sexta-feira, dezembro 02, 2016

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Precisamos falar francamente sobre aborto


Por Hermes C. Fernandes

Pelo amor de Deus! Quem em sã consciência seria a favor do aborto? Só um ser desprovido de sentimento seria  a favor que se interrompesse a gestação de um ser indefeso. Mas quem em sã consciência seria a favor de que mulheres pobres, desesperadas, vítimas de estupro, fossem penalizadas por não quererem dar prosseguimento a uma gravidez? Quem em são consciência preferiria que tais mulheres morressem em clínicas clandestinas ou fossem tratadas como criminosas? 

Não é preciso ser a favor do aborto para admitir que sua criminalização só faz aumentar o lucro exorbitante dos carniceiros que agem na penumbra, locupletando-se do desespero de muitas meninas. Se uma delas me procura em busca de ajuda, meu conselho é que não aborte. Mas caso o faça, não serei eu a condená-la.  Além da morte de um ser que não tem culpa de vir ao mundo, o aborto é uma agressão ao corpo da mulher e, geralmente, deixa sequelas, sobretudo, emocionais, dentre as quais, a síndrome pós-abortiva.

E por favor, vamos evitar clichês e argumentos rasos. A questão não é se há vida em Marte (bactéria é vida e ninguém se sente culpado de exterminá-la). A questão é se há algum nível de consciência no feto. Há vida em cada espermatozoide e ninguém é acusado de ter cometido um genocídio depois de masturbar-se ou interromper um coito.

Genocídio é o que tem acontecido em milhares de clínicas clandestinas ao redor do mundo. Segundo a ONU, pelo menos 70 mil mulheres perdem a vida anualmente em consequência de abortos realizados em condições precárias (fonte aqui).

Agora preste atenção num dado importantíssimo: Em janeiro de 2012 uma pesquisa realizada pela Organização Mundial de Saúde revelou que a prática do aborto é maior nos países em que ele é proibido e quase metade de todos os abortos feitos no mundo é realizada com altos riscos para a mulher. Entre 2003 e 2008, cerca de 47 mil mulheres morreram e outros 8,5 milhões tiveram consequências graves na sua saúde, decorrentes da prática do aborto (fonte aqui).

A criminalização do aborto NÃO REDUZ o número de abortos. Se o aborto é descriminalizado, ou mesmo legalizado, o número de abortos NÃO AUMENTA. 

Sabe aqueles abortos feitos no banheiro, com agulha de tricô, cabide, e galhos? Eles causam a morte de pessoas, tanto da criança, quanto da mãe. Abortos com médicos incapacitados e mal equipados, em condições extremas, matam pessoas. Rasgos uterinos e perfuração de órgãos causados pelas agulhas de tricô e cabides usados provocam hemorragia interna, infecções, esterilização e mortes de pessoas.  

A equação é simples. O aborto ilegal e inseguro mata pessoas. Digo, pessoas além do número X de fetos que já iriam morrer (estatisticamente). Então, se o aborto é legal e seguro, X fetos morrerão, nem mais, nem menos. Em contrapartida, se o aborto é ilegal e inseguro, X fetos continuarão morrendo, mais um número Y de pessoas que morrerão pelas consequências de terem tentado fazer um aborto sem a mínima condição de higiene e salubridade. Sejamos sinceros: qual opção salva mais vida? Ou ainda: Qual opção mata menos?

Eu reconheço que a equação é simples, mas a questão é complexíssima. 

Dizer tudo isso não significa ser a favor do aborto. É tão-somente buscar atenuar um problema sério que já existe e não pode ser varrido para debaixo do tapete.

A recente decisão do STF que descriminaliza o aborto até a 12.ª semana de gravidez está pautada em argumentos sobre os quais precisamos refletir antes de sair por aí emitindo opiniões ou simplesmente nos omitindo.

Os atributos que nos caracterizam como humanos não são ter um rim funcionando, nem um coração batendo, mas ter um cérebro em atividade. Isto é razoavelmente estabelecido porque é a morte cerebral que é considerada o critério para dizer quando uma pessoa morreu, e não a falência de outros órgãos.

Se a morte do cérebro é o critério médico que o Estado aceita para considerar o indivíduo humano como morto, o início do cérebro deveria ser o critério para considerar o início do indivíduo, e não a fecundação.

O cérebro não tem sua arquitetura básica formada no mínimo até o terceiro mês da gestação. Isso significa que o embrião não percebe o mundo, não tem consciência, é um conjunto de células como qualquer pedaço de pele. Partindo desta premissa, podemos inferir que não é moralmente condenável que as mães tenham direito de escolher não continuar a gestação antes deste período (obviamente, que tal decisão não deveria ser por motivos banais, como defende Edir Macedo em um dos seus vídeos, alegando que o aborto deveria ser aceito como um método de planejamento familiar).

Argumentar que o embrião tem o potencial de dar origem a um ser humano não vale, pois seria como tentar proteger os óvulos que se perdem logo antes das menstruações em todas as mulheres, ou os espermatozoides que são descartados na masturbação masculina, na polução noturna ou no coito interrompido. Além disso, hoje a ciência sabe que toda célula humana, até as células da pele, tem o potencial de dar origem a um ser humano inteiro, bastando para isso alguns procedimentos de clonagem.

A vida, em sentido mais amplo, que inclui os outros animais, as plantas e até os microorganismos, é um processo ininterrupto que começou neste planeta há aproximadamente 4 bilhões de anos. Por isso é importante reiterar: não é o início da vida que está em debate aqui, e sim o começo do indivíduo humano como ser consciente, dotado de uma mente e, portanto, apto a receber a proteção do Estado.

Permitam-me repetir: Ser a favor da legalização do aborto não é ser necessariamente a favor do aborto. Sou e sempre serei contra o aborto. Mas também sou e sempre serei contra a hipocrisia com que tratamos temas morais como este, fazendo vista grossa a milhares e milhares de mulheres que perdem suas vidas ou são tratadas como criminosas por interromperem uma gestação indesejada.

