quarta-feira, junho 13, 2018

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A verdade nua e crua



Por Hermes C. Fernandes


I
magine ser fruto de uma relação extraconjugal entre seu pai e uma prostituta.  Crescer sendo  xingado por seus próprios irmãos de filho da p#&@ e não poder fazer nada. Não bastasse todo o bullying de seus meios-irmãos, ainda ser constantemente ameaçado de ser deserdado. Quem suportaria viver num ambiente assim, sendo insultado o tempo inteiro? Por isso, tão logo alcançou idade suficiente para decidir seu destino, Jefté fugiu de casa. E para reforçar ainda mais o estereótipo, cercou-se de homens de moral duvidosa, considerados os párias da sociedade.

Mas o mundo costuma dar muitas voltas, não é mesmo?

Tempos depois, quando os amonitas pelejaram contra Israel, seus irmãos lhe enviaram um inusitado convite: “Venha e seja nosso chefe no combate contra os filhos de Amom.”[1] Por que resolveram apelar justamente ao irmão que antes haviam rechaçado? E quanto ao estigma de bastardo, agora não pesaria mais?

Jefté não deixou barato e respondeu aos demais filhos de Gileade: “Vocês não me odiaram e me expulsaram da casa de meu pai? Por que agora vêm a mim quando estão em aperto?”[2] Engolindo seu orgulho a seco, disseram: “É por isso que viemos te procurar. Vem conosco, combate contra os filhos de Amom e você será o nosso chefe sobre todos os moradores de Gileade.”[3] Nunca Jefté poderia imaginar que este dia chegaria. Os irmãos que o expulsaram de casa agora se dispunham a submeter-se à sua liderança.

Ele não apenas aceitou o convite, como conseguiu levar Israel a uma histórica vitória sobre os amonitas, depois de esgotar todos os argumentos ao tentar resolver a situação pela via da diplomacia.

Mal começara a gozar do sabor da vitória e Jefté teve que lidar com uma situação muito mais delicada ainda. Os homens de Efraim, uma das tribos de Israel, sentindo-se enciumados por não haverem participado da campanha militar que livrara Israel dos amonitas, indagaram a Jefté: “Por que você passou a combater contra os filhos de Amom e não nos chamou para ir contigo?” E ainda por cima, o ameaçaram: “Queimaremos a fogo a você e a sua casa.”

Aquela acusação, entretanto, era totalmente infundada. Tratava-se apenas de uma justificativa fajuta para se vingarem de não terem tido qualquer protagonismo naquela vitória e sentirem-se, assim, relegados à insignificância. Além do mais, Efraim se sentia ultrajado por ter que se submeter a um filho de prostituta, não apenas como um general, mas agora também como juiz.

Jefté que não mandava recado para ninguém, disse-lhes tête-à-tête: “Eu e o meu povo tivemos grande contenda com os filhos de Amom e, embora vos tenha chamado, não me livrastes das suas mãos. Vendo que não me livráveis, arrisquei a minha vida e fui lutar contra os filhos de Amom, e o Senhor os entregou nas minhas mãos. Agora por que subistes hoje para pelejar contra mim?”[4] Em outras palavras: Vocês tiveram a chance de vocês, mas não a aproveitaram! E ainda se acham no direito de se levantarem contra mim?

Nem sempre conseguimos entender a razão que leva algumas pessoas a se insurgirem contra nós. Às vezes, não faz o menor sentido. O que alegam nem sempre condiz com a verdadeira motivação. Tudo não passa de uma cortina de fumaça, uma justificativa que disfarce sentimentos inconfessáveis como a inveja, o ciúme ou o desejo de vingança.

Pessoas por quem você lutou, dedicou sua vida, expôs sua reputação, de repente, sem mais nem menos, se colocam em oposição a você. Algumas se aproveitam para revirar feridas antigas, jogando na cara seus equívocos e precipitações. Mas no fundo, o que as aborrece não é nada disso. Não são seus eventuais erros que as incomodam, mas seus acertos. Não são suas vicissitudes, mas suas virtudes. Todavia, elas jamais admitirão. Tudo de que precisavam para mostrar suas unhas era uma brecha, ou mesmo um simples mal-entendido, algo que possa justificar seu desafeto.

Jefté os havia convocado para lutar, mas eles simplesmente se ausentaram e covardemente o abandonando na hora em que mais precisava de apoio. Que moral teriam para cobrar alguma coisa? Não tendo o que falar contra Jefté, apelaram à mentira deslavada. Como disse Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, uma mentira repetida mil vezes, acaba se tornando verdade, pelo menos, na cabecinha de quem lhe dá crédito.

Sem ter como remediar a situação, só restou a Jefté uma saída: lutar contra Efraim. Se não desse uma resposta contundente às suas insinuações e mentiras, Jefté estaria abrindo um perigoso precedente que poderia contaminar outras tribos e trazer a ruína para todo o povo de Israel.

Mesmo cansados da batalha empreendida contra os Amonitas, os Gileaditas obtiveram esmagadora vitória sobre os Efraimitas, de sorte que os sobreviventes tiveram que fugir. Para impedir a fuga em massa, Jefté colocou homens nos vaus do Jordão que davam acesso ao território de Efraim, e quando os fugitivos tentavam passar, os homens de Gileade lhes perguntavam: “Você é efraimita?” Obviamente, a resposta era “não”. Para evitar que fossem enganados e os deixasse escapar, criaram um teste simples para identifica-los. Pediam que dissessem “Shibolete”.  Se fossem de Efraim, seu sotaque os impediria de pronunciar a primeira sílaba daquela palavra. Em vez de “Shibolete”, diziam “Sibolete”, e assim, uma vez identificados, eram impedidos de passar. O vocábulo hebraico "shibolete" significa a parte da espiga onde ficam as sementes. Jamais nos esqueçamos que palavras são sementes, sejam elas pronunciadas com sotaque que for. 

Perceba a sutilidade da pronúncia. Dá para reconhecer um baiano, uma carioca e um mineiro pela maneira de falar. Cada povo tem seu sotaque característico. Semelhantemente, não é difícil identificar alguém cuja motivação seja a de se insurgir contra quem tem sido levantado e sustentado pela graça de Deus. Basta prestar atenção nas sutilezas de sua fala. Alguns até tentam disfarçar, passando uma impressão de espiritualidade. Quando estão determinados a difamar a alguém, fazem-no de tal maneira que quem ouve não percebe a intenção malévola. São capazes de falarem mal enquanto parecem falar bem. A fofoca que espalham sempre vem seguida de um “pedido de oração” por aquele irmãozinho a que pretendem detonar. O veneno que escorre dos seus lábios parece doce como um néctar. Mas o que sai de sua boca não é Shibolete, mas Sibolete. Não é amor cristão, mas ódio, inveja, ciúme, vingança.

Suas mentiras soam como verdades. Suas intenções sempre parecem as melhores possíveis.

Certa parábola judaica diz que um dia a mentira e a verdade se encontraram.

A mentira disse para a verdade:

— Bom dia, dona Verdade.

