quarta-feira, abril 26, 2017

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GREVE: A Bíblia é contrária à luta do trabalhador?



Por Hermes C. Fernandes

Seria lícito a um seguidor de Cristo aderir a uma greve como que tem sido proposta para o próximo dia 28? Muitos teólogos de gabinete dizem que não e, aproveitam as redes sociais para condenar a participação de cristãos em qualquer greve ou manifestação por direitos. Passagens bíblicas são pinçadas de seus contextos para dizer o que, de fato, não pretendem dizer.

Por exemplo, quando João Batista adverte aos soldados “contentai-vos com vosso soldo” (Lucas 3:14), sua intenção era coibir qualquer tentativa de extorsão. Ele ainda diz: “A ninguém trateis mal nem defraudeis”. Portanto, não se trata de desqualificar a lutar por melhores salários ou condições dignas de trabalho. Se desejar e lutar por salários melhores fosse pecado, ninguém deveria estudar, buscar qualificar-se profissionalmente ou mesmo procurar um emprego melhor.

“Quem não trabalha, não deve comer” (2 Tessalonicenses 6:11), admoestou Paulo. Será que esta passagem inviabiliza a participação de cristãos numa greve justa? Ou será que este “Puxão de orelha” do apóstolo estava dentro de um contexto particular que nada tem a ver com greve? Lembremo-nos que a greve é um mecanismo relativamente novo usado pela classe trabalhadora para forçar a classe dominante a atender suas reinvindicações. Nem Paulo ou qualquer outro escritor bíblico tiveram conhecimento sobre isso. Esta passagem em particular revela a preocupação de Paulo com os que queriam se locupletar da generosidade dos cristãos primitivos. Gente que queria uma fatia do bolo sem ter contribuído com a massa.

Que resultado é esperado de uma greve? Garanto que não é a garantia de uma vida ociosa, onde se ganha sem nada fazer. O que se espera são melhores condições de trabalho, salário digno, direitos ampliados e preservados, etc.

Antes de sair por aí condenando grevistas, consideremos a legitimidade de suas reivindicações. Como por exemplo, uma renumeração que lhes permita oferecer conforto e dignidade à sua família. O Deus revelado nos evangelhos está atento ao clamor dos trabalhadores! Ou não foi isso que Tiago disse em sua epístola?

“Vede! O salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando. Os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor Todo-poderoso.” Tiago 5:4

E como fazer vista grossas às passagens abaixo?

“Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás. O salário do operário não ficará em teu poder até o dia seguinte.” Levítico 19:13

Se Deus não admite que se atrase o salário um dia, o que dirá de um governo que atrasa o salário dos seus funcionários por meses enquanto dá isenções bilionárias a grandes empresas?

“Não explorarás o assalariado pobre e necessitado, seja ele teu irmão, seja ele estrangeiro que mora na tua terra e nas tuas cidades.” Deuteronômio 24:14

E pensar que há teólogos contrários ao direito do imigrante...

Quem condena greves, por uma questão de coerência, deveria recusar qualquer benefício que houvesse sido conquistado através deste mecanismo legítimo de luta do trabalhador.

Ao aderir a uma greve, o cristão não está lutando apenas por um direito particular, mas pela classe que representa. Portanto, ele luta pelo bem comum. Como Jesus, ele é um cordeiro quando se trata de sair em defesa própria, mas um leão quando se trata de defender a causa do outro. Foi assim na casa de Simão, o fariseu. Jesus não se preocupou em defender sua honra, quando seu anfitrião pôs em xeque sua autoridade espiritual pelo fato de aceitar a oferta de uma prostituta. Mas ao vê-la sob o ataque e censura até de seus próprios discípulos, Jesus saiu em sua defesa. Alguns, equivocadamente, pensam que Jesus sofreria de algum tipo de bipolaridade. Da primeira vez em que veio ao mundo, assumiu o papel de um cordeiro pacífico. Porém, em Seu segundo advento, viria como um leão. Ele segue sendo, desde sempre, leão e cordeiro. E assim deveríamos, como seus discípulos, nos posicionar.

No caso dos direitos trabalhistas que estão sob ameaça, se não sairmos de nossas tocas religiosas, estaremos sendo condescendentes e coniventes com a injustiça. Mas pelo jeito, preferimos adotar uma postura oposta a de Jesus. Somos leões em advogar em causa própria e cordeiros quando se está em jogo a causa do oprimido.

Se Martin Luther King pensasse como muitos dos nossos pastores, os negros americanos ainda estariam segregados. Foi ao custos de muitas greves, boicotes e manifestações que a América se dobrou às reivindicações daquele jovem pastor.

Os mesmos pastores que promovem o boicote de produtos que, segundo eles, seriam contrários aos valores da família, manifestam-se contrários a uma greve justa contra a exploração de toda uma classe.

Talvez esta seja a diferença entre pastores e teólogos de gabinete e aqueles que arregaçam as mangas e sujam seus sapatos na lama, emprestando sua voz aos que não têm voz.


Por essas e outras, sou 100% favorável à Greve Geral convocada para o próximo dia 28. Que o Brasil pare, e quiçá não apenas por um dia, mas até que cesse a exploração e os direitos trabalhistas conquistados a duras penas sejam garantidos para esta e para as próximas gerações. 

sábado, abril 22, 2017

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A verdadeira história de São Jorge



Em torno do século III d.C., quando Diocleciano era imperador de Roma, havia nos domínios do seu vasto Império um jovem soldado chamado Jorge de Anicii. Filho de pais cristãos, converteu-se à fé cristã ainda na infância, quando passou a temer a Deus e a crer em Jesus como o salvador do mundo. Nascido na antiga Capadócia, região que atualmente pertence à Turquia, Jorge mudou-se para a Palestina com sua mãe, após a morte de seu pai. Tendo ingressado para o serviço militar, distinguiu-se por sua inteligência, coragem, capacidade organizativa, força física e porte nobre. Foi promovido a capitão do exército romano devido a sua dedicação e habilidade.

Tantas qualidades chamaram a atenção do próprio Imperador, que decidiu lhe conferir o título de Conde. Com a idade de 23 anos passou a residir na corte imperial em Roma, exercendo altas funções. Nessa mesma época, o Imperador Diocleciano traçou planos para exterminar os cristãos. No dia marcado para o senado confirmar o decreto imperial, Jorge levantou-se no meio da reunião declarando-se espantado com aquela decisão, e, afirmando sua total lealdade a Cristo, recusou-se a prestar culto a qualquer outra divindade . Todos ficaram atônitos ao ouvirem estas palavras de um membro da suprema corte romana, defendendo com grande coragem sua fé.

