terça-feira, maio 26, 2020

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A MESMA PRAÇA... A MESMA GRAÇA, O MESMO AMOR



Por Hermes C. Fernandes

Na semana passada, assisti à reprise de uma entrevista feita por Danilo Gentili a Carlos Alberto da Nóbrega por ocasião do aniversário do programa humorístico A Praça é Nossa. Enquanto alguns quadros clássicos eram exibidos, dei-me conta de que o programa estreou no SBT no mesmo mês e ano em que iniciei meu ministério pastoral. E lá se vão 33 anos!

Pelo famoso banquinho da Praça já se passaram centenas de personagens, muitos dos quais já não se encontram entre nós, deixando-nos saudade. Quem não se lembra da Velha Surda? Dona Bizantina Escatamáquia Pinto importunava Apolônio, seu interlocutor, entendendo errado tudo quanto ele dizia, enquanto Carlos Alberto prosseguia distraído, lendo seu jornal. Certamente, um dos quadros que mais me provocavam gargalhadas. De maneira ironicamente análoga, ao longo de todos estes anos de ministério, tenho me deparado com muita gente semelhante à Dona Bizantina, que, a julgar pelo comportamento que adotam, parecem entender exatamente o contrário daquilo que insistentemente tenho pregado. Não importa o tempo decorrido, elas não mudam. Pergunto-me: Será que não ouvem ou será que não querem ouvir? Será que não entendem ou fingem não entender? Apesar disso, prossigo em minha missão apolônica. “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espirito diz às igrejas...”

Outro personagem encarnado pelo mesmo ator (Rony Rios) era o Seu Explicadinho. Diferente da Velha Surda, Seu Explicadinho ouvia bem até demais, mas nunca se dava por satisfeito, pois percebia a ambiguidade das coisas que lhe eram ditas. E para que não restasse qualquer dúvida quanto ao seu sentido, ele sempre vinha com uma pergunta, tirando do sério o seu interlocutor. Quando já estava prestes a receber uma surra, ele se explicava, soltando seu famoso bordão: “Eu gosto das coisas bem explicadinhas nos mííííííííínimos detalhes.” Confesso que prefiro liderar um povo que me importune de perguntas, ainda que eventualmente me coloque numa saia justa ou me tire do sério, a liderar um povo que se satisfaça com tão pouco ou que entenda errado tudo o que digo. Definitivamente, perguntar não ofende. Pelo menos, não a mim. Se sei digo que sei, se não sei... Mas este bordão pertence a outro programa...rs

De todos os personagens clássicos da Praça, ninguém roubava a cena como o Pacífico, interpretado pelo inesquecível Ronald Golias, sempre apresentando desculpas esfarrapadas para as suas confusões. Bem semelhante a quem se preocupa em justificar seus erros em vez de simplesmente admiti-los fiado na misericórdia divina. Nada pacifica mais o coração do que isso.

Louvo a Deus pelo povo que Ele me confiou. Gente que não se satisfaz com menos do que o evangelho genuíno, nem se incomoda de ser confrontada em amor. E é assim que todos somos transformados no melhor que podemos ser, sem pressão, sem ameaças, sem subterfúgios. Amando e sentindo-nos amados.

Ao longo desses 33 anos, muita gente passou pelos bancos das igrejas que pastoreei.  Alguns, vieram e ficaram. Outros, tiveram passagem meteórica. Uns deixaram saudade. Outros, nem tanto.

Se tenho saudade do início? Saudade, sim. Saudosismo, não. Às vezes sinto saudade de algumas certezas. Porém, entendo que se fossem mantidas, essas mesmas certezas me privariam de muitas surpresas.

Acumulei experiências. Sorri. Sofri. Gastei-me e deixei-me gastar. Ganhei. Perdi. Ajudei. Fui ajudado. Decepcionei. Fui decepcionado. Machuquei. Fui machucado. Perdoei. Fui perdoado. Perdi noites de sono. Realizei sonhos. Vivi pesadelos. Por vezes, aplaudido. Noutras, ignorado. Levei pessoas a embarcarem em meus sonhos, acreditando que também seriam os seus. Naufragamos juntos. Quando achei que seria motivo de orgulho, fui consumido por olhares de decepção. Fui privado do que tanto almejei presenciar.  Mas espero ainda não ter vivido tudo o que tenho para viver.

Não busco aplausos, tampouco me incomodo com vaias. Só quero manter-me fiel à minha consciência e ao meu chamado, sem jamais prescindir da autenticidade. Por isso, repudio comparações.

“A mesma praça/ o mesmo banco/ as mesmas flores/ no mesmo jardim”, diz o refrão da música de abertura do antológico programa. Pensando na longevidade do meu ministério, eu parafrasearia: “A mesma graça/ o mesmo encanto/  os mesmos valores/ o mesmo sim.”

