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quarta-feira, dezembro 11, 2013

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A fúria das águas




Por Hermes C. Fernandes


Enchentes! Já passei por algumas aqui mesmo no Rio de Janeiro. Mas nenhuma como a que vivemos em 1996. Aquela foi uma das maiores enchentes ocorridas em nossa cidade.

Morávamos em uma modesta casa de vila em Jacarepaguá. Naquele dia, Tânia, minha esposa, amanheceu inspirada para arrumar a casa. Havíamos comprado uma capa nova para o jogo de sofá. As paredes haviam sido pintadas para o Natal. Tudo cheirava a novo!

Minha esposa sempre foi muito zelosa com a casa. E quando ela amanhece inspirada, muda tudo de lugar. Mesmo quando estava grávida, ela movia os móveis de um lado para o outro. Quando eu chegava da igreja, o susto: a estante estava do outro lado da sala, a cama do quarto havia mudado de posição com o armário, a geladeira ocupava o lugar do fogão.

Aquele foi um daqueles dias de inspiração. Eu e as crianças, ainda bem pequenas, a ajudamos a trocar as coisas de lugar. Quando finalmente terminamos a arrumação, começou a chover.

Não ficamos preocupados com a chuva, pois no verão é comum chover quase todas as tardes.

Porém algo nos assustou: um monte de baratas começaram a sair dos ralos e a subir as paredes. Que cena horripilante! As crianças subiam no sofá, gritando, com medo das baratas. Tânia nunca teve essas "frescuras". Se aparecesse uma barata, ela simplesmente a matava, fosse com o chileno ou com uma vassoura. Mas agora eram centenas delas.

Minutos depois, soubemos a razão de elas terem saído dos ralos.

A água começou a entrar pelas frestas da base das portas. Tentei coibir com panos de chão, e até logrei um êxito momentâneo. Mas a água não parava de subir. Em poucos minutos, ela alcançou nossos tornozelos. E nada indicava que ela fosse parar aí.

Ao nos dar conta disso, Tânia e eu começamos a tentar salvar algumas coisas. Levamos as crianças para a casa de cima, onde morava meu irmão com sua família. Colocamos os colchões sobre os armários. Tiramos as gavetas, e as colocamos em lugares altos, com todas as nossas roupas. Os eletro-eletrônicos também foram elevados. Quando a água chegou à nossa cintura, não tivemos alternativa. Até a máquina de lavar, tão pesada, estava flutuando na área de serviço, próximo das escadas que davam para a casa do Elias. A água chegou a ultrapassar a altura do meu peito (tenho 1,72 m).

Tânia chorava muito, mas não parava pra se lamentar. Eu só sabia dizer a ela, e às crianças: Deus está no controle!

Enquanto tentávamos salvar alguma coisa, lembramos dos vizinhos, principalmente daqueles que tinham filhos pequenos, e cuja casa não tinha andar superior. Saímos desesperados para tentar salvá-los. Tomamos várias crianças no colo, e as levamos para a casa do meu irmão. Desligamos a chave de luz de algumas casas, pois poderia causar um acidente ainda fatal.

A casa de Elias ficou superlotada. Da janela vimos quando chegou um barco oferecendo socorro. A rua da vila parecia um rio de fortes correntezas. Pra minha sorte, meu carro (na época, um corsa verde), havia sido estacionado no meio da vila, eu uma pracinha que ficava um pouco mais alta. Minha casa era uma das últimas da vila, na parte mais baixa. Não havia passagem para a água, por causa de um enorme muro que havia no final.

Deixamos de chorar, e passamos a louvar a Deus pela oportunidade de ajudar alguns vizinhos. Desde então, nossos vizinhos, que raramente falavam conosco, se tornaram nossos amigos, pois viram o testemunho de nossa fé, ao estender-lhes as mãos com amor.

Tragédias acontecem... e não adianta tentar explicá-las teologicamente. Em vez disso, devemos aproveitar a oportunidade para demonstrar o amor que Deus colocou em nossos corações por nossos semelhantes.

segunda-feira, setembro 10, 2012

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SINCRONICIDADE? Sonhei com os atentados na noite anterior a 11/9




Por Hermes C. Fernandes

Acordei atordoado naquele fatídico dia. Sonhara que dois aviões vinham contra o prédio em que eu morava na Vila da Penha, Zona Norte do Rio. Assistia da varanda da sala, e ficava paralisado, com meu braço grudado à grade da sacada. Quando um dos aviões se aproximou, consegui soltar meu braço. Havia sido um pesadelo e tanto.