E a verdade foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, não viu nuvens de chuva, vários pássaros cantavam e vendo que realmente era um bom dia, respondeu para a mentira:

— Bom dia, dona mentira.

— Está muito calor hoje, disse a mentira.

E a verdade vendo que a mentira falava a verdade, relaxou.

A mentira então convidou a verdade para se banhar no rio. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse:

— Venha dona Verdade, a água está uma delícia.

E assim que a verdade sem duvidar da mentira tirou suas vestes e mergulhou, a mentira saiu da água e vestiu-se com as roupas da verdade e foi embora.

A verdade por sua vez recusou-se a vestir-se com as vestes da mentira e por não ter do que se envergonhar, saiu nua a caminhar na rua.

E aos olhos de outras pessoas era mais fácil aceitar a mentira vestida de verdade, do que a verdade nua e crua.

A mentira se veste de verdade toda vez que esconde suas verdadeiras intenções. E ainda que os fatos narrados sejam verídicos, o intuito de quem os narra é pernicioso. Porém, a verdade nua e crua é a que não tem nada a esconder. Ela é o que é, verdadeira na casca e no miolo, por dentro e por fora. A mentira nada mais é do que uma fuga da realidade, patrocinada pela covardia. Por isso, há que se ter coragem para ser verdadeiro. Não há veracidade sem voracidade! Não era à toa que Jesus costumava dizer "em verdade, em verdade vos digo..." (algo como: "É na verdade que vos digo a verdade"). Não basta dizer a verdade. A verdade tem que ser dita em verdade. E mais: deve ser dita em amor, com a intenção de edificar, nunca de destruir. 

Os Efraimitas representam os que preferem fugir, esquivar-se, acovardar-se, para depois se acharem no direito de criticar e espalhar mentiras caluniosas contra quem se manteve em sua posição. Portanto, seu "sotaque" revela um caráter evasivo. Já os Gileaditas representam os que enfrentam a realidade, tomando para si a responsabilidade de mudança. Seu "sotaque" revela seu caráter leal, engajado e subversivo. 

Todos temos um “vau do Jordão” em nossas vidas. É ali que se decide o que deve passar ou não. Este “vau” é o que dá acesso ao nosso coração. Se deixarmos passar certas coisas nocivas à nossa alma, provavelmente nos acarretará males indizíveis. Depois não adianta reclamar.

Sejamos, portanto, mais seletivos com aquilo a que damos ouvidos. Uma coisa é ouvir, outra é dar ouvidos. Há coisas que não valem a pena nem sequer ouvir. É melhor evitar.

Sabe aquelas pessoas que devido ao convívio com outras, acabam assimilando seu sotaque? Já aconteceu de você ter um amigo estrangeiro e se pegar falando como ele? É natural que isso aconteça. Já aconteceu comigo. Pois bem... Cuidado para que você não seja influenciado por quem não tem outra intenção que não seja destruir o que custou tão caro para ser construído. Cuidado para que você não se pegue espalhando o que ouviu de terceiros, sem levar em conta o poder de destruição por trás do boato. Cuidado para que você não seja contagiado pela amargura de ninguém e se veja falando Sibolete em vez de Shibolete.

Prefira a verdade nua e crua à mentira travestida de verdade. Perdoe-me a redundância, mas verdadeira verdade tem sempre o sotaque do amor.

Quer um conselho? Recuse qualquer convite para participar de um banquete onde o prato principal seja a vingança. Prefira saciar-se na companhia dos que insistem na esperança. É melhor a esperança requentada que a vingança requintada.




[1] Juízes 11.6
[2] v.7
[3] v.8
[4] Juízes 12.2-3

sábado, junho 09, 2018

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MARIA MADALENA, ESPOSA DE CRISTO



Por Hermes C. Fernandes

Nenhuma outra figura do Novo Testamento provoca tantas especulações do que ela. E não pensem que isso seja um fenômeno recente. Já desde os primórdios da igreja, Maria Madalena causava certo incômodo aos discípulos mais chegados de Jesus.

Ela é usualmente confundida com a prostituta que lavou os pés de Jesus ou com a mulher flagrada em adultério que por pouco não foi apedrejada.  Mas dentre todas as confusões envolvendo seu nome, nenhuma é maior do que a que afirma que ela teria sido esposa de Jesus.

Haveria alguma possibilidade, ainda que remota, que tal hipótese fosse confirmada?

Teorias de conspiração afirmam que Maria Madalena estaria grávida de Jesus durante sua crucificação. Fugindo a perseguição dos judeus, ela teria conseguido escapar para o sul da França, onde deu à luz uma menina.  O verdadeiro Santo Graal não seria um cálice no qual os discípulos beberam o vinho na última ceia, como dizem as lendas do rei Arthur, mas sim o corpo de Madalena, no qual era gerado Seu descendente.  Como se bastasse, a igreja católica teria feito de tudo para manter o segredo capaz de sacudir seus alicerces.  Óbvio que uma teoria mirabolante como esta renderia milhões na venda de livros e em produções cinematográficas como “O Código da Vinci” de Dan Brown.

Em que se baseia tal teoria?

As principais fontes seriam, sem dúvida, os evangelhos apócrifos e gnósticos, cuja autoria e historicidade são duvidosas. Não que eles digam diretamente que Maria Madalena fosse esposa de Jesus, mas apresentam indícios de que eles teriam um caso amoroso. Um desses textos gnósticos é o Evangelho de Filipe, onde os discípulos teriam perguntado a Jesus porque Ele a amava mais do que a eles. Também é dito que Jesus a beijava na boca com frequência.

Como cristãos, devemos ter certa cautela com textos apócrifos, principalmente quando estes  vão além do que está registrado nas Escrituras.  E o que estas, afinal, dizem?  Haveria nelas algum indício que Jesus pudesse ter se envolvido romanticamente com Madalena?

Geralmente, as mulheres eram conhecidas pelo nome de seus maridos. Maria foi a única conhecida pelo lugar de proveniência. “Madalena” significa “de Magdala”, uma vila de pescadores que ficava a 10 quilômetros de Cafarnaum, na costa ocidental do Mar da Galileia.  Provavelmente, era uma pessoa de destaque em sua cidade.

Tinha recursos que a tornavam independente, o que era raro para uma mulher naqueles dias. E a maior evidência disso é que ela estava entre as mulheres que financiavam o ministério de Jesus, figurando ao lado de Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes.[1] Sem dúvida, era uma mulher à frente de seu tempo.

Jesus foi o único mestre de Sua época a recrutar mulheres como discípulas. [2] Ele nem mesmo se importava em ser flagrado conversando com uma mulher de moral duvidosa como a samaritana que encontrou à beira de um poço.

Mas daí dizer que Ele teria tido um romance seria pedir demais.

Eis as razões porque Maria Madalena não poderia ter sido esposa de Jesus:

1 - Jesus sabia desde o início qual era a Sua missão e como teria que dar Sua vida pela redenção do mundo. Seria, no mínimo, uma irresponsabilidade envolver-se romanticamente com uma mulher sabendo que a deixaria em seguida, já que Sua missão exigia isso.