Independentemente de nossa postura com relação ao tema, sugiro que nos disponibilizemos para prestar atendimento às vítimas de estupro e às futuras mães de crianças anencéfalas para aconselhá-las e acolhê-las, bem como ajudá-las a enfrentar o desafio que terão pela frente. Respeito opiniões divergente, mas sei que parte de vocês não respeitará à minha e ainda a usará para me desqualificar. Tudo bem. Não se pode agradar a todos.

Levando a questão para o lado teológico, o que a Bíblia diz sobre o odioso procedimento? Haveria algum mandamento específico acerca do aborto? Ou deveríamos incluí-lo no "não matarás"? O fato é que existe sim um mandamento sobre o aborto. Pena que poucos se atentem para ele.

O que você acharia de uma lei que penalizasse com a morte a quem matasse uma grávida, mas aplicasse apenas uma multa a quem provocasse um aborto? Seria vida da mãe mais valiosa do que a do feto? Pois é justamente isso que diz o único mandamento bíblico sobre o aborto.

Em Êxodo 21:22-23 lemos que se alguns homens pelejarem "e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, porém não havendo outro dano, certamente será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher e julgarem os juízes. Mas se houver morte, então darás vida por vida." Repare nisso: por mais embaraçoso que isso nos soe, o aborto é tratado como dano cuja penalidade não passa de uma multa. A única morte considerada no texto é a da mãe. Neste caso, valeria a lei de talião: olho por olho, dente por dente, vida por vida. Se a vida do feto tivesse a mesma importância que a da mãe, a penalidade seria a mesma. À luz deste texto em particular, não faz sentido classificar um aborto como homicídio (principalmente até o terceiro mês), penalizando as mulheres que o praticam como criminosas.

Abaixo, minha resposta ao bispo Edir Macedo acerca de sua defesa do aborto como método de planejamento familiar:


quarta-feira, novembro 23, 2016

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Por que a Black Friday se tornou em Black Fraude no Brasil?



Por Hermes C. Fernandes

Costumo ser bem crítico à qualquer tentativa de se importar certos modismos, principalmente quando se trata dos enlatados "made in USA". Mas isso não me impede de reconhecer tanto virtudes, quanto vicissitudes da cultura americana. Não acho, por exemplo, que tenhamos necessidade de importar uma festa popular como Halloween, já que temos uma cultura tão rica. Porém, não vejo razão para demonizarmos a festa.

Jamais poderia supor que o Brasil aderiria à onda do Black Friday. Participei algumas vezes durante o período em que morei nos EUA com minha família e achei que seria ótimo se tivéssemos algo parecido em nosso país. Sempre na sexta-feira após o Dia de Ação de Graças, as pessoas madrugam nas filas intermináveis das lojas, num frio que costuma estar abaixo de zero. Apesar disso, todo esforço é recompensado. Os preços realmente despencam. 

Aderimos ao Black Friday, mas não aderimos ao Dia de Ação de Graças. Pode até parecer que isso não tenha nada a ver, mas tem. Sem a ética preconizada pela gratidão, a Black Friday pode vir a ser uma Black Fraude, como estamos vendo no Brasil.

Dias antes, o comércio aumenta sensivelmente os preços dos seus produtos, para depois anunciar descontos de até 70%. O problema é que o aumento dado antes costuma ser superior ou pelo menos igual ao desconto anunciado. Isso é fraude!

Falta-nos a ética da gratidão, e os escrúpulos que esta ética produz em nosso caráter. 

Isso nos remete à parábola contada por Jesus em que certo rei convocou seus servos para um acerto de contas. Um deles lhe devia dez mil talentos, porém, não tinha como pagar. O rei, então, requereu como pagamento de sua dívida, sua mulher e filhos. Desesperado, o homem prostrou-se e rogou que o rei fosse generoso para com ele e lhe desse mais prazo para quitar sua dívida. Movido de compaixão, o rei mandou soltar-lhe, perdoando totalmente sua dívida. Ao sair dali aliviado, aquele homem deparou-se com um colega que lhe devia quantia bem inferior à dívida que acabara de ser-lhe perdoada. Partindo pra cima dele, como quem quisesse sufocá-lo, bradava com as mãos em seu pescoço: Paga-me o que me deves! Seu colega implorou-lhe que o perdoasse, exatamente como ele havia feito com o rei minutos antes. Mas ele foi irredutível. Mandou-o pra cadeia até que pagasse a dívida. Quando o rei soube do ocorrido, ficou tão decepcionado que mandou chamá-lo de volta e cancelou o perdão que lhe concedera (Mt.18:23-34), enviando-o igualmente para a prisão até que saldasse a dívida.

A ética da gratidão deveria nos tornar menos gananciosos. O Black Friday americano só é possível porque é antecedido pelo Dia de Ação de Graças. Somente consciências constrangidas pela gratidão é capaz de abrir mão de parte de seus lucros. Já que a vida tem sido tão generosa conosco, por que não compartilhar parte desta generosidade com os demais?

Semelhante ao que tem sido vergonhosamente praticado aqui, os fariseus contemporâneos de Jesus também cometiam fraude em nome de sua religiosidade.
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.” Mateus 23:15
Era o mesmo espírito das propagandas falsas que enchem os encartes de nossos jornais no dia de hoje. Se fossem anúncios sinceros, diriam: Tudo pela metade do dobro!

Para fazer um novo convertido (prosélito), o fariseu era capaz de qualquer sacrifício. Percorriam qualquer distância, ainda que sob o sol escaldante de 40º. Isso constrangia a pessoa de tal maneira que, em resposta, acabava aceitando sua proposta religiosa. Todavia, uma vez convertido, o jugo que se colocava sobre seus ombros era duas vezes mais pesado do que o que lhe fora removido. Pois é justamente isso que ocorre em nossos dias. Igrejas investem massivamente em propaganda, fazem promessas irrecusáveis, mas depois que a pessoa cede ao seu apelo, coloca-se sobre ela um peso muito maior do que aquele que ela carregava antes. Trata-se, portanto, de uma Black Fraude! 

Uma vez enredada, dificilmente a pessoa consegue se livrar. As ameaças são constantes. Inferno, maldições, legiões de demônios, são apenas alguns itens daquilo que poderá sobrevir na vida de quem resolve desertar dessas igrejas farisaicas. 

