quarta-feira, novembro 07, 2018

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Quando a MENTIRA prevalece



Por Hermes C. Fernandes

Bem-vindos a Era da Pós-Verdade, inaugurada pela eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, e consagrada no Brasil pela eleição de Jair Bolsonaro. Conhecida também como a Era das Fake News. A Pós-verdade é um neologismo que pode ser resumido como a ideia de que algo que aparenta ser verdade é mais importante que a própria verdade. A busca pela “verdade verdadeira” é relegada a um segundo plano. Trata-se de endossar a fala de Nietzsche: “Não há fatos, apenas versões.” Tal dimensão hermenêutica da realidade ganhou ainda mais expressão em Foucault e as teorias da dissonância cognitiva e percepção. Conceitos clássicos consagrados acerca da verdade, da informação e do domínio dos fatos agora são ressignificados. O pensamento cartesiano representado pela frase “penso, logo existo” foi substituído por “acredito, logo estou certo”.

No fundo, “pós-verdade” é apenas uma palavra politicamente correta para a nossa velha e conhecida mentira. É a mentira abrindo mão da pretensão de ser considerada verdade para ter apenas a aparência da verdade. Afinal, na Era em que vivemos, aparência é tudo. Entre uma verdade que pareça mentira e uma mentira que pareça verdade, a gente sempre prefere a segunda.

A mentira tem muitos ardis para conquistar adeptos. Inclusive usar a verdade como trampolim. Vejamos, por exemplo, o caso envolvendo a ressurreição de Jesus.

A verdade inegável era que o túmulo estava vazio. Quem poderia negar? Bastava uma simples checagem presencial para admitir que a tumba onde o corpo de Jesus havia sido posto estava desocupada. Para os discípulos, esta era um indício fortíssimo de que Jesus cumprira o que lhes havia prometido: Ele ressuscitou. Porém, a evidência definitiva foram Suas várias aparições após a  Ressurreição. Ele não apenas falou com os onze remanescentes, mas também com as mulheres, e por fim, apareceu a quinhentas pessoas de uma vez.  Ademais, Ele comeu com alguns deles e deixou-se tocar, provando não ser uma aparição fantasmagórica.

Mas para os sacerdotes que almejavam conter o avanço daquela seita perigosa e subversiva, tudo não passaria de um grande embuste engendrado por Seus discípulos. Todavia, eles não tinham como provar. Por isso, lançaram mão de um dos mais vexatórios expedientes: subornaram os guardas do túmulo para dizerem que o corpo fora roubado por Seus seguidores.

Confira o texto bíblico:

“Quando alguns da guarda iam chegando à cidade, anunciaram aos principais sacerdotes todas as coisas que haviam acontecido. Reunindo-se eles com os líderes religiosos, decidiram dar MUITO DINHEIRO aos soldados, recomendando: Dizei que vieram de noite os seus discípulos e, enquanto dormíeis, o furtaram. Caso isto chegue aos ouvidos do governador, nós o convenceremos, e vos colocaremos em segurança.” Mateus 28:11-14

Repare que os sacerdotes tiveram que oferecer não apenas dinheiro para que apresentassem aquela versão mentirosa, mas também garantias para que a mantivessem caso chegasse aos ouvidos do governador. Nada mais confortável do que mentir tendo uma costa quente para confirmar nossa versão. Aquela mentira estava fiada na credibilidade sacerdotal. Guardas poderiam facilmente mentir, mas, sacerdotes, jamais!

Seria como divulgar Fake News com links de grandes veículos de comunicação. A tendência é que pensemos: Um jornal como este não colocaria sua credibilidade em risco com uma mentira deslavada. Logo, deve ser verdade.

Aquela mentira tinha como base uma verdade: o túmulo vazio. Porém, dava ao fato uma interpretação completamente equivocada com o objetivo de enganar.

