terça-feira, janeiro 17, 2017

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Menos queixo para cima, Ana Paula Valadão!





Revelyn Fernandes

Um desabafo.... Tenho perdido a esperança nessas estrelas que juntam milhares de pessoas pra falar coisas que fazem mal, trazem culpa, deixam a nossa cruz mais pesada. Como se não fosse suficiente sofrer de depressão, você tem que ouvir de uma mulher dessa que você simplesmente não pode sentir isso porque precisa segurar a coroa? Sério, essas pessoas não tem um mínimo de compaixão pela dor e sofrimento do outro? Além de falar que mulher tem que ser submissa, mansa e etc sem pensar que por causa desse pensamento engessado e conivente com o abuso sexual/psicológico, mulheres apanham e morrem caladas! Isso não é questão de FEMINISMO ou de IDEOLOGIA, isso é questão de compaixão! É acolher a dor do outro e dar valor pra ela. Jesus ensina a chorar com os que choram! Jesus também sofreu uma depressão ou você acha que o suar sangue no dia do Getsêmani foi puro milagre? 

Agora vemos a lista que a cantora como colocou como IDENTIDADE FEMININA: Curada, formosa por dentro e por fora, bonita, inteligente, sabia, humilde, submissa, mansa, obediente, respeitadora, encorajadora, perdoadora, pacificadora, fiel, honesta, bondosa e generosa, decidida, ousada, corajosa. Ora, jejua, mulher fervorosa, mulher virtuosa, maravilhosa. Me diz se isso não é pura maldade conosco? Ninguém é perfeito! Mulher também sente medo, raiva, magoa... Eles não conseguem entender que criando esse PERFIL (nada realista de mulher) estão apenas adicionando razões pra sofrermos? Ou você mulher que nunca sofreu ao ouvir que você precisa orar e ter paciência quando seu marido trai? Você mulher nunca sentiu medo quando descobriu aquela gravidez para o qual você não estava preparada? Nunca sentiu triste quando chegou na igreja com a auto-estima baixa e um irmão olhou pra você e disse "tá gordinha hein, precisa jejuar"? 

Irmãzinha, é normal sofrer! Você não é uma rainha distante no seu castelo vendo todas as coisas de cima onde não pode ser atingida. Se você chorar, conte comigo pra chorar com você! Se você estiver em depressão, conte comigo e se cuide. Se está sofrendo, não sofra calada... compartilhe e juntas seremos mais fortes pra passar por isso! Em Cristo somos uma só igreja e igreja é comunidade! Você é humana, você é mulher! Viva sim sua IDENTIDADE mas viva a identidade que você construiu com as suas experiências. E seja feliz! Longe dessas palavras que machucam, que corroem, que adicionam peso desnecessário nas suas costas! 

FOI PARA A LIBERDADE QUE CRISTO NOS LIBERTOU (Gálatas 5:1) E me pergunto: até quando Deus vai deixar essas pessoas tratarem o seu povo de forma tão apática?


* Revelyn Fernandes é minha filha caçula e cursa psicologia na Universidade Federal Fluminense (UFF).

quarta-feira, janeiro 11, 2017

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Não há luz, sem que haja ardor!



Hermes C. Fernandes


Uma das figuras que mais me intrigam nas Escrituras é João Batista, o primo excêntrico de Jesus. Quanto mais leio sobre ele, mais me identifico com sua história. Dentre os testemunhos que Jesus dá acerca do último dos profetas da Antiga Aliança, chama-me a atenção aquele em que diz:“João era a lâmpada que ardia e iluminava, e vós escolhestes alegrar-vos por algum tempo com a sua luz” (João 5:35).


Repare num detalhe: Para iluminar, a lâmpada tem que arder!

Havia algo apaixonante em João, que exercia atração sobre as pessoas, a ponto de deixarem o conforto de seus lares para ouvi-lo no deserto, um dos mais inóspitos ambientes da terra. As pessoas sentiam-se atraídas como mosquitos atraídos pela luz.

Jesus disse que somos a luz do mundo. O problema é que queremos iluminar sem arder. Somos uma geração apática, sem fogo, sem paixão. Não me refiro àquela paixão incitada por melodias melosas, mas uma paixão consciente pela verdade e pela possibilidade de transformação do mundo.

Embora João jamais tenha realizado qualquer milagre, Jesus não hesitou considerá-lo o maior expoente dentre os profetas. Maior que o próprio Elias, que fez descer fogo do céu por diversas vezes. Maior que Moisés, o Legislador de Israel, que dentre muitos milagres, fez abrir o Mar Vermelho para que os hebreus escapassem do exército egípcio. Para Jesus, João não foi apenas o maior dos profetas, mas o maior de todos os homens:

“Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista; contudo, o menor no reino dos céus é maior do que ele” (Mt.11:11).

Com João, encerrava-se uma Era. Ele era como “o último dos Moicanos”. Cristo vinha anunciar a Era do Reino de Deus. E o menor dos cidadãos do Seu Reino, poderia ser considerado maior que João. Ora, somos os cidadãos do Reino de Deus. Por que deveríamos ser considerados maiores que João? Para respondermos a esta pergunta, teremos que compreender melhor a diferença entre as duas alianças, a do Monte Sinai e a do Monte Gólgota.

Paulo diz que Deus “nos fez capazes de ser ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Co.3:6). A letra em questão é uma alusão às tábuas da Lei, recebidas por Moisés no Monte Sinai.

João era ministro da Velha Aliança. Nós somos ministros da Nova Aliança. A Lei foi chamada de “ministério da morte, gravado com letras em pedras”. De fato, ela veio “em glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos na face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, ainda que desvanecente” (v.7). Preste atenção neste detalhe: a glória revelada no rosto de Moisés era desvanecente, isto é, fugaz, passageira, que estava destinada a diminuir gradativamente.

Era esta a glória do ministério dos profetas, inclusive de João.

O texto sagrado diz que Moisés, ao descer do Monte, teve que cobrir sua face por causa da glória que nele resplandecia. Muitos acreditam que tal medida foi necessária para que os filhos de Israel pudessem olhar para ele. Porém Paulo nos revela a verdadeira razão:

“E não somos como Moisés, que punha um véu sobre a sua face para que os filhos de Israel não fitassem o fim daquilo que desvanecia” (v.13).

Moisés percebeu que à medida que descia do Monte, a glória diminuía. O que os filhos de Israel pensariam disso? Para encobrir-lhes tal realidade, o profeta preferiu usar um véu. Em contraste com essa glória desvanecente, a glória da Nova Aliança é permanente e definitiva (v.11). Por isso, não precisamos cobrir nossa face.

