sexta-feira, julho 13, 2018

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MERITOCRACIA: Não confunda alhos com bugalhos!



Por Hermes C. Fernandes

Foram quarenta anos de peregrinação pelo deserto. Naquele ambiente inóspito, Israel teve que aprender a depender de Deus como um filho depende de seu pai. Sob um sol escaldante, não havia a menor chance de que eles plantassem e colhessem. O ambiente lhes era totalmente hostil. Por isso, Deus toma para Si a responsabilidade, alimentando-os com o maná que do céu caía todos os dias e com as aves que voavam ao alcance de suas mãos, e saciando-os com a água que da rocha jorrava. Além do alimento, Deus lhes protegia do calor abrasador, proporcionando-lhes sombra com a nuvem que os acompanhavam, e lhes protegia do frio à noite transformando a mesma nuvem numa coluna de fogo. Sua única preocupação deveria seguir aquela nuvem que os guiava deserto afora, e submeter-se à liderança de Moisés. Ninguém precisava se preocupar em trabalhar, em correr atrás do pão de cada dia. Tudo vinha de mão beijada diretamente do Pai Provedor. Mas, de repente, o inusitado aconteceu. Aquele que os guiara desde o Egito partiu sem deixar vestígio. E como se não bastasse, Deus lhes deixou de sobreaviso: tão logo atravessassem o Jordão, o maná diário cessaria, a rocha deixaria de verter água, as codornizes desapareceriam de seu cardápio. A partir daí, eles teriam que arregaçar as mangas e trabalhar. Afinal de contas, Deus os teria introduzido numa terra que manava leite e mel, a tão sonhada Terra Prometida (Josué 5:12).  Meritocracia? Negativo. A mesma graça que os sustentou pelo deserto, agora seria responsável por cada chuva, por cada estação, por cada colheita (Atos 14:17). Entretanto, caberia a eles não receber tal graça em vão, mas trabalhar com afinco a fim de não desperdiça-la.

Era de se esperar que a morte de Moisés os deixasse com aquele sentimento de orfandade que poderia desanimá-los e distraí-los do foco. Por isso, Deus incube a Josué de lidera-los na  nova etapa que se iniciava. “Moisés, meu servo, é morto. Levanta-te agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos de Israel. Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, eu o tenho dado a vós, como prometi a Moisés” (Josué 1:2-3). Em outras palavras, Moisés tinha prazo de validade, mas a promessa de Deus não. Esta jamais caducaria! Moisés era apenas um canal através do qual Deus guiava Seu povo. Mas eles teriam que reconhecer que, apesar de os canais variarem, a fonte segue sendo a mesma de sempre: DEUS! Josué seria o novo canal que os conduziria à terra com a qual sonharam desde que deixaram a terra dos faraós. 

Durante a travessia no deserto, Israel sentia saudade do Egito, de suas cebolas, de seus alhos, de seus melões e peixes (Números 11:5). Apesar do trabalho forçado, da escravidão, dos açoites, eles tinham a garantia de que não lhes faltariam mantimentos. O período no deserto serviu para desintoxicá-los. Tirá-los do Egito foi bem mais fácil do que tirar o Egito deles. Agora, contudo, eles teriam que voltar a trabalhar, não mais sob a tirania e a exploração de Faraó, mas sob os cuidados amorosos do Pai Celestial. Um Deus que é Pai não oprime a Seus filhos, mas também não os mima. Pelo contrário, Ele os disciplina para que cresçam, amadureçam, frutifiquem, e ainda assim, sigam dependentes de Sua Graça e Amor.

Graça e trabalho não são antagônicos. O que confunde a muitos é a conexão equivocada entre trabalho e mérito. Na mesma passagem em que Paulo encomenda os discípulos “a Deus e à palavra da sua graça”, ele também diz: “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20:32,35).

Ninguém falou mais da graça do que Paulo. Porém, ele jamais a usou como subterfúgio, desculpa ou justificativa para a ociosidade. Pelo contrário, ele a enxergava como uma força motivadora para o trabalho, e diz que toma-la como desculpa para cruzar os braços é o mesmo que recebe-la em vão. Ou não isso que ele diz?:

“Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo.” 1 Coríntios 15:10

O que a travessia do Jordão foi para os Israelitas, o Dia de Pentecostes foi para os cristãos. Jesus já havia alimentado a multidão que o seguia pelo deserto, multiplicando pães e peixes por mais de uma vez. Ele também prometera aos Seus discípulos que os que n’Ele cressem fariam as mesmas obras que fez, e ainda faria obras maiores. Entretanto, não flagramos os discípulos protagonizando milagres de multiplicação após a descida do Espírito Santo em Pentecostes. O episódio da multiplicação foi paradigmático, não por causa do milagre em si, mas pelo fato de que um menino se dispôs a compartilhar seu próprio lanche com a multidão. E foi assim, calcados neste exemplo, que as primeiras comunidades cristãs desenvolveram o hábito da partilha, razão pela qual, não havia entre elas nenhum necessitado. O maior milagre é o que ocorre no interior do coração humano, transformando opressores e exploradores em potencial em seres generosos, cheios de amor pelos seus semelhantes. Obviamente que alguns aproveitadores se infiltraram nas igrejas para obter alguma vantagem em cima do espírito solidário dos cristãos. Eles queriam uma fatia do bolo, sem, porém, cooperar para que este bolo crescesse e pudesse alimentar a tantos outros. Para corrigir isso, o apóstolo Paulo nos deixou uma severa advertência:

“Irmãos, em nome do nosso Senhor Jesus Cristo nós lhes ordenamos que se afastem de todo irmão que vive ociosamente e não conforme a tradição que receberam de nós. Pois vocês mesmos sabem como devem seguir o nosso exemplo, porque não vivemos ociosamente quando estivemos entre vocês, nem comemos coisa alguma à custa de ninguém. Pelo contrário, trabalhamos arduamente e com fadiga, dia e noite, para não sermos pesados a nenhum de vocês, não por que não tivéssemos tal direito, mas para que nos tornássemos um modelo para ser imitado por vocês. Quando ainda estávamos com vocês, nós lhes ordenamos isto: se alguém não quiser trabalhar, também não coma. Pois ouvimos que alguns de vocês estão ociosos; não trabalham, mas andam se intrometendo na vida alheia. A tais pessoas ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo que trabalhem tranquilamente e comam o seu próprio pão.” 2 Tessalonicenses 3:6-12

Não creio em meritocracia, pois entendo que nem todos desfrutam da mesma oportunidade de crescer, desenvolver-se e produzir. Uma coisa é não ter oportunidade, outra é tê-la, mas negligenciá-la.  A orientação apostólica é clara: “Trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o necessitado (...) aproveitando bem cada oportunidade, porque os dias são maus” (Efésios 4:28b; 5:16b).