Sim, o “sim” que disse lá trás ao aceitar o desafio de pastorear segue de pé. Aquele foi um “sim” que me custou muitos “nãos”.  Mas posso garantir que valeu a pena. Se pudesse voltar lá trás, não teria dito outra coisa.

No banco da minha praça  cabe todo mundo. Cabe até gente saudosista como o personagem Lilico, que chegava tocando um tambor e cantando: “Tempo bom não volta mais. Saudades de outros tempos iguais.”

A única coisa que não cabe em meu banco é a ingratidão. Muitos vêm e vão, mas ninguém vem em vão. Se não foram propriamente bênção, foram, no mínimo, lição. Como bem disse Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe: “ Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”

A você que me acompanha de longe, querendo estar perto. E a você que caminha comigo, mas preferiria trilhar seus próprios caminhos.  Obrigado pela companhia. Obrigado por ocupar um lugar no banco da minha história.

*   Sobre o púlpito de nossa igreja sede não há cadeiras reservadas às autoridades eclesiásticas, mas há um banco de praça que ganhei de presente dos irmãos reinistas de Guapimirim, pastoreados pelo meu amigo Bispo José Luiz.

* Na Nova Jerusalém descrita por João em Apocalipse não há templos, mas há uma praça, lugar de encontro entre os que foram alcançados pela graça do amor. Lá podemos bradar: A Graça é Nossa!

segunda-feira, maio 25, 2020

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Momento mais emocionante da live de Hermes Fernandes e Caio Fábio.

sábado, maio 23, 2020

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A METÁSTASE DA MALIGNIDADE NO GOVERNO BOLSONARO



Por Hermes C. Fernandes 

O povo brasileiro teve a oportunidade de ver uma radiografia das entranhas do governo Bolsonaro. A ideia era verificar a suposta malignidade de um tumor localizado no intestino grosso. Para a surpresa de muitos, comprovou-se na fala de diversos ministros a metástase em todo o organismo governamental. Começando pelo cérebro, o único a não ser questionado. Pela sua fala, percebe-se o desprezo aos pequenos empresários, que segundo ele, só dão prejuízo, razão pela qual se deve investir dinheiro público somente em grandes empresas. Também é nítido seu desprezo à coisa pública e seu famigerado desejo de privatizar tudo, a começar pelo Banco do Brasil, motivo de orgulho de tantos brasileiros. Pelo jeito, não é só na aparência que o cérebro lembra o intestino. Neste caso, há uma simbiose entre eles, de modo que tudo o que o cérebro diz, o intestino confere peso de dogma.

Os pulmões também apresentaram comprometimento irreversível, defendendo descaradamente que se aproveitasse a "tranquilidade" da pandemia para destruir a política de proteção ao meio ambiente, fruto de décadas de trabalho, enquanto a mídia se ocupasse em distrair a opinião pública com o crescente número de mortos pela COVID-19.

Dentre todos os órgãos, nenhum apresentou um grau de comprometimento tão grande quanto o fígado, derramando sua bílis sobre os povos indígenas, os ciganos, os imigrantes, e, sobretudo, os ministros do STF. Parte de sua fala foi censurada por colocar em risco a segurança nacional.
O coração também apresentou séria arritmia, ameaçando governadores e prefeitos de prisão por tentarem conter a pandemia e chegando ao ponto de dizer que um dos seus colegas sugeria ao governo um pacto com o diabo.

O então ministro da saúde assistia boquiaberto à fala de seus colegas como um médico diante do resultado de um exame cujo prognóstico é irreversível.

Apesar do estado em que se encontra o intestino grosso, segue com sua produção à todo vapor, contando com a boca para escoá-la livremente. Sorte a nossa que em meio a tudo isso, a justiça resolveu enxergar e bater com a língua nos dentes.

sexta-feira, maio 15, 2020

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A IGREJA E A POLÍTICA EUGENISTA DE BOLSONARO



 Por Hermes C. Fernandes

Estamos assistindo à implantação de uma política eugenista no país com a anuência de líderes evangélicos proeminentes. A crise sanitária parece ter provido o cenário ideal para isso. Engana-se quem insiste em achar que se trate apenas de negar a ciência. Trata-se, antes, de uma lógica eugenista perversa que há muito tem permanecido latente em nossa sociedade, mas que aflorou com força total nos últimos anos com a polarização política. A evidência disso são as falas e posturas adotadas pelo atual governo frente à pandemia que já matou mais de 15 mil pessoas (sem contar as subnotificações) até o dia 15/5/2020. Para o presidente que já chamou a COVID-19 de gripezinha, o Brasil vive uma neurose, e, que, inevitavelmente, 70% das pessoas serão contagiadas. Isso equivaleria a cerca de 140 milhões de pessoas. Considerando que a letalidade do novo coronavírus gire em torno de 6%, devemos concluir que mais de 8 milhões de pessoas morrerão durante esta pandemia no país? Ora, ora, desde que este contingente seja, em sua maioria, de idosos e portadores de comorbidades, tudo bem. Esse é o raciocínio eugenista. Tanto uns, quanto outros já morreriam de qualquer maneira. O vírus só veio dar uma forcinha para que isso aconteça um pouco mais rápido. Assim, o SUS, que agora está penando à beira do colapso, será finalmente aliviado por não ter que tratar dessas comorbidades. Sem contar o alívio da previdência social que já não terá que pagar tantas pensões e aposentadorias. Mas de tudo isso, não haveria vantagem maior do que depuração desta “brava gente brasileira”, haja vista que restariam os jovens e adultos atléticos, prontos a manterem a roda da economia girando.

