quarta-feira, junho 14, 2017

0

LOUCURA: O que você faria por um grande amor?




Por Hermes C. Fernandes

Ele estava tão concentrado naquele que seria um dos mais épicos duelos registrados, que não percebeu que havia prêmios em jogo. Em sua mente, o que estava realmente em jogo era a reputação do seu Deus. Foi esta a sua motivação ao derrotar o brutamonte que afrontava o exército de Israel.

Após aquela memorável vitória, o menino anônimo é aclamado herói nacional. Um mero pastorzinho rouba a cena, ofuscando a glória do seu rei. Enciumado, o velho monarca busca uma maneira de eliminá-lo, sem que isso atente contra sua popularidade já em vertiginosa decadência.

Para os israelitas, os créditos da vitória eram de Davi. Mas para os filisteus, eram de Saul. Como reverter isso? Saul preferia que o seu povo lhe atribuísse a glória, enquanto os filisteus elegessem a Davi como seu inimigo #1.

Enquanto buscava um jeito de livrar-se de Davi, Saul lembrou-se de que Davi não havia cobrado os prêmios  prometidos a quem derrotasse Golias: riquezas, isenção de impostos para toda a sua família, e... a mão da filha do rei. Era como ganhar na loteria e não ir descontar o bilhete. Como que por um lampejo, Saul imaginou que se Davi tomasse sua filha como esposa, aparentando-se com a casa real, isso o tornaria num alvo prioritário dos filisteus.

A quem ponto chega uma mente maquiavélica! Usar a própria filha como arapuca para destruir um desafeto.

A princípio, a filha prometida seria Merade, a primogênita. Porém, Davi não demonstrou qualquer interesse. Talvez Merade não possuísse atributos estéticos que o atraíssem. Sua desculpa foi não se achar merecedor de ser genro do rei. Afinal, seu duelo contra Golias não tinha mesmo este objetivo. Desprezada por Davi, Merade acabou se casando com outro.

Chegou aos ouvidos de Saul que sua filha caçula, Mical, estaria apaixonada por Davi. Esta seria a grande chance de liquidar de vez aquela fatura. Desta feita, Davi argumentou que por ser de família pobre, não teria condição de pagar o dote requerido por uma princesa. Pelo jeito, Davi não havia requerido nem mesmo as riquezas prometidas a quem derrotasse o gigante. Mas Saul percebeu que rolava um clima entre Davi e Mical. Pelo que insistiu e estipulou um dote simbólico: cem prepúcios de filisteus.

Para Saul, aquela era a armadilha perfeita. Como seu candidato a genro conseguiria tal proeza? Que filisteu se deixaria circuncidar? Se Davi aceitasse o desafio, ele certamente seria morto.

Mical parecia valer a pena. Por isso, Davi não titubeou. Se este era o preço estipulado pelo pai, ele estava disposto a pagar. Reunindo seus homens, partiu em direção dos inimigos.  Como nenhum deles estaria disposto a ceder gentilmente o seu prepúcio, Davi não teve escolha, senão... você já sabe.

Dias depois, Davi volta trazendo o dobro de prepúcios estipulados por Saul. Em vez de cem, duzentos. Era como se dissesse a Saul: Sua filha vale mais do que você avaliou.

Se Mical era apaixonada, depois desta, ficou enlouquecida de amor. Como não amar a quem lhe atribuiu valor maior do que seu próprio pai?

De igual modo, o apóstolo Paulo afirma que fomos “comprados por bom preço, razão pela qual deveríamos glorificar a Deus em nosso corpo e no nosso espírito, os quais pertencem a Deus (1 Coríntios 6:20). Não que valêssemos alguma coisa. O pecado destituiu-nos da glória de Deus, de maneira, que perdemos nosso valor original. Porém, ninguém jamais nos amou como Ele. Em vez de prepúcios, Ele pagou nosso dote com o Seu próprio sangue.

Imagine se Davi resolvesse pechinchar. Em vez de cem prepúcios, ele ofereceria cinquenta ou até menos. Mas ele toma o caminho inverso. Em vez de desdenhar o ‘produto’, ele o super valoriza. Seria como se puséssemos um carro à venda, pedindo, digamos, vinte mil reais, e alguém nos oferecesse quarenta mil.

Cristo não pechinchou conosco! Não ofereceu contraproposta. Em vez disso, pagou o mais alto preço que alguém poderia pagar: Sua própria vida. Talvez por isso, Paulo se refira a isso como a "loucura de Deus" (1 Co.1:15). Seria isto uma loucura de amor?

O Escritor de Hebreus diz que Ele tinha em vista a “alegria que lhe estava proposta” (Hb.12:2). Ele sabia que valeria a pena cada gota de sangue, cada açoite, cada ferida. Isaías profetiza que Ele viria o resultado de Seu sacrifício e ficaria satisfeito (Is.53:11). Em outras palavras, Ele olharia para nós e diria: Valeu!

De acordo com Paulo, o resultado de Sua entrega por nós, seria uma igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível (Ef.5:27).

Foi pela igreja, o embrião da nova humanidade, que Cristo pagou tão alto preço. Não merecíamos nem ao menos Sua atenção. Porém, Ele se apaixonou por nós. Foi amor à primeira vista. Aliás, amor antes mesmo da primeira vista. Antes da fundação do mundo!

Não bastaria derrotar Golias! Davi tinha pagar o dote. Mical não seria apenas um prêmio, mas uma conquista de amor. Igualmente, não bastaria o que Jesus fez durante Seu ministério, Seus ensinos, Seus milagres. Sem a Cruz, seríamos apenas um prêmio em reconhecimento por Seu desempenho aqui na terra. Pela Cruz, nosso valor foi excedido. Ele não apenas remediou o prejuízo que o pecado nos causara, mas atribuiu-nos valor que não possuiríamos ainda que não houvéssemos pecado.

Abaixo, um poema que compus recentemente, intitulado "Loucuras por amor".


Que loucura tu farias por amor?
Que aventura viverias?
O que tu arriscarias?
Quanto que permitirias?
Como te explicarias?