Se teve a oportunidade de se aperfeiçoar em alguma tarefa, não a desperdice! Se teve a chance de ser bênção na vida de outros, e, de quebra, garantir sua própria subsistência, não a negligencie. Como já dizia meu velho e sábio pai: o que tinha que vir do céu já veio: Jesus para morrer por nós e o Espírito Santo para nos capacitar. Agora, só nos resta correr atrás, na certeza que as bênçãos de Deus nos acompanharão em tudo o que fizermos. Que nosso objetivo seja o mesmo de Paulo e dos demais apóstolos: Não sermos pesados a ninguém! Nem que para isso tenhamos que trabalhar dia e noite sem parar: “Porque bem vos lembrais, irmãos, do nosso trabalho e fadiga; pois, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós, vos pregamos o evangelho de Deus” (1 Tessalonicenses 2:9). Que nossa dependência de Deus não seja desculpa para o ócio, mas estímulo para o trabalho digno, honesto e honroso. 

terça-feira, junho 26, 2018

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Quem foi rei nunca perde a... oportunidade!



Por Hermes C. Fernandes

Esqueçam todos os grandes lances ocorridos dentro dos campos da Rússia nesta Copa. A imagem mais marcante do evento, pelo menos em minha opinião, foi a de Pelé chegando de cadeira de rodas e sendo recebido efusivamente pelo presidente Putin, Maradona e outros ícones do mundo futebolístico mundial. O craque argentino, ex-desafeto, não se contentou em cumprimenta-lo, e deu-lhe um beijo registrado por câmeras do mundo inteiro. As pernas hoje paralisadas são as mesmas que tantas alegrias deram aos torcedores brasileiros em outras copas. Durante décadas, Pelé foi considerado uma das personalidades mais famosas do mundo ao lado dos Beatles e de Mohamed Ali. Bastava apresentar-se como brasileiro no exterior para ouvir de imediato o nome “Pelé”.

E como quem foi rei, nunca perde a majestade... Perde sim! Apesar de celebrado no mundo todo, Pelé se tornou persona non grata em alguns círculos, principalmente nas redes sociais. Bastou que a foto circulasse para despertar o ódio de quem não sabe distinguir entre vida privada e vida pública. Como torcedor brasileiro, não me compete julgá-lo como pai, como chefe de família ou mesmo como empresário. Estes são departamentos diferentes. Para quem marcou mais de mil gols[1], sua vida privada são outros quinhentos. Assim como Davi que apesar de ter sido o mais notável rei de Israel, não foi lá grande coisa como pai. Nem por isso, Jesus se queixou de ser chamado “Filho de Davi”.

Se hoje os jogadores da seleção vestem uma camisa que exibe cinco estrelas sobre a insígnia da CBF, deve-se muito à atuação de extraordinário esportista. Eles já entram em campo como pentacampeões se terem conquistado nenhum campeonato. Os méritos pertencem às gerações que os antecederam.  Dos cinco títulos do Brasil, três foram disputados por Pelé: 1958, 1962 e 1970. Não são seus problemas familiares particulares que diminuirão o brilho de suas proezas em campo.

Se for para avalia-lo como pessoa, deixemos de lado o personagem Pelé e falemos de Edson Arantes do Nascimento. Quem não tiver problemas relacionados à família que atire a primeira pedra. As mesmas pernas que driblaram tantos adversários, não conseguiram driblar situações envolvendo sua casa, incluindo o reconhecimento de uma filha fora do casamento. Sua luta pelo reconhecimento de seus 1281 gols, já que oficialmente foram 757 gols[2] contrastou com a luta judicial de Sandra Regina, que morreu em 2006, pela sua paternidade jamais reconhecida. Recusar-se a ir ao seu sepultamento foi um baita chute na trave. O mesmo chute que sacudiu tantas redes ao redor do mundo, não deu conta de afastar o fantasma do divórcio, já tendo se casado três vezes. Mas nada disso macula seu desempenho como jogador. Suas vitórias em campo jamais poderão ser anuladas por seus fracassos amorosos ou familiares.

Deixando de lado sua vida privada, o fato inconteste é que Pelé foi e sempre será uma referência, um ícone do esporte. E dificilmente algum jogador atual conseguirá destrona-lo.

Se o Brasil chegar a ser hexa nesta Copa, não será apenas pelo desempenho de Neymar e companhia, mas também porque lá atrás ele ganhou três campeonatos sob o cetro de Pelé. Caso contrário, o máximo que o Brasil conseguiria agora seria um tricampeonato.

Pelé é para o mundo futebolístico o que Jesus é para a nossa fé. Depois de nos apresentar a escalação de uma seleção de primeiríssima qualidade no capítulo 11 de Hebreus, o escritor sagrado nos brinda com a seguinte advertência:

“Portanto, visto que nós também estamos rodeados de tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos com perseverança a carreira que nos está proposta, OLHANDO FIRMEMENTE PARA JESUS, autor e consumador da nossa fé.”[3]

Cada geração deu sua contribuição no meio do campo, mas quem iniciou a jogada lá trás e vai concluí-la lá na frente é ninguém menos que o Filho de Deus. E agora, aquelas mesmas gerações que nos antecederam na partida da vida formam uma “Nuvem de testemunhas”. Por muito tempo, achei que esta tal nuvem fosse formada por aqueles que nos acompanham das arquibancadas da vida, torcendo contra ou a favor. Em outras palavras, seriam nossos contemporâneos, que nos acompanham in loco, nossos amigos, familiares, colegas de trabalho, irmãos de fé, etc. Todavia, a conjunção “portanto” com a qual se inicia o capítulo 12 revela que o escritor sagrado tinha em mente todos os que citou no capítulo anterior, isto é, os heróis da fé desde os primórdios.  Logo, a nuvem de testemunhas que avalia nosso desempenho “em campo” é formada por aqueles que nos antecederam. Digamos, em termos atuais, que ela estaria mais para os comentaristas contratados pelos canais de TV do que propriamente para os espectadores nos estádios. Já parou para reparar quem são os comentaristas? Geralmente, jogadores que atuaram em outras copas. Pelé mesmo foi comentarista na vitória que nos garantiu o tetra. Ronaldo Fenômeno, Casagrande e outros que atuaram em campeonatos anteriores, hoje nos brindam com suas avaliações.

Nunca veremos um jogador em campo sendo entrevistado durante o jogo acerca do desempenho de seus colegas ou adversários. Seu papel ali é jogar, não avaliar outros.

