quinta-feira, abril 19, 2018

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A VAQUINHA SAGRADA - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA



Por Hermes C. Fernandes 

Acredito que a maioria dos meus leitores conheça a estória da vaquinha sagrada que precisou ser lançada num precipício para que a família que dela dependia encontrasse outros caminhos e viesse a prosperar. Mas quero propor aqui uma releitura da fábula sob a ótica da tal vaquinha. Afinal, toda estória tem dois lados. Que tal conhecermos o lado dela?

***

Era uma vez uma vaquinha. O leite que produzia ajudava a manter uma família inteira. Todos pareciam amá-la, pois dela dependia a sua sobrevivência. Porém, num certo dia, ela estava faminta. A família só se preocupava em ordenha-la, mas se esquecera de alimentá-la. Fraca, ela saiu em busca de pastagem, mas se viu presa, cercada de arames farpados.

Vendo um boi do outro lado da cerca, perguntou-lhe:

– Como é a sensação de poder pastar livremente num lugar tão amplo?

– É maravilhoso – respondeu.

– E você, querida amiga, não está satisfeita com a grama que lhe dão?

– Como você pode ver, a grama aqui já secou faz tempo e meus donos nem sequer se preocupam em me alimentar. Só fazem exigir de mim todas as manhãs que lhes dê leite suficiente para alimentá-los. E de você, amigo boi, o que seus donos esperam receber?

– A única coisa que posso oferecer é minha força para puxar o arado. – Então é por isso que lhe mantém tão bem alimentado. E quando não tiver mais condições de puxar o arado, o que será de você?

– Logo, logo, eles me enviarão para o matadouro.

– Que triste sina a sua! Felizmente, meus donos parecem gostar muito de mim. Duvido que me deem o mesmo destino.

– Por que não aproveita o espaço entre os arames, e tenta alcançar um pouco de grama verdinha para se alimentar?

– Acho que meus donos não ficariam contentes de me ver comendo da grama de um pasto alheio. Por isso que substituíram a cerca de madeira por uma de arame farpado. Se tentar enfiar meu focinho por entre os arames, acaberei me machucando feio.

Enquanto os bovinos conversavam, o dono da vaca se aproximou, e julgou que a sua vaquinha estivesse se alimentando do pasto do vizinho e até planejando fugir. Com raiva, pôs-se a espanca-la severamente.

– Sua vaca ingrata! Como pode desejar a grama do quintal vizinho e se esquecer de toda a grama com que já te alimentamos ao longo dos anos?

No outro dia, fraca por não haver se alimentado bem e com o corpo todo dolorido devido à coça que recebera, a vaca não conseguiu produzir o tanto de leite que costumeiramente produzia. Os filhos do dono começaram a reclamar.

– Quem esta vaca pensa que é? Será que se esqueceu de suas obrigações?

Sem paciência, espancaram-na um pouco mais e fizeram pequenos talhos em suas patas. Como se não bastasse, usaram de força bruta para ordenha-la, fazendo sangrar suas tetas. Por causa disso, o leite perdeu a brancura, e misturado ao sangue, apresentou uma coloração rosa.

– Que nojo! Como poderemos beber disso? – indagou um dos filhos do dono.

– E o pior é que não dá pra vender leite estragado! – concluiu o outro, aplicando-lhe um golpe de chicote no lombo. Num reflexo defensivo, a vaca deu-lhe um coice e o machucou.

– Esta vaca está merecendo um castigo! Vamos deixa-la sozinha por um tempo, sem poder pastar, presa no curral. Só assim, ela verá o mal que nos fez – disse o dono.

Naquela noite, a família recebeu em casa uma visita inusitada: Um monge e um noviço que não tinham para onde ir. Ouvindo o mugido triste da vaca, o monge pediu para vê-la no curral.

– Não se avexe não, seu monge. Fique à vontade. O curral fica bem atrás da casa – disse o dono.

Ao entrar no curral, o monge e o noviço se depararam com uma cena deprimente. A vaca parecia desolada, prostrada sobre suas patas como se carregasse uma tonelada nas costas.

– Então, você é a famosa mimosa? – disse o monge, aproximando-se vagarosamente e acarinhando sua cabeça.

– Ela não lhe parece muito machucada, meu senhor? – perguntou o noviço.

– Sim, e pelo jeito essas feridas foram abertas recentemente – avaliou o monge.

– Isso está me parecendo maus tratos. Mas esta família me parece tão boa praça. Não tem jeito de ser do tipo que maltrata animais – comentou o noviço.

– Quem vê cara não vê coração, meu jovem – asseverou o monge.

– Se permanecer aqui por mais tempo, esta vaca vai acabar morrendo. Precisamos fazer alguma coisa urgentemente – disse o noviço.

– Nada disso é de nossa conta. E além do mais, não podemos ser ingratos à família que nos hospedou – disse o monge.

– Não é o senhor mesmo que diz que quem sabe fazer o bem e não faz comete pecado? Então... Temos que fazer algo por esta criaturinha de Deus – pressionou o noviço.

O monge não respondeu uma só palavra. Durante a madrugada, perdeu o sono, ouvindo os mugidos e pensando na tristeza daquele animal e em como aliviá-la. Quando o dia já se insinuava, levantou-se pé por pé, chamou o noviço fazendo-lhe sinal de silêncio, ambos se dirigiram ao curral. Lá chegando, desprenderam a vaca, abriram-lhe a porteira e levaram-na até um precipício.

– Ajude-me a empurrá-la – pediu o monge ao noviço.

– O senhor sabe mesmo o que está fazendo? – Não me faça perguntas. Apenas obedeça. Isso faz parte de seu treinamento.

A vaca resistiu o quanto pôde. Alguns que passavam por ali, vendo a cena, ofereceram-se para ajudar a empurrá-la. Gente que durante anos bebeu do seu leite, agora se prontificava a livrar-se de uma vaca magra, cuja carne nem dava para aproveitar. Quando a vaca finalmente se despencou precipício abaixo, o monge fez sinal para o noviço indicando que era hora de partirem.

– O senhor não vai nem ao menos se despedir da família?

– Depois de termos libertado aquela que era seu ganha-pão? Só se eu fosse louco!

– E o senhor ainda tem coragem de dizer que aquilo que fizemos foi libertá-la? Nós a matamos!

– Depende do ponto de vista. Para quem estava sofrendo como ela, morrer precipitada num despenhadeiro era um destino mais digno do que viver sofrendo nas mãos de donos tão cruéis.

Um ano depois, o monge e o noviço voltaram a passar por aquelas terras.

– Está reconhecendo este lugar? – perguntou o monge ao noviço.

– Sinceramente, a paisagem não me é estranha. Mas não me lembro de ver uma casa como esta por essas bandas – respondeu apontando para uma linda casa recém-construída.

