domingo, maio 21, 2017

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O Deus Marginal



Por Hermes C. Fernandes

A Bíblia é um livro de milagres. De Gênesis a Apocalipse, a gente se depara com fenômenos inexplicáveis como cegos enxergando, paralíticos andando, mortos ressuscitando, etc. Mas alguns se destacam por não terem acontecido mais que uma vez. Dois exemplos disso são a abertura do Mar Vermelho e as pragas do Egito. De todos os milagres narrados nas Escrituras, há um em especial que devido à sua proporção provoca reações inusitadas.

“Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os amorreus nas mãos dos filhos de Israel, e disse na presença dos israelitas: Sol, detém-se em Gibeom, e tu, lua, no vale de Aijalom. E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos. Não está escrito no livro dos Justos? O sol se deteve no meio do céu e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro. Não houve dia semelhante a esse, nem antes nem depois dele, em que atendeu o Senhor assim à voz de um homem. Certamente o Senhor pelejava por Israel.” Josué 10:12-14

De longe, trata-se do maior milagre registrado nas Escrituras. Um milagre de proporção épica e astronômica. Não importa se foi o sol propriamente ou se foi a rotação da Terra que parou, ou se o tempo simplesmente congelou. O fato é que o próprio escritor afirma que jamais Deus havia atendido à voz de um homem, realizando proeza de tal magnitude.

O que justificaria algo assim? Não era apenas mais uma batalha como tantas outras? Por que Deus daria tamanha importância àquela batalha?

Contra quem Josué lutava? Seria esta a questão chave? Absolutamente, não! A questão chave é: Por quem Josué lutava?

É dito que “certamente o Senhor pelejava por Israel”. Porém, poucos percebem que neste episódio em particular, Israel não lutava por si mesmo, mas em favor de outro povo, a saber, os Gibeonitas, também conhecidos como Heveus.

Se almejarmos que Deus intervenha em nossas batalhas cotidianas, devemos refletir sobre esta questão: por quem temos lutado? Ele assume nossas causas quando assumimos a causa do nosso semelhante.

Mas por que razão Israel comprou a briga dos Gibionitas?

Convém notar que eram cinco contra um! Cinco reis se reuniram para guerrear contra Gibeom. Mas, por quê? O que eles teriam feito capaz de despertar tamanha oposição? Eles fizeram aliança de paz com Israel!

Porém, esta aliança fora feita em condições suspeitas.

Rumores se espalhavam por toda região de Canaã. Duas grandes cidades já haviam sucumbido ante as investidas militares de um povo nômade, que deixara a escravidão do Egito cerca de quarenta anos antes, e que agora, sob o comando de Josué, marchava feito um rolo compressor, derrubando tudo à sua frente.

Jericó e Ai foram devastadas. Quem seria a próxima peça do dominó a cair?

Ao ouvirem tais coisas, “todos os reis que viram a oeste do Jordão, nas montanhas, nas campinas e em toda a costa do grande mar, em frente do Líbano (...) ajuntaram-se de comum acordo para pelejar contra Josué e contra Israel. Todavia, quando os moradores de Gibeom ouviram o que Josué fizera com Jericó e Ai, usaram de astúcia, e foram, e se fingiram embaixadores, e levaram sacos velhos sobre os seus jumentos, e odres de vinho velhos, rotos e consertados. Nos pés traziam sandálias velhas e remendadas, e roupas velhas sobre si. Todo o pão que levavam para o caminho era seco e bolorento. Vieram a Josué, ao arraial em Gilgal, e disseram a ele e aos homens de Israel: Chegamos de uma terra distante; fazei aliança conosco.”[1]

Para assumir a hegemonia daquela vasta região, Israel não poderia poupar nenhum daqueles povos. Para os israelitas, sua espada seria juízo de Deus sobre nações perversas, que se promiscuíra com os falsos deuses, contaminando suas gerações.[2]

Ao alegar terem vindo de uma terra longínqua, os moradores de Gibeom tinham a clara intenção de serem poupados da fúria israelita. Segundo eles, o que os trouxera de tão longe era a fama do seu Deus, e tudo quanto fizera aos egípcios (v.9).

Eles não apenas mentiram descaradamente, como forjaram evidências falsas que corroborassem com sua versão. Ao serem questionados se de fato vinham de uma terra distante, eles responderam:

“Este nosso pão tomamos quente das nossas casas no dia em que saímos para vir ter convosco. Mas agora já está seco e bolorento. E estes odres, que enchemos de vinho, eram novos, mas já estão rotos. E nossas vestes e nossas sandálias já envelheceram, por causa da longa jornada.” Josué 9:12-13

Que contraste! Um povo acostumado a comer do maná que descia do céu, agora se vê diante de representantes de um povo, supostamente vindos de longe, com pães mofados; um povo cujas roupas e sandálias não se envelheceram durante sua jornada de quarenta anos no deserto, diante de pessoas com roupas e sandálias velhas.[3] Que ameaça poderiam inspirar? Eles nem sequer tinham um rei!

Embora o pão que traziam fosse velho e o bolorento, não era suficiente como evidência de que haviam vindo de lugares longínquos.  Todo aquele artifício cênico visava validar suas palavras e, assim, convencer Josué a dar-lhes um destino diferente que tivera os moradores da Jericó e Ai. Pois, funcionou: “Assim Josué fez uma aliança de paz com eles, prometendo poupar-lhes a vida, e os líderes da comunidade prestaram-lhes juramento” (v.15).

Bastaram três dias para que a verdade viesse à tona. Mas agora, já era tarde. A aliança já havia sido feita sob juramento, e, portanto, não poderia ser violada. Sentindo-se enganado, Josué não pôde voltar atrás, porém, pronunciou uma sentença sobre os moradores de Gibeom:

“Chamou-os Josué e lhes perguntou: Por que nos enganastes, dizendo: Muito longe de vós habitamos, morando vós no meio de nós? Agora sereis malditos: entre vós nunca deixará de haver servos, rachadores de lenha e tiradores de água, para a casa do meu Deus (...) Nesse dia, Josué os fez rachadores de lenha e tiradores de água para a comunidade e para o altar do Senhor, até o dia de hoje, no lugar que Deus escolhesse.” vv.22-23, 27

Em outras palavras, Josué fez-lhes uma concessão, permitindo que vivessem entre eles, desde que aceitassem com resignação o papel de servos. Porém, o que para Josué soava como uma maldição, na verdade era uma bênção. Por muitos séculos, os gibeonitas viveram entre os israelitas, trabalhando na manutenção do templo.

Ora, se aquela aliança fora feito tendo uma mentira por base, por que Deus a honraria, a ponto de realizar tão grande milagre?

As vestes e sandálias velhas não serviam de evidências conclusivas de que teriam vindo de longe, pelo menos, não em termos geográficos. Mas talvez fossem indícios de que sua origem remontava tempos a muito esquecidos.

De onde, em termos históricos, teria vindo aquela gente? Qual seria a sua origem? Por que Deus a teria poupado?

A resposta pode ser encontrada em Gênesis 34:1-31.

Jacó havia tido doze filhos, dos quais viriam as doze tribos de Israel. Porém, entre tantos filhos varões, Jacó também teve uma filha chamada Diná.

Num belo dia, Diná resolveu dar uma volta para entrosar-se com outras moças da região. Um príncipe por nome Siquém, filho de Hamor, o Heveu, viu-a e apaixonou-se por ela. Os dois acabaram se relacionando sexualmente. Àquela época, uma relação sexual sem o consentimento da família era considerada uma humilhação. Querendo corrigir seu erro, Siquém recorreu ao seu pai, pedindo que fosse a Jacó, o pai da moça, e lhe pedisse sua mão em casamento. Ao saber que sua filha fora violada, Jacó ficou muito triste, e não quis tomar qualquer decisão sem consultar seus filhos.  Quando souberam do ocorrido, os filhos de Jacó iraram-se e desejaram vingança.  Porém, Hamor, pai de Siquém, lhes fez uma proposta: que eles fizessem uma aliança, de modo que ambos os povos se tornassem um só. Assim, eles poderiam enamorar-se de suas mulheres, e vice-versa, cultivar suas terras, partilhar seus recursos, etc. Porém, o interesse de Siquém era receber a mão de Diná em casamento. Os filhos de Jacó pareciam amistosos e demonstraram boa vontade diante da proposta, contanto que os homens daquela cidade se submetessem ao rito da circuncisão. Aquele era o sinal que Deus havia dado a Abraão. Qualquer que almejasse unir ao seu povo deveria recebê-lo. Os homens da cidade prontamente aceitaram e foram circuncidados.  Tudo parecia correr bem. Aceitar a circuncisão era o mesmo que entrar em aliança. Três dias depois de terem sido circuncidados, quando ainda estavam se convalescendo do procedimento, os filhos de Jacó vieram repentinamente e mataram covardemente todos aqueles homens, inclusive a Siquém e a seu pai. Quando Jacó soube do ocorrido, ficou profundamente abalado.