À luz das Escrituras, não se pode julgar ninguém antes do tempo. Isto porque o placar ainda pode ser alterado. Quem agora é vaiado por dar um passe errado, daqui a pouco será aclamado pela mesma torcida por ter marcado um pênalti decisivo. A bola está rolando...  Quem hoje é celebrado, amanhã será execrado. Vide o próprio Jesus, que num dia foi recebido aos gritos de “Hosana!” e noutro teve sua sentença gritada pelos mesmos lábios: CRUCIFICA!

Quem esteve em campo antes de nós reúne as condições necessárias para fazer uma avaliação menos parcial, desprovida do calor das paixões. Por isso, Jesus diz que os ninivitas ressurgirão no dia do juízo e darão testemunho contra aquela geração que teve a oportunidade que eles não tiveram, pois se converteram pela pregação de um homem falho como Jonas, enquanto os contemporâneos de Jesus se negavam a se converter mesmo diante de tantos sinais que Ele fizera. A rainha de Sabá se levantará para dar testemunho contra a geração que se recusou a dar ouvidos à sabedoria divina encarnada, pois em seus dias, deixou uma terra longínqua para aprender dos lábios de Salomão. [4] Quem soube aproveitar as oportunidades em seu próprio tempo está apto a avaliar os que agora a têm, mas a desperdiçam. Talvez Pelé não fosse um ótimo conselheiro amoroso, mas como comentarista de futebol sua autoridade é inquestionável.

Além dos que nos antecederam, ninguém melhor do que os que nos sucederem para avaliar nossa atuação nesta vida. Seremos julgados pelos nossos filhos! Não por uma pisada de bola eventual ou por um pênalti perdido, mas pelo conjunto da obra. Gerações futuras enxergarão em retrospectiva o que hoje não conseguimos ver, pois poderão levar em conta nossas limitações, nossa indisponibilidade de recursos e oportunidades, bem como as oportunidades que deixamos vazar por entre os dedos. Talvez sejam até mais condescendentes que nossos antecessores. Pois estes nos julgam à luz do que tiveram em comparação ao que temos. Imagine, por exemplo, os cristãos do primeiro século que em apenas dois anos evangelizaram toda a Ásia, sem disporem dos recursos que hoje nos sobejam. O que aquela geração não faria se tivesse às mãos recursos como a internet, os meios de comunicação e de transportes em massa. Uma vez que as gerações seguintes tenham recursos superiores aos que temos atualmente, há de se supor que sejam mais compassivas em sua avaliação. Talvez sim, talvez não.

Repare no que Jesus diz:

“Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Se em Tiro e em Sidom se tivessem feito os milagres que vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido (...) E tu, Cafarnaum, serás levado até os céus? Serás derrubada até o inferno. Se em Sodoma tivessem sido feito os milagres que em ti se operaram, ela teria permanecido até hoje. Eu, porém, vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para Sodoma, do que para ti.”[5]

Logo, os critérios com que somos avaliados estão diretamente ligados às oportunidades e recursos a que temos acesso.

Portanto, não deveríamos nos preocupar tanto com as avaliações precipitadas de quem está em campo juntamente conosco, seja no mesmo time ou no time adversário. Deveríamos, antes, nos preocupar com o que dirão os que vieram antes e os que vierem depois de nós.

Quem pode nos julgar senão os que nos precederam e os que nos sucederem? Os primeiros, por já terem passado pelos mesmos caminhos e enfrentado desafios semelhantes aos nossos, sem contudo disporem dos mesmos recursos. Os últimos, por poderem avaliar o conjunto da obra já devidamente finalizada. Só resta aos nossos contemporâneos solidarizarem-se por percorrerem a mesma jornada, sujeitos às mesmas intempéries e limitações. Somos todos filhos do mesmo tempo. 

E justamente por conta disso é que devemos deixar todo embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia. Isto é, temos que driblar a marcação do adversário. Seu objetivo é desarmar nosso jogo, inviabilizar nossos passes e com isso, impedir nossa vitória.

Não há times de um único jogador. Ou vencemos juntos, ou fracassaremos igualmente juntos. E para tal, faz-se necessário que aprendamos com Jesus a desprezar a afronta da torcida contrária. E só há uma maneira de fazê-lo: OLHANDO FIRMEMENTE PARA JESUS. Ele é o nosso gol! Nossa meta! Foi pela “alegria que lhe estava proposta” que Ele “suportou a cruz, desprezando a afronta.”[6]

Mesmo que pareça que o jogo esteja perdido, não é hora de jogar a toalha. Quem visse Jesus na cruz, acharia que Ele havia sofrida uma derrota irreversível. Mas o placar virou dentro do tempo regulamentar de três dias.

Ainda que nos julguem como alguns têm feito a Pelé, outros, porém , reconhecerão nosso esforço para vencer nossas próprias limitações em campo, ainda que este reconhecimento seja tardio.




[1] Ao todo foram 1281 gols marcados ao longo de sua carreira.
[2] Os demais teriam sido marcados em jogos não oficiais ou comemorativos.
[3] Hebreus 12:1-2a
[4] Mateus 12:41-42
[5] Mateus 11:21a, 23-24
[6] Hebreus 12:2

segunda-feira, junho 25, 2018

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A RESPOSTA QUE VOCÊ PRECISA PODE NÃO SER A QUE VOCÊ ESPERA OUVIR



Por Hermes C. Fernandes

O segundo livro de Reis registra o drama de uma mulher que recorreu ao profeta Eliseu em busca de socorro, pois seu marido falecera e lhe deixara uma dívida impagável. Desesperada, ela diz:
“Meu marido, teu servo, morreu; e tu sabes que ele temia ao SENHOR. É chegado o credor para levar os meus dois filhos para lhe serem escravos.” 2 Reis 4:1
Seu falecido esposo era um dos discípulos dos profetas. Provavelmente havia sido colega de Eliseu durante o ministério de Elias. Inconsolável por não querer ceder seus filhos ao credor como pagamento da dívida, ela recorre ao profeta em busca de uma solução.

Repare que ela não critica seu marido morto, apesar da dívida que lhe deixara. Em vez disso, ela o honra, dando testemunho de que temia ao Senhor. Encontramos aí uma importante lição. Filhos que crescem ouvindo a mãe apontando os defeitos do pai têm sérias dificuldades de honrá-lo, e vice-versa. Recuso-me a acreditar que Eliseu teria dado atenção àquela mulher, se em vez de honrar a memória de seu esposo, ela se apresentasse queixando-se dele deliberadamente. Foi sua postura idônea que levou o profeta a considerar sua situação, dispondo-se a ajudá-la.

