sexta-feira, março 01, 2019

0

AOS CRISTÃOS QUE BRINCAM E AOS QUE ABOMINAM CARNAVAL



Por Hermes C. Fernandes

CARNAVAL. Quando eu era criança, era inadmissível que um cristão sequer pensasse brincar carnaval. Aquela era a festa pagã por excelência. Por isso, se quisesse saber se alguém estava ou não firme na igreja ou desviado (como se costumava dizer), bastava verificar se ele pularia carnaval naquele ano.  Lembro-me de alguns que  se ‘desviavam’ pouco antes do Carnaval, e se reconciliavam com a igreja pouco depois.

Hoje as coisas são diferentes. Já há até blocos carnavalescos gospel. Portanto, ninguém precisa se desviar para brincar. E ainda por cima, se sai bem com a sua consciência, alegando tratar-se apenas de uma estratégia evangelística. A gente "ganha almas" e ainda se diverte. Quer coisa melhor?

Creio haver  posturas bem diferentes concernentes à relação do cristão com o Carnaval.

A primeira é a clássica. Cristão não pula Carnaval e ponto. Não se fala mais nisso. Para muitos que adotam tal postura, o Carnaval não é apenas a festa da carne, mas também dos demônios. Por isso, preferem se abster completamente. Não assistem aos desfiles das escolas de samba nem pela TV. Mantêm as janelas da casa fechadas para não verem os blocos passarem. Muitos aproveitam para viajar com a família, se possível, para lugares onde não haja nem cheiro de Carnaval. Outros, vão para os retiros promovidos pelas igrejas. Respeito profundamente quem adote esta postura, mesmo porque, esta foi a minha postura durante maior parte da minha vida. Nasci e cresci em berço evangélico. Nunca pulei Carnaval. Mas durante a adolescência, não pude evitar dar uma espiadinha no que acontecia na avenida e nos bailes televisionados pelas madrugadas em busca do que pudesse saciar minha curiosidade juvenil.

O problema da proibição é que ela atiça. A psicologia está aí para comprovar isso:  tudo o que é proibido é mais gostoso. Portanto, proibir não vai adiantar nada. Pelo contrário, só vai tornar o Carnaval ainda mais tentador para o cristão, levando-o a cobiçar o que há de pior na festa da carne.

Além do mais, a abstinência carnavalesca gera certo orgulho no coração de muitos cristãos.  Algo do tipo que vemos esboçado na oração do fariseu na parábola de Jesus. Ainda que não haja as mesmas palavras, o sentimento é o mesmo.  Veja como ficaria essa oração atualizada:

 “Senhor, graças te dou porque não sou como esses foliões que desperdiçam quatro dias de suas vidas se divertindo na festa da carne. Graças te dou porque não sou um despudorado como aqueles que pulam carnaval seminus, que se entregam aos prazeres libidinosos... São mesmo uns tolos... Mas bem-feito pra eles! A alegria deles só dura até a quarta-feira de cinzas, enquanto a minha durará para sempre. Tomara que peguem uma doença! Tomara que chova no dia do desfile. Tomara que o carro alegórico enguice em plena avenida. Enquanto eu fico aqui no meu canto me deleitando em minha justiça própria e me orgulhando de minha santidade.”

Se você não gosta de Carnaval, ou se o reprova considerando-o um acinte à fé cristã, simplesmente não brinque. Mas não se sinta melhor do que os que brincam. Nem desdenhe de sua alegria, ainda que passageira. Sem querer espiritualizar demais, ore por eles, para que Deus os guarde enquanto brincam.  Se quiser abster-se, faça-o por amor a Cristo, se entende que isso, de alguma maneira, irá agradá-lo. Mas jamais faça para sentir-se melhor do que ninguém.

Do outro lado do espectro, encontramos os que aderem à celebração carnavalesca por acharem ser compatível com a sua fé e vivência cristã. Creem que é possível brincar, sem entregar-se aos prazeres carnais. Vestem sua fantasia, seguem blocos animados, levam seus filhos a bailinhos, mas procuram manter uma postura que não firam os princípios e valores do evangelho.

Há que se tomar redobrados cuidados porque ambas as posturas incorrem em seus próprios riscos. Se a primeira, esbarra no legalismo farisaico, a segunda tem grande potencial de empurrar-nos na vala da libertinagem, expondo-nos a tentações para as quais não tempos “defesa imunológica.” Nossos “anticorpos” espirituais não foram devidamente ativados, principalmente quando nascemos e crescemos em berço cristão. Aí, cumpre-se o que diz o adágio: “Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza.”

Ademais, os que adotam tal postura sofrem o assédio do mesmo orgulho encontrado nos que preferem se abster. Se os primeiros se sentem mais santos, esses se sentem mais “cool”, descolados, antenados ao espírito de sua época.

Paulo diz que não devemos usar da liberdade que a graça nos oferece para dar ocasião à carne (Gálatas 5:13). E isso é o que fazemos, não quando usamos ou deixamos de usar uma fantasia, ou quando pulamos ou deixamos de pular Carnaval, mas quando nos deixamos motivar pelo orgulho e não pelo amor.

A controvérsia do Carnaval bem que poderia ser comparada à controvérsia envolvendo a dieta dos cristãos na época de Paulo. Parafraseando o apóstolo, poderíamos dizer:

“Um crê que pode brincar Carnaval, e outro, prefere abster-se. O que brinca não despreze o que não brinca; e o que não brinca, não julgue o que brinca; porque Deus o recebeu por seu. Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar. Um faz diferença entre dia e dia, e se solta durante os dias de Carnaval, mas outro julga iguais todos os dias, entendendo que sua alegria não depende de um calendário. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente (...) Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor (...)  Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo (...) De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus. Assim que não nos julguemos mais uns aos outros; antes seja o vosso propósito não pôr tropeço ou escândalo ao irmão. Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda. Mas, se por causa do Carnaval se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua folia aquele por quem Cristo morreu (...) Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros. Não destruas por causa do Carnaval a obra de Deus. É verdade que tudo é limpo, mas mal vai para o homem que brinca com escândalo. Neste caso, é melhor nem pular Carnaval, nem encher a cara, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça. Tens tu fé? Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas, se brinca Carnaval está condenado, porque não brinca por fé; e tudo o que não é de fé é pecado.” Romanos 14:1-23

Se estiver pensando em pular Carnaval só para magoar alguém, não o faça. Se estiver pensando em pular Carnaval para insultar seu pastor, sua comunidade, sua família, não o faça. Se a ideia é virar o assunto do dia entre os irmãos na fé, escandalizando-os, não o faça.

Que o que lhe mova seja o amor. Não importa se vai seguir o bloco, ou até se vai à avenida assistir ao desfile das escolas de samba, ou se prefere ficar em casa vendo Netflix ou em um retiro espiritual com o pessoal da igreja, a única coisa que realmente importa é que o que lhe mova seja o amor, primeiro a Deus, e depois ao seu próximo. Não julgue quem quer que seja. Não se sinta melhor do que os demais. Não esfregue sua liberdade na cara de ninguém. Apenas, ame.  E caso opte por brincar, não custa nada lembrar que seu corpo é o templo do Espírito Santo, então, não o profane, e não permita que ninguém o faça. Não é não! Aja com amor e responsabilidade. Respeite e dê-se o respeito.

sexta-feira, fevereiro 22, 2019

0

Dor é para ser sentida. Propósito é para dar sentido



Por Hermes C. Fernandes

Deve ter doído demais ser abandonado pelos próprios irmãos. Os mesmos com os quais compartilhava tantas lembranças de sua vivência em família, agora o lançavam numa cisterna para depois vendê-lo como escravo aos primeiros que passassem. Mas se não fosse isso, José não teria sido levado para o Egito.