Indagado por um cônsul sobre a origem desta ousadia, Jorge prontamente respondeu-lhe que era por causa da Verdade. O tal cônsul, não satisfeito, quis saber: "O que é a verdade?". Jorge respondeu: "A verdade é o meu Senhor Jesus Cristo, a quem vós perseguis, e eu sou servo de meu redentor Jesus Cristo, e n'Ele confiando, pus-me no meio de vós para dar testemunho da Verdade." Como Jorge mantinha-se fiel a Jesus, o Imperador tentou fazê-lo desistir da fé torturando-o de vários modos. E, após cada tortura, era levado perante o Imperador, que lhe perguntava se renegaria a Jesus para adorar aos deuses romanos. Porém, este santo homem de Deus jamais abriu mão de suas convicções e de seu amor a Jesus. Todas as vezes em que foi interrogado, sempre declarou-se servo do Deus Vivo, mantendo seu firme posicionamento de somente a Ele prestar culto.

Em seu coração, Jorge de Capadócia discernia claramente o propósito de tudo o que lhe ocorria, lembrando-se das palavras de Jesus aos Seus discípulos: “...vos hão de prender e perseguir, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, e conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Isso vos acontecerá para que deis testemunho”. (Lucas 21.12:13). A fé deste jovem soldado era tamanha que muitas pessoas passaram a crer em Jesus e confessá-lo como Senhor por intermédio do seu testemunho. Durante seu martírio, Jorge mostrou-se tão confiante em Cristo e em Sua obra redentora na cruz, que a própria Imperatriz alcançou a Graça da salvação eterna, rendendo sua vida a Cristo. Sua fidelidade e amor a Deus contagiaram o coração de toda uma geração de romanos.

Por fim, Diocleciano mandou degolar o jovem e fiel discípulo de Jesus em 23 de abril de 303. Em pouco tempo, a devoção a São Jorge se popularizou. Celebrações e petições às imagens que o representavam se espalharam pelo Oriente e, depois das Cruzadas, tiveram grande aceitação no Ocidente. Como se não bastasse, muitas lendas foram se somando à sua história, inclusive a que diz que ele teria enfrentado e amansado um dragão que atormentava uma cidade.

Em 494, a devoção era tamanha que a Igreja Católica o canonizou, estabelecendo cultos e rituais a serem prestados em homenagem à sua memória. Assim, confirmou-se a devoção a Jorge, até hoje largamente difundida, inclusive em grandes centros urbanos, como a cidade do Rio de Janeiro, onde desde 2002 faz-se feriado municipal na data comemorativa de sua morte.

Jorge é cultuado através de imagens produzidas em esculturas, medalhas e cartazes, onde se vê um homem vestindo uma capa vermelha, montado sobre um cavalo branco, atacando um dragão com uma lança. Ironicamente, o que motivou o martírio deste santo homem foi justamente sua batalha contra a adoração e veneração de imagens fartamente adotadas pelos romanos.

Apesar de tudo, o fato é que Jorge de Capadócia obteve um testemunho reto e santo, que causou impacto e conduziu muitas vidas a Cristo. Por amor ao Evangelho, ele não se preocupou em preservar a sua própria vida; em seu íntimo, guardava a Palavra: “ ...Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte” (Filipenses 1:20). Deste modo, cumpriu integralmente o propósito eterno para o qual havia nascido: manifestou o caráter do seu Senhor e atraiu homens e mulheres ao reino de Cristo.

Se você é devoto deste celebrado mártir da fé cristã, faça como ele e atribua toda honra, glória e louvor exclusivamente a Jesus Cristo, por quem Jorge de Capadócia viveu e morreu. Para além das lendas que envolvem seu nome, o grande dragão combatido por ele foi a idolatria que infelizmente hoje impera em torno de seu nome, e até mesmo em torno do nome do Cristo a quem Ele dedicou sua existência. A melhor maneira de honrá-lo e prestigiá-lo não é com fogos de artifício, promessas e festa, mas imitando-o em sua fé e devoção a Cristo. Idolatria não se resume a prostrar-se ante uma escultura qualquer, mas estabelecer uma relação supersticiosa, onde o santo ou o próprio Deus é visto apenas como alguém a quem recorrer na busca de solução para os seus problemas. Cristo, o Deus que Se humanizou para habitar entre nós, é muito mais do que alguém pronto a atender nossos pedidos. Ele é o Salvador dos homens, o Senhor do Mundo, o Mestre do Amor. Homens e mulheres que o serviram e hoje são considerados santos pela tradição podem ser imitados em sua fé, ter sua memória celebrada, mas jamais considerados semi-deuses prontos a atender nossas solicitações. De acordo com os ensinamentos encontrados nos evangelhos, nossos pedidos devem ser dirigidos ao Pai em nome de Seu Filho Jesus. E Ele tem prazer em nos atender, não com a intenção de mostrar o quão poderoso é, mas simplesmente por nos amar e se importar com cada um de Seus filhos.

A pior idolatria denunciada por Jesus ocorre quando nos devotamos ao dinheiro e a aquisição de bens materiais. Façamos deles um meio para socorrer aos necessitados e não um fim em si mesmos. Nada nesta vida pode tomar o lugar de Deus. Esta foi a grande lição que Jorge da Capadócia nos deixou. O dragão que devemos vencer é o do egoísmo, da ganância, do ódio, do preconceito e de tudo o que nos afasta de Deus e do nosso próximo. 

sexta-feira, abril 21, 2017

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Um país carente de heróis, mas não postiços



Por Hermes C. Fernandes


"Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder." Cazuza.


"Um Che Guevara você só para na bala. Um Martin Luther King Jr. 
você só para na bala. Um Gandhi você só para na bala. 
Para outros, um cargo no Planalto, uma garrafa de whisky, 
uma mulher, ou uma mala de dinheiro são suficientes." 
Ed René Kivitz, téologo brasileiro

Toda sociedade que se preze tem seus heróis. São eles que, além de reforçarem a identidade nacional, inspiram novas gerações a lutarem por seus ideais. Uma sociedade sem referências está fadada a experimentar uma sensação de orfandade, algo parecido com o que Israel sentiu ao reivindicar de Deus um rei, já que cada nação tinha o seu.

O Brasil é um país carente de heróis. E não é por não existirem ou não terem existido. Nossa história está repleta de personagens que lutaram bravamente por uma sociedade mais justa, livre e soberana. Então, por que não são celebrados? Em vez disso, muitos deles são propositadamente sabotados, pintados como vilões, monstros sanguinários, terroristas, bêbados, daqueles que merecem ser esquecidos tamanha a vergonha que nos causa.

Getúlio Vargas, o pai dos pobres

É difícil entender a razão de não celebrarmos, por exemplo, a memória de Getúlio Vargas, conhecido como pai dos pobres, enquanto os EUA celebram com orgulho a memória de George Washington e Abraham Lincoln. O homem que garantiu os direitos trabalhistas, que industrializou o país, acabou relegado ao esquecimento. O mesmo se dá com Juscelino Kubitschek, construtor de Brasília. 