Sem ter como ajuda-la, Eliseu pergunta: “Que te hei de fazer?” (2 Reis 4:2). Não seria justo imaginar que Eliseu quisesse apenas tirar o corpo fora.  O fato é que ele recebera de Elias, seu antecessor, um verdadeiro abacaxi. Antes de partir, a maioria daqueles que o seguiam simplesmente o abandonou. Por isso, Elias se queixou com Deus de que havia ficado só. Seu ministério antes em franca expansão, a ponto de manter uma escola de profetas, agora experimentara uma queda brusca e repentina, de sorte  que ele precisou ser mantido miraculosamente por corvos que lhe traziam comida na caverna em que se escondera. Se Elias houvesse partido no auge, teria deixado para Eliseu uma situação bem confortável. O marido daquela mulher havia sido um dos poucos que se mantiveram fiéis, mesmo depois que Elias fora arrebatado ao céu.

Por mais que Eliseu quisesse ajuda-la, ele simplesmente não tinha de onde tirar. Não há sensação pior do que querer fazer o bem, mas não poder. E o pior é quando somos julgados por isso. Sem encontrar outra saída, o profeta pediu-lhe: “Dize-me que é o que tens em casa.”

Às vezes, a resposta para nossas necessidades está bem debaixo do nosso nariz, porém, o desespero nos impede de enxergar.

Permita-me relatar um sonho que tive dias atrás: Sonhei que entrava num casebre de um único cômodo, cujas paredes estavam cheias de infiltração. Quem morava ali era um jovem casal muito querido. Em vez de uma cama de casal normal, havia duas camas, cada qual encostada numa parede, mas que se encontravam pelas cabeceiras na quina, formando assim um L, de modo que o casal dormia com os corpos separados, mas com as cabeças próximas uma da outra. Mas o que me chamava a atenção eram as guitarras caras que estavam penduradas nas paredes internas ao redor da casa. Eu comentava com alguém que o valor das guitarras era maior que o da casa, e que se fossem vendidas, daria para adquirir um imóvel muito melhor. Acordei com a sensação de que Deus queria me dizer algo com isso. Nem sempre a gente dá valor ao que tem em casa, e por isso, passa por privações desnecessariamente. A gente perde tempo prestando atenção ao que pertence aos outros, e não percebe que tudo de que precisamos está ao alcance de nossas mãos. A gente busca ajuda de terceiros sem nos dar o trabalho de verificar e esgotar todas as possibilidades.

O texto prossegue com sua resposta à indagação do profeta:
“Tua serva não tem nada em casa, senão uma botija de azeite. Então, disse ele: Vai, pede emprestadas vasilhas a todos os teus vizinhos; vasilhas vazias, não poucas. Então, entra, e fecha a porta sobre ti e sobre teus filhos, e deita o teu azeite em todas aquelas vasilhas; põe à parte a que estiver cheia. Partiu, pois, dele e fechou a porta sobre si e sobre seus filhos; estes lhe chegavam as vasilhas, e ela as enchia. Cheias as vasilhas, disse ela a um dos filhos: Chega-me, aqui, mais uma vasilha. Mas ele respondeu: Não há mais vasilha nenhuma. E o azeite parou. Então, foi ela e fez saber ao homem de Deus; ele disse: Vai, vende o azeite e paga a tua dívida; e, tu e teus filhos, vivei do resto.” 2 Reis 4:2-7
Como podemos ver, tudo que ela tinha em casa era uma botija de óleo. Aos seus olhos, aquela botija era o lembrete de uma era de vacas gordas que se encerrara. Porém, aos olhos do profeta, aquilo seria o ponto de partida para uma mudança radical em sua situação.

Aquela mulher poderia alegar que seria uma baita humilhação pedir que seus filhos batessem de porta em porta em busca de vasilhas emprestadas. Ela poderia achar que o profeta lhe devesse alguma coisa, já que seu marido havia sido tão fiel, trabalhando ao seu lado durante um tempo em que a maioria o abandonou. Em vez disso, seu caráter revelou-se humilde e obediente, de sorte que não titubeou em enviar seus filhos para cumprir a missão delegada pelo homem de Deus.

Seus filhos não deveriam ser vistos como parte do problema, mas como solução. Se ela houvesse semeado em seus corações algum  tipo de revolta contra seu pai, ou contra o profeta, eles certamente se recusariam a fazer o que lhes fora pedido. Ela, porém, sendo uma mulher sábia, percebia claramente o que estava em jogo. Por isso, engoliu o choro, recobrou o ânimo e fez o que o profeta lhe orientou. Ela contagiou o coração de seus filhos com sua esperança, e não com seu desespero ou algum desejo de vingança.

Depois de providenciadas as vasilhas, seguindo à orientação de Eliseu, ela fechou a porta sobre si e seus filhos, e começou a enchê-las com o óleo que havia em sua pequena botija.

“Fechar a porta” significa manter no âmbito privado o que jamais deveria se tornar público. A sacralidade do lar deve ser mantida a qualquer preço. Deve-se pensar no futuro, e não apenas nas necessidades momentâneas. Se deixarmos as portas abertas, línguas ferinas circularão livremente, levando e trazendo, cutucando feridas ainda não cicatrizadas, agravando a situação. Às vezes, a porta que precisa ser fechada é a da nossa boca, expondo situações particulares a quem não tem nada a ver com isso.

À medida que as vasilhas eram miraculosamente cheias, ela as separava das demais. Depois que estavam todas repletas, Eliseu a orientou a vendê-las e assim, viabilizar sua subsistência juntamente com a de seus filhos. Foi assim que o desespero inicial deu lugar à esperança. De uma hora para outra, ela deixou de ser um problema, para ser um canal de bênçãos para aquela comunidade. Deixou de ser uma mera consumidora, para ser fornecedora. Nascia ali uma empreendedora bem sucedida. Alguém que em vez de suscitar pena nos demais, passou a servir-lhes de inspiração.


Há situações permitidas por Deus que servem para despertar o nosso potencial. Um dia, olhando em retrospectiva, daremos graças a Deus por nos haver permitido passar por aquilo, pois somente assim descobrimos quem realmente somos e do que verdadeiramente somos capazes.

quarta-feira, junho 13, 2018

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A verdade nua e crua



Por Hermes C. Fernandes


I
magine ser fruto de uma relação extraconjugal entre seu pai e uma prostituta.  Crescer sendo  xingado por seus próprios irmãos de filho da p#&@ e não poder fazer nada. Não bastasse todo o bullying de seus meios-irmãos, ainda ser constantemente ameaçado de ser deserdado. Quem suportaria viver num ambiente assim, sendo insultado o tempo inteiro? Por isso, tão logo alcançou idade suficiente para decidir seu destino, Jefté fugiu de casa. E para reforçar ainda mais o estereótipo, cercou-se de homens de moral duvidosa, considerados os párias da sociedade.