João compreendeu perfeitamente isso, quando disse acerca de Jesus: “Convém que Ele cresça, e eu diminua”. Uma glória se esvai para que a outra venha em caráter definitivo. Porém, ambas devem produzir ardor em seus expoentes.

Para iluminarmos, isto é, para resplandecermos a glória de Deus em nossas vidas, nosso coração deve arder como ardia o coração dos discípulos que encontraram Jesus à caminho de Emaús.

Há, entretanto, uma diferença entre o arder da Antiga Aliança, e o arder da Aliança Definitiva.

No primeiro encontro que Moisés teve com Deus no deserto, ele avistou uma sarça que ardia, porém não se consumia (Êx.3:2). E foi justamente isso que o atraiu à sarça. Quando a glória se foi, a sarça se manteve intacta.

Da mesma maneira, a glória da Antiga Aliança mantinha intacta a natureza humana. Por isso, ela desvanecia. O ego humano não lhe servia de combustível. Já na Nova Aliança as coisas são bem diferentes. Nosso “eu” não pode ser poupado. Basta olhar para Paulo, que considerava que se “eu” estava crucificado com Cristo. Em 2 Coríntios 12:15, ele diz:

“Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado.”

Portanto, a chama que deve arder em nós e nos consumir é o AMOR. E para iluminar os que estiverem à nossa volta, não poderemos nos poupar. Não há como nos manter intactos, enquanto a chama do Espírito arde em nós. Sua glória consome nosso orgulho, nossa presunção, nossa vaidade, de maneira que já não vivamos mais, mas Cristo viva através de nós (Gl.2:20).

Somos ofuscados pela glória, de forma que quem fitar em nós, em vez de nos ver, verá a glória de Cristo em nós. Interessante notar que a glória resplandecente no rosto de Moisés foi escondida sob o tecido de um véu. Já a glória que resplandeceu no rosto de Jesus durante a Sua transfiguração, fez com que o tecido que cobria todo o Seu corpo fosse igualmente transfigurado (Mt.17:1-8).

Assim também, a glória colocada em nós deve tocar e “transfigurar” toda a realidade à nossa volta. Isso inclui a cultura, a educação, a ciência, e tudo mais.

Nada escapa do escopo dessa glória. Embora lá estivessem Elias e Moisés, dois dos maiores ícones da Antiga Aliança, quando os discípulos fitaram seus olhos, a ninguém mais viram, a não ser Jesus. Seus corações ardiam tanto, que Pedro chegou a sugerir que se construíssem ali três tabernáculos. Porém, não se pode circunscrever a glória em alguns metros quadrados, e nem tentar contê-la por um espaço de tempo. A glória da Nova Aliança não pode ser contida por tabernáculos, nem escondida sob véus. Seu destino é encher todo o Cosmos, a fim de transfigurá-lo.

Que esta chama continue ardendo em nós, e nos consumindo, conduzindo-nos de glória em glória, até a manifestação final, o Dia Perfeito.

"A vereda dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito" (Pv.4:18).

Os contemporâneos de João escolheram alegrar-se por algum tempo com a sua luz (Jo. 5:35).Nós, porém, fomos escolhidos para nos alegrar eternamente com a Luz do Novo Dia, um dia que jamais terá fim.

terça-feira, janeiro 10, 2017

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PERIGO: Pastores Psicopatas



Por Hermes C. Fernandes

Uma das profissões que mais atraem psicopatas é a de pastor. Pelo menos, segundo os estudos do psicólogo Kevin Dutton, autor do livro “A Sabedoria dos Psicopadas: O que santos, espiões e assassinos em série podem nos ensinar sobre o sucesso”. Dutton conta que psicopatas nem sempre são pessoas conturbadas como muitos acreditam. “Quando psicólogos falam sobre o termo psicopatia, eles se referem às pessoas que têm um conjunto distinto de características de personalidade, que incluem itens como destemor, crueldade, capacidade de persuasão e falta de consciência e empatia”.

Geralmente, os psicopatas são dotados de charme, simpatia, carisma, capazes de impressionar e cativar qualquer pessoa com invejável destreza. Ninguém imagina que por trás de seu jeito educado, inofensivo e gentil se esconde alguém desprovido de consciência, capaz de atitudes cruéis e desumanas.

Um pastor psicopata assume uma personagem performática quando sobe ao púlpito. É capaz de encenar os papéis mais dramáticos como se estivesse num teatro. Em questão de segundos, transita entre a tragédia e a comédia, provocando lágrimas e gargalhadas com a mesma desenvoltura. Mas tudo não passa de fachada para disfarçar sua astúcia.

Não se trata de um louco varrido, mas de alguém que vive na fronteira entre a sanidade e a loucura, mas sem perder o controle. 

Suas maiores habilidades são mentir, enganar, ludibriar, trair, sem sequer sentir-se culpado ou envergonhado. Trapaceiam, difamam, traem, abusam de autoridade, roubam, e sentem-se confortáveis com isso. A única coisa que não admitem é serem desmascarados. Não pela vergonha que passariam, mas porque isso os impediria de continuar enganando.

Cinicamente, se aproveitam da dor alheia para se locupletar. São verdadeiros predadores soltos na
sociedade à procura de pessoas vulneráveis que caiam em sua lábia.

Psicopatas gostam de ser o centro das atenções. Por isso, sempre buscam oportunidade para roubar a cena. Querem estar em evidência a qualquer custo. Ainda que isso custe o sofrimento de outros.

Algumas das principais características do psicopata são:

 1 – Carisma : Tem facilidade em lidar com as palavras e convencer pessoas vulneráveis. Por isso, torna-se líder com frequência. Seja na política, na igreja, no trabalho ou até na cadeia.

2 – Inteligência : O QI costuma ser maior que o da média: alguns conseguem passar por médico ou advogado sem nunca ter acabado estudado para isso.

3 – Ausência de culpa : Não se arrepende nem tem dor na consciência. É mestre em botar a culpa nos outros por qualquer coisa. Tem certeza que nunca erra.

4 – Vanglória: Vive com a cabeça nas nuvens. Mesmo que a sua situação seja de total miséria, ele só fala de suas supostas glórias. É do tipo que come sardinha e arrota caviar.

5 – Habilidade para mentir : Não vê diferença entre sinceridade e falsidade. É capaz de contar qualquer lorota como se fosse a verdade mais cristalina. Algumas vezes acredita em sua própria mentira.

6 – Egoísmo : Faz suas próprias leis. Não entende o que significa “bem comum”. Se estiver tudo bem para ele, não interessa como está o resto do mundo.

