sexta-feira, março 24, 2017

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O FIM DO INFERNO!



"Se eu te adorar por medo do inferno, queima-me no inferno. 
Se eu te adorar pelo paraíso, exclua-me do paraíso. 
Mas se eu te adorar pelo que Tu és, não escondas de mim a Tua face." 
Rabia, 800 d.C.

 Por Hermes C. Fernandes

Se alguém entendeu através dos posts anteriores que não creio na existência do inferno, sinto informar que se enganou. O inferno existe. Mas não é a câmara de tortura eterna que muitos imaginam que seja. As imagens usadas para descrever o inferno nada mais são do que uma tentativa de conscientizar às pessoas sobre a gravidade de se levar uma vida autocentrada, alienada de Deus e de seus semelhantes. O inferno é uma condição existencial. Ele começa a ser experimentado já nesta vida e se plenifica após a morte. Suas chamas são uma metáfora do juízo divino sobre toda impiedade e injustiça. Isso está claro em passagens como a de Deuteronômio 32:22, onde lemos: “Porque um fogo se acendeu na minha ira, e arderá até ao mais profundo do inferno, e consumirá a terra com a sua colheita, e abrasará os fundamentos dos montes.”

Portanto, pode-se afirmar que o inferno seja a resposta de Deus à injustiça perpetrada pelo homem.

Mesmo o batismo de fogo a que se refere o movimento pentecostal nada mais é do que a manifestação da justa ira de Deus contra a iniquidade. Ao referir-se àquele que o sucederia, João Batista declarou: “Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das sandálias; esse vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele tem a pá na sua mão; e limpará a sua eira, e ajuntará o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga” (Lucas 3:16-17). Repare nisso: são dois tipos de batismo que Jesus traria: o do Espírito que visa a restauração e renovação de tudo e o de fogo que visa a purificação. Para que haja purificação, algo precisa ser consumido. Tudo que é palha deve ser consumido pelo fogo da justiça divina. Tudo o que é fruto da vaidade e presunção humanas. Tudo que tem no ego a sua base de sustentação. É a isso que o escritor sagrado se refere ao falar da “remoção das coisas abaláveis (...) para que as inabaláveis permaneçam” (Hebreus 12:27).

O próprio Jesus dá testemunho de que para tal Ele viera ao mundo: Vim lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está aceso?” (Lucas 12:49). É este fogo que põe à prova nossas obras. Tudo o que é feito para durar, escapa ileso à sua fúria. Mas o que visa tão-somente alimentar nossa arrogância e narcisismo e suprir nossa busca desenfreada por prazer será fadado a ser consumido. Só vale a pena manter o que transcende à nossa própria existência; o que não tem prazo de validade; o que visa não apenas o nosso bem, mas o do nosso próximo. É o que Jesus chama de "ajuntar tesouros no céu." E quando digo “próximo”, não me refiro apenas à proximidade geográfica ou similitude, mas também àquele que vem depois de nós, e que desfrutará do nosso legado. Amar o próximo também é amar que vem após nós; aquele que ocupará o lugar que hoje ocupamos, e que usufruirá do fruto de nosso trabalho. Tudo o que for feito visando apenas nosso aprazimento, não resistirá à prova do fogo, e, portanto, não sobreviverá a nós.

Viver para si é a essência do que as Escrituras chamam de pecado. Se repararmos na natureza, nada vive para si. As árvores não se alimentam dos frutos que produzem. Os rios não bebem de sua própria água. O sol não brilha para si. As flores não sentem a fragrância que exalam. Tudo o que Deus criou, Ele o fez para que existisse para além de si. Isso é transcendência! Somente isso poderia nos garantir a eternidade. De acordo com Paulo, Cristo morreu por todos “para que os que vivem não vivam mais para si” (2 Coríntios 5:15).

Este é um dos assuntos principais abordados por Paulo em suas cartas. Ele mesmo deu testemunho em sua despedida dos efésios: “Em nada, porém, considero minha vida preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24). Por isso, ele não se importava de sofrer qualquer que fosse o prejuízo, até mesmo a morte. Sua obra no Senhor seria a evidência de que sua vida não teria sido em vão.

Só há, por assim dizer, uma maneira de ser poupado das chamas do juízo de Deus: deixar-se consumir em vida por amor. O que não for consumido pelas chamas do amor, será consumido pelas chamas do juízo. Era tal consciência que movia o apóstolo de modo que não se importava em exaurir suas forças e energias pelo bem de todos. “Eu de muito boa vontade gastarei”, testifica, “e me deixarei gastar pela vossa alma, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado” (2 Coríntios 12:15). Tal postura subversiva era alimentada pelas palavras de Cristo: “Quem ama sua vida, a perderá, mas quem odeia a sua vida neste mundo a guardará para a vida eterna” (João 12:25). “Odiar” aqui tem o sentido de desprezar, não atribuir valor, fazer pouco caso, desdenhar. Somos desafiados a abrir mão de nossa própria vida por algo infinitamente maior. “Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá”, diz o Cristo, “mas quem perder a sua vida por minha causa e do evangelho, esse a salvará” (Marcos 8:35). Para nós, seguidores de Cristo, o inferno não é o outro como dizia Sartre, o filósofo existencialista francês. O outro é a possibilidade do céu. Viver para o outro é poupar-se de uma vida desprovida de significado. Viver para o outro é deixar vago seu lugar no inferno. É garantir que suas obras continuarão a repercutir mesmo depois de sua partida, ecoando na eternidade. Eis a promessa: “Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansarão dos seus trabalhos, pois as suas obras os acompanharão” (Apocalipse 14:13).

Tanto Paulo, quanto Moisés, parecem ter captado tal verdade. Somente isso justificaria certas posturas radicais adotadas por eles. Paulo, por exemplo, diz que preferia estar separado de Cristo se isso resultasse na salvação de seus patrícios. “Porque eu mesmo”, afirma o apóstolo, “desejaria ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne; os quais são israelitas...” (Romanos 9:3-4a).  Repare: Ele estava disposto a abrir mão da própria salvação caso isso garantisse que os judeus fossem alcançados. Ele hipotecaria a eternidade pelo bem de quem o perseguia. Moisés adotou postura semelhante ao pedir que Deus riscasse seu nome do livro da vida, mas não desistisse do Seu povo (Êxodo 32:32). Uma espiritualidade egocêntrica como a que tem sido pregada em nossos dias jamais produziria tal disposição. Cada qual está interessado em salvar a sua própria pele.

Para Paulo, Cristo é o fundamento da nova humanidade, assim como Adão foi o fundamento da humanidade original. Cada ser humano é convidado a escolher com que material vai edificar sua vida em cima deste fundamento.  Uns escolhem material de primeira, resistente ao tempo e ao fogo, outros, porém, escolhem material de qualidade duvidosa.

“Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio construtor, o fundamento, e outro edifica sobre ele. Mas veja cada um como edifica sobre ele. Pois ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento levantar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará, porque o dia a demonstrará. Pelo fogo será revelada, e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou sobre ele permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda; o tal será salvo, todavia como pelo fogo.” 1 Coríntios 3:10-15

Repare nisso: o fogo é o instrumento de controle de qualidade usado por Deus. O que sobrevive a ele, está destinado a durar para sempre. O que sucumbe a ele, está destinado a perecer para sempre. Mas há algo que geralmente passa despercebido nesta passagem: “Se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda; O TAL SERÁ SALVO, todavia como pelo fogo.” Leia quantas vezes quiser. O texto seguirá sendo o mesmo. Nenhum tradutor da Bíblia ousou modificá-lo para encaixá-lo em sua doutrina.

É esta mesma esperança que encontramos numa outra passagem igualmente ignorada: “E apiedai-vos de alguns que estão na dúvida, salvai-os, arrebatando-os do fogo (Judas 22-23a). Que bom que as portas do inferno não prevalecem contra nós! Podemos simplesmente invadi-lo e tirar de lá os que estão perecendo ainda em vida. Se é verdade que podemos salvar o que perecem em vida, que dirá Cristo poderá arrebatar os que lá estiverem após a morte (vamos nos aprofundar nisso adiante).

Então, o inferno não teria a última palavra? Não! Ele visa consumir o que não foi “consumido” pelo amor. A palha do egoísmo, o feno da avareza, a madeira da corrupção e da promiscuidade que coisifica o ser serão devorados por suas chamas. Porém, no final, a essência do ser será salva. Embora sua existência terrena não tenha passado no controle de qualidade dos céus, sua essência (espírito) será salva, ainda que pelo fogo.

E como lemos anteriormente, este fogo já está aceso. Suas labaredas podem ser sentidas desde já. O escritor de Hebreus afirma que “se voluntariamente continuarmos no pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas certa expectação horrível de juízo e ardor de fogo que há de devorar os adversários” (Hb.10:26-27). Observe bem: apesar de filhos, não somos poupados deste “ardor de fogo”, porém, não somos devorados por ele. Afinal, o inferno foi “preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41). Por isso, lemos que este fogo “há de devorar os adversários”. Aliás, para quem diz que se trata de “fogo” diferente, como explicar esta passagem? O fogo é exatamente o mesmo! Uma metáfora para o juízo de Deus contra toda a injustiça. Este fogo devora uns, purifica outros. Devora demônios, purifica humanos.

