quarta-feira, agosto 12, 2020

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UM PASTOR EM DEFESA DE XUXA

 

Por Hermes C. Fernandes

O diabo perdeu o emprego! Sim, ele que antes nos acusava dia e noite diante de Deus, já não o faz mais. E sabe porque? Porque todos os nossos pecados foram perdoados por Aquele que nos ama incondicionalmente. Infelizmente, alguns cristãos parecem disputar a vaga deixada pelo coisa-ruim e saem por aí acusando a Deus e o mundo. Adoram vasculhar o passado das pessoas atrás de algo para apontar. Uma das vítimas desta sanha cristã é a Xuxa. Por mais que ela tenha amadurecido ao longo dos anos, os "mensageiros de satanás" sempre lançarão em sua cara seu passado. Parece que têm tara em ser o "espinho na carne" dos outros. Para eles, o passado é sempre presente. Mesmo que o passado da pessoa não seja tudo isso que andam espalhando. Triste isso.

Segue abaixo uma resposta coerente aos seus detratores. Meu total apoio à apresentadora pelo livro de sua autoria que tem como objetivo combater o preconceito sofrido pelos LGBTQI+

“Quando cheguei ao Rio, eu era chamada de interiorana. Achavam graça do jeito como eu falava, riam do lugar onde eu nasci (minha linda Santa Rosa, no Rio Grande do Sul), diziam que eu era caipira.

Depois, aos 16 anos, quando comecei a trabalhar, me chamavam de suburbana. Eu pegava um trem e levava uma hora para chegar à Central do Brasil e de lá pegava outra condução para estar ao lugar marcado, o que é a realidade de muita gente.

Depois, aos 17 anos, namorei Pelé, o maior ídolo do país por 6 anos e foi aí que eu conheci a maldade real das pessoas. Fui chamada de puta, interesseira que queria aparecer às custas de um rico famoso, garota de programa de luxo e muitos outros nomes.

Quando comecei a trabalhar para crianças, aos 20 anos, fui taxada de loira burra, despreparada. Disseram que eu tinha relações com as Paquitas, com minha diretora e que eu não poderia trabalhar com o público infantil.

Comecei outro relacionamento, com o segundo maior ídolo desse país, o que incomodou muita gente. Diziam que era um relacionamento de fachada.

Depois, resolvi ter minha filha aos 35 anos sem me casar e disseram que eu era mau exemplo para os públicos infantil e adolescente. O então ministro José Serra, na época, disse até que eu estava incentivando as jovens a seguir o meu exemplo. Será que trabalhar muito, ter uma conta bancaria alta, ser uma mulher independente, resolver ter filho aos 35 anos, cuidar da saúde, não fumar, não beber, são maus exemplos?

Não ter o pai da Sasha ao meu lado fortaleceu o que sempre falavam: que eu gostava de mulheres, não prestava, era uma prostituta de luxo, etc...

Aos 50 resolvi “casar” sem cartório ou festa e, novamente, não sou bom exemplo, já que digo que estou feliz e com cara de bem comida ao lado do homem que escolhi. Isso choca? Sim, choca, porque para muitos, eu não tenho direito de ter uma vida sexual depois dos 50.

Raspei a cabeça e... "Oi? Como assim? Tá louca? Queremos você de cabelo comprido." "Não coloca botox" Oi? Como assim? "Não queremos ver suas rugas, elas nos lembram que também estamos ficando velhos."

Tem ainda quem quer me atingir falando do filme Amor, Estranho Amor, de Walter Hugo Cury, um cineasta premiado da época. Muitas pessoas nem viram o filme. Para quem não viu, vou contar a sinopse: eu fazia o papel de uma menina de 15 anos comprada no interior para ser dada a um político. Nada a ver com a minha biografia, mas amam dizer que sou eu, a “Xuxa dos Baixinhos” e não a personagem, menina que foi vendida para um prostíbulo - que aliás é um tema tão atual...Sim porque, infelizmente, o tráfico de meninas e meninos para exploração sexual é enorme no nosso país. Eu proponho então que todos, ao falarem desse filme, coloquem nos comentários: se vir algo parecido, denuncie ao Disque 100, porque acredite, essa é uma realidade muito grande no Brasil. Veja bem, é a realidade de muitas meninas, não a minha.

Também fiz fotos sem roupa, não para uma revista e sim pra três: Ele Ela, Playboy e Status. Naquela época, era o que uma atriz ou modelo faziam ao chegar ao topo da sua carreira.

Agora, aos 57, quase 60 anos, com a bagagem que tenho - e que não é pouca - estou sendo criticada por escrever livros para crianças. Um em especial, que ainda nem saiu, inspirado na milha afilhada Maya, onde conto a história de uma menina que quer tanto ser amada, quer tanto alguém especial ao seu lado, que Deus lhe dá duas mães. Sim, o meu Deus não é preconceituoso, o meu Deus aceita todos como são.

Aliás, nós somos a semelhança Dele, então Deus é menino? É menina? É gordo? É magro? É preto? É branco? É surdo? É cego? O meu Deus é tudo isso, menos preconceituoso, homofóbico, racista, gordofóbico, machista. Deus é simplesmente amor. Onde houver amor, Ele estará: em cada sorriso da Maya, meu bebê arco-íris, que está representando tantos outros bebês que são discriminados por não se encaixarem no que resolvemos dizer que é “normal” ou “certo”.