Até onde tu irias por amor?
Quantas voltas tu darias?
O que desperdiçarias?
Que pressão aguentarias?
Que vergonha passarias?

De quê abririas mão por amor?
O que renunciarias?
O que denunciarias?
Que promessas cumpririas?
Quantas que tu quebrarias?

A que ponto chegarias por amor?
Que lágrimas derramarias?
Quantas que enxugarias?
Que sorriso estamparias?
Que alegria provocarias?

Quanta dor suportarias por amor?
Que humildade expressarias?
Quanto orgulho engolirias?
O que tu revelarias?
O que tu esconderias?

Que salto tu darias por amor?
Que palavra tu dirias?
Que silêncio tu farias?
Que sonho sonharias?
De que sono acordarias?

Que dogma questionarias por amor?
Que teorias contestarias?
Que interesses feririas?
Que perigo enfrentarias?
Que coragem exibirias?

O que tu perdoarias por amor?
Que pecado confessarias?
Que vida levarias?
Que morte morrerias?
A que sobreviverias?

Que canção tu comporias por amor?
Que poema escreverias?
Que preço pagarias?
Que riqueza desprezarias?
Que ordem subverterias?

Em que mar navegarias por amor?
Que rincões desbravarias?
Quantos céus tu riscarias?
Que pedido negarias?
Que desejo atenderias?

O amor está acima de regras e códigos.
Dentre outros sentimentos, se destaca entre os pródigos.
Abre vias e caminhos, nos coloca além dos pórticos.
Como rosas entre espinhos, se esconde nos acrósticos.
Depõe deuses do Olimpo, sejam gregos, sejam nórdicos.
Feito ouro no garimpo, desafia os agnósticos.

O amor é indomável, quando quer insiste, teima
É capaz do improvável, tanto arde quanto queima
Nossa vida é um vapor, dura tanto quanto a chama,

Mas sua luz e seu calor eternizam o que se ama.

* Não deixe de ler a continuação desta postagem nos próximos dias.

terça-feira, junho 06, 2017

21

As Dez Virgens: Parábola usada para aterrorizar os crentes


Por Hermes C. Fernandes


Uma das passagens mais usadas para aterrorizar os crentes é a parábola das Dez Virgens. De acordo com a interpretação de alguns pregadores, a parábola indica que apenas uma porcentagem dos crentes em Jesus participariam do Arrebatamento, e os demais seriam deixados para trás. Se formos um pouco mais literais, somente 50% dos crentes serão realmente salvos. Os demais estão entre os imprudentes, que serão pegos de surpresa, despreparados, e por isso, inaptos para subir com Cristo.

Será que tal interpretação faz jus àquilo que Jesus intentava dizer aos Seus discípulos?

Nessa parábola, Jesus está falando da chegada do reino, e não de Sua segunda Vinda. E o Seu reino foi inaugurado ainda em Seu primeiro advento. O texto diz que “o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo” (Mateus 25:1).

Soa até estranho, se não atentarmos para o contexto cultural da época. Estaria Jesus defendendo algum tipo de poligamia? Por que “dez virgens”, em vez de apenas uma? Teria Jesus mais de uma noiva?

As virgens da parábola não seriam desposadas pelo noivo. Elas eram como “madrinhas” da noiva. Fazia parte do ritual de bodas judaicas, o encontro das “madrinhas” virgens com o noivo para acompanhá-lo até a noiva.

Ora, o noivo da parábola representa o próprio Cristo. E a noiva, embora não figure na parábola, é a Igreja. Quem seriam, então, as virgens? Elas representam o povo judeu.

É interessante que em outra passagem, João Batista se apresenta como “o amigo do Noivo”. Além das virgens madrinhas, o noivo também era assistido por um amigo, geralmente, aquele que fosse considerado o melhor amigo. Assim como não podemos confundir o noivo com o amigo do noivo, também não podemos confundir a noiva com as dez virgens.

Ao ser confundido com o Cristo, João respondeu: “Eu não sou o Cristo, mas sou enviado adiante dele. A noiva pertence ao noivo. O amigo do noivo, que lhe assiste, espera e ouve, e alegra-se muito com a voz do noivo. Essa alegria é minha, e agora está completa” (João 3:28b-29).

De acordo com o protocolo, as virgens madrinhas deveriam sair ao encontro do noivo, portando lâmpadas devidamente acesas.

Segundo a parábola, dentre as dez virgens, cinco eram prudentes, e cinco eram insensatas.
“As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo. Mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, com suas lâmpadas. Demorando o noivo, todas elas acabaram cochilando e dormindo.” Mateus 25:3-5
Repare no detalhe: todas elas acabaram dormindo. Ficaram desatentas, e cochilaram. A diferença entre elas era o suplemento extra de azeite que cinco delas haviam trago. Portanto, a questão não era apenas de vigilância, como bradam os pregadores, mas de prevenção e prudência. Ser prudente aqui, é ser precavido.

Por isso, não parece razoável usar esse texto para amedrontar os crentes, fazendo-os duvidar de sua salvação, temendo que o Senhor lhes flagre “dormindo”. Paulo escreve acerca disso em sua primeira epístola endereçada à igreja em Tessalônica:
“Mas, irmãos, acerca dos tempos e das épocas, não necessitais de que se vos escreva, pois vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como o ladrão de noite (sem aviso prévio) (...) Mas vós, irmãos, já não estais em trevas, para que esse dia vos surpreenda como um ladrão. Todos vós sois filhos da luz, e filhos do dia. Nós não somos da noite, nem das trevas. Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos, e sejamos sóbrios. Pois os que dormem, dormem de noite, e os que se embriagam, embriagam-se de noite. Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios (...) Pois Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nís, para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos juntamente com ele.” I Tessalonicenses 5:1-2,4-8a, 9-10
É claro que devemos “vigiar”, isto é, estar atentos, para que não sejamos surpreendidos. Entretanto, quer vigiemos ou durmamos, nosso encontro com o Senhor é garantido. O risco é o de sermos pegos de surpresa, e não o de sermos condenados. Voltando à parábola:
“Mas, à meia-noite ouviu-se um grito: Aí vem o noivo, saí ao seu encontro.” Mateus 25:6
Esse “grito-convocação” foi o grito dos profetas, dos quais, João foi o último expoente. Apenas parte do povo judeu deu ouvidos ao alarde profético. A outra parte se manteve surda e insensível ao apelo de Deus. Faltava-lhes o azeite, a luz, a revelação. Seu coração foi endurecido. Paulo compreendia bem tal situação, pois a havia testemunhado. Em sua última investida evangelística direcionada aos judeus, o apóstolo dos gentios se viu profundamente decepcionado com seus patrícios.

