sexta-feira, julho 05, 2019

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LAVA-JATO NADA! PRECISAMOS É DE UMA GERAL



Por Hermes C. Fernandes 

Desconheço a razão pela qual apelidou-se a operação de Lava-jato. Mas começo a achar que não haveria nome mais sugestivo que esse para designar uma operação que mais parece uma ducha rápida daquelas dadas em postos de gasolina. O carro sai com a lataria tinindo, passando a impressão de estar limpo, porém, o seu interior continua tão sujo quanto antes. Não, amigos! Não é de uma ducha “me engana que eu gosto” que o Brasil precisa. Por mais que tenha higienizado o exterior das instituições, prendendo corruptos e corruptoras, suas engrenagens seguem imundas. Trocam-se os atores, mas o enredo permanece o mesmo.

Precisamos é de uma lavagem completa com direito a uma aspiração profunda nos poderes, inclusive, e sobretudo, no judiciário.

Precisamos de uma reforma política mesmo antes de qualquer outra , por mais urgente que tentem nos fazer acreditar que seja.

Precisamos mais que isso! Urge calibrar os pneus dos poderes de modo que um não interfira no outro, mas lhe dê a devida estabilidade e sustentação. Precisamos trocar o óleo do motor da democracia, antes que o motor bata e a gente acabe guinchados por uma ditadura qualquer. O atual já deu o que tinha que dar; está queimado e sem viscosidade.

Os que ocupam o legislativo já não representam nossos reais anseios. Tanto o executivo, quanto o legislativo são reféns dos interesses de quem bancou suas campanhas.

Precisamos de uma boa carga na bateria da credibilidade. Para que o povo volte a acreditar nas instituições e na classe política, faz-se necessária uma justiça imparcial, que não privilegie a uns enquanto persegue a outros. Quem age assim não está honrando sua magistratura, merecendo o mesmo fim que deu aos corruptos que prendeu.

Por fim, precisamos de uma igreja que se perceba como limpadores de para-brisa, cuja finalidade é garantir plena visibilidade a quem dirige o carro: o povo.  Enquanto a igreja acreditar que é volante, o carro seguirá derrapando na pista, correndo o risco de se precipitar despenhadeiro abaixo.

Pastores, vocês não têm procuração para pensar pelo povo. Vocês são as palhetas dos limpadores de para-brisa. Larguem o volante! Deixem que seu povo exerça cabalmente a sua cidadania. Estimulem o livre pensamento. Seu papel é manter o para-brisa limpo para que pessoas decidam por si mesmas que direção tomar.

terça-feira, julho 02, 2019

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PRA NÃO DAR NA PINTA



Por Hermes C. Fernandes 

Ele não poderia deixar barato! Onde já se viu uma quantia considerável em dinheiro que poderia ter vindo para sua mão sendo desperdiçada daquela maneira...  Mas ele também não poderia dar na pinta. Seus colegas jamais poderiam imaginar seu verdadeiro interesse.

De fato, aquela cena estava revirando seu estômago. Algo precisava ser feito. Alguém teria que detê-la! Ela estava abrindo um perigoso precedente.  Até aquele dia, todo dinheiro que chegava tinha que passar por ele, afinal de contas, ele era o tesoureiro. Jesus não teria dado tamanho voto de confiança a alguém em quem não confiasse, não é verdade? Por isso mesmo, ninguém era capaz de supor que ele desviasse parte do dinheiro das contribuições que visavam manter o ministério de Jesus. Refiro-me a contribuições feitas em sua maioria por viúvas, trabalhadores, gente do povo. Judas não tinha o menor escrúpulo em surrupiar parte daquele dinheiro. Por incrível que pareça, sua consciência se mantinha intacta. Não sei como ele conseguia driblá-la, mas posso imaginar que ele se convencia de que merecia ficar com parte do que era arrecado, ainda que sem o consentimento do mestre.

Tudo corria conforme o esperado até que aquela mulher estragou tudo. Que revolta! Ela não tinha nada que derramar um perfume tão caro nos pés de Jesus! Por que não o vendeu e entregou o valor em suas mãos? Pode-se dizer que aquela teria sido a oferta mais expressiva que Jesus recebera até então.  Não era um perfume qualquer comprado em um Boticário na esquina. Custara-lhe 300 denários, isto é, um ano inteiro de trabalho. Supondo que hoje um trabalhador ou diarista ganhe em torno de 50 reais por dia de trabalho, 300 denários equivaleria à quantia de 15.000 reais.