Vasos de honra x vasos de desonra

Estariam todos destinados à salvação? Não! Quer dizer... depende do que chamamos de salvação. A Bíblia é clara ao afirmar que há “vasos de honra” destinados à salvação, e “vasos de desonra” destinados à perdição. Todavia, precisamos entender o sentido disso, e para tal, recorreremos a duas passagens. Em Romanos 9:21-23 lemos que da mesma massa, Deus, o Oleiro, fez um vaso para honra e outro para desonra. Para o autor desta epístola, o objetivo de Deus ao criar vasos para desonra era “mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder”,  e que os mesmos estaria “preparados para a perdição”. Em contraste, o mesmo Oleiro teria criado vasos de honra, através dos quais “desse a conhecer as riquezas da sua glória”. Estes também são chamados de “vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou”.

Geralmente, quando lemos “vasos de misericórdia”, entendemos que se trata de recipientes destinados a serem alvo da misericórdia divina, resultando em sua salvação. Acho que não entendemos direito. Ser vaso não é ser receptáculo, mas ser instrumento através do qual algo será servido. Portanto, ser vaso de misericórdia é ser o canal pelo qual a misericórdia será servida a outros. E como bem disse Jesus, “bem-aventurados os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia” (Mateus 5:7). Contudo, Tiago nos alerta que “o juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia”;  mas apesar disso, mesmo que o juízo divino seja severo, “a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tiago 2:13).

Pena que muitos se atêm à passagem em que Paulo distingue os vasos de misericórdia dos vasos de ira. Bom seria se avançassem um pouco no texto e lessem, dentre muitas coisas, o que ele diz no capítulo 11: “Assim como vós também outrora fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia pela desobediência deles, assim também estes agora foram desobedientes, para igualmente alcançarem misericórdia a vós demonstrada. Pois Deus colocou a todos debaixo da desobediência, a fim de PARA COM TODOS USAR DE MISERICÓRDIA”(vv.30-32).

Portanto, a misericórdia revelada através dos “vasos de honra” é apenas uma amostra grátis da que se revelará indistintamente a todos. Se invariavelmente ela triunfa sobre o juízo, logo, a única conclusão possível é que ela, a misericórdia, terá a última palavra. Quem se sente desconfortável com isso precisa rever sua fé, pois esta não parece estar baseada no amor, a não ser que seja no amor próprio.

A figura do vaso é uma referência à nossa existência terrena. O vaso, portanto, está sujeito às contingências desta vida. Como disse Paulo em outra passagem, “numa grande casa não há somente vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar dessas coisas, será vaso para honra, santificado, idôneo para uso do Senhor e preparado para toda a boa obra” (2 Timóteo 2: 20). Mesmo os vasos de desonra servem a um propósito divino: ser instrumentos através dos quais a justa ira de Deus é demonstrada.

Vasos de ouro e de prata estão destinados a terem suas existências eternizadas. Suas obras os acompanharão, como vimos há pouco. Vasos de pau e de barro são aqueles cujas existências foram desperdiçadas numa vida autocentrada. Em se tratando de "existência", não há segunda chance. Só existimos uma vez. Falo de existência de acordo com a definição existencialista. Vamos levar daqui exatamente o que houvermos vivido. Mas as obras de alguns serão queimadas. Entretanto, seu "eu essencial" será salvo. Como disse o sábio Salomão, o corpo volta para o pó, mas o espírito volta pra Deus que o deu.  O que mais importa não é o recipiente em si, mas seu conteúdo. Por isso Paulo identifica o homem interior, a essência, como um tesouro em vaso de barro (2 Coríntios 4:7), e conclui afirmando que “ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (v.16).

Com isso em mente, fica mais fácil entender o que Paulo intentava ao afirmar haver entregue alguém a Satanás “para a destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus” (1 Coríntios 5:5). Obviamente que foi uma medida disciplinar drástica, usada pelo apóstolo para poupar a igreja de um escândalo sem precedentes. Quem se atrever a acusa-lo de falta de misericórdia, deve repensar sua postura ao defender que alguém padeceria eternamente no inferno sem dó, nem piedade. Apesar de drástica, a disciplina apostólica não excluía a certeza de que aquela vida seria poupada de um sofrimento eterno.  Entregar o corpo ao diabo é um eufemismo, e pode ser considerado o mesmo que colocar a existência sob o escrutínio e juízo divinos.  

Ainda que a existência se perca, que a vida tenha sido um completo desperdício, destino à lixeira do universo, a essência não pode ser perder, haja vista ter sua origem no próprio Deus.

Para fins didáticos, faço uma distinção entre salvação e a reconciliação. Salvação diz respeito à existência, reconciliação diz respeito à essência.  Repare no que diz Paulo aos Romanos:
“Pois se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida (...) Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens, para justificação e vida.” Romanos 5:10,18
Parece-me claro que haja uma distinção entre salvação e reconciliação. Através da cruz, toda a criação foi reconciliada com Deus. Somos reconciliados pela morte de Cristo e salvos pela sua vida em nós. Esta reconciliação, todavia, não se restringe aos que têm sua existência ressignificada, mas a todos os homens indistintamente.  O que não significa que não possam ser condenados, isto é, ter suas existências reprovadas pelo juízo divino e sofrer as devidas sanções. Entretanto, sua essência será plenamente redimida para além do tempo e do espaço.

E como se dará isso? Da mesma maneira como ocorre durante a vida terrena, mediante o reconhecimento e confissão do senhorio de Cristo sobre todas as esferas da existência. “Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor(...) serás salvo”, declara Paulo (Romanos 10:9).

Para muitos, esta confissão só tem validade durante nosso prazo de vida terrena. Após a morte, todas as possibilidades estão esgotadas. Porém, não é isso que encontramos nas Escrituras. O mesmo Paulo diz ao nome de Jesus se dobrará “todo joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra e que toda língua confessará “que Cristo Jesus é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Filipenses 2:10).

João reverbera o mesmo ensino apostólico na descrição de sua visão no Apocalipse:

“Então ouvi a toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e no mar, e a todas as coisas que neles há, dizerem: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o poder para todo o sempre.” Apocalipse 5:13

Ora, a expressão "debaixo da terra" é uma alusão àquela esfera existencial a que chamamos de inferno. Se os que lá estiverem reconhecerem a Jesus como Senhor, serão igualmente salvos, podendo, então, usufruir da reconciliação provida pelo sacrifício de Jesus.  O que João descreve é a cena desta promessa divina concretizada: toda criatura, inclusive as que estiverem no inferno, prestando tributos e louvores ao Cordeiro, reconhecendo-O como Senhor.

Ainda que suas existências tenham sido desperdiçadas, sendo lançadas no lixão da história, sua essência será restaurada.

Então, qual a vantagem de se servir a Cristo se no final das contas todos serão alcançados por esta mesma graça? Caso você tenha feito esta pergunta, sugiro que reveja sua fé. Você está adotando a mesma postura do irmão mais velho da parábola do Filho Pródigo.

O mesmo Cristo que é “a propiciação pelos nossos pecados”, também é “pelos de todo o mundo” (1 João 2:2). Não ouse subestimar o alcance de Sua graça.

E isso também não é justificativa para deixarmos de trabalhar pelo avanço do reino de Deus. Cada vida salva durante sua jornada neste mundo é poupada do ardor do fogo da justa ira divina. "Pois para isto é que trabalhamos e lutamos”, conclui Paulo, “porque esperamos no Deus vivo, que é o salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis”(1 Timóteo 4:10). Ele não é salvador de alguns. Ele é salvador de todos, ainda que, de maneira especial, seja o salvador daqueles que n’Ele depositam sua fé. Portanto, Ele é salvador de crentes e incrédulos! A diferença é que uns são alcançados durante a História, enquanto outros, após ela. Os que são salvos durante sua jornada existencial são os vasos de honra, aqueles através de quem a misericórdia é servida ao mundo. Os que são salvos após a história são os vasos de desonra, cujas vidas servem ao propósito de serem um sinal de advertência da justiça divina.

A parte d’Ele está feita! Resta apenas a nossa parte.

“E tudo isto provém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação, isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens os seus pecados, e nos confiou a palavra da reconciliação.” 2 Coríntios 5:18-19

Deus não está de mal com o mundo! Esta é boa nova do evangelho! Nossa missão é anunciar tal fato a todos para que desfrutem imediatamente o favor divino. Não se trata de garantir passagem de ida para o céu, mas de trabalhar para que a vontade de Deus seja feita aqui na terra como é feita no céu.