Esta é a razão porque o governo defende com unhas e dentes a reabertura do comércio e a retomada da economia. Quem tiver que morrer, que morra logo. A propósito, há males que vêm para bem...

Eugenia é a teoria que defende o aprimoramento da espécie humana por meio de uma seleção tendo como base as leis genéticas. A ideia foi fartamente usada pelo regime nazista para justificar o extermínio de pessoas consideradas impuras (membros de outras etnias, além de idosos e doentes crônicos pertencentes à sua própria etnia) e criar uma raça ariana superior.

Ao descredibilizar dois ministros da saúde que ele mesmo nomeou para combater a epidemia, Bolsonaro propõe uma versão contemporânea de eugenia. Abolindo o distanciamento social horizontal e adotando o isolamento vertical (somente idosos e portadores de comorbidades), o governo lava as mãos. No final das contas, a vítima morrerá de complicações respiratórias, cardiopatias ou diabetes, agravados pela presença do vírus. A responsabilidade recairá sobre o parente próximo que não o isolou o suficiente. Assim, o governo tira de seus ombros qualquer responsabilidade, mesmo sabendo que o indivíduo jovem e são, não só pode ser contagiado como também pode contagiar aos demais membros da família, ainda que não apresente qualquer sintoma.

Bem da verdade, ao longo da história, diversos povos lançaram mão de métodos eugenistas, eliminando indivíduos que nascessem com deficiência. Até os gregos apelavam a este tipo de expediente cruel. Mas foi somente no final do século 19 que se elaborou nos EUA uma teoria eugenista de controle social, com o objetivo de aprimorar as qualidades raciais das futuras gerações. Segundo esta teoria, a sociedade humana deveria assumir o timão que ao longo das eras esteve nas mãos da seleção natural. No lugar das forças cegas da seleção natural, a seleção consciente. Foi nos EUA, país que se arroga maior democracia do mundo, que o movimento eugenista moderno teve suas raízes. Mas foi na Alemanha Nazista que ele deu seus mais tenebrosos frutos. Porém, muito antes do Holocausto que matou seis milhões de judeus, os EUA já promoviam esterilizações forçadas entre os mais pobres, doentes mentais e minorias como negros, judeus, mexicanos, indígenas, epiléticos, alcoólatras e qualquer que não se enquadrasse no biótipo ideal nórdico, loiro de olhos azuis. E tudo isso, pasmem, com o apoio de muitas igrejas evangélicas.

O clã Bolsonaro nunca fez questão de esconder sua admiração pela teoria e pela prática da eugenia. Carlos Bolsonaro, filho do presidente da república já opinou que o Programa Bolsa-família deveria ser condicionado às cirurgias de laqueadura e vasectomia para estancar a ferida econômica e ainda combater a miséria e a violência do Brasil. Para os Bolsonaros, a eugenia diminuiria o número de pobres, e, consequentemente, os índices de violência. Considerando que em sua maioria, os pobres são negros que vivem nas periferias dos grandes centros urbanos, condicionar o recebimento da bolsa-família à laqueadura ou vasectomia deste grupo social seria, em última instância, propor o branqueamento da população. O que ele parece desconsiderar que a pobreza e a violência não têm a ver com a cor da pele, mas com o modelo econômico que oprime e explora a população continuamente.

Em um discurso inflamado proferido em 2013 na Câmara de Deputados, Jair Bolsonaro declarou: “Só tem uma utilidade o pobre no nosso país: votar. Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso, para votar no governo que está aí. Só para isso e mais nada serve, então, essa nefasta política de bolsas do governo.” Em 1992 ele já defendia tal posição: “Devemos adotar uma rígida política de controle da natalidade. Não podemos mais fazer discursos demagógicos, apenas cobrando recursos e meios do governo para atender a esses miseráveis que proliferam cada vez mais por toda esta nação.” Em outro discurso na Câmara, ele disse: “Defendo a pena de morte e o rígido controle de natalidade, porque vejo a violência e a miséria cada vez mais se espalhando neste país. Quem não tem condições de ter filhos não deve tê-los. É o que defendo, e não estou preocupado com votos par ao futuro.” E em outro, em julho de 2008: “Não adianta nem falar em educação porque a maioria do povo não está preparada para receber educação e não vai se educar. Só o controle da natalidade pode nos salvar do caos.”