A partir desse fatídico episódio, não se ouve falar mais de Diná, nem tampouco de seus descendentes. Não sabemos que fim teve ela; como viveu ou como morreu. Tudo indica que a história do povo com que ela se aparentou, correu às margens, paralela à história das tribos de Israel.

Séculos se passaram. Tudo aquilo parecia uma página virada. Porém, Deus jamais Se esqueceu daquela gente.

Mesmo longe, os Gibeonitas estavam a par do que Deus fazia pelos filhos de Israel. Sabiam do tempo de escravidão que amargaram no Egito, do livramento que o Senhor lhes dera, da maneira como Ele os sustentara no deserto. Mas eles souberam esperar por vários séculos, até chegar a hora certa de se reaproximarem.

Não vieram imbuídos de um desejo de vingança. Queriam apenas a chance de coexistirem. A proposta que faziam a Josué era a mesma que seu ancestral Hamor fizera a Jacó.

Embora os Heveus constassem da lista de nações que deveriam ser destruídas por Israel, Deus lhes fez uma exceção.

Agora, os descendentes daqueles que os haviam destruído no passado, lutavam por sua própria vida. Foi a este gesto que Deus honrou ao fazer parar o sol e a lua à pedido de Josué.

Deus jamais se esquecera de Diná, nem do povo com o qual se aparentou.

Há que se considerar que a mulher misteriosa descrita por João em Apocalipse,[4] vestida de sol e tendo a lua sob os seus pés e uma coroa de doze estrelas (referência às dozes tribos de Israel), seja uma representação da filha esquecida de Jacó. Se assim for, ela também tipifica todos relegados ao esquecimento, os proscritos, os marginalizados, aqueles que são prioridades na agenda de Deus.

Os Gibeonitas se tornaram tão importantes para Israel a ponto de ajudarem na reconstrução de Jerusalém e do templo após o retorno do exílio babilônico.

Lemos em 1 Crônicas 9:2 que ao voltarem do exílio, “os primeiros a se restabelecerem nas suas propriedades e nas suas cidades foram alguns israelitas, os sacerdotes, os levitas e os servidores do templo (gibeonitas)”.

Foi também em suas terras (Gibeom) que o tabernáculo foi mantido por muito tempo. Foi também lá que Deus apareceu a Salomão, dando-lhe a oportunidade de pedir o que quisesse. No mesmo lugar onde Josué pediu que o sol se detivesse, Salomão fez o inusitado pedido por sabedoria.

Séculos depois do episódio em que Josué lutou por eles, Deus trouxe juízo sobre Israel por causa do tratamento que Saul dera aos Gibeonitas. Depois de três anos de fome, Davi consultou ao Senhor, que lhe disse que aquilo era resultado dos maus tratos que o rei que o antecedera dera àquele povo com qual Israel tinha uma aliança de coexistência.[5] A fome só cessou quando Davi atendeu ao apelo dos Gibeonitas, entregando-lhes os descendentes de Saul, para que lhes fizesse justiça. Deliberadamente, Davi poupou a um deles, a saber, a Mefibosete, filho de Jonatas, com quem Davi fizera uma aliança.[6]

Nosso Deus jamais se esquece de uma aliança. Assim como os Gibeonitas foram poupados por causa da aliança feita com Josué, e Mefibosete foi poupado por causa da aliança entre Davi e seu pai, somos poupados da justa ira divina por causa da aliança feita entre Deus e Seu Filho Unigênito, Jesus Cristo.

Na noite em que Cristo celebrou a Ceia em que anunciaria a Nova Aliança no Seu sangue, os discípulos foram guiados àquele lugar por um rapaz que carregava um cântaro de água.[7] Ora, quem fora “amaldiçoado” a carregar água em Israel? E ainda: quem teria feito a cruz, já que os Gibionitas eram os responsáveis por cortar lenha em Israel? E por que razão Jesus nasceu numa família cujo chefe era um carpinteiro? Ainda que José não fosse propriamente um Gibionita, identificava-se com eles por sua profissão. O próprio Cristo se identifica com eles ao oferecer à mulher samaritana, e posteriormente ao seu povo em Jerusalém, água viva.[8]

Se quisermos que Deus peleje por nós, teremos que escolher melhor por quem pelejemos. Ao invés de cerrarmos fileiras com os poderosos, nós nos portaremos ao lado dos que correm às margens da história, dos lenhadores e carregadores de água, das minorias, dos negros, dos índios, das mulheres, dos homossexuais, dos usurpados, dos explorados, dos oprimidos. É por eles que Deus trava suas mais gloriosas batalhas. É por eles que Ele é capaz de subverter a ordem cósmica. É com eles que Deus está aliançado, a ponto de dizer que qualquer coisa que façamos aos tais, será como se fizéssemos ao próprio Cristo. Deus não apenas freia o sol, como também o transforma em vestes para os maltrapilhos deste mundo. Ele não apenas freia a lua, mas também a coloca sob os pés dos que se apresentam descalços ante a sacralidade da vida.


[1] Josué 9:1-6
[2] Deuteronômio 20:10-18
[3] Deuteronômio 29:5
[4] Apocalipse 12:1 – A mulher vestida de sol tem sido identificada pela teologia católica como Maria, e por muitos protestantes, tem sido identificada, ora como figura da igreja, ora como Israel. É possível uma múltipla interpretação. Todavia, acredito tratar-se de Diná, a filha esquecida de Jacó, e ao mesmo tempo, da igreja, o povo formado por aqueles que, segundo Paulo, são considerados desprezíveis pelo mundo (1 Coríntios 1:26-28). Assim como Diná deu origem àquele povo, a igreja concebe a nova humanidade.
[5] 2 Samuel 21:1-14
[6] 2 Samuel 9:1-7
[7] Lucas 22:10
[8] João 4:10; 7:38

sexta-feira, maio 19, 2017

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A Operação Patmos, Silas Malafaia e o Apocalipse Tupiniquim


Por Hermes C. Fernandes

Fujam para os montes! Abriram a Caixa de Pandora! A última operação da PF não poderia ter recebido um nome mais sugestivo do que “Patmos”, numa referência à ilha mediterrânea onde o apóstolo João recebeu as revelações narradas no livro de Apocalipse. A operação foi deflagrada a partir da delação dos donos do JBS, maior grupo de produção de proteína animal do mundo. Além de expor um pedido de propina de Aécio Neves no valor de R$ 2 milhões para pagar sua defesa na Lava Jato, também revelou o presidente Michel Temer dando aval para a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha.

“Nada há oculto que não seja revelado”, teria dito Jesus certa feita. E de fato, “Apocalipse” é um termo grego traduzido por “revelação”.

O livro mais temido da Bíblia recorre a imagens grotescas como a de bestas que emergem do abismo para assolar os homens, numa referência cifrada ao império romano.

A operação Patmos expôs mais uma vez as entranhas da besta da corrupção, prenunciando o que pode vir a ser o “fim dos tempos” da era Temer e companhia.

Dentre os fatos estarrecedores, tomamos ciência de que Eduardo Cunha, deputado federal pelo RJ, estaria recebendo uma mesada de 500 mil reais semanais que deveria se estender por vinte anos para manter o silêncio. Isso totalizaria 480 milhões (quase meio bilhão de reais!). Mesmo atrás das grades, o parlamentar que se notabilizou entre os evangélicos com o bordão “porque o nosso povo merece respeito!”, segue sua vexatória trajetória de corrupção. E pensar que houve tempo em que a cabeça de um profeta valia mais do que a metade de um reino.[1] Hoje, o silêncio de um pateta vale mais que uma república inteira.