2 – Na cena da cruz, Jesus não teria se preocupado apenas com Sua mãe, designando um discípulo para cuidar dela em Sua ausência, mas também com o futuro de Sua esposa e eventuais filhos.

3 - Se Maria Madalena fosse esposa de Jesus, ela teria sido consultada quanto ao lugar onde Seu corpo seria sepultado. Portanto, não precisaria ficar à espreita para descobrir, conforme lemos abaixo:

“Chegou José de Arimatéia, senador honrado, que também esperava o reino de Deus, e ousadamente foi a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus. E Pilatos se maravilhou de que já estivesse morto. E, chamando o centurião, perguntou-lhe se já havia muito que tinha morrido. E, tendo-se certificado pelo centurião, deu o corpo a José, o qual comprara um lençol fino, e, tirando-o da cruz, o envolveu nele, e o depositou num sepulcro lavrado numa rocha; e revolveu uma pedra para porta do sepulcro. E Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o punham.” Marcos 15:43-47

Por que Maria Madalena não poderia ser a mulher flagrada em adultério?

·        Porque para isso, teria que ser casada. E se o fosse, seria conhecida pelo nome de seu marido e não de sua cidade de origem.

Por que Maria Madalena não poderia ser a prostituta que ungiu a Jesus com seu perfume?

Se ela já houvesse ungido Jesus para o Seu sepultamento, não teria achado necessário ungi-lo novamente, já que aquela “unção” foi explicada por Jesus como sendo um embalsamento pré-sepultamento.

“Ora, derramando ela este unguento sobre o meu corpo, fê-lo preparando-me para o meu sepultamento.” Mateus 26:12

“E, passado o sábado, Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-lo. E, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro, de manhã cedo, ao nascer do sol.” Marcos 16:1,2

Maria Madalena foi, sem qualquer sombra de dúvida, uma das mais importantes seguidoras de Cristo. Tanto que foi a primeira a vê-lo após a Sua ressurreição, antes mesmo de Pedro e João.

“E no primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu a pedra tirada do sepulcro. Correu, pois, e foi a Simão Pedro, e ao outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram.” João 20:1,2

Apesar de sua inquestionável importância, os demais discípulos pareciam não dar-lhe tanto crédito, questionando até sua sanidade mental:

“E, voltando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais. E eram Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago, e as outras que com elas estavam, as que diziam estas coisas aos apóstolos. E as suas palavras lhes pareciam como desvario, e não as creram.” Lucas 24:9-11

Numa cultura machista como aquela, a palavra de uma mulher não gozava de muita credibilidade. Mas foi justamente ela que recebeu do Senhor a missão de anunciar aos outros discípulos a Sua ressurreição. Ela recebeu o “ide” bem antes dos demais:

“E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro. E viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Ela lhes disse: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. E, tendo dito isto, voltou-se para trás,  e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem buscas? Ela, cuidando que era o jardineiro, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se,  disse-lhe: Raboni, que quer dizer: Mestre. Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos que vira o Senhor, e que ele lhe dissera isto.” João 20:11-18

Se há uma cena que poderia parecer sugestiva de que houvesse algo a mais entre Jesus e Madalena, esta cena é a descrita acima. No texto original, lemos que Maria Madalena literalmente agarrou Jesus. Se um dos Seus discípulos o flagrasse naquele instante, certamente maldaria, como fizeram ao flagrá-lo de conversa com a mulher samaritana. Porém, Jesus nunca se importou com os escrúpulos moralistas de Seus discípulos. Todavia, Ele a repreendeu, não por agarrá-lo, mas por tentar impedir que Ele seguisse em Seu caminho.

Sim, Maria Madalena era esposa de Cristo, assim como todo aquele que tendo n'Ele crido, tornou-se parte de Seu Corpo Místico, a Igreja.




[1] Lucas 8:1-3
[2] Mateus 27:55,56

segunda-feira, junho 04, 2018

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Cada um enxerga no outro aquilo que é



Por Hermes C. Fernandes

Quão condicionados estão nossos olhos a enxergar o que nossa mente foi sugestionada a procurar. Daí sermos capazes de encontrar a forma de animais nas nuvens. Assim como os discípulos identificaram um fantasma na silhueta surgida no nevoeiro, podemos ser enganados pela nossa percepção. O tal fantasma era apenas a projeção do que estava instalado em seu próprio inconsciente. Para a sua surpresa, tratava-se de Cristo caminhando sobre as águas para socorrê-los. Quando estamos predispostos a julgar alguém, sempre enxergamos o pior, sem perceber que o problema pode estar em nós. Por isso Jesus diz: "Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz. Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são!" (Mateus 6:22-23).

Todo bom motorista sabe que ao enfrentar um nevoeiro na estrada, deve usar o farol baixo, não o alto. O farol baixo é aquele que é projetado para o chão para que o motorista saiba exatamente onde está passando. Já o farol alto é projetado para a frente a fim de identificar as curvas, obstáculos e sinais. Se insistir no farol alto durante o nevoeiro, ele não conseguirá identificar nem uma coisa, nem outra, pois o nevoeiro reflete a luz projetada e acaba cegando o condutor. Os critérios que usamos para julgar ou avaliar uma situação ou a conduta de alguém é a Palavra. Ela é o farol que lança luz sobre quaisquer circunstâncias. Todavia, durante um nevoeiro em que as coisas podem não estar muito claras para nós, antes de ser luz para o nosso caminho, ela deve ser lâmpada para os nossos pés (Salmos 119:105). Em outras palavras, antes de se projetar na direção do outro em busca de eventuais falhas, a Palavra deve mirar nossos próprios pés.


Faríamos bem em dar ouvidos à advertência do apóstolo Paulo: "Quem é você para julgar o servo alheio? É para o seu senhor que ele está de pé ou cai. E ficará de pé, pois o Senhor é capaz de o sustentar" (Romanos 14:4). E mais: "Aquele, pois, que pensa estar em pé cuida para que não caia" (1 Coríntios 10:12). Ou se preferir, que tal as palavras do próprio Jesus? "Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos medirão a vós. Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, mas não percebes a trave que está no teu? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e ENTÃO VERÁS CLARAMENTE para tirar o cisco do olho do teu irmão" (Mateus 7:1-5). Podíamos dormir sem esta, não? Não! O que não poderíamos era viver doutra maneira senão desta proposta por Jesus. Caso contrário, nos adoeceremos, buscando disfarçar nossos erros enquanto lançamos os holofotes nos erros alheios. E assim, em vez de projetarmos no outro nossa luz, projetamos nele nossa sombra. Em vez de revelar o que nele é latente, acabamos por revelar o que em nós está patente. 

quinta-feira, maio 31, 2018

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A MARCHA PARA JESUS E O APARTHEID CRISTÃO



Por Hermes C. Fernandes

Onde poderíamos encontrar a Cristo num dia como hoje em pleno feriado de Corpus Christi?  De um lado, cristãos evangélicos saem às ruas numa marcha que creem ser dedicada a Jesus. Do outro, cristãos católicos se reúnem para celebrar a presença de Jesus na Eucaristia. Não me atrevo a questionar a intenção de ambos. Acredito que muitos envolvidos nessas celebrações tenham um coração puro e sincero em sua devoção e adoração a Cristo. Todavia, creio que haja uma compreensão distorcida acerca da proposta subversiva de Jesus. Digo “subversiva” por ir na contramão de todo sistema religioso vigente tanto em Sua época, quanto hoje.