7 – Frieza : Não reage com sinceridade ao ver alguém chorando ou sofrendo.

8 – Parasitismo :  Quando consegue a amizade de alguém, suga até a medula.

Infelizmente, algumas destas características têm sido fartamente encontradas em líderes religiosos, vitimando milhares de pessoas com suas artimanhas.

Os pastores psicopatas se apresentam como líderes atenciosos, polidos, cheios de amor, porém, sua intenção é a pior possível. Por fora, sempre impecavelmente vestidos, beirando ao narcisismo. Por dentro, um trapo imundo. Por trás de seu carisma sedutor, um mentiroso contumaz, um manipulador calculista. Sempre agem prevendo a reação de quem pretendem vitimar. Para eles, a vida não passa de um tabuleiro de xadrez. Se alguém se puser em seu caminho, passam como rolo compressor, sem dó nem piedade.

Quem os vê chorar em suas performances de púlpito, não imaginam o ser frio que se esconde por trás daquela capa. Se flagrados, jogam com as palavras e os gestos para tentar inverter o jogo a seu favor. Sabem como se passar de vítima sem deixar rastro. Estão sempre cercados de cúmplices que se deixam ludibriar por seus convincentes argumentos, sendo capazes de colocar sua mão no fogo por seus líderes.

Cerque-se de todos os cuidados necessários. E não seja negligente com a sua família e aqueles a quem você ama. Todos podem estar correndo perigo. Ninguém jamais imaginou que Jim Jones fosse um psicopata que levaria mais de 900 fiéis ao suicídio de uma só vez. Portanto, antes de submeter-se a uma liderança, verifique seu histórico. Veja se tem o respaldo de sua família. Se não é adepto do emocionalismo barato e manipulador. 

Uma palavra aos líderes: seja prudente e não se precipite em ordenar alguém ao ministério. Observe-o exaustivamente. Verifique sua conduta em casa e fora da igreja. Cuidado para não colocar uma bomba relógio em posição de liderança na igreja. As estatísticas dizem que um em cada 25 brasileiros se enquadra neste perfil psicológico. Então, não custa nada redobrar a vigilância.

Aviso aos pais: adolescentes são sempre mais vulneráveis a este tipo de liderança extremamente carismática, mas sem escrúpulo e compromisso com a ética. Procure saber a quem seus filhos estão seguindo. Há casos em que pastores jogam os filhos contra os pais, exigindo deles absoluta obediência.

Não seja cúmplice de um pastor psicopata. Se verdadeiramente se importar com ele e seu séquito, tente convencê-lo a buscar ajuda psicológica. Se ele se recusar, denuncie-o. Antes que seja tarde demais.

domingo, janeiro 08, 2017

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O bem que a Graça faz ao próprio Deus



Por Hermes C. Fernandes

Você já parou pra pensar no bem que a graça faz ao próprio Deus? Para entender isso, precisamos antes compreender o mal que nosso pecado Lhe faz. Veja o que o próprio Deus diz por intermédio de Isaías:
“...me deste trabalho com os teus pecados, e me cansaste com as tuas iniquidades.” Isaías 43:24b
O pecado trouxe discórdia entre o homem e Deus, e afetou toda a criação. Para resolvê-lo, Deus teve que Se fazer um de nós, e arcar com as suas consequências. O que para nós é pura gratuidade, para Ele custou caríssimo. Portanto, não se trata de uma graça barata. Na sequência da passagem, Ele diz:
“Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro. Procura lembrar-me, entremos juntos em juízo; apresenta as tuas razões, para que te possas justificar.” vv.25-26
Ao assumir nosso lugar na Cruz, Ele passou uma borracha em todos os nossos pecados. E isso, não apenas por amor a nós, mas também por amor a Si mesmo. Ele não queria ter que carregar o peso dos nossos pecados em Sua lembrança para sempre. E ele ainda nos desafia: “Procura lembrar-me...”

Em outra passagem, Ele afirma:
“Desfiz as tuas transgressões como a névoa, e os teus pecados como a nuvem. Torna-te para mim, pois eu te remi.” Isaías 44:22
Não há quem possa refazer o que Deus desfez. Os arquivos celestes foram totalmente deletados. E não há hacker que consiga recuperá-los. Não há backups! Perderam-se para sempre. E se ousarmos tocar no assunto, Ele dirá: Não sei do que você está falando!

Para Deus, perdoar é esquecer: “Pois lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecados” (Jr. 31:34b). É isso que a graça faz! Apaga totalmente nosso passado, zera nossa quilometragem.

Desde o momento em que somos regenerados, os erros cometidos em nossa ignorância já não são levados em conta (At.17:30). Não interessa o quão terríveis tenham sido nossos pecados lá trás. Acabou! Já não se ouve seu eco.

Se pudéssemos puxar nossa ficha celestial, leriamos: NADA CONSTA!


Mas é aí que entra em cena o acusador de nossas almas. Ele já não nos pode acusar diante de Deus, como fazia até antes da Cruz. Porém, sabe como nos acusar perante o tribunal de nossa consciência. Sobre isso, João diz em sua epístola: “Se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que o nosso coração, e conhece todas as coisas” (1 Jo.3:20).

Não importa a sentença proferida por nosso coração. Maior é Deus em cuja Palavra se diz que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Rm.8:1). Prefiro crer no que diz a Palavra a crer no que diz o meu coração, sempre enganoso e incorrigível (Jr.17:9).

O problema é que Satanás tem seus mensageiros. Pessoas estrategicamente enviadas para nos relembrar o passado. Esses acham que podem curar a amnésia voluntária de Deus. Estão tentando ocupar o antigo emprego de Satanás na promotoria celeste.

Paulo teve que lidar com o tal mensageiro de Satanás, que vinha esbofeteá-lo, isto é, jogar na cara o seu passado. Depois de orar com insistência para que Deus lhe removesse aquele espinho na carne, o apóstolo ouviu dos lábios do Senhor: “A minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co.12:9).

A resposta é sempre a mesma: A GRAÇA!

Não temos que recorrer a sessões de CURA INTERIOR, nem nos submeter à manipulação psicológica. Nada de REGRESSÃO! Submeter o povo de Deus a isso é o mesmo que tentar ressuscitar o velho homem. Sem contar que é um insulto ao Espírito da Graça. Um ultraje ao Sangue precioso do Cordeiro de Deus.

Infelizmente, há muitos ministérios em nossos dias que são verdadeiros ministérios de condenação. Descobriram que as pessoas são ingênuas, e quanto mais as mantiverem sob o peso da culpa, mais facilmente as manipularão. Por isso, ensinam que as pessoas precisam relembrar pecados cometidos até na infância, para que sejam perdoadas e curadas. Isto é um absurdo, e um verdadeiro crime contra o rebanho de Deus.