Os países que buscam exercer hegemonia sobre os demais sabem do perigo que é permitir que cada nação tenha seus próprios heróis, pois temem que estes possam inspirar eventuais insurreições do seu povo. Por isso, medidas preventivas são tomadas para coibir o surgimento destas figuras heroicas. Para preencher o vácuo, não raras vezes, heróis postiços são forjados sob medida, algo como “o caçador de marajás”, que de uma hora para outra, tornou-se quase numa unanimidade no país. Fernando Collor de Mello surge repentinamente no cenário político nacional, fisgando, com seu discurso ensandecido,  a confiança de um povo carente de esperança. Deu no que deu. Os mesmos que o forjaram, derrubaram-no quando este ousou contrariar seus interesses. 

Hoje, dia 21 de abril, celebramos a memória de Tiradentes, o herói da inconfidência mineira. Você já se perguntou a partir de quando Tiradentes passou a ser visto como um herói nacional? Para aqueles que o enforcaram, ele não passava de um vigarista, um trapaceiro, um infame traidor da coroa portuguesa. Por muitos anos, a imagem que prevaleceu foi esta.  Ainda hoje, há quem se dedique a macular sua imagem, alegando, entre outras coisas, que ele se opunha à abolição da escravidão, e que sua luta não era pela independência do Brasil, mas apenas de Minas Gerais. Sem contar, teorias aparentemente mirabolantes que afirmam que ele nem sequer chegou a ser enforcado. Enquanto outro tomava seu lugar no cadafalso, Tiradentes fugia para a França, onde teria vivido confortavelmente com uma identidade falsa.  Se esta teoria estiver correta, o Tiradentes ensinado nas escolas jamais existiu. Trata-se apenas de uma história inventada pelos republicanos do século XIX para tentar legitimar o golpe militar que engendraram, e que foi reforçada pelos ditadores militares entre as décadas de 1960 e 1980.
Tiradentes

Quem seria o verdadeiro Tiradentes, afinal, o que estampa nossos livros de história com uma fisionomia que lembra o Cristo, ou o revelado por seus detratores? Talvez nunca saberemos. Ainda que ele fosse um legítimo herói nacional, para aqueles que o enforcaram, ele não passava de um traidor obstinado.  Assim como Sansão e Davi, ambos heróis dos hebreus, mas vilões dos filisteus.  

Aprendi com o filme “Coração Valente” que a história é a versão dos vencedores.  William Wallace, celebrado no filme estrelado por Mel Gibson, foi considerado herói dos escoceses, mas ainda visto como um vilão traidor para a coroa inglesa.

Não há heróis que gozem de unanimidade em ambos as trincheiras. Alguns não são unanimidade nem mesmo entre seu próprio povo. Tomemos por exemplo Nelson Mandela. Se você imagina que o homem que derrotou o regime de segregação do Apartheid na África do Sul é celebrado por todos naquele país, você está redondamente enganado. Ainda hoje, Mandela é odiado, principalmente pela classe dominante. Chamam-no de comunista, terrorista, corrupto, e daí para baixo. O mundo inteiro o celebra, menos seu próprio povo, ou parte dele.  

Martin Luther King, Jr
E o que dizer de Martin Luther King? Enquanto morei nos EUA, pude presenciar o desconforto que era, principalmente para famílias brancas, terem que comemorar um feriado dedicado ao pastor responsável pela conquista dos direitos civis dos negros americanos. Para muitas delas, Luther King não passava de um embuste. Espalharam até que, além de comunista, ele também era promíscuo, e teria sido morto durante uma orgia com várias prostitutas. Porém, aqueles que se beneficiaram de sua luta consideram-no seu grande herói.  

De Mahatma Gandhi, o maior pacifista do século XX, dizem que mantinha um caso homossexual, mesmo estando casado.  De Madre Teresa de Calcutá, mulher que dedicou sua vida a cuidar de leprosos na Índia, dizem que era endemoninhada, temperamental e intratável.

Por isso, sempre olho com reservas qualquer tipo de tentativa de difamar alguém que tenha lutado por um mundo mais justo. Se foram vilões para os impérios que combateram, certamente foram heróis de povos que libertaram ou pelo qual lutaram.

Alguns foram guerrilheiros. Enfrentaram bravamente poderios bélicos para libertar seus respectivos povos. Odiados por seus inimigos, seguem amados por seu povo.

Infelizmente, não vemos muito disso no Brasil. A mídia conseguiu nos convencer de que alguns célebres expoentes de nossa brava gente brasileira não passaram de terroristas cruéis, que em nome de sua ideologia mataram, assaltaram bancos, sequestraram autoridades de outros países, etc.  Tentam nos convencer de que o objetivo deles era implantar aqui uma ditadura comunista bem ao estilo da que havia no Leste Europeu e em Cuba. Muitos deles foram assassinados, não em combate, mas friamente, depois de sessões de tortura. Quando se fará justiça à memória dessa gente, cuja maioria morreu ainda na flor da idade? Quando o país reconhecerá sua grandeza? Nem todos impuseram armas. Alguns lutaram em outras frentes contra um regime totalitário, responsável pela morte e desaparecimento de muitos. Entre eles, alguns religiosos como o Frei Betto e seu irmão, Frei Tito, que acabou se suicidando devido à profunda depressão sofrida após sessões de tortura (para entender melhor este triste episódio de nossa história, assista ao filme "Batismo de Sangue").

Dom Óscar Romero
Recentemente, o Papa Francisco (que também já está sendo acusado de ser comunista!) anunciou a reabertura do processo de canonização de Dom Óscar Romero, arcebispo de San Salvador (1977-1980). Em uma de suas homilias, Dom Romero afirmou que a missão da igreja é identificar-se com os pobres.  Na véspera de seu assassinato, fez um contundente  pronunciamento contra a repressão em seu país: “Em nome de Deus e desse povo sofredor, cujos lamentos sobem ao céu todos os dias, peço-lhes, suplico-lhes, ordeno-lhes: cessem a repressão.” Aquilo foi a gota d’água. Óscar Romero foi assassinado enquanto celebrava a missa em 24 de março de 1980 por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado na Escola das Américas. Apesar de ser de tradição protestante, celebro a canonização do Romero por reconhecer seu árduo trabalho em defesa dos excluídos de sua nação.

No Brasil, tivemos Dom Hélder Câmara, que militou bravamente contra a opressão social no país. Certa vez, o arcebispo de Olinda disse: “Quando dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Quando pergunto por que são pobres, chamam-me de comunista.” O Vaticano já autorizou a abertura de processo de beatificação do Dom Hélder. Homens como Romero e Câmara me inspiram em minha luta contra a desigualdade social. Porém, eles não são os únicos. Na trincheira política, temos gente como Darcy Ribeiro, que dedicou sua vida à educação e à causa indígena. Poucos homens fizeram tanto pelas nossas crianças do que ele. Mas como não era um aliado da mídia, provavelmente ficará no ostracismo. Num momento de frustração, Darcy Ribeiro disse:

"Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu."