Se a operação Patmos revelou as bestas do nosso próprio Apocalipse tupiniquim, resta revelar os falsos profetas que a apoiaram. Como toda besta que se preze, as nossas também buscam se respaldar em seus profetas de estimação, capazes de atribuir-lhes a alcunha de "Ungidos do Senhor".  Trata-se de homens vendidos que há muito perderam seu temor a Deus, cortejando despudoradamente quem quer que esteja no poder.

De acordo com a reportagem da Folha, o pastor Silas Malafaia teve seu nome citado na delação premiada de Francisco de Assis e Sila, que defende o grupo dos irmãos Joesley, donos da JBS, e de Wesley Batista. Silva afirmou que Malafaia teria recorrido a Willer Tomaz, outro advogado da JBS, solicitando um encontro com um juiz, com a intenção de estreitar relações com o magistrado após ter sido alvo de condução coercitiva em dezembro. Dois meses depois, Malafaia foi indiciado pela Polícia Federal sob suspeita de haver ajudado suposta organização criminosa a lavar dinheiro. Ele teria recebido a quantia de R$ 100 mil depositados em sua conta pessoal. Mesmo alegando tratar-se de uma oferta, o líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo procurou travar aproximação do poder judiciário, precavendo-se de futuros problemas com a justiça dos homens. Ainda que seja comprovada sua inocência, não pega nada bem para quem se apresenta como paladino da moral e da ética cristãs.

Seria como se Jesus recorresse a Pilatos na calada da noite para garantir que não seria crucificado. O mestre galileu jamais foi afeito a este tipo de postura antiética. Ele preferia tudo às claras, sem rabo preso com quem quer fosse.

É melhor a turma colocar mesmo as barbas de molho... A história se repete: não vai ficar pedra sobre pedra.

Faço votos que um novo Brasil emerja das cinzas deste “apocalipse”, e que se levantem líderes idôneos, profetas sem papas na língua, comprometidos com a justiça e o bem comum e não com agendas megalomaníacas e projetos faraônicos de poder.





[1] João Batista, conhecido por não ter papas na língua, foi decapitado a pedido da enteada do rei Herodes, que preferiu sua morte à metade do seu reino, como lhe foi oferecido por seu padrasto. 

segunda-feira, maio 15, 2017

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Parábolas x Fábulas - A diferença entre o reino de Deus e o reino da fantasia


Por Hermes C. Fernandes

Fábulas. Quem não as ouviu quando criança? Quem nunca adormeceu enquanto sua mãe as contava? Elas servem para entreter e estimular a imaginação das crianças. Pelo menos, a intenção de quem as conta geralmente é esta.  O problema começa quando o indivíduo chega à vida adulta insistindo em viver num mundo de fantasia parecido com o dos contos de fada.

O apóstolo Paulo diz que haveria tempo em que as pessoas já não suportariam a sã doutrina, isto é, a verdade por si só, e como quem tem comichão nos ouvidos, se cercariam de mestres prontos a alimentar suas fantasias.  “E desviarão os ouvidos da verdade, voltando-se às fábulas” (2 Tm.4:3-4).

Uma dose de fantasia é sempre bem-vinda, pois amortece o impacto produzido pela realidade em nossa alma. Todavia, pessoas em posse de suas faculdades mentais sabem diferenciar entre fantasia e realidade. Somente os psicóticos e esquizofrênicos não conseguem distingui-las.

Não desprezemos o poder alucinógeno que tem as fábulas. Na pior das hipóteses, elas são capazes de provocar delírios e alucinações, alienando-nos da realidade. 

Quando os poderosos perceberam o potencial entorpecedor das fábulas, trataram de adotá-las como instrumento de dominação.

Mesmo as verdades do Evangelho podem ser de tal maneira pervertidas que acabem se tornando em fábulas e se pondo à serviço dos poderosos.

Sabendo que os riscos eram reais e que o dia de sua partida se aproximava, Pedro escreveu:

“Mas também eu procurarei em toda a ocasião que depois da minha morte tenhais lembrança destas coisas. Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade.” 2 Pedro 1:15-16

Como diferenciar o Jesus do Evangelho e o Gezuis das fábulas, o Cristo real e o Cristo genérico?

Se as fábulas se tornaram num recurso retórico para o entorpecimento e adestramento da população, as parábolas eram o recurso predileto de Jesus para despertar e chamar as pessoas de volta à realidade. Tanto as fábulas quanto as parábolas são estórias fictícias, porém, têm elementos, desdobramentos e objetivos bem diferentes. Se as fábulas pervertem, as parábolas subvertem.

Vejamos os elementos comuns às fábulas e que as diferenciam das parábolas contadas por Jesus.

O cenário das fábulas é sempre um lugar bem distante e extraordinário, um reino mágico, uma floresta encantada, um país das maravilhas. Assim, o ouvinte é arrebatado, deixando sua dura realidade para explorar lugares só acessíveis à imaginação. Já as parábolas contadas por Jesus tinham como cenário o chão da vida, o cotidiano das pessoas, o dia-a-dia de gente comum.

Toda fábula tem um herói. Geralmente, um príncipe encantado. Alguém que salva a mocinha indefesa das garras do dragão ou da rainha má. Ele não vem das classes humildes. Não é um trabalhador braçal. É um membro da realeza. Um bravo e valente príncipe. Não é à toa que nosso povo, adestrado pelas fábulas, nutre a expectativa de que um dia alguém virá em sua defesa. Trata-se de um messianismo falso, alimentado por uma esperança fantasiosa. Foi esta esperança que colocou Collor no poder. O caçador de marajás parecia a resposta aos nossos mais profundos anseios por justiça. Deu no que deu...

As parábolas de Jesus não tem mocinhos nem bandidos. Não há lugar para heróis. Nelas a ambiguidade de nossa humanidade é exposta. Nossos preconceitos são postos à prova. De quem se espera socorro, recebe-se indiferença. E quem deveria ser vilão, inusitadamente se comporta com altruísmo e compaixão. A mocinha indefesa da fábula se transforma no povo chamado a ser protagonista de sua própria história em vez de ficar aguardando passivamente o beijo do príncipe. 

Não há maçãs enfeitiçadas nas parábolas. Não há nada de que os poderosos nos convençam que não possamos tocar, nem mesmo nos aproximar. Paulo denuncia este instrumento de dominação:

“Tendo cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens (...) Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu (...) Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne.” Colossenses 2:8,18,20-23

Os poderosos usam e abusam da ignorância das pessoas para manipulá-las a seu bel-prazer. Foi assim que os senhores de engenho convenceram os escravos a não comerem as mangas, produto recém-chegado ao Brasil e que prometia trazer muitos lucros. Alegavam que comer manga e beber leite podia levar à morte. Séculos depois, ainda damos crédito a esta fábula ridícula sem qualquer embasamento científico.

Igualmente, há um evangelho que alimenta superstições, levando as pessoas a evitarem certos ambientes e comportamentos, não por consciência, mas por medo de serem ‘enfeitiçadas’ ou de darem ‘legalidade’ ao maligno. De fato, só a verdade liberta. A mentira amordaça e idiotiza.

Toda fábula esboça uma moral. Aquela que serve aos interesses das classes dominantes. “Qual é mesmo a moral da estória?” é a pergunta que paira no ar. Já as parábolas de Jesus demonstram preocupação com questões éticas que seguem pertinentes independentemente da época, da cultura e do lugar.

Algumas parábolas parecem pegadinhas que visam expor nosso senso de moral contraditório.

Não importa qual seja o enredo, todas as fábulas têm final feliz. O que começa invariavelmente com “era uma vez”, termina com “e foram felizes para sempre”. Quem não gostaria que fosse assim na vida real?As parábolas de Jesus rompem com este clichê. Algumas nem sequer parecem terminar. As estórias contadas por Jesus não terminam com final feliz, simplesmente porque elas não terminam. A trama humana segue em aberto. A vida segue seu ritmo. Há espaço para contingências e eventualidades. Fábulas falam de certezas. Parábolas falam de surpresas.

Quando parecia que Jesus ia dar o arremate da estória, ele introduz uma situação inusitada.