Mas o mundo costuma dar muitas voltas, não é mesmo?

Tempos depois, quando os amonitas pelejaram contra Israel, seus irmãos lhe enviaram um inusitado convite: “Venha e seja nosso chefe no combate contra os filhos de Amom.”[1] Por que resolveram apelar justamente ao irmão que antes haviam rechaçado? E quanto ao estigma de bastardo, agora não pesaria mais?

Jefté não deixou barato e respondeu aos demais filhos de Gileade: “Vocês não me odiaram e me expulsaram da casa de meu pai? Por que agora vêm a mim quando estão em aperto?”[2] Engolindo seu orgulho a seco, disseram: “É por isso que viemos te procurar. Vem conosco, combate contra os filhos de Amom e você será o nosso chefe sobre todos os moradores de Gileade.”[3] Nunca Jefté poderia imaginar que este dia chegaria. Os irmãos que o expulsaram de casa agora se dispunham a submeter-se à sua liderança.

Ele não apenas aceitou o convite, como conseguiu levar Israel a uma histórica vitória sobre os amonitas, depois de esgotar todos os argumentos ao tentar resolver a situação pela via da diplomacia.

Mal começara a gozar do sabor da vitória e Jefté teve que lidar com uma situação muito mais delicada ainda. Os homens de Efraim, uma das tribos de Israel, sentindo-se enciumados por não haverem participado da campanha militar que livrara Israel dos amonitas, indagaram a Jefté: “Por que você passou a combater contra os filhos de Amom e não nos chamou para ir contigo?” E ainda por cima, o ameaçaram: “Queimaremos a fogo a você e a sua casa.”

Aquela acusação, entretanto, era totalmente infundada. Tratava-se apenas de uma justificativa fajuta para se vingarem de não terem tido qualquer protagonismo naquela vitória e sentirem-se, assim, relegados à insignificância. Além do mais, Efraim se sentia ultrajado por ter que se submeter a um filho de prostituta, não apenas como um general, mas agora também como juiz.

Jefté que não mandava recado para ninguém, disse-lhes tête-à-tête: “Eu e o meu povo tivemos grande contenda com os filhos de Amom e, embora vos tenha chamado, não me livrastes das suas mãos. Vendo que não me livráveis, arrisquei a minha vida e fui lutar contra os filhos de Amom, e o Senhor os entregou nas minhas mãos. Agora por que subistes hoje para pelejar contra mim?”[4] Em outras palavras: Vocês tiveram a chance de vocês, mas não a aproveitaram! E ainda se acham no direito de se levantarem contra mim?

Nem sempre conseguimos entender a razão que leva algumas pessoas a se insurgirem contra nós. Às vezes, não faz o menor sentido. O que alegam nem sempre condiz com a verdadeira motivação. Tudo não passa de uma cortina de fumaça, uma justificativa que disfarce sentimentos inconfessáveis como a inveja, o ciúme ou o desejo de vingança.

Pessoas por quem você lutou, dedicou sua vida, expôs sua reputação, de repente, sem mais nem menos, se colocam em oposição a você. Algumas se aproveitam para revirar feridas antigas, jogando na cara seus equívocos e precipitações. Mas no fundo, o que as aborrece não é nada disso. Não são seus eventuais erros que as incomodam, mas seus acertos. Não são suas vicissitudes, mas suas virtudes. Todavia, elas jamais admitirão. Tudo de que precisavam para mostrar suas unhas era uma brecha, ou mesmo um simples mal-entendido, algo que possa justificar seu desafeto.

Jefté os havia convocado para lutar, mas eles simplesmente se ausentaram e covardemente o abandonando na hora em que mais precisava de apoio. Que moral teriam para cobrar alguma coisa? Não tendo o que falar contra Jefté, apelaram à mentira deslavada. Como disse Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, uma mentira repetida mil vezes, acaba se tornando verdade, pelo menos, na cabecinha de quem lhe dá crédito.

Sem ter como remediar a situação, só restou a Jefté uma saída: lutar contra Efraim. Se não desse uma resposta contundente às suas insinuações e mentiras, Jefté estaria abrindo um perigoso precedente que poderia contaminar outras tribos e trazer a ruína para todo o povo de Israel.

Mesmo cansados da batalha empreendida contra os Amonitas, os Gileaditas obtiveram esmagadora vitória sobre os Efraimitas, de sorte que os sobreviventes tiveram que fugir. Para impedir a fuga em massa, Jefté colocou homens nos vaus do Jordão que davam acesso ao território de Efraim, e quando os fugitivos tentavam passar, os homens de Gileade lhes perguntavam: “Você é efraimita?” Obviamente, a resposta era “não”. Para evitar que fossem enganados e os deixasse escapar, criaram um teste simples para identifica-los. Pediam que dissessem “Shibolete”.  Se fossem de Efraim, seu sotaque os impediria de pronunciar a primeira sílaba daquela palavra. Em vez de “Shibolete”, diziam “Sibolete”, e assim, uma vez identificados, eram impedidos de passar. O vocábulo hebraico "shibolete" significa a parte da espiga onde ficam as sementes. Jamais nos esqueçamos que palavras são sementes, sejam elas pronunciadas com sotaque que for. 

Perceba a sutilidade da pronúncia. Dá para reconhecer um baiano, uma carioca e um mineiro pela maneira de falar. Cada povo tem seu sotaque característico. Semelhantemente, não é difícil identificar alguém cuja motivação seja a de se insurgir contra quem tem sido levantado e sustentado pela graça de Deus. Basta prestar atenção nas sutilezas de sua fala. Alguns até tentam disfarçar, passando uma impressão de espiritualidade. Quando estão determinados a difamar a alguém, fazem-no de tal maneira que quem ouve não percebe a intenção malévola. São capazes de falarem mal enquanto parecem falar bem. A fofoca que espalham sempre vem seguida de um “pedido de oração” por aquele irmãozinho a que pretendem detonar. O veneno que escorre dos seus lábios parece doce como um néctar. Mas o que sai de sua boca não é Shibolete, mas Sibolete. Não é amor cristão, mas ódio, inveja, ciúme, vingança.

Suas mentiras soam como verdades. Suas intenções sempre parecem as melhores possíveis.

Certa parábola judaica diz que um dia a mentira e a verdade se encontraram.

A mentira disse para a verdade:

— Bom dia, dona Verdade.

E a verdade foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, não viu nuvens de chuva, vários pássaros cantavam e vendo que realmente era um bom dia, respondeu para a mentira:

— Bom dia, dona mentira.