Leonel de Moura Brizola
E o que dizer de Leonel Brizola, o homem que que obteve direito de resposta no Jornal Nacional e teve sua fala narrada por Cid Moreira (assista aqui)? Ele foi o responsável por revolucionar a educação no estado do Rio, construindo mais de 500 escolas de tempo integral (CIEPS). É dele a célebre frase: "Devemos investir nas crianças, para que as novas gerações tenham, sobretudo, a coragem para fazer aquilo que não fizemos." Lembro-me de que à época, espalharam que as crianças eram ensinadas a rezar pela merenda agradecendo a Brizola no lugar de Deus. É assim que agem os detratores, os que preferem manter nosso povo órfão de heróis. Para ridicularizá-lo, seus oponentes adoravam contar do episódio em que teve que fugir do Brasil para o Paraguai vestido de mulher. 

A sessão plenária que votou o processo de impeachment da presidente Dilma, deixou o povo brasileiro horrorizado com o nível de seus deputados. A maioria ao se dirigir ao microfone, dedicava seu voto aos familiares ou ao seu estado de origem. Porém, dois parlamentares chamaram a atenção ao dedicarem seus votos. Um deles foi Jair Bolsonaro que dedicou seu voto a dois personagens controversos: Duque de Caxias e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido torturador durante o regime militar. Duque de Caxias tem sido celebrado como herói nacional e patrono do exército brasileiro. Liderou a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) na Guerra do Paraguai. Os três países mais ricos da América do Sul, insuflados pela Inglaterra, dizimaram, sob o comando de Caxias, 90% da população paraguaia, no maior genocídio da história da América Latina. E sabe por qual motivo? O Paraguai estava começando a incomodar a coroa inglesa por sua rápida industrialização. Obviamente, esse não foi o motivo oficial alegado. Mas o que causou verdadeira repulsa foi a homenagem que Bolsonaro prestou ao coronel Ustra, a quem chamou de "o terror da Dilma". Isso, porque foi ele o responsável por torturá-la quando ela tinha apenas 22 anos. De acordo com o depoimento de um companheiro do DOI-CODI, Ustra era conhecido como o "senhor da vida e da morte", que "escolhia quem ia viver e ia morrer." Suas sessões de tortura tinham requintes de crueldade, com choques nos órgãos genitais, e ratos vivos no ânus ou na vagina das mulheres. Nem crianças eram poupadas destas sessões de horrores.

Olga Benário
O outro parlamentar que chamou a atenção foi o deputado Glauber Braga que além de insultar o presidente da Câmara Eduardo Cunha, chamando-o de gangster, dedicou seu voto à memória daqueles que nunca escolheram o lado fácil da história, dentre eles Marighela, Plínio de Arruda Sampaio, Evandro Lins e Silva, Miguel Arraes, Luís Carlos Prestes, Olga Benário, Brizola e Darcy Ribeiro, Zumbi dos Palmares. 

A partir daí, sempre que alguém criticava a menção feita por Bolsonaro, outro rebatia dizendo que piores foram as menções de Glauber Braga. Não foram poucos que nas redes sociais saírem em defesa do coronel Ustra, alegando que o mesmo combatia terroristas da pior espécie, gente perigosa como o assassino Marighela. Outros questionavam qual seria a diferença entre o que era feito pelos militares e por aqueles que eles se propunham combater. Os dois lados praticaram atrocidades. Verdade. Não há o que questionar. Porém, há uma enorme diferença. Ustra e seus asseclas praticavam torturas e assassinatos em nome do estado repressor. Homens como Carlos Marighela e Luís Carlos Prestes se engajaram na luta em resistência a este estado. O que os movia era um ideal. Se estes guerrilheiros eram bancados pelo império soviético, como geralmente se diz, por que precisariam assaltar bancos em busca de recursos para bancar sua luta? Temos que encarar os desatinos que eles cometeram como crimes políticos, não comuns. Não eram movidos por avareza, mas por um ideal. É óbvio que não apoio tal conduta. Eles erraram. Bastava que fossem presos, julgados e sentenciados. Mas em vez disso, foram torturados, assassinados, e muitos tiveram seus corpos lançados ao mar para jamais serem encontrados. Isso é desumano. Claro que a reação seria proporcional. Apesar de condenar suas atrocidades,não posso fazer vista grossa ao ideal pelo qual lutavam. Posso até não comungar de sua ideologia, nem de seus métodos desastrosos e criminosos, mas comungo da utopia que os movia, o sonho de um mundo mais justo e solidário. Eles lutaram pelo seu país. Não eram bandidos, terroristas, monstros desalmados, mas em sua maioria, jovens sonhadores e revolucionários.

Deitrich Bonhoeffer
Quando  perseguido pelo nazismo, Deitrich Bonhoeffer, o célebre teólogo alemão, escreveu um tratado considerado uma das maiores obras primas do protestantismo, que recebeu o nome de "Ética". Nesta obra, ele justifica seu engajamento na resistência alemã anti-nazista e seu envolvimento na luta contra Adolf Hitler, dizendo que: "É melhor fazer um mal do que ser mau." Bonhoeffer, que também era pastor, foi considerado um terrorista pelos nazistas e acabou condenado à morte após participar de uma tentativa de assassinato de ninguém menos que Hitler. Devemos concordar com os nazistas e achar que Bonhoeffer não passava de um bandido? Então, por que fazemos isso com os que resistiram bravamente à ditadura militar no Brasil? 


Zumbi dos Palmares
E o que dizer de Zumbi dos Palmares, também citado pelo parlamentar? Já cansei de ouvir ou ler que Zumbi também tinha escravos, e que, portanto, não serve para ser herói da população negra do Brasil. Quem somos nós para eleger os heróis de uma etnia? No imaginário popular, Zumbi foi a resistência. Isso não significa que ele tenha sido perfeito. Cada um é filho de seu próprio tempo. 

Quem sabe o tempo se encarregue de reabilitar alguns que hoje sofrem a ojeriza do mesmo povo pelo qual lutou.  Se Tiradentes se tornou herói, por que não quem conseguiu tirar 36 milhões de brasileiros da extrema pobreza? Como explicar que Lula goze de tanta credibilidade lá fora, e aqui, mesmo depois de terminar seu governo com o maior índice de popularidade da história (82% de aprovação), tem sido tão hostilizado? Como explicar que uma mulher que aos 22 anos foi torturada, levou choques elétricos em sua genitália, teve dentes quebrados a soco, tornou-se na primeira mulher a ocupar a presidência do país, hoje é xingada pela mesma gente pela qual lutou? 