Só há uma maneira de se corrigir isso. Qualquer proposta de espiritualidade que não seja precedida pela oferta da graça deve ser imediatamente recusada. Para ser Black Friday legítima tem que ser antecedida pelo Dia de Ação de Graças! 

Consciências perdoadas devem dispor-se a perdoar. Quem se beneficiou da generosidade deste Deus deve igualmente ser generoso com os demais. 

Chega de Black Fraude! Chega de religiosidade exploradora. Recuse-se  a ser duas vezes mais filho do inferno. Em vez disso, seja um instrumento da graça e do amor perdoador do nosso Deus. 

Quem preferir cair no conto do vigário, só lamento.

terça-feira, novembro 22, 2016

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A quem você salvaria primeiro? - O juramento de Hipócrates x A ética dos hipócritas



Por Hermes C. Fernandes

Custei a acreditar na tal enquete. Achei que se tratasse de mais uma notícia falsa a se proliferar nas redes sociais. Só agora tive tempo de me inteirar e saber o motivo que levou a apresentadora do programa Encontro a suscitar a polêmica. 

Tudo não passou de uma peça publicitária para divulgar a estreia de Sob Pressão, filme de Andrucha Wanddington que mostra um médico do sistema público que tem que decidir entre atender primeiro um policial ferido ou um traficante que corre risco de morte. Os convidados do programa responderam que atenderiam primeiro o criminoso dada a gravidade de seu estado. 

Como num incêndio, a polêmica se espalhou rapidamente pelas redes sociais, provocando discussões acaloradas. Não pouparam nem mesmo a apresentadora, acusada de ter prestado um desserviço à causa dos direitos humanos. Infelizmente, as pessoas tendem a se pronunciarem levadas pela emoção, principalmente depois de terem sido informadas sobre o helicóptero supostamente abatido pelos traficantes durante intensa troca de tiros na Cidade de Deus, ocasionando a morte de quatro PMs.

Para um médico que paute o exercício de sua profissão pela ética exigida no juramento de Hipócrates, o que importa não é a farda, ou o fato de estar às margens da sociedade como no caso de um traficante, e sim a vida humana. O que exigirá que ele atenda primeiro a vítima que estiver em estado mais grave. 

E quanto a nós que nos identificamos com os ensinamentos de Cristo? Seria a ética preconizada no evangelho menos solidária que a abraçada pelos profissionais da medicina? Se nossa ética não excede a de Hipócrates, então, não passamos de hipócritas. 

A vida de um meliante tem menos valor que a de um policial? Convém salientar que a questão não era sobre quem deveria ser salvo ou não, mas quem deveria ser atendido primeiro. Se tivesse que escolher entre um e outro, acredito que o bom senso nos faria optar por salvar o policial no cumprimento de seu dever. Mas em se tratando de qual vítima deveria ser atendida primeiro (o que não impediria que a outra também fosse atendida em seguida), o critério não poderia ser outro que não fosse a gravidade de seu estado. 

A postura adotada por muitos nos remete à parábola do Bom Samaritano, em que tanto um sacerdote, quanto um levita, ignoraram o sofrimento de um moribundo, por priorizarem suas tarefas religiosas em vez de a vida de um estranho vítima de um assalto. Coube a um samaritano, odiado pelos judeus, interromper sua viagem de negócio para acudi-lo. 

O valor da vida humana está além das distinções étnicas, sociais, religiosas, sexistas e culturais. 

Vejamos o exemplo de Jesus durante seus instantes finais na cruz. Antes de designar um dos seus discípulos para amparar sua mãe, ele dirigiu sua atenção ao ladrão que se esvaía ao seu lado. Óbvio que sua mãe era-lhe bem mais importante que aquele indivíduo que desperdiçara sua vida no crime. Todavia, em poucos minutos, ele estaria morto. Aquela era sua última chance de ouvir uma palavra de salvação que lhe trouxesse esperança. Só então, voltou-se para sua mãe e sua necessidade de amparo. Não se trata de predileção, mas de prioridade. Há coisas que podem esperar, outras não. 

Se me perguntassem a quem eu socorreria primeiro, certamente responderia que o ser humano em situação mais emergencial, independentemente de sua posição na sociedade, fosse bandido ou mocinho.


sábado, novembro 19, 2016

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O que a palavra esconde e o silêncio revela



Por Hermes C. Fernandes

Num mundo de obviedades, em que todos somos flagrantes ambulantes, não é qualquer um que desenvolve a habilidade de nos ler nas entrelinhas. É preciso ser dotado de sensibilidade ímpar para decifrar os códigos do ser e acessar aquela camada oculta entre a epiderme e a alma. É como o lençol que se estende discretamente entre a colcha e o colchão.

Se fosse uma camada espessa, qualquer um a encontraria. Mas é tênue e difusa. Camufla-se. Esconde-se, principalmente, na linguagem. É mais fácil prestar atenção no que é bem dito ou mal dito, deixando passar incólume o não dito.

Quanta eloquência há no silêncio, no hiato entre as palavras,  na pausa para respirar ou suspirar. Se mal compreendemos o que se fala, quanto menos o que se cala. Assim como numa radiografia, o contraste entre palavras e silêncio nos dá uma imagem tridimensional de nossa alma. Mas somente olhos clínicos, devidamente treinados por uma percepção aguçada, podem emitir um laudo do que se passa nas entrelinhas do ser.

Até o ritmo, o fluxo das palavras encerra significados profundos. Nem mesmo uma vírgula, uma reles vírgula, aparece no meio de uma frase à toa. Quantos pontos finais escondem a intenção de se tornarem reticências! Quantas interrogações sonham em se tornar exclamações! Palavras escondem mais do que revelam. Por isso, ouve-se mais com os olhos do que propriamente com os ouvidos. Observa-se o movimento dos lábios enquanto destila cada palavra, a postura, o brilho no olhar, a linguagem das periferias do corpo, etc.

Ouve-se com o faro. Pena não termos o olfato perspicaz para perceber odores sutis, disfarçados nos perfumes.

Ouve-se com o tato. Quanta coisa diz um toque! Que dirá um abraço!