Segundo o relato de Atos, dentre os judeus que vieram ao seu encontro em Roma, “alguns foram persuadidos pelo que ele dizia, mas outros não creram” (28:24). Os que criam eram as virgens prudentes, e os que desdenhavam eram as virgens insensatas. Suas lâmpadas estavam apagadas. Lucas diz que eles “discordaram entre si, e começaram a sair, havendo Paulo dito esta palavra: Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías: Vai a este povo, e dize: Ouvindo, ouvireis, e de maneira nenhuma entendereis; vendo, vereis, e de maneira nenhuma percebereis. Pois o coração deste povo está endurecido; com os ouvidos ouviram pesadamente, e fecharam os olhos, para que jamais vejam com os olhos, nem ouçam com os ouvidos, nem entendam com o coração, e se convertam e eu os cure” (Atos 28:25-27).

Dentre os filhos de Israel, somente o remanescente pôde entrar no Reino de Deus. Quem são os remanescentes? Os que deram ouvidos ao grito profético, e foram ao encontro do Noivo. Isso é confirmado por outras passagens, como aquela que Paulo menciona aos Romanos: “Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo”(Romanos 9:27).

Somente os que atentassem para as profecias, e se dessem conta de que elas falam de Jesus de Nazaré, e confiassem em Sua provisão para a salvação, seriam, de fato, salvos. Ninguém seria salvo por pertencer a uma etnia, ou por ter o sangue de Abraão correndo em suas veias. É Paulo quem afirma: “Tenho declarado tanto aos judeus como aos gregos que devem se converter a Deus, arrepender-se e ter fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (Atos 20:21).

Por todo o livro de Atos encontramos o cumprimento da parábola das virgens. Em Antioquia, por exemplo, “muitos dos judeus e dos prosélitos devotos seguiram a Paulo e Barnabé, os quais, falando-lhes, exortavam-nos a que permanecessem na graça de Deus”(Atos 13:43). Esses equivalem às “virgens prudentes”. Mas logo abaixo no texto, lemos que “os judeus, vendo a multidão, encheram-se de inveja, e, blasfemando, contradiziam o que Paulo falava” (v.45). Esses equivalem às “virgens insensatas”.

A parábola prossegue:
“Então todas aquelas virgens se levantaram e prepararam as suas lâmpadas. E as insensatas disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite; as nossas lâmpadas se apagam. Mas as prudentes responderam: Não seja o caso que nos falte a nós e a vós. Ide antes aos que o vendem, e comprai-o.” Mateus 25:7-9
De quem elas deveriam comprar o azeite? Onde encontrariam a luz de que suas lâmpadas necessitavam? Com a palavra, Simão Pedro, o apóstolo da circuncisão:
“E temos ainda mais firme a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que ilumina em lugar escuro, até que o dia clareie, e a estrela da manhã surja em vossos corações.” 2 Pedro 1:19
Revelação não é algo que se possa receber de terceiros. Não há como terceirizá-la. Tem-se que buscar na fonte. Podemos adquirir informação através de outros, mas só adquiriremos “azeite” para nossas lâmpadas, se buscarmos diretamente na fonte. Por isso Jesus insistia: “Examinai as Escrituras...”

Por muitos séculos, os judeus negligenciaram a Palavra. Por isso, foram incapazes de reconhecer o Messias, quando Ele apareceu nas ruas da Galileia.

Quando procuraram por Paulo em Roma, queriam um pouco de azeite para suas lâmpadas, mas a porta já se havia fechado. Como disse Jesus, o Reino lhes fora tirado, e entregue a um outro povo, a igreja. Somente os remanescentes “entraram com ele para as bodas”. Para esse “remanescente”, a porta sempre estará aberta. Como bem afirmou o apóstolo: “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça” (Romanos 11:5).

Como vimos, a parábola das virgens jamais teve a intenção de causar pânico aos seguidores de Cristo. Não estamos nem entre as cinco prudentes, nem entre as cinco insensatas. Somos a única noiva do Cordeiro, aquela que está sendo preparada para ser apresentada “como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo” (2 Coríntios 11:2).

sábado, junho 03, 2017

0

O que você procura pode estar bem debaixo do seu nariz



Por Hermes C. Fernandes

“Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a candeia, e varre a casa, e busca com diligência até a achar? E achando-a, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já achei a dracma perdida.” Lucas 15:8-9

Àquela época, diferentemente de hoje, cobrava-se um dote pela mão de uma mulher pedida em casamento.  Esta era uma maneira de se compensar a família por ter tido filhas, uma vez que estas não poderiam trabalhar e assim, ajudar com as despesas domésticas.

Quando Roma conquistou aquela região, impôs o uso de sua própria moeda, o denário, substituindo a dracma, a moeda grega que circulava desde os dias de Alexandre, o Grande. De maneira criativa, as mulheres judias resolveram adotar as dracmas como adorno, transformando-as em coroas que representavam o valor pago por seu dote. Apesar de não circularem mais como moeda corrente, as dracmas serviam a um propósito inusitado. Perderam o valor, mas não o significado. Por isso, tiveram sua utilidade resgatada. Se não eram mais úteis para comprar e vender, tornaram-se úteis para enfeitar a fronte das mulheres casadas. Tornaram-se num sinal de comprometimento. Somente mulheres casadas as usavam.

Antes de descartar algo, deveríamos considerar a possibilidade de ressignificá-lo. Se não serve mais para algo, pode ser que sirva para outro.

Aquela mulher perdeu uma das dracmas de sua coroa. Isso poderia sugerir que ela não dera o devido valor ao dote pago por seu marido. Daí o desespero com que ela empreendeu tão diligente busca.