Não basta estar a par dos fatos. Há que se fazer a interpretação correta dos mesmos. Uma foto não prova nada. Um vídeo, idem. É necessário ouvir todas as partes envolvidas para que se tenha uma visão mais apurada do ocorrido, e, assim, não cometamos nenhuma injustiça.

Mas o que faz o mentiroso? Mina a credibilidade do outro para que ninguém o procure para ouvi-lo, e, assim, sua versão prevaleça. Este é um ardil muito usado por quem teme ser pego na mentira. E quando funciona, faz com que a mentira espalhada pareça ter tamanha consistência que sua durabilidade se estenda indefinidamente. Uma mentira que já poderia ter sido desbaratada, segue sua carreira enganando cada vez mais pessoas. Tudo por conta deste ardil criminoso que vacina as pessoas contra a outra parte.

Quem daria ouvidos a pessoas que se dispuseram a roubar um cadáver de madrugada para sustentar e divulgar uma mentira? Quem daria crédito a ladrões violadores de sepulturas? Ainda mais quando a versão dos guardas é respaldada por sacerdotes, gente acima de qualquer suspeita.  Além do mais, eles teriam sido testemunhas oculares do furto. Ninguém os contou. Eles mesmos presenciaram. Como desmentir quem conviveu sob o mesmo teto, quem assistiu in loco ao fato narrado, etc.? Não duvido muito que os sacerdotes tenham persuadido aos guardas de que aquela versão inventada correspondia aos fatos. Isso daria ainda mais peso ao seu testemunho.

Há pessoas que são tão ardilosas que são capazes de convencer às outras de que viram o que não viram, ou de que não viram o que viram. Se disserem que algo é azul, sendo este vermelho, falam com tanta convicção que o outro acaba por admitir que são os seus próprios sentidos que o estão enganando.

Nem todo suborno é feito com dinheiro. Há chantagens emocionais que interferem em nossa percepção dos fatos. Nem sempre há má fé por parte de quem espalha a mentira. Às vezes só a intenção de que o sofrimento do outro seja atenuado. Como não acreditar em uma mentira dita com lágrimas nos olhos?

Por incrível que nos pareça, o ardil dos sacerdotes funcionou muito bem. O verso 15 diz que “espalhou-se esta história entre os judeus, até o dia de hoje.” Quarenta anos depois do ocorrido, quando o evangelho de Mateus foi escrito, esta mentira ainda vigorava entre os judeus. Pois pasmem: dois mil anos depois, esta mentira ainda vigora. Pesa sobre os discípulos de Jesus a suspeita de haverem praticado tal delito com a intenção de enganar os incautos.

Parece-me que aonde a verdade chega, o nariz de Pinóquio chegou primeiro. Uma gota de verdade diluída numa caixa d’água de mentiras é o antídoto perfeito para nos vacinar contra a verdade.

Paulo, o apóstolo, teve que lidar com os efeitos colaterais desta mentira. Quando estava em prisão domiciliar em Roma à espera de sua sentença, Paulo convidou os principais judeus da cidade para encontra-lo a fim de expor-lhes a boa nova. Receoso de que estes houvessem sido vacinados contra ele, de modo a não lhe darem ouvidos, Paulo apresentou-lhes uma breve defesa, alegando que estava ali por ter sido acusado injustamente por seus patrícios. Afirmou ainda que os chamara para falar-lhes da “esperança de Israel”, razão pela qual Deus o permitira chegar a Roma, ainda que sob a custódia do Estado.  Os judeus, então, lhe responderam:

“Nós não recebemos da Judeia cartas a teu respeito, nem veio aqui irmão algum que nos contasse ou falasse mal de ti.” Atos 28:21

Ufa! Para seu alívio, sua reputação se mantinha intocável. A fofocada ainda não havia chegado a Roma. Talvez por não haver facebook ou Whatsapp naquela época...rs  Tem ideia de quanto tempo demorava para que uma carta chegasse a seu destino?