– Que tal pedirmos um copo d’água para sabermos quem mora lá? – sugeriu o monge.

Tocando a campainha, foram atendidos por um rapaz vistoso que os reconheceu de imediato.

– Pai, veja quem está aqui – disse o garoto.

O dono da casa se aproximou e os recebeu com grande alegria.

– Pelo jeito, os senhores não estão me reconhecendo – disse o homem.

– Sua fisionomia é familiar, mas realmente não nos lembramos de onde nos conhecemos.

– Sou aquele homem que os hospedou um ano atrás. Vocês partiram sem ao menos se despedir.

– Perdoe-nos a indelicadeza. Tínhamos nossas razões. E o que houve com vocês para que prosperassem tanto em tão pouco tempo?

– Ah sim... lembra daquela vaquinha? Ela desapareceu misteriosamente!

– Sentimos muito pelo ocorrido.

– Não deveriam. Foi a melhor coisa que poderia nos acontecer. Pois desde então, meus filhos tiveram que procurar um rumo em suas vidas. A família teve que se reestruturar. Eu mesmo encontrei outra atividade a que me dedicar. E assim, tudo começou a fluir e cá estamos nós.

O monge olhou para o noviço como se dissesse: “Está vendo o bem que fizemos a eles?”

O noviço aproximou-se do monge e sussurrou-lhe:

– Seria esse o destino que mereciam depois de tudo o que fizeram àquela vaquinha?

O monge respondeu-lhe:

– Não se trata de méritos, meu jovem. Libertamos a vaca do sofrimento e ainda por cima, libertamos a família da dependência. Ninguém aqui saiu perdendo. Você só se precipitou em julgar minha atitude.

O que eles não sabiam era que a vaca havia sobrevivido ao tombo, sendo acolhida pelos donos da propriedade vizinha que, encontrando-a machucada, cuidaram de suas feridas e lhe franquearam seus verdejantes pastos.

terça-feira, abril 17, 2018

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É possível ser leal, sem ser fiel e verdadeiro sem ser sincero



“Não existe grandeza onde não há simplicidade, bondade e verdade.”
Leon Tolstoi


Ter esperança nada mais é do que seguir confiante de que o melhor, eventualmente, se sucederá. Todavia, há desfechos pelos quais jamais ousaríamos ansiar. Nem tudo nessa vida é preto no branco. Há vitórias que são verdadeiros fracassos. Davi experimentou isso. A crise gerada por seu filho Absalão não poderia terminar bem. Qualquer das alternativas seria igualmente devastadora para o coração do velho pai. Se Absalão obtivesse êxito em sua conspiração, Davi perderia o trono. Porém, se fosse derrotado, Davi perderia o filho.

Insistentemente esperançoso, Davi ordenou a seus generais que por amor a ele tratassem brandamente ao jovem Absalão. Para garantir que sua ordem fosse cumprida, o rei tratou de falar pessoalmente com todos os capitães na presença do povo. Ele queria desbaratar a rebelião, mas manter ileso o seu causador. Afinal, tratava-se de seu filho e não de um estranho qualquer.

Durante a sangrenta batalha no bosque de Efraim que estancou a rebelião, eliminando ao menos vinte mil soldados, Absalão foi encontrado por acaso pelos servos de seu pai. Montado numa mula, seus cabelos longos se prenderam nos ramos de um carvalho. A mula seguiu sua marcha, mas ele ficou suspenso no ar. Um dos homens correu e contou a Joabe, general de Davi, o que flagrara. Indiferente ao que Davi tanto lhe recomendou, Joabe perguntou ao soldado: “Por que não o derrubaste logo por terra? Eu te haveria dado dez siclos de prata e um cinto.”[1]Duvido que Joabe esperasse ouvir dos lábios daquele anônimo a resposta que recebeu: “Ainda que eu pudesse pesar nas minhas mãos mil siclos de prata, não estenderia a mão contra o filho do rei, pois bem ouvimos que o rei deu ordem a ti, e a Abisai, e a Itai, dizendo: Guardai-vos, cada um, de toca no jovem Absalão. E se eu tivesse procedido falsamente contra a sua vida, coisa nenhuma se esconderia ao rei, e tu mesmo te oporias a mim.”[2]

Esta resposta merece que nos debrucemos um pouco mais sobre ela. Engana-se quem pensa que todos têm um preço. Entre as massas facilmente manipuláveis, sempre encontraremos quem tenha valor e jamais permita que sua alma seja etiquetada. Infelizmente temos que admitir que não são muitos. Há que se garimpa-los. Geralmente, estão entre os anônimos, entre os que não venderam suas almas em busca de fama e reconhecimento. Joabe, considerado fiel escudeiro de Davi, finalmente se deparou com alguém mais fiel do que ele. E aqui se vê a diferença entre lealdade e fidelidade. Joabe se revela leal a Davi ao se prontificar a matar quem se lhe opunha. Ao passo que se mostra infiel ao mesmo rei ao deixar de atender à sua solicitação de poupar o rapaz. Num mesmo gesto, lealdade e infidelidade. Numa cortada brusca e deselegante, Joabe respondeu àquele homem: “Não vou perder tempo assim contigo. E, tomando três dardos, trespassou com eles o coração de Absalão.”[3] Alguém como Joabe não se prestaria a perder tempo com quem não se deixasse manipular. Aquele moço era carta fora do baralho, um idiota inútil.  

Havia a necessidade de tão grande covardia? Não teria sido melhor simplesmente prendê-lo e entrega-lo vivo ao rei?  Porém, Joabe achou que matando a Absalão, estaria zelando pelos mais nobres interesses do reino. Por isso, não se importou com a ferida que abriria no coração de Davi. Não se importou com a dor dilacerante que provocaria em seu amigo. Seus interesses falavam mais alto que seus sentimentos.

Quem diria que o mesmo Joabe que lá trás intercedeu a Davi para que recebesse de volta a seu filho Absalão, agora remetia contra a sua vida. Talvez fosse justamente por isso, por um sentimento de culpa, pois se sentia responsável por haver reintroduzido Absalão em Jerusalém, convencendo seu pai a perdoá-lo. Joabe havia sido seu avalista, daí achar-se no direito de interromper seu motim mesmo que fosse através de um ato covarde como aquele. Possivelmente pensasse que, sendo ele quem abrira aquela ferida no reino de Davi, competia a ele estancá-la, mesmo que fosse por uma atitude tão covarde, matando-o a sangue frio, sem direito de defesa. Seja qual tenha sido o mecanismo usado para driblar sua consciência, o fato é que Joabe foi infiel ao seu rei na medida em que se negou a atender a um pedido seu.