Não creio que Jesus pretendesse iniciar um movimento que levasse multidões às avenidas para gritarem Seu nome em coros puxados por trio-elétricos.  A genuína “marcha para Jesus” se dá sem data e hora marcadas, sem showmício para eleger candidatos evangélicos, sem discurso moralista, sem disputa para desbancar outras marchas e paradas. A verdadeira “marcha para Jesus” é aquela  em que “levamos sempre por toda a parte o morrer do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos” (2 Coríntios 4:10). Portanto, trata-se de algo discreto, sem alarde, sem chamar a atenção para si mesmo. Como “sal da terra” devemos ser polvilhados no caldeirão cultural, realçando o sabor da comida, e não chamando a atenção para nossa presença. Parece que temos errado na mão. Estamos tornando a comida intragável de tão salgada. Como “luz do mundo” devemos estar direcionados para fora como refletores em vez de querer atrair os holofotes para si. Em vez disso, tornamo-nos massa de manobra de quem almeja fazer de nós capital político para ser usado em suas negociações por trás dos bastidores.

Enquanto os evangélicos se voltam para fora com a pretensão de roubar a cena, os católicos se voltam para dentro numa espiritualidade centrada no ritual eucarístico. Mesmo que deixem suas paróquias para exibir ao mundo o Santíssimo Sacramento em suas procissões, o rito segue sendo restrito aos que professam a mesma fé.

Não quero aqui discutir dogmas. Respeito demasiadamente a fé católica, apesar de não subscrever alguns de seus posicionamentos.

É lindo de se ver a devoção sincera expressada eloquentemente na celebração eucarística. Assim como é lindo de ser ver a empolgação dos evangélicos em suas marchas. Porém, devemos ir além da estética litúrgica.

Sobre a celebração eucarística, o apóstolo Paulo diz que “qualquer que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado do corpo e do sangue do Senhor (...) Pois quem come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor” (1 Coríntios 11:27,29). Em cima destas palavras, criou-se o que poderíamos chamar de Apartheid Eucarístico. Somente os que fizessem parte do corpo místico de Cristo através do batismo, estariam aptos a participar de Seu corpo e sangue presentes na hóstia e no vinho. Seria realmente isso que Paulo chamava de “discernir o corpo do Senhor”? Creio que não. 

Do lado protestante, deparamo-nos com o Apartheid Moral. Somente os que se dispõem a viver dentro dos códigos morais da comunidade evangélica são reconhecidos como "Corpo de Cristo." Se não estiver afinado de acordo com seu diapasão moral, considere-se fora. Se for gay, por exemplo, é considerado indigno de tomar parte da Mesa do Senhor. Dependendo da comunidade, o mesmo se pode dizer dos divorciados, mães solteiras, fumantes, alcoólicos, etc.

Católicos e protestantes perderam tanto tempo discutindo se a presença de Cristo nos elementos eucarísticos era real ou simbólica, que não se aperceberam de que Ele se faz presente mesmo é no ato e não meramente nos elementos em si. Refiro-me ao ato da partilha. O pão e o vinho, elementos comuns na dieta judaica de Seu tempo, representava a vida de Deus partilhada com os homens, conclamando-os a partilhar suas próprias vidas uns com os outros. Como bem disse João, o discípulo amado: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós. E devemos dar a nossa vida pelos irmãos. Quem tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, fechar-lhe o seu coração, como estará nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra nem de língua, mas por obra e em verdade” (1 João 3:16-18).

“Discernir o corpo do Senhor” é identifica-lo no outro, sobretudo, no necessitado.  “Tive fome e me deste de comer” (Mateus 25:35), dirá Jesus aos que perceberam que o estômago vazio do mendicante é o estômago de Cristo. “Era estrangeiro e me acolhestes” , dirá aos que se deram conta de que aquele corpo de cor e aparência diferentes da sua não é outro que não seja o corpo do Senhor.

Jamais foi a intenção de Cristo separar os homens por credos, etnias, ideologias ou gênero. Porém, no último dia, Ele os separará tendo por critério único o fato de terem vivido para si mesmos ou para o bem do outro. A diferença entre ovelhas e bodes não é o som que emitem, ou aquilo que comem, mas a lã que depois de tirada para aquecer a outros, segue crescendo.  Enquanto a ovelha contribui com sua lã, o bode se ufana na envergadura ameaçadora de seus chifres.

A igreja primitiva não via a Mesa do Senhor como um rito estereotipado,  nem como reedição do sacrifício de Jesus, mas como oportunidade de dispor de seus bens para que outros deles desfrutassem. A isso chamamos COMUNHÃO. Lucas nos oferece um brilhante testemunho acerca disso ao afirmar que os cristãos “perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações (...) Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum” (Atos 2:43,44). Tudo isso se devia ao fato de que “era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas eram compartilhadas (...) Não havia entre eles necessitado algum” (Atos 4:32,34a).

Costumo dizer que se as mesmas mãos que se estendem ao céu em louvor não forem as mesmas que se estendam ao próximo em amor, nossa liturgia não passará de letargia. Da mesma maneira, pode-se dizer que se o pão que comemos na celebração eucarística não nos inspirar a partir nosso próprio pão com o necessitado, tudo não passará de encenação.


A magia não está nas palavras do sacerdote capazes de transformar pão em carne e vinho em sangue. A verdadeira “magia” está no gesto de repartir o que se tem, transformando nosso egoísmo em altruísmo, nossa ganância em amor. 

sábado, maio 26, 2018

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Aprendendo a lidar com a Síndrome do Ostracismo



Por Hermes C. Fernandes

Atenas, o berço da democracia, deparou-se com um sério problema que poderia ameaçar o novo modelo de sociedade que emergia próximo do final do século seis a.C.  Este seria, por assim dizer, um efeito colateral indesejável que exigia reparação, sob pena de colocar em risco a ordem democrática. Se pela democracia se elegiam os representantes da pólis[1], como se livrar daqueles que só pensavam em si mesmos e em suas próprias ambições?  Se tais indivíduos fossem deixados à vontade, poderiam semear a discórdia, atiçando as pessoas umas contras as outras no afã de tirarem alguma vantagem, promovendo assim a ruína da recém-nascida democracia. Em vez de apelar para medidas violentas, os cidadãos atenienses encontraram uma solução mais civilizada, e, por conseguinte, satisfatória.

A cada ano, eles se reuniam na praça do mercado (Ágora) e escreviam num pedaço de cerâmica chamado de ostrakon,  o nome do indivíduo que desejassem ver banido da cidade por dez anos. Alguns dicionaristas veem nesse ostrakon uma concha de ostra propriamente dita untada de cera; outros acreditam que não passava de um caco de cerâmica. Se um determinado nome recebesse sete mil votos, a pessoa era imediatamente exilada, e, assim, confinada à solidão. Se ninguém alcançasse tal número, então, aquele que houvesse recebido mais votos ficava dez anos em “ostracismo” (ostrakhismós).  Tal ritual tornou-se tão importante que se transformou numa celebração festiva, dado o alívio causado pela expulsão de pessoas consideradas desagregadoras do convívio social. O isolamento social do banido seria análogo à solidão de um molusco encerrado em sua concha. 