Paulo sabia que uma das maneiras de se combater uma verdade é descredibilizando o seu portador. Ele já havia lidado com isso em outros lugares. Sua vida pregressa como perseguidor da igreja era usada para levantar suspeitas acerca de sua intenção. Havia quem sugerisse que ele não passava de um impostor, uma espécie de X9 à serviço dos sacerdotes que lhes outorgou a missão de se infiltrar nas igrejas, identificar seus membros para depois persegui-los, prende-los ou mata-los. Paulo os chamou de “mensageiros de Satanás”, pois lançavam em rosto o seu passado.  O sofrimento que estes lhe causavam era análogo a um espinho em sua carne. Mas para surpresa do apóstolo, tais mensageiros não haviam chegado a Roma. Entretanto, a mentira divulgada pelos guardas do túmulo já chegara ali.

Veja o que os judeus de Roma lhe disseram em seguida:

“No entanto, bem quiséramos ouvir de ti o que pensas, pois, quanto a esta seita, sabemos que em toda a parte se fala contra ela.” Atos 28:22

Com que base se falava tão mal da tal “seita”? Certamente com base na mentira que começou a se difundida logo após a ressurreição de Cristo.

Se pudéssemos prever o estrago a médio e longo prazo que uma mentira pode causar, jamais nos permitiríamos divulga-la, mesmo que isso nos rendesse algum benefício momentâneo.

Há, em geral, dois caminhos adotados pela mentira para barrar uma verdade que precisa ser espalhada. O primeiro deles é tentar descredibilizar o portador da verdade. Atenta-se contra a sua honra. Procura-se desmoralizá-lo a qualquer preço, de modo que todos se recusem a ouvi-lo. Veja, por exemplo, o que fizeram a figuras como Martin Luther King, acusado de ser promíscuo e de viver em orgias, Nelson Mandela, acusado de ser terrorista, Madre Teresa de Calcutá, acusada de ser uma megera, Mahatma Gandhi, acusado de abusar de menores, etc. Destruindo a reputação destas pessoas, descredibilizava-se os movimentos que representavam na busca pela paz e pela justiça.

Durante as últimas eleições, espalhou-se via Whatsapp que um candidato havia abusado de uma menina de apenas 11 anos. Esta e tantas outras mentiras se espalharam de maneira exponencial a ponto de inviabilizar a sua vitória. Pode-se dizer que o vencedor, assim como Trump nos EUA, teve sua vitória garantida por Fake News disseminadas pelas redes sociais.

O segundo caminho adotado pela mentira é atacar a verdade em si, e não o seu portador. Alguns são capazes até de afirmar admirar quem anuncia tais verdades, mas desferem golpes furiosos contra as suas ideias. Alguém pode dizer-se admirador de Jesus, mas não abonar Suas ideias pacifistas.  São capazes até de aplaudir alguns de Seus sermões, desde que estes não interfiram em seus interesses.

Via de regra, Jesus segue ileso em meio a tantos ataques. Alguém já disse que Jesus é legal, o que estraga é o fã clube. Quem diria que os cristãos antes tidos como disseminadores da verdade, agora se deixariam usar para espalhar mentiras sórdidas pelas redes sociais? Quem diria que alguns líderes de prestígio no meio evangélico exporiam sua reputação para garantir a eleição de um candidato que apoie sua agenda moralista e seus interesses particulares? O estrago está feito. Talvez demore décadas até que a igreja evangélica se recomponha e reconquiste o respeito da sociedade como um todo. Em nome do poder, a igreja sacrificou o que tinha de mais precioso: sua credibilidade. E pelo jeito, a julgar pelas últimas falas de seus líderes mais proeminentes, ela seguirá precipício abaixo até que dê ouvidos à repreensão de Cristo à igreja de Sardes: “Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto (...) Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te (...) Mas também tens em Sardes algumas poucas pessoas que não contaminaram suas vestes” (Apocalipse 3:1,3,4). Sinceramente, espero ser contado entre essas “poucas pessoas” que não se venderam, nem se renderam aos ardis dos novos sacerdotes que se arrogam formadores de opinião e detentores do copyright da verdade.