 Deve ter doído demais ser acusado injustamente de tentativa de estupro, tendo evidências forjadas que o puseram na cadeia. Mas se não fosse isso José não teria tido a oportunidade de revelar os sonhos dos funcionários do rei. Graças a tudo que sofreu, José foi levado ao segundo posto mais alto do Egito, abaixo apenas de Faraó. Mas isso estava longe de ser o objetivo principal.

 Graças a tudo que passou, às dores e humilhações que sofreu, José foi posto em um lugar de onde pôde evitar que sua família fosse destruída pela fome.

  Deus jamais nos prometeu livrar da dor, e sim, de uma vida sem sentido e sem propósito. Por maior que seja a dor que hoje lhe acomete, um dia ela há de ser compensada pela alegria de compreender o seu propósito.

 Mais importante que a intensidade da dor é ter a certeza de Deus a está usando para lhe tornar mais forte, preparando-o para o ocupar o lugar que lhe fora destinado.

 Que o mundo lhe flagre contando seus sonhos, mas nunca murmurando por sua dor. O que hoje lhe é incompreensível, amanhã fará todo sentido.

0

A ARCA E O PICA-PAU



Por Hermes C. Fernandes 


Antes de soltar o corvo e posteriormente a pomba, Noé teria ouvido de sua esposa a sugestão de soltar o pica-pau.

- Soltar o pica-pau poderá ser um grande risco, querida.

- Que risco nada! Acho é que você deve ter cismado com aquela crista levantada!

- O problema não é a crista, mas o bico!

- Ora, se ele tivesse que abrir um buraco no casco da arca com o seu afiado bico, ele já o teria feito. Afinal, veja por quanto tempo ele tem estado aqui dentro... por que ele iria querer afundar a arca que o acolheu? - disse a esposa de Noé.

- Claro que ele jamais abriria um buraco no casco da arca estando dentro dela e dependendo dela para sobreviver. Mas tão logo seja solto, ele não a poupará! Nem mesmo se lembrará de que deve a ela a sua sobrevivência. Lembre-se que esta é a sua natureza e ele não pode evitar... Além do mais, do jeito que ele é, vai dizer que foi expulso da arca e vai querer se vingar - concluiu Noé.

domingo, fevereiro 17, 2019

0

MARIGHELLA: COMO OS HERÓIS SÃO FORJADOS


Por Hermes C. Fernandes

“A única luta que se perde é aquela que se abandona.” Carlos Marighella

Quem foi Marighella? É o que muita gente está se perguntando depois que o filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, estreou no Festival de Berlim, sob aplausos e calorosa recepção. Em tempo de ascensão do conservadorismo no país, figuras como o guerrilheiro que lutou contra a ditadura militar brasileira são execradas e relegadas ao limbo da história. O filme vem resgatar a importância desta figura icônica que enfrentou a tirania, lutando pela libertação do seu povo e que acabou assassinada numa emboscada em 4 de novembro de 1969.

O filme confirma a versão histórica de que o Brasil sofreu um golpe em 1964, com a tomada de poder pelos militares, ajudados pelo governo norte-americano, sob o pretexto de prevenir o comunismo. Apesar de os militares terem prometido ficar no poder por pouco tempo, até que a situação no país se normalizasse, permaneceram no poder por 21 anos. Foi contra isso que Marighella e tantos outros lutaram bravamente, sucumbindo ante o poder avassalador do estado. Marighella tornou-se um dos principais organizadores da luta armada contra a ditadura militar brasileira, chegando a ser considerado o inimigo "número um" do regime.

Carlos Marighella nasceu em Salvador no dia 5 de dezembro de 1911 em uma família pobre. Filho de um imigrante italiano, que trabalhava como operário, e de uma baiana filha de escravos africanos, tinha seis irmãos. Além do ativismo político, também era um profícuo escritor e poeta.

Toda sociedade que se preze tem seus heróis. São eles que, além de reforçarem a identidade nacional, inspiram novas gerações a lutarem por seus ideais. Uma sociedade sem referências está fadada a experimentar uma sensação de orfandade, algo parecido com o que Israel sentiu ao reivindicar de Deus um rei, já que cada nação tinha o seu.

O Brasil é um país carente de heróis. E não é por não existirem ou não terem existido. Nossa história está repleta de personagens que lutaram bravamente por uma sociedade mais justa, livre e soberana. Então, por que não são celebrados? Em vez disso, muitos deles são propositadamente sabotados, pintados como vilões, monstros sanguinários, terroristas, bêbados, daqueles que merecem ser esquecidos, tamanha a vergonha e repulsa que nos causam.

Os países que buscam exercer hegemonia sobre os demais sabem do perigo que é permitir que cada nação tenha seus próprios heróis, pois temem que estes possam inspirar eventuais insurreições do seu povo. Por isso, medidas preventivas são tomadas para coibir o surgimento destas figuras heroicas. Para preencher o vácuo, não raras vezes, heróis postiços são forjados sob medida, algo como “o caçador de marajás”, que de uma hora para outra, tornou-se quase numa unanimidade no país. Fernando Collor de Mello surge repentinamente no cenário político nacional, fisgando, com seu discurso ensandecido, a confiança de um povo carente de esperança. Deu no que deu. Os mesmos que o forjaram, derrubaram-no quando este ousou contrariar seus interesses.

No dia 21 de abril, celebramos a memória de Tiradentes, o herói da inconfidência mineira. Você já se perguntou a partir de quando Tiradentes passou a ser visto como um herói nacional? Para aqueles que o enforcaram, ele não passava de um vigarista, um trapaceiro, um infame traidor da coroa portuguesa. Por muitos anos, a imagem que prevaleceu foi esta.  Ainda hoje, há quem se dedique a macular sua imagem, alegando, entre outras coisas, que ele se opunha à abolição da escravidão, e que sua luta não era pela independência do Brasil, mas apenas de Minas Gerais. Sem contar, teorias aparentemente mirabolantes que afirmam que ele nem sequer chegou a ser enforcado. Enquanto outro tomava seu lugar no cadafalso, Tiradentes fugia para a França, onde teria vivido confortavelmente com uma identidade falsa.  Se esta teoria estiver correta, o Tiradentes ensinado nas escolas jamais existiu. Trata-se apenas de uma história inventada pelos republicanos do século XIX para tentar legitimar o golpe militar que engendraram, e que foi reforçada pelos ditadores militares entre as décadas de 1960 e 1980.

Quem seria o verdadeiro Tiradentes, afinal, o que estampa nossos livros de história com uma fisionomia que lembra o Cristo, ou o revelado por seus detratores? Talvez nunca saberemos. Ainda que ele fosse um legítimo herói nacional, para aqueles que o enforcaram, ele não passava de um traidor obstinado.  Assim como Sansão e Davi, ambos heróis dos hebreus, mas vilões dos filisteus. 