Somos novas criaturas! Coisas velhas já passaram, e tudo se fez novo! (2 Co.5:17). Só avançaremos à medida que deixarmos para trás as coisas que para trás ficam (Fl.3:13). Deus não tem prazer em quem retrocede (Hb. 10:38-39).

E mais:

Que história é essa de que temos que perdoar a Deus?  Deus jamais pecou! Quem precisa de perdão é quem peca.

Quem olha para trás não é apto para o reino de Deus. A graça nos convoca a focar naquilo que está diante de nós. Ela nos impulsiona para o futuro.

Relembrar o passado só nos faz distrair do alvo.

Recuse-se a dar ouvidos a quem parece querer seu bem, mas no fundo, quer mesmo seus bens.

segunda-feira, janeiro 02, 2017

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Última parada antes do Paraíso!




Por Hermes C. Fernandes

Refidim era um oásis conhecido. Provavelmente havia em todos a expectativa de que lá chegando, sua sede seria saciada. Porém, para a surpresa de todos, não havia água em Refidim (Êx.17:1). “Refidim” significa “Lugares de Descanso”, ou ainda, “Lugares de Refrigério”. Mas definitivamente, aquele lugar não fazia jus ao nome. Provavelmente, fizera um dia, mas não fazia mais. Refidim foi engolido pelas areias do deserto.

Frustração geral. Todos começaram a murmurar, e a questionar a Moisés: “Por que nos fizeste subir do Egito, para nos matares de sede, a nós e a nossos filhos, e a nosso gado?” (Êx.17:3). Por causa deste episódio, o lugar passou a ser chamado de Meribá, que significa “contenda”. Tudo porque tentaram ao Senhor, dizendo: “Está o Senhor no meio de nós, ou não?” (v.7).

Muitos imaginam que a presença do Senhor é a garantia de que jamais atravessaremos momentos de privações e tribulações. Por isso, tão logo enfrentem adversidades, começam a murmurar, pondo o Senhor à prova. O mesmo salmista que diz que o Senhor, sendo nosso pastor, nos guia às águas tranquilas, e nos conduz por pastos verdejantes, também ventila a possibilidade de que, em algum momento, atravessemos o vale da sombra da morte. Porém, ele diz não haver razão para temermos, pois o Senhor está conosco (Sl.23).

Em Meribá, Israel considerou retroceder. O presente marcado pela adversidade era ofuscado pelo passado de abundância no Egito. Naquele instante, a Terra Prometida, antes tão almejada, parecia não passar de uma miragem. Será que valeria a pena prosseguir?  O clima esquentou de tal maneira, que os hebreus chegaram a dizer que preferiam ter morrido à ter que passar por aquilo (Nm.20:3).

Quantas vezes somos tentados a levantar a mesma questão? Nesses momentos, recordemos de que Deus não tem prazer naquele que recua. Que não sejamos contados entre os que retrocedem para a perdição  (Hb.10:38-39), mas entre os que avançam.

Refidim representa aquele ponto em que já passamos da metade do caminho, estamos mais próximos de nosso destino do que de nosso ponto de partida, porém, ainda podemos retroceder ou avançar. Paulo fala sobre este ponto na jornada cristã:
“E fazei isto, conhecendo o tempo. Já é hora de despertarmos do sono, porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé.” Romanos 13:11
Apesar disso, o passado ainda dá sua última cartada, tentando atrair-nos novamente, exercendo fascínio sobre nós.  Ficamos a imaginar como teria sido se não houvéssemos embarcado nessa. Se tivéssemos ficado por lá. Por isso disse anteriormente, que Mara representa a maneira como Deus lida com nosso passado, transformando águas amargas em doces; Elim representa o presente que nos conclama ao comodismo; Canaã representa o futuro que nos desafia a marchar; Refidim é o futuro do pretérito, que nos excita a questionar como poderia ter sido diferente. Sentimo-nos numa guerra de cabos. Numa ponta da corda, o Egito, na outra, Canaã. A tensão é tamanha, que às vezes temos a sensação de que a corda se romperá.

O que fez Moisés naquele momento de tensão? Ele clamou ao Senhor: “Que farei a este povo? Daqui a pouco me apedrejarão. Então disse o Senhor a Moisés: Passa adiante do povo” (Êx.17:5a).

Líderes devem viver um passo à frente dos demais. Líderes vislumbram o futuro, sem deixar-se distrair com as demandas do presente. Não significa que eles ignoram tais demandas, e sim que eles não permitem que elas ofusquem sua expectativa quanto ao futuro.

O relato de Números é mais detalhado:
“Disse o Senhor a Moisés: Toma a vara, ajunta o povo, tu e teu irmão Arão. Na presença deles ordenai à rocha que dê as suas águas. Assim lhes tirareis água da rocha, e dareis a beber ao povo e aos seus animais.” Números 20:7-8
A orientação estava clara. Bastava que Moisés falasse à rocha, e esta verteria água em abundância. A tensão era enorme. Talvez já houvesse gente com pedras nas mãos, disposta a executar seu líder. Apesar disso, ele até que começou bem, tomando “a vara de diante do Senhor, como lhe tinha ordenado” (v.10). Ele e seu irmão mais velho “reuniram o povo diante da rocha, e lhes disseram: Ouvi, agora, rebeldes, porventura tiraremos água desta rocha para vós? Então Moisés levantou a mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara. A água jorrou abundantemente, e a congregação e os seus animais beberam” (vv.10-11).

Pronto. Problema resolvido. Ninguém mais teria razão para murmurar. O resultado foi além do esperado. Havia água em abundância para saciar não apenas os hebreus, como também seus animais. Mas agora, o problema de Moisés não seria mais com o povo, senão com o próprio Deus, que lhe disse em seguida: “Visto que não crestes em mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, não introduzireis este povo na terra que lhe dei” (v.12). Sua performance lhe custou a entrada na terra prometida. Por querer dar espetáculo, surrou a rocha, em vez de tão-somente lhe dirigir a palavra. E assim, foi além daquilo que Deus lhe ordenara fazer. Por isso, tanto ele quanto seu irmão, foram contados entre os que morreram na jornada. Mais tarde, toda aquela geração foi igualmente reprovada. Em todos os testes a que foram submetidos, foram desqualificados. Dentre os que saíram do Egito, somente dois adentraram a Terra Prometida, a saber, Josué e Calebe.