segunda-feira, outubro 22, 2018

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AS VÁRIAS FACES DA MENTIRA



Por Hermes C. Fernandes

Em tempo de Fake News, precisamos urgentemente nos apegar à verdade. Mas o que é a verdade? Esta foi a pergunta que Pilatos fez a Cristo. Antes de ousar tentar responde-la, quero debruçar-me um pouco sobre uma questão relacionada a esta e que é de igual pertinência. O que é a mentira? Talvez se dermos conta de respondermos a esta questão, entenderemos, enfim, o que é a verdade, mesmo que seja por eliminação. O que não for mentira, logo, é a verdade, assim como o que não for trevas, só pode ser luz.
Todos concordamos que a mentira seja um pecado. Se preferir evitar termos religiosos, podemos classifica-la como um deslize ético e moral. Ninguém aceita ser enganado. Todos querem a verdade, mas poucos se dispõem a vivê-la, pagando o preço por sua sustentação.
Gosto da frase de George Orwell que diz: “Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário.” Como ser verdadeiro em um mundo construído sobre mentiras? Dizer a verdade é insurgir-se contra tudo o que está aí. E para tal, tem-se que estar disposto a receber a sentença destinada aos rebeldes.
Atribui-se a Joseph Goebbels, o marqueteiro de Hitler, a frase “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade.” Pelo jeito, os marqueteiros de alguns políticos rezam pela cartilha de Goebbels. Daí, a necessidade de massificar a mentira. E se possível, fazê-la ser espalhada por várias fontes diferentes, conferindo-lhe certa credibilidade. A preguiça de alguns, somada à má fé de outros, impedem que as fontes sejam devidamente checadas. Caso seja desmentido o fato, o estrago já estará feito. E a culpa é terceirizada. Dizem cinicamente: “Vendi o peixe pelo preço que comprei. Não inventei nada. Apenas repassei.” Não seria isso o que o apóstolo Paulo condena em sua epístola aos Efésios?: “Não sejais cúmplices das obras infrutuosas das trevas, antes, porém, condenai-as” (Efésios 5:11).
Não confunda verdade com verossimilhança. Algo pode ser verossímil sem ser verdadeiro. Chama-se verossimilhança o atributo daquilo que parece intuitivamente verdadeiro, isto é, o que é atribuído a uma realidade portadora de uma aparência ou de uma probabilidade de verdade, na relação ambígua que se estabelece entre imagem e ideia. É o tal do “parece, mas não é.” Tinha tudo para ser, mas não é. Faz sentido, mas não é. É coerente, mas não é.
Mas não se enganem! Há diversas maneiras de se mentir, e algumas delas passam despercebidas. Há, por exemplo, a distorção dos fatos. Inescrupulosamente, toma-se um fato verdadeiro, transmitindo-o de maneira distorcida, seja exagerando, ou mesmo, atenuando. Por vezes, recorre-se à ironia ou ao sarcasmo para descredibilizar a verdade. A mesma frase pode ser verdadeira ou mentirosa de acordo com o tom de voz usado. E assim, o cínico escapa da acusação de ser mentiroso. Doutras vezes, recorre-se à insinuação com o objetivo de levantarem-se suspeitas. Fato é que, às vezes ficamos tão obcecados em encontrar indícios que nos levem à verdade, que nem percebemos o óbvio. No fundo, o que nos interessa não é a verdade em si, mas apenas a comprovação de nossas suspeitas. Achamos que podemos decifrar as entrelinhas sem nem ao menos nos dar o trabalho de ler o que está claramente escrito nas próprias linhas. Obviedades não nos apetecem! Queremos ter razão, ainda que custe a desgraça e a reputação alheias.
Entender o que diz uma frase isolada é bem diferente de compreender a mensagem que o texto ou o discurso inteiro pretende transmitir. Há que se prestar atenção não apenas nas palavras, mas nos sinais, nas vírgulas, nos espaços e, sobretudo, nos sentimentos que o texto ou a fala pretenda nos despertar. Uma frase pinçada do contexto pode distorcer o sentido que se pretendia dar.
Dentre todos os truques usados para suprimir a verdade, um dos mais perversos é aquele em que se recorre à verdade para enganar. É a mentira se vestindo de verdade para esconder suas verdadeiras intenções. E ainda que os fatos narrados sejam verídicos, o intuito de quem os narra é pernicioso. Digamos que haja verdade ali, porém, não sinceridade. Verdade sem sinceridade tem um poder tão destrutivo quanto a mentira. Não era à toa que Jesus costumava dizer "em verdade, em verdade vos digo..." (algo como: "É na verdade que vos digo a verdade"). Não basta dizer a verdade. A verdade tem que ser dita em verdade. E mais: deve ser dita em amor, com a intenção de edificar, nunca de destruir. Por isso, Paulo diz que devemos seguir a verdade em amor (Efésios 4:15). Qualquer verdade que não seja falada "em amor" é potencialmente destrutiva e demonstra total falta de respeito à sua audiência. Por essas e outras que a igreja vai perdendo sua pertinência e relevância, caindo em total descrédito junto à sociedade.