Se uma fábula como a da Branca de Neve fosse uma parábola, ela não teria o desfecho que teve. Depois do beijo que quebrou o feitiço da maçã que lhe fora ofertada pela rainha má, a Branca de Neve se casaria, teria filhos, e viveria muitas outras coisas, nem todas tão felizes. Ninguém fica feliz para sempre. Um casamento, por mais maravilhoso que seja, um dia termina, seja pelo divórcio ou pela morte. Haverá dias de sol, mas também dias nublados. Haverá risos, mas também lágrimas em abundância.

De acordo com as fábulas, o objetivo da vida humana é a sua própria felicidade. As parábolas nos sugerem outros objetivos: o bem comum e a glória para Deus.

Enquanto as fábulas nos apresentam um mundo de fantasia, as parábolas revelam como deve funcionar o mundo sob os princípios que regem o reino de Deus.

Depois de terem ouvido Jesus contar inúmeras parábolas, sem conter a curiosidade, os discípulos o cercaram  e perguntaram: “Por que lhes falas por parábolas? Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus (...)  bem-aventurados os vossos olhos, porque veem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. Porque em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram ” (Mateus 13:10,16-17).

A noção que muitos têm do reino de Deus tem mais a ver com as fábulas do que com as parábolas de Jesus. Imaginam um reino num lugar mui, mui, mui distante, para além do sol e das estrelas. Ou, quem sabe, numa dimensão paralela. Para estes, o reino ainda não veio. Foi ofertado por Jesus durante Seu ministério terreno, porém, teve que ser adiado. Todavia, um dia ele virá de maneira estrondosa, com direitos a efeitos especiais dignos de um filme de Steven Spielberg. Nada mais distante da verdade do que isso.

Em uma de Suas parábolas, Jesus diz que o reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo; o qual é, realmente, a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos” (Mt.13:31-32). Portanto, o reino não vem com aparência majestosa. Uma de suas principais características é a discrição. Na parábola seguinte, Ele compara o reino de Deus “ao fermento, que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado” (Mt.13:33). Portanto, o reino não se manifesta de maneira espetaculosa, mas vai se infiltrando sorrateiramente nas estruturas erigidas pelo gênio humano. 

Preferimos confundir a realidade do reino de Deus com o que seria um mundo ideal, onde as coisas sempre começassem e terminassem bem, sem choro, nem sofrimento ou morte.

O ideal do reino, porém, está mais para utopia do que para fantasia. Utopia é aquilo que nos move na direção do horizonte, ainda que a cada passo que dermos, o horizonte pareça se distanciar. Sonhamos com um mundo onde impere a justiça, a verdade e o amor. Um mundo sem guerras, pestes, exploração e violência. Todavia, este mundo com que sonhamos não deve ser esperado, mas perseguido. Ele não está em algum outro lugar. Ele está no futuro. Em vez de aguardarmos uma intervenção divina, devemos arregaçar as mangas e trabalhar como instrumentos usados por Deus na edificação do Seu reino na terra. A intervenção divina já aconteceu no momento que nos foi enviado o Seu único Filho, e posteriormente o Seu Espírito para nos habilitar ao cumprimento do Seu propósito. O futuro, portanto, precisa ser construído, ainda que, do ponto de vista de Deus ele já seja real.

A fantasia produz letargia. A utopia nos impulsiona a caminhar. A fantasia nos anestesia. A utopia nos dá um choque de realidade, sem, contudo, permitir que nos conformemos a ela.

Dentre as várias parábolas registradas nos evangelhos sinóticos, as duas mais conhecidas são, sem dúvida, a do filho pródigo e a do bom samaritano.

Proponho aqui um exercício de imaginação para revermos estas parábolas em camadas.

Na parábola primeira, o filho mais novo pede ao pai que lhe dê sua parte na herança. O pai, por ser justo, resolve repartir a herança entre ele e seu irmão mais velho. O caçula deixa sua casa e gasta tudo o que recebera com orgias e jogatina. Sem dinheiro, humilhado e tendo que trabalhar cuidando de porcos, cai em si e resolve voltar para a casa do pai e pedir-lhe uma chance. Surpreendentemente, o pai não apenas o recebe, mas promove uma festa para recepcioná-lo. O filho mais velho, enciumado, recusa-se a participar da festa. 

Se vivêssemos num mundo ideal, o irmão mais velho celebraria a volta do irmão, certo? Mas, espera aí... num mundo ideal, seu irmão jamais teria gastado tudo com mulheres e farra. Ou ainda: num mundo ideal, ele nem mesmo teria abandonado o seu pai àquela altura da vida. A propósito, por que o mais velho não se manifestou quando o caçula requereu sua parte na herança? Talvez, por ter percebido que ele também seria beneficiado, recebendo sua parte na herança. Num mundo ideal, ele chamaria seu irmão para conversar e o dissuadiria daquela loucura. Porém, o fato é que não vivemos num mundo ideal, tampouco num mundo de fantasias. No mundo real, filhos torram o que custou aos pais uma vida inteira de trabalho árduo. No mundo real, irmãos sentem inveja entre si por se acharem preteridos por seus pais. Onde o reino de Deus entra nisso tudo? Como um reino real e justo opera num mundo real e injusto?

Já que o filho mais novo requereu sua parte... Que o pai reparta com equidade entre ambos os filhos. Já que o pródigo perdeu tudo... Que ele caia em si, se arrependa de sua loucura e tome o rumo da casa do pai. Já que filho rebelde retornou arrependido... Que o pai lhe dê uma festa de recepção. Já que o filho mais velho se recusa a celebrar a volta do irmão... Que o pai vá ao seu encontro e o convença de entrar na festa. Se fosse uma fábula, a estória teria terminado com o irmão mais velho dançando ao lado do resto da família, abraçado ao pai e ao seu irmão pródigo, e, assim, foram felizes para sempre. Em vez disso, a estória termina com o pai argumento com seu primogênito. O que ele teria feito, então? Jamais saberemos. Todavia, podemos saber o que nós mesmos faremos numa situação que demande uma postura semelhante.

Na segunda parábola, um homem é assaltado e deixado semimorto à beira da estrada. Vem um sacerdote e finge não ver. Vem um levita e faz o mesmo. Até que surge um samaritano, e para surpresa de todos, não só lhe presta os primeiros socorros, como também o coloca em sua cavalgadura, leva-o para uma hospedaria, paga a conta do seu tratamento e pede que o dono não economize, caso seja necessário. Na volta, ele passaria por lá e acertaria a conta.

Num mundo ideal, o sacerdote e o levita jamais se recusariam a socorrer àquele moribundo. Num mundo ideal, os ouvintes de Jesus jamais teriam ficado surpresos com a atenção dispensada por um samaritano a um judeu naquelas condições. Não haveria preconceito num mundo ideal. Num mundo ideal, aquele homem nem sequer teria sido assaltado. Num mundo ideal, certamente não haveria assaltantes nas estradas. Mas, definitivamente, este não é um mundo ideal. Coisas ruins acontecem a qualquer um. Nem mesmo os justos estão imunes a isso.

Então... já que há assaltantes na estrada, bom seria que aquele homem não viajasse sozinho. Mas, já que viajava só e foi assaltado... Que quem quer que passe por ali, sem importar sua posição social ou seu credo religioso, pare para prestar-lhe socorro. Já que o sacerdote e o levita se recusaram a parar... Que entre em cena aquelaeque passou a vida inteira sendo alvo de bullying e chacotas por parte dos judeus, e preste o devido socorro àquela vítima sem perguntar-lhe nada.

Num mundo ideal não haveria aborto. Mas já que meninas são estupradas e no momento do desespero acabam optando pelo aborto... Que haja quem as acolha, sem condená-las. Que seu sofrimento seja atenuado.

Num mundo ideal não haveria divórcio. Mas no mundo real, há. Então, que nos habilitemos a acolher os que foram machucados por este tão dolorido processo, sem julgá-los ou discriminá-los.


Num mundo ideal todos sentiríamos atração por pessoas do outro sexo, e assim, não veríamos casais formados por indivíduos do mesmo gênero. Porém, no mundo real as coisas nem sempre são assim. Há mais homossexuais do que imaginamos, inclusive dentro das igrejas. Boa parte deles prefere manter-se no armário para não sofrer discriminação. Então, deixemos de lado nossos preconceitos idiotas e tratemos de acolhê-los com amor.

