quinta-feira, outubro 22, 2020

0

POR MAIS FRANCISCOS E MENOS MALAFAIAS

 


Por Hermes C. Fernandes

Sempre me pego refletindo sobre aqueles que hoje são celebrados como heróis da nossa civilização, mas que em seu tempo foram tachados de hereges, subversivos, revolucionários, e por isso mesmo, duramente combatidos. Pergunto-me de que lado eles se poriam nas questões que hoje nos dividem. Por fim, pergunto-me de que lado Jesus estaria. Alguém conseguiria enxergá-lo cerrando fileira com a casta sacerdotal de sua época? Se fosse este o caso, duvido que Ele entrasse no templo derrubando as mesas e expulsando os vendilhões. Alguém o imaginaria engrossando o coro de quem pretendia apedrejar aquela mulher? Em vez disso, Ele preferiu defender seu direito. Isso mesmo! Seu direito de viver.

Jesus invariavelmente se pôs ao lado dos excluídos, dos marginalizados, dos oprimidos, dos explorados. Ele não resistia ao clamor das minorias. Da vez em que foi importunado por uma mulher cananeia (depois pesquise na Bíblia o significado de ser cananeu na visão de um judeu daquela época), disse que não tiraria o pão da boca dos filhos para dá-lo aos cachorrinhos. Quem lê esta passagem cruamente corre o risco de escandalizar-se com Jesus. Mas sua pretensão não era de compará-la a um animal qualquer. Sabendo de antemão qual seria sua reação, Ele quis dar uma lição em seus discípulos. É possível que eles, como judeus que eram, até tenham gostado de ouvi-lo fazer aquela comparação esdrúxula. Eles chegaram a pedir que Jesus a dispensasse logo, porque ela vinha atrás clamando por sua filha enferma. Porém, para a surpresa deles (mas não de Jesus!), ela respondeu: “Sim, Senhor, mas os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa do seu senhor.”  Compadecendo-se dela, Jesus elogiou sua fé, atendeu ao seu clamor e curou sua filha. 

Que lição encontramos aí? Aquilo que para uns já não tem tanto valor, para outros tem valor inestimável. O que para uns não passa de migalha, para outros é o pão que lhes resta. 

Ontem, o mundo ficou boquiaberto com a declaração do Papa Francisco a favor da

união civil para casais homoafetivos. De fato, foi um gesto extremamente generoso e corajoso. Menos de 24 horas depois, o pastor Silas Malafaia anuncia um vídeo em que vai “arregaçar” o Papa que, segundo ele, estaria negando os princípios morais do evangelho. Quando a Suprema Corte americana, tão admirada por Malafaia e cia, autorizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo , as reações foram imediatas. Milhões celebraram, enquanto outros milhões lamentaram. Dificilmente encontramos (pelo menos nas redes sociais) quem se mantivesse isento. 

Ironicamente, uma instituição que tem sido tão desgastada ao longo das últimas décadas, tornou-se o sonho de consumo de milhões de casais homossexuais. Os mais conservadores vociferavam: Este é um direito concedido por Deus exclusivamente a casais heterossexuais. Sim, assim como o ministério terreno de Jesus era focado exclusivamente nos judeus. Mas isso não o impediu de sensibilizar-se com aquela cananeia. Com toda a pressão política e religiosa, a Suprema Corte preferiu ser sensível ao clamor desta minoria e atender à sua reivindicação. 

Como seguidor de Cristo, encontro aí razão para celebrar. Prefiro ver gays numa relação monogâmica a vê-los entregues à prostituição e a promiscuidade. Além do mais, ninguém vai conduzir um gay a Cristo negando-lhe os direitos. Infelizmente, alguns celebram quando a dama da justiça usa sua espada para retribuir o mal, mas não celebram quando usa sua balança para atribuir direitos iguais a todos. O problema é que toda vez que um dos pratos da balança pende para um lado, a espada da justiça vem contra ela mesma. 

Mas isso é contra a lei de Deus! Esbravejariam alguns. Não perca seu tempo citando os versos bíblicos que condenam tal prática. Eu os conheço todos. Como também conheço aquelas passagens bíblicas que apoiam a escravidão, por exemplo. Passagens como Levítico 25:44 foram prodigamente usadas por religiosos que tentavam impedir que os escravos fossem livres. Segundo eles, isso faria com que a sociedade entrasse em colapso. Os abolicionistas foram chamados de hereges por renegarem o sagrado direito de se ter escravos. Isso é uma abominação! Sim, casamentos mistos também. Começo a acreditar que chamamos deliberadamente de abominação aquilo que ainda embrulha nosso estômago. Tem mais a ver com nossos escrúpulos do que com o que cremos. Assim como hoje ouvimos aquela velha alegação de que se um pastor se negar a celebrar as bodas de um casal gay será preso, na época da abolição, pregadores bradavam dos púlpitos que se os escravos fossem livres, em breve, haveria casamentos mistos, claramente proibidos pelas Escrituras conforme passagens como Esdras 10:2-3 e Neemias 13:23-27. Os fiéis ficavam horrorizados ao imaginar suas lindas filhas, louras e de olhos azuis, sendo desposadas por negros de mãos calejadas. 

Quer gostemos ou não, o mundo mudou. O que hoje causa ojeriza em alguns, será visto como normal pelos seus netos. Assim como nos horrorizamos ao saber dos maus-tratos que os negros sofriam no passado, nossos netos se horrorizarão ao tomarem conhecimento da homofobia que vigorava em nossos dias. Homens como Martin Luther King viveram à frente do seu tempo. De que lado eles estariam agora? Jesus viveu muito, muito à frente do seu tempo. Por isso, reconheceu que seus contemporâneos não estavam prontos para lidar com questões ligadas à sexualidade. “Nem todos podem receber esta palavra”, disse com relação aos eunucos, homens que não tinham qualquer interesse no sexo oposto.  Ninguém que tenha vivido à frente do seu tempo ficou ileso. Há um preço a se pagar por posicionar-se pela justiça e pelo direito. O que me encoraja é saber que estamos presenciando um momento histórico. Nossos descendentes nos invejarão por havermos sido testemunhas disso. 

Uma parcela considerável da população americana teve seus direitos assegurados. Eu temeria o juízo de Deus se o direito lhes fosse negado, pois foi Ele mesmo quem advertiu: “Ai dos que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores, para privar os pobres dos seus direitos, e da justiça os oprimidos do meu povo; fazendo das viúvas sua presa e roubando dos órfãos.”  Entende-se por "leis injustas" aquelas que são parciais, que atendem a uns em detrimento de outros. Equidade é tratar a todos de igual modo, sem privilégios, sem prejuízos. Iniquidade é exatamente o oposto disso. Iniquidade não é conceder direitos, mas negá-los. 

Assim como teria celebrado se houvesse assistido a Jesus atendendo ao clamor de uma mulher pertencente a um povo amaldiçoado, concedendo-lhe o que os “filhos” desprezavam, celebro a conquista da população homossexual daquele país, ainda que isso me custe ser atacado pelos que não sabem chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram. 

Aos que discordam de mim, saibam que os respeito. Graças à democracia em que vivemos, temos o direito de discordar uns dos outros. Portanto, não neguemos este direito aos outros. Como disse Voltaire: Posso não concordar com nada que você diz, mas morreria pelo seu direito de dizê-lo. 