Um denário era uma moeda que pesava quatro gramas de prata. Portanto, 300 denários equivaliam a 1,2 kg de prata. Não dava para fazer vista grossa a uma quantia tão vultuosa.

Será que daria para reverter aquilo ou pelo menos impedir que aquilo ocorresse mais vezes? Já pensou se vira moda?
Judas respira fundo, e num cochicho diz aos colegas: Vocês não acham que isso é um desperdício? Ela poderia ter vendido o perfume e entregue o valor em dinheiro. Pelo menos assim teríamos com que acudir os pobres.

Quanta cara de pau, seu Judas! Você nunca se importou com os pobres! Você era um dos que criticavam o mestre quando este se preocupava em alimentar os pobres. Agora me vem com essa estorinha...

Pelo olhar dos demais discípulos, todos pareciam concordar. Judas tinha razão! Os pobres deveriam ser prioridade. Porém, Jesus não pareceu dar a mínima para a crítica de Judas, pois conhecia a sua índole. Se Ele não impediu a oferta de uma viúva pobre no templo, por que impedira que aquela mulher lhe demonstrasse todo o seu amor?

Semelhantemente, há quem só é tomado por uma aparente crise de consciência quando o dinheiro deixa de passar por sua mão. Seus comentários agora só tem um propósito: dissuadir os que almejam agradar a Cristo, dedicando-lhe sua vida e seus recursos.

Judas não deixou barato.  Aquela foi a gota d’água que revelaria seu caráter. Mal esperou que a última gota de perfume fosse derramada em Jesus e saiu correndo para encontrar-se com os sacerdotes para trair seu mestre pela bagatela de 30 moedas de prata. Repare nisso: Judas traiu Jesus pelo dízimo do valor que aquela mulher dedicou a Jesus.

Dizem por aí que o que teria motivado Judas a trair seu mestre era a esperança de que isso o forçaria a abandonar o seu ministério e submeter-se à agenda de quem só pensava em tomar o poder e se locupletar dele.

Judas parecia um exímio jogador de xadrez, mas levou um xeque-mate de Cristo ao ser exposto ante os olhos dos demais discípulos: "O que mete a mão comigo no prato, este me trairá." Quem é capaz de meter a mão no prato do próprio mestre, servindo-se a si mesmo sem o menor recato, é quem igualmente é capaz de meter a mão na bolsa para se locupletar. O cuidado com os pobres é apenas a justificativa, a cortina de fumaça.  Não dê crédito a crises de consciência tardias, pois estas expõem de maneira eloquente o verdadeiro intento do coração.

segunda-feira, julho 01, 2019

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FLORDELIS - Tragédia Anunciada



Por Hermes C. Fernandes

O que se poderia esperar de uma família tão grande em que os pais não davam conta de dar atenção a todos os filhos?

Como entender que uma mãe fosse capaz de manipular um dos seus filhos, aquele que lhe era mais chegado, para enganar o próprio pai?

Se pensa que estou falando do caso Flordelis, você está enganado. Refiro-me, antes, a dois casos envolvendo um mesmo personagem: JACÓ.

No primeiro que menciono, dez filhos de Jacó tramam contra a vida de seu caçula, José, forjando sua morte e vendendo-o como escravo a uma caravana de mercadores.  A razão? Sentiam-se preteridos por seu pai que não escondia sua predileção por José. De fato, aquela era uma família disfuncional.

No segundo caso, refiro-me à mãe de Jacó que o convenceu de se fazer passar por seu irmão gêmeo Esaú, aproveitando-se da condição física de seu pai, para roubar-lhe a bênção da primogenitura.

Por incrível que pareça, esse tem sido considerado por muitos evangélicos modelo de família perfeita segundo os padrões bíblicos. Só se esquecem de que dos doze filhos de Jacó, somente dois foram frutos de seu amor por Raquel, sua mulher. Os demais foram filhos de sua outra esposa, Lia, e de suas servas.

Se foi assim na família do grande patriarca hebreu, imagina como seria em uma família formada de 56 filhos (4 biológicos e 52 adotados).

Se já é complicado criar dois ou três filhos, dando-lhes igual atenção, quão complicado e até impossível seria criar mais de cinquenta sob um mesmo teto?