Eu quero muito que vocês conheçam a história desse anjo. Não ganharei dinheiro algum com esses livros. Todos os meus royalties serão doados para santuários que resgatam animais vítimas de maus-tratos por todo Brasil, e ainda para a Aldeia Nissi, em Angola, que inclusive é evangélica. Sim, minha mãe também era. Não posso admitir que algumas pessoas que se intitulam cristãos, evangélicos, venham falar em nomes de todas as pessoas que realmente têm Deus no coração. Aliás, conheço muitos pastores, bispos, padres, espíritas, budistas que amam Deus e entendem que só Ele pode melhorar o mundo porque Ele é amor.

Sei que ainda serei muito criticada na vida, mas todas as noites eu peço a Deus para me mostrar o caminho onde eu possa ajudar alguém de alguma forma. Agora, eu peço aos intolerantes. Não querem ajudar? Não atrapalhem! O mundo não precisa da sua ignorância, do seu desamor. E eu? Vou continuar rezando meu pai nosso 'afastai-me de todo mal, amém' ".

Xuxa

Fonte: Revista Vogue

Xuxa, você não precisaria explicar nada, se fôssemos, de fato, discípulos de Jesus. Siga sua jornada de amor e jamais se deixe distrair com os que só sabem atirar pedras. Sinta-se amada pelo Pai Celestial que lhe fez sob medida para este tempo de tanta intolerância.

sexta-feira, agosto 07, 2020

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DEFINIÇÃO DE PECADO ATUALIZADA


Por Hermes C. Fernandes

Nunca vi um povo tão obcecado com o pecado do que aqueles que deveriam fazer do perdão a sua bandeira. Para os tais, pregar o evangelho seria sinônimo de falar contra o pecado. E assim, sem que percebam, fazem coro com aquele que é chamado nas Escrituras de “o acusador dos nossos irmãos”, o arquiadversário do amor, o diabo. 

É claro que não dá para falar de perdão sem falar daquilo que está sendo perdoado, isto é, o pecado. Porém, temos que entender de uma vez por todas o que é ou não pecado.

Etimologicamente, pecar é errar a alvo. Fomos criados com um propósito, e viver de maneira contrária a ele constitui-se pecado. Que propósito seria este, afinal? Fomos criados para o amor. E o Deus revelado nas páginas dos evangelhos escolheu ser amado no outro. Amar ao próximo não é um mandamento abaixo do amor a Deus. Trata-se da única maneira de amar ao Criador. À luz desta verdade, podemos definir o pecado como todo sentimento, atitude ou postura que promova o mal de nossos semelhantes. O pecado é o antônimo do amor. Pecar não é viver alheio a um código moral, ainda que imposto por uma divindade. Pecar é não amar, vivendo exclusivamente em função de seus próprios prazeres, sem considerar a dor que possa causar ao outro. Pecado é uma vida autocentrada, egoísta, interesseira, preconceituosa, acumuladora, abusiva, traiçoeira, arrogante, invejosa.

Quando se vive em pecado, o sofrimento do outro não nos causa qualquer incômodo. Só pensamos em nós mesmos. Por isso, ofendemos, difamamos, espalhamos fake news, sabotamos e inviabilizamos a existência do outro. 

Tem muita gente travestida de santidade e piedade, mas que destila ódio. E por incrível que pareça, usa sua fé para justificar o seu ódio sem o menor constrangimento. 

Há quem use a verdade para enganar. Sem que profira uma única mentira, articula-se a verdade com o objetivo de oprimir e explorar o seu semelhante. Os tais se esquecem que a verdade deve ser seguida em amor. Sem amor ela pode ser tão destrutiva quanto à própria mentira. 

Há quem se gabe de sua própria honestidade enquanto segue acumulando riquezas, sem jamais se preocupar em atenuar a miséria de tantos à sua volta. Ainda que honestos aos olhos dos homens, seguem gananciosos e presunçosos. 

Há quem viva em adultério mesmo sendo fiel ao seu cônjuge, pois em vez de amá-lo, usá-o como se fosse um mero objeto. A maior parte dos estupros ocorre dentro do matrimônio. Qualquer relação sexual que não seja consensual é um estupro. O que legitima uma relação aos olhos de Deus é o amor e não um contrato ou uma cerimônia. Sem amor, um casamento não passa de um embuste. 

É pecado ser conivente com uma agenda governamental negacionista da ciência, e por conseguinte, genocida. É pecado julgar e discriminar alguém pela cor de sua pele, por sua orientação sexual ou mesmo por seu credo religioso.

Homofobia é pecado!

Racismo é pecado!

Xenofobia é pecado!

Misoginia e machismo são pecados!

Explorar o trabalhador, privando-lhe de seus direitos é pecado.

Humilhar o seu próximo por sua condição material é pecado.

Tentar disfarçar seus próprios pecados ao apontar os pecados alheios também é pecado. 

Pecado também é viver de maneira inautêntica, escondendo-se atrás da máscara da religiosidade ou da moral e dos bons costumes. 