Sei o que é ser vítima de preconceito. Quando criança, tive minha casa apedrejada pelo simples fato de sermos uma família protestante. Acordei com um paralelepípedo rente à minha barriga. Teria me matado se atingisse a cabeça. Tenho o privilégio de ser pai de uma pessoa com deficiência. Sei como é lidar com aqueles olhares indiscretos. Talvez por isso me identifique tanto com o clamor das minorias.

Por mais Francisco e menos Malafaias. Mais amor e menos rancor e discriminação.

domingo, outubro 11, 2020

0

DEPRESSÃO NÃO É FRESCURA, NEM FALTA DE DEUS

 


sexta-feira, outubro 09, 2020

0

CÚMPLICES DA CULTURA DO ESTUPRO

 Por Hermes C. Fernandes

Há, indiscutivelmente, uma cultura que favorece o estupro. Os números não mentem. 59% dos brasileiros concordam que existe “mulher para casar” e “mulher para a cama”. 58% defendem que se as mulheres soubessem se comportar melhor, haveria menos estupros. Muitos ainda insistem na ideia de que a maioria das mulheres tenham fantasia de serem estupradas, e que, por isso, é difícil saber se uma mulher que diz “não”, realmente não quer sexo. Para esses trogloditas, ao dizer “não”, a mulher estaria apenas fazendo “doce”. Mesmo diante dos tribunais, a vítima tem que provar que não queria sexo, e para isso, não bastaria ter dito “não”. Os peritos buscam indícios de resistência e marcas de violência que provem que o sexo não foi consensual. Ainda que estudos tenham provado que uma das reações mais comuns à violência sexual é a vítima ficar congelada, esperando que tudo acabe logo. 

O primeiro passo que precisa ser dado para se combater um mal é admiti-lo. Deixar de fazê-lo nos torna cúmplices. Mas o que esperar de um país onde um deputado diz a uma colega de parlamento que só não a estupraria por ela não merecer? Em vez de perder o mandato, ele se elege presidente com forte apoio das igrejas e um discurso pra lá de moralista. O que esperar de um país onde uma bancada parlamentar religiosa resolve criar um projeto de lei para boicotar a lei que garante o atendimento gratuito na rede pública de saúde para vítimas de estupro? O que esperar de um país onde a plateia de um programa de TV aplaude ensandecida a um ator que acaba de confessar haver estuprado uma mulher depois de deixá-la inconsciente? Este mesmo ator teve a petulância de encontrar-se com o ministro da educação para dar-lhe sugestões para a gestão de sua pasta. 

Daí, alguns patriotas de ocasião saem vociferando que não há uma cultura de estupro no país! Diga isso para cada mulher que é estuprada a cada 11 minutos no Brasil, de acordo com os dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Diga isso para as 47.646 vítimas somente no ano passado. Será que tais números seriam suficientemente convincentes para que admitamos que haja uma cultura do estupro devidamente instalada na sociedade brasileira?

Primeiro, vamos entender a origem do termo “cultura do estupro”.

Este termo foi cunhado na década de 70, quando feministas americanas se empenhavam numa campanha de conscientização da sociedade acerca da realidade do estupro. Segundo Alexandra Rutherford, doutora em ciência e psicologia, e especialista em feminismo e gênero, antes que o movimento feminista trouxesse à baila este assunto, pouco se falava sobre isso. E pior: acreditava-se que tanto o estupro, quanto a violência sexual doméstica e o incesto raramente aconteciam.

O número crescente de casos de estupros numa sociedade, bem como a típica reação de parte da população, evidencia a existência de uma cultura de estupro. Não significa que o estupro seja visto como algo normal, que deva ser praticado e incentivado, mas que a cultura produz um solo fértil para que ele ocorra com preocupante frequência. 

Bem da verdade, a sociedade enxerga com certa condescendência o estupro, mesmo dizendo-se horrorizada. Esta condescendência se revela cada vez que se tenta culpabilizar a vítima e isentar o perpetrador como se isso fosse inerente à sua própria masculinidade. 

Pais criam seus filhos meninos para serem predadores, verdadeiros garanhões. Mesmo que não admitam, mas sentem-se orgulhosos de saber que o filho está “passando o rodo geral". A mulher é vista como um objeto a ser conquistado, uma égua selvagem a ser dominada e amansada. Obviamente que isso não é dito abertamente, mas nas entrelinhas, na piadinhas, nas frases de efeito do tipo “prendam suas cabras que meu bode está solto.”

A mesma cultura que forja a figura do “macho alfa”, produz a ambiência propícia ao estupro. Meninos crescem ouvindo que quando a mulher diz não, na verdade está querendo dizer sim. O “não” é apenas um charminho. Ela quer se pega à força. Ser jogada contra a parede. Forçada. Mulher não gosta de homem molenga. Mostra pra ela quem é que manda! Toda mulher tem a fantasia de ser estuprada. Mulher gosta mesmo é de apanhar... E por aí vai... Alguém ainda ousa dizer que não há uma cultura de estupro?

Tentar embebedar a menina para depois se aproveitar dela não é estupro? É o quê, então? Mas tudo isso é visto como algo perfeitamente natural. Nada demais. Coisa de adolescente aloprado. 

Muitas mulheres já até se convenceram de que nasceram para ser presas fáceis nas mãos destes cafajestes. Há uma glamourização da cafajestice. Não que todo cafajeste seja um estuprador, mas certamente é um forte candidato, visto ser desprovido de qualquer escrúpulo ou freio moral. 

Se por um lado, busca-se naturalizar a postura do homem predador, por outro, busca-se culpabilizar a vítima. Alguma coisa ela fez para merecer isso!

No caso da  jovem de apenas 16 anos estuprada por 33 homens, as redes sociais ficaram abarrotadas de acusações que tentavam execrá-la e descreditar seu depoimento. Fotos foram postadas em que ela supostamente aparece com fuzis. Eu disse “supostamente”, porque foi comprovado que algumas destas fotos não eram dela. Surgiram depoimentos de supostas amigas que vazaram pelo whatsapp afirmando que ela estava acostumada a transar com vários homens de uma vez. De uma hora para outra, ela deixou de ser a vítima para ser a vagabunda, a descarada, que procurou por aquilo, que consome drogas pesadas, que vive em bailes funk, etc. Ainda que todas estas acusações fossem verdadeiras, não justificam o crime cometido. Ela poderia ser até uma prostituta que já transara com 50 de uma vez. Se ela disse não, tem que ser respeitada. E mais: mesmo que houvesse sido consensual, ela é menor de idade, e pelo que consta, estava dopada. Aliás, não foi o primeiro estupro que sofreu. Foi fartamente noticiado que ela é mãe de uma criança de três aninhos. Logo, foi mãe aos treze e possivelmente tenha se engravidado aos doze. O nome disso é estupro de vulnerável! Sexo com menores, sendo ou não consensual, segue sendo estupro.

Porém, nossa cultura está tão impregnada de machismo, que nem percebemos que ao aderir a este discurso, estamos reforçando-o, adubando assim o solo onde a cultura do estupro floresce. Não importa o tamanho do short que usava, nem os lugares que frequentava, ou as drogas que usava. Nada disso diminui a gravidade do crime.