O fato é que em cima disso, Flordelis alcançou notoriedade. Chegou mesmo a participar de um programa da Xuxa que a catapultou para a fama além das fronteiras do mundo evangélico.  E não foram poucos que tomaram carona em sua obra. Quem não gostaria de ter sua imagem associada a de uma pessoa de tão bom coração?

Sem perder tempo, Flordelis e seu esposo, Anderson do Carmo, trataram de fundar uma igreja. Cantores e pastores de renome desfilaram em seu púlpito.

Longe de ser ingênua, e, certamente orientada por alguns caciques do cenário político, Flordelis resolveu capitalizar politicamente sua fama, lançando-se candidata a Deputada Federal. Resultado: ganhou de lavada, sendo uma das cinco mais votadas no Estado do Rio.

Torço para que as suspeitas acerca de sua participação na morte do marido sejam infundadas. É difícil acreditar que alguém capaz de abrir a porta de sua casa para tantas crianças pudesse convencer a três de suas filhas a envenenar a comida do próprio pai dia após dia. É difícil acreditar que ela fosse tão fria a ponto de convencer a um dos filhos a comprar a arma e a outro a alvejar o pai na porta de sua casa. Caso isso se comprove, não me restará alternativa senão reputá-la por psicopata de sangue frio que se valeu dos filhos que adotou para cometer um crime bárbaro. Ainda que se comprove que o marido mantinha um caso extraconjugal, nada justifica manipular os próprios filhos, fossem adotivos ou não, para odiar e participar do assassinato do pai. Antes de convencê-los a isso, ela teve que leva-los a odiá-lo, um processo que talvez tenha se dado em doses homeopáticas. Não duvido que para isso recorresse a expedientes melodramáticos, chorando copiosamente, dizendo-se traída e injustiçada.

A mesma semente do ódio que germinou na família de Jacó, fazendo com que tivesse que fugir de seu irmão por vinte anos para não morrer, também pode ter germinado na família de Flordelis.

É lamentável que uma história que parecia tão bonita, termine assim, feito um Thriller de terror. Não duvido que em poucos anos se torne filme.

Oro a Deus para que a verdade venha à tona a fim de que os responsáveis por este crime sejam devidamente punidos. E que seus filhos biológicos e adotivos sejam encaminhados, cuidados e sarados desta ferida.

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FRONTEIRAS - Poema



Meu repúdio a atual política de imigração adotada pelos Estados Unidos e ao espírito xenófobo que paira o mundo nesses dias tenebrosos, representado por autoridades arrogantes, ignorantes, presunçosas e munidas de ódio e preconceito. Óscar Martinez e sua pequena filha Valéria de quase dois aninhos morreram abraçados quando tentavam atravessar o caudaloso Rio Grande que faz fronteira entre o México e os Estados Unidos.

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Uma breve viagem no tempo no Terminal do Tietê



Por Hermes C. Fernandes

Estou na rodoviária do Tietê em SP aguardando o ônibus que me levará de volta ao Rio. De repente, fui tomado de nostalgia e comecei a fazer um balanço da minha vida e ministério. Há 20 anos eu pegava o último ônibus para o Rio semanalmente após o trabalho de discipulado que fazia com jogadores de futebol em São Paulo. Apesar de ser bem mais jovem à época, confesso que era um tanto quanto cansativo, mas posso garantir que valia a pena. Eu já era pastor há 12 anos!

Cada época do meu ministério seguiu um ritmo diferente. Nos primeiros dez anos, cheguei a pregar até 15 vezes por semana, além de conduzir programas diários de rádios e semanais de TV. Não parava em casa! Respirava igreja. Sem férias. Sem folga fixa.

Em 1993, com apenas 7 anos de ministério, tive minha primeira estafa acompanhada de uma enfermidade que me deixou sem andar por vários meses. Irrequieto, não me entreguei. Aproveitei o momento de molho para escrever meu primeiro livro. Em 1996 recebi a revelação da graça. Perdi tudo. Fui convidado a deixar o ministério a que pertencia. Comecei do zero numa igrejinha em Marechal Hermes, tendo que sustentar três filhos pequenos, sendo uma especial. Em 1999 fundei a Comunidade do Trono da Graça. Em abril de 2001, estava eu vindo do Rio para SP fazer o trabalho com os jogadores, quando o Espírito Santo falou diretamente ao meu coração que levaria meu pai, e que eu seria convidado a regressar à sua igreja para liderá-la. Na madrugada seguinte, por volta das 4h, voltando de SP para o Rio neste mesmo ônibus no qualquer acabo de embarcar, acordei assustado sentindo uma sensação horrível de morte. Naquele exato momento, Deus estava recolhendo meu saudoso pai. Tudo o que o Senhor me havia dito no dia anterior, veio a se cumprir literalmente. Aliás, 1996, numa viagem a Atlanta, nos EUA, Deus já havia usado os lábios de alguém que não me conhecia para dizer que tudo aquilo aconteceria. À frente do ministério iniciado por meu pai, comecei a me dedicar mais a escrever. Passei a pregar menos, cerca de seis vezes por semana, mas a escrever mais. Lancei alguns livros.