A mentira jamais provém da verdade (1 João 2:21). Mas muitas vezes, ela se exibe com a capa da verdade a fim de ludibriar os incautos. Como uma das bestas do Apocalipse, ela tem cara de cordeiro, mas voz de dragão. Até a verdade em sua boca é mentirosa, pois carrega a inconfessável intenção de enganar.
Se você usa uma verdade para chantagear, obter vantagens, difamar e ameaçar, o que você tem não é a verdade propriamente, mas apenas informações que podem estar distorcidas, desencontradas, equivocadas, exageradas, adulteradas, mal interpretadas. A verdade não serve a outra coisa que não seja libertar. Certas “verdades” escondem intenções inconfessáveis que à seu tempo são relevadas.
Há, ainda, outro truque fartamente usado pelos mentirosos de plantão. Usam-se verdades periféricas para ofuscar a verdade central. Tais verdades periféricas são como bois de piranha que visam distrair o cardume enquanto a boiada passa incólume do outro lado. É o recurso geralmente usado pelos ilusionistas.
Há pseudoverdades que partem de uma premissa verdadeira, contudo, sua conclusão é equivocada. Entretanto, constrói-se uma linha de raciocínio tão sofisticada e elaborada, que quem ouve não consegue detectar o engodo. Se remover a pedra fundamental, o edifício inteiro vem a baixo.
Há que se ter cuidado para não confundir mentira com uma versão alternativa dos fatos. Pode-se enxergar uma verdade sob diversos ângulos, não significando que um deles seja necessariamente enganoso. Tratam-se, antes, de versões complementares que nos leva a uma visão tridimensional de um mesmo fato. Há, porém, versões antagônicas e excludentes. Isto é, se uma estiver correta, a outra só pode estar errada.
E quanto à omissão? Seria correto igualá-la à mentira?
Consideremos que haja pelo menos três tipos de omissão:
1 – Aquele em que a verdade é omitida de quem tem o direito de sabê-la. Este tipo de omissão é irmã gêmea da mentira. Seu propósito é tão somente o de enganar, sendo, portanto, o mesmo propósito da mentira. Paulo nos adverte quanto a ela: “Portanto, a ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça” (Romanos 1:18).
2 – O segundo tipo de omissão é aquele em que a verdade é omitida de quem não tem nada ver com o fato, e que, portanto, não é de sua conta. Por exemplo: Jesus diz que a diferença entre servos e amigos é que o servo não sabe o que faz o seu senhor (João 15:15). Logo, ele não pode cobrar que seu senhor lhe preste contas de verdades que não são de sua alçada. Jesus tinha doze discípulos, mas somente três testemunharam tanto a Sua transfiguração no monte, quanto a Sua desfiguração no Getsêmane, e ainda ouviram d’Ele o desabafo de que Sua alma estava triste até a morte. Certamente, os outros nove não estão prontos para vê-lo rasgar o coração desta maneira. Ninguém deve se intrometer na vida alheia, cobrando que se lhe revele situações que não lhe interessam. Logo, tal tipo de omissão é plenamente justificável. Paulo nos admoesta sobre aqueles a quem chama de “falsos irmãos” que se intrometem na vida alheia e gostam de espiar a nossa liberdade (Gálatas 2:4). Ninguém tem o direito de cobrar a exposição de nossa vida privada. “Honroso é para o homem desviar-se de questões, mas todo tolo é intrometido” (Provérbios 20:3). O papel da verdade não é matar a nossa curiosidade, mas nos libertar, sem que isso torne ninguém refém de nossas presunções.
3 – Há ainda um terceiro de tipo de omissão que é a momentânea, que respeita as limitações emocionais e intelectuais do outro, de modo que optar por esperar a hora certa de revelar-lhe toda a verdade. O melhor exemplo disso é o próprio Jesus. Ele diz aos Seus discípulos que havia muita coisa para revelar, mas que eles ainda não podiam suportar (João 16:12).
No caso das fake News espalhadas pela campanha de Bolsonaro, um líder comprometido com a verdade não pode se omitir, pois o povo tem o direito de saber a verdade, uma vez que é o povo quem sai lesado, por ter seu discernimento prejudicado na hora de votar.
Se o Diabo é o pai da mentira, quem a adota é seu padrasto e quem a divulga é seu enteado (João 8:44).