Semelhantemente, Jesus pagou o dote por Sua noiva, a Igreja. Recebemos d’Ele uma coroa cujas dracmas representam o valor que nos foi atribuído. De acordo com o diagnóstico apostólico, “todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis”[1], tornando-se “destituídos da glória de Deus.”[2] O pecado nos destituíra de qualquer valor. Porém, Seu amor por nós foi capaz de restituir o valor perdido. Ele não pagou por nós o que valíamos, nem sequer o que merecíamos.

Para Deus, muito mais do que utilidade, temos significado.

Recebemos uma coroa composta de tudo aquilo que Ele nos confiou. Cada dracma representa algo cujo valor está em seu significado, não em sua utilidade. O problema é que a gente não costuma dar valor ao que não nos custa nada. Por isso, quando perdemos uma das dracmas de nossa coroa, muitas vezes, nem ao menos sentimos falta. Precisamos atentar para o fato de que o que nada nos custou, custou a vida de nosso Salvador. Portanto, saiu de graça para nós, não para Ele. E se, de fato, o amamos, valorizaremos tudo o que teve o custo de Sua preciosa vida.

O valor que atribuímos a algo corresponde ao lugar que aquilo ocupa em nossa lista de prioridades. Tudo o que postergamos, que empurramos com a barriga, revela o desconcertante fato de não lhe darmos o devido valor. Às vezes é preciso perder, sentir falta, para só então perceber o valor que aquilo possuía.  

Todavia, há que se cuidar para não permitir que algo ou alguém encabece nossa lista de prioridades. Este lugar pertence exclusivamente ao Senhor. O valor de tudo o que possuímos decorre da importância exercida pelo Senhor em nossa vida. Se Ele não ocupar o primeiríssimo lugar, todas as demais coisas estarão fora de lugar.

Nada do que recebemos d’Ele deve ser banalizado. Mas também nada que d’Ele recebemos deve ocupar o Seu lugar de primazia. E será assim que encontraremos o balanço, o equilíbrio perfeito para seguirmos em nossa jornada.

Quando não damos o devido valor a algo, o Senhor permite que o percamos, ainda que eventualmente possamos reencontrá-lo. Mas quando damos um valor excessivo, o próprio Senhor nos pede aquilo. Se valoriza de menos, perde. Se valoriza demais, Ele pede.

A mesma Bíblia que nos adverte a guardar o que temos recebido para que ninguém tome a nossa coroa[3], revela-nos os anciãos lançando suas coroas aos pés do Cordeiro. [4] Não há lugar mais seguro no universo! 

Voltando à parábola em questão:

A primeira pergunta que devemos nos fazer é: o que temos perdido? Que valor tem para nós? Valeria a pena empreender uma busca? Quem não sabe o que perdeu, não sabe o que procurar. Quem não dá valor ao que perdeu, não encontra razão para procurar.

Estaria faltando alguma dracma em nossa coroa? Talvez necessitemos dar uma conferida olhando-nos no espelho.

A segunda pergunta é: onde o perdemos?

Onde aquela mulher perdeu sua dracma, afinal? Não foi na rua ou no mercado, mas dentro de sua própria casa. Portanto, não fazia sentido procurar em outro lugar.

Quando perdemos algo de valor, procuramos nos lembrar de todos os lugares por onde passamos. Certamente, aquilo se perdeu num desses lugares. Ninguém vai perder tempo procurando em lugares onde não tenha estado.

Não adianta buscar lá fora o que se perdeu dentro de casa.

Uma vez localizado o lugar onde possivelmente o perdemos, precisamos adotar algumas medidas a fim de que nossa busca não seja infrutífera.

A primeira medida tomada por aquela mulher foi providenciar iluminação para o ambiente: o texto diz que ela acende a candeia. Ninguém procura por algo com as luzes apagadas, pois a probabilidade de encontra-lo é quase nula.

O poema da criação diz que no princípio Deus criou os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia (no original, estava mergulhada em caos, em desordem). Antes de colocar ordem naquela bagunça, “disse Deus: haja luz e houve luz.”[5]

Na simbologia bíblica, luz significa entendimento, discernimento, compreensão, conhecimento. Não basta zelo em nossa busca pelo que se perdeu. Há que se ter entendimento. Paulo diz que os judeus eram zelosos, porém faltava-lhes entendimento acerca da vontade de Deus. [6] Zelo sem entendimento é ciúme cego e possessivo. Nossos olhos espirituais devem estar iluminados para que possamos discernir o que há no coração dos outros e em nosso próprio coração, nossas motivações mais profundas e o que nos leva a empreender nossa busca pelo que se perdeu.

A ausência de luz provocará colisões, jamais encontros. Queremos de volta o que é nosso, não por amor, mas por capricho. Nosso orgulho ferido não nos permitirá abrir mão. De repente, sem que percebamos, o amor é substituído pelo ódio. A procura prossegue, mas no escuro. João nos adverte quanto a isso:

“Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há tropeço. Mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos. 1 João 2:9-11

Quando há luz, sabemos por onde andamos e, por isso, evitamos colisões ao invadir inadvertidamente o espaço do outro.

O entendimento gera compreensão, que por sua vez, pavimenta o caminho do reencontro. A ignorância gera ódio, repulsa, revolta, provocando choques potencialmente devastadores.

A segunda medida adotada pela mulher da parábola é varrer a casa. Quão difícil é encontrar algo no meio da bagunça, da sujeira, da desordem. Quantas coisas perdidas dentro de casa já não foram encontradas acidentalmente durante uma faxina? A gente encontra até o que não está procurando. Que o diga o famigerado sofá que mais parece um buraco negro, sugando chaveiros, relógios, moedas e etc. A gente o examina atrás de uma escova, e acaba encontrando muito mais, até aquilo de que não demos a menor falta.

A propósito, por que só resolvemos varrer a casa quando perdemos uma dracma? Por que esperamos as coisas piorarem para decidir que é hora de coloca-las em seus devidos lugares? Não seria mais sábio a adoção de medidas preventivas? Não seria melhor manter a casa sempre asseada e arrumada?