Houve quem ponderasse sobre o fato de ela não haver procurado a polícia antes que o vídeo viralizasse. Ora, não sejamos cínicos. A razão é a mesma pela qual a maioria das vítimas prefere silenciar-se. Elas sabem do risco que correm de serem culpabilizadas. Por isso, a maioria sofre calada, sendo estuprada por anos a fio. E nem precisa de um ambiente promíscuo como um baile funk proibidão. A maioria é vítima dentre de sua própria casa, por membros da própria família. Outras, a caminho do trabalho ou durante o expediente. Há até quem tenha sido vítima em ambientes improváveis como igrejas. 

Como combater a cultura do estupro? Não basta garantir a punição severa dos criminosos (castração química, por exemplo). Precisamos recorrer a medidas preventivas. E isso passa pela família e pela escola. E não será reprimindo ainda mais a mulher, tornando-a duplamente vítima. Aumentar o comprimento da saia, diminuir o tamanho do decote, ou coisa parecida, são medidas paliativas que só reforçam a cultura do estupro. É como dizer que o estuprador tem razão. Que qualquer mulher vestida de maneira mais atraente está pedindo para ser estuprada. Nada mais ridículo que isso, não?

Então, o que fazer? Ensinar os meninos a respeitar a mulher desde cedo. Prepará-los para ser homens de verdade, e não sex machines. Realçar neles o sentimento de empatia. Ensinar-lhes, por exemplo, que homem também chora. Que isso não é coisa de mulherzinha. Que a mulher não é um pedaço de carne pronto para ser devorado. Ela tem sentimentos. 

Se o menino não tem contato com seus próprios sentimentos, ele não respeitará o sentimento de outros, nem mesmo de uma mulher. 

Há que se tratar o problema em suas raízes e para isso, a educação é imprescindível. Tanto no lar, quanto na escola, as crianças precisam aprender a respeitar tanto o semelhante, quanto o diferente. Daí a importância da chamada “educação para a diversidade”, tão combatida por setores religiosos fundamentalistas, por acharem que se trate de apologia velada à homossexualidade.

Algo precisa ficar bem claro: estupro não tem nada a ver com sexo ou desejo sexual. Esta vergonhosa prática tem a ver com uma relação de poder, na qual os homens, através de um processo de intimidação, mantêm as mulheres em um estado de medo permanente. 

Dizem que o maior receio de um homem ao ser preso é ser estuprado por seus colegas de cela. Quem dera soubessem que este é o maior receio da mulher o tempo inteiro. Até mesmo dentro de sua própria casa. 

Como pai de duas filhas, desejo deixar-lhes um mundo menos hostil perigoso do que aquele no qual viveram suas avós. E que meu único filho homem seja o tipo de homem que toda sogra sonha ter como genro. 

Diga não à cultura do estupro, recusando-se a ecoar discursos machistas que objetificam a mulher. Suas filhas e netas agradecerão.

domingo, outubro 04, 2020

0

O PECADO DE SODOMA

Por Hermes C. Fernandes


Por que há tanta resistência quanto à inclusão dos homossexuais nos círculos cristãos? Sem dúvida, uma das razões é a associação equivocada entre a homossexualidade e o pecado de Sodoma e Gomorra.

Proponho que examinemos fria e honestamente os textos bíblicos para sabermos exatamente do que se trata o tal pecado que, de tão grave, levou Deus a destruir aquelas cidades.  

O episódio paradigmático envolvendo os morados de Sodoma se encontra narrado em Gênesis 19:1-11.

“E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro e inclinou-se com o rosto à terra; e disse: Eis agora, meus senhores, entrai, peço-vos, em casa de vosso servo, e passai nela a noite, e lavai os vossos pés; e de madrugada vos levantareis e ireis vosso caminho. E eles disseram: Não, antes na rua passaremos a noite. E porfiou com eles muito, e vieram com ele, e entraram em sua casa; e fez-lhes banquete, e cozeu bolos sem levedura, e comeram. E antes que se deitassem, cercaram a casa, os homens daquela cidade, os homens de Sodoma, desde o moço até ao velho; todo o povo de todos os bairros. E chamaram a Ló, e disseram-lhe: Onde estão os homens que a ti vieram nesta noite? Traze-os fora a nós, para que os conheçamos. Então saiu Ló a eles à porta, e fechou a porta atrás de si, e disse: Meus irmãos, rogo-vos que não façais mal; eis aqui, duas filhas tenho, que ainda não conheceram homens; fora vo-las trarei, e fareis delas como bom for aos vossos olhos; somente nada façais a estes homens, porque por isso vieram à sombra do meu telhado. Eles, porém, disseram: Sai daí. Disseram mais: Como estrangeiro este indivíduo veio aqui habitar, e quereria ser juiz em tudo? Agora te faremos mais mal a ti do que a eles. E arremessaram-se sobre o homem, sobre Ló, e aproximaram-se para arrombar a porta. Aqueles homens porém estenderam as suas mãos e fizeram entrar a Ló consigo na casa, e fecharam a porta; e feriram de cegueira os homens que estavam à porta da casa, desde o menor até ao maior, de maneira que se cansaram para achar a porta.

Haveria no texto alguma menção à homossexualidade? A resposta é não. Seria mais honesto afirmar que o que aqueles homens se propunham a cometer era um estupro coletivo. Era a maneira de humilhá-los e dizer que os forasteiros não eram bem-vindos ali. Uma cidade próspera como a de Sodoma costumava chamar a atenção de outros povos que poderiam eventualmente invadi-las. É plausível supor que os anjos foram tidos como espiões. Estuprá-los seria como enviar um recado a quem os teria enviado.

Se tais homens fossem homossexuais, não faria qualquer sentido Ló oferecer suas próprias filhas para poupar os anjos.

Um dos princípios básicos da exegese bíblica é que a própria Bíblia deve interpretar a Bíblia. Em outras palavras, um texto obscuro deve ser examinado à luz de outros textos bíblicos.

Qual teria sido o pecado de Sodoma e Gomorra à luz de algum outro texto bíblico?

De acordo com o profeta Ezequiel, o pecado que foi a “gota d’água” que deflagrou o juízo divino sobre Sodoma e Gomorra não tinha qualquer conotação sexual. Ei-lo:

 

“Ora, foi esta a maldade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado. Elas se ensoberbeceram, e fizeram abominação diante de mim; pelo que, ao ver isso, tirei-as do seu lugar.” Ezequiel 16:49-50

Vamos enumerá-los?

·        Soberba

·        Fartura de pão (sem a disposição de reparti-lo)

·        Abundância de ociosidade

·        Nunca ter amparado o pobre e o necessitado (falta de hospitalidade)

E aí? Alguma menção à prática homossexual? Zero!

Ora, de onde, então, teria vindo tal associação? Por que Paulo inclui “sodomitas” em sua lista de quem não herdará o reino de Deus?

“Não sabeis que os injustos não hão de herdar o Reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o Reino de Deus.”1 Coríntios 6:9-10

O que ele queria dizer com “sodomitas”?

Na litas de 1 Timóteo 1:8-11 ele inclui novamente os “sodomitas.”

“Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente; sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina, conforme o evangelho da glória de Deus bem-aventurado, que me foi confiado.” 1 Timóteo 1:8-11

O termo grego arsenokoitai traduzido como “sodomita” só passou a se referir à prática homossexual a partir da Alta Idade Média. Anteriormente, era considerado um termo um tanto quanto obscuro, não encontrado em nenhuma outra literatura grega. Alguns estudiosos consideram que Paulo fez uso de um neologismo para tratar dos prostitutos cultuais que ofereciam seus préstimos sexuais em honra às divindades do panteão romano.