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Aos pastores, pregadores da verdade, e aos impostores, propagadores de Fake News



Por Hermes C. Fernandes

Por favor, não ousem colocar na conta de Deus suas predileções políticas. Não se atrevam a dizer que foi o Espírito Santo quem lhes disse para trabalharem pela eleição de Bolsonaro. Vocês não percebem que com isso, a igreja só faz perder cada vez mais sua credibilidade ante a sociedade? Nesta semana, o auto-intitulado apóstolo Renê Terra-nova, o mesmo que organizou um batismo no Rio Jordão em que os fiéis formavam o número 17, “decretou” no mundo espiritual a vitória de seu candidato. Quanta sandice! Desde quando Deus se dobra aos nossos decretos? Chega a soar blasfemo. Enquanto isso, uma enorme ferida se abre no Corpo de Cristo (a igreja), aumentando exponencialmente o número de desigrejados.
Que WhatsApp que nada! As igrejas se tornaram na principal fábrica de Fake news. Mentiras são ditas nos púlpitos sem o menor constrangimento. Quem quer que tenha certo conhecimento se nega a continuar frequentando esses comitês eleitorais disfarçados de igreja. Pastores chantageiam seu rebanho, ameaçando excluir membros que se neguem a votar em Bolsonaro. Afirmam que se o candidato oponente vencer, igrejas serão fechadas, crianças serão erotizadas nas escolas, pastores serão forçados a celebrarem casamentos gays e o Brasil se tornará numa Venezuela. Será que se esqueceram quem é o pai da mentira?
Há grupos de pastores no WhatsApp onde a mentira corre solta. Alguns trocam fichinhas entre si para ver quais as Fake News da vez que deverão ser contadas no próximo culto. Não digo que o façam conscientemente. A maioria o faz enganada por achar que finalmente teremos um dos nossos lá, defendo os valores nos quais hipotecamos nossa fé.
Curiosamente, as mesmas correntes evangélicas que apoiam o Bolsonaro aqui, são as que apoiaram Trump nos Estados Unidos, com a mesma fábrica de fake news comandada por Steve Bannon. No site da Unisinos, há um artigo que diz que Bannon está na Europa para fazer a mesma coisa: dividir a sociedade do velho continente, inserindo o nazifascismo. Na Italia, conspira contra o Papa. Por onde passa deixa um rastro de ódio e preconceito.
Pelo menos, tudo o que está ocorrendo no Brasil serve para nos mostrar que o país segue sendo um grande campo missionário. E não me refiro aos milhões de desigrejados que deixaram suas igrejas por não aceitarem esta versão pervertida do Evangelho diluída no discurso fascista. Refiro-me aos tantos que ainda se mantém nessas igrejas por se alinharem a este discurso.
O Brasil precisa urgentemente conhecer o evangelho do amor.