Há quem pense fazer o bem, enquanto faz o mal. Há quem destile ódio em nome de um amor não correspondido. Há quem seja movido por vingança, alegando agir por justiça. Há quem viva uma mentira alegando ser em defesa da verdade. De fato, só precisamos de uma boa justificativa para sermos cruéis. E assim, sacrificamos nossa fidelidade no altar da lealdade. A lealdade visa preservar o interesse do outro, desde que este não se esbarre com o nosso. A fidelidade leva mais em conta o desejo, a vontade expressada, do que meramente o suposto interesse.

Jesus advertiu aos Seus discípulos: “Vem a hora em que qualquer que vos matar julgará prestar um serviço a Deus.”[4]  Poderia haver mal entendido maior que esse? Paulo mesmo admite que perseguia a igreja por causa do zelo que tinha pela lei de Deus.[5] Portanto, Paulo era-Lhe leal, porém, sem ser-Lhe fiel. Não basta estar do lado certo da história, defendendo o belo, o justo e o bom. Nem é suficiente ser zeloso do bem De que adianta fazer o bem sem ser bom? De que vale uma generosidade cruel? De que vale fazer justiça com as próprias mãos, sem ser realmente justo, ser honesto, sem ser íntegro, ser verdadeiro, sem ser sincero?



[1] 2 Samuel 18:11
[2] vv.12-13
[3] v.14
[4] João 16:2
[5] Filipenses 3:6

sexta-feira, abril 13, 2018

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Tesouros em vasos de barro



Por Hermes C. Fernandes

Onde, geralmente, guardamos objetos de grande valor tais como joias ou quantias vultuosas em dinheiro?  Ninguém em sã consciência vai guarda-los numa caixão de papelão ou numa jarro de barro, não é verdade? Em vez disso, recorremos a cofres, e por mais fortes que sejam, ainda fazemos questão de escondê-los. Ao adquirir um cofre, ninguém está preocupado com sua beleza, e sim com a segurança que oferece. Só nos damos por satisfeitos quando temos a garantia do fabricante de que o cofre é à prova de arrombamento.

Pois Deus toma o sentido oposto disso. Em vez de num cofre forte, Ele deposita Seu maior tesouro em frágeis vasos de barro.  Pelo menos, esta foi a constatação feita por Paulo:

“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos.” 2 Coríntios 4:7-10

Eis o maior de todos os tesouros: a vida de Jesus pulsando em nós.

Não haveria um lugar mais seguro onde Deus pudesse depositá-la? Talvez os anjos fossem bem mais confiáveis que nós. Ainda assim, Deus preferiu correr todos os riscos, e a razão para isso, segundo Paulo, é para que os créditos por sua manutenção seja inteiramente d’Ele, não nossos.

Mais adiante na mesma epístola, o apóstolo diz que se fosse preciso gloriar-se, ele se gloriaria em sua fraqueza, isto é, em sua fragilidade e vulnerabilidade. [1] Quantas pessoas em nosso círculo de amizades costumam se gabar de suas fraquezas? Geralmente, preferimos fazer propaganda de nossas virtudes, enquanto disfarçamos nossas vicissitudes.  Aprendemos que as qualidades devem ser realçadas e os defeitos varridos para debaixo do tapete.  O evangelho, entretanto, nos propõe exatamente o inverso.  Paulo vai ainda mais longe ao admitir que, caso resolvesse se gloriar, não estaria sendo insensato, pois estaria dizendo a verdade. Ele, de fato, tinha razões para se gabar. Seu currículo era invejável. Sua conduta ilibada. “Mas abstenho-me”, afirma, “para que ninguém pense de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve.”[2]

Será que Paulo estaria com isso afirmando haver uma total compatibilidade entre o que ele pregava e o que ele vivia? Acredito que não. Conhecendo Paulo como conheço, ele se considerava uma contradição ambulante, a ponto de dizer noutra passagem que não reconhecia em si bem algum. Pelo contrário, o bem que queria fazer, não fazia, mas o mal que não queria, estava sempre diante dele.  Então, o que Paulo quis dizer, afinal?

Considerando a primeira passagem que lemos, ouso afirmar que aquilo a que ele se referia quanto ao que nele se via nada mais era do que fraqueza.  Portanto, Paulo não queria fazer propaganda falsa a seu respeito. Bastava fitar-lhe para perceber quão fraco ele era. Porém, o que dele se ouvia era nada mais, nada menos que o Evangelho de Cristo.

Se não quisermos criar expectativas sobre-humanas naqueles que nos cercam, precisamos enfatizar que o que se vê em nós não corresponde necessariamente o que se ouve de nossa boca. O vaso segue sendo de barro, mas seu conteúdo é preciosíssimo.

Nossa contradição nos impede que nos vangloriemos. O que pregamos depõe contra nós mesmos, conquanto revele quão dependentes somos da graça divina. Mesmo o selo do Espírito Santo que recebemos equivaleria àquele adesivo que põe na bagagem para indicar que o seu conteúdo é frágil.
Os que se gloriam na carne são os que ostentam uma santidade de fachada. Os tais preferem valorizar mais o frasco que o perfume nele contido.

Sabendo da propensão de Paulo em se vangloriar, Deus lhe aplicou um método preventivo e pedagógico. O apóstolo dá testemunho disso:

 “E, para que não me exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar. Três vezes orei ao Senhor para que o afastasse de mim. Ele, porém, me disse: A minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Portanto, de boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Pois quando estou fraco, então é que sou forte.” 2 Coríntios 12:7-10

Repare que Paulo trata o tal espinho na carne como um verdadeiro dom. “Foi-me dado”, testifica.  Sem ele, seu ego inflaria até explodir. E não adiantava orar, suplicar, implorar.  O espinho visava seu bem, não seu mal. Era necessário que Paulo não apenas fosse vacinado contra qualquer tipo de vanglória, mas aprendesse a sentir prazer em suas próprias fraquezas, bem como nas injúrias que sofresse por causa delas. A grande sacada é a consciência de que a nossa força advém da admissão de nossa fraqueza.  

Cada espinho é um lembrete de quem somos à parte da graça. O escritor de Hebreus diz que o sumo-sacerdote só poderia se compadecer dos que não tinham conhecimento  e andam errantes pelo fato de ele mesmo estar “rodeado de fraquezas”.[3] Talvez esse seja o sentido de Jesus ter sido coroado de espinhos. Como nosso sumo-sacerdote, Ele estava rodeado de fraqueza.  Daí Paulo dizer que “ainda que foi crucificado por fraqueza, vive contudo pelo poder de Deus. Pois nós também somos fracos nele, mas viveremos com ele pelo poder de Deus para convosco.”[4]