Conhecida como “reconciliação universal”, tal perspectiva teológica considera a possibilidade de que todos, eventualmente, desfrutarão da comunhão com Deus, ainda que após o final da história. Se alguém imagina que tal perspectiva seja algo novo, devo salientar que muitos cristãos sinceros a têm esboçado ao longo dos séculos. Entre eles, destacamos C.S. Lewis, anglicano, autor de “As Crônicas de Nárnia”, Philip Yancey, celebrado autor norte-americano, Gerald Mann, pastor batista, Charles Schulz, metodista e criador do Snoopy, Robert Short, pastor presbiterianos, Carl Rahner, teólogo católico, Tony Campolo, pastor batista, Brennan Manning, ex-monge franciscano e autor também muito celebrado entre os evangélicos brasileiros, Karl Barth, teólogo protestante, Hans Küng, teólogo católico, Paul Tournier, psiquiatra protestante, Emil Brunner, teólogo protestante, Rob Bell, considerado o mais influente pastor norte-americano das últimas décadas, e tantos outros. Até o século V era uma das vertentes mais fortes dentro da teologia cristã. Outros como John Stott, pastor e autor episcopal, não acreditavam propriamente numa reconciliação universal, mas se recusam a endossar o ensino de um inferno eterno por considerá-lo incompatível com o amor de Deus. Para estes, só uma chama poderia ser eterna, e não era a do inferno!

Alguns como Jürgen Moltmann, autor de “Teologia da Esperança” não chegam a afirmar categoricamente a reconciliação universal, mas deixam aberta a porta da possibilidade de que esta seja a vontade de Deus. "Não prego a reconciliação total, prego a todos a reconciliação na cruz de Cristo”, declarou o teólogo suíço. “Não anuncio que todos serão remidos, mas confio que a mensagem será anunciada até que todos se salvem. Se o futuro de Deus se chama realmente: eis que faço novas todas as coisas, todos estão convidados e ninguém está excluído. Mesmo para aqueles que rejeitam o convite ele continua de pé, pois vem de Deus. Eu não sou um universalista, mas Deus pode sê-lo. Eu não ensino a reconciliação total, mas também não nego. Deus não sossega até que todas as suas criaturas, como o filho pródigo da parábola, tenham retornado a seu seio.”

Durante muito tempo, estive entre estes. Torcia para que fosse verdade. E acho que este deveria ser o desejo de todo discípulo de Cristo. Até que um dia, deparei-me com um verso que deixa claro que esta não era apenas a minha vontade, mas a vontade do próprio Deus. A partir daí, deixei de torcer para que tal possibilidade se comprovasse verdadeira, e passei a pregá-la em alto e bom tom, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado. Refiro-me à maravilhosa passagem que diz que Deus “quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4). Esta passagem é confirmada pelo testemunho de Pedro de que Deus não quer “que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se” (2 Pedro 3:9).

Uma coisa sou eu querer. Outra coisa é Deus querer.

Quem poderá impedir que Seu desejo se cumpra? “Operando eu, quem impedirá?” (Isaías 43:13).

E se alguém insiste em que as coisas só possam ser resolvidas durante nosso prazo de vida, dou-lhe a resposta dada pelos santos lábios de Jesus: “Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25). Quem diria que alguém já estando morto, ainda assim, poderia crer?


Chegará o momento em que já não haverá razão para que o inferno exista. Seu destino está selado. Ele terá que devolver os que nele estiverem, e por fim, será lançado no lago de fogo (Apocalipse 20:13-14). O inferno deixará de ser.

Sabe quando você decide apagar um arquivo de seu computador? Ele primeiro vai para a lixeira. Mas ainda está ali, na memória da sua máquina. Até que você resolva deletá-lo de uma vez, de modo que jamais possa recuperá-lo. De igual modo, toda existência que houver sido desperdiçada pelo egoísmo, será banida, aniquilada para sempre, juntamente com o inferno no lago de fogo.

Se puder enumerar vantagens (detesto este termo), posso dizer que os que creram durante sua vida terrena serão preservados íntegros, corpo, alma e espírito por toda a eternidade (1 Tessalonicenses 5:23). Os demais estarão como que fragmentados, posto que sua existência terá sido descartada, mas sua essência preservada pelos séculos dos séculos em honra às entranháveis misericórdias de Deus.

Não desperdice sua vida! Não queira fazer escala no inferno. Um milionésimo de segundo lá vale por uma eternidade. Viva para a glória de Deus! E só há uma maneira de fazê-lo: vivendo para o bem de todos, gastando-se e se deixando gastar por amor. 

P.S. - Já que insistem com rótulos: Calvinismo - Deus pode, mas não quer salvar a todos. Arminianismo - Deus quer, mas não pode. Universalismo - Deus tanto pode, quanto quer. Ele é tanto Todo-Poderoso, quanto Todo-Amoroso. Haveria glória maior? Todo joelho se dobrará, toda a língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor para a GLÓRIA de Deus Pai. 

quarta-feira, março 22, 2017

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DOSSIÊ INFERNO 4 - Quanto durará o castigo eterno?





Por Hermes C. Fernandes

O vocábulo mais usado por Jesus para referir-se ao que comumente chamamos de inferno é geena.  O geena era o aterro sanitário que havia do lado de fora da cidade de Jerusalém. Era considerado um lugar maldito, onde o verme não morria e o fogo nunca apagava.

Para entendermos melhor a natureza do geena, proponho que reflitamos sobre as implicações práticas de algumas das exortações feitas por Jesus. Repare, por exemplo, na advertência abaixo:

“E se a tua mão te fizer tropeçar, corta-a; melhor é entrares na vida aleijado, do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. {onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga.} Ou, se o teu pé te fizer tropeçar, corta-o; melhor é entrares coxo na vida, do que, tendo dois pés, seres lançado no inferno. {onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga.} Ou, se o teu olho te fizer tropeçar, lança-o fora; melhor é entrares no reino de Deus com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no inferno.” Marcos 9:43-47

Ora, sabemos que ao ressuscitarmos no último dia, teremos novos corpos, perfeitos e incorruptíveis. Ninguém vai ressuscitar com ausência de algum membro de seu corpo. Não haverá mutilados na glória eterna! Então, o que Jesus quis dizer com isso? O que significaria “entrar no reino de Deus com um só olho”? Trata-se de uma analogia. Algo só era jogado no lixo, quando não tinha mais utilidade. As figuras dos vermes e do fogo inextinguível foram usadas por Jesus para enfatizar. Enquanto ali se depositassem lixos orgânicos (restos de comida, carcaças de animais e etc.), os vermes jamais morreriam. O cheiro era insuportável. Para diminuir a quantidade dos detritos, ateava-se fogo, que por sua vez, nunca se apagava, porque era constantemente alimentado por lixo novo. Jesus faz uma comparação entre “entrar na vida” e ser lançado na lixeira. Era melhor viver sem os membros, do que ser considerado inútil por Deus, mesmo tendo todos os membros.

O geena é o destino de tudo o que se faz inútil dentro do escopo dos propósitos divinos. Isso nos remete a Romanos 3:10-12a:

“Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis...”

Não fosse a misericórdia de Deus, todos terminaríamos na lixeira do Reino de Deus.

Portanto, podemos afirmar que o geena representa o fim dado a tudo o que não pode ser aproveitado, que teve sua existência como um fim em si mesmo, que se negou a abrir-se para a vida e que, por isso mesmo, será descartado.

Jesus faz referência ao geena em várias passagens: Mateus 5:22,29-30; 10:28; 18:9; 23:15, 33; Marcos 9:43,45,47; Lucas 12:5.

É neste contexto que quem chama seu irmão de “tolo” estará sujeito ao fogo do geena (Mt.5:22). Devemos temer, não os que matam o corpo, e não podem matar a alma, e sim “aquele que pode fazer perecer no geena tanto a alma como o corpo” (Mt.10:28).

Jesus também denuncia os escribas e fariseus hipócritas, que percorriam “o mar e a terra para fazer um prosélito (novo convertido)”, para depois torná-lo filho do inferno duas vezes mais do que eles. Com isso, Ele estava demonstrando a inutilidade de todo o esforço empreendido por eles (Mt.23:15). “Como escapareis da condenação do inferno” (v.33)?

Em Tiago 3:6, lemos: “A língua também é fogo, mundo de iniquidade situada entre os nossos membros. Ela contamina todo o corpo, inflama o curso da natureza, e é por sua vez inflamada pelo inferno (Geena)”. O “inferno” aqui é uma referência clara à lixeira. Tiago está falando da lixeira que há no coração humano, e confirmando o que Jesus disse: “Ainda não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre, e é lançado fora? Mas o que sai da boca, procede do coração, e é isso o que contamina o homem. Pois do coração procedem maus pensamentos, assassínio, adultério, prostituição, furto, falso testemunho, blasfêmia”(Mt.15:17-19). Em outra passagem, Jesus diz: “Pois da abundância do coração fala a boca”(Lc.6:45b). No dizer de Paulo quanto àqueles que se extraviaram e se fizeram inúteis, “a sua garganta é um sepulcro aberto; com as suas línguas tratam enganosamente. Veneno de víbora está debaixo dos seus lábios”(Rm.3:13). Não me admira Jesus ter-lhes chamado de “raça de víboras”!

O quanto durará o inferno?

“Assim será na consumação do século. Virão os anjos e separarão os maus dentre os justos, e os lançarão na fornalha de fogo, onde haverá pranto e ranger de dentes.” Mateus 13:49-50

À luz desta advertência concluímos que ser lançado no geena envolve dor, sofrimento e privação (ranger de dentes é não do que se alimentar). Talvez por isso Jesus fosse tão enfático em Suas admoestações. Ele sabia o que estava em jogo e queria poupar-nos a todos de tal destino.