Num mundo ideal não há drogas. No real, há. Logo, qual deve ser nossa postura ante tão sério e crônico problema social?

Num mundo ideal não há cadeias superlotadas, nem mesmo criminosos para serem presos. Já que isso é coisa do mundo real, então, vamos visitá-los.

Num mundo ideal há acontecem tragédias naturais. Em nosso mundo, sim. O que é que estamos fazendo de braços cruzados? Saiamos ao encontro de suas vítimas, solidarizando-nos com a sua dor.

Num mundo ideal não há fome. No real, sim. Então, repartamos o nosso pão com os que nada têm. Deixemos de apontar o dedo acusador e estendamos as mãos, as mesmas que usualmente levantamos ao céu em adoração a Deus. 

Enquanto a vida acontece lá fora, a bela igreja segue adormecida...

sexta-feira, maio 12, 2017

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Entrevista de Hermes C. Fernandes no talkshow da TV Boas Novas

terça-feira, maio 09, 2017

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Belos por fora, vazios por dentro!




Por Hermes C. Fernandes


“No princípio criou Deus os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas.” Gênesis 1:1-2

Eis a prova de que o Criador prima pelo processo! Em vez de fazer todas as coisas já devidamente prontas, ele prefere submetê-las ao processo de acabamento. Alguns intérpretes afirmam que na verdade a terra tornou-se sem forma e vazia, e chegam a conjecturar que o evento que deflagrou este caos foi a queda de Satanás. Todavia, se lermos o texto sem tentar encaixá-lo em nossa teologia, veremos que ele diz exatamente o que o autor pretendia dizer: Deus cria os céus e a terra, porém, a terra ainda era informe e desabitada. A partir deste ponto do poema da criação, o autor nos brinda com várias estrofes em que Deus vai aperfeiçoando Sua obra, passo a passo até poder soltar um sonoro "Muito bom!"

A criação da Terra serve de analogia para a criação do novo homem em Cristo. Nós somos a nova terra. Tanto a terra quanto o céu, emergiram do nada (ex niilo). Entretanto, a obra não estaria completa, enquanto se mantivesse “sem forma e vazia”.
“Pois assim diz o Senhor que criou os céus, ele é Deus; foi ele que formou a terra, e a fez, ele a estabeleceu; ele não a criou para ser vazia, mas a formou para que fosse habitada...” Isaías 45:18
A primeira providência de Deus para mudar situação caótica temporária em que sua obra se encontrava foi criar a luz: “E disse Deus: Haja luz. E houve luz” (v.3). Sem a luz, a forma não seria distinguível, senão de maneira precária pelo tato. No dizer de Paulo,“todas as coisas manifestas pela luz tornam-se visíveis, pois é a luz que a tudo manifesta” (Ef. 5:13). 

A luz representa o entendimento, a revelação da Palavra, da vontade de Deus. Enquanto a luz visa dar forma, o Espírito Santo, ao pairar sobre a face das águas, tinha por objetivo “encher” o que estava vazio.

A terra deveria ser o cenário onde os propósitos de Deus se realizariam. O Novo Homem, recriado em Cristo, surge em um instante. A conversão não é gradual, como sustentam alguns. Ela acontece no momento em que a Palavra de Deus é ouvida, recebida e crida. Entretanto, a nova criatura agora precisa receber “forma” e “conteúdo”. Ela ainda é uma massa informe, tal qual uma criança que acaba de ser concebida. Aos poucos, à medida que ela recebe luz, conhecimento daquilo que é agradável a Deus, através da Palavra, ela vai adquirindo forma. Como diz a Escritura:
“Pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz (pois o fruto da luz consiste em toda a bondade, e justiça e verdade), descobrindo o que é agradável ao Senhor.” Efésios 5:8-10
Ela já não pode “conformar-se com o mundo” (Rm.12:2). Mas deve renovar-se no conhecimento para que experimente qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Ela é, por assim dizer, remodelada, adquirindo uma nova imagem.

Quando falamos em “forma”, estamos nos referindo à imagem, isto é, àquilo que se vê. Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança, conforme vemos em Gênesis. Enquanto a imagem diz respeito à forma, a semelhança diz respeito ao conteúdo. Ao cair, o homem teve a sua imagem espiritual descaracterizada, borrada pelo pecado. E como se não bastasse, Adão transmitiu isso a todas as gerações. Vejamos:
“Adão viveu cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e pôs-lhe o nome de Sete." Gênesis 5:3
Paulo dá testemunho disso, ao afirmar:
“O primeiro homem (Adão), sendo da terra, é terreno, o segundo homem (Jesus) é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrenos; e qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a IMAGEM do terreno, assim traremos também a imagem do celestial.” 1 Coríntios 15:47-49
Herdamos as características de nossos progenitores. Trazemos a imagem daqueles que nos geraram. E todos pertencemos à mesma árvore: Adão. Por isso é necessário ao homem nascer de novo, para que herde as características do novo Adão, Jesus Cristo, e assim, possa habitar o novo céu e a nova terra criados por Deus. Mais adiante falaremos sobre a realidade do novo céu e da nova terra.

Quando falamos de “forma”, estamos falando de “padrão”, daquilo que é visível. Jesus, porém, veio reconciliar com Deus as coisas visíveis e invisíveis (Col.1:15). Há algo que não pode ser visto, pois trata-se da essência, do homem interior, do conteúdo. Lembremo-nos que, como vasos de barro, somos apenas recipientes de um valioso tesouro (2 Co.4:7). Aquilo que se vê tem importância, pois dá testemunho daquilo que não se vê. Entretanto, a essência precede a forma. Se ficarmos estacionados nessa questão, corremos o risco de viver uma religiosidade de fachada, ao estilo dos fariseus contemporâneos de Jesus. Cabe aqui a exortação de Paulo aos judeus:
“Mas tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; e conheces a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei; e confias que és guia dos cegos, LUZ DOS QUE ESTÃO EM TREVAS, instruidor dos néscios, mestre de crianças, que tens a FORMA da ciência e da verdade da lei; tu, pois, que ensinas a outro, e não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? (...) Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? (...) Não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra, e cujo louvor não provêm dos homens, mas de Deus.” Romanos 2:17-22a, 23, 28-29
Eles tinham a forma. Eles tinham a Lei. Mas faltava-lhes a Graça, o conteúdo. Para eles, era como se a terra já não estivesse sem forma, mas continuava vazia. Havia luz, mas o Espírito não pairava sobre a face das águas!

Embora a Lei conferisse “forma”, apontasse um padrão de comportamento para o homem caído, o escritor sagrado garante que ela “não tem a imagem exata das coisas” (Hb.10:1). Por isso, ela era incapaz de devolver ao homem a Imago Dei perdida na Queda. Era necessário 'Algo' que fosse a “imagem exata”, e não apenas uma mera “fotocópia”. Na verdade, não era de “algo” que o homem precisava, mas de “Alguém”. Hebreus 1:3 nos revela esse Alguém que é “o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa”.

Jesus “encarnou” a Lei, e foi capaz de transcendê-la. Ele não apenas a cumpriu, mas foi além de suas demandas. Por isso Ele mesmo disse:
“Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruí-los, mas para cumpri-los (...) Pois vos digo que se a vossa justiça não EXCEDER a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.” Mateus 5:17,20
O verbo “cumprir” também pode ser traduzido por “encher”. A Lei apresentou-nos a “forma”, porém homem algum foi capaz de preenchê-la. Somente Jesus a preencheu, e desafiou Seus discípulos a excederem a justiça alcançadas pelos homens mais religiosos da época. Exceder é ir além.

Jesus, portanto, nos oferece um novo modelo. Ele é exatamente aquilo que Deus espera que sejamos. E “aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (1 Jo. 2:6). Portanto, Jesus nos oferece a forma e o conteúdo. Ele nos devolve a imagem e a semelhança de Deus. A forma diz respeito àquilo que fazemos, o conteúdo diz respeito àquilo que somos.

A grande missão de Cristo é reconduzir o homem a Deus. Mas para que isso seja possível, é necessário que lhe seja restituído a imagem e a semelhança divinas, das quais foi privado a partir da Queda.