Escrevendo aos gálatas, Paulo expõe sua frustração ao perceber que aqueles cristãos estavam se desviando do Evangelho para depender de seu próprio desempenho.  “Receio por vós”, desabafa, “que de algum modo eu tenha trabalhado em vão para convosco. Irmãos, rogo-vos que sejais como eu, pois também eu sou como vós. Em nada me ofendestes. E vós sabeis que primeiro vos anunciei o evangelho estando em fraqueza da carne. Embora minha enfermidade na carne vos fosse uma tentação, não me rejeitastes nem me desprezastes; antes me recebestes como a um anjo de Deus, como ao próprio Cristo Jesus. Qual é, logo, a vossa alegria? Dou-vos testemunho de que, se possível fora, teríeis arrancado os vossos olhos e os teríeis dado a mim. Fiz-me, acaso, vosso inimigo, dizendo a verdade? Os que tanto se esforçam para vos agradar não o fazem com sinceridade, mas querem afastar-vos de mim, para que vós tenhais zelo por eles. É bom ser zeloso, mas sempre do bem, e não somente quando estou presente convosco.”[5]

Desconfie de todo aquele que procura destacar-se dos demais, fazendo com que todos o superestime.  “Sou como vós”, brada Paulo. Sofro as mesmas agruras. Passo pelas mesmas tentações. Exibo as mesmas ambiguidades. Basta olhar para mim e perceber. Não me sinto ofendido por ser como os demais. Pelo contrário, é justamente nisso que me glorio.

Quando chegou á região da Galácia, Paulo estava com uma inflação crônica nos olhos. Era algo que causava repulsa. Todavia, sua enfermidade não o impediu de anunciar o Evangelho.  E sabe o que isso produziu em seus interlocutores? Um amor tal que, se possível fosse, eles tirariam seus próprios olhos para dar a Paulo. Ninguém questionou sua credibilidade como apóstolo pelo fato de estar enfermo. Ninguém pôs em xeque sua idoneidade, autoridade e integridade.  E Paulo, por sua vez, não se inibiu de falar-lhes a verdade.E sabe por quê? Porque eles o viam com as lentes do amor. O amor lhes conferia a habilidade de enxergar para além do recipiente frágil do seu corpo, de sorte que podiam identificar nele o próprio Cristo. 

Devemos pregar a verdade ainda que esta deponha contra nós mesmos. O que está em jogo não é a nossa reputação, mas a glória d’Aquele que nos chamou e enviou a anunciar a boa nova do Seu reino.

Há, todavia, os que buscam atrair as pessoas após si. Estes são facciosos, partidaristas, e exigem exclusividade (Se for amigo de Paulo, não pode ser meu amigo!).  Seu objetivo é afastá-los de quem realmente lhes quer bem.  E para tal, estão sempre dispostos a apontar os erros do outro, realçar seus defeitos, expor suas contradições, desacreditá-lo, descredenciá-lo. 

O genuíno evangelho não produz gente perfeita, arrogante, que arrota santidade, mas gente que admite sua fragilidade e que busca ser zelosa do bem, tanto na presença, quanto na ausência. Gente que, apesar de suas contradições, procura ser coerente. Gente que busca salvaguardar a reputação de seus irmãos por enxergar neles sua própria humanidade. 





[1] 2 Coríntios 11:30
[2] 2 Coríntios 12:6
[3] Hebreus 5:2
[4] 2 Coríntios 13:4
[5] Gálatas 4:11-18

quarta-feira, abril 04, 2018

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Pedras nas mãos de corações petrificados



Por Hermes C. Fernandes

Antes de se desarmar as mãos e os lábios dos que atentam contra a nossa dignidade e credibilidade, há que se desarmar seus corações. Antes de calar argumentos difamatórios, há que se fazer aquietar almas enfurecidas e desapontadas por suas próprias expectativas. 

“Mandaram as irmãs de Lázaro dizer a Jesus: Senhor, aquele a quem amas está enfermo.” João 11:3

O recado enviado por Marta e Maria a Jesus era carregado de cobrança. Foi como uma chantagem emocional para que Jesus Se apressasse a visitar a Lázaro. De fato, Jesus o amava, como também amava suas irmãs, “porém, quando ouviu que Lázaro adoecera, ficou ainda dois dias no lugar onde estava” (v.6).

Fico imaginando o que deve ter passado na cabeça de Seus discípulos. Que amor é esse? Por que Jesus não aperta os passos, interrompe todos os Seus compromissos, e vai logo visitar aquele a quem Ele diz amar?

Depois de dois dias, para a surpresa dos discípulos, Jesus disse: “Voltemos para a Judeia” (v.7). O que? Voltar ao ponto de partida, quando há alguém precisando de Sua visita com urgência? Os discípulos ainda tentaram argumentar com Jesus para dissuadi-lO de retornar à Judeia: “Rabi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te, e voltas para lá?” (v.8). Parecia ser um argumento bem razoável. Aquele povo O odiava, incitado pelos seus líderes. Mesmo assim, Jesus não estava disposto a alterar Sua agenda.

Jesus não estava preocupado com as pedras que queriam atirar n'Ele, mas com uma pedra que precisava ser tirada para que Sua glória se manifestasse.  Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Ele jamais daria um tiro no escuro. Daí Sua incisiva resposta: “Não há doze horas no dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, pois vê a luz deste mundo. É quando anda de noite que tropeça, pois não tem luz” (v.9-10). Em outras palavras: “Fiquem tranquilos, sei o que estou fazendo! Estou apenas seguindo a orientação do meu Pai”. Jesus nunca Se preocupou em ficar bem na fita ou ser politicamente correto. Algumas de Suas atitudes foram extremamente impopulares. Porém, Ele seguia à risca as determinações do Pai, e jamais Se atreveu a alterar o cronograma por Ele determinado.

Embora tivesse que passar pela Judeia (onde Sua popularidade estava em baixa, e ainda corria o risco de ser apedrejado), o objetivo último de Jesus era alcançar Betânia, onde Seu amigo Lázaro estava. Antes de partir, Jesus informou-os: “Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo” (v.11). Os discípulos acharam que Jesus estava falando de um sono literal. Não era sempre que Jesus Se fazia entender. “Então Jesus disse claramente: Lázaro está morto, e me alegro...” . Respira fundo... leia de novo... foi isso mesmo que Jesus disse? Lázaro, aquele a quem Ele tanto amava, havia morrido, e Ele estava alegre? Como assim? Esse é o problema de se pinçar algo de seu contexto imediato. Antes de tirarmos conclusões precipitadas, que tal deixarmos que Jesus conclua Seu pensamento?
“Então Jesus disse claramente: Lázaro está morto, e me alegro, por vossa causa, de que lá não estivesse, para que possais crer. Mas vamos ter com ele” (vv.14-15).
Jesus não disse que estava alegre porque Lázaro havia morrido. Ele estava alegre por haver poupado Seus discípulos de algo, atrasando propositadamente Sua caminhada. Jesus sabia que Seus discípulos não tinham estrutura espiritual para assistir às certas cenas. Vê-lo morrer poderia inibir sua fé e confiança em Deus. Foi por amor a Seus discípulos que Jesus retardou Sua viagem a Betânia. Portanto, ninguém poderia acusá-lo de falta de amor.