Surge, então, uma questão inevitável: quanto tempo durará tal sofrimento no inferno? Para a maior parte dos cristãos atuais, a resposta inequívoca, deve ser dada em uníssono: eternamente.

Por mais que se acredite nisso, isso jamais deveria nos deixar confortáveis. Afinal, estamos nos referindo a seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus. Recuso-me a acreditar que alguém tenha prazer nesta “verdade”. Só mesmo um sádico se alegraria no fato de alguém ser condenado a uma pena irrevogável e eterna. Que pecado seria tão grave que deveria valer o sofrimento de alguém por eras intermináveis? Não seria algo desproporcional? Haveria desproporcionalidade na justiça divina? Antes de nos atrevermos a uma resposta, vejamos o que leva muitos a crerem que o inferno será eterno.

Em Mateus 25:41 lemos que o justo Juiz dirá “aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, destinado ao Diabo e seus anjos.”

Ora, se o fogo é eterno, logo, o sofrimento provocado por ele também deverá sê-lo. Esta é a conclusão a quem muitos chegam a partir desta passagem em particular. Porém, precisamos entender o significado da palavra “eterno” neste texto. Quando o adjetivo aionios significando “eterno” é usado no grego juntamente com substantivos de ação, ele se refere ao resultado da ação, não ao processo. Assim a expressão “castigo eterno” é comparável a “redenção eterna” e a “salvação eterna”, sendo todas expressões bíblicas. Os que se perdem não passarão eternamente por um processo de castigo, mas serão punidos uma vez por todas com resultados eternos.

Bem da verdade, os linguistas discutem o sentido das palavras hebraicas e gregas que se traduzem por “eterno” e “eternamente” nas Escrituras (olam, em hebraico; aion, aionios, no grego). Isso pode parecer meio complicado para um leigo, mas uma maneira de entender a questão mais facilmente é comparando várias traduções. Por exemplo, há traduções bíblicas que trazem no Salmo 23:6: “E habitarei na casa do Senhor por longos dias”. Outras dizem, “habitarei na casa do Senhor para sempre”. O texto original é o mesmo, mas um tradutor verteu o termo hebraico olam por “longos dias” e outro por “para sempre”, o que não significa exatamente a mesma coisa, obviamente.

Na lei mosaica havia um arranjo pelo qual um escravo serviria ao seu amo “para sempre” (olam) (Êxodo 21:1-6), mas esse “para sempre” é relativo ao tempo de vida do indivíduo, o que poderia significar “por breve período” ou “por longos dias”, dependendo da longevidade do mesmo.

Vejamos, por exemplo, o caso da guarda do sábado: o concerto divino com Israel foi “perpétuo”, no entanto findou na cruz! Então, como uma coisa perpétua pode ter um fim? Pela linguagem hebraica, assim é. O termo olam tem um caráter relativo ao tempo de duração daquilo a que se refere.

No Novo Testamento não é diferente. Paulo se refere a Onésimo, o escravo convertido, que devia voltar a servir “a fim de que o possuísseis para sempre (aionios)” (Filemon 15 e 16). Mas esse “para sempre” significava até o fim da vida do escravo!

E o que dizer do “fogo eterno” que queimou Sodoma e Gomorra, mas não está queimando até hoje? Comparando-se diferentes traduções bíblicas percebe-se que o texto de Judas 7 foi alterado ilegitimamente por tradutores na Versão Almeida Revista e Atualizada em português. No original grego consta pyròs aioniou (fogo eterno), caso genitivo, que qualifica o termo “punição”. Então, não resta dúvida que a melhor tradução é “sofrendo a punição do fogo eterno”.

Se nos atentarmos nos versos abaixo percebe-se algo que talvez nunca haja chamado a atenção de muitos leitores da Bíblia e que ilustra bem a relatividade de sentidos das palavras hebraicas traduzidas por “eternamente”, “para sempre”. Profetizando acerca de Jerusalém,  o profeta Isaías declara:

“O palácio será abandonado; a cidade populosa ficará deserta;  Ofel e a torre da guarda servirão de cavernas para sempre (...) até que se derrame sobre nós o Espírito lá do alto: então o deserto se tornará em pomar e o pomar será tido por bosque.” Isaías  32: 14 e 15.

Repare que as expressões “para sempre” e “até que” aparecem num contexto imediato. Como algo pode ser estipulado para sempre e ao mesmo tempo até que aconteça certo fato? Isso no português não faria sentido, mas no hebraico sim.

Outra passagem muito significativa encontra-se pouco adiante. Ao falar dos edomitas que Deus havia destinado “para a destruição”, o profeta Isaías se vale da mesma figura de linguagem:

“Os ribeiros de Edom se transformarão em piche, e o seu pó em enxofre; a sua terra se tornará em piche ardente. Nem de noite nem de dia se apagará; subirá para sempre a sua fumaça; de geração em geração será assolada, e para todo o sempre ninguém passará por ela.” Isaías  34: 9 e 10.

Ora, os edomitas desapareceram há muitos séculos. Será que poderíamos afirmar que ainda existem piche ardente e fumaça subindo na terra de Edom? É óbvio que não! Trata-se, portanto, de uma hipérbole com o objetivo de enfatizar algo.

Tanto Jesus , quanto João no livro de Apocalipse, lançaram mão dessa mesma linguagem para descrever a sorte final dos ímpios. O fogo é eterno (como o que destruiu Sodoma e Gomorra), e queimará de dia e de noite com sua fumaça subindo “para sempre”, como também se deu na terra de Edom séculos atrás!

Um castigo com duração eterna não parece fazer jus à imagem de Deus que emerge das Escrituras como um todo. Lemos, por exemplo, no verso 5 do Salmo 30 que “a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.”  Leia novamente para não ter dúvida: Sua ira dura só um momento. Enquanto “sua misericórdia dura para sempre”(Sl.106:1). Tenho a impressão que temos apresentado ao mundo um deus que é o inverso deste, cuja misericórdia dura só um momento, mas sua ira dura para sempre.

O Salmo 103, versos 8 e 9 nos oferece um quadro ainda mais nítido: “Compassivo e misericordioso é o Senhor; tardio em irar-se e grande em benignidade. Não repreenderá perpetuamente, nem para sempre conservará a sua ira.”

Estou certo de que não estamos tratando com uma divindade bipolar! Se Ele diz que não repreende perpetuamente, quem somos nós para discordar? E há uma razão lógica para isso. O profeta Miquéias diz que “Ele não retêm a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia” (Miquéias 7:18). Somente uma divindade sádica teria prazer no sofrimento de suas criaturas. Mas pelo jeito, tem quem tenha mais prazer em saber que enquanto uma pequena minoria estará gozando das beatitudes eternas, a grande maioria estará ardendo num inferno eterno.

Além de não ter prazer no sofrimento de ninguém, o Deus revelado nas Escrituras não sofre de amnésia: Mesmo na Sua ira, Ele se lembra da misericórdia (Habacuque 3:2).

E para reforçar ainda mais a imagem de um Deus absolutamente clemente e misericordioso, convém salientar que “a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tiago 2:13). Logo, ela sempre tem a última palavra. Não há sentença que ela não possa revogar.

As únicas chamas verdadeiramente eternas são as do amor. “Suas brasas são fogo ardente, são labaredas do Senhor” (Cantares 8:6).

Se é verdade que o amor jamais se acaba, logo, estamos “condenados” a amar para sempre os que nos acompanham na estrada da existência. Mesmo depois que adentrarmos os portais celestiais, nosso amor por cada um deles permanecerá e, talvez, até aumente, uma vez que estaremos livres dos ruídos de nossa natureza pecaminosa.

Quem ama, certamente se importa com o bem do ente amado. Como, então, poderíamos nos sentir plenamente felizes desfrutando da glória destinada aos filhos de Deus, sabendo que em algum lugar do universo, as pessoas a quem tanto amamos estarão sendo torturadas, e que seu sofrimento não duraria um dia, nem um ano, ou mesmo um século, mas por toda a eternidade?

Será que teremos que desistir de amá-las? Será que Deus nos submeterá a uma amnésia? Será que pais que foram salvos terão que se esquecer da existência dos filhos condenados à perdição? Por duas vezes lemos no livro de Apocalipse que Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima (7:17; 21:4). As razões pelas quais não haverá mais choro é que também “não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor.” Se ainda houver dor em algum lugar do cosmos, então, haverá motivo para lágrimas. Não apenas por parte dos que forem condenados, mas também dos que com os tais se importarem.


No próximo post, estaremos respondendo a questões levantadas a partir do posicionamento que assumimos quanto à duração do inferno.  Questões do tipo “então, todos serão salvos?” serão respondidas à luz de passagens bíblicas geralmente relegadas e outras que julgamos mal compreendidas. 

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DOSSIÊ INFERNO 3 - O Império da Morte



Por Hermes C. Fernandes

“Quem dizem os homens que eu sou?”, foi a pergunta dirigida por Jesus aos Seus discípulos. Pedro foi o único a oferecer uma resposta satisfatória: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Segundo Jesus, tal declaração não era uma conclusão proveniente da mente humana, mas uma revelação vinda diretamente de Deus, sobre a qual a igreja seria edificada, “e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt.16:18).