Aprendi com o filme “Coração Valente” que a história é a versão dos vencedores.  William Wallace, celebrado no filme estrelado por Mel Gibson, foi considerado herói dos escoceses, mas ainda visto como um vilão traidor para a coroa inglesa.[

Não há heróis que gozem de unanimidade em ambos as trincheiras. Alguns não são unanimidade nem mesmo entre seu próprio povo. Tomemos por exemplo Nelson Mandela. Se você imagina que o homem que derrotou o regime de segregação do Apartheid na África do Sul é celebrado por todos naquele país, você está redondamente enganado. Ainda hoje, Mandela é odiado, principalmente pela classe dominante. Chamam-no de comunista, terrorista, corrupto, e daí para baixo. O mundo inteiro o celebra, menos seu próprio povo, ou parte dele. 

E o que dizer de Martin Luther King? Enquanto morei nos EUA, pude presenciar o desconforto que era, principalmente para famílias brancas, terem que comemorar um feriado dedicado ao pastor responsável pela conquista dos direitos civis dos negros americanos. Para muitas delas, Luther King não passava de um embuste. Espalharam até que, além de comunista, ele também era promíscuo, e teria sido morto durante uma orgia com várias prostitutas. Porém, aqueles que se beneficiaram de sua luta consideram-no seu grande herói. 

De Mahatma Gandhi, o maior pacifista do século XX, dizem que mantinha um caso homossexual, mesmo estando casado.  De Madre Teresa de Calcutá, mulher que dedicou sua vida a cuidar de leprosos na Índia, dizem que era endemoninhada, temperamental e intratável.

Por isso, sempre olho com reservas qualquer tipo de tentativa de difamar alguém que tenha lutado por um mundo mais justo. Se foram vilões para os impérios que combateram, certamente foram heróis de povos que libertaram ou pelo qual lutaram.

Alguns foram guerrilheiros. Enfrentaram bravamente poderios bélicos para libertar seus respectivos povos. Odiados por seus inimigos, seguem amados por seu povo.

Infelizmente, não vemos muito disso no Brasil. A mídia conseguiu nos convencer de que alguns célebres expoentes de nossa brava gente brasileira não passaram de terroristas cruéis, que em nome de sua ideologia mataram, assaltaram bancos, sequestraram autoridades de outros países, etc.  Tentam nos convencer de que o objetivo deles era implantar aqui uma ditadura comunista bem ao estilo da que havia no Leste Europeu e em Cuba. Muitos deles foram assassinados, não em combate, mas friamente, depois de sessões de tortura. Quando se fará justiça à memória dessa gente, cuja maioria morreu ainda na flor da idade? Quando o país reconhecerá sua grandeza? Nem todos impuseram armas. Alguns lutaram em outras frentes contra um regime totalitário, responsável pela morte e desaparecimento de muitos. Entre eles, alguns religiosos como o Frei Betto e seu irmão, Frei Tito, que acabou se suicidando devido à profunda depressão sofrida após sessões de tortura (para entender melhor este triste episódio de nossa história, assista ao filme "Batismo de Sangue").

Recentemente, o Papa Francisco (que também já está sendo acusado de ser comunista!) anunciou a reabertura do processo de canonização de Dom Óscar Romero, arcebispo de San Salvador (1977-1980). Em uma de suas homilias, Dom Romero afirmou que a missão da igreja é identificar-se com os pobres.  Na véspera de seu assassinato, fez um contundente  pronunciamento contra a repressão em seu país: “Em nome de Deus e desse povo sofredor, cujos lamentos sobem ao céu todos os dias, peço-lhes, suplico-lhes, ordeno-lhes: cessem a repressão.” Aquilo foi a gota d’água. Óscar Romero foi assassinado enquanto celebrava a missa em 24 de março de 1980 por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado na Escola das Américas. Apesar de ser de tradição protestante, celebro a canonização do Romero por reconhecer seu árduo trabalho em defesa dos excluídos de sua nação.

No Brasil, tivemos Dom Hélder Câmara, que militou bravamente contra a opressão social no país. Certa vez, o arcebispo de Olinda disse: “Quando dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Quando pergunto por que são pobres, chamam-me de comunista.” O Vaticano já autorizou a abertura de processo de beatificação do Dom Hélder. Homens como Romero e Câmara me inspiram em minha luta contra a desigualdade social. Porém, eles não são os únicos. Na trincheira política, temos gente como Darcy Ribeiro, que dedicou sua vida à educação e à causa indígena. Poucos homens fizeram tanto pelas nossas crianças do que ele. Mas como não era um aliado da mídia, provavelmente ficará no ostracismo. Num momento de frustração, Darcy Ribeiro disse:

"Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu."

A sessão plenária que votou o processo de impeachment da presidente Dilma, deixou o povo brasileiro horrorizado com o nível de seus deputados. A maioria, ao se dirigir ao microfone, dedicava seu voto aos familiares ou ao seu estado de origem. Porém, dois parlamentares chamaram a atenção ao dedicarem seus votos. Um deles foi Jair Bolsonaro que dedicou seu voto a dois personagens controversos: Duque de Caxias e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido torturador durante o regime militar. Duque de Caxias tem sido celebrado como herói nacional e patrono do exército brasileiro. Liderou a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) na Guerra do Paraguai. Os três países mais ricos da América do Sul, insuflados pela Inglaterra, dizimaram, sob o comando de Caxias, 90% da população paraguaia, no maior genocídio da história da América Latina. E sabe por qual motivo? O Paraguai estava começando a incomodar a coroa inglesa por sua rápida industrialização. Obviamente, esse não foi o motivo oficial alegado. Mas o que causou verdadeira repulsa foi a homenagem que Bolsonaro prestou ao coronel Ustra, a quem chamou de "o terror da Dilma". Isso, porque foi ele o responsável por torturá-la quando ela tinha apenas 22 anos. De acordo com o depoimento de um companheiro do DOI-CODI, Ustra era conhecido como o "senhor da vida e da morte", que "escolhia quem ia viver e ia morrer." Suas sessões de tortura tinham requintes de crueldade, com choques nos órgãos genitais, e ratos vivos no ânus ou na vagina das mulheres. Nem crianças eram poupadas destas sessões de horrores. Por ironia do destino, Bolsonaro foi eleito presidente, sendo aclamado nas ruas e nas redes sociais como “mito”. Um mito feito sob medida para manter nosso povo refém de políticas opressoras, comprometidas com os interesses norte-americanos na América Latina.

O outro parlamentar que chamou a atenção foi o deputado Glauber Braga que além de insultar o presidente da Câmara Eduardo Cunha, chamando-o de gangster, dedicou seu voto à memória daqueles que nunca escolheram o lado fácil da história, dentre eles MarighelLa, Plínio de Arruda Sampaio, Evandro Lins e Silva, Miguel Arraes, Luís Carlos Prestes, Olga Benário, Brizola e Darcy Ribeiro, Zumbi dos Palmares.