Paulo afirma que tudo quanto aconteceu àquela geração obstinada foi registrado como advertência para nós. Mesmo tendo eles presenciado tão grandes obras, como a abertura do Mar Vermelho, o maná que vinha do céu, a água que vertia da rocha, a disposição de seu coração continuou a mesma. “Deus não se agradou da maior parte deles, razão por que seus corpos foram espalhados pelo deserto” (1 Co.10:5). Paulo conclui: “Tudo isto lhes aconteceu como exemplos, e estas coisas estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos. Aquele, pois, que pensa estar em pé, cuida para que não caia” (vv.11-12).

Nem Moisés foi poupado. E o próprio Paulo demonstra preocupar-se com a possibilidade de ele mesmo vir a ser reprovado (1 Co.9:27). Não se trata aqui da salvação da alma, mas do cumprimento do propósito de Deus para a igreja no mundo. É claro que os propósitos divinos não correm risco. Embora aquela geração tenha ficado prostrada no caminho, a geração nascida no deserto, e que, portanto, nunca estivera no Egito, foi que conquistou Canaã. Assim, o propósito de Deus prevaleceu.

Se nossa geração falhar, Deus Se incumbirá de levantar outra. Nada impedirá a execução de Seus planos. Ora, se não quisermos ser desqualificados, devemos manter-nos obedientes à Sua Palavra, sem acrescentar-lhe nada.

O pecado que nos tirou do Jardim do Éden foi consumado quando Adão e Eva comeram do fruto de que Deus lhes havia proibido. Mas antes disso, Eva cometeu um sério erro ao acrescentar palavras à ordem dada pelo Criador. Deus disse que não comesse do fruto, mas quando abordada pela serpente, Eva disse que Deus lhes proibira de tocar no fruto. Foi esta a brecha encontrada para que o pecado fosse gerado. A alma da primeira mulher revelou-se fecunda para que o pecado germinasse.

Agur, no provérbio que lhe foi creditado, diz sabiamente:
“Toda palavra de Deus é perfeita; escudo ele é para os que nele confiam. Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso.” Provérbios 30:5-6
Ainda que obtenhamos resultados positivos, não valerá a pena acrescentar coisa alguma à Palavra de Deus. Moisés foi bem sucedido ao espancar a rocha. Naquele momento, ele conquistou o respeito de seu povo, mas perdeu a confiança de Deus.

Devemos nos importar mais com o que é certo do que com o que dá certo. Se houvesse obedecido, as águas teriam vertido da mesma maneira, e o coração de Deus teria se alegrado. Se obedecesse, teria sua entrada garantida na terra que manava leite e mel. Ele preservou sua imagem, mas expôs a autoridade de Deus.

Deus não nos chamou para o sucesso, mas para a fidelidade. Ainda que isso resulte em aparente e momentâneo fracasso. Paulo exorta aos cristãos da Galácia a que não acolhessem outro evangelho que fosse além do que já havia sido pregado. Sua preocupação era tanta, que ele chega a colocar-se na berlinda:
“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos anunciamos, seja anátema (…) Persuado eu agora a homens ou a Deus? ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo.” Gálatas 1:8,10
Os homens querem o espetáculo, o show, a performance. Mas Deus requer fidelidade à toda prova.

Paulo estava ciente de que ele mesmo poderia, em algum momento, vacilar. E se o orgulho lhe subisse o coração? E se perdesse o juízo? Se ficasse embriagado pela cobiça? Por isso, deixou os Gálatas de sobreaviso. Fiquem de olho em mim. Não aceitem qualquer coisa, mesmo que parta da minha boca. Verifiquem se está de acordo com as Escrituras e o que tem sido pregado até agora. Não sejam presas fáceis de ninguém. Façam como os bereanos que conferiam tudo o que lhes era dito com a Palavra.

Que Refidim seja para nós um lugar de descanso e refrigério, e jamais um lugar de contendermos com Deus. As águas fluam, não por havermos espancado a rocha, mas por havermos obedecido a Palavra do Senhor.

Leia também as duas primeiras mensagens desta série "Sombra e Água Fresca".

domingo, janeiro 01, 2017

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O rio subversivo de Deus sob a areia escaldante do deserto



Por Hermes C. Fernandes

Tão logo deixaram o Oásis de Mara, 24 quilômetros mais para Sul, o povo de Israel deparou-se com o grande Oásis de Elim, em que havia nada menos que doze fontes de água e setenta palmeiras, capazes de prover sombra e água fresca por muitos dias. O nome “Elim” significa "grandes árvores sagradas”(Êxodo 15:27). Provavelmente, quem o descobriu, atribuiu-lhe um valor muito especial. Aquele era, por assim dizer, um paraíso no meio do nada.

Tanto Mara, quanto Elim, foram paradas rápidas. Talvez alguém tenha imaginado que Elim seria um ótimo lugar para passar uma longa temporada. Mas Deus tinha outros planos. Se perdermos de vista a Terra Prometida, corremos o risco de nos contentar com o oásis. Elim era apenas um prenúncio pálido daquilo que o futuro reservava àquele povo. Se seu interesse se resumisse em “sombra e água fresca”, Elim era um prato cheio. Porém, o que Deus lhes prometera era muito mais que isso: uma terra que manava leite e mel. O oásis poderia ser uma boa escala, mas não era o destino.

O texto sagrado diz que nesse oásis havia doze fontes e setenta palmeiras. Tais números nos remetem às duas vezes em que Jesus comissionou Seus discípulos. Da primeira vez, Ele comissionou doze discípulos, e “deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para curarem enfermidades. Então os enviou a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos” (Lc.9:1-2). Pouco mais tarde, “designou o Senhor ainda outros setenta, e mandou-os adiante de si, de dois em dois, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir” (Lc.10:1).

Há aqui algumas importantes observações a serem feitas:

Os primeiros doze receberam ordem de pregar o evangelho do Reino. Eles, que mais tarde ficariam conhecidos como “apóstolos”, foram responsáveis por lançar os fundamentos da civilização do Reino do Seu amor. É sobre eles que Paulo escreve aos gentios: “Assim já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra angular” (Ef.2:19-20).

Por isso, os apóstolos são representados como doze fontes. Eles dão o ponta-pé inicial, o start na construção dessa nova sociedade. Na visão de João em Apocalipse, eles são os doze fundamentos do muro que cerca a Nova Jerusalém (Ap.21:14). Seus ensinos são a base que estabelece as fronteiras da cidade santa, figura da igreja de Cristo, capital do Reino de Deus.  João também diz que esta cidade celestial possui doze portas em forma de pérolas (Ap.21:21), deixando subentendido que o acesso a ela se dá igualmente pelo ensino apostólico.