A terceira medida é buscar com diligência. Não basta passar os olhos por desencargo de consciência. Uma busca superficial não será suficiente. Tem que sacudir o tapete, colocar os móveis de pernas para o ar, vasculhar cada canto da casa. Se pensa em desistir na primeira varredura, então é melhor nem começar a procurar. Quem desiste na primeira tentativa demonstra não dar tanto valor assim ao que se perdeu.

Após achar a tão preciosa moeda, ela convoca suas amigas para uma festa. Não lhe soa meio desproporcional (pra não dizer exagerado!) dar uma festa só para comemorar o fato de haver encontrado uma moeda?

Fico imaginando a cara de suas amigas ao tomarem conhecimento da razão daquela celebração. Onde já se viu comemorar uma coisa dessas!

Cada pessoa atribui valor diferenciado às coisas. O que para você não possui qualquer importância, para mim pode ser motivo de insônia. Há quem morreria ou mataria por aquilo que você descarta todos os dias sem qualquer cerimônia. Portanto, não nos cabe julgar, mas tão-somente participar da celebração, atendendo assim à recomendação bíblica de chorar com os que choram e nos alegrar com os que se alegram.

Todo reencontro deveria ser motivo de festa. Por isso, tanto a parábola anterior que conta sobre o pastor que saiu em busca da ovelha perdida, quanto a parábola que vem em seguida que narra a história do filho pródigo, terminam com festa. Havendo motivo para festejar, festeje! Se o motivo não for seu, mas do outro, festeje ainda assim. Se não teve valor para você, teve para ele. Portanto, deixe-se contagiar pela sua alegria. E no dia em que você tiver motivo de festejar, ele igualmente tomará parte em sua alegria.

P.S. Lembro-me da ocasião em que o ônibus espacial faria seu último voo. Morávamos há cerca de uma hora e vinte minutos do Cabo Canaveral. Infelizmente, não consegui estar lá. Porém, soube que do meu quintal seria possível assistir. Fiquei de prontidão. De repente, lá estava ele, rasgando o céu da Flórida em direção ao espaço. Vários vizinhos vieram para a rua saudar a última viagem do Columbia. Minha esposa e filhos não parecem ter dado o mesmo valor. Exceto minha caçula, que vindo para a rua, olhou para o céu e disse: É isso? Tentei explicar do que se tratava, mas ela esperava um espetáculo vistoso, exuberante. Mas para quem, como eu, cresceu assistindo a filmes e séries sobre viagens espaciais, aquilo era um espetáculo imperdível e de valor inestimável.

Abaixo, a reação inusitada da minha filha.




[1] Romanos 3:12
[2] v.23
[3] Apocalipse 3:11
[4] Apocalipse 4:10
[5] Gênesis 1:3
[6] Romanos 10:2

terça-feira, maio 30, 2017

3

Não queira ser o que não é



Por Hermes C. Fernandes

Em meio a declarações românticas recíprocas entre um rei e uma camponesa, surge a inusitada digressão abaixo:

“Temos uma irmã pequena, que ainda não tem seios. O que faremos a essa nossa irmã no dia em que for pedida em casamento? Se ela for um muro, edificaremos sobre ela um palácio de prata. Se ela for uma porta, nós a cercaremos com tábuas de cedro. Eu sou um muro, e os meus seios como as suas torres. Assim tornei-me aos olhos dele como aquela que traz prazer.” Cantares 8:8-10

No afã de explicar no que ela mesma havia se tornado, Sulamita recorre à figura de sua irmãzinha. Ninguém é o que é sem que tenha passado por vários estágios. Sulamita percebe em sua pequena irmã potencialidades que havia em si mesma. Porém, tais potencialidades não são sentenças. Ela não poderia esperar que sua irmã a recapitulasse, tornando-se numa mera cópia de si.

O fato de ainda não ter seios significa que ela estava em processo de maturação. Não ter seios hoje não significa que não os terá amanhã. O nome disso é latência.[1] Eles já existem em potencial. Só faltam aflorar, vir à tona. O que hoje é latente, amanhã será patente.  Os seios representam o aparato fornecido pela natureza para que a mulher cumprisse o propósito de sua existência, que para as sociedades antigas limitava-se à maternidade. Ela ainda não tem seios, mas um dia os terá. Daí surge a questão: Que faremos no dia em que for pedida em casamento?
Cada estágio da existência humana apresenta suas próprias demandas. Uma criança requer atenção especial, cuidados essenciais. Um pré-adolescente requer disciplina, acompanhamento, instrução. Porém, não se pode perder de vista as demandas que o futuro trará. Quem hoje nem sequer tem seios, amanhã será pedida em casamento. Quem hoje nem sequer tem pelugem na face, amanhã estará pedindo a mão de sua filha em casamento. O pequeno empreendedor de hoje, poderá se tornar no empresário de vulto amanhã. E quando isso ocorrer, as demandas serão outras. Aquele garoto rebelde traz consigo potencialidades que o tornarão num chefe de família responsável e exemplar.

Até que ponto estamos preparados para as demandas futuras? Como reagiremos quando estas se apresentarem? O que requererão de nós? A vida se apresenta imprevisível. Mesmo que não haja tantos cenários possíveis, nossas respostas se incumbirão de estabelecer os rumos que ela seguirá.

Sulamita nos apresenta dois cenários. Sua irmã poderia revelar-se um muro ou uma porta. Ser muro pode expressar uma característica de inacessibilidade. Alguém difícil de lidar, que prefere resguardar-se, sendo seletivo na escolha de seus relacionamentos. Os muros protegem, estabelecem perímetros, mas também aprisionam.

Há pessoas que desenvolveram tal característica depois de terem sofrido alguma decepção. Outras são assim desde que se entendem por gente. Não há qualquer demérito em ser muro.  Temos que respeitar a personalidade de cada um. Mesmo porque, o evangelho jamais se propôs a mudar a personalidade, e sim, o caráter. Em vez disso, o Espírito Santo nos aperfeiçoa, reforçando certas características inerentes à nossa personalidade, direcionando-as ao cumprimento de Seu propósito.