A partir daí, sempre que alguém criticava a menção feita por Bolsonaro, outro rebatia dizendo que piores foram as menções de Glauber Braga. Não foram poucos que nas redes sociais saírem em defesa do coronel Ustra, alegando que o mesmo combatia terroristas da pior espécie, gente perigosa como o assassino Marighella. Outros questionavam qual seria a diferença entre o que era feito pelos militares e por aqueles que eles se propunham combater. Os dois lados praticaram atrocidades. Verdade. Não há o que questionar. Porém, há uma enorme diferença. Ustra e seus asseclas praticavam torturas e assassinatos em nome do estado repressor. Homens como Carlos Marighella e Luís Carlos Prestes se engajaram na luta em resistência a este estado. O que os movia era um ideal. Se estes guerrilheiros eram bancados pelo império soviético, como geralmente se diz, por que precisariam assaltar bancos em busca de recursos para bancar sua luta? Temos que encarar os desatinos que eles cometeram como crimes políticos, não crimes comuns. Não eram movidos por avareza, mas por um ideal. Se eles erraram na mão, bastava que fossem presos, julgados e sentenciados. Mas em vez disso, foram torturados, assassinados, e muitos tiveram seus corpos lançados ao mar para jamais serem encontrados. Isso é desumano. Claro que a reação seria proporcional. Apesar de condenar suas atrocidades, não posso fazer vista grossa ao ideal pelo qual lutavam. Posso até não comungar 100% de sua ideologia, nem de seus métodos desastrosos e criminosos, mas comungo da utopia que os movia, o sonho de um mundo mais justo e solidário. Eles lutaram pelo seu país. Não eram bandidos, terroristas, monstros desalmados, mas em sua maioria, jovens sonhadores e revolucionários.
Quando  perseguido pelo nazismo, Deitrich Bonhoeffer, o célebre teólogo alemão, escreveu um tratado considerado uma das maiores obras primas do protestantismo, que recebeu o nome de "Ética". Nesta obra, ele justifica seu engajamento na resistência alemã anti-nazista e seu envolvimento na luta contra Adolf Hitler, dizendo que: "É melhor fazer um mal do que ser mau." Bonhoeffer, que também era pastor, foi considerado um terrorista pelos nazistas e acabou condenado à morte após participar de uma tentativa de assassinato de ninguém menos que Hitler. Devemos concordar com os nazistas e achar que Bonhoeffer não passava de um bandido? Então, por que fazemos isso com os que resistiram bravamente à ditadura militar no Brasil?

Quem sabe o tempo se encarregue de reabilitar alguns que hoje sofrem a ojeriza do mesmo povo pelo qual lutou.  Se Tiradentes se tornou herói, por que não quem conseguiu tirar 36 milhões de brasileiros da extrema pobreza? Como explicar que Lula goze de tanta credibilidade lá fora, e aqui, mesmo depois de terminar seu governo com o maior índice de popularidade da história (82% de aprovação), tem sido tão hostilizado? Como explicar que uma mulher que aos 22 anos foi torturada, levou choques elétricos em sua genitália, teve dentes quebrados a soco, tornou-se na primeira mulher a ocupar a presidência do país, hoje é xingada pela mesma gente pela qual lutou?

Acho que Malcolm X, contemporâneo de Luther King, nos oferece uma resposta: "Se você não tomar cuidado, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as que estão oprimindo." Portanto, antes de torcer o nariz cada vez que ouvir nomes como o de Che Guevara, Simón Bolívar e outros, verifique se o que você sabe acerca deles não é uma vil tentativa de difamar os heróis de seus respectivos povos. Desconfie de tudo o que diz qualquer império midiático. Da mesma maneira que conseguiram nos convencer que Che Guevara é um monstro, tentam fazer isso com Luther King em seu próprio país. O mesmo com Gandhi e com Mandela, como citei acima. Para o restante da América Latina, Che é visto como herói. Até os europeus o reverenciam. Ele foi o cara que calou a ONU. Mas aqui, ele é um monstro, matador de gays, etc. A gente prefere reverenciar Diego Maradona, Pelé e Ayrton Senna. O mesmo preconceito raso se aplica a Simón Bolívar. Quer xingar alguém no cenário político? Chame-o de bolivariano. Mas quem foi Bolívar? O cara que peitou a coroa espanhola e lutou pela independência de suas colônias na América do Sul. É claro que é melhor para o yankees pintá-lo como um vigarista sanguinário.

O que me assusta é ver o povo elegendo heróis que poderão se tornar em breve seus algozes. Homens que desdenham das minorias, que não respeitam mulheres, nem negros, nem homossexuais. Deus que nos livre desta sina.

Que tal lermos um pouco mais bons livros de história, e menos revistas tendenciosas à serviço de interesses nada altruístas?

Abaixo um dos mais belos poemas da lavra de Carlos Marighela:

Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,

e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,

morrer sorrindo a murmurar teu nome.

sábado, fevereiro 16, 2019

0

Deus das Esferas



Por Hermes C. Fernandes

Política e religião. Fé e Ciência. Igreja e Estado. Vida pública e vida privada. Há coisas que não se deve misturar; são como água e óleo. Pertencem a esferas diferentes. Toda vez que insistimos em misturá-las, a confusão é inevitável.

De acordo com o poema da criação, Deus determinou que houvesse separação “entre águas e águas”, isto é, “entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam sobre o firmamento” (Gênesis 1:6-7). Eram, portanto, duas esferas diferentes: Águas superiores e águas inferiores. Ainda que possuíssem a mesma composição química, duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio, essas águas deveriam se manter separadas.

Se o que Deus uniu, não separa o homem, o que dizer daquilo que o próprio Deus separou? Quem ousaria unir?

Ainda em Gênesis, deparamo-nos com a passagem que narra o episódio do Dilúvio. Poucos se atêm ao fato de que o dilúvio não foi causado apenas pelas chuvas, mas também pelo rompimento das reservas subterrâneas de águas. Pela primeira vez, a ordem determinada por Deus foi subvertida, e as águas antes separadas se mesclaram. “Naquele mesmo dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas dos céus se abriram” (Gênesis 7:11). Foi água para todo lado. Águas vindas de cima e águas vindas de baixo. O cataclismo só cessou quando “cerraram-se as fontes do abismo e as janelas dos céus” (Gênesis 8:2).

Apesar de tudo ter ocorrido sob as ordens do próprio Deus, o cataclismo foi fruto da rebelião humana que se configurou na junção carnal entre os seres angelicais e as filhas dos homens, que teria criado uma raça híbrida de gigantes conhecidos como Nefilins (Gênesis 6).

Não se pode unir o que Deus separou! Assim como não se deve separar o que Deus uniu.
Entretanto, as esferas devem coexistir respeitosamente, cada uma em seu quadrado. Convém salientar, porém, que mantê-las separadas não significa que não deva haver qualquer interação entre elas, sobre a qual falaremos adiante.

A igreja é, por assim dizer, uma sociedade fronteiriça, que vive a constante tensão entre dois mundos, o atual e o do porvir, bem como o secular e o sagrado, transitando livremente entre eles, porém, respeitando suas peculiaridades. Nada a impede de dialogar com a cultura, com a ciência, com a academia, e até com outras tradições religiosas. Diálogo implica caminho de mão dupla. Quem dialoga, tanto fala, quanto ouve. Tanta ensina, quanto aprende. Tanto dá, quanto recebe.

A igreja é como Acsa, filha de Calebe, que descontente com a terra seca que recebeu de herança, pediu que o pai lhe abençoasse, dando-lhe fontes de águas. Em resposta ao seu pedido, Calebe presenteou-a com “as fontes superiores e as fontes inferiores” (Juízes 1:12-15). Somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo  (Romanos 8:17).  Tudo quando Cristo recebeu do Pai, constitui-se também a nossa herança como filhos amados de Deus.  E o escritor de Hebreus afirma que Deus o constituiu “herdeiro de tudo” (Hebreus 1:2). Por isso, o apóstolo Paulo pôde declarar enfaticamente que tudo agora é nosso, “seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro” (1 Coríntios 3:21-23). Entretanto, tal qual aconteceu a Acsa, recebemos como herança “herdades assoladas”, e , de quebra, foi-nos confiada a missão de restaurarmos a terra (Isaías 49:8). Mas para tal, temos que recorrer às fontes, tanto as superiores, quanto as inferiores. Os recursos que nos são disponibilizados são incomensuráveis.