— Está muito calor hoje, disse a mentira.

E a verdade vendo que a mentira falava a verdade, relaxou.

A mentira então convidou a verdade para se banhar no rio. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse:

— Venha dona Verdade, a água está uma delícia.

E assim que a verdade sem duvidar da mentira tirou suas vestes e mergulhou, a mentira saiu da água e vestiu-se com as roupas da verdade e foi embora.

A verdade por sua vez recusou-se a vestir-se com as vestes da mentira e por não ter do que se envergonhar, saiu nua a caminhar na rua.

E aos olhos de outras pessoas era mais fácil aceitar a mentira vestida de verdade, do que a verdade nua e crua.

A mentira se veste de verdade toda vez que esconde suas verdadeiras intenções. E ainda que os fatos narrados sejam verídicos, o intuito de quem os narra é pernicioso. Porém, a verdade nua e crua é a que não tem nada a esconder. Ela é o que é, verdadeira na casca e no miolo, por dentro e por fora. A mentira nada mais é do que uma fuga da realidade, patrocinada pela covardia. Por isso, há que se ter coragem para ser verdadeiro. Não há veracidade sem voracidade! Não era à toa que Jesus costumava dizer "em verdade, em verdade vos digo..." (algo como: "É na verdade que vos digo a verdade"). Não basta dizer a verdade. A verdade tem que ser dita em verdade. E mais: deve ser dita em amor, com a intenção de edificar, nunca de destruir. 

Os Efraimitas representam os que preferem fugir, esquivar-se, acovardar-se, para depois se acharem no direito de criticar e espalhar mentiras caluniosas contra quem se manteve em sua posição. Portanto, seu "sotaque" revela um caráter evasivo. Já os Gileaditas representam os que enfrentam a realidade, tomando para si a responsabilidade de mudança. Seu "sotaque" revela seu caráter leal, engajado e subversivo. 

Todos temos um “vau do Jordão” em nossas vidas. É ali que se decide o que deve passar ou não. Este “vau” é o que dá acesso ao nosso coração. Se deixarmos passar certas coisas nocivas à nossa alma, provavelmente nos acarretará males indizíveis. Depois não adianta reclamar.

Sejamos, portanto, mais seletivos com aquilo a que damos ouvidos. Uma coisa é ouvir, outra é dar ouvidos. Há coisas que não valem a pena nem sequer ouvir. É melhor evitar.

Sabe aquelas pessoas que devido ao convívio com outras, acabam assimilando seu sotaque? Já aconteceu de você ter um amigo estrangeiro e se pegar falando como ele? É natural que isso aconteça. Já aconteceu comigo. Pois bem... Cuidado para que você não seja influenciado por quem não tem outra intenção que não seja destruir o que custou tão caro para ser construído. Cuidado para que você não se pegue espalhando o que ouviu de terceiros, sem levar em conta o poder de destruição por trás do boato. Cuidado para que você não seja contagiado pela amargura de ninguém e se veja falando Sibolete em vez de Shibolete.

Prefira a verdade nua e crua à mentira travestida de verdade. Perdoe-me a redundância, mas verdadeira verdade tem sempre o sotaque do amor.

Quer um conselho? Recuse qualquer convite para participar de um banquete onde o prato principal seja a vingança. Prefira saciar-se na companhia dos que insistem na esperança. É melhor a esperança requentada que a vingança requintada.




[1] Juízes 11.6
[2] v.7
[3] v.8
[4] Juízes 12.2-3

sábado, junho 09, 2018

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MARIA MADALENA, ESPOSA DE CRISTO



Por Hermes C. Fernandes

Nenhuma outra figura do Novo Testamento provoca tantas especulações do que ela. E não pensem que isso seja um fenômeno recente. Já desde os primórdios da igreja, Maria Madalena causava certo incômodo aos discípulos mais chegados de Jesus.

Ela é usualmente confundida com a prostituta que lavou os pés de Jesus ou com a mulher flagrada em adultério que por pouco não foi apedrejada.  Mas dentre todas as confusões envolvendo seu nome, nenhuma é maior do que a que afirma que ela teria sido esposa de Jesus.

Haveria alguma possibilidade, ainda que remota, que tal hipótese fosse confirmada?

Teorias de conspiração afirmam que Maria Madalena estaria grávida de Jesus durante sua crucificação. Fugindo a perseguição dos judeus, ela teria conseguido escapar para o sul da França, onde deu à luz uma menina.  O verdadeiro Santo Graal não seria um cálice no qual os discípulos beberam o vinho na última ceia, como dizem as lendas do rei Arthur, mas sim o corpo de Madalena, no qual era gerado Seu descendente.  Como se bastasse, a igreja católica teria feito de tudo para manter o segredo capaz de sacudir seus alicerces.  Óbvio que uma teoria mirabolante como esta renderia milhões na venda de livros e em produções cinematográficas como “O Código da Vinci” de Dan Brown.

Em que se baseia tal teoria?

As principais fontes seriam, sem dúvida, os evangelhos apócrifos e gnósticos, cuja autoria e historicidade são duvidosas. Não que eles digam diretamente que Maria Madalena fosse esposa de Jesus, mas apresentam indícios de que eles teriam um caso amoroso. Um desses textos gnósticos é o Evangelho de Filipe, onde os discípulos teriam perguntado a Jesus porque Ele a amava mais do que a eles. Também é dito que Jesus a beijava na boca com frequência.

Como cristãos, devemos ter certa cautela com textos apócrifos, principalmente quando estes  vão além do que está registrado nas Escrituras.  E o que estas, afinal, dizem?  Haveria nelas algum indício que Jesus pudesse ter se envolvido romanticamente com Madalena?

Geralmente, as mulheres eram conhecidas pelo nome de seus maridos. Maria foi a única conhecida pelo lugar de proveniência. “Madalena” significa “de Magdala”, uma vila de pescadores que ficava a 10 quilômetros de Cafarnaum, na costa ocidental do Mar da Galileia.  Provavelmente, era uma pessoa de destaque em sua cidade.

Tinha recursos que a tornavam independente, o que era raro para uma mulher naqueles dias. E a maior evidência disso é que ela estava entre as mulheres que financiavam o ministério de Jesus, figurando ao lado de Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes.[1] Sem dúvida, era uma mulher à frente de seu tempo.

Jesus foi o único mestre de Sua época a recrutar mulheres como discípulas. [2] Ele nem mesmo se importava em ser flagrado conversando com uma mulher de moral duvidosa como a samaritana que encontrou à beira de um poço.

Mas daí dizer que Ele teria tido um romance seria pedir demais.