Mas nem sempre o resultado era justo.

Por exemplo: Aristides, um dos grandes generais atenienses responsáveis pela derrota dos persas na batalha de Maratona foi vítima deste processo. Sua integridade lhe rendeu o apelido de “O justo”.  Aos poucos, os atenienses começaram a nutrir uma antipatia à sua figura, principalmente no exercício da função de magistrado. Depois de ter sido quase uma unanimidade entre os atenienses, Aristides foi banido em 482 a.C.  Outro general que teve o mesmo fim foi Temístocles , que após muitas vitórias no campo de batalha, tornou-se no principal líder da cidade. Acusando-o de ser arrogante e autoritário, os atenienses se esqueceram dos templos que construíra e dos perigos de que os havia livrado, exilando-o através do ostrakon em 472 a.C.

Até mesmo Péricles, considerado o “pai” da democracia ateniense, recebeu muitos votos para ser ostracizado, mas nunca chegou a sofrer efetivamente tal sentença.

Nem Sócrates foi poupado, sendo acusado de corromper os jovens a quem ensinava seu método filosófico. Mas o filósofo preferiu a sentença de morte por cicuta à saída de Atenas.

Aristóteles defendeu a utilização de tal mecanismo como método preventivo que evitasse que certos indivíduos acumulassem poder e prestígio em razão de suas riquezas e influência política. Apesar de defender sua utilidade, Aristóteles também foi o primeiro a reconhecer os riscos que representava: “Este princípio, contudo, não tem sido aplicado justamente nos Estados, pois, ao invés de procurarem o bem para a sua Constituição, o ostracismo tem sido usado para beneficiar algumas facções.”[2]

Há presenças que trazem incômodo aos que optam pela mediocridade, pois expõem de maneira eloquente suas vicissitudes. Estes sempre buscam apagar a luz daqueles que os ofuscam.  Foi por isso que Saul perseguiu a Davi depois de ouvir as mulheres de seu povo cantando: “Saul matou a milhares, mas Davi matou a dez milhares!”  Foi também por isso que o próprio Davi intentou se livrar de Urias, marido de Bate-Seba, pois encontrou nele um homem mais justo, íntegro e leal do que ele mesmo.  Não foi só para varrer seu pecado para debaixo do tapete...

Foi também por isso que os sacerdotes tramaram para matar a Jesus.

Ninguém que desafie os falsos escrúpulos de uma sociedade fica impune. Mesmo que não recorramos a um processo semelhante ao dos atenienses, sempre damos um jeito de nos livrar daquela pedra em nosso sapato. Obviamente que para submeter alguém ao ostracismo, faz-se necessária uma justificativa plausível que não nos renda a fama de injustos. Saul acusava Davi de usurpar seu trono. Davi nem se deu o trabalho de acusar Urias, preferindo agir sorrateiramente, sem qualquer justificativa a seu ato cruel e desumano. Os sacerdotes alegaram que a presença de Jesus era uma ameaça ao bem-estar da população, pois poderia despertar a fúria dos romanos. Mas no fundo, o que movia Saul em sua perseguição implacável a Davi era o ciúme. O que moveu Davi em sua decisão de ordenar que Urias fosse abandonado na frente da batalha foi a inveja, posto que queria para si o que era dele, isto é, sua mulher. O que moveu os sacerdotes a tramarem para matar a Jesus foi a ganância, principalmente depois do prejuízo dado ao templo ao derrubar as mesas dos cambistas e expulsá-los ao sabor do chicote.

De fato, há pessoas que precisam ser colocadas numa espécie de quarentena a fim de não contagiarem os demais com seus intentos malévolos e facciosos. Paulo nos fala disso abertamente, advertindo  a Timóteo a evitar “as conversas inúteis e profanas, porque produzirão maior impiedade. E a palavra desses se alastra como câncer” (2 Timóteo 2:16-17a). Se não forem devidamente tratados, suas palavras se espalharão como numa metástase, comprometendo a saúde de todo o organismo.  João parece ainda mais radical quando diz: “Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa nem o saudeis. Quem o saúda participa das suas obras más” (2 João 1:10-11).

E não é só a doutrina que deve ser avaliada, mas também os sentimentos e motivações. Isso é claramente percebido na exortação encontrada em Hebreus 12:15: “Cuidem que ninguém se exclua da graça de Deus. Que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando a muitos.” Corações amargos acabam contagiando a outros corações com a sua amargura. E o resultado disso é uma auto-exclusão. Quem se deixa contagiar pela amargura alheia, corre o risco de excluir a si mesmo da graça de Deus. Portanto, todo cuidado ainda é pouco.  Há pessoas que carecem do nosso amor, mas não de nossa companhia. Pelo menos, não naquele momento. E a melhor maneira de demonstrar o quanto as amamos e  nos importamos com o seu bem-estar é orando por elas. Tão logo os sintomas de sua amargura passem, elas poderão ser reintroduzidas ao nosso convívio. Não se trata, portanto, de banir, mas de uma medida preventiva que vise o bem-estar geral.  Mesmo o ostrakon não visava banir ninguém para sempre, mas deixa-lo em exílio por dez anos, podendo retornar ao convívio social. Colocar alguém em quarentena é dar a ele a oportunidade de repensar seus posicionamentos. Logo, trata-se de um gesto de amor, e não de uma maneira velada de se livrar do problema.

O que é a síndrome do ostracismo?

Chamamos de “síndrome do ostracismo” o estado mórbido caracterizado por uma série de sintomas que algumas pessoas passam a manifestar após a perda de uma posição de poder,  fama ou prestígio, e que tem como consequência a experiência de anonimato, do isolamento, da exclusão social. Tal síndrome ocorre justamente com as pessoas que, acostumadas aos holofotes, sem mais, nem menos, perdem o poder ou o status social, sendo involuntariamente confinadas ao seu mundinho particular.

Quando alguém alcança a posição de notoriedade, passando a ser o centro das atenções do grupo social, o ego e a autoestima se inflam de tal maneira que é natural que ele se sinta querido e amado. As constantes adulações e elogios podem leva-lo a se considerar superior e mais importante que os demais à sua volta. Sem contar que sua posição social pode lhe conferir acesso a uma série de condições, privilégios e regalias que as pessoas comuns não possuem. A notoriedade, todavia, pode privar a pessoa da consciência de sua própria realidade, da brevidade da sua vida, e dos objetivos prioritários a serem alcançados para que possa crescer e evoluir como ser humano.

As pessoas devem ser amadas, queridas e valorizadas não pelo poder que ostentam, ou pela posição de privilégio que alcançaram, mas pelo que são.  Sair de cena, deixar de ser o centro das atenções, perder os holofotes, não deveria ser motivo de autocomiseração ou autopiedade.