Che Guevara
Acho que Malcolm X, contemporâneo de Luther King, nos oferece uma resposta: "Se você não tomar cuidado, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as que estão oprimindo." Portanto, antes de torcer o nariz cada vez que ouvir nomes como o de Che Guevara, Simón Bolívar e outros, verifique se o que você sabe acerca deles não é uma vil tentativa de difamar os heróis de seus respectivos povos. Desconfie de tudo o que diz qualquer império midiático. Da mesma maneira que conseguiram nos convencer que Che Guevara é um monstro, tentam fazer isso com Luther King em seu próprio país. O mesmo com Gandhi e com Mandela, como citei acima. Para o restante da América Latina, Che é visto como herói. Até os europeus o reverenciam. Ele foi o cara que calou a ONU. Mas aqui, ele é um monstro, matador de gays, etc. A gente prefere reverenciar Diego Maradona, Pelé e Ayrton Senna. O mesmo preconceito raso se aplica a Simón Bolívar. Quer xingar alguém no cenário político? Chame-o de bolivariano. Mas quem foi Bolívar? O cara que peitou a coroa espanhola e lutou pela independência de suas colônias na América do Sul. É claro que é melhor para o yankees pintá-lo como um vigarista sanguinária. 

O que me assusta é ver o povo elegendo heróis que poderão se tornar em breve seus algozes. Homens que desdenham das minorias, que não respeitam mulheres, nem negros, nem homossexuais. Deus que nos livre desta sina. 

Que tal lermos um pouco mais bons livros de história, e menos revistas tendenciosas à serviço de interesses nada altruístas?  #ficadica

quarta-feira, abril 19, 2017

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Graça rara, nossa pérola negra




Por Hermes C. Fernandes

Como atribuímos valor a algo? Que critérios usamos? Por que algo que tem valor incomensurável para um, não tem valor algum para outro?

Recentemente assistia a um programa no History Channel chamado “Trato feito” apresentado pelos donos de uma loja que compra e vende antiguidades. Alguns itens que lhe foram oferecidos me chamaram muita atenção. Dentre eles, um exemplar antigo do livro “Drácula” de 1897 (se não me falha a memória, da primeira edição) assinado por Bram Stoker, o homem responsável pelo mito moderno dos vampiros. O livro com a capa puída, as páginas amarelas (algumas comidas por traças), foi vendido por milhares de dólares pelo simples fato de ter a assinatura do autor. Um exemplar adquirido em qualquer livraria talvez saísse por menos de trinta reais. O que levaria alguém a pagar dez mil dólares por um livro velho soltando páginas? Vai entender...

Outro veio com um relógio de bolso que teria sido de Abraham Lincoln, o mais popular presidente dos EUA. Depois de atestada a veracidade da peça, ofereceram-lhe duzentos e cinquenta mil dólares. Quando o especialista lhe disse que seria possível conseguir até um milhão de dólares num leilão, o dono da peça agradeceu a oferta e partiu, esperançoso de vendê-la por quatro vezes o que lhe estava sendo oferecido. Tudo isso porque aquele relógio um dia esteve no bolso e na mão de um herói nacional americano.

Um caso muito interessante foi o de um rapaz que trouxe uma bandeja e uma cumbuca de prata que teriam sido roubados por seu avô da casa de veraneio de Hitler. Os itens traziam seu nome e a suástica, símbolo do partido nazista. De acordo com ele, seu avô teria sido soldado na segunda guerra mundial e durante a tomada da Alemanha pelos aliados, aproveitara para furtar a prataria pertencente ao Führer. Depois de ouvir que seu avô era um herói, achou que conseguiria uma ótima oferta pelos itens, mas ficou desapontado quando os apresentadores do programa se recusaram a comprá-los por estarem vinculados a um dos mais terríveis capítulos da história.

O último caso que me chamou atenção foi de uma mulher que queria vender uma boneca estilo Barbie vestida de enfermeira. Examinada por um especialista em brinquedos antigos, a boneca pertencia a uma linha de brinquedos para meninos lançada em 1964. Como era época de guerra, a fábrica de brinquedos lançou vários bonecos de soldados (ao estilo do Falcon, alguém se lembra?), dentre eles uma boneca enfermeira. Como se tratava de uma boneca, os meninos se recusaram a comprar e ela acabou empoeirada nas prateleiras das lojas de brinquedo. As meninas também não se interessaram porque a boneca era de uma linha de brinquedos de menino. Quase cinquenta anos depois, essa mesma boneca se tornou uma raridade disputada por colecionadores. A mulher conseguiu vendê-la por dois mil e quinhentos dólares. Ao sair da loja de antiguidades, o repórter perguntou se estava satisfeita com o negócio e ela respondeu: - Claro! Comprei-a por 50 e vendi por 2.500!

Usei estes quatro exemplos para buscar uma resposta à minha pergunta: como atribuímos valor a algo?

Penso que Jesus nos oferece uma resposta consistente em duas de suas parábolas:
"O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo.O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou". Mateus 13:44-46
A maior parte das parábolas contadas por Jesus tinha o objetivo de explicar o que era e como funcionava o reino de Deus. Diferente dos reinos deste mundo, o reino de Deus não pode ser localizado geograficamente. Ninguém pode apontá-lo num mapa. Ele é, por assim dizer, uma escala de valores proporcionalmente inversa àquela tão cara ao mundo. Ao nos convertermos somos introduzidos neste reino de modo que muito daquilo que antes tanto valorizávamos, já não representa coisa alguma para nós, enquanto o que antes desprezávamos, passa a ser aquilo a que mais atribuímos valor.

Daí a importância de passar pelo o que Jesus chamou de “novo nascimento”. Sem que sejamos regenerados (gerados novamente), nossos olhos não podem vislumbrar o reino de Deus, e consequentemente, não estamos aptos a integrá-lo.

As réguas pelas quais o mundo afere todas as coisas são a posse, o poder e o prazer. Algo só tem valor se nos proporciona uma dessas coisas. Já no reino de Deus, em contrapartida, valoriza-se o desapego, a humildade e o serviço, valores antagônicos àqueles. Em vez de perguntarmos que benefício aquilo nos proporcionará, perguntamos que bem aquilo resultará e quantos dele se beneficiarão.

Segundo Jesus, o reino de Deus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O que é um tesouro, afinal? Pode ser o que alguém com muito sacrifício amealhou durante toda a vida. Para aquele que o achou, nada custou. Mas para aquele que o escondeu ali, pode ter custado toda a sua vida. O que faz aquele homem que topou com ele acidentalmente? Ele sabe que o campo tem dono. Mas provavelmente o dono desconhece a existência do tesouro. Aproveitando-se disso, aquele homem vai, vende tudo quanto tem e lhe faz uma oferta. Talvez o dono do campo tenha se surpreendido com o valor oferecido. Ele jamais suporia que suas terras valessem tanto.  Mas o comprador sabe de algo que ele desconhece. Ele compra o campo mas o que realmente interessa é o que nele está escondido.