Devemos tomar redobrado cuidado com aqueles que pinçam palavras fora de seu contexto, e a distorcem a seu bel-prazer, para servir a seus propósitos e interesses. Uma palavra pode ter seu sentido inteiramente alterado, bastando que se mude o tom de voz, ou ainda, a expressão corporal e facial. Também devemos aprender com Jesus a poupar as pessoas daquilo para o qual não estão ainda preparadas. Isso é agir com responsabilidade. Noutra feita, Jesus disse a Seus discípulos que ainda tinha muito que lhes dizer, porém eles não estavam preparados (Jo.16:12).

Às vezes me pergunto quais teriam sido os critérios usados por Jesus na seleção de Seus discípulos. Pedro, aquele em quem mais Jesus parecia confiar,  negou-O  três vezes. Judas, o que cuidava da tesouraria do ministério de Jesus, traiu-O por trinta moedas de prata, e ainda teve o descabimento de justificar-se, dizendo que sua esperança era que, ao ser preso e condenado pelos romanos, Jesus Se revelasse ao mundo com todo o Seu poder e glória, e assim, libertasse os judeus do domínio romano. Em outras palavras, a traição visaria o próprio bem de Jesus. Quanta cara de pau! E como se não bastasse esses dois, ainda havia Tomé, o incrédulo. Neste episódio, Tomé foi responsável por um comentário infeliz na frente de seus colegas: “Vamos nós também para morrer com ele” (v.16). Pelo jeito, perdeu uma grande chance de ficar calado.

Infelizmente, ainda nos deparamos com gente incrédula no seio do povo de Deus, e que não consegue enxergar os propósitos de Deus em nada que acontece. Gente que só está preocupada em se preservar, salvar sua pele,  ou simplesmente, impor seu ponto de vista.
“Quando Jesus chegou, já fazia quatro dias que Lázaro havia sido enterrado. Betânia distava cerca de quinze estádios de Jerusalém, e muitos judeus tinham vindo visitar Marta e Maria, para consolá-las acerca de seu irmão” (vv.17-19).
Os mesmos judeus que estavam buscando uma oportunidade de apedrejar a Jesus, agora demonstravam compaixão pela situação de Marta e Maria. Eles se colocaram ao lado das irmãs de Lázaro, mas estavam armados contra o Filho de Deus. E o pior é que tudo indica que tenham conseguido o que, de fato, queriam: jogá-las contra o mestre.

“Ouvindo Marta que Jesus vinha, saiu-lhe ao encontro. Maria, porém, ficou em casa” (v.20). Fica nítido que Maria não queria ver Jesus. Ela estava engasgada com aquela situação. Os judeus a convenceram de que Jesus não vivia o que pregava, pelo fato de não ter visitado Lázaro enquanto ainda estava enfermo.

Marta, entretanto, resolveu sair ao encontro de Jesus e tirar aquilo a limpo.

“Disse Marta a Jesus: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (v.21). Aquilo foi uma acusação. Fica claro que ela estava sob a influência dos líderes judeus, agitadores, que foram ali com o pretexto de consolá-las, mas no fundo, queriam mesmo era lançá-las contra Jesus, e assim, destruir a credibilidade do Seu ministério.

Porém, enquanto O acusava, Marta caiu em si, lembrando-se de tudo o que havia presenciado no ministério de Jesus, dos Seus ensinamentos, de Seu exemplo de vida, e, imediatamente, recobrou o ânimo, e complementou: “Mas ainda agora sei que tudo o que pedirdes a Deus, ele te concederá” (v.22). Isso parece indicar que o estrago feito pelos judeus não havia sido completo. Ainda havia uma fagulha de fé no coração de Marta. Jesus, então, resolveu alimentar essa fagulha, dizendo: “Teu irmão ressurgirá” (v.23). Marta ainda tentava encontrar um sentido para tudo aquilo, e por isso, respondeu: “Eu sei que ressurgirá na ressurreição, no último dia” (v.24). De quem Marta havia ouvido aquilo? De quem ela aprendera sobre aquela verdade? Dos judeus agitadores, ou de Jesus que era acusado de negligência? No entanto, Jesus ainda tinha muito que ensiná-la. Seu discipulado não havia terminado. Agora era hora de uma nova lição.

Disse Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim, nunca morrerá. Crês isto? Disse ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” (vv.25-27). Finalmente, Marta começava a enxergar as coisas na perspectiva certa. Daí sua confissão de fé. Todos os argumentos dos judeus caíram por terra ao som desta confissão.
“Depois que ela disse isso, voltou e chamou Maria, sua irmã, em particular, dizendo: O Mestre está aqui e te chama” (v.28).
Repare nos detalhes que o texto oferece. Agora que ela sabia a verdade, e não apenas uma versão pervertida da verdade, ela tinha que compartilhar com sua irmã, que também estava sob a influência dos judeus “consoladores” (ou seriam “agitadores”?). Sabiamente, para não causar mais tumulto, Marta chamou sua irmã em particular. Ao referir-se a Jesus como “o Mestre”, Marta estava dizendo a Maria: Ele ainda tem muito que nos ensinar. Será que esquecemos de tudo o que aprendemos com Ele? Vamos parar para ouvi-lo, e saber o que Ele tem a dizer. Vamos parar de ouvir a versão da turma do contra, e ouvir Àquele que é a Verdade, JESUS.
“Quando Maria ouviu isso, levantou-se depressa e foi encontrar-se com Jesus. Ora, Jesus ainda não tinha entrado na aldeia, mas estava no lugar onde Marta o encontrara. Quando os judeus que estavam com Maria em casa e a consolavam, perceberam quão rapidamente ela se levantara e saíra, seguiram-na, supondo que ia ao túmulo para chorar ali” (vv.29-31).
Maria não ficou argumentando com Marta. Não alegou que havia resolvido dar um tempo. Pelo contrário, ela se apressou em atender ao convite do Mestre. Deixou os judeus para trás, e saiu ao encontro de Jesus. Os judeus ficaram atordoados. Acharam que ela tinha ido ao cemitério chorar a morte do irmão, e por isso, decidiram segui-la.

“Quando Maria chegou ao lugar onde Jesus estava e o viu, caiu-lhe aos pés, dizendo: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (v.32). Jesus já ouvira isso antes. Maria fazia coro com sua irmã, pois ambas haviam bebido da mesma fonte de indignação: os judeus que queriam a destruição do ministério de Jesus.

“Jesus, vendo-a chorar, e também chorando os judeus que com ela vinham, comoveu-se profundamente em espírito, e perturbou-se” (v.33). A maneira como este versículo está disposto, dá a entender que Jesus reagiu de maneira diferente diante de cada choro. Ele comoveu-Se com o choro de Maria, mas “perturbou-se” com o choro forçado dos judeus.