Sem o menor escrúpulo, Bolsonaro se refere aos refugiados oriundos da África, do Oriente Médio, do Haiti e da Venezuela como “escória do mundo”, enquanto exalta outras etnias consideradas superiores. Em seu polêmico discurso no Clube Hebraica do Rio de Janeiro em abril de 2017, ele afirmou que apreciava a “vergonha na cara” da “raça” japonesa. “Alguém já viu um japonês pedindo esmola por aí? Não, porque é uma raça que tem vergonha na cara. Não é igual a essa raça que tá aí embaixo, ou como uma minoria que tá ruminando aqui do lado”, disse. Na mesma ocasião, afirmou que negros quilombolas não serviam “nem para procriar.”

Apesar de sua postura eugenista, seus fiéis escudeiros seguem idolatrando-o, atacando verbalmente quem quer que ouse contestar seu mito. Talvez a psicologia nos ajude a entender este fenômeno. De acordo com o conceito de "narcisismo das pequenas diferenças", postulado por Sigmund Freud, a civilização, sob a égide da lei, é a responsável pela inibição da agressividade humana, uma das expressões narcísicas do ego. Entretanto, tal narcisismo agressivo rompe a barreira do recalque e se manifesta publicamente quando incentivado por líderes que se supõem acima da lei (e, portanto, da civilização) ou quando avalizados por um grupo que recorre a pequenas diferenças em relação ao outro para justificar a barbárie.

Em outras palavras, as falas e posturas de Bolsonaro nos concedem a licença necessária para expor os sentimentos xenófobos, homofóbicos, machistas, preconceituosos de forma geral, sem qualquer acanho. Se ele pode, nós também podemos. E assim, ele se tornou na bússola que indica o norte para nossos monstros interiores, instigando-nos a odiar os diferentes, vendo-os como rivais.

O que realmente incomoda é ver tudo isso sendo reverberado em nossos púlpitos, revestido de uma aura piedosa. Uma vez que Bolsonaro é canonizado nas igrejas, sua verborragia é içada ao status de quase sagrada e irrebatível. Pastores buscam nas páginas do Antigo Testamento episódios protagonizados pelos heróis hebreus para justificar sua fúria eugenista. E assim, honram o legado recebido da sua igreja mãe nos Estados Unidos. Foi lá, no chamado Cinturão Bíblico, região sul dos EUA, que o fundamentalismo evangélico brasileiro foi gestado. Foi lá que as igrejas inventaram as famosas galerias para os coros, geralmente formados por negros, para mantê-los separados dos brancos.

Urge que os pastores comprometidos com a justiça do reino de Deus se unam contra esta onda de ódio e enfrentem o discurso eugenista com a verdade do evangelho que iguala todos os seres humanos, independentemente de credo, etnia, cultura, gênero ou orientação sexual.

Urge, igualmente, a emergência de uma teologia emancipada e emancipadora, produzida a partir de nossa própria realidade e disposta a submeter-se a uma constante revisão a fim de que não se cristalize, nem se torne instrumento de justificativa da opressão.

Que o Brasil sobreviva a Bolsonaro. Que a igreja brasileira sobreviva aos profetas palacianos. E que esta pandemia chegue logo ao fim.

sábado, maio 09, 2020

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O DIA DAS MÃES E O ABRAÇO ADIADO



Por Hermes C. Fernandes

Mães deveriam viver eternamente. Quando uma se vai, a porta pela qual chegamos ao mundo se fecha para sempre.

Seu colo é o mais próximo que podemos estar do ventre em que ficamos confinados por nove meses, onde estávamos devidamente guardados das agruras da vida. Porém, gradativamente, na medida em que crescíamos, ele foi se tornando pequeno para nos conter. Mas o que faltava de espaço no ventre até para nos espreguiçarmos, sobrava de espaço em seu coração. Ali era o nosso universo particular.

Definitivamente, não há coração maior do que o de mãe, onde há espaço suficiente para agasalhar nossos sonhos, falhas, talentos e limitações. Se nosso lugar no ventre é passageiro, nosso lugar em seu coração dura enquanto ela puder respirar.

Já foi provado que o ambiente uterino é tão acolhedor que permite à criança sonhar enquanto espera para vir ao mundo. Com que a criança sonha, afinal? Como sonhar com elementos pertencentes a um mundo que nunca explorou? Que imagens se projetariam em sua mente ainda em formação? De onde elas viriam?

Será que ela enxerga o mundo através dos olhos de sua mãe? Ou será que o cordão umbilical não serve apenas para partilhar nutrientes e oxigênio que garantam sua sobrevivência, mas também material psíquico capaz de produzir atividades oníricas?

Pode-se dizer que por nove meses enxergávamos com os seus olhos, respirávamos com os seus pulmões, mas já éramos capazes de ouvir com nossos próprios ouvidos. Os sons externos que nos poderiam soar assustadores eram abafados pelas batidas de seu coração materno.