Paulo afirma que Deus nos predestinou para sermos “conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm.8:29). Nosso destino é alcançarmos a perfeição (forma, imagem) e a plenitude (conteúdo, semelhança). Proponho que investiguemos de quê maneira se opera em nós o “remodelamento” e o “enchimento”.

Como somos remodelados?

Para que haja forma, é necessário que haja luz. Paulo diz que Satanás, chamado ali de “deus deste século”, “cegou os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a IMAGEM DE DEUS” (2 Co.4:4). São esses incrédulos para os quais “o nosso evangelho ainda está encoberto” (v.3).

É necessário que haja uma revelação provocada pelo Espírito Santo, para que possamos contemplar a glória de Cristo, que é a imagem do Pai. Paulo diz que “quando um deles se converte ao Senhor então o véu é-lhe retirado” (3:16) E assim, “todos nós, com o rosto descoberto, refletindo a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na MESMA IMAGEM, como pelo Espírito do Senhor” (v.18).

Aos poucos, o Espírito Santo vai transformando nosso modo de viver, e nos fazendo semelhantes a Cristo, a imagem exata do Pai. Na medida em que nos renovamos no espírito do nosso entendimento, somos revestidos do novo homem, “que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Ef.4:24). De acordo com Paulo, é esse “novo homem” “que se renova para o conhecimento, segundo a IMAGEM DAQUELE QUE O CRIOU” (Col.3:10). Agora Cristo não é apenas o Unigênito de Deus, mas o Primogênito. “Por esta causa Jesus não se envergonha de lhes chamar irmãos” (Hb.2:11).

A remodelagem feita pelo Espírito em nós é gradual. É chamada de santificação. Para que fôssemos “refeitos”, e nos tornássemos novamente a “imagem” de Deus, Cristo teve que assumir a nossa própria imagem. Assim como nos tornamos “imagem” de Deus, sem nos tornarmos Deus, Cristo tornou-Se imagem do pecado, sem tornar-Se pecador. Paulo diz que devido à inabilidade da Lei em nos tornar santos, Deus enviou “o seu Filho em semelhança da carne do pecado” (Rm.8:3). E em outra passagem diz: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co.5:21). Esse era o preço que Cristo deveria pagar para que nos fosse restituída a imagem de Deus.

Como somos “preenchidos”?

A obra não seria completa se fôssemos remodelados, mas não fôssemos igualmente cheios. Além de alcançarmos a perfeição (forma), fomos destinados a alcançar a plenitude (conteúdo). Se a forma diz respeito àquilo que se vê, o conteúdo diz respeito àquilo que não se vê. Ao agirmos como Cristo agiria, estamos demonstrando que recobramos a imagem de Deus. Entretanto, não nos basta agir como Cristo, devemos SER como Cristo. Devemos almejar nos assemelharmos a Ele. Não se trata aqui do mesmo desejo que Satanás teve. A diferença é que Satanás quis alcançar a semelhança de Deus, a fim de sobrepujá-Lo. Longe de nós tal pensamento! Jamais desejaríamos ser maiores do que nosso Pai. Jesus disse:
“O discípulo não é mais do que o mestre, nem o servo mais do que o seu senhor. Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor.” Mateus 10:24-25
Esse é o nosso destino final: “Quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque assim com é, o veremos” (1 Jo.3:2). Embora essa promessa vá cumprir-se plenamente na Vinda de Cristo, devemos crer que ela já começa a cumprir-se hoje. Afinal, o mesmo João diz: “Qual ele é, somos nós também neste mundo” (4:17b).

A imagem aponta para as obras, para a Justiça. A semelhança fala da essência. A justiça divina diz respeito à maneira como Deus age. Porém, quando falamos da essência, estamos nos referindo àquilo que Deus é. E qual é a melhor definição que já se fez de Deus? O mesmo apóstolo é quem nos dá essa definição: “DEUS É AMOR” (1 Jo.4:8b). Deus faz justiça, mas é amor. “Quem está em amor está em Deus, e Deus nele” (v.16b).

Ser cheio de Deus é, portanto, ser cheio do AMOR.

Mas não deveríamos ser cheios do Espírito Santo, conforme orienta Paulo em Efésios 5:18? Mas o que é ser cheio do Espírito, afinal? Paulo responde:
“...O amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.” Romanos 5:5b
O amor é o primeiro gomo do fruto do Espírito (Gl.5:22). O cumprimento da lei é o amor (Rm.13:10b). Ou em outras palavras, o “enchimento”, o conteúdo da lei é o amor. Sem ele, pode até haver forma, mas não há conteúdo.

Todos apreciam a promessa que garante que aquele que crê no Senhor fará as mesmas obras que Ele, e as fará maiores ainda, porque Ele estará junto ao Pai para garanti-las (Jo.14:12). Mas se a proposta do evangelho se restringisse a isso, ele não seria completo. Conforme diz Paulo, “ainda que eu tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria” (1 Co.13:2). O mais importante não é o que se faz, mas o que se é. Não adianta fazer, sem ser. Que façamos as mesmas obras que Ele! Mas que, além disso, haja em nós “o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus” (Fp.2:5). E que sentimento foi esse? O Amor.

Para que nos tornássemos novamente a imagem e semelhança de Deus, o amor fez com que Cristo, “sendo em forma de Deus”, não tivesse por usurpação “ser igual a Deus, mas a si mesmo se esvaziou, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens. E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (vv.6-8). Eis aqui a única maneira para que sejamos “cheios” de toda a plenitude de Deus.

O caminho do pleroma é o kenoma. Cristo teve que experimentar um “esvaziamento” (grego=kenoma), para que pudéssemos ser cheios de Deus. Ele esvaziou-se de Suas prerrogativas divinas, mas não Se esvaziou do Seu amor. Ele foi capaz de Se fazer “servo” (lit.: escravo). Provavelmente, Paulo estava se referindo ao episódio narrado em João 13. Ali diz que “sabendo Jesus que a sua hora de passar deste mundo para o Pai já tinha chegado, como havia amado os seus, que estavam no mundo, AMOU-OS ATÉ O FIM” (v.1). Afinal, o amor jamais acaba (1 Co.13). Quem ama, ama até o fim. Diante do olhar curioso dos Seus discípulos, Jesus desnudou-Se, cobriu-Se com uma toalha, e começou a lavar os seus pés. Ninguém entendeu nada. Aquela era uma tarefa dada aos escravos. Eram eles que vinham com bacias cheias de água, para refrescar os pés dos visitantes da casa. Vendo que Pedro estava confuso com o que assistia, Jesus disse: “O que eu faço não sabes agora, mas o compreenderás depois” (v.7). Foi pela pena de Paulo, que Deus nos fez entender o que Jesus estava fazendo. Era necessário que Ele experimentasse uma kenósis completa. Ele tinha que descer ao mais baixo nível, humilhando-Se a Si mesmo, para que agora, movidos pelo mesmo amor, pudéssemos ser cheios da Plenitude de Deus. Foi o mesmo João que registrou essa cena que disse:
“Da sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça. Pois a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.” João 1:16-17
Agora temos mais do que a forma da Lei, temos o conteúdo da Graça: o amor. Através de Sua oferta de amor, tornamo-nos perfeitos, alcançamos a justiça exigida pela Lei (Hb.10:14). Porém, a Sua cruz fez mais do que nos conferir a perfeição exigida na Lei. “Pois o amor de Cristo nos constrange”, diz Paulo, “julgando nós isto: um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu” (2 co.5:14-15).

Agora não temos apenas uma razão para obedecermos a Deus, mas também uma motivação. A razão é a justiça divina, a motivação é o Seu amor. Somos constrangidos por esse tão grande amor. Somos batizados nesse amor. Fomos invadidos e tomados por esse amor. Precisamos experimentar essa Kenósis (esvaziar), se quisermos experimentar o Pleroma de Deus. Temos que nos esvaziar de nós mesmos, para sermos tomados por Deus.

quarta-feira, maio 03, 2017

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Sucesso, propósito e a pergunta que ninguém ousa responder



Por Hermes C. Fernandes

Nada pior do que fazer algo contra a vontade. A coisa não flui como deveria. E, geralmente, os resultados são um fiasco. Mas, por incrível que pareça, não foi assim com Jonas. Ele ainda cheirava a vômito de peixe, quando entrou em Nínive, a capital do império assírio, anunciando que em quarenta dias a cidade cairia, caso não se arrependesse de suas injustiças.  Sua má vontade era tão nítida que duvido que não falasse por entre os dentes para dificultar ainda mais o entendimento da mensagem. 