Aprendemos com isso que não se pode avaliar nada superficialmente. Abaixo das sucessivas camadas de poeira pode haver um tesouro. Por trás da aparência simples de uma criança pode haver um extraordinário potencial ainda latente. Mas quem se dispõe a cavar? No reino de Deus vale mais a vocação, isto é, aquilo a que se destina algo/alguém do que sua situação atual.

Aquele homem vende tudo o que tem para adquirir o campo. O valor que atribuímos a algo é proporcional àquilo de que estamos dispostos a abrir mão para adquiri-lo.

Na segunda parábola, Jesus diz que o reino de Deus é como um negociante que procura e acha uma pérola de grande valor. Ele faz exatamente como o da primeira parábola: vende tudo o que tem para adquiri-la.

Como alguém poderia dispor de toda uma vida por um único objeto? Ora, aquele homem já negociava pérolas. Aquela era a sua profissão. O que ele teria visto naquela pérola em particular que valeria toda uma vida de trabalho?

Na época, a cobiça pelas pérolas era tão grande que os registros históricos mostram que no apogeu do império Romano, o general Vitellius financiou um exército inteiro vendendo apenas um dos brincos de pérola de sua mãe. Todavia, Jesus usa o artigo definido para referir-se a tal pérola. Portanto, não se tratava de uma pérola comum, o que já seria sobremodo valiosa. Embora Jesus não especifique, acredito que se tratava de uma pérola negra, a mais rara dentre as pérolas.

Valorizamos algo de acordo com sua indisponibilidade. Quanto mais raro, maior valor lhe atribuiremos. Vale aqui a lei da oferta e da procura.

Uma pérola negra não é mais bela que uma pérola comum. Até seu brilho é inferior. No entanto, pérolas negras são raríssimas. Somente uma espécie de ostra encontrada no Taiti chamada pinctada margaritifera é capaz de produzi-la. Esta ostra possui uma listra negra em seu interior. Se a pérola se formar em contato com a listra, a pérola resultante será negra. Entretanto, mesmo entre essas ostras isso é um fenômeno raro – acontece uma vez em cada 10 mil.

Pérolas negras não são produzidas em série. Tudo quanto Deus faz é raro, é único, é especial. As coisas de Deus não são comuns. A própria graça de Deus é um fenômeno raro. Quantos bilhões de seres humanos já viveram neste planeta? Mas quantos deles poderiam arcar com o alto preço de nossa salvação? Quantos seriam aptos? Para tal teriam que ter vivido neste mundo sem ter praticado um único pecado. Alguém se habilitaria? Não foi à toa que João chorava desesperadamente em sua visão registrada em Apocalipse, “porque ninguém fora achado digno” (Ap.5:4a).

Jesus é a nossa pérola negra, aquele que “não tinha parecer nem formosura; e, olhando nós para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos” (Is.53:2). Desprovido de beleza, porém, raro, raríssimo, sui generis.

Se considerarmos o livro de Cânticos e o relacionamento de Salomão e Sulamita como uma alegoria do relacionamento entre nós e Cristo, faremos coro à resposta que ela dá às suas amigas:

“Que diferença há entre o seu amado e outro qualquer, ó você, das mulheres a mais linda? Que diferença há entre o seu amado e outro qualquer, para você nos obrigar a tal promessa? O meu amado tem a pele bronzeada; ele se destaca entre dez mil.” Cânticos 5:9-10

Estatisticamente, qual a probabilidade de surgirem na humanidade pessoas como Leonardo da Vinci, Mahatma Gandhi, Albert Eistein, Siddarta Gautama, Maomé e outros? Ínfimas, provavelmente. E qual a probabilidade de surgir alguém como Jesus Cristo, capaz de reatar nossa comunhão com Deus? Absolutamente, zero!

Portanto, tudo o que se refere a Ele é raro, raríssimo. Seu Reino é único. Sua graça é ímpar. Quem não entendeu isso certamente não teve seus olhos desvendados ainda, e, por isso, não pôde contemplar o esplendor do Seu reino, nem ter consciência da inefabilidade de Sua graça.

Se não percebermos o quão rara é a graça, não lhe atribuiremos o devido valor. Corremos o risco de a confundirmos com uma graça barata, expressão cunhada pelo teólogo alemão Bonhoeffer.

Apesar de a salvação nos ser oferecida gratuitamente, ela custou muito caro a Ele, da mesma maneira que a produção de uma pérola custa muito caro à ostra. O único trabalho que o negociante de pérolas tem é o de encontrar a ostra e abri-la. Devo admitir que não é nada fácil abrir uma ostra hermeticamente fechada. E não adianta tentar quebrá-la. Sua casca é duríssima. A melhor saída é esperar o momento em que a ostra se abre por si só, revelando assim o seu conteúdo.

Jesus diz que até os dias de João Batista o reino de Deus era tomado à força. Porém, até ali, ninguém havia obtido êxito em apossar-se de tão preciosa pérola. Mas, chegada a plenitude dos tempos, a ostra se abriu e a pérola tornou-se disponível aos homens.

Embora seja exteriormente resistente, a ostra é interiormente muito sensível. Talvez mais sensível que os olhos humanos. Se um cisco no olho é capaz de nos levar ao desatino, imagine o que significa para a ostra quando seu interior é invadido por um grão de areia. A dor é incalculável. Sua reação para tentar diminuir o desconforto é cobrir o grão de areia com camadas de carbonato de cálcio. A substância vai endurecendo até formar a pérola.

Pode-se dizer que pérola é a cicatriz da ferida causada pelo grão de areia invasor.

Da mesma maneira, para que o reino de Deus nos tornasse acessível, Jesus teve que ser ferido. Isaías profetizou cerca de setecentos anos antes, que Ele seria “desprezado e o mais indigno entre os homens; homem de dores e experimentado no sofrimento. Como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum” (Is.53:3).

Jesus recebeu em Seu corpo inocente feridas em todas as extremidades, nas mãos, nos pés, na cabeça, nas costas e no tronco. As feridas deixaram de sangrar. Mas as cicatrizes permanecem mesmo em Seu corpo glorificado. Elas são as testemunhas do preço pago pela nossa redenção e admissão no reino de Deus. Não é por coincidência que as doze portas de acesso à Nova Jerusalém, símbolo de sua igreja e do seu reino, são representadas por doze pérolas (Ap.21:21).

Será que temos atribuído o devido valor a esta graça? De que estaríamos dispostos a abrir mão por ela? Quanto vale o que custou a vida do único inocente a ter passado por esta terra? Pois o valor de Sua vida é proporcional ao valor da salvação que nos é oferecida gratuitamente. Não valorizar isso é pisar o Filho de Deus, profanar o sangue da aliança e insultar o Espírito da graça (Hb.10:29).