Quando digo igreja, não me refiro aqui à instituição cristã, ou mesmo a uma denominação específica, mas a um povo que recebeu de Deus a vocação de lançar os fundamentos de um novo mundo, que costumo chamar de civilização do reino de Deus. Um povo formado por quem não se conforma com as coisas como elas são, e anelam por um mundo mais justo e igualitário.

Nossa atuação não deve estar circunscrita à esfera religiosa, mas abarcar cada uma das esferas.  Porém, não podemos fazer uso desta prerrogativa para misturar as coisas. Não se pode, por exemplo, impor uma visão moral religiosa a um estado laico. Isso, naturalmente, não impede que um cristão viva plenamente a sua fé mesmo no campo político. Em vez de pautar-se na moral cristã, ele pautará sua atuação na ética e no bem comum, sem favorecer a instituição religiosa a que pertence.

Quando Jacó reuniu seus filhos para abençoá-los pouco antes de sua morte, o patriarca hebreu proferiu uma bênção especial para José, que poderia muito bem ser aplicada à igreja como um todo.

 “José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte; seus ramos correm sobre o muro. Os flecheiros lhe deram amargura, e o flecharam e odiaram. O seu arco, porém, susteve-se no forte, e os braços de suas mãos foram fortalecidos pelas mãos do Valente de Jacó (de onde é o pastor e a pedra de Israel). Pelo Deus de teu pai, o qual te ajudará, e pelo Todo-Poderoso, o qual te abençoará com bênçãos dos altos céus, com bênçãos do abismo que está embaixo, com bênçãos dos seios e da madre. As bênçãos de teu pai excederão as bênçãos de meus pais, até à extremidade dos outeiros eternos; elas estarão sobre a cabeça de José, e sobre o alto da cabeça do que foi separado de seus irmãos.” Gênesis 49:22-26

Quem não gostaria de receber “bênçãos dos altos céus” somadas às “bênçãos do abismo que está embaixo”? Não seria isso o cumprimento da promessa de Romanos 8:28 que diz que todas as coisas cooperam em conjunto para o bem dos que amam a Deus e são chamados segundo o Seu propósito? Mas para isso, temos que ser “ramos frutíferos junto à fonte”, como nossos ramos extrapolando os limites impostos pelos muros. Antes de ser bênção para o seu próprio povo, José foi bênção para o povo que o manteve como escravo, e posteriormente como preso sob acusação injusta.

Temos que romper com esta visão de gueto que nos fez reféns de uma subcultura restrita aos que entender nosso dialeto religioso. Não temos o direito de viver uma espiritualidade alienante, divorciada da realidade.

A exemplo da igreja primitiva que contava com a simpatia de todo o povo, é notavelmente possível vivermos uma espiritualidade que seja “agradável a Deus” e “aprovada aos homens.” Mas não enquanto nos ativermos a questiúnculas morais e de costumes. Bem faríamos se adotássemos a sábia postura de Paulo ao declarar: “Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nada é de si mesmo imundo a não ser para aquele que assim o considera; para esse é imundo. Pois, se pela tua comida se entristece teu irmão, já não andas segundo o amor. Não faças perecer por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu. Não seja pois censurado o vosso bem; porque o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo. Pois quem nisso serve a Cristo agradável é a Deus e aceito aos homens. Assim, pois, sigamos as coisas que servem para a paz e as que contribuem para a edificação mútua” (Romanos 14:14-19). Se naquela época, cristãos infantilizados brigavam por questões dietéticas, hoje brigamos por questões ainda mais banais que dizem respeito à vida privada de cada um.

Creio que a figura arquetípica da Nova Jerusalém poderia nos ajudar a compreender a maneira como deveríamos nos posicionar com relação às coisas relativas às esferas inferiores. Digo inferiores, não no sentido de serem menos importantes que as demais, mas por estarem ligadas a esta vida terrena, sujeitas, portanto, a se desgastarem com o passar do tempo.

O vidente João nos relata que viu “a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido” (Apocalipse 21:2). Repare nisso: a origem desta cidade é celestial. Ela desce do céu. Ela pertence às fontes superiores. Ela é um tipo da igreja. Por isso, João a chama de “esposa do Cordeiro.” Cristo não se casaria com muros, tijolos, paredes. Sua esposa somos nós, Sua igreja, Seu povo.

Apesar de manter-se pura, “ataviada”, é-nos dito que “as nações andarão à sua luz; e os reis da terra TRARÃO PARA ELA a sua glória. AS SUAS PORTAS NÃO SE FECHARÃO de dia, e noite ali não haverá; e a ela trarão a glória e a honra das nações. E não entrará nela coisa alguma impura, nem o que pratica abominação ou mentira; mas somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Apocalipse 21:24-27).

De que “glória das nações” o texto está falando? A resposta está Isaías 60:11, onde esta promessa já havia sido feita anteriormente. Ali lemos que as portas da cidade estariam abertas de contínuo para que lhe fossem trazidas “as riquezas das nações.” Resta saber que riquezas seriam essas.  Recuso-me a crer que sejam insumos ou bens de consumo. Prefiro acreditar tratar-se de riquezas culturais, produzidas pelos povos ao longo das eras.

Então, como conciliar a promessa de que as riquezas das nações seriam introduzidas na cidade santa com a promessa de que ali não entraria coisa impura? Não seria isso o mesmo que misturar as águas inferiores com as águas superiores?

Desde criança ouço pregadores alarmarem os fiéis acerca da infiltração do mundanismo na igreja. Como evitar isso? Teríamos que nos trancafiar em nosso reduto eclesiástico? Teríamos que viver como os Amish[1]? Teríamos que nos abster de qualquer manifestação cultural? Penso que muitos confundem santificação com alienação. Apesar de Deus ter estabelecido uma separação entre as águas superiores e inferiores, não podemos ignorar que haja uma contínua troca entre elas que é conhecida por ciclo da água.  Conhecido cientificamente como o ciclo hidrológico, o ciclo da água refere-se à troca contínua de água na hidrosfera, entre a atmosfera, a água do solo, águas superficiais, subterrâneas e das plantas. Através de um processo lento e quase imperceptível, a água se evapora, formando nuvens que posteriormente a devolvem ao solo através da chuva. Não importa quão sujas essas águas possam estar, a evaporação se encarregará de purifica-las. A lama, a sujeira, os dejetos, não sobem com ela. Por isso, pode-se beber da água da chuva sem receio.

De modo análogo, as culturas produzidas neste mundo podem ser introduzidas na civilização do reino de Deus, sem levar consigo as impurezas que as acompanham. Foi sobre este processo que Paulo falou ao nos advertir a examinar de tudo, retendo somente o que for bom (1 Tessalonicenses 5:21).

Duas coisas precisam ser observadas:

1. Não se deve comprar pacotes fechados. Antes, deve-se examinar item por item, descartando o que não for compatível com os princípios do amor e da justiça.