Fui para uma agência bancária próxima de casa, quando meu celular tocou. Era Gleibe, um amigo, que perguntava se eu estava assistindo ao telejornal. Disse que não. Foi quando recebi a notícia dos atentados em Nova York. Corri pra casa assustado para acompanhar os acontecimentos. 

Enquanto assistia à queda da segunda torre, lembrei de minha irmã Odília que à época morava em New Jersey. Fiquei aflito. O sonho parecia ter sido profético. Aterrorizado, tentei contatá-la, mas sem sucesso. As linhas estavam congestionadas. Foram longos três dias até que conseguimos notícias dela.

Naquela manhã, Odília tinha uma entrevista de emprego justamente lá, onde aconteceram os atentados. Porém, ela perdeu a hora, e ao acordar, assistiu da janela do seu quarto o maior atentado terrorista da história americana. 

Agora meu sonho fazia sentido. Meu braço direito representava minha maninha, que na hora "h" recebera um grande livramento. 

Muitas outras histórias semelhantes surgiram nas páginas dos jornais e revistas. Odília, por sua vez, ajudou a somar esforços para doar sangue para os sobreviventes das torres gêmeas. 

Meses depois, eu e aquele meu amigo que me tefonara avisando sobre os atentados fomos a Nova York visitar minha irmã. Ainda na fila de embarque de Orlando para Nova York, sentimo-nos constrangidos com a revista a que fomos submetidos. Mas o que mais assustou-nos foi presenciar um homem de turbante que embarcou na aeronave sem ser revistado. Todos na fila ficaram igualmente incomodados. Para nossa surpresa, ao passar por ele já dentro do avião, vimos seu distintivo de policial federal. Ufa!

As aeromoças, percebendo o clima de nervosismo dos passageiros, ligaram um microfone e improvisaram um  stand up comedy. Apesar das fartas gargalhadas que deram, suas piadas não foram capazes de impedir que todos engolissem a seco ao avistarem Manhattan pela janela. Quando o avião pousou, irrompemos em palmas, um misto de alegria e alívio.

Onze anos se passaram, e hoje, ao vê-la casada e mãe de dois lindos filhos, louvo a Deus por tê-la livrado, ao mesmo tempo em que me solidarizo com a dor de todos que perderam pessoas queridas na queda das torres gêmeas, bem como em todos os atos terroristas ocorridos ao redor do mundo na última década. 

sábado, janeiro 29, 2011

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Dando o sangue pela subversão reinista


Por Hermes C. Fernandes

Eram meados dos anos 80. Como líder do grupo jovem de minha igreja, decidi levá-los a hospital psiquiátrico em Jacarepaguá, zona oeste do Rio. Jamais poderia supor o que me aconteceria naquela tarde de domingo.

Pessoas consideradas loucas transitavam livremente pelo hospital, enquanto eu e os jovens tentávamos organizar o que seria um mini-culto no pátio com a devida autorização da direção.

Enquanto falava sobre o amor que Deus tinha pelo ser humano, um homem completamente nu se aproximou. Não sei porque os responsáveis pela segurança não o impediram de fazê-lo. Afinal, havia moças de família entre nós. Todos ficamos visivelmente constrangidos. 

Fingi que não o vi, e continuei a minha pregação, enquanto ele assistia em completo silêncio.

De repente, ele me interrompeu, dizendo não crer em nada daquilo que eu estava pregando. Embaraço, tentei prosseguir em meu raciocínio, mas ele novamente me interrompeu, dizendo algo mais ou menos assim:

- Como posso crer no que você diz? Se é verdade que vocês estão aqui porque nos amam, por que vocês me vêem nu, e não fazem nada. Você está aí, todo perequetado, bem vestido, enquanto eu estou aqui com frio. Agora vem me dizer que Jesus me ama? Que vocês se importam? Tudo não passa é de balela!

Depois desta, não dava pra continuar pregando. Seu argumento conseguiu me calar. A vontade que tive foi de tirar minha roupa ali mesmo, e vesti-lo, para que soubesse o quanto nos importávamos com seu estado.

Chegando à igreja, reuni os jovens, inclusive os que não puderam ir comigo, e os desafiei:

- Se é verdade aquilo que pregamos, então vamos nos mobilizar e na próxima semana, levaremos roupas para os internos daquela instituição.