Imagine a cena: um andarilho fedorento, com um sotaque exótico, gritando feito um doido. É claro que não se poderia esperar qualquer resultado positivo.  Tinha tudo para dar errado. Mas deu certo. Isso mesmo. Funcionou. A população inteira parou para ouvir o que aquele profeta louco anunciava. Até o rei se converteu e ainda baixou um decreto de que todos deveriam igualmente se converter e expressar isso através do jejum. Nem as crianças e os animais foram poupados disso.

Não há precedentes históricos para o que ocorreu em Nínive. Nenhum outro profeta obteve êxito semelhante, nem mesmo em Israel. Nem Elias que fizera descer fogo do céu tantas vezes foi capaz de levar seu próprio povo ao arrependimento da maneira como Jonas em Nínive. Já se cogitou que o seu retumbante sucesso se deveu justamente ao fato de ter sido vomitado por um grande peixe, pois o deus venerado pelos ninivitas era Dagom que tinha o formado de um peixe. Nem precisava que alguém o houvesse flagrado quando fora expelido; o odor que exalava revelava sua procedência. Especulação à parte, o fato é que Jonas tinha muito o que comemorar.

Surpreendentemente, sua reação foi oposta à esperada. Ele mergulhou num processo de depressão profunda. Chegou ao ponto de pedir a morte a Deus.
- Eu sabia que o Senhor tinha coração mole! Como fica agora a minha reputação? Eu disse que o Senhor destruiria a cidade. E o que o Senhor faz? Converte o coração desta gente nojenta. Quer saber? Por isso que quando me enviou para cá, eu fugi para Társis.
Calma aí... Não foi ele que clamou por misericórdia de dentro do ventre do grande peixe? Ele não disse que estava arrependido? Que estória é esta agora? Então, aquele arrependimento foi fajuto?

Tenho a impressão de que muita gente precisa se arrepender de seus arrependimentos fajutos. A pessoa chora, confessa seus erros, pede perdão, mas no fundo, fica esperando a oportunidade para reverter o jogo e alegar que tinha mesmo razão. Ao clamar a Deus, Jonas só queria salvar sua pele. Não estava nem um pouco preocupado com o destino daquele povo, nem com o cumprimento de sua missão. Bem diferente de Paulo que declarou não ter sua vida por preciosa, contanto que cumprisse o ministério que lhe fora confiado.

Como pôde obter tamanho sucesso com um coração tão egoísta?

A Palavra tem vida em si mesma! Por isso, independe da condição do portador. Em Isaías lemos que a Palavra de Deus não volta vazia, mas faz aquilo para o qual é enviada. Mesmo que alguns a preguem com motivações nada louváveis, como bem advertiu Paulo, ela segue produzindo transformação por onde quer que seja anunciada. Se a anunciamos de boa vontade, diz o apóstolo, temos recompensa. Se não, apenas cumprimos nossa obrigação.

Quão complexo e imprevisível é o ser humano. Como explicar a inusitada reação de Jonas ao êxito obtido em Nínive? Ele chega a acampar próximo dos muros da cidade, esperando que Deus reconsiderasse a decisão e a destruísse.

De repente, brota do chão uma aboboreira diferente de tudo o que Jonas já havia visto. Em vez de rasteira, aquele pé de abóbora cresce verticalmente para proporcionar sombra para o profeta.  Como o sol estava de rachar, era de se esperar que ao menos fosse grato a Deus pela provisão. Mas ele estava com a mente ocupada demais para demonstrar gratidão. Tudo o que queria era assistir de camarote à destruição dos ninivitas.

Na manhã seguinte, enquanto ainda dormia protegido pela sombra da aboboreira, Deus enviou um bicho para devorá-la.  Quando o sol bateu em sua fronte, Jonas acordou praguejando tudo o que via à sua volta e mais uma vez fez uma oração suicida.

Deus, então, dirige-se ao profeta reclamão e diz:
- Jonas, você acha mesmo que deveria se lamentar pela aboboreira que você não plantou, que nasceu num dia e morreu no outro, enquanto eu não deveria me compadecer de milhares de ninivitas que mal sabem distinguir entre uma mão e outra?
Xeque-mate.

E assim termina o livro de Jonas, com uma pergunta que calou o profeta.

Quantas vezes Deus terá que permitir que soframos algum prejuízo material para que percebamos o que realmente tem valor em nossa vida? Até quando daremos mais valor às coisas do que às pessoas, à nossa própria vida do que à missão que nos foi confiada? 

O que confere sentido à existência não é o êxito material, mas o sucesso no cumprimento do propósito. Tudo que, por ventura, amealharmos, poderá se perder de uma hora para outra. Não temos controle sobre isso. O que hoje é novinho em folha, amanhã será descartado. Mas o cumprimento de um propósito fica registrado nos anais celestiais. Como diz em Apocalipse, nossas obras nos acompanharão.

Peço ao Senhor que nos cale, não com suas respostas, mas com perguntas que não ousemos responder. Perguntas que jamais se calarão. 


* Para melhor compreensão desta reflexão, sugiro a leitura da reflexão anterior.

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Um profeta "maluco beleza" e a "Marcha para Satanás"




Por Hermes C. Fernandes

Era verão. Estação predileta dos cariocas. O que significa praias lotadas a cada final de semana. E basta que tenhamos um final de semana seguido de feriado, e lá vamos nós para a região dos lagos. Este é o destino mais concorrido pelos cariocas durante a estação mais quente do ano.  Enquanto todos disputam quase que à tapa um metro quadrado das areias de Arraial do Cabo para fincar seu guarda-sol, como carioca atípico que sou, reuni minha família e fomos para Campos do Jordão. Trocamos o “Rio 40º” pelo “Campos do Jordão 14º" em pleno verão. Em vez de roupas de banho, casacos. No lugar dos chinelos de dedo, botas.  Em vez de churrasco na arejada varanda de nosso apartamento, fondue ou massas numa aconchegante cantina italiana.

Destinos. Cada qual tem o direito de escolher o seu. Mas quais os critérios que usamos na hora de decidir entre um e outro? O que influencia nossas escolhas?

Um dos debates mais longos travados pela filosofia e pela teologia gira em torno da tensão entre a soberania divina e a responsabilidade humana, ou se preferirem, entre a predestinação e o livre arbítrio. Esta difícil equação é tratada num dos menores livros do Antigo Testamento: Jonas.

Jonas é enviado por Deus a uma grande cidade chamada Nínive, capital do império assírio. Qualquer um gostaria de passar uma temporada em Nínive. Qualquer um, menos um profeta. Principalmente, tratando-se de um profeta hebreu. Seria um ótimo lugar para se passar férias, mas não para desempenhar uma missão tão árdua. O povo ninivita costumava ser amistoso com os visitantes, mas hostil com quem ousasse questionar seu estilo de vida. Ainda assim, Deus demonstra se importar com eles. Algo teria que ser feito para que se evitasse a degradação daquela sociedade. Ser enviado a Nínive era um voto de confiança e tanto.  Mas Jonas não estava disposto a honrá-lo.

Ao ver a fila dos passageiros que embarcavam para Társis, tratou de comprar seu bilhete. Afinal de contas, Deus é o mesmo em todo lugar, não é mesmo? Se Ele poderia usá-lo em Nínive, por que não o usaria em Társis?

Jonas age como se a ordem divina não passasse de uma sugestão que poderia ou não ser acolhida. No exercício de sua liberdade, Jonas opta por desobedecer.

Convém aqui distinguir entre livre arbítrio e livre agência. O primeiro diz respeito à suposta capacidade do homem de arbitrar de maneira isenta de qualquer influência. Ora, tanto à luz da teologia, quanto da filosofia e até da psicologia, o livro arbítrio não passa de um mito. Todas as nossas escolhas são direta ou indiretamente influenciadas pelo ambiente, pela cultura, por pressões sociais, por taxas hormonais, e tantos outros fatores que dificilmente conseguiria enumerar. Apesar disso, somos responsáveis perante Deus por nossas escolhas. Caso contrário, não faria sentido sermos julgados por elas. Como agentes morais, somos dotados de livre agência. Independentemente de quantas vozes ouçamos no transcorrer do processo de escolha, cabe-nos a decisão final.