Pecado é tudo aquilo que desumaniza o outro, transformando-o num trampolim para alcançar nossos mais sórdidos objetivos.

Se quer viver de maneira agradável a Deus, ame mais e não perca seu tempo julgando. Viva e deixe viver. Só não se cale diante da injustiça. Seja um cordeiro em causa própria, mas um leão pela causa do seu semelhante.

domingo, agosto 02, 2020

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UM PASTOR EM DEFESA DE FELIPE NETO CONTRA A REDE DE ÓDIO




Por Hermes C. Fernandes 

 “Rede de Ódio” é um filme polonês recentemente lançado pela Netflix. A trama gira em torno de um estudante de direito expulso da universidade de Varsóvia que ingressa numa empresa de marketing digital cuja especialidade é destruir a reputação de celebridades, empresas e políticos através de perfis falsos nas redes sociais e a disseminação de fake news. Não há como assisti-lo e não relacioná-lo ao cenário político brasileiro atual, com sua máquina de notícias falsas conhecida como “Gabinete do ódio.”

Na trama, o jovem Tomasz Giemza usa suas habilidades para atacar um candidato à prefeitura cujos ideais eram progressistas. O candidato acaba assassinado durante um evento por um hater contratado pelo jovem. O filme retrata com exatidão como o ódio impulsionado pelas redes sociais pode levar a graves consequências na vida real. Coincidentemente, três semanas após o término das filmagens, Paweł Adamowicz, político liberal polonês, prefeito de Gdańsk, frequentemente alvo de inimigos virtuais, foi esfaqueado até a morte durante um evento de caridade transmitido ao vivo.

No Brasil, um dos mais recentes alvos da rede do ódio é Felipe Neto, youtuber e influenciador digital que figura entre os mais populares do mundo, cujo canal no youtube já teve mais de 10 bilhões de visualizações e quase 40 milhões de seguidores. Bastou que ele usasse suas redes sociais para criticar o atual governo brasileiro, e que aparecesse no The New York Times referindo-se a Bolsonaro como “o pior presidente do mundo” no trato da pandemia da COVID-19, para que o gabinete do ódio apontasse sua metralhadora de fake News em sua direção. Felipe Neto tem tido o seu nome associado à pedofilia, fato que já foi amplamente desmentido. A mesma metralhadora tem sido apontada na direção de artistas como a Xuxa, Chico Buarque, Caetano Veloso, e tantos outros, e até de políticos que abandonaram o barco bolsonarista depois de se desiludirem.

Como se não bastassem os robôs sempre prontos a disparar hashtags e notícias falsas, o gabinete do ódio também conta com artilharia pesada de pastores que não se constrangem em usar suas próprias redes sociais para espalhar boatos e destruir reputações. Alguns demonstram maior lealdade ao governo do que ao seu próprio chamado ministerial. Com isso, a igreja evangélica perde não apenas fiéis, mas também credibilidade e relevância. Qualquer um que se atreva a atravessar seu caminho, desafiando sua agenda moralista hipócrita e se opondo aos seus interesses políticos, deve ser massacrado sem misericórdia. Nem que para isso, tenham que vasculhar o passado de seus desafetos, fazendo o papel do diabo, o acusador.

Bem fariam se recordassem das célebres palavras de Jesus: “Quem com ferro fere, com ferro será ferido.” Desafio-os a desertar das fileiras bolsonaristas para ver o que lhes acontece. Se não pouparam alguns dos pilares de sua funesta campanha eleitoral baseada em mentiras, o que não farão a pastores que se arrependerem de negociar o evangelho transformando-o em discurso de ódio? Mas pelo jeito, isso está longe de acontecer. Enquanto o governo garantir que os interesses desses profetas palacianos sejam atendidos, dificilmente um deles se arrependerá. A consciência de muitos está cauterizada. Seus olhos, vendados. Seus ouvidos, tapados. Seus punhos cerrados, prontos a desferir contra os que se insurgem pela justiça e pela verdade. Enquanto pastores se associam ao desgoverno, vozes proféticas ecoam nas redes sociais através dos lábios e dos posts de pessoas como Felipe Neto, Gregorio Duvivier, Emicida e tantas outras.

O que me traz algum alento é saber que nem todo joelho se dobrou a este ídolo de carne e osso. Entre os pastores, há muitos comprometidos com o evangelho a ponto de arriscarem suas reputações. Poderia citar alguns nomes aqui, mas não o farei com receio de cometer alguma injustiça. Minha esperança é de que a igreja evangélica brasileira sobreviva a estes tempos odiosos, fazendo coro com os que clamam por justiça e não com os que alimentam o ódio e o preconceito.

sexta-feira, julho 31, 2020

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A SANTA CEIA ONLINE É MESMO VÁLIDA?



Por Hermes C. Fernandes

Há exatos dez anos, ocorreu-me a ideia de lançar uma celebração da Ceia estritamente online. Compartilhei-a com um amigo, dono de um site de apologética cristã, que, inicialmente, demonstrou grande entusiasmo, mas depois de alguns dias, declinou. Segundo ele, a ideia tinha relevância, mas a igreja evangélica brasileira não estava preparada. Se nos atrevêssemos a lança-la, certamente sofreríamos duras críticas.