Ouve-se, sobretudo, com o paladar. É preciso provar as palavras. Saber que sabor têm. Se são insossas ou devidamente temperadas; se são doces, amargas ou mesmo agridoces.  E para isso, temos que mordiscá-las, saboreá-las, mastigá-las, absorver todos os seus nutrientes.  Deixar que elas se tornem carne e sangue. O verbo tem que se fazer carne em nós.

E por fim, é necessário que se esteja atento às figuras de linguagem, aos contos, às verdades implícitas na ficção. Uma coisa é o que se diz, outra é o que se pretende dizer. A distância entre a expressão e a intenção pode ser abismal.

Se tão somente houvesse uma espécie de tecla SAP que nos facilitasse a compreensão do que se pretende dizer, a estrada da comunicação jamais seria interditada. Pensando bem, esta tecla existe e se chama amor.


Abaixo, um poema que compus tempos atrás.

Um cálice de ‘cale-se’ – Um brinde ao silêncio

Silêncio é tributo prestado àquilo que a alma encanta
Silêncio absoluto, recado tranquilo que acalma ou espanta

Se falo, ao céu expresso o que sinto
Se calo, réu confesso, consinto

Se falo, descrevo o que vejo
Se calo, é pela paz que almejo
Se falo, eu ancoro o desejo
Se calo, num mar calmo velejo
Se falo, demonstro traquejo,
Se calo, de repente um lampejo
Se falo, faço sempre gracejo
Se calo, só desperto bocejo
Se falo, enxurrada despejo
Se calo, valorizo o gotejo

Palavra é braçada.
Silêncio, mergulho.
Palavra é presente.
Silêncio, embrulho.
Palavra é porta.
Silêncio, janela.
Palavra conforta.
Silêncio, anela.
Palavra exorta.
Silêncio, apela.
Palavra distrai.
Silêncio, revela.
Palavra é tinta.
Silêncio é tela.
Palavra distingue.
Silêncio, nivela.
Palavras marcam.
Silêncio, sequela.
Palavra é palácio.
Silêncio, capela.
Palavra é barco.
Silêncio, a vela.
Palavras são partos.
Silêncio, gestação.
De palavras, fartos
Por silêncio buscarão.

Antes de levantar nossas vozes
lembremo-nos que diante dos algozes
O Verbo Divino se calou
Por nós sorveu inteiro o cálice
Se vai orar, primeiro, cale-se
em reverência à sua dor e a eloquência do amor.

quarta-feira, novembro 09, 2016

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Trump é a nossa cara!



Por Hermes C. Fernandes

De vez em quando, acordo com uma frase na cabeça. E hoje acordei com uma pergunta: “O que o espelho me disse?” Após lavar o rosto, conferi se havia mensagens em meu celular e deparei-me com a inacreditável notícia de que Donald Trump havia vencido a eleição americana. Lá estava eu diante de dois espelhos. O do banheiro refletindo meu rosto ainda cansado e com marcas deixadas pelo tempo, e o da notícia refletindo a imagem do que a sociedade humana está se tornando.

Hoje a humanidade acordou aterrorizada! O que ela viu de tão vil? Sua própria imagem refletida. Quer admitamos ou não, Trump é aquilo em que estamos nos tornando desde o fatídico 11/9. Aliás, você reparou que a data de hoje, 9/11, é a imagem refletida de 11/9 (lembre-se de que o espelho mostra a imagem invertida). Desde aqueles atentados, nunca mais fomos os mesmos. Chegamos a ensaiar alguma esperança, mas ela finalmente se rendeu ao medo. Não buscamos quem nos inspire. Preferimos quem prometa nos proteger. Não queremos quem proponha governa juntamente conosco, mas quem prometa cuidar de nós e de nossos interesses (nem sempre louváveis!).

Ao chegar em casa ontem à noite, não pude entrar porque minha família havia saído e me deixado sem as chaves. Em vez de ficar me lamentando, resolvi aproveitar o tempo vago para caminhar um pouco. Depois de quase uma hora caminhando, passei em frente a uma igreja evangélica, e vendo que, apesar de ser quase dez horas da noite, o culto não havia terminado, resolvi entrar e fazer uma horinha sentado num cantinho discreto no final do salão. Lá em cima, uma pastora elegantemente vestida estava pregando para uma plateia bem entusiasmada. Ela falava sobre os gafanhotos que Deus enviava sobre aqueles que não buscassem corresponder às suas expectativas divinas. Se a pessoa fosse desonesta, Deus lhe enviaria o gafanhoto cortador. Se fosse daquelas que pulam de igreja em igreja, Deus lhe mandaria o migrador. Se fosse infiel nos dízimos, Deus lhe castigaria com o devorador. E se fosse ingrata com o ministério que a acolheu, Deus lhe entregaria ao destruidor. É obvio que não foi a primeira vez que ouvi tanta asneira. Mas confesso que desta vez, fiquei com o estômago embrulhado. Que lástima ver tanta gente enganada por um evangelho falsificado, balançando a cabeça em assentimento ao que era pregado, feito ovelhinhas de presépio.

A que ponto chegou o povo que antes prezava tanto a verdade. Para serem fiéis, as pessoas precisam ser ameaçadas. Não se trata de ser honesto para não acarretar prejuízo aos outros, e sim para não ser exposto à atuação de espíritos malignos. Não se trata de ser grato movido pela consciência, mas por medo de perder o que se conquistou. O que as move não é o amor, mas o medo e o interesse. E o mais triste é saber que esta versão adulterada do evangelho pregada em boa parte dos púlpitos consegue atrair multidões ávidas por bênçãos, mas sem qualquer compromisso com a ética do reino de Deus.

É esta massa uniforme de crentes que se submete cegamente a seus líderes, abrindo mão de pensar por si mesma. Nela prevalece a mentalidade de rebanho, desprovida de senso crítico.  E graças a ela, o mundo assiste estupefato à eleição de Donald Trump como presidente da maior potência bélica mundial.