Audição e tato foram os primeiros sentidos que desenvolvemos durante nosso santo confinamento. Os famosos chutes nada mais eram do que a maneira de tatearmos na escuridão enquanto fazíamos malabarismos para encontrar a posição certa para o mergulho na luz.

Nossa visão, paladar e olfato estavam reservados para serem inaugurados no mundo no qual mergulharíamos quando deixássemos para sempre o aconchego do seu ventre. Não tínhamos ideia das cores, sabores e odores que nos esperavam do lado fora, muitos dos quais nos foram introduzidos por nossa mãe.

Ela não nos deu apenas a luz, mas também os sabores e os perfumes e a deliciosa sensação de sermos ouvidos, tocados e acariciados com toda a sua ternura e amor.

Mãe não é apenas quem gera (como se isso, por si só, já não fosse maravilhoso!). Mãe é quem abre mão de seu presente pelo futuro de quem gerou.

Mãe não é apenas presença, mas também a que nos prepara para a mais dolorosa ausência, e, assim, reconheçamos o valor de sua existência.

Mãe é mais do que presente, também é saudade que nunca para de doer.

Se ela foi capaz de nos carregar no ventre por meses e nos braços por anos, por que não a carregaríamos para sempre em nossos corações?

A todas as mães que durante esta quarentena se veem privadas da companhia de seus filhos, Feliz Dia das Mães. É o mesmo amor que nos fez abraça-las ano após ano que hoje nos faz deixar de abraça-las para que ainda desfrutemos de sua companhia por muitos e muitos anos.

Lembrem-se de que vocês esperaram tanto tempo para poder nos embalar em seus braços, por que não esperar um pouco mais para poder nos abraçar novamente?

Feliz Dia das Mães, mamãe Mirian de Carvalho Fernandes.

* Se você tem a sorte de ter por perto a sua mãe, cubra-a de amor. Não poupe palavras para dizer o quanto você a ama e lhe é grato por tudo o que fez e tem feito por você.

** Se você já não tem por perto a sua mamãe, saiba que segundo o evangelho de Jesus, um dia vocês se reencontrarão, e aquele abraço que você não pôde dar, poderá ser desfrutado com uma intensidade jamais experimentada do lado de cá da vida.

quarta-feira, abril 29, 2020

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O FANTASMA DO FUNDAMENTALISMO


Por Hermes C. Fernandes

“Um retorno às raízes”, diriam os promotores deste movimento. Seu objetivo é o retorno aos que são considerados  princípios fundamentais ou vigentes na fundação de seu grupo.

O fundamentalismo surgiu como um movimento nos Estados Unidos, começando entre os teólogos conservadores presbiterianos no Seminário Teológico de Princeton no final do século XIX, logo se espalhando entre os conservadores batistas e de outras denominações entre os anos de 1910-1920. O propósito do movimento era de reafirmar antigas crenças dos cristãos protestantes que zelosamente as defendiam contra a teologia liberal, alto criticismo, o darwinismo, e outros movimentos que consideravam como ameaçadores ao cristianismo.

Dentre os fundamentos defendidos , nenhum se destacou tanto quando a inspiração da Bíblia pelo Espírito Santo, e sua inerrância e literalidade. A teoria da evolução era contrastada com a descrição da criação contida nos primeiros capítulos de Gênesis. Entre crer que o homem foi resultante de um longo processo de seleção natural ou crer que ele foi literalmente moldado do barro, os fundamentalistas preferiam crer no segundo caso. Em vez de crer que o universo teria cerca de 15 bilhões de anos, tendo sido iniciado com o big bang, preferiam crer que ele não teria mais do que seis mil anos e que teria sido criado em seis dias literais. Para o fundamentalista, sem que estes alicerces sejam garantidos, a fé cristã não se sustenta. Se Adão não foi um personagem real, logo, Jesus não poderia ser chamado de o último Adão. 

O Fundamentalismo, portanto, é um movimento pelo qual os partidários tentam salvar a identidade religiosa da absorção pela cultura ocidental moderna, ainda que para isso, recorra à segregação em maior ou menor grau. Algo análogo ao proposto por alguns grupos sectários do tempo de Cristo, tais como os fariseus e os essênios, que tentavam impedir que os judeus cedessem ao processo de helenização de sua cultura. A diferença entre eles era que os fariseus eram uma resistência interna, recusando-se a se ausentar da sociedade, enquanto os essênios preferiram abandonar o convívio social com seus patrícios e formar comunidades à parte. Mesmo entre os cristãos primitivos, haviam os que poderíamos chamar de fundamentalistas, pois propunham um retorno à Lei de Moisés, rendendo-lhes a alcunha de judaizantes. Para estes, um gentio convertido à fé cristã, deveria cumprir as exigências da lei mosaica, tanto quanto um judeu. 

Os fundamentalistas creem firmemente que a sua causa é de vital, grave e cósmica importância, vendo a si mesmos como protetores de uma única, reta e distinta doutrina, modo de vida e de salvação. O muro doutrinário erigido pelos fundamentalistas visa proteger a identidade do grupo,  não só em oposição a religiões estranhas, mas também contra os modernizadores, os que aderem ao diálogo com outras tradições e com a ciência. 