“Perguntou ele: Onde o pusestes? Responderam: Senhor, vem e vê. Jesus chorou” (vv.34-35). O que teria levado Jesus à essa reação emocional? Por que Ele chorou ante o túmulo de Lázaro? Impotência diante da morte? Não! Seu choro foi um misto de comoção e perturbação. Comoção com o sofrimento das irmãs de Lázaro, e perturbação diante da hipocrisia dos judeus.

Para fazer uma média, os judeus disseram: “Vede como o amava! Mas alguns disseram: Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também que este não morresse?" (vv.36-37). Agora fica claro de baixo de que influência Marta e Maria estavam, e de onde elas tiraram aquelas conclusões acerca de Jesus.

Os judeus já espreitavam a Cristo em busca de algo para incriminá-lo. Porém, Jesus não lhes dava chance. Tentaram acusá-lo de blasfêmia, mas seus argumentos foram jogados por terra. Não havia como acusá-lo de adultério, de mentira, de roubo, então, o único trunfo que conseguiram foi esse: acusá-lo de incoerência entre o que pregava e vivia. Se pregava tanto amor, como poderia ser tão negligente com quem dizia amar? Como poderia ter deixado que ele morresse daquele jeito, sem ao menos visitá-lo enquanto estava vivo? Se podia evitar sua morte, por que não o fez? A conclusão deles era uma só: Jesus não vive o que prega!

Já que pedradas vindas de fora não O atingiam, o melhor a fazer era promover uma rebelião entre os de dentro, levando-os a duvidar do caráter e do amor do Mestre. Por um momento, eles conseguiram influenciar até pessoas do círculo íntimo de Jesus, como eram Marta e Maria. Mas a erva dadinha da dúvida estava prestes a ser arrancada.
“Jesus, comovendo-se profundamente outra vez, dirigiu-se ao sepulcro. Era uma gruta, como uma pedra posta sobre ela. Disse Jesus: Tirai a pedra. Disse Marta, irmã do morto: Senhor, já cheira mal, pois é o quarto dia. Então Jesus lhe disse: Não te disse que se creres verás a glória de Deus?” (vv.38-39).
Observe: Jesus comoveu-Se outra vez. A diferença é que agora Sua comoção era voltada inteiramente para as irmãs de Lázaro. Em nenhum momento Jesus apresentou uma defesa, e nem Se preocupou em provar nada para ninguém. O que o movia não era o prazer do espetáculo, mas a compaixão pelo sofrimento alheio.

Tirai a pedra! Não seria a pedra do sepulcro uma perfeita alegoria para a pedra em que se tornou o coração daquele povo? Deus promete em Sua Palavra que removeria do nosso peito o coração de pedra, e nos daria um coração de carne.

Em outras palavras, Jesus estava dizendo aos Seus acusadores: Em vez de me atirar pedras, tirem a pedra de seus corações. O que incomodava mais a Jesus não eram as pedras que traziam nas mãos, mas a pedra que havia em seus peitos.

Espíritos armados inibem a manifestação da glória de Deus. A pedra tem que ser removida. A parede de separação tem que ser destruída, para que a glória do Senhor seja vista entre nós.

Primeiro, Jesus Se dirige ao Pai, dando-Lhe graças por sempre Lhe ouvir. Depois é que se dirige ao túmulo aberto, exalando mau cheiro, clamando em alta voz: “Lázaro, vem para fora!” (v.43).

Você pode imaginar a cena? Já assistiu a algum filme de múmia? Pois é. “O morto saiu, tendo as mãos e os pés enfaixados, e o rosto envolto num lenço. Disse Jesus: Desatai-o e deixai-o ir” (v.44). Cada vez que leio esta passagem, ela se renova em meu entendimento e fico admirado com a atitude de Jesus.

A ordem de Jesus foi “desatai-o e deixai-o ir”.

Este é o Espírito do Evangelho! Liberdade!

Jesus não constrange ninguém a segui-Lo. Nem mesmo os membros de Sua própria família, Sua mãe e irmãos, eram forçados a segui-lo.  Ele jamais usou argumentos humanos para tentar cativar as pessoas. Ele sempre as deixou bem à vontade.  E sabe qual foi o resultado disso? Basta ler o capítulo seguinte, e verificaremos que o mesmo Lázaro promoveu, juntamente de suas irmãs, um banquete para receber Jesus em seu lar.

Jesus os cativou pelo amor. Não foi com argumentos, nem Se defendendo das injúrias e acusações dos judeus, mas simplesmente, amando.

Esse é o nosso Jesus! Quem O conhece, reconhece a Sua voz!

Ele nos atrai com “cordas de amor” (Os.11:4) e diz: “Com amor eterno te amei; com benignidade te atraí” (Jeremias 31:3).

Quem conseguirá nos separar deste amor? Que argumentos seriam convincentes o suficiente para nos remover dos Seus braços?

E é por confiar inteiramente em Seu amor por nós, que Ele nos dá liberdade.

Gosto de uma frase dita por John Lennon: “Amo a liberdade, por isso deixo as coisas que amo livres. Se elas voltarem é porque as conquistei. Se não voltarem é porque nunca as possuí.”


Portanto, sintam-se desatados!


Se não nos virmos mais por esses dias, quem sabe um dia, a gente se reencontra.


Christus Victor! Semper Invictus!

terça-feira, abril 03, 2018

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DE VOLTA AO PASSADO



Por Hermes C. Fernandes 

Se pudesse entrar numa máquina do tempo, voltar ao passado e alterar sua própria história, o que você faria? De que situações você se pouparia? Que amizades que mais tarde se revelariam falsas você evitaria? E se isso significasse que ao retornar ao presente você não fosse quem você se tornou? Dizem que o futuro está em aberto, mas que o passado está irremediavelmente fechado. Ainda não inventaram a tal máquina do tempo, e para alguns, a prova de que ela jamais será inventada é o fato de não estarmos recebendo viajantes do futuro. E se o tais viajantes do futuro alcançaram um grau de sabedoria tal que chegaram à conclusão de que não é recomendável que se altere o passado? E se eles até vieram nos visitar, mas preferiram se manter incólumes, evitando, assim, que se alterasse o curso da história? 

Elucubrações à parte, o fato é que o passado segue aberto. Não para ser alterado, mas para ser ressignificado. E para tal, recomendo que se troque as lentes paranoicas por lentes pronoicas. Pronoia é o inverso de paranoia. A mentalidade pronoica é a que acredita que todas as coisas contribuem para o seu bem, enquanto que a mente paranoica acredita que tudo conspire para o seu mal. Para romper com a paranoia e aderir à pronoia, temos que passar pela metanoia que é a expansão da consciência. Quando passamos pela metanoia, nossa mente transcende o tempo e o espaço e enxerga os fatos a partir do prisma da eternidade. Quem não possui uma mentalidade pronoica dificilmente consegue perdoar. E sabe por quê? Porque sempre acha que o mundo lhe deve algo. Todos parecem conspirar contra ele. Mas quando experimentamos a metanoia, concluímos que, no fundo, ninguém jamais nos fez mal algum. Todos, sem exceção, contribuíram para que chegássemos aonde chegamos, e nos tornássemos em quem nos tornamos. 