Eis as razões porque Maria Madalena não poderia ter sido esposa de Jesus:

1 - Jesus sabia desde o início qual era a Sua missão e como teria que dar Sua vida pela redenção do mundo. Seria, no mínimo, uma irresponsabilidade envolver-se romanticamente com uma mulher sabendo que a deixaria em seguida, já que Sua missão exigia isso.

2 – Na cena da cruz, Jesus não teria se preocupado apenas com Sua mãe, designando um discípulo para cuidar dela em Sua ausência, mas também com o futuro de Sua esposa e eventuais filhos.

3 - Se Maria Madalena fosse esposa de Jesus, ela teria sido consultada quanto ao lugar onde Seu corpo seria sepultado. Portanto, não precisaria ficar à espreita para descobrir, conforme lemos abaixo:

“Chegou José de Arimatéia, senador honrado, que também esperava o reino de Deus, e ousadamente foi a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus. E Pilatos se maravilhou de que já estivesse morto. E, chamando o centurião, perguntou-lhe se já havia muito que tinha morrido. E, tendo-se certificado pelo centurião, deu o corpo a José, o qual comprara um lençol fino, e, tirando-o da cruz, o envolveu nele, e o depositou num sepulcro lavrado numa rocha; e revolveu uma pedra para porta do sepulcro. E Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o punham.” Marcos 15:43-47

Por que Maria Madalena não poderia ser a mulher flagrada em adultério?

·        Porque para isso, teria que ser casada. E se o fosse, seria conhecida pelo nome de seu marido e não de sua cidade de origem.

Por que Maria Madalena não poderia ser a prostituta que ungiu a Jesus com seu perfume?

Se ela já houvesse ungido Jesus para o Seu sepultamento, não teria achado necessário ungi-lo novamente, já que aquela “unção” foi explicada por Jesus como sendo um embalsamento pré-sepultamento.

“Ora, derramando ela este unguento sobre o meu corpo, fê-lo preparando-me para o meu sepultamento.” Mateus 26:12

“E, passado o sábado, Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-lo. E, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro, de manhã cedo, ao nascer do sol.” Marcos 16:1,2

Maria Madalena foi, sem qualquer sombra de dúvida, uma das mais importantes seguidoras de Cristo. Tanto que foi a primeira a vê-lo após a Sua ressurreição, antes mesmo de Pedro e João.

“E no primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu a pedra tirada do sepulcro. Correu, pois, e foi a Simão Pedro, e ao outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram.” João 20:1,2

Apesar de sua inquestionável importância, os demais discípulos pareciam não dar-lhe tanto crédito, questionando até sua sanidade mental:

“E, voltando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais. E eram Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago, e as outras que com elas estavam, as que diziam estas coisas aos apóstolos. E as suas palavras lhes pareciam como desvario, e não as creram.” Lucas 24:9-11

Numa cultura machista como aquela, a palavra de uma mulher não gozava de muita credibilidade. Mas foi justamente ela que recebeu do Senhor a missão de anunciar aos outros discípulos a Sua ressurreição. Ela recebeu o “ide” bem antes dos demais:

“E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro. E viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Ela lhes disse: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. E, tendo dito isto, voltou-se para trás,  e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem buscas? Ela, cuidando que era o jardineiro, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se,  disse-lhe: Raboni, que quer dizer: Mestre. Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos que vira o Senhor, e que ele lhe dissera isto.” João 20:11-18

Se há uma cena que poderia parecer sugestiva de que houvesse algo a mais entre Jesus e Madalena, esta cena é a descrita acima. No texto original, lemos que Maria Madalena literalmente agarrou Jesus. Se um dos Seus discípulos o flagrasse naquele instante, certamente maldaria, como fizeram ao flagrá-lo de conversa com a mulher samaritana. Porém, Jesus nunca se importou com os escrúpulos moralistas de Seus discípulos. Todavia, Ele a repreendeu, não por agarrá-lo, mas por tentar impedir que Ele seguisse em Seu caminho.

Sim, Maria Madalena era esposa de Cristo, assim como todo aquele que tendo n'Ele crido, tornou-se parte de Seu Corpo Místico, a Igreja.




[1] Lucas 8:1-3
[2] Mateus 27:55,56

segunda-feira, junho 04, 2018

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Cada um enxerga no outro aquilo que é



Por Hermes C. Fernandes

Quão condicionados estão nossos olhos a enxergar o que nossa mente foi sugestionada a procurar. Daí sermos capazes de encontrar a forma de animais nas nuvens. Assim como os discípulos identificaram um fantasma na silhueta surgida no nevoeiro, podemos ser enganados pela nossa percepção. O tal fantasma era apenas a projeção do que estava instalado em seu próprio inconsciente. Para a sua surpresa, tratava-se de Cristo caminhando sobre as águas para socorrê-los. Quando estamos predispostos a julgar alguém, sempre enxergamos o pior, sem perceber que o problema pode estar em nós. Por isso Jesus diz: "Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz. Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são!" (Mateus 6:22-23).

Todo bom motorista sabe que ao enfrentar um nevoeiro na estrada, deve usar o farol baixo, não o alto. O farol baixo é aquele que é projetado para o chão para que o motorista saiba exatamente onde está passando. Já o farol alto é projetado para a frente a fim de identificar as curvas, obstáculos e sinais. Se insistir no farol alto durante o nevoeiro, ele não conseguirá identificar nem uma coisa, nem outra, pois o nevoeiro reflete a luz projetada e acaba cegando o condutor. Os critérios que usamos para julgar ou avaliar uma situação ou a conduta de alguém é a Palavra. Ela é o farol que lança luz sobre quaisquer circunstâncias. Todavia, durante um nevoeiro em que as coisas podem não estar muito claras para nós, antes de ser luz para o nosso caminho, ela deve ser lâmpada para os nossos pés (Salmos 119:105). Em outras palavras, antes de se projetar na direção do outro em busca de eventuais falhas, a Palavra deve mirar nossos próprios pés.