De fato, suas propostas exercem certo poder de atração sobre os que abraçam a fé no evangelho. Parece razoável lutar por sua pureza e pela preservação de sua identidade. Teme-se que a fé se dilua de tal maneira que acabe perdendo sua relevância e credibilidade. O liberalismo teológico e sua proposta de repensar o cristianismo a partir de lentes modernas tornou-se seu arqui-inimigo. O cenário atual das igrejas na Europa é usado como prova de que o liberalismo tende a matar o cristianismo, tornando-o obsoleto.  Mas o que parecem desconhecer é que o que minou a credibilidade do cristianismo na Europa foi justamente o apoio dado por cristãos fundamentalistas às agendas políticas de exploração e opressão. Não foram os liberais que apoiaram Hitler, mas os fundamentalistas.

O único retorno que o Cristo pede de Seu povo é uma volta ao primeiro amor (Apocalipse 2:4-5). Não se trata de ter as mesmas opiniões dos cristãos primitivos acerca de tudo, mas de, conforme Paulo, “ter o mesmo sentimento que houve em Cristo” (Filipenses 2:5).  Não é possível enxergar o mundo com as lentes pré-modernas. Seria um suicídio intelectual.  Porém, como disse Jesus, se nossos olhos forem bons, todo o nosso corpo será luminoso. Deixaremos de ser propagadores de ódio e preconceito, e seremos propagadores da mais subversiva mensagem de Cristo: o amor.  Eis o fundamento da nossa fé. Por isso, Paulo afirma que o que importa é a fé que opera pelo amor (Gálatas 5:6).

Em vez de nos fundamentar em dogmas passíveis de revisão, devemos estar ”arraigados e fundados em amor” (Efésios 3:17). Afinal, como concluiu o apóstolo, até mesmo as profecias passarão, mas o que deve permanecer até o fim são “a fé, a esperança e o amor, mas o maior deste é o amor” (1 Coríntios 13:13).

segunda-feira, abril 27, 2020

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E SE DEUS LHE DESSE UM FILHO GAY?



Por Hermes C. Fernandes

Filho da pastora e cantora Eyshila, Lucas Santos surpreendeu ao surgir na internet montado como drag queen em um vídeo em que interpreta a canção "Love", da cantora Lana Del Rey.

Ao responder a um de seus seguidores nos stories do Instagram, ele disse:

"Se ela pudesse escolher, teria um filho gay? Não. Se eu pudesse escolher, teria uma mãe pastora evangélica? Não. Mas aconteceu. E acaso não foi. Seguimos nos amando e nos respeitando, em prol de uma vida pacífica e saudável.”

Não me vejo em condição de julgar os pais de um homossexual por sua reação abrupta ante a sua orientação sexual. O que os parentes vão dizer? Será que vão culpar a educação que deram? E a igreja? Quais serão os comentários de seus membros? Será que dirão que seu filho tão querido está endemoninhado? Não dá para mensurar o sentimento de culpa, a angústia, as dúvidas que pairam sobre a cabeça dos pais ao descobrirem que têm um filho ou uma filha homossexual. O fato é que, por mais que afirmemos não termos qualquer preconceito, raramente alguém vai querer ter um filho gay. Uns por puro preconceito mesmo, mas outros, por achar que não suportariam ver seu filho sendo discriminado e sofrendo todo tipo de bullying por causa de sua orientação sexual. Penso que justamente por esta razão, até mesmo casais homossexuais prefeririam que seus filhos fossem héteros, já que isso os pouparia de tanto sofrimento.

E se Deus lhe desse um filho gay? Qual seria a sua reação? Você o aceitaria? Tentaria mudá-lo? E se ele fosse vítima de bullying, você o defenderia? Talvez alguém diga: “Isso jamais aconteceria! Por que Deus me daria um filho assim? O que eu teria feito para merecer isso?” Primeiro, ter um filho gay não seria um castigo. Mas pode ser que Deus queira tratar com seus preconceitos. Como também pode ser que Ele intente fazer de sua família uma referência para que outros pais aprendam a lidar com esta questão com serenidade e amor. Há casos de pais que expulsaram o filho de casa, deixando-o numa situação tal que não lhe restou alternativa senão prostituir-se. O apoio que não recebeu em casa é encontrado entre outros homossexuais, vítimas do mesmo desamor. Alguns chegam a dizer que preferiam ter um filho bandido a um filho gay. Imagine crescer ouvindo isso o tempo todo. Por isso, muitos preferem sofrer calados, sem jamais confidenciar seus conflitos com os seus pais e irmãos.