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Os índios e um novo paradigma missionário



Por Hermes C. Fernandes

Quando as caravelas comandadas por Pedro Álvares Cabral aportaram no Brasil, estima-se que aqui vivessem entre 3 e 4 milhões de índios.  Quinhentos anos depois, quando a população brasileira beira 200 milhões, a população indígena gira em torno de míseros 550 mil, divididos em 225 povos e 180 línguas. Uma lástima. Praticamente dizimamos povos que habitaram as Américas por séculos, talvez milênios, antes de chegada dos europeus. 

Inicialmente, nós os enganamos com nossos apetrechos. Eles até acreditaram que éramos deuses. Depois, tentamos escravizá-los, mas eles, heroicamente, não cederam.  Sem saber, trouxemos doenças para as quais eles não tinham anticorpos para resistir. Tachamos sua cultura de demoníaca. Impusemos nossa fé pela catequese e pela espada. Incendiamos suas aldeias. Estupramos suas mulheres. Tomamos suas terras. Apropriamo-nos de suas riquezas naturais. E os poucos que restaram sofrem constante pressão para sejam assimilados por nossa sociedade consumista. 

O que se poderia esperar?

Somos os invasores. Os usurpadores. Se ao menos os respeitássemos, talvez a história fosse diferente.

A minha geração foi doutrinada ideologicamente pela sessão da tarde. Cresci assistindo a filmes de bang-bang em que, invariavelmente, os índios eram apresentados como vilões.

Nasci e cresci na igreja, e confesso que nunca ouvi um único sermão acerca deles. Para a igreja, eles não passavam de um campo missionário. Nosso dever, portanto, era levar-lhes, não apenas o evangelho, mas também os valores da civilização. Sentíamo-nos realizados ao receber a visita de algum índio convertido trajando terno e gravata.

Quem me ensinou a respeitar sua cultura foi um célebre ateu: Darcy Ribeiro. Um antropólogo que deixou o conforto dos centros urbanos para viver entre eles. Em vez de tentar mudá-los, Darcy procurou compreender seus costumes e explicá-los aos ‘civilizados’ da selva de pedra.

Já me deparei com pastores e missionários levantando campanhas para distribuir bíblias e ‘roupas decentes’ às comunidades indígenas, mas nunca encontrei entre eles quem defendesse seus direitos.  Parece que, para isso, Deus conta mesmo é com os ateus.

Será que as Escrituras nos oferecem alguma base que respalde uma relação respeitosa com os índios?

Em Atos 28, lemos sobre o episódio em que Paulo e os tripulantes de um navio sobreviveram a um naufrágio à caminho de Roma. Lucas, o autor do relato, diz que estando já salvos, souberam que estavam numa ilha chamada Malta. “Os indígenas usaram conosco de não pouca humanidade”, relata, “pois acenderam uma fogueira e nos recolheram a todos por causa da chuva que caía, e por causa do frio”(Atos 28:2).

É claro que os tais “indígenas” nada tinham a ver com os nossos índios. Algumas traduções trazem “nativos” em vez de “indígenas”. Mas, o fato é que aquela era uma população que vivia às margens do restante da civilização. Em vez de demonstrarem hostilidade, eles usaram de humanidade para com os forasteiros. Portanto, não eram animais desprovidos de alma, como alguns religiosos alegavam acerca dos índios, e posteriormente acerca dos negros. Tal alegação tinha como objetivo justificar sua eventual conquista e escravização.

Os tais indígenas de Malta acenderam uma fogueira para aquecer os náufragos. Concluímos daí que não eram selvagens. Dominar o fogo requer certa sofisticação. Aliás, de acordo com alguns antropólogos, a cultura humana se desenvolveu a partir do momento em que o homem aprendeu a fazer fogueiras. Proponho que tratemos a fogueira acesa pelos habitantes de Malta como uma analogia da cultura humana.

Para que serve a cultura? (Refiro-me a qualquer cultura, inclusive a indígena). Para tornar menos traumática a estada humana na terra.

Desde que o mundo se revelou hostil à presença humana, temos buscado meios de tornar o ambiente mais acolhedor. Já que os espinhos e cardos são inevitáveis, é melhor que estejamos preparados para enfrentá-los. Para tal, nada melhor do que estarmos juntos. Surge aí a necessidade da linguagem. O acúmulo de experiências precisaria ser repassado às próximas gerações. Surge, então, os desenhos rupestres, que mais tarde dariam lugar à escrita. Para nos defender de espécies mais fortes, criamos armas. Para nos proteger do frio, inventamos roupas e acendemos fogueiras. Para garantir que a comida não se estragasse, aprendemos a salgá-la e cozinhá-la. E na busca de um sentido para tudo, desenvolvemos a espiritualidade.

Cada grupo humano seguiu seu próprio caminho no desenvolvimento de sua cultura. Não há culturas superiores às outras. Cada uma tem sua beleza, seus valores, suas idiossincrasias e vicissitudes.

Qualquer abordagem intercultural deve partir desta premissa.

Voltando ao texto bíblico, quando Paulo percebeu que aquela fogueira fora acesa para prover-lhes algum conforto, levantou-se do lugar, embrenhou-se pela mata em busca de gravetos para alimentar suas chamas (v.3).

Infelizmente, não foi esta a abordagem dos europeus com os índios das Américas. Em vez de alimentar sua chama cultural, preferiram extingui-la. Impérios como o dos incas e astecas foram pilhados. Uma incomensurável riqueza cultural foi reduzida a nada. Algo parecido com o que o Estado Islâmico está fazendo com os sítios arqueológicos do Oriente Médio em nossos dias. Estátuas e edifícios de cinco mil anos estão sendo destruídos ante o olhar escandalizado do mundo ocidental, como se nós não houvéssemos feito o mesmo com as culturas pré-colombianas.

É claro que não podemos fazer vista grossa à malignidade encontrada em qualquer cultura. Nenhuma delas está isenta disso.

O relato de Lucas afirma que enquanto Paulo alimentava aquela chama, “uma víbora, fugindo do calor, apegou-se-lhe à mão”. Ora, qualquer abordagem cultural que tenha o respeito como ponto de partida enfrenta riscos iminentes.  Mas, repare que aquela víbora não o atacou enquanto ele se embrenhava na mata, e sim quando se pôs a lançar os gravetos no fogo. É provável que ela tenha vindo entre os próprios gravetos. Paulo simplesmente ignorou sua presença. Bastou que os feixes fossem lançados na fogueira para que a víbora saltasse fugindo do calor e se apegasse à sua mão.

Assim como mordeu a Paulo, poderia ter mordido a qualquer outro. Mas certamente o mordeu devido à sua proximidade da fogueira. Quanto mais próximos da cultura, mais expostos estamos aos perigos que ela representa.

Nem sempre o mal é oriundo da cultura para a qual nos propusemos ministrar. Às vezes, nós mesmos somos seus portadores, os responsáveis por introduzi-lo, mesmo que nossa motivação seja a mais louvável possível. Aqueles gravetos eram a contribuição particular que Paulo estava dando à manutenção do fogo. Ele não podia supor que entre eles havia uma víbora. Infelizmente, com os gravetos trazidos pela pregação do evangelho, também trouxemos nosso moralismo que por vezes beira ao legalismo fanático, além de nossos preconceitos e pressupostos.