Cada membro desta nova humanidade é desafiado a edificar sobre esses fundamentos. É Paulo quem declara: “Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio construtor, o fundamento, e outro edifica sobre ele. Mas veja cada um como edifica sobre ele” (1 Co.3:10). Ora, o ensino dos apóstolos nada mais é do que a aplicação da doutrina de Jesus. Se quisermos manter-nos na rota certa que nos levará à consumação dos propósitos divinos e na construção da civilização do Reino, devemos sempre recorrer às fontes, pois delas receberemos água pura, sem a contaminação de ideologias e filosofias meramente humanas.

Por mais que se lancem detritos em um rio, sua fonte permanecerá pura. Ninguém em sã consciência beberia das águas do rio Tietê, em São Paulo. Mas se formos à sua fonte, não só beberemos, como nos deliciaremos na pureza de suas águas. Ao longo da história, a religiosidade humana se deixou contaminar por todo tipo de interesses escusos disfarçados de ideologias e práticas pseudo-piedosos. Porém, o legado apostólico mantém-se intacto. A Reforma Protestante só foi possível porque alguém voltou às fontes. Lutero redescobriu as epístolas, e rompeu com o sistema corrupto de sua época.

A segunda leva de discípulos comissionados por Jesus era em número de setenta. A missão desses era preparar o caminho para Jesus. Eles O antecediam pelas cidades por onde o Mestre passaria. Esta comissão não se limita aos setenta, mas abrange os discípulos de todas as eras, o que, evidentemente, nos inclui. Por isso, ao comissioná-los, Jesus diz: “Grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que envie obreiros para a sua seara” (Lc.10:2). Cada um de nós é a resposta de Deus às orações dos que nos antecederam. Assim como os setenta originais saíram de cidade em cidade, por onde Jesus iria passar, nós temos a missão de preparar o caminho de Cristo em Seu segundo advento.

Por que somos comparados às palmeiras do Oásis de Elim? Ora, aquelas palmeiras floresceram no meio do deserto, por estarem plantadas junto às águas daquelas doze fontes. Pois isso é a metáfora perfeita para a maneira como o justo floresce neste mundo (Sl.1:3).

Veja o que o salmista diz:
“O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano; plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus” (Sl.92:12-13).
O deserto no qual fomos plantados é a sociedade humana, corrompida, caótica, arruinada, carente de restauração. Embora em meio a este deserto, nossas raízes estão próximas das águas cristalinas da Palavra de Deus, confiada aos apóstolos e profetas. Como “árvores plantadas pelo Senhor”, temos um missão a cumprir neste mundo caótico.
“Eles se chamarão árvores de justiça, plantação do Senhor, para que ele seja glorificado. Reedificarão as ruínas antigas, e restaurarão os lugares há muito devastados; renovarão as cidades arruinadas, devastadas de geração em geração” (Is.61:3b-4).
O oásis é o prenúncio de que um dia o deserto inteiro florescerá. Do ponto de vista natural, o oásis é um foco de resistência da natureza ao processo de desertificação. As águas que irrompem no oásis não vieram do nada. De maneira discreta e subversiva, elas percorreram um longo caminho sob a areia escaldante do deserto, até encontrarem o lugar perfeito para arrebentarem. Tal é o percurso do rio de Deus e seus afluentes no mundo. Em breve, ele arrebentará e irrigará todo o deserto.

Eis a promessa: “O deserto e os lugares secos se alegrarão; o ermo exultará e florescerá como a rosa (…) eles verão a glória do Senhor, a excelência do nosso Deus (…) Águas arrebentarão no deserto, e ribeiros no ermo. A terra seca se transformará em lagos, e a terra sedenta em mananciais de águas” (Is.35:1,2b, 6b-7a).

Como discípulos comissionados pelo Mestre, devemos anunciar a chegada de um novo tempo, e assim como João Batista, preparar o caminho do Senhor. Somos hoje “a voz do que clama no deserto”, declarando em alto e bom som: “A glória do Senhor se manifestará, e toda a humanidade juntamente a verá” (Is.40:3,5).

O Oásis de Elim era apenas uma amostra grátis do futuro que Deus havia preparado para o Seu povo. Portanto, não havia razão para que sentissem saudade do Egito. Nenhuma glória do passado, pode comparar-se à glória ainda por vir. Por isso, o Senhor nos repreende: “Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Vede, eu faço uma coisa nova, que está saindo à luz; não a percebeis? Porei um caminho no deserto, e rios no ermo” (Is.43:18-19).

Elim representa a Igreja de Cristo ainda em estado embrionário, mas cujo destino é encher toda a Terra.

Lembra-se do que os discípulos usaram para dar boas vindas a Jesus em Sua entrada triunfal em Jerusalém? A estrada pela qual adentrou a cidade foi pavimentada com ramos de palmeiras (Jo.12:13). O caminho aberto pelos que nos antecederam na fé, agora deve ser pavimentado pelo nosso testemunho. Nossa conversão é o sinal de que em breve o mundo se renderá ao Rei dos reis. Aquele que foi capaz de fazer brotar um oásis no deserto, também será capaz de transformar o deserto inteiro num jardim: “Ele fará o seu deserto como o Éden” (Is.51:3). Ora, se Elim era um lugar tão paradisíaco, por que os hebreus não ficaram por ali mesmo? Pelo simples fato de que lá não era seu destino.

A igreja cristã tem cometido o erro de acomodar-se àquilo que já alcançou, tornando-se um fim em si mesma. Deixamos de ser hebreus, isto é, um povo constantemente em marcha, caminhantes, nômades. Em vez de cumprirmos nossa vocação de sermos um povo voltado para fora, fechamo-nos em nós mesmos, e nos tornamos num clube religioso.

A nuvem andou, e nós ficamos. Somos como um trem que fez de sua baldeação a última estação. 

O Espírito de Deus nos desafia a deixar nossa zona de conforto e a prosseguir pelo deserto afora,  rumo à Terra da Promissão. Canaã nos espera. O futuro já se insinua no horizonte, convidando-nos a sair ao seu encontro. Deixemo-nos seduzir por ele.

Creio que o primeiro Oásis (Mara) representa a maneira como devemos tratar com o passado. Elim representa o presente. Canaã representa o futuro. Entre o presente e o futuro, às vezes nos esbarramos com o futuro do pretérito.

Hora do embarque! Próxima estação: Refidim.

* A continuação desta mensagem será publicada amanhã.

sábado, dezembro 31, 2016

9

À procura de um Oásis Espiritual?