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COMO BLINDAR SUA IGREJA CONTRA O FASCISMO -



Por Hermes C. Fernandes

1 - Pregue mais sobre o amor e encoraje os fiéis a vivê-lo no dia a dia.
2 - Ensine que a misericórdia prevalece sobre o juízo.
3 - Promova ações sociais que não apenas sensibilizem os fiéis, mas que também os conscientizem de seu papel social e os façam engajar-se na transformação da realidade.
4 - Estimule seus fiéis a partilharem seu pão com os necessitados, e não apenas a contribuírem com a instituição, independentemente de qualquer iniciativa da igreja. Que seja uma prática cotidiana.
5 - Ensine que o pobre, o excluído, o marginalizado e as minorias ocupam lugar de prioridade na agenda do reino de Deus.
6 - Ensine que a igreja não pode impor valores morais à sociedade, mas que ela deve ser uma “amostra grátis” de como funciona uma sociedade pautada no amor e no respeito ao próximo.
7 - Ensine aos fiéis a valorizarem mais às pessoas do que as coisas.
8 - Ensine que há pecados estruturais que perpetuam as condições miseráveis em que muitos estão vivendo. Os profetas os chamavam de iniquidades. Esses são os pecados que devem ser severamente combatidos, pois desumanizam e coisificam seres criados à imagem e semelhança de Deus.
9 - Ensine os fiéis a pensarem por si mesmos e a jamais comprarem pacotes fechados. Que cada proposta seja dissecada, e analisada item por item.
10 - Ensine-os que o inferno não é uma câmara de tortura usada por um deus sádico para castigar os que desafiam sua autoridade, e sim a consequência de se levar uma vida alienada, centrada no ego, desprovida de empatia e amor.
11 - Ensine-os que Deus não carece de ser amado, adorado e louvado, mas que Ele escolheu ser amado e servido através do serviço que prestamos ao nosso semelhante. E quando o adoramos, o fazemos no afã de assimilarmos Seus atributos, tais como justiça e amor, e assim, nos tornamos Sua extensão no mundo. Quando o louvamos o fazemos para manter fresca em nossa memória os Seus feitos de amor e Seus cuidados providenciais para conosco.
12 - Ensine-os que para dizermos “Pai Nosso”, também temos que dizer “pão nosso.” Portanto, que deixemos de usar tanto o pronome possessivo “meu”, substituindo-o pelo “nosso.”
13 - Ensine-os que a justiça distributiva deve vir antes da justiça retributiva. E que quando Deus nos abençoa, Ele o faz pensando no bem comum e não unicamente em nosso aprazimento.

domingo, outubro 21, 2018

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ABANDONO OU PRIVAÇÃO?



O mar perguntou ao rio:

- Por que suas águas deixaram de desaguar em mim?

O rio respondeu:

- Por causa da represa que construíram em mim.

O mar retrucou:

- Quem fez esta maldade, impedindo que nossas águas se encontrassem?

O rio respondeu com a voz embargada:

- Foi o mesmo que insiste em poluir suas águas.

Por Hermes C. Fernandes em 18/10/2018

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DEUS TAMBÉM SALVA BURGUÊS!


