fiéis não passam de papagaios de pirata, repetindo o que ouvem sem ao menos refletir. Se dissermos que não há mais maldição a ser quebrada, o que será daqueles cuja prosperidade advém desta mentira? Como poderão cobrar para que as pessoas participem de um Encontro num sítio, a fim de que vejam a Deus cara a cara, e assim, sejam libertas de suas maldições?

Veja: compromissos são feitos em cima desses argumentos chulos. A prestação da propriedade adquirida pela igreja. O programa de rádio. O material de propaganda. O salário do pastor. Tudo isso tem que ser garantido pelo esquema montado. É um ciclo retro-alimentado. Se alguém chega pregando algo que contrarie o esquema, é logo tachado de herege, falso profeta, etc., pois interrompe o ciclo, produzindo um colapso na estrutura.

É isto que o Evangelho faz! Todas as estruturas injustas entram em colapso, para que um novo sistema, com engrenagens justas, se erga, tendo como centro o Trono da Graça de Deus.

Acorde, povo de Deus! Voltemos para as Escrituras! Abandonemos a mentira, o argumento falso, o estelionato, e voltemos à prática do primeiro amor. Caso contrário, Deus nos julgará, e reduzirá nossa indústria religiosa (que chamamos carinhosamente de “igreja”) aos escombros.

Não ficará pedra sobre pedra!