Este episódio foi crucial para a formação de minha consciência social. Não basta pregar com palavras, temos que pregar com nossas obras. Não basta apontar o dedo e chamar os homens de pecadores, temos que estender a mão e demonstrar o quanto nos importamos com sua condição.

Hoje, dia 29 de Janeiro, nossa igreja no Rio estará promovendo mais um dia dos braços estendidos. Através desta singela campanha, já conseguimos levar centenas de pessoas para doar sangue no Hemorio. Desta vez, nosso objetivo é ajudar às milhares de vítimas da tragédia na região serrana do Rio. 

Caso você esteja lendo este post ainda pela manhã, e more no Rio, quero convidá-lo a estar conosco ali. Não se trata de proselitismo, mas de um gesto de amor. Se você é pastor ou líder de uma comunidade, eu o encorajo a promover algo semelhante. Mesmo que isso não se reverta em novos membros para sua igreja, ou traga qualquer benefício palpável, saiba que aos olhos de Deus, bem como aos olhos dos homens, a mensagem anunciada em sua igreja terá maior credibilidade. 

Infelizmente, desta vez eu e minha esposa não poderemos participar pessoalmente, por conta da distância, devido ao fato de estarmos residindo no Exterior. Mas estaremos orando para que através desse gesto muitas vidas sejam poupadas.

Parabéns Wilton pela iniciativa. Parabéns povo reinista pela coragem e pelo comprometimento com a mensagem subversiva do Amor. 




quinta-feira, setembro 02, 2010

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Por um fio… A aventura para tirar minha habilitação nos EUA

drive license Ontem tive um dia atípico. Saí cedo de casa para tirar minha driver license (carteira de motorista). Já estou aqui há quase um ano e meio, e só agora pude cuidar disso. O que me preocupou foi assistir a uma palestra dirigida por advogados especializados em Imigração para os pastores brasileiros aqui da Flórida. Quando os ouvi dizer que se alguém fosse pego dirigindo sem habilitação poderia ser deportado, saí dali determinado a não deixar passar mais nem uma semana sem resolver o problema. Não foi displicência minha. Eu já havia tentado tirar minha habilitação antes, mas me negaram porque meu processo de mudança de status em meu visto ainda não havia terminado. Evitando cometer qualquer deslize, continuei a dirigir apenas com minha carteira do Brasil. As regras aqui sempre mudam. Da outra vez que morei na Flórida, soube que podia dirigir com a habilitação do Brasil por seis meses. Agora soube que o tempo regular é de trinta dias. E o pior é que desde que aqui cheguei em Abril do ano passado, já fui parado duas vezes pela polícia. Na primeira vez, estava numa estrada federal, viajando com minha família e chovia muito. Fui parado porque as lâmpadas que deviam iluminar minha placa estavam queimadas. Talvez tenham se queimado por causa da chuva. Como eu estava recente aqui, não tive problema com a habilitação. O policial foi até compreensivo e me liberou sem multa. Já na segunda vez que fui abordado, estava estacionando no banco, e um policial de moto parou ao meu lado e pediu minha habilitação. Muito educado, me disse que eu havia feito retorno em um lugar proibido. Aquela rua estava em obras, e não observei isso. Foi ele que me disse que eu não poderia estar dirigindo sem a habilitação do estado da Flórida depois de trinta dias que estivesse aqui. Vendo minha situação e desinformação, também quebrou meu galho e me liberou, sem nem ao menos me multar. Em pensar que ele poderia ter me deportado…

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

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Hoje completamos 25 anos de namoro

Um culto nada convencional. Depois de ler um livro de autoria do Rev. Caio Fábio, meu pai resolveu convocar todas as congregações de seu ministério para falar sobre aborto. Sinceramente, não imaginei que o assunto despertasse tanto interesse. A igreja ficou superlotada. Algo em torno de mil e quinhentas pessoas. Difícil foi encontrar canções que combinassem com o assunto em questão. Em vez de liderar o vocal, naquele dia preferi alternar entre a guitarra e a bateria. Meu pai, como sempre muito inspirado, pregou usando recursos cênicos, como pequenos caixões que representavam as milhares de crianças vítimas de aborto a cada ano no Brasil.