Por Hermes C. Fernandes

1 - Jesus salvou a Zaqueu, que além de “burguês “ (a sociedade ainda não era dividida em burguesia e proletário, mas entre escravos e livres) era também um cobrador de impostos corrupto, traidor da pátria, que explorava os patrícios em nome de interesses estrangeiros. E qual foi a consequência desta salvação? Ele deixou de explorar e ainda devolveu quatro vezes mais o que havia extorquido.
2 - Jesus chamou Mateus, outro coletor de impostos para ser seu discípulo. O que ele fez? Deu um banquete para anunciar ao mundo que abandonava seu posto para seguir a CRISTO.
3 - Sim, Jesus elogiou um oficial do exército romano pela fé que manifestou ao interceder por um dos seus SERVOS.
5 - Paulo, apesar de ser fariseu, não era um elitista. Foi ele quem disse que entre os chamados havia poucos sábios e entendidos, e ainda disse que Deus usa as coisas loucas deste mundo para confundir os que se julgam sábios.
5 - José de Arimateia foi um figurão. Mas ele e poucos outros foram exceção e não a regra.
6 - Filemon foi admoestado por Paulo, em nome do amor, a receber de volta seu escravo fujão, não mais na qualidade de escravo, mas de irmão.
Não dá pra suprimir os aspectos sociais do evangelho. Em CRISTO, toda tentativa de segregação é desbaratada, pois já não há homem ou mulher (distinção sexista), escravo ou livre (distinção social), judeu ou grego (distinção étnica). Talvez se fosse hoje, Paulo complementaria: Em Cristo não há hétero nem homossexual.
Mas isso não significa que não haja segregação. São os homens quem as produz. E infelizmente, a igreja evangélica tem sido cúmplice, quando não, protagonista desta segregação. Foram os cristãos holandeses calvinistas que criaram o Apartheid na África do Sul. Sabe como surgiram as galerias nas igrejas batistas norte-americanas? Para que lá ficassem os negros, já que os fiéis brancos, que eram a maioria, não queriam se misturar.
Há um profecia em Isaias que diz que Deus aplainaria o terreno, elevando os vales e abatendo dos outeiros, e assim, “toda humanidade veria a salvação do Senhor.” Em outras palavras, Ele exalta o abatido, o oprimido, o explorado, enquanto abate o opressor, o explorador.
Deus não tem filhos prediletos, mas o reino de Deus tem suas prioridades, e as minorias encabeçam a lista.

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O DEUS DAS MINORIAS


Por Hermes C. Fernandes

O Deus das minorias se põe ao lado da mulher adúltera, não dos seus detratores. Se fosse o Deus das maiorias, Ele se poria ao lado dos que a queriam apedrejar.
O Deus das minorias diz que muitos são chamados, mas poucos são escolhidos.
O apóstolo do Deus das minorias constatou que não havia entre os chamados muitos sábios e entendidos, mas pessoas simples, oriundas das camadas mais humildes da sociedade.
O Deus das minorias tira Filipe do meio das massas em Samaria para levar o evangelho a um eunuco negro proveniente da Etiópia. Numa tacada, Ele atenta contra o preconceito étnico, social, cultural e sexista, já que o eunuco da época equivaleria ao homossexual de hoje.
O Deus das minorias valoriza a atitude solidária de um samaritano que acode um moribundo na estrada, mas desdenha da postura hipócrita e higienista de um sacerdote e de um levita que o ignoram.
O Deus das minorias se recusa a tratar com rigor os samaritanos que o rejeitaram em sua terra, e em vez de atender à sugestão de dois de seus discípulos, fazendo descer fogo do céu para consumi-los, Ele afirma haver vindo para salvá-los.
O Deus das minorias acolhe a oferta de uma prostituta bem na casa e na cara de um fariseu hipócrita, cujo discurso contagiou até os discípulos.
O Deus das minorias não se importa em ser flagrado aos papos com um samaritana de moral duvidosa, e mesmo correndo o risco de ser mal interpretado, oferece-se para saciar-lhe a sede existencial.
Esse é o Deus que amo e que merece toda a minha adoração. Mas o deus que despreza as minorias, que desdenha de seus anseios, parece-me mais com o diabo se fazendo passar por Deus para receber nossa adoração. Preferimos adorar a este em vez de Àquele, pelo simples fato de ele ratificar nossos preconceitos mais arraigados, conferindo-nos uma posição de supremacia sobre os demais.