Veja, por exemplo, o caso de José do Egito. Se ele pudesse voltar no tempo, será que desbarataria a conspiração de seus irmãos, impedindo-os que o vendessem como escravo? Será que evitaria ficar a sós com a esposa de seu patrão para que não fosse acusado de assédio sexual e tentativa de estupro? Já parou para imaginar o que José pode ter sofrido durante os primeiros dias de prisão? Será que naquela época os acusados de estupro eram melhor tratados do que hoje? Porém, tudo pelo que passou, conspirou para que ele chegasse ao segundo mais importante de cargo no Egito. A prova de que José perdoou a seus irmãos está no fato de ele ter ressignificado sua própria história. Ao reencontrá-los, José os reconheceu, porém, não foi reconhecido por eles. Afastando-se, foi para o seu quarto e chorou tão alto que o palácio inteiro ouviu. Aquele choro estava entalado em sua garganta por muitos anos. Ele chorou por toda a injustiça que sofreu. Por tudo de que foi injustamente acusado. Mas logo em seguida, recompôs-se, voltou-se para seus irmãos e se revelou. Perplexos, eles imaginaram que José iria à forra, e mandaria que seus guardas os degolassem. Em vez disso, José lhes disse: 
“Eu sou José, seu irmão, aquele que vocês venderam ao Egito! Agora, não se aflijam nem se recriminem por terem me vendido para cá, pois foi para salvar vidas que Deus me enviou adiante de vocês. Já houve dois anos de fome na terra, e nos próximos cinco anos não haverá cultivo nem colheita. Mas Deus me enviou à frente de vocês para lhes preservar um remanescente nesta terra e para salvar-lhes as vidas com grande livramento. "Assim, não foram vocês que me mandaram para cá, mas sim o próprio Deus. Ele me tornou ministro do faraó, e me fez administrador de todo o palácio e governador de todo o Egito.” Gênesis 45:4b-8 
Se é verdade o que diz Paulo em Romanos 8:28, posso afirmar convictamente que ninguém jamais nos fez mal algum. Ainda que sua intenção tenha sido esta. Deus é aquele que transforma o mal em bem. Perguntaram-se certa vez se eu pudesse viajar no tempo impediria o parto precoce da minha filha, responsável por sua deficiência. Pensei um pouco e respondi: Sim. Acho que não permitiria que isso acontecesse. Então me perguntaram se eu havia realmente perdoado a médica que cometeu o erro. Eu prontamente respondi que sim. Tanto a perdoei que não me neguei a prestigiar o casamento de seu filho. A pessoa, então, me confrontou, dizendo que se houvesse perdoado realmente, não alteraria em nada o que aconteceu. A verdade é que foi através de minha filha especial que cheguei à revelação da graça. Foi necessário algo drástico para me desarraigar de minha religiosidade legalista. Olhando do ponto de vista meramente humano, é óbvio que se pudesse evitar todo o sofrimento pelo qual minha filha passou, eu evitaria. Mas olhando do prisma do propósito divino, e do bem que esta situação produziu para tantos, eu preferiria dizer o mesmo que disse Jesus ante o pavor da morte: “Que não seja feita a minha, mas a tua vontade.” Jesus sabia o que estava em jogo! Era a salvação da humanidade. Mesmo assim, Ele tremeu na base. Sua carne, como de qualquer outro, mostrou-se fraca. Todavia, Ele se rendeu à vontade do Pai. Era melhor Seu sofrimento temporário do que o sofrimento eterno de toda a humanidade. Talvez José imaginasse que o que estava em jogo era apenas a sobrevivência de seu pai e seus irmãos. Mas para Deus, estava em jogo muitíssimo mais que isso. Era daquele estirpe que viria o Messias. Portanto, o futuro da raça humana dependia de sua preservação. Para desarraigar José da barra das saias de seus pais, foi necessário passar por tudo aquilo. O mal que lhe sobreveio visava um bem infinitamente maior. Por isso, ele prontamente perdoou a seus irmãos. Da mesma maneira como Jesus perdoou os Seus algozes na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o fazem.” 

Quem hoje lhe faz algum mal, talvez não tenha ideia da dimensão daquilo que está fazendo, nem da dor que lhe está causando. Porém, Deus sabe exatamente aonde pretende leva-lo e de como aquilo contribuirá para que chegue ao lugar onde Ele deseja lhe plantar. Se suas raízes são deveras profundas num lugar ou circunstâncias, talvez seja necessária um vendaval daqueles para lhe arrancar. Caso não entenda o que lhe acontece agora, não se precipite em se pronunciar. As pessoas tendem a interpretar à maneira delas. Perdoe-lhes! Uns não sabem o que fazem. Outros não sabem o que dizem. É melhor calar-se e confiar em quem conduz a sua vida. No final de tudo, Seus propósitos subsistirão.

quinta-feira, março 29, 2018

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CRUCIFICADO OUTRA VEZ - Quando Cristo salva o mundo de nós



Por Hermes C. Fernandes

Quem, afinal, crucificou a Jesus? Não foram os ateus, mesmo porque, os tais eram raros à época. Não foram os publicanos e as prostitutas. Quem o crucificou foram os religiosos, os defensores da ortodoxia, os que detinham o monopólio da verdade, o copyright dos textos sagrados. E se Ele viesse em nossos dias, seria crucificado justamente por quem afirma segui-lo.

O mundo religioso entraria em colapso. Os cambistas modernos seriam expostos. A fachada de muitas catedrais seria depredada. Denominações inteiras se desintegrariam. Por isso, eles jamais o poupariam. Como há dois mil anos, Ele teria que ser prontamente eliminado.

Mesmo não estando entre nós em carne e osso, Cristo segue sendo crucificado entre nós diuturnamente. De acordo com o escritor de Hebreus os responsáveis por Sua crucificação são aqueles que “uma vez foram iluminados”. Portanto, diferentemente dos que o crucificaram lá trás, seus novos algozes não o fazem por ignorância. Talvez não coubesse aqui o pedido: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.”[1] Quem foi iluminado sabe exatamente o que faz.