2. Não se deve jogar fora a criança com a água do banho. Cada cultura revela rastros da graça de Deus ao mesmo tempo em que traz traços de nossa condição pecaminosa de egoísmo e hedonismo.

Recentemente, postei em minhas redes sociais acerca da minha experiência com a acupuntura, depois de ter sofrido por sete meses de uma crise de coluna que afetou meu nervo ciático. Alguém resolveu comentar em meu post, afirmando que tal prática seria demoníaca, pois estaria associada a invocação de espíritos ancestrais e crenças místicas orientais. Respondi que vejo muito mais de demoníaco na indústria farmacêutica ocidental que cria doenças em laboratórios para depois oferecer tratamento, que mantém patentes de remédios para cobrar por eles o quanto quiser, mesmo sabendo que há vidas que dependem de seu uso.

A acupuntura foi declarada Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade pela Unesco em 2010.  Assim como esta prática milenar da medicina chinesa, há outras, como a homeopatia, que se enquadram perfeitamente no que podemos chamar de “riquezas das nações.”

E o que dizer das danças, do folclore, da música, das festas, da culinária, e de tanta coisa bela que tem sido produzida pelos povos ao longo de sua história?

Não creio que a sociedade pela qual anelamos seja uniformizada. Somente a multiforme graça de Deus, bem como Sua multiforme sabedoria, poderiam nos patrocinar a emergência de uma sociedade justa e diversificada, onde cada etnia possa viver pacificamente sem ter que abrir mão da beleza de suas tradições.

O que nos impede de enxergar isso é que desconhecemos a abrangência da obra de Cristo, limitando-a às questões relativas à vida eterna.

Paulo nos conta que Deus nos desvendou o mistério de sua vontade, “de fazer convergir em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:9-10).

N’Ele, a realidade foi reunificada. Porém, trata-se de uma unidade que preserva a diversidade. As fontes superiores trabalham em conjunto com as fontes inferiores. O Espírito que sopra dentro da igreja, sopra também lá fora, e ninguém sabe de onde vem, nem para onde vai. Ele é livre. O mesmo que inspira canções de louvor entre o Seu povo, também inspira profetas seculares para que expressem a angústia e anelo da criação.

Cristo é o ponto de convergência entre as coisas sagradas e as seculares, entre as coisas celestiais e as terrenas, entre as espirituais e as materiais, entre as objetivas e as subjetivas, entre a vivência comunitária e a individualidade, entre a santidade e a autenticidade.

Outro ponto interessante da descrição da cidade santa é a sua completa ausência de templos (Apocalipse 21:22). É-nos dito que o Cordeiro é o seu santuário. Fica claro que não se trata de uma sociedade religiosa, mas secular, o que não significa que perde a sua sacralidade, mas que a resgata plenamente. Agora, em Cristo, todas as coisas foram santificadas, e não apenas umas em detrimento de outras. N’Ele se reúnem todas as fontes, superiores e inferiores. Por isso, o salmista diz: “Todas as minhas fontes estão em ti” (Salmos 87:7). Nada restou fora d’Ele. Como bem disse Paulo citando os filósofos estoicos: “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois dele também somos geração”(Atos 17:28). Cristo, portanto, encerra em Si mesmo toda a realidade.

Já sabemos por analogia a maneira como as águas inferiores são remetidas às esferas celestiais. Agora precisamos entender como as águas superiores são remetidas às esferas terrenas.

Há quem creia que o mundo necessite de uma enxurrada da verdade. Mas ouso dizer que Deus tenha outros planos. Em vez de chuvaréu, garoa. Em vez de uma inundação semelhante ao dilúvio, um orvalho suave que regue a terra calmamente sem fazer estragos. Ou não é isso que vemos em Deuteronômio 32:1-2?

 “Inclinai os ouvidos, ó céus, e falarei; e ouça a terra as palavras da minha boca. Caia como a chuva a minha doutrina; destile a minha palavra como o orvalho, como chuvisco sobre a erva e como chuvas sobre a relva.”

Será assim que a vontade de Deus feita no céu, será finalmente concretizada na terra. Sem alardes. Sem megafones. Sem gritos.  Como disse Isaías acerca do Messias: “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios. Não clamará, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na praça” (Isaías 42:1,2).

Não será por força, por imposição, por violência, pela espada, nem pela canetada, mas exclusivamente pelo convencimento do Espírito, pela iluminação e expansão da consciência (Zacarias 4:6).



[1] Amish é um grupo religioso cristão anabatista baseado nos Estados Unidos e Canadá. São conhecidos por seus costumes conservadores, como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

0

A ASSEMBLEIA DOS PÁSSAROS



Por Hermes C. Fernandes


Todos dormiam na arca na primeira noite de bonança após quarenta dias de dilúvio. De repente, um ajuntamento inusitado ocorreu. Os pássaros foram convocados para uma assembleia secreta extraordinária. A cacatua presidia a reunião.

- Soubemos por fonte fidedigna que Noé vai soltar um de nós nos próximos dias. Creio que seria justo escolhermos democraticamente àquele que nos representará, sendo o primeiro a deixar a arca.
Todos os pássaros assentiram com a cabeça.

- Modéstia à parte, creio que sou o mais indicado para a missão - disse o tucano com seu exuberante bico.

A partir daí, a confusão se instalou na confraria das aves.

- Por que você e não eu ou qualquer outro pássaro? - perguntou a arara-azul.

- Ora, ora... meu protuberante bico me garante um destaque que me permite ser visto à distância. Óbvio que Noé concordará que sou a melhor opção.

- Não esqueça que seu bico, além de cumprido, também é pesado, e que isso lhe impossibilitaria de voar por longas distâncias. Até encontrar terra seca, você já estaria exausto demais e acabaria voltando no meio do caminho - salientou a águia.

- Seu bico consegue ser maior que seu corpo! - ironizou a garça.

- Olha quem diz... pelo menos não tenho pernas tão longas e finas... - respondeu o tucano.
De repente, o pavão deu um passo à frente, apresentando-se como alternativa. Todos começaram a murmurar:

- Lá vem você com essa cauda espalhafatosa, achando-se o centro das atenções... Como se já não bastasse o peso do seu corpo. Com certeza, Noé vai preferir alguém bem mais discreto.

- E que tal, eu? - propôs o pica-pau.

A gargalhada foi geral.

- Você está louco? Por pouco você não afunda a arca com todos os bichos com essa sua mania de perfurar a madeira com seu bico pontiagudo.

- Mas é justamente por isso que me acho o melhor candidato. Alguém como eu é melhor fora do que dentro. Pelo menos lá fora, não serei um risco para ninguém - argumentou o pica-pau usando e abusando de seu tom sarcástico.

- Hum... pensando bem... não! Prefiro o bico grande do tucano que não faz mal a ninguém ao seu discreto, mas famigerado bico. Quem nos garante que depois que estiver do lado de fora, não vai usá-lo para afundar a arca? Você só não o usou ainda porque está dentro e sabe que se a arca afundar, você afunda junto. Quem não te conhece é quem te compra, seu cara de pau - disse a cacatua.

- Creio que a melhor opção que temos é a águia - indicou o avestruz.

- Agradeço a lembrança, mas devo abdicar-me da indicação. Como sabem, costumo voar muito alto. E não garanto que depois de voltar às alturas, eu me disponha a retornar à arca. Eu me conheço bem e acho que não mereço tal voto de confiança.