Não se enganem! Foram os evangélicos que o elegeram. E serão eles que poderão eleger Bolsonaro em 2018. Não foi em vão que o nobre candidato já tratou de ser batizado no rio Jordão. Não importa se Trump pretende deportar imigrantes. Não importa se seu discurso é xenófobo, misógino e homofóbico. O importante é que ele seja contra o aborto, o casamento gay, e tudo o que não cabe em nossa moralidade cristã tradicional. E principalmente, ele é a favor do lucro!

A Bíblia, antes responsável por promover a alfabetização da Europa, agora é usada como instrumento de alienação. Basta apontar um versículo e pronto; não se discute mais. Ninguém se dá o trabalho de examinar o contexto histórico e cultural. É preferível acreditar que o pastor sempre sabe o que diz. E assim, passa-se procuração para que outros pensem em nosso lugar.

Já que estamos falando de espelho, que tal dar uma conferida no retrovisor de vez em quando? Cada Apocalipse tem sua própria besta, que por sua vez, necessita de um falso profeta como porta-voz. E pelo jeito, quem assume o papel em nossos dias são os líderes evangélicos midiáticos. Mas por incrível que pareça, este filme não passa de remake. Aconteceu lá trás, no império romano. Aconteceu há poucas décadas com o nazismo. E está acontecendo bem aqui, debaixo de nosso nariz em terras tupiniquins.

O problema é que o monstro que hoje alimentamos será o que nos devorará as carnes no futuro.

Urge que se levantem profetas comprometidos com o bem comum, que tenham culhões para denunciar as intenções destas bestas feras. Profetas que não tenham suas almas etiquetadas. Que não negociem nos bastidores o que dirão aos holofotes. Que renunciem à pretensão de manipular opiniões. Que levem as pessoas a pensarem e não simplesmente a assentirem com suas ideias.


Se não houver entre nós, que se levantem dentre os que não ratificam nossa fé, mas demonstram se importar muito mais com o sofrimento alheio do que aqueles que o fazem. 

domingo, novembro 06, 2016

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O ENEM e a Intolerância Religiosa



Por Hermes C. Fernandes

O tema da prova de redação do ENEM este ano não poderia ser mais atual e pertinente: "Caminhos para combater a intolerância religiosa". Apesar disso, o anúncio do tema provocou polêmica nas redes sociais. Enquanto muitos elogiavam a escolha, outros a criticavam duramente. Muitos evangélicos se sentirem desconfortáveis em terem que abordá-lo, haja vista a postura adotada por algumas das mais proeminentes lideranças evangélicas.

O caminho da tolerância passa pela admissão de que ninguém é detentor do monopólio da verdade.  Só deve ser tolerante quem tem consciência de que a perfeição não é um dos seus atributos. Caso contrário, estaremos incorrendo no erro eloquentemente denunciado por Jesus:

“Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho’, se você mesmo não consegue ver a viga que está em seu próprio olho? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.” Lucas 6:42

Todos temos virtudes e defeitos, independentemente da fé que professamos. Nem mesmo nossa religião está imune a isso.  Basta uma rápida incursão pela história de cada igreja ou credo para verificar quantos erros foram cometidos em nome da fé. 

Veja, por exemplo, o caso da Santa Inquisição que pesa sobre os ombros da Igreja Católica, em que milhares de pessoas foram condenadas, torturadas e executadas, acusadas de heresia ou bruxaria, num dos capítulos mais tenebrosos da história recente da civilização. Todavia, ela está longe de ser o único caso de intolerância religiosa da chamada Época Moderna. Augusto Comte, o pai do positivismo, conta em seu livro Filosofia Positiva que “a intolerância do protestantismo certamente não foi menos tirânica do que aquela com que o catolicismo é muito difamado”.[1] “Os próprios reformadores... isto é, Lutero, Beza, e especialmente Calvino, eram intolerantes aos dissidentes  tanto quantos aos católicos Romanos.”[2]

Martinho Lutero, o tão celebrado reformador alemão, promoveu a perseguição aos anabatistas, ala mais radical da Reforma, por discordarem, dentre outras coisas, do método usado no batismo. Por conta disso, milhares de pessoas foram encarceradas, torturadas e executadas.  O reformador também fazia duras críticas aos judeus e seus escritos acabaram sendo usados pelos nazistas como justificativa ao seu antissemitismo responsável pela morte de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Deve-se salientar, entretanto, que próximo do fim de sua vida, Lutero retornou ao seu sentimento inicial de tolerância. Em seu último sermão ele aconselhou o abandono de todas as tentativas de destruir a heresia por força.[3]

João Calvino, o reformador suíço, instaurou em Genebra a Venerável Companhia, responsável pelo magistério e o Consistério, responsável pela disciplina religiosa. Em seu ardoroso zelo, Calvino promovia confissões, denúncias, espionagens, visitas às residências, levando muitos à prisão, à tortura e, em alguns casos, até a morte. Durante o tempo em que governou Genebra, a população era proibida de cultivar hábitos considerados nocivos como jogos, dança e teatro. Dentre as vítimas da intolerância de Calvino, destaca-se o médico Miguel Serveto, queimado por causa de suas proposições consideradas heréticas. Em apenas quatro anos de governo (1542-1546), 58 pessoas foram condenadas à morte por heresia.[4]

O que mais nos causa ojeriza quanto às perseguições protestantes é o fato de serem incompatíveis com uma das doutrinas fundamentais do Protestantismo: o livre exame das Escrituras. É, no mínimo, contraditório defender o direito de se interpretar a Bíblica de acordo com a sua consciência, e em seguida, torturar e matar alguém por ter feito justamente isso. 

Quem conhece a dor de ser perseguido, não tem o direito de perseguir. Os puritanos que fugiram da Inglaterra por causa da perseguição sofrida por parte da Coroa, exportaram para as colônias que fundaram nos Estados Unidos o mesmo espírito persecutório. O que pode ser atestado em episódios como o das “bruxas de Salem”, ocorrido em Massachusetts no final do século XVII, quando várias adolescentes foram executadas sob a acusação de praticarem feitiçaria, invocando espíritos quando reunidas ao redor de uma fogueira. “O que é surpreendente é o fato de que, após essas experiências, esses fugitivos não aprenderam a lição de tolerância, e não concederam aos que eram diferentes... liberdade... Quando eles se encontraram em uma posição para perseguir, eles tentaram superar o que haviam sofrido.”[15] Entre os grupos vítimas da intolerância deles estavam os Quakers. Um membro desta “Sociedade dos Amigos” poderia sofrer a perda de uma orelha, e depois, a outra, além de ter a ponta da língua queimada a ferro quente, e às vezes, a morte. 