Amar é acolher a pessoa tal qual ela é, sem tentar mudá-la, nem impor sobre ela nossas expectativas, sem projetar nela o que somos.

Paulo não deixou de ser colérico após sua conversão. Tampouco Pedro deixou de ser sanguíneo. Porém, ambos tiveram seu caráter transformado. Se Pedro era um muro, Paulo, sem dúvida, era uma porta. Cada um cumpriu o seu papel como apóstolo de Cristo.

Ser porta aponta para acessibilidade. Porta é passagem, entrada, acesso. Se o muro protege, a porta acolhe.

Assim como não há demérito em ser muro, não há mérito em ser porta. Cada qual tem um papel a cumprir. Todavia, devemos cuidar para dispensar a cada um o trato que lhe é devido.

“Se ela for um muro”, conclui Sulamita, “edificaremos sobre ela um palácio de prata”. Coisas de valor inestimável precisam ser cercadas de cuidado. Para isso servem os muros! Ainda que sejam pessoas difíceis de se lidar, com temperamento forte, pouco sociáveis, por vezes, introvertidas, elas servem a um propósito. Geralmente, são absolutamente confiáveis. Sabem guardar segredo. Protegem aquilo que amam. Portanto, vale a pena edificar um palácio de prata sobre elas.

“Se ela for uma porta”, prossegue Sulamita, “cercá-la-emos com tábuas de cedro”. Quem é porta costuma ser muito dado, por isso, carece de ser cercado, não no sentido de tornar-se refém, sendo privado de sua liberdade, mas no sentido de ser protegido. E repare que não se trata de um muro, mas de uma cerca. O muro é algo fixo, permanente, delimitador. A cerca de madeira pode ser removida rapidamente, adaptada, alargada. Quem é porta carece de ser protegido, mas não sufocado; precisa de cuidado, não de controle.

Sulamita termina sua participação no livro de autoria de seu amado afirmando ser ela mesma um muro:

“Eu sou um muro, e os meus seios são como as suas torres. Assim tornei-me aos olhos dele como aquela que traz prazer.”

Imagino que não deva ter sido fácil para Salomão conquistar o coração de Sulamita. Mesmo se apresentando como um muro, Salomão encontrou nela uma porta de acesso. Todo muro possui portas. Assim como toda porta precisa estar devidamente cercada. Toda armadura possui frestas, caso contrário, sufocará aquele que a veste. No final das contas, Sulamita tornou-se aos olhos de seu amado “como aquela que traz prazer.”

Portanto, ser o que se é não se constitui numa sentença. Há potencialidades latentes que precisam ser descobertas por quem nos enxerga para além das aparências. Todos podemos nos tornar alguém que seja o motivo daquele “frio na barriga” do outro, sem que para isso tenhamos que negar nossa própria essência. Basta que descubra a porta escondida em algum lugar do muro.

Ninguém é descartável por ser o que se é. Permitamos que o outro se torne aos nossos olhos como aquele que nos dê prazer.  Talvez isso dependa mais de nós mesmos do que dele. Talvez requeira tão-somente um novo olhar, ou, simplesmente, olhar por outro ângulo, parar de reclamar e aceitar o outro exatamente como ele é.

Isso se aplica não apenas ao campo dos relacionamentos, mas a qualquer outra área. Reconhecemos as potencialidades, preparamo-nos para as possibilidades e buscamos responder às demandas tais como se apresentam.




[1] É o Latim LATENTIA, “ato de estar escondido, secreto, desconhecido”, de LATERE, “abaixar-se para se esconder”.

domingo, maio 21, 2017

3

O Deus Marginal



Por Hermes C. Fernandes

A Bíblia é um livro de milagres. De Gênesis a Apocalipse, a gente se depara com fenômenos inexplicáveis como cegos enxergando, paralíticos andando, mortos ressuscitando, etc. Mas alguns se destacam por não terem acontecido mais que uma vez. Dois exemplos disso são a abertura do Mar Vermelho e as pragas do Egito. De todos os milagres narrados nas Escrituras, há um em especial que devido à sua proporção provoca reações inusitadas.

“Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os amorreus nas mãos dos filhos de Israel, e disse na presença dos israelitas: Sol, detém-se em Gibeom, e tu, lua, no vale de Aijalom. E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos. Não está escrito no livro dos Justos? O sol se deteve no meio do céu e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro. Não houve dia semelhante a esse, nem antes nem depois dele, em que atendeu o Senhor assim à voz de um homem. Certamente o Senhor pelejava por Israel.” Josué 10:12-14

De longe, trata-se do maior milagre registrado nas Escrituras. Um milagre de proporção épica e astronômica. Não importa se foi o sol propriamente ou se foi a rotação da Terra que parou, ou se o tempo simplesmente congelou. O fato é que o próprio escritor afirma que jamais Deus havia atendido à voz de um homem, realizando proeza de tal magnitude.

O que justificaria algo assim? Não era apenas mais uma batalha como tantas outras? Por que Deus daria tamanha importância àquela batalha?

Contra quem Josué lutava? Seria esta a questão chave? Absolutamente, não! A questão chave é: Por quem Josué lutava?

É dito que “certamente o Senhor pelejava por Israel”. Porém, poucos percebem que neste episódio em particular, Israel não lutava por si mesmo, mas em favor de outro povo, a saber, os Gibeonitas, também conhecidos como Heveus.

Se almejarmos que Deus intervenha em nossas batalhas cotidianas, devemos refletir sobre esta questão: por quem temos lutado? Ele assume nossas causas quando assumimos a causa do nosso semelhante.

Mas por que razão Israel comprou a briga dos Gibionitas?

Convém notar que eram cinco contra um! Cinco reis se reuniram para guerrear contra Gibeom. Mas, por quê? O que eles teriam feito capaz de despertar tamanha oposição? Eles fizeram aliança de paz com Israel!

Porém, esta aliança fora feita em condições suspeitas.

Rumores se espalhavam por toda região de Canaã. Duas grandes cidades já haviam sucumbido ante as investidas militares de um povo nômade, que deixara a escravidão do Egito cerca de quarenta anos antes, e que agora, sob o comando de Josué, marchava feito um rolo compressor, derrubando tudo à sua frente.