A igreja, por sua vez, parece não estar preparada para lidar com isso. Em vez de trazer um discurso conciliador, a igreja provoca um abismo quase intransponível entre o homossexual e seus pais. A igreja parece estar tão preparada para lidar com filhos homossexuais quanto os discípulos estavam preparados para atender àquele pai desesperado cujo filho possesso se lançava, ora no fogo, ora na água. Não estou aqui fazendo qualquer comparação entre homossexualidade e possessão, mas comparando o despreparo dos discípulos com o despreparo da igreja atual para lidar com a questão. Jesus havia acabado de descer do monte com três dos seus discípulos mais chegados, onde ouvira dos lábios do Pai: “Este é meu Filho amado, em quem tenho prazer, a Ele ouvi!”[1] Agora se deparava com um pai aflito e desesperado pela condição de seu filho. Que contraste! O que fez o Filho de Deus? Atendeu ao clamor do pai, fazendo o que seus discípulos falharam em fazer. Igualmente, devemos descer de nosso pedestal moral e sair ao encontro daqueles cujas vidas estejam aquém do padrão que muitos consideram ser o correto. E em vez de sair por aí exorcizando o "demônio" da homossexualidade, deveríamos colocar nosso ego para jejuar. O jejum sem o qual certas castas de demônios se recusam a sair não é a abstinência de comida, mas o abdicar-se da presunção, do preconceito, da arrogância religiosa. Gente que arrota santidade prefere construir seus tabernáculos no alto do monte e manter-se separada da gentalha lá embaixo, como sugeriu Pedro no alto daquele monte ao presenciar a transfiguração de Jesus. Com o nosso ego inflado, jamais daremos conta de exorcizar nossos próprios demônios, quanto mais os que assombram os outros. O fato de sermos declarados "amados por Deus" não nos confere o direito de olhar com desdém para os que sofrem, não apenas por sua condição, mas, sobretudo, pela maneira como a sociedade e a família os tratam devido a esta condição.

O que o homossexual necessita não é de sessão de exorcismo, terapias para voltar para o armário, sermões moralistas inflamados, mas de amor. Apenas isso: amor. A igreja e a família devem oferecer um ambiente acolhedor, desprovido de julgamentos e preconceitos. Com que moral podemos anunciar ao mundo que temos o remédio para suas moléstias, se nem sequer fomos curados de nossa homofobia? Queremos tratar o mundo, enquanto Deus pode estar querendo tratar conosco. O único remédio capaz de tratar tanto o homossexual (devido as feridas que lhe fizemos), quanto o homofóbico, é o amor revelado na graça de Deus. Amor que tudo sofre, tudo suporta e tudo crê. Amor que jamais se acaba. Amor que cobre multidão de pecados [2] tanto dos pais, quanto dos filhos. Tanto de héteros, quanto de homossexuais, quer sejam assumidos ou enrustidos.

De acordo com a psicanalista e professora da USP Edith Modesto, autora do livro “Mãe sempre sabe? Mitos e Verdades Sobre Pais e seus Filhos Homossexuais”[3], houve uma mudança social muito grande nas últimas décadas que resultou em um tímido, porém vitorioso avanço no que diz respeito à tolerância, sobretudo, nos grandes centros urbanos. Avanços singelos, porém cheios de significado. Em 1992, Edith descobriu que seu filho caçula era gay. Por não saber como lidar com a situação, resolveu recorrer à ajuda de outras mães que houvessem enfrentado o mesmo, mas sua busca foi em vão. Anos depois, decidiu criar o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH) com a intenção de oferecer ajuda a outros pais que também não souberam o que fazer ao tomarem conhecimento da orientação sexual de seus filhos. Em seu livro, Edith explica que apesar das mudanças ocorridas nas últimas gerações, uma coisa que não mudou foi a reação dos pais ao descobrirem que os filhos são gays. Mesmo os pais considerados mais descolados, abertos e modernos, a reação inicial não difere muito.

Baseado no trabalho da psicanalista, o site Donna elencou 10 frases que pais e mães costumam dizer aos filhos quando descobrem que são gays. Ei-las abaixo com algumas adaptações:

1. “É só uma fase! Vai passar!” - Segundo a psicanalista, os pais sempre passam por uma fase de negação no processo de aceitação. Compreensível, afinal, não deve ser fácil descobrir que o filho não vai ter aquela vida que os pais imaginavam. No entanto, quando um jovem resolve abrir o jogo é porque já está convicto ou, no máximo, confuso com relação à sua sexualidade. Dizer que é uma fase não ajuda os filhos, nem é bom para os próprios pais. Porque se for, pode ser uma fase para a vida toda. Negar não vai ajudar.

2. “Não te criei para isso!” - Nenhum pai ou mãe cria um filho para ser gay. A psicanalista conta que a primeira fase pela qual os genitores passam é a do desespero, e aí vem todo tipo de reação. Por mais que a família desconfie da orientação sexual dos filhos, a tendência que é neguem consciente ou inconscientemente até que venha a confirmação.