Em 2008, sofri uma traição por parte de um dos pastores em quem mais confiava. Deixou-me dívidas e levou-me a igreja que eu havia fundado em 1999.

Abriu-se tão grande ferida em meu peito, que por muitos anos sangrou. No início de 2009 mudei-me para os EUA com a família. Estava decidido que acompanharia de mais perto o crescimento dos meus filhos que já adentravam a adolescência. Passei a trabalhar em casa. De lá, pregava via Skype para o Brasil. Produzia vídeos de mensagens para o YouTube. Foi aí que descobri pra valer as redes sociais. Dediquei-me a escrever em meu blog diariamente. Quando voltei ao Brasil em meados de 2011, já havia alcançado certa visibilidade através do meu trabalho nas redes sociais. Passei a ser figurinha presente em debates na rádio e na TV devido a posicionamentos considerados controversos. Recebi muitos convites para pregar pelo Brasil e mundo afora.

Nunca deixei de trabalhar. Nunca explorei a fé de ninguém. Se o fizesse, talvez estivesse rico.

Há um ano fui acometido por uma inflamação do nervo ciático que quase me deixa paralítico. Cheguei a ficar sem andar. Passei a pregar duas vezes por semana, mesmo sentado. Mas intensifiquei meu trabalho nas redes e através da escrita. Um ano atrás, meus livros totalizavam 28 títulos. Hoje são 52. Fiz em um ano quase o que fiz a vida inteira desde que comecei a escrever em 1993. Obviamente que esses novos títulos ainda não estão todos disponíveis. Alguns estão à venda em plataformas digitais como o Amazon por preços módicos. Não escrevo para ganhar dinheiro, mas para compartilhar conhecimento e experiências.

Tenho dedicado os últimos meses a fazer uma das coisas que mais amo: escrever. Muitas vezes fico até às 4 da manhã registrando minhas percepções acerca de vários temas que considero pertinente.

Não sei o que o futuro me reserva. Os filhos cresceram. As coisas mudaram. Os dias são outros. A única coisa que não muda é meu desejo de dedicar minha existência à construção de um legado que abençoe a muitas gerações depois que eu partir.

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O CURADOR FERIDO


Por Hermes C. Fernandes

Reza a lenda que Cronos se viu atraído fortemente pela bela Filira e, para tê-la, precisou se transformar em um cavalo para fugir da desconfiança de sua mulher, a deusa Réia. Da união desse amor proibido nasceu um menino, metade homem, metade cavalo. Inconformada em ter gerado um Centauro, a mãe rejeitou o filho, pedindo aos deuses que a transformassem em uma árvore. Os deuses, sensibilizados com o pedido, escolheram transformá-la em uma Tília, uma árvore sagrada com poderes mágicos que protegiam os guerreiros.

Quando Cronos soube, preocupado que os lenhadores desavisadamente lhe fizessem mal, resolveu protege-la fazendo com que ela exalasse para todo sempre um agradável e inebriante perfume durante a primavera.

Os Centauros costumavam ser violentos, por isso Cronos, que amava o filho, decidiu mudar esse destino compartilhando suas virtudes como deus do tempo. Assim, Quiron herdou do pai a sabedoria, os conhecimentos de magia, astronomia e o dom de prever o futuro. Além disso, era conhecedor das artes e da música. O menino foi entregue ao deus Apolo e à deusa Artêmis para ser educado e, por sua sabedoria, virtudes e grande espiritualidade, foi eleito como rei dos centauros, recebendo a missão de educar os jovens a respeitarem às leis divinas.