Jericó e Ai foram devastadas. Quem seria a próxima peça do dominó a cair?

Ao ouvirem tais coisas, “todos os reis que viram a oeste do Jordão, nas montanhas, nas campinas e em toda a costa do grande mar, em frente do Líbano (...) ajuntaram-se de comum acordo para pelejar contra Josué e contra Israel. Todavia, quando os moradores de Gibeom ouviram o que Josué fizera com Jericó e Ai, usaram de astúcia, e foram, e se fingiram embaixadores, e levaram sacos velhos sobre os seus jumentos, e odres de vinho velhos, rotos e consertados. Nos pés traziam sandálias velhas e remendadas, e roupas velhas sobre si. Todo o pão que levavam para o caminho era seco e bolorento. Vieram a Josué, ao arraial em Gilgal, e disseram a ele e aos homens de Israel: Chegamos de uma terra distante; fazei aliança conosco.”[1]

Para assumir a hegemonia daquela vasta região, Israel não poderia poupar nenhum daqueles povos. Para os israelitas, sua espada seria juízo de Deus sobre nações perversas, que se promiscuíra com os falsos deuses, contaminando suas gerações.[2]

Ao alegar terem vindo de uma terra longínqua, os moradores de Gibeom tinham a clara intenção de serem poupados da fúria israelita. Segundo eles, o que os trouxera de tão longe era a fama do seu Deus, e tudo quanto fizera aos egípcios (v.9).

Eles não apenas mentiram descaradamente, como forjaram evidências falsas que corroborassem com sua versão. Ao serem questionados se de fato vinham de uma terra distante, eles responderam:

“Este nosso pão tomamos quente das nossas casas no dia em que saímos para vir ter convosco. Mas agora já está seco e bolorento. E estes odres, que enchemos de vinho, eram novos, mas já estão rotos. E nossas vestes e nossas sandálias já envelheceram, por causa da longa jornada.” Josué 9:12-13

Que contraste! Um povo acostumado a comer do maná que descia do céu, agora se vê diante de representantes de um povo, supostamente vindos de longe, com pães mofados; um povo cujas roupas e sandálias não se envelheceram durante sua jornada de quarenta anos no deserto, diante de pessoas com roupas e sandálias velhas.[3] Que ameaça poderiam inspirar? Eles nem sequer tinham um rei!

Embora o pão que traziam fosse velho e o bolorento, não era suficiente como evidência de que haviam vindo de lugares longínquos.  Todo aquele artifício cênico visava validar suas palavras e, assim, convencer Josué a dar-lhes um destino diferente que tivera os moradores da Jericó e Ai. Pois, funcionou: “Assim Josué fez uma aliança de paz com eles, prometendo poupar-lhes a vida, e os líderes da comunidade prestaram-lhes juramento” (v.15).

Bastaram três dias para que a verdade viesse à tona. Mas agora, já era tarde. A aliança já havia sido feita sob juramento, e, portanto, não poderia ser violada. Sentindo-se enganado, Josué não pôde voltar atrás, porém, pronunciou uma sentença sobre os moradores de Gibeom:

“Chamou-os Josué e lhes perguntou: Por que nos enganastes, dizendo: Muito longe de vós habitamos, morando vós no meio de nós? Agora sereis malditos: entre vós nunca deixará de haver servos, rachadores de lenha e tiradores de água, para a casa do meu Deus (...) Nesse dia, Josué os fez rachadores de lenha e tiradores de água para a comunidade e para o altar do Senhor, até o dia de hoje, no lugar que Deus escolhesse.” vv.22-23, 27

Em outras palavras, Josué fez-lhes uma concessão, permitindo que vivessem entre eles, desde que aceitassem com resignação o papel de servos. Porém, o que para Josué soava como uma maldição, na verdade era uma bênção. Por muitos séculos, os gibeonitas viveram entre os israelitas, trabalhando na manutenção do templo.

Ora, se aquela aliança fora feito tendo uma mentira por base, por que Deus a honraria, a ponto de realizar tão grande milagre?

As vestes e sandálias velhas não serviam de evidências conclusivas de que teriam vindo de longe, pelo menos, não em termos geográficos. Mas talvez fossem indícios de que sua origem remontava tempos a muito esquecidos.

De onde, em termos históricos, teria vindo aquela gente? Qual seria a sua origem? Por que Deus a teria poupado?

A resposta pode ser encontrada em Gênesis 34:1-31.

Jacó havia tido doze filhos, dos quais viriam as doze tribos de Israel. Porém, entre tantos filhos varões, Jacó também teve uma filha chamada Diná.

Num belo dia, Diná resolveu dar uma volta para entrosar-se com outras moças da região. Um príncipe por nome Siquém, filho de Hamor, o Heveu, viu-a e apaixonou-se por ela. Os dois acabaram se relacionando sexualmente. Àquela época, uma relação sexual sem o consentimento da família era considerada uma humilhação. Querendo corrigir seu erro, Siquém recorreu ao seu pai, pedindo que fosse a Jacó, o pai da moça, e lhe pedisse sua mão em casamento. Ao saber que sua filha fora violada, Jacó ficou muito triste, e não quis tomar qualquer decisão sem consultar seus filhos.  Quando souberam do ocorrido, os filhos de Jacó iraram-se e desejaram vingança.  Porém, Hamor, pai de Siquém, lhes fez uma proposta: que eles fizessem uma aliança, de modo que ambos os povos se tornassem um só. Assim, eles poderiam enamorar-se de suas mulheres, e vice-versa, cultivar suas terras, partilhar seus recursos, etc. Porém, o interesse de Siquém era receber a mão de Diná em casamento. Os filhos de Jacó pareciam amistosos e demonstraram boa vontade diante da proposta, contanto que os homens daquela cidade se submetessem ao rito da circuncisão. Aquele era o sinal que Deus havia dado a Abraão. Qualquer que almejasse unir ao seu povo deveria recebê-lo. Os homens da cidade prontamente aceitaram e foram circuncidados.  Tudo parecia correr bem. Aceitar a circuncisão era o mesmo que entrar em aliança. Três dias depois de terem sido circuncidados, quando ainda estavam se convalescendo do procedimento, os filhos de Jacó vieram repentinamente e mataram covardemente todos aqueles homens, inclusive a Siquém e a seu pai. Quando Jacó soube do ocorrido, ficou profundamente abalado.