Quem nos abandona nesses momentos revela jamais ter nutrido qualquer sentimento legítimo de amor para conosco. Amavam apenas as vantagens e benefícios que poderíamos proporcionar-lhes no exercício do poder de que dispúnhamos.  Queriam nossa companhia para tirarem uma casquinha do nosso prestígio. Mas jamais amaram nossa essência, aquilo que somos à parte dos papéis sociais que nos cabem.

Deixar-nos só pode ser um grande favor feito por quem dizia nos amar, mas só queria mesmo se locupletar. Às vezes precisamos de certa dose de isolamento para que, tal qual uma ostra, aprendamos a lidar com a nossa dor e transformá-la numa pérola de grande valor.





[1] Pólis – Cidade. Deste termo grego se origina nosso vocábulo “política”.
[2] POLÍTICA, 3.13

domingo, maio 20, 2018

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O casamento do século e o fim de uma era



Por Hermes C. Fernandes

O mundo está em polvorosa! E no meio desse fogo cruzado se encontra uma jovem americana afrodescendente divorciada que desafia o protocolo real britânico, casando-se com ninguém menos que o príncipe Harry.  Algumas feministas festejam o fato de ela ter se recusado a pronunciar o verbo “to obey” (obedecer) na cerimônia, e de ter decidido entrar sozinha na igreja. Ela prometeu amar, confortar, honrar e proteger o marido, mas não obedecê-lo. Outras acusam-na de haver traído à causa ao aceitar viver um conto de fadas, abrindo mão de sua privacidade, de seus perfis nas redes sociais, e até de sua religião, já que abdicou da fé católica para ser batizada na igreja anglicana. 

Rachel Meghan Markle não é apenas uma plebeia se infiltrando na mais poderosa família real do mundo. Nem é apenas uma feminista se aproveitando da cerimônia de seu próprio casamento para panfletar. Tampouco, apenas uma negra desafiando a supremacia branca. Nem ainda, uma divorciada quebrando um tabu, ou uma mulher desprovida de atributos físicos desdenhando dos padrões de beleza ocidentais.  Ela é bem mais que isso. Ela encarna os anseios dos oprimidos e excluídos do mundo inteiro. Ela é um sinal dos tempos. Uma Ester do nosso século. Ela carrega em seu DNA séculos de exploração. Uma agente infiltrada nas engrenagens responsáveis por perpetrar no mundo o machismo, o racismo, o imperialismo, o colonialismo, o sexismo, a moral vitoriana, etc.

A julgar por sua postura na cerimônia, há que se esperar que ela dê mais dor de cabeça à coroa britânica do que sua falecida sogra Lady Di. Meghan terá que assumir alguns deveres oficiais, o que inclui caridade e ações humanitárias, como fazia Lady Di esplendidamente. Mas isso não é novidade para ela, que já foi embaixadora mundial da World Vision Canada, uma organização que angaria fundos para ajudar crianças em situação de pobreza, foi conselheira do One Young World, uma instituição de caridade que agrupa líderes mundiais para criar mudanças positivas no mundo e trabalhou como defensora da Entidade para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres das Nações Unidas.

A razão pela qual preferiu entrar sozinha na igreja e não acompanhada de seu sogro se deve ao fato de que seu pai teria se submetido a uma cirurgia cardíaca, ficando impossibilitado de comparecer à cerimônia. Deve ter sido um choque e tanto para ele que é de origem irlandesa, ver sua filha entrando para a família que tem mantido a Irlanda sob seu domínio por séculos. Já sua mãe é afro-americana, nascida e criada em Los Angeles.  

A noiva fez questão de chamar o reverendo Michael Bruce Curry, conhecido por se manifestar pela igualdade racial e a favor do casamento homoafetivo. Como se não bastasse o sermão do pastor negro citando Martin Luther King, o violoncelista negro Sheku Kanneh-Mason, de apenas 19 anos, um coral gospel negro regido por uma maestrina cantando “Stand Bye Me”, escrita pelo artista soul Ben E. King dentro de um contexto segregacionista norte-americano nos anos 60, pela primeira vez na história as trombetas que anunciavam o início da cerimônia foram tocadas por mulheres.  Que representem a última trombeta que anuncie o fim de uma era prenunciada pelo mais célebre dos Beatles, John Lennon, responsável por eternizar aquela velha canção. 





sexta-feira, maio 18, 2018

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E se Deus lhe desse um filho gay?



Por Hermes C. Fernandes

“Quando se destrói um velho preconceito, 
 sente-se a necessidade duma nova virtude.” 
Madame de Staël 

Durante uma festa de casamento, meu cunhado Rodrigo contou-me acerca de uma casa de amparo para gays rechaçados pela própria família em São Paulo. Ao visita-la, teve seu apoio desprezado provavelmente por tomarem conhecimento de que era pastor. A razão? Parte dos internos era formada por filhos de pastores expulsos de seus lares pelos próprios pais.[1] Doutra feita, em uma das minhas andanças pelo nordeste brasileiro como preletor, fui levado por meu anfitrião a um sofisticado restaurante na orla de uma linda cidade. Após um apetitoso jantar, aquele pastor de pouco mais de cinquenta anos desabafou comigo, contando-me que seu filho criado na igreja, ministro de louvor, assumiu sua homossexualidade. O que poderia ter sido mantido em segredo espalhou-se como um incêndio na caatinga, depois que o rapaz confidenciou-se com alguém de seu círculo de amizade. Resultado: a igreja sofreu a maior sangria de membros de sua história. As pessoas alegavam que não estavam dispostas a frequentar uma igreja onde o filho do pastor fosse declaradamente gay. Em vez de posicionar-se contra seu filho e a favor da congregação, aquele veterano pastor abraçou seu filho e disse à igreja que mesmo que todos o abandonassem, ele jamais abandonaria seu filho. Talvez um dos mais tristes casos que me chegaram ao conhecimento foi o de um menino de apenas 10 anos, coleguinha de várias crianças de nossa igreja, que cansado de sofrer bullying na escola e preconceito dentro de sua própria família, depois de tomar veneno de rato, pôs um saco plástico na cabeça, sufocando-se até a morte. Como não sensibilizar-se ante uma tragédia como esta? Ouvi muitas histórias de pais que, envergonhados pela orientação sexual de seus filhos, preferiram renega-los. Mas também ouvi tantas outras de pais que peitaram o mundo, desafiando sua hipocrisia e preconceito, para oferecer a seus filhos o devido apoio em face de sua condição existencial. Mais difícil do que ouvir um relato é se vir envolvido diretamente numa situação complexa entre pais e filhos homossexuais. Em um dos episódios mais melindrosos em que me envolvi, um rapaz que a pouco havia começado a frequentar nossa comunidade procurou-me online. Ele já havia me confidenciado sua orientação sexual, razão pela qual deixara sua antiga igreja, já que a mesma encarava com certa hostilidade a questão. Mas agora, depois de tomar coragem, resolveu contar à sua mãe. Seu mundo parecia haver desabado. Filho único, não sabia o que fazer caso sua mãe decidisse contar a seu pai. Seu receio era que seus pais o expulsassem de casa ou que acontecesse coisa pior. Enquanto tentava acalma-lo, outro chat se abriu na tela do meu computador. Era sua mãe desesperada pedindo ajuda. “Pastor, o que faço? Meu filho acaba de me confessar que é gay? Não sei se devo contar ao meu marido! Tenho medo da sua reação. Ele pode passar mal e até morrer se souber que tem um filho gay.” Nem ele sabia que eu estava conversando simultaneamente com sua mãe, nem ela sabia que eu estava conversando com seu filho. Graças a Deus consegui contornar a situação e convencer a ambos a lidar com aquilo com leveza. Mais tarde, pude conversar também com o seu pai, orientando-o a proceder com carinho e amor. O fato de ser gay não deveria impedi-lo de ser amado por seus pais. Tudo terminou bem. A família se manteve unida. Algum tempo depois, o rapaz concorria a uma vaga numa faculdade de medicina. Ele não só seguiu sendo amado, mas também sendo orgulho para o seus pais. 