Uma década depois, devido à pandemia, boa parte das igrejas resolveu aderir à celebração eucarística virtual.

A princípio, minha preocupação era com os milhares de fiéis dispersos mundo afora, desigrejados em busca de comunhão. Hoje, todavia, a ceia online atende a uma demanda muito maior. Apesar disso, muitos insistem em criticar, descredibilizando a celebração, chamando-nos, ora de hereges, por não encontrarem fundamentação bíblica para o ato, e ora de covardes por aderirmos à quarentena, evitando, assim, a exposição de nossos irmãos ao vírus.

Talvez não entendam que certas situações nos impulsionam a adequar os ritos de nossa espiritualidade. Não que tais adequações sejam ideais, porém, mostram-se necessárias em tempos como os nossos.

O povo hebreu teve que se contentar com uma tenda portátil como lugar de adoração durante sua travessia no deserto. O salmista se refere às experiências obtidas naquelas circunstâncias como “um banquete no deserto” (Salmos 78:19). Deus supriu o Seu povo tanto física, quanto espiritualmente.

Ora, se é possível que tantos se alimentem espiritualmente através dos artigos e vídeos postados nas redes sociais, por que não poderíamos dar um passo além, usando o espaço cibernético para oferecermos uma comunhão mais estreita e efetiva? Lembremo-nos da pergunta feita por Deus: "Sou eu apenas Deus de perto, diz o Senhor, e não também de longe?" (Jer.23:23).

O que nos impediria de promover uma Mesa Real através do mundo virtual? Por que não usar a internet como um ponto de convergência, onde milhares de cristãos espalhados pelo mundo pudessem se reunir a um só tempo para participar desta Mesa?

Alguns poderão objetar alegando que não seria possível uma comunhão à distância. Porém, nossa comunhão transcende o tempo e o espaço. Por isso Paulo pode afirmar: "Pois ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo em espírito estou convosco, regozijando-me, e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo" (Cl.2:5). Se por epístola era possível tal comunhão à distância, imagine por internet. Ademais, independentemente de onde estejamos geograficamente, em Cristo estamos todos assentados nas regiões celestiais (Ef.2:6).

A internet que tem sido usada para disseminar todo tipo de preconceito, discurso de ódio, fake news, pornografia, pode se converter num poderoso instrumento para agregar os filhos de Deus dispersos pelo mundo. Assistiremos, emocionados, ao cumprimento da palavra que diz: "Onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm.5:20).

É notório que o número de desigrejados cresce dramaticamente. E quanto mais se afastam da Ceia do Senhor, mais fracos se sentem. Infelizmente, em muitas comunidades, a celebração da ceia é um momento pesado, traumatizante, em que se apela à culpa e não à comunhão de amor. É triste constatar isso, mas é a mais pura verdade. Mas quando participarmos de uma Mesa onde somos encorajados a partilhar nosso pão e a acolher e amar o nosso próximo, sem preconceito, nem restrição de qualquer ordem, sentimo-nos fortalecidos em nossa comunhão com a divindade e com os nossos irmãos.

Cristo instituiu a Ceia como uma ordenança em substituição à Páscoa Judaica, estabelecendo-a como um meio pelo qual somos expostos à ação da graça fortalecedora. Privar-se dela é deixar de honrar e obedecer à ordem de Jesus que disse: "Fazei isto em memória de mim ATÉ QUE EU VENHA!"

A Mesa é do Reino, isto é, não pertence a uma denominação particular. Cada membro do Corpo de Cristo é bem-vindo. Basta providenciar os elementos que a compõem, pão e vinho (ou se preferir, suco de uva), e participar da celebração, ouvindo a mensagem, orando e louvando juntamente conosco, e por fim, ingerindo-os num mesmo espírito de adoração e amor.

Não queremos que a Ceia Online substitua a celebração congregacional. Aconselhamos a que todos busquem congregar, e a participar da comunhão do Corpo de Cristo juntos a outros irmãos. Nossa intenção é promover a convergência daqueles que por algum motivo estão impossibilitados de congregar, sobretudo, durante esta pandemia. Mas devo avisar que, mesmo após a quarentena, pretendemos continuar a transmitir nossas ceias pelas redes sociais para que ninguém seja privado da comunhão do corpo e do sangue de Jesus. Muitos se afastaram de suas comunidades por não concordarem com o posicionamento político de seus líderes, e não se identificaram com igreja alguma próxima de sua residência. Minha orientação a estes queridos irmãos é que não deixem de congregar. Ainda que virtualmente. Congregar não tem a ver com espaço físico, mas com sintonia de espírito e coração. Se desejar congregar conosco, sinta-se em casa. Considere-se parte de nossa comunidade REINA (Rede Internacional de Amigas e Amigos).

Neste próximo sábado, dia 1º de Agosto, 19h., teremos mais uma celebração da Mesa do Senhor. Você e sua família são os meus convidados. Prepare os elementos e o seu coração para um momento singelo e único na presença de Deus e na companhia daqueles que o amam tanto como você.

“Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto.” Efésios 2:13

AUSENTES NO CORPO, PRESENTES NA COMUNHÃO!

Instagram: @hermescfernandes
Facebook: @HermesFernandesReal

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JESUS, O DONO DA BOCA!



Por Hermes C. Fernandes

“Levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram”, foi a resposta dada aos prantos por Maria Madalena aos anjos que a abordaram diante do túmulo vazio (João 20:13). Desde então, aqueles que se acham detentores da verdade o têm colocado nos mais inusitados lugares. Nos últimos anos, já o colocaram em slogan de campanha eleitoral, em fachada de edifícios comerciais transformados em igrejas, transformaram seu nome em propriedade intelectual, e por fim, como se não bastasse atribuir-lhe a propriedade do Brasil, picharam seu nome em muros e paredes de favelas do Rio de Janeiro. Não me refiro ao popular “Jesus salva”, ou ao “Só Jesus expulsa demônios das pessoas”, mas ao “Jesus é o dono da boca.” O que esta frase parece indicar? Seria meramente um jogo de palavras como o do cantor e pastor Waguinho (ex-pagodeiro) na canção em que coloca nos lábios do próprio Jesus “Eu sou o dono da boca”?  Ou ela indicaria algo além da convivência amistosa entre o tráfico de drogas e as igrejas evangélicas nos morros do Rio de Janeiro?

A julgar pelas últimas notícias, a convivência pacífica pode ter cedido à conveniência, que em alguns casos, beira a conivência.

Em plena pandemia, a quadrilha de um traficante de drogas tem invadindo comunidades na Zona Norte da cidade, para criar um novo complexo de favelas chamado de “Complexo de Israel”.
Para impor o seu domínio, o traficante que se diz evangélico, proíbe os moradores de praticarem qualquer outro credo, removendo símbolos católicos dos lugares públicos e ordenando o fechamento de centros de culto de matriz africana.

Peixão, como é conhecido, se intitula entre os criminosos como Arão, irmão de Moisés. Seu braço direito no crime se chama Jeremias, e sua quadrilha é chamada de “Tropa do Arão” e “exército do Deus vivo.” Os muros da região são pintados com versículos bíblicos, símbolos de peixes e bandeiras de Israel.

O traficante responde na Justiça por um ataque a um terreiro de candomblé, em abril de 2019, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O centro ficou destruído. O babalorixá e os filhos de santo foram expulsos da casa. No muro, os criminosos picharam: “Jesus é o dono do lugar”.

Como explicar este fenômeno sem apelar a um discurso elitista e hipócrita de combate às drogas?
Fato é que as igrejas mais presentes nessas comunidades são as pentecostais e as neopentecostais, cujo discurso sofre influência direta de movimentos evangélicos norte-americanos que apelam ao caráter mítico de Israel como o povo escolhido de Deus, e se inspiram em relatos bélicos tão presentes no Antigo Testamento. Pouco se fala sobre a graça, o perdão, o amor, a ética do reino de Deus, a justiça social, e outros temas tão caros ao evangelho. Mas fala-se muito de vitória contra os inimigos, conquista de territórios, prosperidade, etc.  Não quero aqui generalizar, tampouco desmerecer o importante trabalho que estas igrejas fazem nas comunidades, mesmo porque, sou filho e neto de pastores pentecostais que dedicaram suas vidas a levar o evangelho aos mais necessitados.

Muitos dos jovens integrantes dessas fações são oriundos de lares evangélicos. Mesmo no crime, mantêm o respeito e a reverência pela fé de seus pais. Alguns deles não vêem qualquer contradição entre o crime e o credo que dizem professar.

Por outro lado, há pastores que não se constrangem de receber dízimos e ofertas de quem vive da venda de entorpecentes e da prática de roubos e assaltos. Alguns se prontificam até a ungir armas e a consagrar “bocas de fumo” para que sejam cercadas e protegidas por anjos enviados por Deus. Pelo menos, eles têm a garantia de que ninguém vai mexer com a igreja, nem interferir em suas atividades.
Cantores evangélicos de renome são convidados para se apresentarem em shows bancados pelo tráfico. Pastores são convidados a falar e a orar durante bailes funks. Tudo na mais “perfeita paz”.
Muitos dos integrantes dessas facções acabam aderindo ao movimento evangélico, mas sem esboçar qualquer conversão genuína que os faça abandonar a prática criminosa. Quem se atreveria a confronta-los?

A lógica que permeia a relação entre o tráfico e a igreja evangélica é bem similar a que permeia a relação entre a igreja e a política. Se a igreja se promiscui com os poderes constituídos, por que não se promiscuiria com o poder paralelo? Se mega-igrejas se vendem por cargos, comissões e concessões de rádio e TV, o que impediria as igrejas da periferia a se venderem por proteção?
O “Jesus” que está sendo negociado no submundo da criminalidade é o mesmo que vem sendo negociado nos corredores do poder. Mas este, definitivamente, não é o Jesus buscado por Maria Madalena. “Ele não está mais aqui”, respondeu o anjo. “Ele ressuscitou!”