Por Hermes C. Fernandes


Um Deus capaz de abrir passagem no meio do mar, não poderia ter arrebatado Seu povo, levando-o diretamente para a Terra Prometida? Então, por que não o fez? Por que não poupá-los do desgaste provocado por quarenta anos no deserto? O próprio Deus assume a responsabilidade sobre isso, dizendo: "Tirei-os da terra do Egito, e os levei ao deserto" (Ez.20:10). Portanto, não foi um acidente de percurso. Havia um propósito nisso. 

E mais: há quem diga que essa travessia poderia ser feita em quarenta dias. Outros acreditam que no máximo em dois anos.  Então, por que demoraram tanto? Teriam eles andado em círculo? Ou teriam feito muitas paradas? Entre a saída do Egito e a zona fronteiriça de Canaã, o povo de Israel fez quarenta paradas. Era necessário que o povo descansasse. Sem contar que havia muitas crianças e idosos entre eles. 

Quarenta anos foi o tempo necessário para que aquele povo olvidasse o Egito. Tirá-los de lá não foi tão difícil quanto tirar o Egito de seus corações. Afinal, foram mais de quatro séculos vivendo sob a égide dos Faraós. Ademais, algumas lições imprescindíveis só poderiam ser aprendidas naquele ambiente hostil. 

Como toda aquela gente poderia sobreviver a um ambiente inóspito como o deserto? O deserto é um lugar de extremos. Suas temperaturas alcançam mais de cinquenta graus durante o dia, e caem abaixo de zero à noite. Somos informados de que Deus provera uma nuvem para lhes proporcionar sombra durante o dia. Esta mesma nuvem se transformava numa coluna de fogo para aquecê-los durante as noites frias. A coluna de fogo também servia para espantar os animais selvagens. Aquela nuvem/coluna também serviu-lhe como uma espécie de GPS. Quando a nuvem estacionava, eles acompanham. Quando avançava, eles prosseguiam.

Parada obrigatória, desejada por todo caminhante do deserto, o oásis é um lugar de recobrar as forças. Muitos, no afã de encontrá-lo, acabam sendo enganados pela miragens. Tão logo avistam o que parece ser um lago cercado de palmeiras, saem correndo, e ao mergulharem dão de cara com a areia. 

Além das constantes intervenções divinas, garantindo provisão, o povo hebreu passou por vários oásis, entre os quais, o Oásis de Mara, o Oásis de Elim e o Oásis de Refidim. Cada um desses oásis representa uma etapa de nossa jornada espiritual. 


É Mara! 

Três dias depois de terem atravessado o Mar Vermelho, os hebreus chegaram ao Oásis de Mara. Provavelmente o suprimento de água já havia terminado. Todos estavam sedentos. Porém, as águas de Mara eram intragáveis porque eram salobras. O próprio nome “Mara” significa “amarga”.  Isso rendeu muita dor de cabeça a Moisés, pois o povo não cessava de reclamar. Sem saber o que fazer, “Moisés clamou ao Senhor, e o Senhor lhe mostrou uma árvore. Lançou-a Moisés nas águas e as águas se tornaram doces. Ali Deus lhes deu estatutos e uma ordenança, e ali os provou” (Êx.15:25).

A passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho representa o momento em que somos batizados (1 Co.10:1-2). Rompemos com o Egito, que representa o mundo (o sistema), e começamos nossa jornada rumo à Terra Prometida, que representa a glória final ou a consumação do nosso propósito existencial. Porém, entre o Egito e Canaã há um deserto que precisa ser atravessado. Não há atalhos. O próprio Jesus, depois de ter sido batizado, foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado (Mt.4). Não há como queimar esta etapa. É no deserto que nosso caráter é forjado. Lá é o cenário onde experimentamos a provisão de Deus. É lá que aprendemos a depender cada vez mais d’Ele, e a confiar cada vez menos em nossos parcos recursos. 

Mara é uma representação de nossa condição humana. Não deixamos de ser humanos ao nos convertermos, ou sermos batizados. Quando os hebreus avistaram Mara, encheram-se de esperança, achando que finalmente haviam encontrado algo bom no deserto. Quem dera fosse apenas uma miragem. A frustração teria sido menor. Mas Deus usaria aquela decepção para nos dar uma importante lição.

Temos que chegar à mesma conclusão a que chegou Paulo, que mesmo depois de convertido afirmou: “Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Rm.7:18a).

Que decepção sofremos quando nos damos conta de que aquele velho “eu” persiste em nos assombrar, e que os velhos apetites e vicissitudes ainda residem em nossos próprios membros. O fato incontestável é que nossa carne jamais se converterá (Rm.8:7). Não importa se fomos batizados com pouca ou muita água, se num tanque batismal ou no rio Jordão. Nem batismo em óleo quente resolveria!  Não importa quantos jejuns façamos a cada semana. Teremos que conviver com natureza adâmica pecaminosa até o fim de nossa existência terrena. Entramos, então, numa crise antes desconhecida, enquanto vivíamos sob o domínio do pecado. Se de um lado, somos impulsionados pelo Espírito a fazer o que é certo, do outro lado, temos que lidar com as pulsões da nossa condição existencial pecaminosa, e com o poder atrativo que o mundo exerce sobre ela. Por isso, Paulo exclama: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm.7:24). Quem imaginaria ouvir uma exclamação como esta dos lábios de Paulo? 

É nesta crise que alguns põem em xeque sua própria conversão. Ora, quem jamais se converteu para valer, não tem porque preocupar-se com isso. Este tipo de crise só ocorre aos verdadeiramente convertidos. 

Para apimentar ainda mais nosso dilema, deparamo-nos com a questão levantada por Tiago: “Pode a fonte jorrar do mesmo manancial água doce e água amarga? Meus irmãos, acaso pode uma figueira produzir azeitonas, ou uma videira figos? Tampouco pode uma fonte de água salgada dar água doce” (Tg.3:11-12).

E agora? Como sair desta? Como administrar este conflito?

Aquela foi a primeira vez que os hebreus consideraram a possibilidade de retornar ao Egito. Afinal, estavam apenas a três dias de lá. Era só dar meia-volta. Da mesma maneira somos tentados a retroceder em nossa caminhada. Parece-nos mais razoável viver escravizados, porém saciados, do que livres, porém sedentos. Pelo menos, no mundo, fazíamos o que nos desse na gana. Sexo, drogas, álcool, tudo estava sempre às mãos. Porém, a liberdade oferecida pelo mundo é ilusória. Recordemo-nos da exortação de Paulo:
Cristo nos libertou para que sejamos de fato livres. Estai, pois, firmes e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da escravidão. Gálatas 5:1
Será que Deus Se prontificaria a abrir novamente o Mar Vermelho para dar passagem àqueles que retrocedessem? Não! Eles teriam que voltar nadando. 