Pedro faz referência direta a Sodoma e Gomorra em sua segunda epístola, comparando o seu pecado com o praticado por aqueles que se locupletam da fé ingênua das pessoas por pura ganância.

“E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita. Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo; e não perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé, a oitava pessoa, o pregoeiro da justiça, ao trazer o dilúvio sobre o mundo dos ímpios; e condenou à destruição as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinza, e pondo-as para exemplo aos que vivessem impiamente; e livrou o justo Ló, enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis (Porque este justo, habitando entre eles, afligia todos os dias a sua alma justa, por isso via e ouvia sobre as suas obras injustas).” 2 Pedro 2:1-8 

À luz deste texto, podemos afirmar que sodomia é o que muitos líderes religiosos têm praticado de seus púlpitos, explorando sem nó nem piedade a credulidade do seu povo, extorquindo, cometendo assédio moral, ameaçando, e ainda por cima, em nome de Deus.

 

Provavelmente, o único texto do Novo Testamento que parece sugerir que o pecado de Sodoma e Gomorra tinha conotação sexual seja Judas 1:7:


 “Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.


Neste texto, Judas faz uma correlação entre o pecado dos habitantes de Sodoma e o pecado cometido pelos anjos registrado em Gênesis 6:


“Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram (...) Havia naqueles dias gigantes na terra (Nefilins, raça híbrida); e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama.”Gênesis 6:2-4


Tanto estes, quanto aqueles, entregaram-se à fornicação indo “após outra carne.” No caso dos anjos, deixaram-se seduzir pela beleza das mulheres, envolvendo-se sexualmente com elas. No caso dos moradores de Sodoma, intentaram estuprar coletivamente os anjos hospedados na casa de Ló. Portanto, não se trata de relação sexual entre pessoas do mesmo gênero sexual, mas entre espécies totalmente diferentes, anjos e homens.

 

Concluímos, então, que o pecado pelo qual Deus julgou a Sodoma não foi de ordem moral, mas social. O estupro coletivo proposto pelos homens era apenas uma maneira de realçar a sua suposta superioridade com relação aos forasteiros, mesmo sendo estes seres angelicais.

 

Fico-me a me perguntar se nossas igrejas não estariam incorrendo no mesmo pecado ao insistir na manutenção da exclusão dos homossexuais. Em vez de acolhê-los como Ló fez aos anjos, preferimos expulsá-los. Não seria isso uma espécie de “estupro social”?

 

Voltando a Ezequiel 16:49-50, convém reparar que aquela palavra profética veio como advertência ao povo de Jerusalém, a quem Deus se dirige como “irmã” de Sodoma. Embora aquele povo tenha se degradado moralmente, a ponto de tentar molestar os visitantes celestiais, o que mais aborreceu a Deus foram os pecados de ordem social. Talvez sua promiscuidade  fosse apenas um dos sintomas de sua degeneração.

 

Do ponto de vista material, Sodoma era uma sociedade em franca ascendência, a ponto de atrair imigrantes como Ló e sua família. Porém, da perspectiva espiritual, Sodoma era uma sociedade miserável, atolada na soberba e no egoísmo.

 

Não há nada de intrinsecamente errado em ser próspero. Não foi disso que Deus a acusou. Seu erro era não saber compartilhar com os mais pobres e necessitados. Imagino que uns poucos acumulavam a maior parte da riqueza gerada por aquela sociedade, e a maioria, soma de todas as minorias, era desprezada e excluída do bolo. Deus não poderia fazer vista grossa àquilo.

 

Nem mesmo a intercessão de Abraão foi capaz de impedir que o juízo de Deus golpeasse a arrogância de seus habitantes.

 

Sodoma e sua irmã siamesa, Gomorra, entraram para história como arquétipos de sociedades fadadas a serem consumidas pelo ardor do zelo divino.

 

Séculos se passaram, e agora Deus tratava de julgar Seu próprio povo. Jerusalém que se via como a cidade santa do grande Rei, povo exclusivo, também se degenerara e seguia a passos largos para um fim semelhante ao de Sodoma. Para que se sentisse bem consigo mesma, Jerusalém tinha como referência de iniquidade duas outras sociedades, uma separada pelo tempo e a outro pelo espaço. Sodoma já não existia há vários séculos. Era apenas uma referência histórica. Mas bem perto dali, havia outra cidade reputada pelos moradores de Jerusalém como merecedora do juízo divino. Refiro-me à Samaria, nova capital de Israel, o reino do norte. No imaginário popular, Samaria era símbolo de perversão, de impureza, de injustiça. “Não somos como eles!”, diria um judeu daquele tempo.

 

Deus, então, resolve tocar em sua maior ferida: o orgulho:

 

“Samaria não cometeu metade de teus pecados. Multiplicaste as tuas abominações mais do que elas, e justificaste a tuas irmãs, com todas as abominações que fizeste. Sofre a tua vergonha, tu que julgaste a tuas irmãs, pelos teus pecados, que cometeste mais abomináveis do que os delas; mais justas são do que tu. Envergonha-te logo também, e sofre a tua vergonha, pois justificaste a tuas irmãs.” Ezequiel 16:51-52

 

Perto de vocês, os pecados de Sodoma e Samaria são fichinhas! Vocês deveriam se envergonhar! Comparadas a vocês, elas são justas! Era exatamente isso que Deus estava dizendo.

 

Ezequiel não foi o único profeta a tocar nesta ferida. Veja o que diz Jeremias:


“Porque maior é a iniquidade da filha do meu povo do que o pecado de Sodoma, a qual foi subvertida como num momento, sem que mãos lhe tocassem.” Lamentações 4:6


Chegou ao ponto em que Jerusalém se tornou na réplica de Sodoma, ou mesmo na sua extensão. Basta dizer que em Apocalipse lemos que a cidade onde Jesus fora crucificado “espiritualmente se chama Sodoma e Egito” (Apocalipse 11:8). Triste quando nos tornamos naquilo que tanto combatemos. Como bem disse Nietzsche: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

 

Tenho a nítida impressão de que a igreja cristã deste século está incorrendo no mesmo erro dos moradores de Jerusalém. Achamo-nos tão santos, que sentimo-nos confortáveis em julgar a degradação que há no mundo, seja de ordem moral ou social. Oramos como aquele fariseu da parábola de Jesus, que ficava se comparando com o publicano que orava ao seu lado, dizendo: Não sou como ele, Senhor!

 

Paulo já havia detectado esta tendência na igreja dos coríntios, quando os repreendeu dizendo: “Geralmente se ouve que há entre vós imoralidade, e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios…” (1 Coríntios 5:1a). E aos crentes judeus em Roma, ele escreve: “Portanto, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, pois te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro, porque tu que julgas, fazes o mesmo (…) Tu, ó homem, que julgas os que fazem tais coisas, pensas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus? (…) e confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instruidor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Romanos 2:1,3,19-24).

 

Como a igreja ousa apontar as mazelas do mundo, se ela mesma tem se tornado naquilo que tanto condena? O fato de Deus insistir em fazer da igreja o cenário onde Sua glória se manifesta só complica ainda mais as coisas para ela. Não significa que Deus esteja endossando seus descaminhos.