Jesus não cabe nos sepulcros caiados da religião cristã. Nem tampouco é levado de um lado para o outro, conforme os interesses de quem diz possuí-lo. Nem mesmo Maria Madalena conseguiu detê-lo. Seu lugar é à destra do Pai e no coração de todos que o buscam no outro, em quem Ele decidiu ser amado. Não há ideologia que O comporte. Não há dogmas que O confinem. Ele não está acima de tudo, mas no meio de nós. Acima apenas de nossas pretensões e presunções.

quinta-feira, julho 23, 2020

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O QUE A BÍBLIA DIZ SOBRE O ARMAMENTO DA POPULAÇÃO



Por Hermes C. Fernandes

O Brasil está entre os cinco países com maior número de feminicídios no mundo, cerca de 315 mil estupros estimados em menores de 15 anos, o país que mais mata LGBT, e também o país com maior número de casos de depressão da América Latina. Em nenhum outro país, a flexibilização da posse de arma de fogo como forma de combate a violência teve resultados positivos.

Para quem já viveu nos EUA e testemunhou um tiroteio na vizinhança da escola em que estudavam seus filhos, em que um dos seus colegas tirou a vida dos próprios pais, é lamentável ver que isso agora poderá ocorrer no Brasil com frequência cada vez maior.

Seria a Bíblia favorável ao armamento da população? E o que diria Jesus acerca disso? Dar ao cidadão comum o direito de possuir ou portar uma arma coibirá ou estimulará ainda mais a violência?

Pasmem, mas boa parte dos que se apresentam como seguidores de Jesus, o maior pacifista de todos os tempos, é favorável não apenas à posse, como também ao porte e uso de arma de fogo por parte do cidadão comum.

Tal postura se deve em muito ao fato de que muitas das denominações evangélicas brasileiras terem suas raízes nos Estados Unidos, país reconhecido como o de maior distribuição per capita de armas.

Pregadores sacam versos bíblicos para defender o armamento da população com a mesma rapidez com que pistoleiros sacavam suas armas num duelo no velho oeste.

De todas as passagens usadas, a considerada a “bala de prata” é, sem dúvida, a encontrada em Êxodo 22:2-3:

“Se um ladrão for achado arrombando uma casa e, sendo ferido, morrer, quem o feriu não será culpado do sangue. Se, porém, já havia sol quando tal se deu, quem o feriu será culpado do sangue; neste caso, o ladrão fará restituição total, mas, se não tiver com que pagar, será vendido por seu furto.”

Segundo eles, esta passagem autoriza o uso da arma para a defesa da propriedade, bem como da família. O que eles parecem desconsiderar é que tal concessão fora feita a um povo nômade em vias de se estabelecer numa terra sem lei, onde não havia qualquer tipo de policiamento, nem código penal, nem mesmo um governo organizado. Em outras palavras, era cada um por si. Ademais, se é para cumprir o mandamento ao pé da letra, sugiro que não usem a arma para matar, apenas para ferir, e que o façam à noite, jamais à luz do dia, e que, por fim, vendam o ladrão como escravo para pagar eventuais prejuízos.

Se a bala de prata falhar, os teólogos-pistoleiros recorrem à que poderia ser considerada a "bala de ouro". Afinal de contas, é o próprio Jesus que lhes dá munição. A passagem está registrada em Lucas 22:35-36:

“Então Jesus lhes perguntou: Quando vos mandei sem bolsa, sacolas de viagem, ou sandálias, faltou-vos alguma coisa? Responderam eles: Nada. Disse-lhes: Pois agora aquele que tiver bolsa, tome-a, como também a sacola de viagem; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre uma.”

Quem ousaria contestar Jesus? Foi Ele mesmo quem, não apenas autorizou, mas ordenou que Seus discípulos comprassem armas. Lembre-se de que a espada era a arma mais letal daquela época, equivalente hoje a uma arma de grosso calibre. Mas antes que cheguemos a uma conclusão precipitada, que tal lermos o verso seguinte?
“Digo-vos que é necessário que se cumpra em mim o que está escrito: com os malfeitores foi contado...”

Numa época em que levantes populares eram frequentes, ao portar uma arma, um judeu estava transgredindo uma lei romana e, portanto, era considerado um malfeitor, um fora-da-lei.

Apesar de ordenar o porte de arma aos seus discípulos naquele momento específico, Jesus não autorizou o seu uso. Pelo contrário. Quando Pedro quis dar uma de valentão, puxando da espada e ferindo um servo do sumo-sacerdote que estava na comitiva que vinha prender seu mestre, Jesus o repreendeu: “Guarda a tua espada, pois todos os que usarem a espada, à espada morrerão. Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e ele me mandaria imediatamente mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras que dizem que assim deve acontecer?” (Mateus 26:52-54).

A razão pela qual os discípulos deveriam estar armados era a mesma pela qual não deveriam fazer uso de suas armas: o cumprimento das Escrituras.

Jamais foi propósito de Cristo endossar o porte, tampouco o uso de armas, mesmo sendo para autodefesa.