A partir desse fatídico episódio, não se ouve falar mais de Diná, nem tampouco de seus descendentes. Não sabemos que fim teve ela; como viveu ou como morreu. Tudo indica que a história do povo com que ela se aparentou, correu às margens, paralela à história das tribos de Israel.

Séculos se passaram. Tudo aquilo parecia uma página virada. Porém, Deus jamais Se esqueceu daquela gente.

Mesmo longe, os Gibeonitas estavam a par do que Deus fazia pelos filhos de Israel. Sabiam do tempo de escravidão que amargaram no Egito, do livramento que o Senhor lhes dera, da maneira como Ele os sustentara no deserto. Mas eles souberam esperar por vários séculos, até chegar a hora certa de se reaproximarem.

Não vieram imbuídos de um desejo de vingança. Queriam apenas a chance de coexistirem. A proposta que faziam a Josué era a mesma que seu ancestral Hamor fizera a Jacó.

Embora os Heveus constassem da lista de nações que deveriam ser destruídas por Israel, Deus lhes fez uma exceção.

Agora, os descendentes daqueles que os haviam destruído no passado, lutavam por sua própria vida. Foi a este gesto que Deus honrou ao fazer parar o sol e a lua à pedido de Josué.

Deus jamais se esquecera de Diná, nem do povo com o qual se aparentou.

Há que se considerar que a mulher misteriosa descrita por João em Apocalipse,[4] vestida de sol e tendo a lua sob os seus pés e uma coroa de doze estrelas (referência às dozes tribos de Israel), seja uma representação da filha esquecida de Jacó. Se assim for, ela também tipifica todos relegados ao esquecimento, os proscritos, os marginalizados, aqueles que são prioridades na agenda de Deus.

Os Gibeonitas se tornaram tão importantes para Israel a ponto de ajudarem na reconstrução de Jerusalém e do templo após o retorno do exílio babilônico.

Lemos em 1 Crônicas 9:2 que ao voltarem do exílio, “os primeiros a se restabelecerem nas suas propriedades e nas suas cidades foram alguns israelitas, os sacerdotes, os levitas e os servidores do templo (gibeonitas)”.

Foi também em suas terras (Gibeom) que o tabernáculo foi mantido por muito tempo. Foi também lá que Deus apareceu a Salomão, dando-lhe a oportunidade de pedir o que quisesse. No mesmo lugar onde Josué pediu que o sol se detivesse, Salomão fez o inusitado pedido por sabedoria.

Séculos depois do episódio em que Josué lutou por eles, Deus trouxe juízo sobre Israel por causa do tratamento que Saul dera aos Gibeonitas. Depois de três anos de fome, Davi consultou ao Senhor, que lhe disse que aquilo era resultado dos maus tratos que o rei que o antecedera dera àquele povo com qual Israel tinha uma aliança de coexistência.[5] A fome só cessou quando Davi atendeu ao apelo dos Gibeonitas, entregando-lhes os descendentes de Saul, para que lhes fizesse justiça. Deliberadamente, Davi poupou a um deles, a saber, a Mefibosete, filho de Jonatas, com quem Davi fizera uma aliança.[6]

Nosso Deus jamais se esquece de uma aliança. Assim como os Gibeonitas foram poupados por causa da aliança feita com Josué, e Mefibosete foi poupado por causa da aliança entre Davi e seu pai, somos poupados da justa ira divina por causa da aliança feita entre Deus e Seu Filho Unigênito, Jesus Cristo.

Na noite em que Cristo celebrou a Ceia em que anunciaria a Nova Aliança no Seu sangue, os discípulos foram guiados àquele lugar por um rapaz que carregava um cântaro de água.[7] Ora, quem fora “amaldiçoado” a carregar água em Israel? E ainda: quem teria feito a cruz, já que os Gibionitas eram os responsáveis por cortar lenha em Israel? E por que razão Jesus nasceu numa família cujo chefe era um carpinteiro? Ainda que José não fosse propriamente um Gibionita, identificava-se com eles por sua profissão. O próprio Cristo se identifica com eles ao oferecer à mulher samaritana, e posteriormente ao seu povo em Jerusalém, água viva.[8]

Se quisermos que Deus peleje por nós, teremos que escolher melhor por quem pelejemos. Ao invés de cerrarmos fileiras com os poderosos, nós nos portaremos ao lado dos que correm às margens da história, dos lenhadores e carregadores de água, das minorias, dos negros, dos índios, das mulheres, dos homossexuais, dos usurpados, dos explorados, dos oprimidos. É por eles que Deus trava suas mais gloriosas batalhas. É por eles que Ele é capaz de subverter a ordem cósmica. É com eles que Deus está aliançado, a ponto de dizer que qualquer coisa que façamos aos tais, será como se fizéssemos ao próprio Cristo. Deus não apenas freia o sol, como também o transforma em vestes para os maltrapilhos deste mundo. Ele não apenas freia a lua, mas também a coloca sob os pés dos que se apresentam descalços ante a sacralidade da vida.


[1] Josué 9:1-6
[2] Deuteronômio 20:10-18
[3] Deuteronômio 29:5
[4] Apocalipse 12:1 – A mulher vestida de sol tem sido identificada pela teologia católica como Maria, e por muitos protestantes, tem sido identificada, ora como figura da igreja, ora como Israel. É possível uma múltipla interpretação. Todavia, acredito tratar-se de Diná, a filha esquecida de Jacó, e ao mesmo tempo, da igreja, o povo formado por aqueles que, segundo Paulo, são considerados desprezíveis pelo mundo (1 Coríntios 1:26-28). Assim como Diná deu origem àquele povo, a igreja concebe a nova humanidade.
[5] 2 Samuel 21:1-14
[6] 2 Samuel 9:1-7
[7] Lucas 22:10
[8] João 4:10; 7:38