Não bastasse estar exposto ao veneno da víbora, Paulo teve que lidar com o julgamento precipitado daquele povo. Lucas nos conta que “quando os indígenas viram o réptil pendente da mão dele, diziam uns aos outros: Certamente este homem é homicida, pois, embora salvo do mar, a Justiça não o deixa viver” (v.4).

Semelhantemente, quem quer que busque interagir com uma cultura diferente da sua poderá ser censurado, tanto por seus pares, quanto pelos componentes daquele grupo. Nossas motivações serão postas em xeque. Nossa abordagem será questionada. Principalmente se, em algum momento, nossa fragilidade for exposta.

Paulo não se preocupou em se defender ante a acusação de que seria um homicida foragido da justiça. Ele simplesmente sacudiu a víbora, devolvendo-a ao fogo. Todos ficaram na expectativa de que a qualquer momento ele caísse morto, pois sabiam que aquela víbora tinha veneno mortífero. O tempo passou sem que ele apresentasse qualquer sintoma. Os mesmos que o julgaram digno de morte passaram a acreditar que ele fosse um deus. Se Paulo quisesse se aproveitar disso, se tornaria o rei daquela ilha.

Muitos europeus se aproveitaram da superstição dos índios para se assenhorear deles como se fossem deuses. Paulo tomou a direção inversa. Em vez disso, foi convidado a hospedar-se na casa de Públio, o principal homem da ilha. Diferente dos europeus que aportaram nas Américas, o apóstolo não requisitou as terras descobertas para alguma coroa. Mas reconheceu em seu anfitrião o direito à propriedade de boa parte delas.

O que nossos índios têm reivindicado não é algum privilégio, mas o direito às terras de seus ancestrais.  “Não é a terra que nos pertence! Nós que pertencemos a terra”, teria dito um deles. Tirar-lhes isso é o mesmo que privar-lhes da vida. Desempossá-los de suas terras é cometer genocídio.

Reconhecer o seu direito a terra não é uma questão de caridade, mas de justiça. Não estamos fazendo nenhum favor, mas tão-somente devolvendo-lhes o que sempre lhes pertenceu. Nós somos os invasores aqui. Eles são, por assim dizer, os verdadeiros brasileiros.

O texto sagrado diz que Paulo foi visitar o pai de Públio que estava enfermo com febre e disenteria.  Não seria impróprio imaginar que aquela enfermidade tenha sido trazida pelos próprios náufragos. Basta ler os versos que se sucedem para ver que ela se espalhou rapidamente entre os moradores. Naquela época, ninguém imaginava que algo assim poderia acontecer. Hoje, porém, sabemos que os europeus trouxeram consigo doenças que ajudaram a dizimar a população indígena. O fato é que eles não possuíam anticorpos para combater tais enfermidades. Mesmo desconhecendo tais fatos, Paulo toma para si a responsabilidade e ministra sobre todos os enfermos da ilha, curando-os em nome de Jesus.

O relato termina dizendo que os nativos abasteceram o navio em que prosseguiriam viagem com todas as coisas que lhes seriam necessárias.

Se Paulo e os demais se houvessem aproveitado na ingenuidade daquela gente, talvez a história não tivesse este desfecho.

O que impede certa interação entre culturas é o fato de umas se acharem superiores às outras. Missionários deveriam ater-se a levar a boa nova, sem bagagem cultural extra.

Em vez de ir a eles no afã de levar-lhes o que não têm, que tal se fôssemos a eles em busca de algo que Deus confiou-lhes na edificação do reino de Deus na terra? Trata-se, portanto, da quebra de um paradigma missionário que têm se mantido por quase quinhentos anos.  Não partimos do pressuposto de que nossa cultura é superior à do outro e sim de que nossa cultura, por mais rica que seja, não está completa. Por isso, recorremos ao outro na busca por sua contribuição. Em cada cultura, Deus tem depositado uma riqueza única que deverá ser introduzida na Sociedade Definitiva, aquela que se apresenta nas Escrituras como a Nova Jerusalém, cumprindo assim a profecia que diz: As tuas portas estarão abertas de contínuo; nem de dia nem de noite se fecharão; para que te sejam trazidas as riquezas das nações(Is.60:11; Ap.21:24-26).

Quanta coisa poderíamos ter aprendido com os astecas e incas se não os houvéssemos dizimado? Quanta coisa poderíamos aprender com os tupis-guaranis se tão-somente descêssemos de nosso pedestal cultural? Quanta riqueza Deus tem depositado entre esses povos e tantos outros ao redor do globo, como esquimós no Ártico, os aborígenes no outback australiano, os africanos, os ciganos espalhados pela Europa, etc.?

Semelhante a Paulo, nossa jornada ainda não está completa. Talvez Deus até nos permita amargar o naufrágio de nossa civilização para que nos abramos a acolher a contribuição de tais culturas.

Abaixo, um poema que compus tempos atrás que aborda o paradigma colonialista que tem caracterizado muitas das investidas missionárias dos últimos quatro séculos.

CatequesePor Hermes C. Fernandes


Quanta pretensão a minha!
Achar que detinha
o monopólio da raça

Que estupidez a minha!
Pensar que eu vinha
com o portfólio da graça

Eu com catequese
Tu com hospitalidade
Um rio que não se represe
desafia minha vaidade

Eu, civilizado
Tu, selvagem
Eu, educado
Tu, à margem

Teu sorriso fez calar o meu sermão
Onde piso não há lama, não há chão
O meu siso já nasceu, dói mais não
Meu juízo se perdeu na razão

O que pensava te levar
Tu trouxeste a mim
O Deus que fui te apresentar
Surpreendeu-me enfim

Minhas roupas, meus costumes
Não parecem te atrair
Tu me poupas de queixumes
Te contentas com o que vir

Não bastasse a pretensão
de impor as minhas crenças
Além da religião
Também trago-lhe doenças

Pela fé no deus do império
Te escravizo, te anulo
Roubo todo teu minério
Te ironizo, te rotulo

Quem levaria a sério
interesse travestido de amor
Se em nome do Mistério
se explora até a dor?

Com a cruz que se estampa
tanto escudos e brasões
Se conquista, se acampa
tantos mundos e rincões

Se déssemos ouvidos
ao que diz nosso Senhor
Em vez de oprimidos,
gente livre em amor

Que vergonha, que vexame
Deus não está nas catedrais
E quem sonha, busque ou ame,
Vai encontrá-lo nos quintais

Sob pontes, a relento
Em barracos de sapê
Na favela, assentamento
onde ninguém pode ver
Não te afrontes, te apresento
Nosso Rei e bem-querer