O que seriam as portas do inferno?

Possuir as portas significa possuir limites, fronteiras, domínio. Era como se Jesus atribuísse ao Hades o status de cidade ou reino. Quando um exército marchava contra uma cidade para tomá-la, seus moradores reforçavam seus portões para impedir que a conquistassem. A igreja, representante do reino de Deus, seria o exército invasor que marcharia contra o império da morte para conquistá-lo.

Paulo captou este conceito e o expressou como ninguém ao afirmar que “pela ofensa de um só, a morte reinou por esse”, mas que agora, “os que recebem a abundância da graça, e o dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo” (Rm.5:17).

O pecado foi a pedra fundamental na construção do império da morte. Toda a humanidade estava refém daquele que o detinha, a saber, o diabo.

Como para os gregos, o Hades era o território sobre o qual a morte exercia seu domínio, tanto Jesus quanto Paulo se apropriam deste conceito para designar o domínio exercido pela morte desde a queda do primeiro homem, Adão.

A igreja fundada sobre a revelação da identidade de Cristo seria uma espécie de célula rebelde cuja missão é provocar uma insurreição contra o império da morte.  Não há no mundo uma comunidade de caráter mais subversivo que a igreja. Na medida em que ela marcha, o império da morte retrocede. Igualmente, se ela retrocede, o mal avança. Cada passo que a igreja dá para trás é espaço que ela cede a Satanás. Todavia, não é a igreja que deve estar numa posição defensiva contra os ataques do Hades. São as portas do Hades que enfrentam o assédio da igreja. O império da morte sofreu a invasão da igreja e não foi sequer necessário que se arrombasse a porta, pois nosso general, Cristo Jesus, tem as chaves do inferno e da morte (Ap.1:18). E é bom que se diga que Ele não a tomou do diabo, como geralmente se crê. Ele as tem porque é soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores. Ele é Senhor da vida e da morte, do céu, da terra e de todos os infernos.

Apesar de sua rebelião, o Diabo jamais se constituiu numa ameaça à soberania divina. Poderíamos dizer que ele era um problema para o homem, mas não para Deus. Seu império jamais teve sua legitimidade reconhecida, funcionando sempre na clandestinidade. Todavia, teve no homem seu aliado, cúmplice e, ao mesmo tempo, refém e escravo.

Ao rebelar-se contra o Criador, o homem sujeitou-se ao Diabo e entregou-lhe de mão-beijada sua posição de domínio neste mundo que lhe havia sido outorgada. Por isso, o Diabo se tornou o príncipe deste mundo. Em vez de interferir como Deus, passando por cima da autoridade que Ele mesmo constituiu, e recobrando a posição usurpada por Satanás, Deus preferiu fazer-Se um de nós, para que, como homem, reaver seu domínio.

O Diabo jogou sujo desde o início, mas Deus não Se rebaixou a jogar em seus próprios termos. Ele preferiu agir dentro das regras que Ele mesmo instituiu. O escritor sagrado diz que devido ao fato de sermos participantes comuns de carne e sangue, “também ele semelhantemente participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o Diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à escravidão” (Hb.2:14-15).

Repare que o texto é claro ao afirmar que o Diabo “tinha” o império das trevas. Tinha, não tem mais. Ele nem mesmo continua sendo o príncipe deste mundo. Quando Jesus o chamou deste modo, ainda não o havia aniquilado pela morte. No entanto, estava prestes a fazê-lo. Confira o que Ele diz:
“Agora é o juízo deste mundo; AGORA será expulso o príncipe deste mundo.” João 12:31
Pouco depois, Ele disse: “O príncipe deste mundo já está julgado”(Jo.16:11).

Foi à luz desta verdade que Paulo pôde declarar veementemente que Jesus “tendo despojado os principados e potestades, os expôs publicamente ao desprezo e deles triunfou na cruz” (Cl.2:15).

A cruz de Cristo desbaratou completamente o império do Diabo. Numa só tacada, ele perdeu sua posição de príncipe deste mundo, o império da morte e, de quebra, seu emprego de promotor de acusação na corte celestial (Ap.12:10). Sabe o que lhe restou? O cartaz que muitos ainda dão a ele. E isso, devido à sua ignorância.

Quem antes era chamado “príncipe deste mundo”, agora é chamado “príncipe das potestades do ar” (Ef.2:2), indicando que ele perdeu o chão, o seu quinhão, o seu domínio. O Diabo foi desterrado. Expulso tanto do céu, quanto da terra. Seu castelo de areia ruiu. Com os escombros do império da morte, ele construiu o império das trevas (At.26:18, Cl.1:13).

Quando as Escrituras falam de trevas, referem-se à ignorância. Apesar de ter sido destituído, o Diabo se aproveita da ignorância que ainda predomina entre os homens, mas mantê-los cativos (Ef.4:18). Por isso, somente o conhecimento da verdade pode libertá-los (Jo.8:32). Os homens precisam ouvir as boas novas do reino para que se libertem das amarras de Satanás. E as boas novas do reino constituem-se no fato de que “os reinos deste mundo passaram a ser do Senhor e do seu Cristo, e Ele reinará para todo o sempre” (Ap.11:15). Não há, portanto, um único centímetro quadrado desde mundo sobre o qual o Diabo tenha direito de exercer domínio.

As portas do Hades foram escancaradas e compete à igreja tomar de assalto o que por muitas eras tem sido mantido em cativeiro.

* Para uma compreensão mais abrangente, leia os artigos anteriores e os que serão publicados na próxima semana. 

segunda-feira, março 20, 2017

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DOSSIÊ INFERNO - Parte 2



Por Hermes C. Fernandes

O Inferno como recurso retórico

O termo Hades foi usado por Jesus em outros contextos que fugiam ao conceito original. Por exemplo, quando quis chamar a atenção dos moradores de Cafarnaum, cidade que foi cenário do maior número de milagres que realizou em Seu ministério terreno:

“E tu, Cafarnaum, que te ergues até ao céu, serás abatida até ao inferno; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje.” Mateus 11:23

Estaria Jesus ameaçando os habitantes daquela cidade a uma eternidade de horrores no inferno? Estou certo que não. Mesmo porque, Jesus tinha um número crescente de discípulos ali. Os termos “céu” e “inferno” nesta advertência significam “exaltação” e “humilhação”, respectivamente. Quando foi que aquela cidade foi elevada até o céu? Quando Deus a escolheu como cenário para alguns dos mais notáveis milagres de Jesus. Todavia, isso não foi suficiente para que ela se arrependesse e se convertesse a Deus, por isso, estava destinada a se deteriorar até sucumbir. Sua incredulidade e indiferença a tornavam tão pecadora quanto Sodoma, que, por sua vez, se ao menos houvesse presenciado tão grandes manifestações da graça de Deus, teria se arrependido e sido poupada do fatídico fim que teve. 

Paulo faz usou da mesma analogia em Efésios 4:9-10, onde diz que o mesmo Cristo que desceu às partes mais baixas da terra, também subiu acima de todos os céus para encher todas as coisas. A expressão “partes mais baixas da terra” é uma referência clara ao submundo, ao Hades. Algo similar pode ser encontrado em Filipenses 2:6-11, onde lemos que Jesus, “sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.” Repare que neste texto, temos a nítida impressão de que a chamada kenósis (esvaziamento) experimentada por Cristo foi como o descer uma escada, degrau por degrau, humilhando-se até chegar ao fundo. De fato, como diz o Credo Apostólico, Cristo desceu ao inferno, quer tenha sido literalmente ou figuradamente, ao descer o mais baixo degrau experimentado pelo ser humano destituído da glória original. Ele não morreu a morte dos mártires, dos heróis, mas a morte dos proscritos e marginais. Foi no mais profundo inferno existencial que Ele, sentindo-se abandonado e entregue à própria sorte, indagou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc. 15:34). Não creio que houvesse um degrau a mais para que Ele descesse além deste. O sepulcro seria apenas o lugar onde Seu corpo seria depositado. Mas sua alma experimentou a fúria do inferno no momento que antecedeu a rendição do Seu espírito ao Pai.

Num certo sentido, Vitor Hugo tinha razão ao afirmar que “todo o inferno está contido nesta única palavra: solidão”. Durante toda a Sua peregrinação terrena, o Pai estava com Ele. Porém, naquele instante em que todos os pecados da humanidade lhe foram imputados, abriu-se um abismo entre Ele e Seu Pai (Jo.16:32). O Pai estava com Ele no Getsêmane, durante os flagelos perpetrados pelos romanos, e durante as seis horas em que esteve pendurado no madeiro. Mas nos instantes finais, pela primeira vez, Jesus Se viu inteiramente só. Este era o preço que teria que ser pago para que, ao ser exaltado, recebendo um nome sobre todos os nomes, então, todos os joelhos se dobrassem, tanto no céu, quanto na terra e... debaixo da terra. Cristo é o Senhor de todos os céus. Ele é o Senhor de toda a terra. Ele é o Senhor até do inferno. Não há esfera existencial da qual Ele não seja soberano. Portanto, Dante, Milton, Mary Dexter e outros estão redondamente equivocados ao atribuir a Satanás o senhorio do inferno, seja de que natureza for.