De acordo com o teólogo metodista Georgia Harkness, “muitas vezes, a resistência à tirania e à procura de liberdade religiosa são combinadas, como na revolução puritana na Inglaterra; e os vencedores, tendo alcançado a supremacia, em seguida, criam uma nova tirania e uma nova intolerância.” [6] Incrivelmente, os Quakers foram uma exceção à regra. William Penn, fundador do Quakerismo, também fugiu para a América devido à perseguição religiosa, onde fundou uma colônia tolerante que hoje é o estado da Pensilvânia. Os Quarkers tem um honrado histórico de tolerância, e estiveram na vanguarda do movimento de abolição da escravidão na América no século XIX.

As religiões tendem a se reinventar, tornando-se moderadas e tolerantes. Porém, não podemos fazer vista grossa quanto à possibilidade de que sempre haja alas mais radicais, geralmente saudosistas de um tempo considerado áureo. É assim no cristianismo, tanto católico quanto protestante, e é assim no islamismo. 

Todos temos telhado de vidro! Não se esqueça disso.

Toda religião tem um histórico de perseguição, seja sofrida ou impingida. Em maior ou menor grau, todas guardam em seus anais episódios de intolerância. Se não quisermos retroalimentar o ciclo, resta-nos perdoar as perseguições sofridas e nos arrepender das perseguições impingidas.  

Enquanto houver o menor vestígio de intolerância, seja em nosso discurso ou em nossa postura, servirá de munição para aqueles que fazem do ódio a sua bandeira. Pequenos gestos de intolerância são um chamariz para os intolerantes. Semelhantemente, pequenos gestos de gentileza e cordialidade podem desarmar espíritos, fazendo prevalecer o respeito, e, sobretudo, o amor.


[1] COMTE, Augusto, Philosophie Positive, IV, 51.
[2] Dicionário da Igreja Cristã de Oxford, Referência 1383.
[3] DURANT, Will (S), The Reformation, (volume 6 of 10-volume The Story of Civilization, 1967), Nova York: Simon & Schuster, 1957,  págs. 420-430.
[4] Ibidem, pág. 473.
[5] STODDARD, John L., Rebuilding a Lost Faith, Nova York: P.J. Kenedy & Sons, 1922, pág. 207.
6] HARKNESS, Georgia (P), John Calvin: The Man and His Ethics, New York: Abingdon Press, 1931, pág. 222.

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quinta-feira, novembro 03, 2016

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A subversão do princípio da autoridade no Reino de Deus



Por Hermes C. Fernandes

Karl Marx, o idealizador do comunismo, sugeriu que a história deveria ser entendida sob o prisma da luta entre classes. Desde os primórdios da civilização sempre houve conflito entre etnias, religiões, cosmovisões diferentes e classes sociais. Os que vencem consideram-se superiores aos vencidos, e, portanto, no direito de dominá-los. Parece-me que Marx foi preciso em seu diagnóstico, todavia, não sei se poderia dizer o mesmo acerca do remédio prescrito por alguns dos seus mais aguerridos seguidores, dado seus conhecidos e indesejáveis efeitos colaterais.

De onde provem a hierarquização social? Seria o plano original do Criador que os homens se arrogassem o direito de exercer domínio sobre outros? Apesar de parecer-me óbvio que nada ocorre sem a sua devida chancela, atrevo-me a crer que isso não constava do plano original de Deus.

O relato inicial de Gênesis dá conta de que “criou Deus o homem à sua imagem (...) homem e mulher os criou” (Gn.1:27). Não há qualquer indício de que houvesse alguma hierarquia entre eles. Ambos foram criados à imagem e semelhança de Deus.

No segundo relato, lemos que, depois de dar nome aos bichos, o homem sentiu-se só, pois não encontrara alguém que lhe fosse compatível. “Então o SENHOR Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; e da costela que o SENHOR Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão” (Gn. 2:20-25). Mais uma vez não encontramos menção à posição do homem como superior à mulher.

Ao encontrar-se com sua companheira pela primeira vez, Adão disse: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne. E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam”(Gn. 2:20-25).

A expressão “carne da minha carne” pode indicar a malha social que começava a ser tecida. Cada novo membro da família humana deveria ser um novo ponto desta tecelagem. Já a expressão “osso dos meus ossos” pode apontar para a estrutura por trás desta malha, dando-lhe sustentação. Sem os ossos, o corpo se dissolveria. Assim também, sem um esqueleto social formado de instituições fortes, a sociedade se dissolve. A primeira destas instituições é, sem dúvida, a família. Não fosse a queda, talvez esta fosse a única. Porém, a queda produziu novas demandas, dentre elas, a de um governo.

Homem e mulher deveriam ser parceiros, os tecelões da sociedade. Porém, a queda interferiu na harmonia original, produzindo conflito de interesses. O pronome “nós” foi substituído pelo “eu” e “ele”. O “serão ambos uma só carne” deu lugar ao “cada um por si”.

Tão logo foi tentada pela serpente intrusa, a mulher estendeu a mão em direção à árvore vetada por Deus, “tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” (Gn. 3:6).

Repare na ordem dos fatos: ela primeiro toma para si e come, só então oferece ao seu marido. Primeiro, eu. Depois, você.  Este gesto prenunciou a queda. Foi o salto que os lançou despenhadeiro a baixo. Eva usurpou a primazia ao servir-se a si mesma.

O evento chamado pelos teólogos de Queda não apenas alienou a humanidade de Deus, mas também  comprometeu seriamente as relações sociais. Ora, quando um osso se fratura, faz-se necessário o uso de uma tala até que ele seja regenerado.  O que deveria sustentar o corpo, agora tem que ser sustentado por um elemento estranho ao corpo. Às vezes, tem-se que usar muletas para evitar que o corpo se apoie sobre a perna fraturada.