Faríamos bem em dar ouvidos à advertência do apóstolo Paulo: "Quem é você para julgar o servo alheio? É para o seu senhor que ele está de pé ou cai. E ficará de pé, pois o Senhor é capaz de o sustentar" (Romanos 14:4). E mais: "Aquele, pois, que pensa estar em pé cuida para que não caia" (1 Coríntios 10:12). Ou se preferir, que tal as palavras do próprio Jesus? "Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos medirão a vós. Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, mas não percebes a trave que está no teu? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e ENTÃO VERÁS CLARAMENTE para tirar o cisco do olho do teu irmão" (Mateus 7:1-5). Podíamos dormir sem esta, não? Não! O que não poderíamos era viver doutra maneira senão desta proposta por Jesus. Caso contrário, nos adoeceremos, buscando disfarçar nossos erros enquanto lançamos os holofotes nos erros alheios. E assim, em vez de projetarmos no outro nossa luz, projetamos nele nossa sombra. Em vez de revelar o que nele é latente, acabamos por revelar o que em nós está patente. 

quinta-feira, maio 31, 2018

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A MARCHA PARA JESUS E O APARTHEID CRISTÃO



Por Hermes C. Fernandes

Onde poderíamos encontrar a Cristo num dia como hoje em pleno feriado de Corpus Christi?  De um lado, cristãos evangélicos saem às ruas numa marcha que creem ser dedicada a Jesus. Do outro, cristãos católicos se reúnem para celebrar a presença de Jesus na Eucaristia. Não me atrevo a questionar a intenção de ambos. Acredito que muitos envolvidos nessas celebrações tenham um coração puro e sincero em sua devoção e adoração a Cristo. Todavia, creio que haja uma compreensão distorcida acerca da proposta subversiva de Jesus. Digo “subversiva” por ir na contramão de todo sistema religioso vigente tanto em Sua época, quanto hoje.

Não creio que Jesus pretendesse iniciar um movimento que levasse multidões às avenidas para gritarem Seu nome em coros puxados por trio-elétricos.  A genuína “marcha para Jesus” se dá sem data e hora marcadas, sem showmício para eleger candidatos evangélicos, sem discurso moralista, sem disputa para desbancar outras marchas e paradas. A verdadeira “marcha para Jesus” é aquela  em que “levamos sempre por toda a parte o morrer do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos” (2 Coríntios 4:10). Portanto, trata-se de algo discreto, sem alarde, sem chamar a atenção para si mesmo. Como “sal da terra” devemos ser polvilhados no caldeirão cultural, realçando o sabor da comida, e não chamando a atenção para nossa presença. Parece que temos errado na mão. Estamos tornando a comida intragável de tão salgada. Como “luz do mundo” devemos estar direcionados para fora como refletores em vez de querer atrair os holofotes para si. Em vez disso, tornamo-nos massa de manobra de quem almeja fazer de nós capital político para ser usado em suas negociações por trás dos bastidores.

Enquanto os evangélicos se voltam para fora com a pretensão de roubar a cena, os católicos se voltam para dentro numa espiritualidade centrada no ritual eucarístico. Mesmo que deixem suas paróquias para exibir ao mundo o Santíssimo Sacramento em suas procissões, o rito segue sendo restrito aos que professam a mesma fé.

Não quero aqui discutir dogmas. Respeito demasiadamente a fé católica, apesar de não subscrever alguns de seus posicionamentos.

É lindo de se ver a devoção sincera expressada eloquentemente na celebração eucarística. Assim como é lindo de ser ver a empolgação dos evangélicos em suas marchas. Porém, devemos ir além da estética litúrgica.

Sobre a celebração eucarística, o apóstolo Paulo diz que “qualquer que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado do corpo e do sangue do Senhor (...) Pois quem come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor” (1 Coríntios 11:27,29). Em cima destas palavras, criou-se o que poderíamos chamar de Apartheid Eucarístico. Somente os que fizessem parte do corpo místico de Cristo através do batismo, estariam aptos a participar de Seu corpo e sangue presentes na hóstia e no vinho. Seria realmente isso que Paulo chamava de “discernir o corpo do Senhor”? Creio que não. 

Do lado protestante, deparamo-nos com o Apartheid Moral. Somente os que se dispõem a viver dentro dos códigos morais da comunidade evangélica são reconhecidos como "Corpo de Cristo." Se não estiver afinado de acordo com seu diapasão moral, considere-se fora. Se for gay, por exemplo, é considerado indigno de tomar parte da Mesa do Senhor. Dependendo da comunidade, o mesmo se pode dizer dos divorciados, mães solteiras, fumantes, alcoólicos, etc.

Católicos e protestantes perderam tanto tempo discutindo se a presença de Cristo nos elementos eucarísticos era real ou simbólica, que não se aperceberam de que Ele se faz presente mesmo é no ato e não meramente nos elementos em si. Refiro-me ao ato da partilha. O pão e o vinho, elementos comuns na dieta judaica de Seu tempo, representava a vida de Deus partilhada com os homens, conclamando-os a partilhar suas próprias vidas uns com os outros. Como bem disse João, o discípulo amado: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós. E devemos dar a nossa vida pelos irmãos. Quem tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, fechar-lhe o seu coração, como estará nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra nem de língua, mas por obra e em verdade” (1 João 3:16-18).

“Discernir o corpo do Senhor” é identifica-lo no outro, sobretudo, no necessitado.  “Tive fome e me deste de comer” (Mateus 25:35), dirá Jesus aos que perceberam que o estômago vazio do mendicante é o estômago de Cristo. “Era estrangeiro e me acolhestes” , dirá aos que se deram conta de que aquele corpo de cor e aparência diferentes da sua não é outro que não seja o corpo do Senhor.

Jamais foi a intenção de Cristo separar os homens por credos, etnias, ideologias ou gênero. Porém, no último dia, Ele os separará tendo por critério único o fato de terem vivido para si mesmos ou para o bem do outro. A diferença entre ovelhas e bodes não é o som que emitem, ou aquilo que comem, mas a lã que depois de tirada para aquecer a outros, segue crescendo.  Enquanto a ovelha contribui com sua lã, o bode se ufana na envergadura ameaçadora de seus chifres.

A igreja primitiva não via a Mesa do Senhor como um rito estereotipado,  nem como reedição do sacrifício de Jesus, mas como oportunidade de dispor de seus bens para que outros deles desfrutassem. A isso chamamos COMUNHÃO. Lucas nos oferece um brilhante testemunho acerca disso ao afirmar que os cristãos “perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações (...) Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum” (Atos 2:43,44). Tudo isso se devia ao fato de que “era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas eram compartilhadas (...) Não havia entre eles necessitado algum” (Atos 4:32,34a).

Costumo dizer que se as mesmas mãos que se estendem ao céu em louvor não forem as mesmas que se estendam ao próximo em amor, nossa liturgia não passará de letargia. Da mesma maneira, pode-se dizer que se o pão que comemos na celebração eucarística não nos inspirar a partir nosso próprio pão com o necessitado, tudo não passará de encenação.


A magia não está nas palavras do sacerdote capazes de transformar pão em carne e vinho em sangue. A verdadeira “magia” está no gesto de repartir o que se tem, transformando nosso egoísmo em altruísmo, nossa ganância em amor.