“Diz o Senhor: Este povo se aproxima de mim com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim. O seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em coisa aprendida por rotina. Portanto continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá. Ai dos que profundamente escondem do Senhor o seu propósito, e fazem as suas obras às escuras, e dizem: Quem nos vê? E quem nos conhece? Vós a tudo perverteis!” Isaías 29:14-16ª


Quando caminhou entre os homens, Jesus escolheu Cafarnaum para morar e para ser cenário da maioria dos Seus milagres. Antes que seus moradores se sentissem melhores do que os de outras vilas, Jesus advertiu:


“E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Porém eu vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para os de Sodoma, do que para ti.” Mateus 11:23-24


É claro que isso não significa que Cafarnaum seria alvo de bolas de fogo vindas do céu, como ocorreu com Sodoma. Porém, Deus não faria vista grossa para com seus pecados. Aquela geração que presenciou tão grandes sinais seria julgada por Deus com rigor maior do que o usado para com os habitantes de Sodoma. Tal rigor também se aplicaria a qualquer sociedade que, em tendo a oportunidade de ouvir a verdade do Evangelho, recusasse-a deliberadamente. Veja a advertência que Jesus faz ao comissionar Seus discípulos:

 

“Quando entrardes numa cidade, e vos receberem, comei do que vos oferecerem. Curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: É chegado a vós o reino de Deus. Mas quando entrardes numa cidade, e não vos receberem, saindo por suas ruas, dizei: Até o pó que da vossa cidade se nos pegou sacudimos sobre vós. Sabei, contudo, que já o reino de Deus é chegado a vós. Digo-vos que mais tolerância haverá naquele dia para Sodoma do que para aquela cidade.” Lucas 10:8-12

 

Cada geração e cada sociedade serão avaliadas de acordo com a oportunidade que houver recebido e o nível de conhecimento que houver alcançado. Este princípio está claro nas palavras do próprio Cristo: “A qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou muito mais se lhe pedirá” (Lucas 12:48b). Portanto, espera-se de nós bem mais do que se esperava de nossos avós. Em plena era da informação, com todo o avanço científico que temos experimentado, somos indesculpáveis. Qualquer preconceito verificado em gerações anteriores pode ser justificado na falta de conhecimento. Mas este, definitivamente, não é o nosso caso.

 

Em Lucas 11:32, Jesus admoesta àquela geração, comparando sua postura ante àquilo que havia recebido, com a postura dos ninivitas contemporâneos de Jonas: “Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração, e a condenarão; pois se converteram com a pregação de Jonas, e aqui está quem é maior do que Jonas.” Portanto, não somos melhores por aquilo que recebemos, porém, seremos mais cobrados por isso. No dia do juízo, quando Cristo assentar-se para julgar os homens, todas as gerações convergirão diante d’Ele para prestar-Lhe contas. O que temos feito com aquilo que temos recebido?

 

Antes de apontar o dedo para os que se acham ‘fora da igreja’, como se fôssemos melhores do que eles, lembremo-nos de que o juízo de Deus começa pela Sua própria casa (1 Pedro 4:17). Diante da luz, nossa pretensa santidade será exposta. Nossa vaidade sucumbirá. Nossos argumentos serão calados.

 

O que nos torna piores do que aqueles que julgamos ser os remanescentes de Sodoma é justamente o fato de não nos importamos com eles. Para muitos de nós, só haveria esperança caso um deles se tornassem um de nós. Que presunção a nossa, não?

 

Reduzimos o evangelho a uma uniformização comportamental. Transformamos a boa nova em um amontoado de regras. E assim, vacinamos o mundo contra a sua única esperança.

 

Há esperança para Sodoma?

 

Ora, se Sodoma tornou-se arquétipo da sociedade humana como um todo, em franca decadência moral, ética e social, haveria alguma esperança para ela?

 

Em Judas 1:7 lemos que Sodoma e Gomorra “foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.” Seria isso sinônimo de total desesperança? Como apagar um fogo eterno? Como impedir que toda uma sociedade seja consumida por ele? Haveria alguma esperança para os habitantes de Sodoma?

 

Primeiro, precisamos descobrir a natureza deste “fogo”. Não se trata de fogo literal, pois se fosse, ainda veríamos a fumaça de Sodoma e Gomorra. “Fogo” é uma metáfora para a ira justa de Deus contra a iniquidade. Particularmente, prefiro referir-me a isso como a indignação divina contra a injustiça. Este furor não visa aniquilar, mas purificar. Quando diz que o fogo é eterno não está se referindo à duração de suas chamas, mas à duração de seu efeito. O sábio pregador de Eclesiastes afirma que “tudo quanto Deus faz durará eternamente” (Eclesiastes 3:14). Nada que tenha sua origem em Deus foi feito para acabar. O fogo é eterno porque tem sua origem em Deus, e seus efeitos são irreversíveis.

 

Isso, porém, não significa que a ira de Deus permaneça sobre alguém ou sobre uma sociedade eternamente. O salmista declara veementemente: “Porque a sua ira dura só um momento” (Salmos 30:5). Em contrapartida, “a sua misericórdia dura para sempre” (Salmos 106:1). Também lemos que “compassivo e piedoso é o Senhor, lento para a cólera, e abundante em amor. Não repreenderá perpetuamente, nem para sempre conservará a sua ira” (Salmos 103:8-9). Às vezes parece que temos pregado o oposto disso, como se a ira de Deus durasse para sempre, enquanto que a Sua misericórdia abrangesse apenas um curto espaço de tempo.

 

Como, então, podemos explicar algumas passagens como as que se seguem?

 

“E outra vez disseram: Aleluia! E a fumaça dela sobe para todo o sempre” (Apocalipse 19:3). Esta passagem fala do juízo que desceria sobre a Grande Babilônia, nome pelo qual Jerusalém é conhecida no livro de Apocalipse. No ano 70 d.C. a cidade foi sitiada, invadida e incendiada pelo romanos. Dizer que sua fumaça subiria para sempre é uma hipérbole que visa enfatizar o fim dramático que teria a cidade que rejeitara a paz oferecida por Jesus. Não se pode fazer uma leitura literal do texto. Se assim fosse, ainda veríamos a fumaça enegrecendo os céus da Palestina.

 

Noutra passagem encontrada no livro de Isaías, lemos: “Nem de noite nem de dia se apagará; para sempre a sua fumaça subirá; de geração em geração será assolada; pelos séculos dos séculos ninguém passará por ela” (Isaías 34:10). Neste texto em particular, Deus adverte às nações inimigas de Israel, entre elas, Edom. É dito que seus ribeiros se transformariam em piche, e o seu pó em enxofre (v.9). Mais uma vez estamos diante de uma hipérbole, figura de linguagem fartamente encontrada nas profecias, sobretudo, na literatura apocalíptica dos judeus.

 

O próprio Jesus fez uso desta linguagem, tão familiar aos Seus contemporâneos. Ele diz: “Vim lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está aceso?” (Lucas 12:49). Seria até cômico fazer uma leitura literal aqui. Imagine: Jesus, um incendiário!

 

Mesmo o juízo traz em seu bojo a misericórdia divina. Não confundamos “ira” com “ódio”, que é o oposto de amor. Mesmo que esteja irado devido à injustiça que temos praticado, Ele jamais deixou de nos amar. Ira tem a ver com a reação de Deus ante a injustiça. Amor tem a ver com Sua essência. Uma coisa é o que Deus sente, outra o que Ele é. Deus não é ira. Deus é Amor!

 

Nenhuma sociedade está irremediavelmente perdida. Nem mesmo Sodoma, seja a de ontem, ou a de hoje. 