A jornada com Deus é um caminho sem volta! Não demos "até logo" ao mundo, e sim "adeus". Por isso, Deus avisou aos hebreus antes de fazê-los passar pela fenda aberta no mar: "Aos egípcios, que hoje vistes, nunca mais vereis para sempre" (Êx.14:13b).

Deixamos de ser mão-de-obra escrava de Faraó! Já não somos engrenagens daquele sistema corrupto. Em vez de súditos do império das trevas, somos agora cidadãos do Reino de Deus. Nossa nova vida é a ferramente usada por Ele para sabotar  os esquemas deste mundo tenebroso. 

O relato sagrado diz que, ao ser pressionado pela turba enfurecida, Moisés recorreu ao Senhor, que lhe mostrou uma árvore que deveria ser cortada e lançada nas águas para que estas se tornassem potáveis. Essa árvore é uma clara representação da Cruz. É através dela que Deus trata com nossa condição pecaminosa. Não adianta tentar converter nossa carne. Temos que confrontá-la através da Cruz. E quando me refiro à Cruz, não me refiro ao acontecimento histórico, mas à sua aplicação em nossa vida cotidiana. A simples existência daquela árvore não mudava nada com relação à salubridade das águas de Mara. A árvore tinha que ser lançada às águas. Assim como a Cruz tem que ser aplicada em nossas vidas.

Confira a afirmação de Paulo:
“Estou crucificado com Cristo, e já não vivo, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” Gálatas 2:20
Foi este mesmo apóstolo que declarou considerar-se crucificado para o mundo, ao passo que o mundo estava crucificado para ele (Gl.6:14).

Tem muito cristão sincero querendo filtrar as águas de Mara. Buscam subterfúgios numa religiosidade asceta e legalista. Talvez por desconsiderarem a eficácia da obra da Cruz. Paulo argumenta: “Se estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos sujeitais ainda a ordenanças, como se vivêsseis no mundo, como: não toques, não proves, não manuseies? Todas estas coisas estão fadadas ao desaparecimento pelo uso, porque são baseadas em preceitos e ensinamentos dos homens. Têm, na verdade, aparência de sabedoria, em culto voluntário, humildade fingida, e severidade para com o corpo, mas não têm valor algum contra a satisfação da carne” (Cl.2:20-23).

Paulo considerava a Cruz como um fato consumado. Não se tata de submeter-se a um código de conduta severo, ou a uma doutrina comportamental. Não! Não se trata de algo que devemos fazer, mas de algo que devemos considerar já feito. É assim que mergulhamos aquela bendita árvore nas águas amargas do nosso ser.

Veja o que ele diz em outra passagem:
“Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado (…) Assim também vós CONSIDERAI-VOS COMO MORTOS para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor.” Romanos 6:6,11
Nosso ego, aquele "eu impostor", não pode ser poupado. Nossa fragilidade tem que ser exposta. Nossa condição pecaminosa tem que ser confrontada. Nossas presunções têm que ser  denunciadas. Nossas aspirações carnais renunciadas.

Enquanto a Cruz de Cristo não se tornar em nossa própria Cruz, as águas que fluem de nosso ser se manterão salobras e insalubres.

Cruz não é playground da alma. É lugar de suplício, de auto-sacrifício, de rendição absoluta. Toda renúncia é dolorosa. Toda rendição é vergonhosa. Só existe uma maneira de suportarmos aquilo que a Cruz nos traz. Veja a recomendação do Espírito Santo:
“Olhando firmemente para Jesus, autor e consumador da nossa fé, o qual pela alegria que lhe estava proposta SUPORTOU A CRUZ, desprezando a ignomínia, e está assentado à destra do trno de Deus. CONSIDERAI aquele que suportou tal oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos canseis, desfalecendo em vossas almas.” Hebreus 12:2-3
Quem está na cruz não pode olhar para si mesmo. Nem mesmo para a cruz em si, uma vez que esta está às suas costas. À sua frente estão os que se opõem, que escarnecem, que lhe pedem prova, exigem evidências de que você é quem diz ser. A pressão é contínua. Todos esperam uma falha sua para apontar o dedo e lhe acusar. Só lhe resta olhar pra cima!

Em momento algum Jesus Se preocupou em provar qualquer coisa. Ele não cedeu à pressão dos que se Lhe opunham. Ele desprezou a ignomínia, isso é, desprezou o desprezo. Quem está crucificado com Cristo não se preocupa em provar nada a ninguém. Antes, considera a maneira como Jesus Se portou durante as seis horas de Seu suplício no madeiro. É mantendo o foco n’Ele, que nossas forças se renovam, e em vez de amargura, o que jorra de nosso interior é um rio de águas vivas. Mas não se engane: Mesmo depois de experimentarmos o poder da Cruz em nossas vidas, teremos que lidar com os resquícios de nossa velha e amarga natureza.

O escritor de Hebreus nos adverte: “Tende cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe,e por ela muitos se contaminem” (Hb.12:15). Esta raiz amarga nada mais é do que resquício da natureza adâmica tentando aflorar. Por mais tempo de conversão que tenhamos, temos que manter o cuidado e a vigilância, para que as obras da carne não voltem a germinar em nossa vida. Se sentirmos uma pontinha de inveja de alguém, temos que voltar nossos olhos para Cristo, e suplicar-Lhe graça para que esta raiz não se aprofunde e venha frutificar. Avareza, ressentimentos, idolatria de qualquer espécie, são algumas dessas obras que vire e mexe tentam vir à tona, comprometendo nossa comunhão e testemunho. Por mais cristalinas e potáveis que sejam as águas que fluem nosso interior, elas acabam absorvendo as propriedades dessas raízes amargas, assim como acontece quando mergulhamos folhas de boldo numa xícara de água quente. 

Sabe quando essas raízes amargas conseguem brotar em nossas vidas? Quando recorremos à nossa justiça própria, quando deixamos de confiar na obra consumada na cruz, para fiar-nos em nossas realizações pessoais. Somos privados da graça sempre que nos justificamos em nossas obras. “Separados estais de Cristo”, admoesta o apóstolo, “vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” (Gl.5:4).

Voltemos à Cruz! Deixemos de lado qualquer justiça própria residual, e confiemos inteiramente na justiça de Cristo que nos é imputada. Somente assim, viveremos em novidade de vida, e seremos mananciais de água doce e potável.

Na próxima reflexão falaremos sobre o segundo Oásis em que os hebreus se acamparam a caminho da Terra Prometida.

Publicado originalmente em 7/2/11