Receber um nome que é sobre todos os nomes é o mesmo que “subir acima de todos os céus”, assim como humilhar-se tomando a forma de homem, se fazendo servo e sendo obediente até a morte é o mesmo que “descer às partes mais baixas da terra”.

O inferno não é um lugar geograficamente localizável. Lendas urbanas se propagam afirmando que cientistas teriam ouvido os gemidos de almas presas no centro da terra, onde estaria o destino final dos ímpios. Mesmo que Cristo e os apóstolos tenham se utilizado de categorias que pareçam afirmar isso, seu objetivo era tão-somente facilitar a compreensão dos seus interlocutores.

Há uma corrente ligada à teologia da prosperidade que defende que Cristo teria descido ao inferno para ser torturado por Satanás, e, assim, pagar por completo o preço de nossa redenção. Se isso fosse verdade, Ele não teria dito antes de Seu último suspiro: “Está consumado” (Jo.19:30). A obra da redenção foi finalizada na cruz. Ainda que tenha descido a um inferno literal, não foi para completar nada, mas tão somente para anunciar o que já havia feito (1 Pe.3:18-19).


Outra lenda que se tem disseminado entre muitas igrejas é a de que o Diabo promovia um verdadeiro carnaval no inferno enquanto Jesus era crucificado. Porém, Jesus teria interrompido a celebração e tomado das mãos do Diabo as chaves do inferno. Nada mais distante da verdade que isso. Jamais foi intenção do Diabo que Jesus morresse na cruz. Pelo contrário. Ele fez de tudo para impedir que isso acontecesse, pois sabia que através de Sua morte, seu império seria desbaratado. Por isso, foi capaz de usar até os lábios de Pedro para tentar dissuadir Jesus (Mt.16:22-23). Já no início do ministério de Jesus, o Diabo lhe ofereceu um atalho para reaver os reinos deste mundo, e assim, não precisasse passar pela cruz (Mt. 4:8-9). Mesmo durante Seu suplício no calvário, o Diabo insistia em que Ele descesse da cruz, valendo-se dos lábios de várias pessoas, incluindo um dos ladrões que morriam ao Seu lado (Lc.23:39; Mc.15:30). A cruz sempre foi o centro do plano divino para a redenção de toda a criação (At.2:23). Ela foi a porta pela qual Jesus passou para adentrar o território da morte e libertar os que ali estavam cativos. 

Acompanhe esta série até o fim. Leia o artigo anterior e os que sucederão a este. 

domingo, março 19, 2017

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DOSSIÊ INFERNO - Primeira Parte



Por Hermes C. Fernandes

Chamem-me de sentimentalista, se quiserem. Mas é inadmissível que aqueles em que se deve encontrar “o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus” sintam-se confortáveis ante a realidade do inferno.

Se é verdade que o amor jamais se acaba, logo, estamos “condenados” a amar para sempre os que nos acompanham na estrada da existência. Mesmo depois que adentrarmos os portais celestiais, nosso amor por cada um deles permanecerá e, talvez, até aumente, uma vez que estaremos livres dos ruídos de nossa natureza pecaminosa. Quem ama, certamente se importa com o bem do ente amado. Como, então, poderíamos nos sentir plenamente felizes desfrutando da glória destinada aos filhos de Deus, sabendo que em algum lugar do universo, as pessoas a quem tanto amamos estarão sendo torturadas, e que seu sofrimento não duraria um dia, nem um ano, ou mesmo um século, mas por toda a eternidade?

Será que teremos que desistir de amá-las? Será que Deus nos submeterá a uma amnésia? Será que pais que foram salvos terão que se esquecer da existência dos filhos condenados à perdição?

Por duas vezes lemos no livro de Apocalipse que Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima (7:17; 21:4). As razões pelas quais não haverá mais choro é que também “não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor.” Se ainda houver dor em algum lugar do cosmos, então, haverá motivo para lágrimas. Não apenas por parte dos que forem condenados, mas também dos que com os tais se importarem.

Mas se formos submetidos a uma espécie de lobotomia, e nossa memória for afetada, logo, não seremos quem realmente somos. Como poderemos agradecer por havermos sido salvos, se nem ao menos nos lembrarmos de quê fomos salvos? Como bendizê-lo se minha alma simplesmente se esquecer de seus benefícios? Para lembrar-me de tais benefícios, terei que recordar de todos quantos foram instrumentos de Deus para me abençoar, incluindo os que, porventura, não houverem sido salvos. Não poderá haver lapsos de memória.

Ainda que os vínculos familiares se dissolvam na eternidade, o amor que os nutriu não poderá apagar. Os que hoje gozam do status de pais ou de filhos, na eternidade serão irmãos. Marido e mulher seguirão em seus relacionamentos, não mais como cônjuges, mas irmãos.

O ponto em que almejo tocar é se o sofrimento daqueles que nos são caros não poderia igualmente nos afetar. Se não, de que maneira poderíamos desfrutar das bem-aventuranças prometidas aos misericordiosos, se nem ao menos fôssemos capazes de nos compadecer deles? Se sim, como conciliar a doutrina do sofrimento eterno no inferno com os prazeres indizíveis que a presença imediata de Deus nos proporcionará?

Este dilema só se mantém de pé devido à concepção que temos do inferno, que julgo equivocada. Muito do que temos ouvido acerca do inferno não tem qualquer respaldo bíblico, mas é fruto do sincretismo entre a fé cristã e o paganismo. É lamentável constatar a ignorância que boa parte do povo evangélico demonstra sobre o assunto. Basta assistir aos testemunhos de quem afirma ter visitado o inferno e se deparado com caldeirões onde pessoas eram cozinhadas vivas, com diabos portando tridentes, enormes chifres, rabo pontiagudo, e expelindo enxofre, incumbido de torturar os condenados. Não é preciso conhecer profundamente a teologia cristã para perceber que tudo isso não passa de mitologia grotesca. Tem mais a ver com Dante e Milton do que com a Bíblia.

Dante Alighieri, escritor e poeta italiano que viveu entre 1265 e 1321, foi responsável por disseminar as fantasias acerca do inferno que hoje povoam o imaginário popular. Em sua obra “Divina Comédia”, Dante descreve o inferno de acordo com a concepção medieval, formado por nove círculos, três vales, dez fossos e quatro esferas. O inferno se tornaria mais profundo a cada círculo, de acordo com a gravidade dos pecados cometidos pelos que para lá fossem enviados. O adjetivo “dantesco”, sinônimo de horripilante, terrível, macabro, advém da descrição dos horrores perpetrados pelos demônios nos condenados à pena eterna. A parte de sua obra dedicada a descrever o infortúnio dos réprobos tornou-se conhecida como “O inferno de Dante”. Para o poeta italiano, o Diabo é o rei do inferno, bem como o anfitrião e algoz das almas que para lá vão.

Outro escritor que ajudou a disseminar a concepção que se tem hoje do inferno foi John Milton (1608-1674), autor do clássico “Paraíso Perdido”. Foi ele quem colocou nos lábios de Satanás a frase “é melhor reinar no inferno que servir no céu”, que se tornou célebre nos lábios de Al Pacino no filme “O Advogado do Diabo”.

Nem Dante, nem Milton, tão pouco Mary Baxter com sua “Divina Revelação do Inferno” poderão nos oferecer uma visão equilibrada acerca do assunto. Para termos um vislumbre do verdadeiro inferno, teremos que deixar nossos pressupostos de lado e mergulhar nas límpidas águas das Escrituras.

Há diversos vocábulos, tanto do hebraico, quanto do grego, que são traduzidos em nosso idioma como “inferno”. Porém, cada um deles encerra um significado distinto. Não são sinônimos. A primeira delas é Sheol, que em hebraico significa “sepultura” e aparece 62 vezes no Antigo Testamento. Sheol jamais sugeriu a ideia de um lugar de suplício ou de punição para os mortos. Esta ideia só surge a partir do Novo Testamento. Sheol é o destino do qual compartilha todos os seres humanos, independente de crença. A única certeza que se tem na vida é a morte. E deveríamos encarar isso com a maior naturalidade. Imagine se todos fôssemos Highlanders condenados a viver para sempre? A terra não poderia suportar tanta gente. A menos que ninguém mais nascesse. Caso contrário, haveria uma explosão populacional que esgotaria rapidamente os recursos do planeta. O escritor de Eclesiastes afirma que é necessário que uma geração vá para que outra geração venha e assim, a terra permaneça para sempre (Ecl.1:4).

A segunda palavra é Hades, encontrada dez vezes no Novo Testamento e que, às vezes, é usada por seus escritores como tradução de Sheol.  Entretanto, trata-se de conceitos um tanto quanto diferentes. Para os gregos, o Hades não era apenas a sepultura, mas o submundo, a região onde os mortos eram confinados. A sepultura seria apenas a porta de acesso ao Hades.

Um exemplo do intercâmbio entre as palavras Sheol e Hades é encontrado na tradução do Salmo 16:10, onde Davi diz: “Pois não deixarás a minha alma no inferno (Sheol=sepultura), nem permitirás que o teu Santo veja corrupção”. Pedro toma esta passagem profética e a aplica a Jesus em seu primeiro sermão que fora registrado por Lucas em grego: “Pois não deixarás a minha alma no inferno (Hades=região dos mortos), nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção” (At.2:27).