Somente a partir da Queda, Deus estabelece uma hierarquia entre homem e mulher, que serviria de base para toda estrutura hierárquica que viria depois.

Observe a sentença proferida por Deus:

“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” Gênesis 3:16

A relação antes harmoniosa agora precisaria ser engessada até que se recuperasse plenamente.

Milênios se passaram desde então, quando a Cura chegou ao mundo dos homens.  Todavia, Jesus teria que inserir-Se no meio do conflito a fim de hastear a bandeira da paz.

Recentemente sofri uma queda do púlpito da igreja. Ao descer dele para atender a alguém que solicitava minha atenção, apoiei-me num pedestal, pisei em falso e caí. Levado para o hospital, soube que precisaria imobilizar meu pé direito com uma bota ortopédica e que, depois de alguns dias de “perna pro ar”, talvez necessitasse de fisioterapia. Já se passaram dois meses e meu pé ainda dói. Caminho normalmente, porém, às vezes, quando ele incha, volto a mancar. O médico já me advertira que a recuperação seria lenta. 

Enquanto meu pé estava imobilizado, tinha que saltar apoiando-me no pé esquerdo, como se fosse um saci-pererê. Resultado: o pé esquerdo começou a doer mais do que o direito. Todo o peso do corpo agora era apoiado nele, sobrecarregando-o.

Depois da Queda do homem, Deus atou-o com a tala da Lei moral e engessou-o com a Lei cerimonial. Cristo veio e removeu o gesso. Todavia, ainda nos resta um tempo para que recobremos o vigor original de nossas relações. A igreja seria, por assim dizer, a fisioterapeuta do mundo. Por isso, o Novo Testamento corrobora com a ideia de que a relação conjugal deve ser encabeçada pelo homem:

“Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela.” Efésios 5:22-25

A ferida desinflamou, mas não cicatrizou ainda. O gesso e a tala foram removidos, mas o paciente não consegue pisar firmemente. Ele ainda manca. Por isso, um dos pés terá que ser sobrecarregado por mais um tempo. Todavia, Cristo Se oferece como um novo modelo de primazia para o homem. Em vez de simplesmente dominá-la, o homem deve amá-la e se entregar por sua mulher, assim como Cristo amou a Sua igreja, entregando-Se por ela.  O que seria mais difícil, sujeitar-se a outrem ou entregar-se para morrer por ele? Ademais, sujeitar-se ao outro não é prerrogativa somente da mulher. No verso anterior, Paulo diz que devemos todos sujeitar-nos “uns aos outros no temor de Deus” (Ef.5:21).

Em Cristo, o conflito entre classes termina. Quem antes se arrogava direito de dominar os demais, agora é desafiado a apascentar o rebanho de Deus, “não por força, mas espontaneamente segundo a vontade de Deus; nem por torpe ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores sobre os que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho” (1 Pe.5:2-3). Por isso que Paulo, apesar da autoridade que tinha, não se estribava nela, mas apelava à consciência das pessoas. Escrevendo a Filemon, ele diz: “Ainda que tenha em Cristo grande confiança para te mandar o que te convém, todavia peço-te antes por amor (Filemom 1:8-9).

Em Cristo, “não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher” (Gl.3:28). A igreja é, por assim dizer, um ensaio de como as relações sociais se darão na sociedade definitiva, quando Cristo houver destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder” (1 Co.15:24), e Deus for “tudo em todos” (v.28).

A proposta do reino não é hierarquização, mas sujeição mútua em amor. Assim como os ossos devem suportar o peso dos demais alternadamente, dependendo da posição em que o corpo estiver, assim devemos suportar uns aos outros em amor (Cl.3:13). Suportar aqui não tem o significado de tolerar mas de ser suporte, isto é, aquilo que dá sustentação.

Para tal, devemos estar dispostos a servir uns aos outros, dando-lhes sempre primazia. Não se trata de ser seletivo, de escolher a quem se deve servir, mas de servir igualmente a todos. Não se deve usar a liberdade concedida pela graça como pretexto para uma vida autocentrada. Servir ao outro é bem diferente de servir-se do outro. Considere o que Paulo diz sobre isso:

“Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor.” Gálatas 5:13

Para o apóstolo, o cristão carnal é aquele que se nega a sujeitar-se aos demais , servindo-os em amor. Ele mesmo admite que “sendo livre para com todos”, fez-se “servo de todos para ganhar ainda mais” (1 Co.9:19). Da perspectiva do mundo, quanto mais a gente se impõe aos demais, mais ganhamos. Porém, o evangelho subverte esta ordem, de sorte que, quanto mais servimos, tanto mais ganhamos.

Há, porém, uma diferença entre a submissão cega e a submissão consciente. Na clássica passagem em que fala das autoridades estabelecidas por Deus, Paulo diz que não devemos submeter-nos meramente por medo de eventuais sanções, mas por consciência (Rm.13:5). Submissão cega não passa de subserviência, e, esta, por sua vez, ora é motivada por medo, ora por interesse. Já a submissão requerida pelo evangelho é motivada exclusivamente por amor.

E será este mesmo amor que nos fará preferir-nos “em honra uns aos outros” (Rm.12:10). Se alguém tiver que ser honrado, que seja o outro, não nós. Em vez de enciumados, sentimo-nos realizados diante da honra recebida pelo nosso irmão, afinal de contas, somos membros uns dos outros, como nos ensinam as epístolas paulinas. Na mesma passagem em que fala da sujeição mútua entre os cristãos, Paulo diz que além de membros do corpo de Cristo, também somos membros “da sua carne, e dos seus ossos” (Ef.5:30). O que deve nos unir não são apenas nossas ações (carne), mas também nossas motivações (ossos). Para Deus, o que não se vê é ainda mais importante do que o que se vê.

O que nos conecta uns aos outros não são os papéis sociais que desempenhamos, e sim nosso DNA espiritual. Somos todos “imagem e semelhança” de Deus.