 

Retornando à primeira passagem que consideramos nesta reflexão, encontramos uma inusitada promessa:


Todavia, farei voltar os cativos delas; os cativos de Sodoma e suas filhas, os cativos de Samaria e suas filhas, e os cativos do teu exílio entre elas, para que sofras a tua vergonha, e sejas envergonhada por tudo o que fizeste, dando-lhes tu consolação. Quando tuas irmãs, Sodoma e suas filhas, tornarem ao seu primeiro estado, e Samaria e suas filhas tornarem ao seu primeiro estado, também e tuas filhas tornareis ao vosso primeiro estado. Nem mesmo Sodoma, tua irmã, foi mencionada pela tua boca, no dia das tuas soberbas.” Ezequiel 16:53-56


Quem diria que um dia até Sodoma seria restaurada, voltando ao seu primeiro estado? A execução da ira divina tem seu papel redentivo. Mas quem tem a última palavra é sempre a misericórdia. Por isso Tiago declara: “A misericórdia triunfa sobre o juízo!” (Tiago 2:13b).

terça-feira, setembro 22, 2020

0

A FALÁCIA DA CRISTOFOBIA

Por Hermes C. Fernandes 

Não existe Cristofobia, à despeito do que disse Bolsonaro no discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU. Nem os escândalos perpetrados pela cristandade ao longo da história conseguiram macular a imagem de Jesus. Mesmo as culturas mais hostis ao cristianismo nutrem um profundo respeito pela figura de Cristo. Até ateístas admitem o alto nível da ética proposta em seus ensinamentos. Pergunte a um umbandista, a um candomblecista, ou mesmo a um muçulmano, o que ele pensa acerca de Jesus. Faça a mesma pergunta a um ativista LGBTQ+. Apesar de nós, cristãos, Jesus segue impoluto.

Gandhi, um dos maiores pacifistas de todos os tempos, embora hindu, considerava-se um profundo admirador de Cristo. Em uma de suas contundentes declarações acerca da religião cristã, o Mahatma ‌confessou: “Não conheço ninguém que tenha feito mais para a humanidade do que Jesus. E fato, não há nada de errado no cristianismo. O problema são vocês, cristãos. Vocês nem começaram a viver segundo os seus próprios ensinamentos.”

A reação da sociedade aos abusos feitos em nome de Jesus está mais para uma justificável gospelfobia. Como não ser gospelfóbico diante de uma bancada evangélica que se associa ao que há de mais retrógrado, fisiologista e corrupto na política brasileira? Como não ser gospelfóbico ante o discurso fundamentalista que se recusa a reconhecer qualquer tipo de família que não se ajuste aos moldes tradicionais?

Como não ser gospelfóbico diante dos exorbitantes cachês cobrados por cantores gospel? Como não ser gospelfóbico quando pastores figuram na lista da revista Forbes? Como não ser gospelfóbico com os frequentes boicotes a produtos, lojas e novelas propostos por figuras proeminentes do mundo evangélico? Eu poderia citar muitas outras razões, mas prefiro não me estender.

Pedro, o apóstolo, já havia nos deixado de sobreaviso, que assim como houve no passado “falsos profetas”, haveria também entre nós “falsos mestres” e que muitos seguiriam as suas dissoluções, e por causa deles seria blasfemado o caminho da verdade (razão pela qual temos sido motivo de chacota e piadinhas), e que, “movidos pela ganância, e com palavras fingidas” os tais fariam de nós negócio (2 Pedro 2:1-3). Nada mais atual, não?

E agora veem com esta estória de Cristofobia? Hipócritas! Negociam o tempo inteiro em nome da fé, exploram o sofrimento alheio, boicotam qualquer avanço social, destilam ódio e preconceito em seus discursos, sempre ávidos pelo poder temporal, e agora posam de coitados, perseguidos, injustiçados?

Se verdadeiramente sofressem por amor a Cristo e ao Evangelho, se sentiriam tão contentes quanto os primeiros cristãos, pois se lembrariam das célebres palavras do Mestre: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Regozijai-vos e alegrai-vos, porque grande é o vosso galardão nos céus, pois assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós” (Mateus 5:10-12).

Repare nisso: o sofrimento advindo da perseguição só deveria ser motivo de alegria quando se desse “por causa da justiça” e “por minha causa” (Jesus). Portanto, qualquer um que seja perseguido por defender o que é justo está incluído aí. Isso inclui até os segmentos aos quais muitos cristãos se opõem, entre os quais, homossexuais, transexuais, feministas, como também negros, índios e outras minorias.

Os seguidores de Jesus deveriam se solidarizar com qualquer grupo que sofra perseguições “por causa da justiça”. Em vez de sair por aí em defesa própria, propondo um dia de combate à Cristofobia, um discípulo genuíno do nazareno deveria engajar-se na luta contra todo tipo de discriminação, reforçando o coro dos que clamam por justiça.

Em vez de propor uma reação conjunta contra a perseguição deflagrada durante os primórdios do cristianismo, o mesmo apóstolo que denuncia os falsos mestres que negociavam em nome da fé, preferiu consolar os cristãos perseguidos:

“Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo (…) Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem.” 1 Pedro 4:12-16

De acordo com a passagem acima, não há nada de extraordinário em sofrer por sua fé. Não se trata de diminuir sua importância, mas de igualá-lo a qualquer outro sofrimento humano. Pouco depois, na mesma epístola, o apóstolo diz: “sabendo que os mesmos sofrimentos estão se cumprindo nos vossos irmãos que estão no mundo” (1 Pedro 5:9).

Qualquer sofrimento humano é computado como sendo impingido ao próprio Cristo. Por isso, Pedro fala sobre ser “co-participantes dos sofrimentos de Cristo”. Não é em vão que Jesus disse que os critérios pelos quais seremos julgados por Deus é a maneira como lidamos com o sofrimento do nosso próximo. Os que receberem por herança o reino preparado antes da fundação do mundo ouvirão: “Pois tive fome, e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me recolhestes; estava nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; preso e viestes me ver.” Quando perguntarem quando teriam feito tais coisas, Cristo lhes responderá: “Quando o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mateus 25:34-40).

Portanto, posicionar-se pelos direitos humanos e trabalhar para atenuar o sofrimento de quem quer que seja é estender as mãos ao próprio Deus. Opor-se a isso, sem sombra de dúvida, é opor-se à agenda divina.

Se sofrer pelo o que é justo deve ser motivo de celebração, sofrer por causa de uma postura antiética e desumana deveria ser motivo de vergonha. Daí, a admoestação apostólica: “Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem.” Pode até ser que não haja entre os que se professam cristãos quem seja assassino, ladrão ou malfeitor, mas certamente o que mais há é quem se intrometa na vida alheia, impondo sua moral, seus costumes e valores, bem como sua agenda política.

quarta-feira, setembro 16, 2020

0

POR QUE HÁ PESSOAS COM DEFICIÊNCIA?



Por Hermes C. Fernandes

Sou pai de uma linda menina com deficiência. Rayane, hoje com vinte e nove anos, sofreu uma lesão cerebral ocasionada pela falta de oxigenação na hora do parto, afetando tanto a fala, quanto o desenvolvimento motor e cognitivo. Graças a uma intervenção divina, ela veio andar aos seis anos, contrariando o prognóstico médico. Sinto-me privilegiado por ter sido escolhido por Deus para ser pai de este ser maravilhoso que tanto me tem ensinado acerca do amor e da força de vontade em superar limites. Definitivamente, eu não seria o mesmo sem Rayane.