O uso do vocábulo grego Hades em substituição ao hebraico Sheol ocorre por conta da proximidade entre os conceitos, ainda que os mesmos tenham escopos diferentes. O conceito de Hades é bem mais elaborado e sofisticado do que o de Sheol. Enquanto o Sheol se limitava aos sete palmos da sepultura onde o corpo era depositado, o Hades era amplo o suficiente para receber todos os homens, sendo dividido em duas partes: os Campos Elíseos, destinados aos bons, aos justos, aos vitoriosos; e o Tártaro, para onde iriam os maus e injustos.

Os judeus contemporâneos de Jesus estavam bem familiarizados com tais conceitos devido ao processo conhecido como helenização em que a cultura grega foi disseminada mundo afora. Talvez o verso vetero-testamentário que tenha servido de ponte entre os dois conceitos seja o que diz que “o Sheol aumenta o seu apetite, e abre a sua boca desmesuradamente; para lá descerá a glória deles, a sua multidão, a sua pompa e os que entre eles folgam” (Is.5:14). Portanto, o Sheol seria bem mais que uma sepultura individual, mas o destino comum a todos os homens.

Na parábola de Lázaro, Jesus faz uso deliberado destas categorias “gregas”, porém, adaptando-as a uma visão mais judaica. Os Campos Elíseos seriam para os judeus o equivalente ao Seio de Abraão, para onde foi Lázaro. O rico da parábola foi para o que seria o Tártaro grego. Tanto o Seio de Abraão, quanto o lugar de tormento para onde foi o rico se situavam no Hades, o submundo dos mortos. O Seio de Abraão não é o paraíso, tampouco o céu, mas um lugar reservado para os descendentes de Abraão dentro do próprio Hades. Digamos que, um ‘inferno’ com ar-condicionado. Há, entretanto, algumas diferenças entre o Hades grego do Hades judeu. Por exemplo: para os gregos, o que separava os Campos Elíseos do Tártaro era um muro. Para os judeus, o que separava o Seio de Abraão do resto do Hades era um abismo intransponível. Foi, deveras, corajoso de parte de Jesus lançar mão dessas categorias para passar uma mensagem aos seus ouvintes. 

O Dossiê-Inferno continuará ao longo da semana. Não deixe de acompanhar o desenrolar desta reflexão e compartilhe-a com os seus amigos. Ainda que não concorde com nosso posicionamento, certamente lhe possibilitará enxergar a questão sob novos ângulos.

quinta-feira, março 16, 2017

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CARTA ABERTA AOS GAYS, TRANS E CIA



Por Hermes C. Fernandes 

Antes de tudo, quero dizer o quanto vocês são amados. Sim, digo em alto e bom som: VOCÊS SÃO AMADOS! E são amados exatamente do jeito que são. Suas vidas são preciosíssimas aos olhos d’Aquele que os criou. Sua homossexualidade não é fruto de uma contingência qualquer. Não se deve ao ambiente, à criação, à atuação de espíritos malignos, a uma maldição, ou mesmo a um abuso sofrido na infância. Ninguém tem culpa. Até porque, culpa a gente tem por algo errado que tenha sido feito. E o que vocês fizeram para ser o que são? Que tal substituir a palavra ‘culpa’ pela palavra ‘propósito’? Saibam que Deus os fez com um propósito: desafiar nossa sociedade a aprender a amar. Mas para tal, ela terá que se livrar de preconceitos arraigados por gerações. Terá que reaprender a arte do convívio respeitoso com o diferente. 

Se vocês e outros segmentos não existissem da maneira como são, nós estaríamos fadados a viver numa sociedade uniformizada, ensimesmada, narcisista, que só seria capaz de amar os que refletissem sua própria imagem. Vocês nos desafiam a ser melhor que isso. Somos tão acomodados que precisamos de quem nos arraste pelas veredas da evolução ética e moral. Sua existência serve a isso. 

Peço que perdoem a nossa ignorância. Imagino o quanto temos sido cruéis ao impor-lhes que se adequem ao nosso modo de ser. 

Perdoem porque não sabemos o que dizemos, muito menos o que fazemos. Somos uns tolos que se acham donos da verdade e que apelam à religião para justificarem seu preconceito. 

No fundo, a razão pela qual os desprezamos reside em nosso machismo crônico. Apesar de tudo, insistimos com a ideia de que a mulher seja um ser de segunda categoria, portanto, inferior ao homem. Logo, é vergonhoso que um homem queira ser uma mulher ou manifeste atributos femininos. Crescemos ouvindo que “homem não chora”. Isso é coisa de mulherzinha. Gays mexem com nossos escrúpulos masculinos. Por isso, preferiríamos que não existissem. Mas já que existem, que vivam bem longe do nosso convívio. Sentimo-nos inseguros diante de vocês, pois expõem, sem qualquer recato e constrangimento, aquilo que preferimos manter em sigilo absoluto, encerrado nos porões de nossa alma. Ninguém precisa saber quão sensíveis os homens podem ser. O mesmo se dá com relação às lésbicas. Quem elas pensam que são para bancar os machos? Sua existência é um atentado ao nosso orgulho. Uma mulher jamais seria capaz de manifestar atributos predominantemente masculinos. Simples assim. Ninguém admite. Mas esta é a verdade. É por isso que nos sentimos tão incomodados com a homossexualidade. Ela mexe com nosso brio. Expõe nossas idiossincrasias. Revela nossa ambiguidade. 

Agora que conhecem a razão deste preconceito idiota, imploro que nos perdoem. 

Perdoem-nos por sabotá-los, buscando impedir que sejam quem são. Não nos importamos que sejam gays, desde que mantenham a discrição, não deem na pinta, e nem sonhem em sair do armário. Anulem-se! Finjam ser héteros. Ou tornem-se celibatários. Isso vai facilitar a vida de todo mundo. É isso que pensamos e não somos ‘machos’ o suficiente para assumir. 

Vocês têm o direito de se expressarem em reação a todo desprezo do qual têm sido vítimas por tanto tempo. Perdoem nossa cara de nojo ao testemunhar uma cena de carinho entre vocês. Deveríamos sentir nojos de nós mesmos e não de outros seres humanos que não sentem vergonha de se expor em público para demonstrar seu amor. Carinho que nem sempre se vê entre casais héteros que desfilam entretidos com seus celulares como se ignorassem a companhia um do outro. 

Perdoem-nos por ensejar impedir que vivam uma relação estável. Preferimos vê-los entregues à promiscuidade, passando de mão em mão, correndo o risco de contrariem doenças sexualmente transmissíveis. Pelo menos, assim, poderemos dizer que vocês receberam dos céus o castigo que mereciam. E por falar em “contrair”, deixe para nós a santa instituição do casamento. Fingimos valorizá-la, mas, cá entre nós, consideramos o casamento uma doença. Mas é doença de hétero. Talvez por isso falamos em “contrair matrimônio”. Este é o nosso castigo. Não o de vocês! Contentem-se com as DST! Deixem o casamento para nós! Deveríamos é nos envergonhar por desprezar uma instituição pela qual vocês resolveram lutar. Que lição vocês estão nos dando! É fácil exigir que um gay apele ao celibato em nome de uma regra religiosa. Difícil é colocar-se em seu lugar para perceber quão dolorosa é a solidão. 

Perdoem-nos por tentar lhes inviabilizar a adoção de filhos. Somos tão caras de pau que alegamos que nosso temor é que seus filhos sejam induzidos à homossexualidade, quando, na verdade, todo gay que conhecemos é filho de casal de heterossexuais. É verdade que você (ainda) não podem reproduzir. Mas também é verdade que muitos de vocês estão dispostos a assumir os cuidados de crianças que foram abandonadas por pais héteros. 

Perdoem-nos por lhes tachar de promíscuos. Não deve ser fácil encontrar alguém que não queira se aproveitar de sua carência e abusar de sua condição. 

Peço que não guardem rancor de seus pais, caso tenham sido rejeitados pelos mesmos. Eles são filhos do seu próprio tempo. Enxergam a vida com categorias ultrapassadas que lhes foram passadas por seus antepassados. Vocês são filhos do futuro, e por isso, nos desafiam a evoluir em nossos conceitos.  
Como Jesus ensinou, paguem com amor aos que lhes ofenderem. O ódio só faz retroalimentar o ciclo de violência. Só o amor é capaz de rompê-lo. 

Lembrem-se: sua vida é uma lição para todos nós. Lição de coragem e resiliência. 

Aos que preferem se resguardar e manter em sigilo sua orientação sexual, meu respeito e solidariedade. Aos que romperam com o obstáculo e saíram do armário, minha admiração. E aos que escondem sua orientação sexual atrás de um discurso homofóbico, deixo-lhes a advertência de Cristo: “Nada há oculto que não seja revelado.” Prepare-se, pois sua máscara eventualmente vai cair. Troque seu ódio mortal por si mesmo, por amor ao seu próximo. 