Paulo, o apóstolo dos gentios, declara que “embora vivendo como seres humanos, não lutamos segundo os padrões deste mundo. Pois as armas da nossa guerra não são terrenas, mas poderosas em Deus para destruir fortalezas! Destruímos vãs filosofias e a arrogância que tentam levar as pessoas para longe do conhecimento de Deus, e dominamos todo o pensamento carnal, para torna-lo obediente a Cristo...” (2 Coríntios 10:3-5 NVI). Em Romanos 13:12, ele diz que “a noite é passada, e o dia é chegado”, razão pela qual devemos rejeitar “as obras das trevas” e nos vestir “das armas da luz.” O arsenal de que dispomos é infinitamente mais eficiente do que qualquer armamento bélico. A única espada que devemos empunhar é a espada do Espírito que é a Palavra de Deus (Efésios 6). O resto, deixemos por conta das autoridades constituídas para prover nossa segurança. Se as políticas de segurança pública estão falhando, façamos uso de outra arma legítima e poderosa: o voto.

Armar a população não vai resolver o problema, mas poderá agravá-lo substancialmente.

Nos Estados Unidos, por exemplo, pode-se comprar armas de fogo em supermercados como o Walmart. Não é á toa que, vire e mexe, ocorrem tiroteios em escolas e faculdades. Imagine o povo latino, passional como é, tendo acesso às armas facilitado. Imagine alguém que numa briga de trânsito, em vez de contentar-se em xingar, resolve recorrer à arma guardada em seu porta-luvas.

O deputado Peninha (PMDB-SC), integrante das bancadas "da Bíblia" e "da Bala" é autor de um projeto de lei que pretende aumentar a circulação e o uso de armas no país. Recentemente, o parlamentar fez um post assustador, com a imagem de um revólver em cima de uma Bíblia com a seguinte legenda: "Bandido bom é bandido morto". Quanto cristianismo numa única imagem!

Onde é que foi parar o “não matarás”?  Como conseguiram suprimir os mandamentos de Jesus de que devemos amar nossos inimigos, oferecer a outra face, abençoar os que nos perseguem?

Alguns argumentam que enquanto a população for mantida desarmada, os bandidos farão a festa. Então, em vez de desarmar a bandidagem, a saída é armar o restante do povo? Vamos apagar fogo com fogo? Como garantir que os bandidos se inibiriam diante de uma população armada? Se eles não se inibem nem diante de policiais exaustivamente treinados para combate-los, por que se inibiriam diante de um chefe de família qualquer? Talvez isso fizesse com que mudassem a abordagem e já chegassem atirando, antes que pudesse haver uma reação.

O que nossa sociedade precisa é de desarmar seu espírito, de modo que possa entender que ninguém nasce bandido. O crime é resultado da injustiça predominante na sociedade. Onde há menos injustiça social, o índice de criminalidade é menor.

Em vez de munir a população com extintores para apagar o incêndio, não seria melhor impedir que o incêndio acontecesse? Medidas preventivas costumam ser mais efetivas do que paliativos usados para remediar.

Por essas e outras que digo não ao armamento. Que a espada esteja nas mãos de quem possua competência para manejá-la e não nas mãos de qualquer um que possa machucar a inocentes e a si mesmo.

quarta-feira, julho 22, 2020

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DISTANCIAMENTO SOCIAL - A justificativa perfeita para se afastar de quem se quer distância



Por Hermes C. Fernandes 

Todos anelamos pelo fim desta pandemia, porém, para alguns de nós, o distanciamento social não é apenas uma medida preventiva para coibir o avanço do vírus, mas também uma boa justificativa para nos manter afastados de algumas pessoas, principalmente das que consideramos tóxicas e daquelas das quais guardamos alguma mágoa.

O que impede que certas feridas se cicatrizem são os atritos constantes. Nada melhor que um distanciamento terapêutico que ofereça o tempo e a paz necessários para a sua plena cicatrização.

Uma situação semelhante vivida por Paulo é descrita em suas epístolas aos Coríntios. A igreja iniciada por ele, via-se dividida entre sua lealdade a Paulo e a Apolo. O primeiro foi quem a conduziu durante seus primeiros passos, porém, teve que se afastar para seguir em sua vocação apostólica, levando o evangelho a outros rincões. O segundo era quem o substituíra, cuidando, ensinando e liderando aquela comunidade em sua adolescência espiritual. Por mais que Paulo explicasse que cada um deles tinha um papel a desempenhar, e que não fazia sentido manter os ânimos acirrados, eles insistiam na polarização, promovendo, assim, um ambiente repleto de disputas, disse-me-disse, ciúmes e hostilidades mútuas. A coisa chegou a tal ponto que Paulo percebeu que sua presença ali só agravaria a situação. Por isso, enviou-lhes uma carta, em que, entre outras coisas, anunciou-lhes a decisão de não lhes visitar, pelo menos, não naquele momento.

“Resolvi, por isso, não lhes fazer outra visita que vos causasse tristeza” (2 Coríntios 2:1). Que sentido faz oferecer nossa presença àqueles que a consideram motivo de tristeza? Seria como cutucar uma ferida ainda aberta, infeccionando-a e retardando a sua cicatrização. Para todos os efeitos, sua ausência momentânea seria uma medida preventiva e terapêutica.