Um caso que teve um desfecho trágico é o de Ronald David Roberts, filho primogênito do famoso evangelista norte-americano Oral Roberts[2], que após assumir sua homossexualidade, suicidou-se com um tiro no coração depois de ouvir de seu pai que iria para o inferno caso não abandonasse sua orientação sexual. 

Não me vejo em condição de julgar os pais de um homossexual por sua reação abrupta ante a sua orientação sexual. No caso acima, por ser filho único, era óbvio que havia por parte dos pais a expectativa de que um dia lhes desse um neto. De repente, tal possibilidade parece remota, quase impossível. E o que os parentes vão dizer? Será que vão culpar a educação que deram? E a igreja? Quais serão os comentários de seus membros? Será que dirão que seu filho tão querido está endemoninhado? Não dá para mensurar o sentimento de culpa, a angústia, as dúvidas que pairam sobre a cabeça dos pais ao descobrirem que têm um filho ou uma filha homossexual. O fato é que, por mais que afirmemos não termos qualquer preconceito, raramente alguém vai querer ter um filho gay. Uns por puro preconceito mesmo, mas outros, por achar que não suportariam ver seu filho sendo discriminado e sofrendo todo tipo de bullying por causa de sua orientação sexual. Penso que justamente por esta razão, até mesmo casais homossexuais prefeririam que seus filhos fossem héteros, já que isso os pouparia de tanto sofrimento. 

E se Deus lhe desse um filho gay? Qual seria a sua reação? Você o aceitaria? Tentaria mudá-lo? E se ele fosse vítima de bullying, você o defenderia? Talvez alguém diga: “Isso jamais aconteceria! Por que Deus me daria um filho assim? O que eu teria feito para merecer isso?” Primeiro, ter um filho gay não seria um castigo. Mas pode ser que Deus queira tratar com seus preconceitos. Como também pode ser que Ele intente fazer de sua família uma referência para que outros pais aprendam a lidar com esta questão com serenidade e amor. Há casos de pais que expulsaram o filho de casa, deixando-o numa situação tal que não lhe restou alternativa senão prostituir-se. O apoio que não recebeu em casa é encontrado entre outros homossexuais, vítimas do mesmo desamor. Alguns chegam a dizer que preferiam ter um filho bandido a um filho gay. Imagine crescer ouvindo isso o tempo todo. Por isso, muitos preferem sofrer calados, sem jamais confidenciar seus conflitos com os seus pais e irmãos. 

A igreja, por sua vez, parece não estar preparada para lidar com isso. Em vez de trazer um discurso conciliador, a igreja provoca um abismo quase intransponível entre o homossexual e seus pais. A igreja parece estar tão preparada para lidar com filhos homossexuais quanto os discípulos estavam preparados para atender àquele pai desesperado cujo filho possesso se lançava, ora no fogo, ora na água. Não estou aqui fazendo qualquer comparação entre homossexualidade e possessão, mas comparando o despreparo dos discípulos com o despreparo da igreja atual para lidar com a questão. Jesus havia acabado de descer do monte com três dos seus discípulos mais chegados, onde ouvira dos lábios do Pai: “Este é meu Filho amado, em quem tenho prazer, a Ele ouvi!”[3] Agora se deparava com um pai aflito e desesperado pela condição de seu filho. Que contraste! O que fez o Filho de Deus? Atendeu ao clamor do pai, fazendo o que seus discípulos falharam em fazer. Igualmente, devemos descer de nosso pedestal moral e sair ao encontro daqueles cujas vidas estejam aquém do padrão que muitos consideram ser o correto. E em vez de sair por aí exorcizando o "demônio" da homossexualidade, deveríamos colocar nosso ego para jejuar. O jejum sem o qual certas castas de demônios se recusam a sair não é a abstinência de comida, mas o abdicar-se da presunção, do preconceito, da arrogância religiosa. Gente que arrota santidade prefere construir seus tabernáculos no alto do monte e manter-se separada da gentalha lá embaixo, como sugeriu Pedro no alto daquele monte ao presenciar a transfiguração de Jesus. Com o nosso ego inflado, jamais daremos conta de exorcizar nossos próprios demônios, quanto mais os que assombram os outros. O fato de sermos declarados "amados por Deus" não nos confere o direito de olhar com desdém para os que sofrem, não apenas por sua condição, mas, sobretudo, pela maneira como a sociedade e a família os tratam devido a esta condição. 

O que o homossexual necessita não é de sessão de exorcismo, terapias para voltar para o armário, sermões moralistas inflamados, mas de amor. Apenas isso: amor. A igreja e a família devem oferecer um ambiente acolhedor, desprovido de julgamentos e preconceitos. Com que moral podemos anunciar ao mundo que temos o remédio para suas moléstias, se nem sequer fomos curados de nossa homofobia? Queremos tratar o mundo, enquanto Deus pode estar querendo tratar conosco. O único remédio capaz de tratar tanto o homossexual (devido as feridas que lhe fizemos), quanto o homofóbico, é o amor revelado na graça de Deus. Amor que tudo sofre, tudo suporta e tudo crê. Amor que jamais se acaba. Amor que cobre multidão de pecados[4], tanto dos pais, quanto dos filhos. Tanto de héteros, quanto de homossexuais, quer sejam assumidos ou enrustidos. 

De acordo com a psicanalista e professora da USP Edith Modesto, autora do livro “Mãe sempre sabe? Mitos e Verdades Sobre Pais e seus Filhos Homossexuais”[5], houve uma mudança social muito grande nas últimas décadas que resultou em um tímido, porém vitorioso avanço no que diz respeito à tolerância, sobretudo, nos grandes centros urbanos. Avanços singelos, porém cheios de significado. Em 1992, Edith descobriu que seu filho caçula era gay. Por não saber como lidar com a situação, resolveu recorrer à ajuda de outras mães que houvessem enfrentado o mesmo, mas sua busca foi em vão. Anos depois, decidiu criar o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH) com a intenção de oferecer ajuda a outros pais que também não souberam o que fazer ao tomarem conhecimento da orientação sexual de seus filhos. Em seu livro, Edith explica que apesar das mudanças ocorridas nas últimas gerações, uma coisa que não mudou foi a reação dos pais ao descobrirem que os filhos são gays. Mesmo os pais considerados mais descolados, abertos e modernos, a reação inicial não difere muito. 