E como fica a soberania de Deus nisso tudo? No mesmo lugar de sempre. Absoluta. Somente um Deus verdadeiramente soberano não se sentiria ameaçado pela liberdade humana. Um Deus que precisasse nos privar desta liberdade para assegurar Sua soberania, estaria demonstrando o quão fraco e inseguro é.

Vamos deixar esta discussão para outra hora. Voltemos a Jonas.

O texto bíblico diz que ele pagou pela passagem. Não vejo razão para este detalhe, senão como aviso de que, quando optamos por fazer nossa própria vontade, quem paga o bilhete somos nós.  Mas se nos submetemos à vontade de Deus, Ele mesmo arca com os custos. Assim como ocorreu aos discípulos enviados por Jesus de cidade em cidade, sem lenço e nem documento. Ao retornarem, o mestre perguntou-lhes: Porventura vos faltou alguma coisa? E a resposta dada em uníssono foi: Nada!

Tudo seguia tranquilo até que uma inesperada tempestade atingiu em cheio o navio. Primeira medida tomada pela tripulação: livrar-se da bagagem. Com o barco mais leve, o naufrágio se tornaria numa possibilidade mais remota. Porém, a medida drástica não foi suficiente. O navio ameaçava quebrar ao meio.

Não basta tornar a vida mais leve, livrando-se dos pesos extras da preocupação. Nem basta praticarmos atos benevolentes por desencargo de consciência. Há que se descobrir a razão pela qual nosso barco existencial está a um fio de afundar. Que tal começarmos investigando os porões de nossa alma? Pois ideia semelhante teve o capitão daquela nau. Descendo ao porão do barco, flagrou ali o profeta rebelde tirando um cochilo. Enquanto cada membro da tripulação clamava à divindade de sua devoção, Jonas dormia. Espera aí... quem consegue dormir numa situação daquela? Quem consegue apagar embalado pelos açoites das ondas?

Ora, se Jonas consegue, nós também conseguimos. Jonas é o retrato da igreja cristã de nossos dias. Deixamos a proa do navio e nos aconchegamos em seu úmido porão, sem nos importar com o nauseante balanço provocado pelas ondas. Cultivamos uma espiritualidade que nos aliena da realidade e nos torna indiferentes à tragédia que nos circunda, como se não fôssemos igualmente vítimas dela. E ainda por cima, nos achamos no direito de julgar e condenar os que clamam pelo socorro de outros deuses.

Ficamos ofendidos com a marcha para Satanás, mesmo percebendo não passar de uma sátira que visa expor o anacronismo de nossa agenda. Enquanto dormimos o sono da indolência ao som dos trios elétricos que nos conduzem pela avenida em nossas marchas para Jesus, os que dizem marchar para Satanás clamam em favor das minorias, saem em defesa de valores que nos deveriam ser caros. E nós, os que marchamos para Jesus, estamos mais preocupados em dar uma demonstração de nossa força. Nem sequer cogitamos que nosso fervor está sendo usado como capital político usado inescrupulosamente na barganha entre os líderes eclesiásticos e os detentores do poder político.

Jonas teve que ouvir um sermão do capitão do navio.

- Acorda, dorminhoco! Quem é você? De onde vem? Você não é nenhum gaiato, é?

- Eu sou hebreu e temo ao Senhor.

- Então, trate de nos dizer por que razão nos sobreveio este mal.

Como era costume entre os povos antigos, lançaram sorte e ela caiu sobre Jonas. O profeta agora estava encurralado. Todos cobravam dele uma resposta. Tonto de sono, Jonas assume a responsabilidade pela situação.

- O problema aqui sou eu. Se quiserem poupar suas vidas, lancem-me ao mar.

Ora, até onde sabemos, só havia pagãos naquele barco. O que esperar de gente que não comunga de nossa fé? No mínimo, não titubeariam em arremessar o profeta do navio imediatamente. Em vez disso, optaram por remar com mais força para tentar alcançar a terra seca. De onde menos se espera, compaixão. De onde mais se espera, indiferença. Deus estava dando uma baita de uma lição no profeta rebelde, semelhante à dada por Jesus aos Seus discípulos com a parábola do Bom Samaritano.
Vendo que era inútil remar, os homens daquele navio clamaram ao Senhor. Lançar Jonas ao mar era a última medida que pretendiam tomar. Tenho a impressão de que o próprio Jonas deva ter insistido com eles que, finalmente, cederam.

Homem ao mar!

É disso que a igreja contemporânea necessita desesperadamente. Um choque de realidade. Enquanto não deixarmos o conforto dos porões de nossa religiosidade e não formos arremessados no mar da realidade, não poderemos retomar a rota da qual temos fugido há tanto tempo.

Deus, porém, já havia preparado um submarino para resgatá-lo. Um submarino de carne e osso, coberto de escamas (antes de que digam que baleia não tem escamas, devo salientar que em lugar algum do texto é dito tratar-se de uma baleia). Engolido pelo grande peixe, Jonas concluiu que estava no inferno. O que dizer de um lugar fétido e gosmento e ainda por cima sem luz?

Por alguma razão que não nos é revelada, Jonas cria que mesmo do inferno Deus poderia ouvi-lo e reverter sua sentença. Por isso, clama desesperadamente. Admite seu pecado. Implora por misericórdia.

Três dias depois (que pareceram uma eternidade), surge uma luz que o deixa quase cego. A língua do peixe se estende como um tapete vermelho e Jonas é convidado a se retirar.

Uma voz se faz ouvida desde o céu: Levante-se e vá para Nínive!

Nossa liberdade não interfere nos planos de Deus. Às vezes aprendemos às duras penas que “nenhum dos seus planos pode ser frustrado”.  De uma maneira ou de outra, o propósito de nossa existência se cumprirá. O universo inteiro está calibrado para isso. Por isso, inútil é tentar fugir dos propósitos divinos.  Temos, porém, diante de nós, duas alternativas: a mais fácil e a mais difícil. A indolor e a dolorosa.

O que parecia ser castigo, na verdade era livramento. Não apenas para Jonas que se afogaria caso o peixe não o tragasse, mas também para milhares de ninivitas que pereciam sem a oportunidade de conhecer a vontade de Deus e se arrepender de seus descaminhos. 

Não somos o centro gravitacional do universo.  O Deus que tanto se importa conosco, também se importa com o restante da criação. Ele não vai livrar nossa cara ao custo de perdição dos demais.

Então, que tal deixarmos de “recalcitrar contra os aguilhões” e nos rendermos a este amor do qual somos canais e não apenas receptáculos?


Esta reflexão continuará ao longo da semana. 

***

P.S. Sinto-me feliz de morar num país em que seja possível marchar pelo que quisermos.Pena darmos tanto peso ao que não passa de uma sátira, sem perceber que os satirizados somos nós. E com razão. Em vez de alardearmos a igreja quanto à insurgência do mal, deveríamos submeter-nos a uma autocrítica madura. Quem fornece a munição usada para nos satirizar somos nós mesmos. Tornamo-nos numa igreja caricata, bem distante do ideal proposto pelo Cristo a quem dizemos amar. Quem, de fato, marcha para Satanás, é quem se opõe ao projeto de Deus de redimir toda a criação. É quem segue o rumo ditado pelo sistema baseado em valores contrários ao do reino de Deus. Um sistema em que o maior é o que se impõe sobre os menores, o primeiro é quem sabe se valorizar, o mais forte é quem prevalece sobre os mais fracos e o sábio é quem sabe tirar vantagem de qualquer situação. Em contrapartida, quem, de fato, marcha para Jesus é o que entende que no reino de Deus o menor é o maior, o que admite sua fraqueza é o forte, e o que não se estriba em sua própria sabedoria é o verdadeiro sábio. O resto é gaiatice, não importa o  nome que exiba, Jesus ou Satanás.

Atendendo a pedidos de quem grita da plateia: "Toca Raul!"