P.S. Quanto à questão da homossexualidade, quero deixar claro que só há salvação se houver arrependimento seguido de conversão. Se o sujeito segue homofóbico, continua perdido em seus delitos e pecados. Mas se ele se arrepende e passa a acolher o homossexual sem preconceitos e juízos condenatórios, a mesma misericórdia que ele aplicar virá em seu socorro. Homofobia não é apenas crime na justiça dos homens, mas também pecado na justiça de Deus.

terça-feira, março 14, 2017

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Transexualidade à luz da graça



Por Hermes C. Fernandes

Imagine se você se sentisse um homem preso num corpo feminino ou uma mulher num corpo masculino, e não pudesse fazer nada para mudar esta realidade. Como mensurar o sofrimento de milhares de transexuais que vivem este dilema existencial? Não bastasse a inadequação, ainda têm que aguentar o olhar condenatório de uma sociedade hipócrita, incapaz de amar o diferente, cujos preconceitos são alimentados por um discurso religioso ultrapassado e desprovido de misericórdia.

Muitos achavam tratar-se de um comportamento aprendido influenciado pela cultura ou pelo ambiente, outros julgavam que seria fraqueza de caráter ou pura sem-vergonhice mesmo, até se depararem com a chocante realidade de crianças trans como o caso apresentado no Fantástico do último domingo (12/03/2017). O fato é que o transexual percebe desde cedo que está no sexo errado. Não confunda homossexualidade com transexualidade. Não se trata apenas de atração por pessoas do mesmo sexo. Trata-se, antes, de uma sensação de profundo desconforto com seu próprio sexo anatômico, capaz de levar a pessoa a desejar empreender uma jornada de transição de seu sexo de nascimento para o sexo oposto. O que está em jogo é a identidade de gênero. Enquanto um homossexual é capaz de aceitar seu próprio corpo, o transexual (ou transgênero) sente a necessidade de alterá-lo, adequando-o ao seu sexo psicológico. Também não se deve confundir transexualidade com hermafroditismo ou pseudo-hermafroditismo. Hermafroditas são definidos como pessoas que possuem ovários e ao mesmo tempo pênis e testículos funcionais, portanto, possuem, por assim dizer, dois sexos. O transexual possui um único sexo biológico, mas que não é compatível com seu sexo psicológico. Ele é, digamos, homem por fora, mas mulher por dentro ou vice-versa. 

Antes de abordar a questão à luz do evangelho, gostaria de propor uma compreensão à luz da ciência. No embrião humano, a genitália se forma por volta da décima semana, enquanto o cérebro ainda se encontra em desenvolvimento. Por volta de vigésima semana, define-se a área que dá a identidade de gênero. Geralmente, a genitália e o cérebro apresentam o mesmo sexo. Porém, no transgênero, ocorre do cérebro apresentar uma formatação diferente. A genitália é masculina, mas o cérebro se estruturou como sexo feminino, ou a genitália é feminina, mas o cérebro é masculino. De acordo com a pesquisa feita no Netherlands Institute for Brain Research por Dick Swaab em 1995, o hipotálamo em transexuais masculinos era do tamanho do feminino ou ainda menor. Em outras palavras: um cérebro de mulher aprisionado em um corpo de homem. Convém salientar que o hipotálamo é a área do cérebro essencial à determinação do comportamento sexual. 

Tragicamente, um em cada cinco transexuais tenta o suicídio, e essa forma de morte é cinco vezes mais frequente entre eles do que na população em geral. Para muitos deles, a cirurgia de mudança de sexo seria a última esperança para uma vida mais digna, compatível com suas aspirações existenciais. O termo usado atualmente para definir mudanças de características sexuais é cirurgia de reatribuição ou redesignação sexual, que reflete a ideia de que as pessoas transexuais não estariam mudando de sexo propriamente, mas corrigindo seus corpos. No caso de mulheres trans, os testículos são retirados e o pênis é cortado ao meio no sentido do comprimento, com remoção do tecido interno. A uretra é realinhada e a pele do pênis, preservada, é dobrada para dentro, forrando uma cavidade feita cirurgicamente e que vai ser a vagina. Em alguns casos, a extremidade do pênis é transformada em um clitóris capaz de provocar o orgasmo. Frequentemente, mulheres trans preferem limitar o processo de redesignação sexual à cirurgia de feminilização facial, o aumento de seios e terapias hormonais. 

A cirurgia de redesignação genital em homens trans compreende um conjunto de procedimentos, incluindo a remoção dos seios, a reconstrução dos genitais e a lipoaspiração. A maioria delas, porém, prefere submeter-se unicamente à retirada dos seios. 

Como poderíamos encarar tal realidade à luz do Evangelho? No caso de um transexual que se convertesse, seria correto esperar que voltasse ao sexo original ou ele poderia manter o atual? E se isso não fosse possível? Estaria a igreja preparada para receber tais indivíduos sem julgá-los e condená-los? 

Comecemos por Jesus. Ele afirma a existência de pessoas que “castraram a si mesmos por causa do reino dos céus.” Sabendo que estava pisando em terreno minado, Ele arremata: “Quem pode receber isto, receba-o” (Mateus 19:12). Obviamente, alguns dirão tratar-se de eunucos e não de transexuais. Precisamos, todavia, considerar que a transexualidade não era uma questão daquele tempo. Porém, é possível traçar um paralelo entre o transexual de hoje e os eunucos. Em alguns casos, ambos têm em comum o fato de se submeterem a um procedimento de alteração em sua genitália por livre e espontânea vontade. Entretanto, no caso apresentado por Jesus, tais indivíduos se castravam por uma causa específica que é o reino dos céus. O que significaria castrar-se por causa do reino dos céus? Será que remover a genitália nos tornaria mais dignos de entrar em Seu reino? Orígenes, um dos pais da igreja, acreditava que sim. Tanto que se submeteu a isso. 

Haveria outra maneira de entender esta enigmática passagem? Acredito que sim. Em outra passagem, Jesus afirma que o reino de Deus está dentro de nós (Lucas 17:20). Isto é, o que vale no reino anunciado por Jesus é o que se é por dentro e não por fora. É no íntimo que habita a verdade (Salmos 51:6). 

Nem sempre há compatibilidade entre o que vemos no espelho e aquilo com que nos deparamos nos recônditos do nosso ser. E isso pode gerar tal desconforto a ponto de empurrar-nos para o abismo da depressão e até do suicídio. Paulo diz que ainda que nosso homem exterior não correspondesse às nossas expectativas por está sujeito ao desgaste do tempo, o nosso homem interior se renovaria dia após dia (2 Coríntios 4:16). O corpo tem prazo de validade. A alma traz a vocação de ser eterna. Razão pela qual, não deveríamos conhecer a ninguém segundo a carne, mas segundo o espírito, isto é, de acordo com o que se é interiormente (2 Coríntios 5:16). Portanto, alguém poderia sim submeter-se a um procedimento cirúrgico que visasse corrigir tal incompatibilidade entre seu exterior e seu interior sem com isso estar rebelando-se contra o seu Criador. Em certo sentido, isso seria feito pela causa do reino. De acordo com a definição do apóstolo Paulo, o reino de Deus é alegria, justiça e paz (Romanos 14:17). Se tal procedimento, por mais traumático que seja, gerar alegria, simetria entre corpo e alma (justiça) e apaziguar o coração, então, não há razão para condenarmos quem a ele se submeteu. Trocar de sexo não significa ser promíscuo, imoral, pervertido. Significa apenas buscar atenuar o sofrimento resultando da incompatibilidade entre o que se é por fora e o que se é por dentro. 

Não consigo entender porque os cristãos valorizam tanto aparências, haja vista que o Deus a quem afirmam adorar toma a contramão desta tendência. Ele mesmo disse ao profeta Samuel: “O Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1 Samuel 16:7b). Alguns dirão: tentar corrigir o sexo é o mesmo que afirmar que Deus errou. Se seguirmos esta lógica, então, usar óculos, próteses, perucas, também deveria ser considerado uma afronta ao Criador. O que dizer de cirurgias plásticas com objetivos meramente estéticos? E a mulher do pastor que resolveu dar uma turbinada nos seios? Não sejamos hipócritas! 

Somos todos filhos de Adão. Pertencemos a uma raça submetida às contingências da existência. Como costumo dizer, o mundo ideal ficou atrás dos portões do Éden. Portanto, sejamos mais complacentes, buscando compreender o drama vivido por milhares de transgêneros. Quem sabe um dia possamos acolhê-los livremente em nossas comunidades levando em conta apenas sua humanidade, reconhecendo neles nossa própria carência de graça, amor e aceitação. Estou certo de que esta é a vontade de Deus. Uma coisa posso garantir com todas as letras: a multiforme graça de Deus é apta para abarca a multifacetária sexualidade humana. Ninguém, absolutamente ninguém, está excluído do escopo da graça. O Deus que salva héteros, salva gays, lésbicas, transexuais, bissexuais e qualquer que seja a categoria que exista ou venha surgir. Não ouse subestimar o escandaloso amor de Deus. 

Certamente o assunto não se esgota aqui. Só espero ter dado um pontapé inicial que provoque uma onda de diálogo entre os seguidores de Cristo e este importante segmento social. 

Assista abaixo um drama verídico que poderá lhe ajudar a entender a questão com um olhar mais humano e cristão, e em seguida, a reportagem veiculada no Fantástico.