Pesquisando pela internet, percebo quão raro é encontrar literatura cristã tratando do assunto. Seria este um tabu entre os cristãos? Quantas mensagens já ouvimos sobre o tema em nossos púlpitos? Por que outras tradições religiosas como o espiritismo kardecista se debruçam sobre ele sem qualquer recato, enquanto as igrejas preferem varrê-lo para debaixo do tapete?

Pior do que ignorar é oferecer respostas carregadas de preconceitos e pressupostos simplistas. Enquanto uns preferem espiritualizar a questão, outros preferem fazer uma leitura moralista, como se a pessoa com deficiência fosse um castigo divino aos erros de seus progenitores.

O que as Escrituras têm a nos dizer?

Começando pelo Antigo Testamento, a primeira coisa que percebemos são as restrições à participação de pessoas com deficiência física ou mental em atividades sacerdotais. Para alguns, fica a impressão de que o Deus dos hebreus não tem qualquer apreço por estas criaturinhas indefesas. Veja, por exemplo, o que diz Levítico 21:16-24:

“Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo: Fala a Arão, dizendo: Ninguém da tua descendência, nas suas gerações, em que houver algum defeito, se chegará a oferecer o pão do seu Deus. Pois nenhum homem em quem houver alguma deformidade se chegará; como homem cego, ou coxo, ou de nariz chato, ou de membros demasiadamente compridos, ou homem que tiver quebrado o pé, ou a mão quebrada, ou corcunda, ou anão, ou que tiver defeito no olho, ou sarna, ou impigem, ou que tiver testículo mutilado. Nenhum homem da descendência de Arão, o sacerdote, em quem houver alguma deformidade, se chegará para oferecer as ofertas queimadas do Senhor; defeito nele há; não se chegará para oferecer o pão do seu Deus. Ele comerá do pão do seu Deus, tanto do santíssimo como do santo. Porém até ao véu não entrará, nem se chegará ao altar, porquanto defeito há nele, para que não profane os meus santuários; porque eu sou o Senhor que os santifico. E Moisés falou isto a Arão e a seus filhos, e a todos os filhos de Israel.”

O que será que Deus teria contra esses indivíduos? Por que os proibiu de ser sacerdotes? Seria este um juízo moral?

Alguns exegetas afirmam que a perfeição física exigida aos sumo-sacerdotes apontaria para a perfeição moral de Cristo, o Sumo-Sacerdote da Nova Aliança. Uma vez que, segundo Paulo, a Lei continha a sombra de uma realidade que só se revelaria sob os auspícios da Nova Aliança, há de se supor que tal interpretação possa estar correta. Porém, não encerra toda a verdade.

Primeiro, devemos ressaltar que estas regras só se aplicavam ao cargo de Sumo Sacerdote. Somente ele poderia atravessar o véu e se achegar ao altar para oferecer o sacrifício. Àquela época, ninguém se tornava sacerdote por escolha própria. Apenas os descendentes de sacerdotes podiam exercer o sagrado ofício. Portanto, independente de sua condição física, um descendente de Arão era alçado à posição sacerdotal. Todavia, se possuísse qualquer deficiência física ou mental, não poderia ser um Sumo Sacerdote. Um anão, por exemplo, não conseguiria abater um animal oferecido em sacrifício, nem tampouco alcançaria as hastes da Menorah que media mais de três metros de altura para acender as luzes do lugar santo, atividades que ele deveria exercer sem apelar para ajuda de ninguém. Imagine agora um sacerdote coxo tendo que ficar de pé entre sete e catorze horas encabeçando o ritual de abatimento de animais. E como um cego poderia identificar as veias certas do animal a ser degolado, evitando um sofrimento desnecessário? Como alguém com defasagem intelectual poderia julgar os delitos cometidos pelas pessoas?

Portanto, tais regras não visavam excluir as pessoas com deficiência, mas poupá-las de um trabalho para o qual não estavam habilitados devido à sua condição.

Ninguém, em sã consciência, confiaria a um cego a direção de um carro. Porém, isso jamais deveria ser pretexto para que subestimássemos a capacidade de pessoas com deficiência. Se não podem exercer uma ou outra atividade, certamente são plenamente capazes de tantas outras. Alguns chegam mesmo a nos surpreender, desenvolvendo habilidades notáveis.

Em todas as sociedades, tais indivíduos sempre foram alvo de preconceito. Em algumas delas, como a grega, apesar de seu avanço no campo da filosofia e das artes, as pessoas com deficiência eram descartados assim que nasciam, por serem consideradas um peso extra. Se não pudessem lutar pela cidade numa eventual invasão inimiga, logo, não tinham o direito de viver.
Basta uma olhada mais atenciosa no Antigo Testamento para verificar que, graças às instruções contidas na lei, o povo hebreu experimentou um avanço na compreensão da dignidade que deveria ser atribuída ao deficiente. O respeito com que deveriam tratar as pessoas com deficiência revelaria o grau de temor e reverência que tinham para com Deus. Repare a ênfase do mandamento:

“Não amaldiçoes o surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor.” Levítico 19:14

Era como se Deus dissesse: Quem mexer com eles vai se ver comigo! Ainda que o surdo jamais ouça os xingamentos e maldições lançados sobre ele, nem o cego veja o tropeço posto em seu caminho, Deus toma tais ofensas como se dirigidas a Ele próprio. Como todo mandamento, há sanções aplicadas àqueles que desrespeitam a pessoa com deficiência: “Maldito quem desviar o cego do seu caminho” (Dt.27:18).

É característica do justo tratar bem a pessoa com deficiência. Por isso, Jó declara, ao relembrar de seus tempos áureos, que costumava ser “os olhos do cego e os pés do coxo” (Jó 29:15), o que evidenciava a pureza de seu caráter.

Apesar dos avanços patrocinados pela lei entregue por Deus a Moisés, ainda restava um ranço de preconceito contra as pessoas com deficiência entre os hebreus. Prova disso é o injustificável ódio que Davi nutria contra esses indivíduos durante uma fase de sua vida. Tente não sentir-se constrangido diante do relato abaixo:

“Em Hebrom reinou sobre Judá sete anos e seis meses, e em Jerusalém reinou trinta e três anos sobre todo o Israel e Judá. E partiu o rei com os seus homens a Jerusalém, contra os jebuseus que habitavam naquela terra; e falaram a Davi, dizendo: Não entrarás aqui, pois os cegos e os coxos te repelirão, querendo dizer: Não entrará Davi aqui. Porém Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de Davi. Porque Davi disse naquele dia: Qualquer que ferir aos jebuseus, suba ao canal e fira aos coxos e aos cegos, a quem a alma de Davi odeia. Por isso se diz: Nem cego nem coxo entrará nesta casa.” 2 Samuel 5:5-8

Como alguém dotado de sensibilidade ímpar como Davi seria capaz de odiar indivíduos indefesos? Que bom que, como todo ser humano, Davi teve a oportunidade de rever sua postura extremamente preconceituosa. Tanto que ao tomar conhecimento da existência de um filho com deficiência de seu saudoso amigo Jônatas, mandou buscá-lo em casa e o constituiu príncipe em seu reino. Davi sustentou a Mefibosete até o fim de sua vida, mesmo sendo neto de seu arquirrival Saul (2 Sm.9:13).