“Se eu vos entristeço”, explica o apóstolo, “quem é que me alegrará, senão aquele que por mim foi entristecido?” (v.2). O que poderia ser prazeroso se tornara penoso para ambos os lados. Como se sentir alegre ao se perceber como o motivo da tristeza de quem se ama?

Aquela carta era uma tentativa de prepara-los para uma eventual reaproximação. Paulo buscava pavimentar o caminho para que, ao visita-los, eles finalmente o recebessem com a alegria com que esperava ser recebido.

“Pois em muita tribulação e angústia de coração vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que vos entristecêsseis, mas para que conhecêsseis o amor que abundantemente vos tenho” (v.4). Não é nada fácil transmitir com exatidão o que se sente através do que se escreve. A letra é fria. Dependendo do estado de espírito de quem lê, o que se ensejou comunicar se perde por completo, sendo interpretado de maneira inversa ao pretendido. Enquanto lemos, imaginamos como aquilo seria dito pessoalmente, que tom de voz seria usado, que semblante encontraríamos esboçado no rosto de nosso interlocutor, e assim, um afago acaba sendo interpretado como uma ironia, um conselho soa como uma exortação ríspida, um comentário sincero como um sarcasmo, etc. Por isso, Paulo fez questão de descrever como se sentia enquanto escrevia aquelas linhas, pois queria que seus leitores percebessem o quanto ele os amava, e o quanto se entristecia com tudo aquilo.

Paulo também percebe que entre eles havia uma terceira pessoa, alguém que vantagem da situação, causando tristeza tanto nele, quanto em seus filhos na fé. “Se alguém me entristeceu, não entristeceu só a mim, mas (para que não seja por demais severo) a todos vós” (v.5). Que medida tomar acerca deste? A princípio, Paulo diz que o tal deveria ser repreendido pela maioria e que isso deveria ser o suficiente para que caísse em si e percebesse o mal que fazia a ambos. Mas, de repente, Paulo dá uma pausa, respira fundo, e diz: “Pelo contrário, deveria antes PERDOAR-LHE e CONSOLÁ-LO, para que o tal não seja de modo algum consumido por demasiada tristeza” (v.7). Repare nisso: Paulo não está preocupado apenas com a situação entre ele e os coríntios, ou entre ele e Apolo, mas também com aquele que promovia a intriga por trás dos bastidores. Para o apóstolo, ele também era vítima. Vítima de si mesmo. Ninguém, absolutamente ninguém, ganhava com aquilo. Por isso, o melhor caminho para apagar o incêndio era o perdão seguido de consolação. Não basta apagar o incêndio. Um palito de fósforo molhado não poderá ser usado para reacender um fogo que se extinguiu.  Ao perdoar, apagamos o fogo. Mas ao consolar, evitamos que ele seja aceso novamente.

Num cenário ideal, todos ganham. Todos saem alegres e satisfeitos. Nossa alegria só será completa quando for desfrutada pelos demais.

Quando este cenário foi alcançado, já não precisaremos nos distanciar de ninguém. Nossa presença deixará de ser um insulto ou um estorvo, e voltará a ser motivo de alegria e contentamento.

Não dá para evitar episódios tristes, mas é plenamente possível impedir que os tais gerem “demasiada tristeza” a ponto de consumir ao outro, sugando  toda a sua energia e vontade de viver. Há tristezas e tristezas. Nesta mesma carta, Paulo reconhece que havia causado alguma tristeza no coração dos coríntios quando lhes escreveu pela primeira vez. Ele chega a dizer que, de primeira mão, sentiu-se arrependido do que lhes disse anteriormente por ver o quanto aquilo os entristeceu. Porém, ao constatar os frutos práticos daquela tristeza momentânea, já não se arrependia mais. Era como se ele se arrependesse de haver se arrependido. Vale a pena conferir sua explicação:

“Agora, porém, me alegro, não porque fostes entristecidos, mas porque fostes entristecidos para o arrependimento. Pois fostes entristecidos segundo Deus, de maneira que por nós não fostes prejudicados em coisa alguma. A tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, mas a tristeza do mundo opera a morte. Quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós, que segundo Deus fostes entristecidos!” (2 Coríntios 7:9-11a).

A tristeza “segundo Deus” é sempre na medida certa. Nunca é demasiada, empurrando-nos para o abismo.

O fato de amarmos a alguém não nos impedirá de, eventualmente, causar-lhe alguma tristeza momentânea. Principalmente, se tivermos que confrontá-lo para que caia em si e perceba em quê está se metendo. O problema é quando erramos na mão, e em vez de perdoá-lo e consolá-lo, tornamos a tristeza que causamos em um fim em si mesmo. Sentimo-nos realizados, vingados, compensados por toda a tristeza que ele antes nos causou. E assim, o que poderia ser restaurado, é danificado para sempre.

Paulo arremata afirmando que o perdão seguido de consolação é a maneira de confirmarmos o nosso amor. Não basta sentir-se bem novamente acerca de algo. Há que se promover o bem comum entre as partes.  Não basta que a ferida seja tratada em mim. Ela deve ser igualmente tratada no outro, de maneira que, nem a sua presença me acarrete incômodo algum, nem a minha presença a ele.  Assim, o ciclo da mágoa deixará de se retroalimentar, sendo quebrado para sempre.