É claro que somos diferentes. Temos papéis distintos. Porém, iguais em dignidade. Mesmo “os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários; e os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra. Porque os que em nós são mais nobres não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela” (1 Co.12:22-26). É desta maneira o tecido social é devidamente calibrado. Os mais fracos devem ser os mais honrados. Já os “nobres” dispensam tais honrarias. É como alguém que tem uma perna mais curta que a outra. A perna normal não precisa de um sapato com salto maior, mas a menor sim.

Ainda mais importante que a honra concedida a uns em detrimento de outros é o cuidado recíproco. Paulo insiste em que os membros devem ter “igual cuidado uns dos outros. De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1 Co.12:22-26). Todo cuidado é uma expressão de amor. Só cuida quem se importa, e só se importa com quem se ama. Assim, se alguém for honrado em nosso lugar, sentiremos como se nós mesmos fôssemos honrados. E se alguém estiver sofrendo, nos solidarizaremos com a sua dor.

Honrar é dar a primazia ao outro, ceder a vez, estimar o interesse alheio superior aos nossos. Isso é ter “os mesmos sentimentos que houve em Cristo Jesus”.  É atender à admoestação apostólica de quecada um considere os outros superiores a si mesmo”, não atentando cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros” (Fp.2:3-4). É fácil? Certamente que não. Mas é o que o evangelho demanda de nós. Os últimos terão que ser os primeiros. E para tal, os primeiros terão que ser os últimos.

Será assim que subverteremos a ordem vigente no mundo desde a Queda de nossos primeiros ancestrais. Mesmo antes de vendê-lo por trinta moedas de prata, traindo assim o Seu mestre, Judas traiu a proposta do reino de Deus.

Os discípulos já haviam sido advertidos de que dentre eles havia um traidor. Todos queriam um sinal que o identificasse. Engana-se quem imagina que o traidor fora reconhecido por um beijo. O beijo identificou o traído, não o traidor.

Dois sinais identificariam quem O trairia:
“O que põe comigo a mão no prato, esse me há de trair.Mateus 26:23 
O que come o pão comigo, levantou contra mim o seu calcanhar.” João 13:18
Ambos os sinais seriam vistos na mesma ocasião, a saber, na última ceia de Jesus com Seus discípulos. E o que eles revelam?

Meter a mão no prato é servir-se a si mesmo, fazendo exatamente o que Eva fez no paraíso. Enquanto Jesus partia o pão e servia aos demais, Judas servia a si mesmo. Partir o pão era tarefa do servo, não de quem estava sentado à cabeceira da mesa em posição de honra.

Nesta mesma ocasião, os discípulos discutiam quem deveria ser o maior entre eles. Jesus aproveitou a oportunidade para dar-lhes uma lição que jamais se esqueceriam:

“E ele lhes disse: Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores. Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve. Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve.” Lucas 22:21-27

Só deve ser honrado quem não faz a menor questão da honra, e sim, de ser vir. É desta maneira que Deus subverte a ordem. O maior deve ser o menor.

Jesus não limitou-se a dar-lhes um sermão. Mesmo sabendo que “já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai”, Ele insistiu em amá-los até o fim. Acabada a ceia, Jesus levantou-se, “tirou as vestes, e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos, e a enxugar com a toalha com que estava cingido” (João 13:1-5). Há um detalhe aqui que precisamos focar. Quando o primeiro casal rebelou-se contra Deus, a primeira percepção que tiveram foi que estavam nus. Dentro do simbolismo bíblico, nudez representa desonra,  uma metáfora que aponta para a exposição de nossa fragilidade. Eles, imediatamente, trataram de coser folhas de figueira para cobrir sua vergonha. Jesus toma a direção oposta. Ele Se expõe perante o olhar censor dos Seus discípulos. Sua genitália é coberta pela toalha, porém, cada vez que enxuga os pés dos Seus discípulos, fica exposta.  Porém, Ele parece não se importar. Ademais, horas depois Ele seria crucificado totalmente nu, exposto a toda população de Jerusalém.

Quem teria maior autoridade do que Ele? O texto faz questão de frisar que Ele sabia “que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas”. Mesmo assim, sem o menor recato, sem falsos escrúpulos, Ele se desnuda e lava os pés dos Seus discípulos como se fosse um mero serviçal.

Tal atitude me remete ao episódio em que Davi encabeçava a procissão que trazia de volta a Arca da Aliança a Jerusalém. Inadvertidamente, o rei dançava com tanta alegria, que suas partes íntimas ficavam despudoradamente expostas, provocando o ciúme de Mical, sua esposa, que assistia de sua janela. Ao chegar em casa, Davi foi duramente criticado:

“Quão honrado foi o rei de Israel, descobrindo-se hoje aos olhos das servas de seus servos, como sem pudor se descobre um qualquer.” 2 Samuel 6:20b

Pelo que ele respondeu:

“Perante o Senhor me tenho alegrado. Ainda mais do que isso me rebaixarei e me humilharei aos meus olhos. Quanto às servas, de quem falaste, delas serei honrado.” vv 21b-22

Só Deus pode avaliar a motivação de alguém. Para Mical, Davi estava se desgastando ante os olhos das suas servas. Porém, quanto mais se humilhava, expondo-se em sua alegria saltitante e ingênua, mais honrado era por todo o seu povo.

Enquanto lavava os pés dos seus discípulos, dois deles tiveram comportamento totalmente inverso. Pedro sentiu-se constrangido e tentou dissuadir Jesus de prosseguir. Ao chegar a vez de Judas, este levantou o calcanhar para Jesus, como quem quisesse dizer: Se é para lavar, trate de lavar direitinho (Jo.13:18).

Se o primeiro sinal do traidor foi servir a si mesmo, o segundo sinal foi abusar do serviço do outro. Ambas são posturas que contrariam o espírito do evangelho e a causa do reino de Deus. Devemos, antes, deixar-nos constranger pela disposição demonstrada por outros em nos servir, e, jamais abusar do seu amor.

Ao terminar o serviço, Jesus deve ter-lhes fitado os olhos quando disse: “Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes” (João 13:14-18). Saber nunca foi o suficiente. Saber, incha. Mas o amor, edifica (1 Co.8:1). Portanto, devemos despir-nos de nossa vaidade e servir àqueles a quem o Senhor confiou aos nossos cuidados, honrando-os, amando-os até o fim.