Davi jamais poderia imaginar que séculos depois, um deficiente visual que mendigava à margem da estrada foi o primeiro a enxergar o que ninguém parecia ter notado: Aquele jovem galileu que arrastava multidões por onde andava era ninguém menos que o Descendente prometido por Deus a Davi e que assumiria seu trono para sempre.

É um consolo ler que as Escrituras buscam resgatar o valor da pessoa com deficiência. Porém, isso não responde a mais das intrigantes perguntas: por que há pessoas com deficiência?

Esta pergunta também intrigava os discípulos de Jesus. O que os levou a perguntar a razão pela qual um homem era cego desde que nascera. Ecoando crenças difundidas entre os judeus, indagaram a Jesus se sua cegueira teria sido causada por seus próprios pecados ou pelos pecados cometidos por seus pais. Sem titubeios, Jesus lhes respondeu: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo.9:3).

A crença articulada pelos discípulos atribuía qualquer deficiência física ou mental congênita ao pecado, quer por parte do próprio portador (talvez numa vida anterior), ou por parte dos seus progenitores (neste caso, a deficiência seria uma espécie de maldição hereditária). Jesus desfere um golpe neste tipo de raciocínio raso e perverso. A graça por Ele revelada subverte a lógica do carma.

Em vez de um juízo moral, Jesus prefere enxergar naquela deficiência a oportunidade para a manifestação das obras de Deus.

Ora, que “obras” Deus poderia manifestar ao mundo através desses indivíduos? Nesse caso em particular, Jesus restaurou-lhe a visão. Será que tais obras se limitariam à realização de milagres? Caso seja, então, por que nem todos os cegos são curados? Por que a maioria das pessoas com deficiência segue em sua débil condição mesmo depois de conhecer o amor de Cristo revelado no Evangelho?

São questões inquietantes, responsáveis pela postura equivocada adotada por muitas igrejas. Se o milagre não acontece, logo, conclui-se que a glória de Deus não se manifestou, restando-lhe uma alternativa: atribuir aquela condição à falta de fé do indivíduo ou daquele que intercedeu. Para eles, a glória de Deus só se manifesta se o paralítico saltar da cadeira de rodas e sair andando, se o mudo soltar a língua e falar, se o surdo ouvir perfeitamente e o cego puder descrever a aparência do pregador. É lamentável ver quantos destes deficientes já foram vítimas de todo tipo de sensacionalismo por parte dos que se apresentam ao mundo como a solução de todos os problemas.

Recentemente deparei-me com um anúncio publicado no facebook em que um autodenominado apóstolo se apresenta como ex-síndrome de down, que teria ido ao inferno sete vezes e morrido cinco vezes. Como se não bastasse, o sujeito cobra uma considerável quantia em dinheiro para assistir às suas palestras e receber sua oração. É este tipo de coisa que atenta contra a credibilidade da igreja atual. Quanta esperança falsa está sendo alimentada no coração dos incautos? Espero que da próxima vez que ele for ao inferno, ele fique por lá. Mas parece que nem o diabo caiu no seu conto e resolveu devolvê-lo com casca e tudo. Perdoem-me o sarcasmo. Mas só assim para aturar este tipo de coisa sem dizer impropérios. Ele deveria estar na cadeia.

Que Jesus segue curando, não tenho a menor dúvida. Minha filha é uma prova disso. Desenganada pela medicina, ela passou a andar em pleno culto dominical, sem que ninguém mandasse. Porém, ela não deixou de ser uma pessoa com deficiência. Todavia, as obras de Deus não se manifestam nestes indivíduos apenas através de um eventual milagre.

Vejamos, por exemplo, o caso de Mefibosete. Este era paraplégico. Não de nascença, mas por causa de uma queda sofrida quando ainda era um bebê. Que “obra” Deus manifestou ao mundo através dele? Que milagre o Senhor teria feito? Nele, nenhum. Pelo menos, não um milagre físico e aparente. Mas através dele, Deus operou um grande milagre no coração de Davi. Como vimos algumas linhas acima, Davi odiava “cegos e coxos”. Para que pudesse ser, de fato, um homem segundo o coração de Deus, Davi teria que aprender a amar o que Deus ama, sem jamais desprezar o que Deus não despreza. Convidar a Mefibosete para que ocupasse lugar de honra em seu reino foi um enorme salto na vida de Davi. Ouso dizer que o preconceito que teve que vencer em si mesmo foi um gigante muito maior do que Golias.

Portanto, concluo que as pessoas com deficiência são canais através dos quais a graça de Deus nos é ministrada. A maneira como lidam com suas limitações nos enternece o coração e nos desafia a enfrentar nossos próprios limites.

Vejamos, ainda, o caso de Moisés.

“Então disse Moisés ao SENHOR: Ah, meu Senhor! eu não sou homem eloquente, nem de ontem nem de anteontem, nem ainda desde que tens falado ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua. E disse-lhe o SENHOR: Quem fez a boca do homem? ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o SENHOR? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar.” Êxodo 4:10-12

Já ouvi argumentos afirmando que Deus não seria responsável pelo nascimento de pessoas com deficiência. Porém, nesta passagem, Deus toma para Si a responsabilidade. Foi Ele quem as criou, e as fez com um propósito.

Não sabemos ao certo qual seria a deficiência de Moisés. Cogita-se que ele fosse gago. Ainda assim não sabemos se sua “gagueira” teria origem emocional ou neurológica. Mas Deus o envia ao homem mais poderoso da Terra, a fim de confrontá-lo e libertar Seu povo da escravidão.

Ele faz uso de pessoas com deficiência, seja física ou mental, para dar exemplo de vida para quem aparentemente é saudável (Leia 1 Co.1:25-29). Quantos exemplos de pessoas que mudaram radicalmente sua postura, depois de ver ou ouvir testemunhos de superação de pessoas com algum tipo de deficiência. Emocionamo-nos quando percebemos o legado de pessoas como Stephen Hawking, o famoso físico que do alto de sua cadeira de rodas ocupa a cátedra que um dia foi ocupada por ninguém menos que Isaac Newton. Emocionamo-nos quando tomamos ciência de que algumas das mais lindas sinfonias foram compostas por um deficiente auditivo. Refiro-me a ninguém menos que Ludwig Van Beethoven.

A pior deficiência não é a de ordem física ou mental, mas a de caráter que se manifesta principalmente através do preconceito.

Consola-nos saber que tais deficiências não se constituem numa sentença irrevogável. Nossas limitações, sejam quais forem, são temporárias. Paulo diz em 1 Coríntios 15:53 que “é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade.” Um dia, quando Cristo despontar no horizonte celeste, os deficientes serão plenamente restaurados. “Então os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão. Então os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará; porque águas arrebentarão no deserto e ribeiros no ermo. E a terra seca se tornará em lagos, e a terra sedenta em mananciais de águas; e nas habitações em que jaziam os chacais haverá erva com canas e juncos. E ali haverá uma estrada, um caminho, que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para aqueles; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão” (Isaías 35:5-8).

Enquanto não chega este dia, convém-nos lutar pelos direitos da pessoa com qualquer deficiência, sem subestimar seu potencial de superação, mas também respeitando suas limitações sem jamais nos esquecer de nossas próprias.

Se você tem um destes seres especiais em sua casa, sinta-se um privilegiado. Deus só dá pessoas especiais para famílias especiais. Trate-os, não apenas como portadores de necessidades especiais, mas como portadores de uma mensagem do céu para você, sua família e toda a humanidade.