- Então, por que não eu? - sugeriu a cacatua.

- Pode ir baixando esta sua crista! Não é porque a iniciativa de convocar esta reunião foi sua que isso lhe dá o direito de exercer primazia sobre nós. Você é barulhenta demais para uma missão tão importante - disse o falcão.

Enquanto ainda discutiam, já tendo amanhecido, Noé se aproximou, estendeu a mão e tomou um corvo.

- O que foi isso? Por que o corvo e não qualquer outro de nós? - perguntaram-se uns aos outros.
- Acho que Noé se precipitou. Aquele corvo é o maior traíra. Duvido que retorne à arca - asseverou o tucano.

Dias depois, uma nova assembleia foi convocada na calada da noite.

- Como vocês todos já devem saber, o corvo se escafedeu. Noé nem sequer nos consultou pra saber qual de nós estaria apto para aquela missão - reclamou o tucano.

- Deveríamos fazer um protesto, isso sim. Tantos qualificados aqui e ele foi escolher logo aquele “come-quieto” do corvo - arrazoou a garça. Eu, por exemplo, posso até ter pernas longas, desproporcionais com relação ao meu corpo, mas pelo menos, caminho em águas imundas sem sujar minhas penas alvas.

- Ouvi dizer que o corvo saiu reclamando que Noé o estarei expulsando da arca - relatou o pica-pau.
Mais uma vez, a assembleia foi interrompida pelo som dos passos de Noé. Sem consultar a ninguém senão à sua própria consciência, Noé estendeu a mão em direção à pomba e levou-a consigo.

- Esse Noé não aprende mesmo. Primeiro o corvo, agora a pomba? Que qualidades ela reúne, afinal? Suas asas não têm a envergadura das asas da águia; seu bico não é longo como do tucano, nem habilidoso como do pica-pau. Suas penas não são coloridas como das araras. Suas garras não são fortes como as do falcão. O que Noé viu nela, afinal?

Um velho condor que assistia à discussão, tomou a palavra e respondeu:

- Senhores, acredito que sei o que Noé viu em nossa companheira pomba: Uma qualidade e um hábito. Primeiro, ela é simples como nenhum de nós. Vocês nunca a viram se gabando do que é. E segundo, ela sempre volta.

Os pássaros, então, resolveram fazer um bolão entre eles. Quase todos apostaram que ela não voltaria, à semelhança do que fez o corvo. Mas o condor e algumas outras aves de rapina apostaram que sim.

Dias depois, ouviu-se o som de umas batidas na janela da arca. Ao abri-la, Noé deparou-se com a pequena ave trazendo no bico um ramo de oliveira.


Moral da estória: é na simplicidade que habita a esperança.

domingo, fevereiro 03, 2019

0

Dá até pena ver de novo


Por Hermes C. Fernandes

No início de nossa jornada existencial, tudo é novo. Cada experiência é inédita. E a maioria delas nos pega de surpresa, sem aviso prévio, sem qualquer planejamento.  As agradáveis deixam sempre um gostinho de “quero mais”. As desagradáveis, porém, nos deixam um gosto amargo que parece apegar-se ao paladar. Entretanto, na medida em que amadurecemos, tornamo-nos mais precavidos, já que certas experiências tendem a se repetir ainda que com algumas variações. O que antes seria considerado inédito não passa de mera reprise. Aos poucos, o estresse vai cedendo ao tédio. Tudo vai ficando tão previsível.

O lado bom disso é que alcançamos a sabedoria, desenvolvendo o traquejo para lidar com as situações que antes nos tiravam o sono. O lado ruim é que a vida parece desbotar, perdendo seu colorido original.

Davi havia enfrentado a maior crise do seu reino. Enfrentara uma rebelião protagonizada por ninguém menos que seu próprio filho. Com a morte de Absalão e o desbaratamento da rebelião, tudo indicava que era chegada a hora de Davi respirar tranquilo. Mas não foi isso que se sucedeu.

Alguém quis se aproveitar de todo o desgaste sofrido por Davi para promover um novo levante contra o seu trono.

O relato bíblico diz que “achou-se ali por acaso um homem de Belial, cujo nome era Seba, filho de Bicri, homem de Benjamim, o qual tocou a trombeta e disse: Não temos parte em Davi, nem herança no filho de Jessé. Cada um à sua tenda, ó Israel.”[1] Resultado: “Todos os homens de Israel se separaram de Davi, e seguiram a Sebá, filho de Bicri; porém os homens de Judá seguiram ao seu rei desde o Jordão até Jerusalém.”[2] Das doze tribos de Israel, somente aquela da qual provinha manteve-se leal a Davi. As demais aderiram à rebelião de Sebá.

Precavido, “Davi chegou à sua casa em Jerusalém, tomou as dez concubinas que deixara para guardarem a casa, e as pôs numa casa, sob guarda, e as sustentava; porém não entrou a elas. Assim estiveram encerradas até o dia da sua morte, vivendo como viúvas.”[3]

Não muito tempo antes, seu filho Absalão possuíra suas concubinas à luz do dia com o objetivo de insultá-lo e diminuí-lo ante os olhos de todo Israel.[4] Ora, se seu próprio filho foi capaz de tal acinte, o que esperar de um estranho?

Era preferível abrir mão de seu harém particular, a ver suas concubinas sendo mais uma vez expostas e violentadas. Às vezes, somos obrigados a escolher dentre males, o menor. Aquelas mulheres passaram a viver como viúvas até o dia de sua morte, mas foram poupadas de destino bem mais atroz.

Tomada a devida precaução, era hora de tentar desbaratar mais uma rebelião. Para isso, ordenou que Amasa, um homem de sua mais inteira confiança, convocasse os homens de Judá para que comparecessem à presença do rei em três dias. Porém este resolveu fazer cera, talvez propositadamente, ou, no mínimo, por não perceber a gravidade da situação. O fato é que ele “demorou-se além do tempo que o rei lhe designara.”[5]

Mesmo sem entender a razão da demora de seu servo, Davi resolveu tomar a iniciativa em vez de ficar esperando a boa vontade dos homens de Judá, os únicos que se lhe mantinham leais. “Então disse Davi a Abisai: Mais mal agora nos fará Sebá, filho de Bicri, do que Absalão; toma, pois, tu os servos de teu senhor, e persegue-o, para que ele porventura não ache para si cidades fortificadas, e nos escape à nossa vista.”[6]

Imediatamente, Joabe e seus homens saíram no encalço de Sebá. Chegando à pedra grande que está junto a Gibeão, “Amasa lhes veio ao encontro.”

Joabe sabia por experiência que as pessoas só costumam ser leais enquanto seus interesses são atendidos. Era plausível supor que Amasa houvesse trocado de lado. Afinal, que outra explicação haveria para o seu atraso em convocar os homens de Judá para fechar fileiras com Davi? Como diria Jesus séculos depois, “quem comigo não ajunta, espalha.”[7]

Aproximando-se de Amasa, Joabe perguntou-lhe: “Vais bem, meu irmão? E Joabe, com a mão direita, pegou da barba de Amasa, para o beijar. Amasa, porém, não reparou na espada que está na mão de Joabe; de sorte que este o feriu com ela no ventre, derramando-lhe por terra as entranhas. Não foi necessário feri-lo segunda vez; e ele morreu.”[8]

Não sabemos ao certo se houve precipitação por parte de Joabe. Porém, este não estava disposto a correr riscos depois de todas as decepções que sofrera durante o episódio da rebelião de Absalão.