Baseado no trabalho da psicanalista, o site Donna[6] elencou 10 frases que pais e mães costumam dizer aos filhos quando descobrem que são gays. Ei-las abaixo com algumas adaptações: 

1. “É só uma fase! Vai passar!” - Segundo a psicanalista, os pais sempre passam por uma fase de negação no processo de aceitação. Compreensível, afinal, não deve ser fácil descobrir que o filho não vai ter aquela vida que os pais imaginavam. No entanto, quando um jovem resolve abrir o jogo é porque já está convicto ou, no máximo, confuso com relação à sua sexualidade. Dizer que é uma fase não ajuda os filhos, nem é bom para os próprios pais. Porque se for, pode ser uma fase para a vida toda. Negar não vai ajudar. 

2. “Não te criei para isso!” - Nenhum pai ou mãe cria um filho para ser gay. A psicanalista conta que a primeira fase pela qual os genitores passam é a do desespero, e aí vem todo tipo de reação. Por mais que a família desconfie da orientação sexual dos filhos, a tendência que é neguem consciente ou inconscientemente até que venha a confirmação. 

3. “O que os outros vão pensar?” - Há sempre aqueles pais que estão preocupados com o que vizinho vai pensar ou o que o colega de trabalho pode dizer. Mas isso é realmente mais importante do que bem-estar do filho? Edith explica que a vergonha é a primeira reação a aparecer e a última a ir embora durante o processo de aceitação. As mães geralmente entram no armário depois que o filho se assume – ou “sai dele”– e acabam se isolando. 

4. “Seu pai vai morrer do coração quando souber disso.” - Não acredito que um pai morra ao saber que o filho é gay. Se a reação for dramática, nada que uma água com açúcar ou um calmante não ajude. Assustar o filho também não vai resolver. Essa frase geralmente vem acompanhada de “o que eu vou dizer para a família?” 

5. “Isso é culpa daqueles seus amigos!” - Em 1990, a Organização Mundial da Saúde excluiu a homossexualidade da lista de distúrbios mentais. Apesar de tardia, a medida surtiu algum efeito, afinal, com isso pode-se afirmar que ser gay não é ser ou estar doente. E, mesmo que fosse, não seria contagioso. Ninguém é gay por influência dos amigos. Segundo a psicanalista, os pais precisam confiar na educação que deram aos filhos. Nenhum pai busca criar um filho influenciável a ponto de pôr a própria sexualidade em questão por causa dos amigos. 

6. “Mas você já tentou com uma menina?” - Até dá para entender a dúvida, mas a verdade é que cada indivíduo tem suas próprias experiências. Enquanto alguns passam por relacionamentos diversos antes de entender a própria orientação, outros não precisam sequer experimentar para ter uma confirmação. Edith conta que certa vez foi abordada por um pai que disse que não era possível o filho ser gay se nunca havia dormido com uma mulher. A psicanalista então perguntou ao pai como era possível ele ter certeza de que era heterossexual, se nunca havia dormido com um homem? O pai silenciou. 

7. “Devia ter dado um skate e não patins.” - Ou então “devia ter te levado para escolinha de futebol!”. Os pais costumam se culpar pelas escolhas dos filhos, principalmente as mães, que se sentem pressionadas para criar a prole da maneira mais adequada possível. Logo, quando os filhos parecem fazer algo errado, elas se culpam. “Foi alguma coisa que eu fiz?” é uma das perguntas recorrentes. 

8. “Eu não tenho preconceito, mas tenho medo do que você vai passar.” -  Há uma fase na aceitação dos pais que é a da vergonha, que às vezes vem junto do medo. Para Edith, as mães acabam deslocando o próprio preconceito para os outros. “E se meu filho apanhar na rua?”, pensam elas. A partir daí, o filho não pode ir a lugar nenhum. Mas, para a psicanalista, esconder o filho não é proteger. 

9. “Você tem certeza?”-  A adolescência é um período efervescente, repleto de pequenas grandes descobertas. É nesta fase em que geralmente se conhece o primeiro amor, que damos o primeiro beijo, que vamos a nossa primeira festa. É também nessa fase que surgem as dúvidas naturais peculiares ao período. Para alguns, as dúvidas vão um pouco além: “será que eu sou gay?”. É natural que os pais questionem a certeza dos filhos sobre a orientação sexual, assim como os próprios filhos o fizeram. Para Edith, os filhos, muitas vezes, acabam exigindo que os pais aceitem em 15 dias o que eles próprios levaram anos para aceitar. É preciso paciência de ambos os lados. 

10. “Vou ama-lo e apoia-lo incondicionalmente, independente da sua orientação sexual.” - Esta foi a reação daquele pastor que me contou sobre seu dilema com o filho homossexual. Em vez de rechaça-lo, ele o acolheu sem se importar com o olhar discriminatório dos membros de sua própria congregação. Lembro-me de ter ouvido dele que preferia perder a igreja a perder o filho. “Se a igreja me desse um pontapé, Deus poderia levantar outra para me apoiar. Mas se eu perdesse o meu filho, jamais me perdoaria.” 

Como podemos ver, nem toda reação é negativa. Existem pais que imersos em seu próprio preconceito e sofrimento, acabam se esquecendo do sofrimento dos filhos, assim como filhos que acabam ignorando o sofrimento dos pais. Aceitar é um processo que pode ser lento e difícil tanto para os filhos, como para os pais. Muito mais que simplesmente aceitar, que, diga-se de passagem, é uma opção individual de cada um, o essencial é respeitar, que, afinal, é dever de todos nós. Se você tem um filho homossexual, ame-o, ainda que não o compreenda num primeiro momento. Não desista dele. Se você é um homossexual, considere-se amado. Se não por sua família, por Aquele que lhe criou. Sua vida é um presente de Deus ao mundo. 

Que as palavras do salmista sejam um consolo para o seu coração: 

 “Se meu pai e minha mãe me abandonarem, o Senhor me acolherá.” Salmos 27:10



[1] A “Casa 1” funciona na cidade de São Paulo e foi idealizada por Iran Giusti, que oferecia o sofá para os amigos expulsos de casa pela família.  Quando o sofá já não tinha espaço suficiente para a demanda, surgiu a ideia de criar um espaço para abriga-los.
[2] O evangelista Oral Roberts começou em uma humilde tenda de avivamento e depois fundou um ministério que administrava milhões de dólares, além de criar uma universidade que leva seu nome.
[3] Mateus 17:5
[4] 1 Pedro 4:8
[5] MODESTO, Edith, Mitos e Verdades Sobre Pais e Seus Filhos Homossexuais, São Paulo: Editora Record, 2008.
[6] http://revistadonna.clicrbs.com.br/noticia/nao-e-uma-fase-10-frases-que-um-filho-ouve-dos-pais-quando-conta-que-e-gay/