Certa vez, quando seu amigo Hércules matou o monstro Hidra de Lerna com cabeças envenenadas, acidentalmente o feriu na coxa com uma das flechas saturadas de sangue do monstro. Quiron, embora imortal, não conseguia curar a si mesmo, ficando condenado a viver em sofrimento. Ferido e com um ponto sensível que doía ao ser tocado, reconheceu que possuía uma vulnerabilidade.

Os ferimentos de Quiron o transformaram em um curador ferido, aquele que, por meio de sua própria dor, é capaz de compreender a dor dos outros. Quiron representa a parte ferida de cada um, simbolizada por alguma deficiência, limitação ou problema, que o torna benevolente em relação aos que o cercam, pois entende-lhes o sofrimento com compaixão.

Carl Jung, pai da psicologia analítica, tomou emprestada a expressão "curador ferido" para referir-se àqueles que mesmos machucados, sentem-se compelidos a tratar a outros.

Cristo é o maior de todos os exemplos de alguém ferido que se propõe a cuidar até mesmo daqueles que o feriram. Pode-se dizer que nossas feridas nos habilitam a isso na medida em que nos levam a olhar o outro com compaixão, fazendo-nos solidários à sua dor.

Outro exemplo é o de Paulo que condoeu-se da situação do carcereiro que estava prestes a dar cabo de sua vida, dissuadindo-o de tal desatino ao impedir que houvesse uma fuga em massa de presos após o terremoto que abriu todas as celas. Mesmo ferido após quase uma quarentena de chicotadas, Paulo juntamente com Silas foi instrumento de restauração para aquela vida. O texto diz que o próprio carcereiro cuidou das feridas que possivelmente ele mesmo tenha aberto.

Nossas feridas não são desculpas para a nossa apatia ante o sofrimento alheio. Pelo contrário, são nossas credenciais.

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ESPIRITUALIDADE DE BOSTA



Por Hermes C. Fernandes

É preferível enfiar a cara no vaso sanitário e dar descarga, deixando afogar suas mágoas e ódio a ser batizado em um batistério luxuoso que mais parece uma jacuzzi de motel e continuar odiando e nutrindo todo tipo de preconceito, e ainda ter a audácia de justificar sua perversidade em seu fundamentalismo religioso. Precisamos de um batismo de consciência!

É preferível vociferar palavrões com sinceridade a destilar o veneno da falsidade com palavras bajuladoras ou ficar repetindo jargões religiosos como se fossem palavras de ordem capazes de forçar Deus a fazer o que não quer.

É preferível cantarolar canções seculares que falem de amor a arrotar uma santidade arrogante e discriminatória, entoando louvores que estimulem revanche e ostentação em nome da fé ou mantras gospel repetidos à exaustão que nos privam de qualquer senso crítico, colocando nossa inteligência em suspensão. Não precisamos de algo que nos instigue os sentidos, mas que dê sentido à nossa existência. Não algo que nos embale, mas que nos desperte.

Há mais comunhão em uma mesa de bar do que numa roda de fofoca, mesmo quando esta é chamada de círculo de oração. Sob o sagrado manto de "pedido de oração" reputações são destruídas, relacionamentos arruinados, sonhos ridicularizados.

Há mais dignidade numa casa noturna que entrega o que anuncia do que numa igreja hipster descolada,  que esconde por trás de seu invólucro moderninho recheado de gírias o mesmo discurso fétido que em vez de espalhar o perfume de Cristo, infesta o mundo com o odor da naftalina de tradições e crendices há muito superadas. É mais honroso as irmãzinhas de coque e os varões de ternos surrados do que a galera dos piercings e das calças rasgadas nos joelhos, mas com o coração empedernido.

A liturgia que agrada a Deus é a que inclui o excluído, que empodera os explorados e oprimidos, que dá voz aos sufocados, que abate os poderosos e os faz suplicar pela misericórdia divina reconhecendo seus descaminhos.

A vida do outro é o altar onde oferecemos a Deus os únicos sacrifícios que o agradam. Partilhar experiências, repartir nosso próprio pão, oferecer nossos dons ao serviço do bem comum é a eucaristia que mantém coeso e saudável todo o corpo.

Não se atreva a colocar palavras em minha boca. Em momento algum estou defendendo um estilo de vida contrário ao proposto por Jesus, e sim, denunciando nossas idiossincrasias e mania de julgar o mundo como se a ele fôssemos superiores. Que Deus aja conosco com o mesmo rigor com que queremos que aja com o mundo.