Joabe e Abisai, seu irmão, prosseguiram em sua perseguição a Sebá. Enquanto isso, “um homem dentre os servos de Joabe ficou junto a Amasa, e dizia: Quem favorece a Joabe, e quem é por Davi, siga a Joabe.”[9]

Ninguém poderia ficar em cima do muro num momento crítico como aquele. Se estava com Davi, que seguisse a Joabe.

O texto diz que algo passou a chamar a atenção de todos os que por ali passavam: “Amasa se revolvia no seu sangue no meio do caminho.” Em vez de prestarem atenção no que dizia o servo de Joabe, as pessoas se distraiam com aquele cadáver ensanguentado. De modo que “aquele homem, vendo que todo o povo parava, removeu Amasa do caminho para o campo, e lançou sobre ele um manto, porque viu que todo aquele que chegava ao pé dele parava.”[10]

Há pessoas e/ou situações que só servem para nos distrair e frear. Por isso, faz-se necessário que sejam removidas do nosso caminho. Elas têm o infeliz dom de nos paralisar. Se não formos rápidos em nos livrar daquela distração, perderemos o foco, e de quebra, faremos que outros igualmente o percam.

Tão logo Amasa fora removido do caminho, todos os homens seguiram a Joabe para perseguirem a Sebá.

Há que se ter discernimento para perceber o que precisa ser removido de nosso caminho o quanto antes; tudo aquilo que nos faz parar ou nos faz atrasar em nossa caminhada, nos impedindo de perseguir os propósitos estabelecidos por Deus em nossas vidas.  

Quando finalmente souberam onde estava Sebá, cercaram a cidade, “e todo o povo que estava com Joabe batia o muro para derrubá-lo.”[11]

Não havia como escapar da fúria dos valentes de Davi.

“Então uma mulher sábia gritou de dentro da cidade: Ouvi! ouvi! Dizei a Joabe: Chega-te cá, para que eu te fale. Ele, pois, se chegou perto dela; e a mulher perguntou: Tu és Joabe? Respondeu ele: Sou. Ela lhe disse: Ouve as palavras de tua serva. Disse ele: Estou ouvindo. Então falou ela, dizendo: Antigamente costumava-se dizer: Que se peça conselho em Abel; e era assim que se punha fim às questões. Eu sou uma das pacíficas e das fiéis em Israel; e tu procuras destruir uma cidade que é mãe em Israel; por que, pois, devorarias a herança do Senhor?”[12]

Abel era o nome daquela cidade conhecida como “mãe em Israel”. Era para lá que as pessoas corriam em busca de uma palavra do Senhor para encerrar qualquer demanda. Seria justo arruinar aquela cidade inteira por causa da rebelião de um homem? Seria justo lutar contra o lugar onde tanta gente havia encontrado ajuda por um capricho ou por vingança? Vale aqui a recomendação de Paulo: “Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu (...) Não destruas por causa da comida a obra de Deus.”[13] Os cristãos judaizantes transformaram uma questão particular que dizia respeito exclusivamente aos judeus, em uma questão capaz de destruir a obra de Deus entre os gentios. Que sentido haveria nisso? Será que valeria a pena destruir algo que tão bem faz às pessoas somente para provar que temos razão? E quando nós mesmos um dia nos beneficiamos disso? Não seria isso o mesmo que “cuspir no prato que comeu”?

Aquela mulher se apresentou a Joabe como uma das pacíficas e fiéis em Israel. Quem poderia intermediar um conflito senão alguém cujo caráter fosse pacífico e fiel? Infelizmente, este tipo de pessoa é cada vez mais raro. A maioria prefere ver o circo pegar fogo, pois não tem a menor consideração pela obra de Deus. São movidos por ganância ou vingança, não por esperança.

Infelizmente, há quem em nome da fidelidade, acaba por se tornar em um agitador, levando e trazendo, lançando querosene numa fogueira que já poderia ter se apagado. Como bem salientou Salomão, “por falta de lenha apaga-se o fogo; e onde não há mexeriqueiro, cessa a contenda. Como os carvões para as brasas e a lenha para o fogo, assim é o homem contencioso para acender rixas. As palavras do mexeriqueiro são como doces bocados, que penetram até o fundo das entranhas.”[14]

A estes, convém lembrar as seis coisas que o Senhor odeia, e a sétima que sua alma abomina:

“Estas seis coisas o Senhor odeia, e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos.”[15]

Por outro lado, há quem ache que para promover a paz é necessário abrir mão da própria consciência, sacrificando a coerência e a fidelidade no altar da conveniência. Ledo engano. Pode-se, perfeitamente, ser fiel e pacificador ao mesmo tempo.  A propósito, bem-aventurados são os pacificadores, isto é, os que promovem a paz, evitando assim, o pior.

Corajosamente, aquela mulher chama Joabe à consciência e diz que o que ele estava fazendo era devorar a herança do Senhor. Em outras palavras, ela o compara a um gafanhoto, chamando-o de devorador. Ele sentiu-se tão insultado que exclamou: “Longe, longe de mim que eu tal faça, que eu devore ou arruíne!”[16]

Ao menos, ele tinha consciência, e por isso, negou-se a devorar e arruinar o lugar onde tantos haviam sido ajudados em suas causas. Nosso amor à obra de Deus deve ser maior que qualquer obsessão pessoal.

Mesmo recusando-se a arruinar a cidade de Abel, Joabe expôs a ela o seu real propósito:

“A coisa não é assim; porém um só homem da região montanhosa de Efraim, cujo nome é Sebá, filho de Bicri, levantou a mão contra o rei, contra Davi; entregai-me só este, e retirar-me-ei da cidade. E disse a mulher a Joabe: Eis que te será lançada a sua cabeça pelo muro. A mulher, na sua sabedoria, foi ter com todo o povo; e cortaram a cabeça de Sebá, filho de Bicri, e a lançaram a Joabe. Este, pois, tocou a trombeta, e eles se retiraram da cidade, cada um para sua tenda. E Joabe voltou a Jerusalém, ao rei.”[17]

“Não é bem assim...” O segredo de tudo é a comunicação. Por isso, nada melhor do que saber das coisas diretamente da fonte, sem dar ouvidos aos agitadores de plantão.

Quantas são as opiniões que emitimos e as posições que assumimos com base em algo que “não é bem assim...”? Quantos mal-entendidos seriam evitados se nos dignássemos a recorrer à fonte!

Mas preferimos nos precipitar, agindo injustamente, sem qualquer ponderação. Talvez por não entendermos o que está em jogo.

Bem-aventurada foi aquela mulher anônima, sábia, pacífica e fiel, que evitou que a desgraça se abatesse sobre sua cidade e seus filhos. Bem-aventurado é quem a toma por exemplo, jamais emprestando seus lábios à discórdia e ao desamor.




[1] 2 Samuel 20:1
[2] v.2
[3] v.3
[4] 2 Samuel 16:22
[5] 2 Samuel 20:5
[6] v.6
[7] Mateus 12:30
[8] 2 Samuel 20:9-10
[9] v.11
[10] v.12
[11] v.15
[12] vv.16-19
[13] Romanos 14:15a,20a
[14] Provérbios 26:20-22
[15] Provérbios 6:16-19
[16] 2 Samuel 20:20
[17] vv.21-22