3. “O que os outros vão pensar?” - Há sempre aqueles pais que estão preocupados com o que vizinho vai pensar ou o que o colega de trabalho pode dizer. Mas isso é realmente mais importante do que bem-estar do filho? Edith explica que a vergonha é a primeira reação a aparecer e a última a ir embora durante o processo de aceitação. As mães geralmente entram no armário depois que o filho se assume – ou “sai dele”– e acabam se isolando.

4. “Seu pai vai morrer do coração quando souber disso.” - Não acredito que um pai morra ao saber que o filho é gay. Se a reação for dramática, nada que uma água com açúcar ou um calmante não ajude. Assustar o filho também não vai resolver. Essa frase geralmente vem acompanhada de “o que eu vou dizer para a família?”

5. “Isso é culpa daqueles seus amigos!” - Em 1990, a Organização Mundial da Saúde excluiu a homossexualidade da lista de distúrbios mentais. Apesar de tardia, a medida surtiu algum efeito, afinal, com isso pode-se afirmar que ser gay não é ser ou estar doente. E, mesmo que fosse, não seria contagioso. Ninguém é gay por influência dos amigos. Segundo a psicanalista, os pais precisam confiar na educação que deram aos filhos. Nenhum pai busca criar um filho influenciável a ponto de pôr a própria sexualidade em questão por causa dos amigos.

6. “Mas você já tentou com uma menina?” - Até dá para entender a dúvida, mas a verdade é que cada indivíduo tem suas próprias experiências. Enquanto alguns passam por relacionamentos diversos antes de entender a própria orientação, outros não precisam sequer experimentar para ter uma confirmação. Edith conta que certa vez foi abordada por um pai que disse que não era possível o filho ser gay se nunca havia dormido com uma mulher. A psicanalista então perguntou ao pai como era possível ele ter certeza de que era heterossexual, se nunca havia dormido com um homem? O pai silenciou.

7. “Devia ter dado um skate e não patins.” - Ou então “devia ter te levado para escolinha de futebol!”. Os pais costumam se culpar pelas escolhas dos filhos, principalmente as mães, que se sentem pressionadas para criar a prole da maneira mais adequada possível. Logo, quando os filhos parecem fazer algo errado, elas se culpam. “Foi alguma coisa que eu fiz?” é uma das perguntas recorrentes.

8. “Eu não tenho preconceito, mas tenho medo do que você vai passar.” -  Há uma fase na aceitação dos pais que é a da vergonha, que às vezes vem junto do medo. Para Edith, as mães acabam deslocando o próprio preconceito para os outros. “E se meu filho apanhar na rua?”, pensam elas. A partir daí, o filho não pode ir a lugar nenhum. Mas, para a psicanalista, esconder o filho não é proteger.

9. “Você tem certeza?”-  A adolescência é um período efervescente, repleto de pequenas grandes descobertas. É nesta fase em que geralmente se conhece o primeiro amor, que damos o primeiro beijo, que vamos a nossa primeira festa. É também nessa fase que surgem as dúvidas naturais peculiares ao período. Para alguns, as dúvidas vão um pouco além: “será que eu sou gay?”. É natural que os pais questionem a certeza dos filhos sobre a orientação sexual, assim como os próprios filhos o fizeram. Para Edith, os filhos, muitas vezes, acabam exigindo que os pais aceitem em 15 dias o que eles próprios levaram anos para aceitar. É preciso paciência de ambos os lados.

10. “Vou ama-lo e apoia-lo incondicionalmente, independente da sua orientação sexual.” - Esta foi a reação daquele pastor que me contou sobre seu dilema com o filho homossexual. Em vez de rechaça-lo, ele o acolheu sem se importar com o olhar discriminatório dos membros de sua própria congregação. Lembro-me de ter ouvido dele que preferia perder a igreja a perder o filho. “Se a igreja me desse um pontapé, Deus poderia levantar outra para me apoiar. Mas se eu perdesse o meu filho, jamais me perdoaria.”

Como podemos ver, nem toda reação é negativa. Existem pais que imersos em seu próprio preconceito e sofrimento, acabam se esquecendo do sofrimento dos filhos, assim como filhos que acabam ignorando o sofrimento dos pais. Aceitar é um processo que pode ser lento e difícil tanto para os filhos, como para os pais. Muito mais que simplesmente aceitar, que, diga-se de passagem, é uma opção individual de cada um, o essencial é respeitar, que, afinal, é dever de todos nós. Se você tem um filho homossexual, ame-o, ainda que não o compreenda num primeiro momento. Não desista dele. Se você é um homossexual, considere-se amado. Se não por sua família, por Aquele que lhe criou. Sua vida é um presente de Deus ao mundo.

Que as palavras do salmista sejam um consolo para o seu coração:

 “Se meu pai e minha mãe me abandonarem, o Senhor me acolherá.” Salmos 27:10

[1] Mateus 17:5
[2] 1 Pedro 4:8
[3] MODESTO, Edith, Mitos e Verdades Sobre Pais e Seus Filhos Homossexuais, São Paulo: Editora Record, 2008.