Além de terem sido intelectualmente iluminados pela verdade do evangelho, os novos algozes de Cristo “provaram o dom celestial, se fizeram participantes do Espírito Santo e experimentaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro”, mas, desafortunadamente, “caíram”. Para os tais, não há mais desculpas. Não podem recorrer à velha justificativa de que Deus não leva em conta o tempo da ignorância.[2] Por isso, só lhes resta livrar-se de uma vez por todas d’Aquele cuja presença depõe contra sua conduta autocentrada e egoísta.  O escritor sagrado não receia afirmar que os tais “de novo estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à desonra.”[3]

E como se dá isso na prática? Para explicar-nos, o escritor sagrado recorre a uma analogia:

 “A terra que absorve a chuva que muitas vezes cai sobre ela e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção da parte de Deus. Se, porém, produz espinhos e ervas daninhas, é rejeitada e perto está da maldição. O seu fim é ser queimada...”

Há uma expectativa divina sobre aqueles por quem Cristo Se entregou na cruz. Deus espera que produzamos frutos (“ervas proveitosas” no texto em questão). É assim que o Novo Testamento repetidamente se refere às nossas boas obras. Por que “frutos”? Porque não produzimos para nós mesmos, e sim para que outros se beneficiem deles. A “erva” produzida pela terra irrigada pela chuva deve ser proveitosa para alguém além de nós mesmos.

Lembremo-nos de que “Ele morreu por todos para que os que vivem não vivam mais para si.”[4] Os que caem após terem sido iluminados são os que retrocedem e fazem de si mesmos o alvo de sua existência. Tal é a essência do pecado. Por isso, quando o primeiro casal caiu, Deus declarou que a terra passaria a produzir espinhos. O ambiente antes acolhedor tornar-se-ia inóspito e hostil à presença humana. Os espinhos seriam, por assim dizer, a resposta da criação à nossa vaidade. Os espinhos da criação são recíprocos aos espinhos produzidos pela nossa própria natureza caída. Deixamos de cuidar uns dos outros para nos ferir mutuamente. Deixamos de proteger uns aos outros para nos proteger uns dos outros. Deixamos de produzir frutos e ervas proveitosas para produzir espinhos e ervas daninhas. Esses espinhos foram representados na coroa que feria a fronte de Jesus durante Sua crucificação.

Mas o que Deus poderia esperar de nós?

“De vós, contudo, ó amados, esperamos coisas melhores e pertencentes à salvação, ainda que assim falamos. Deus não é injusto; ele não se esquecerá da vossa obra e do amor que para com o seu nome mostrastes, pois servistes e ainda servis aos santos.” Hebreus 6:10

Que coisas melhores seriam estas, senão uma vida altruísta, voltada para os outros em vez de para nós mesmos? Por que “pertencentes à salvação”? Porque dizem respeito à maneira como Deus salva o mundo de nós mesmos.

E tudo quanto fizermos ao outro será uma declaração de amor ao nosso Deus.  Assim como Sua morte foi uma declaração de amor a nós, nossa vida será uma declaração de amor a Ele.

Não há como demonstrar nosso amor a Deus, senão através do serviço prestado ao nosso semelhante.  E para Deus, tal gesto de amor é inesquecível. Se nossos pecados são lançados no mar do esquecimento, nossas obras de amor são eternizadas em Deus.

E o que significaria “servir aos santos”? Quem são os santos em questão? Aqueles com os quais o Crucificado Se identifica.

Não creio que se trate de santidade no sentido que geralmente damos (sem pecado, perfeito do ponto de vista moral ou ético). O sacrifício de Jesus atribuiu um novo significado à vida, resgatando sua sacralidade original. Portanto, servir a uma prostituta, a um mendigo, ou a um viciado em crack é servir aos santos.

Jesus não morreu para que nos tornássemos num clube fechado, em que seus membros desfrutassem de serviços e benefícios mútuos exclusivos. Não! Jesus morreu para que nos abríssemos para o mundo. A igreja não existe em função dos seus membros, mas em função dos de fora. Se Deus resolvesse nos tirar do mundo, quantos lamentariam nossa ausência e quantos a celebrariam? Na vida de quem temos feito diferença? Nossa partida seria um alívio ou deixaríamos saudade? Temos produzido frutos ou espinhos?

Uma igreja autocentrada é aquela por cujas mãos Cristo é novamente crucificado. Ela o faz com os cravos da indiferença, depois de açoitá-lo com sua língua condenatória e seu discurso preconceituoso.
Diante desta verdade estarrecedora, deparamo-nos com o fato de que o mundo está dividido em dois grupos: os que o crucificam e os que são crucificados com Ele. Não há meio termo. Se não somos vítimas, somos algozes. Se não somos os que morrem por amor, somos os que matam pelo desamor. Talvez não o façamos diretamente, mas o fazemos quando somos “cúmplices das obras infrutuosas das trevas” [5], engrossando o coro da intolerância. Não o fixamos no madeiro diretamente, mas nosso grito ecoa pelo pátio do palácio de Pilatos: CRUCIFICA-O!  Não seguramos o martelo em nossas mãos, mas adotamos o lema “bandido bom é bandido morto”.

Da mesma maneira, não somos crucificados com Cristo apenas quando sofremos diretamente a injustiça, mas também quando nos identificamos com os que a sofrem. Todavia, não é raro que Deus permita que sintamos na própria pele, a fim de nos lembrar de que não somos melhores do que ninguém. Como asseverou Pedro, não deveríamos estranhar ardente provação que vem sobre nós como se coisa estranha nos acontecesse, antes, deveríamos nos regozijar por sermos “participantes das aflições de Cristo” [6] Nosso Salvador assume as dores do mundo! Por isso, toda injustiça perpetrada a qualquer que seja o ser humano, é como se fosse perpetrada a Ele mesmo. Se Cristo toma para Si as dores do mundo, que postura deveríamos adotar? Como nos apresentar como seguidores de Cristo enquanto mantemos uma postura apática diante do sofrimento humano?

Na reta final de Seu suplício, Jesus teve sede. Em resposta ao Seu pedido, serviram-lhe uma mistura que tinha como objetivo aliviar Sua excruciante dor. Para a surpresa de Seus algozes, Ele recusou a oferta, pois não pretendia ser poupado das dores que o acometiam. Quem dera os cristãos de hoje se recusassem a sorver a esponja religiosa embebecida desta mistura de alienação e preconceito. O que visa nos anestesiar, poupa-nos da dor, mas também priva o mundo do nosso amor.

Se não nos dispusermos a sofrer por eles, Deus poderá nos permitir sofrer com eles para que jamais nos esqueçamos de que temos “este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não da nossa parte. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desesperados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos. Trazendo sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossos corpos; pois nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal.” [7]




[1] Lucas 23:34
[2] Atos 17:30
[3] Hebreus 6:4-10
[4] 2 Coríntios 5:15
[5] Efésios 5:11
[6] 1 Pedro 4:12-13
[7] 2 Coríntios 4:7-11

quarta-feira, março 28, 2018

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LIVE NESTA SEXTA 22H

Nesta sexta, 22h em minha timeline (https://www.facebook.com/hermes.carvalho.5203). Divulguem. Há verdades que não podem ficar muito tempo suprimidas.