De repente, enquanto tocava bateria, notei um olhar em minha direção. No meio da multidão, destacava-se uma linda morena, vestida com uma blusa verde água, de olhos graúdos e nariz arrebitado, que assentada ao lado de sua mãe, conseguiu roubar minha atenção. Sua beleza ímpar e natural me deixou atordoado.

Notei que outros rapazes do grupo de louvor também ficaram interessados. Por isso, tão logo terminou o culto, tratei de avançar multidão a dentro e me aproximar antes que chegassem os 'gaviões'.

Lembrei que tinha acabado de receber da gráfico meus cartões de apresentação. Não titubeei. Tirei um do bolso e lhe ofereci dizendo: Meu nome é Hermes, de onde você é?
Meio sem graça, ela respondeu: Sou Tânia e moro em Paciência. No cartão de papel madeira vinha escrito: "Mais triste que um sorriso triste é a tristeza de não poder sorrir". Fiquei imaginando: - Será que consegui impressioná-la? Perguntei-a: Você volta semana que vem? Ela olhou pra sua mãe, sem saber que resposta dar. Só faltei implorar: Volta sim! Quero falar com você.

Saí dali pensando: Onde fica Paciência? Como faço pra chegar lá?

Uma semana depois, estava impaciente. O culto já havia começado a quase meia-hora, e nada da linda morena chegar. De repente, lá vem ela, mais uma vez ao lado de sua mãe.

Não consegui tirar os olhos dela uma única vez. Durante o ofertório, sinalizei com os olhos para que ela viesse à cantina da igreja me encontrar.

Pela primeira vez peguei em sua mão. Pedi seu endereço e prometi que a visitaria ainda aquela semana. Dois dias depois, lá fui eu para um lugar do qual jamais ouvira falar. Ironicamente, ambos morávamos em lugares que tinham nomes de virtudes. Eu morava em Piedade, ela em Paciência. Entre esses bairros há uma distância de quase 50 quilômetros, e para chegar lá tinha que tomar dois trens.

Lá chegando, ela foi ao meu encontro na estação. Meu coração quase saiu pela boca quando a vi. Quis roubar-lhe um beijo, tão logo a vi, mas ela me deteve. No meio do caminho pra sua casa, encontramos sua mãe. Num rompante, irmã Delza me perguntou: - O que está fazendo por aqui, garoto? Procurando manter a compostura, respondi elegantemente: Desculpe-me, mas não sou um garoto. Vim pedir para namorar sua filha. Ela ficou tão nervosa por ver o filho de seu líder ali, que ao chegarmos em casa, ofereceu-me uma vitamina de mamão. Quando perguntou-me se havia gostado da vitamina, respondi que sim, mas que era a primeira vez que tomava com água, em vez de leite.

Quando eu e Tânia os vimos sós no terraço de sua casa, arrisquei novamente uma beijo, e desta vez consegui. Além de um pouco desencontrado, nosso primeiro beijo ainda me rendeu a perda de um ósculo escuro, que pressionado contra a parede, quebrou dentro da minha mochila.

Vinte cinco anos se passaram desde então, e nunca a amei tanto quanto agora. Tânia é minha eterna namorada, companheira idônea, amante, amiga, esposa e mãe.

Se pudesse voltar no tempo só corrigiria uma coisa: Teria caprichado mais naquele primeiro beijo.

sábado, dezembro 26, 2009

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Nosso Natal na América

Tivemos um Natal atípico este ano. A começar pela antevéspera, quando minha família e eu ficamos até uma da madrugada fazendo compras (alguns presentinhos e comida). Descobri que não é só brasileiro que deixa tudo pra última hora! O mercado estava cheio, tal qual acontece em nosso país. Fui reconhecido duas vezes por três pessoas que já haviam me assistido pregar numa igreja presbiteriana em Ocoee (New Hope Church).

Também descobrimos que algumas iguarias natalinas que são tão caras no Brasil, aqui são bem baratas, por não serem tão apreciadas. Por exemplo: compramos bacalhau cortado em filé por 3,69 dólares (mais ou menos 6,50 reais! dá pra acreditar?). Outros produtos como nozes são muito comuns aqui, e por isso, igualmente baratos.

Na véspera do Natal, recebemos em nossa casa o casal Rosie e Tony, ambos portorriquenhos, e a visita relâmpago de dois colegas de escola dos meus filhos, Rafael e Taíssa, ambos brasileiros.

Foi divertido assistir ao Pastor Carlos Eduardo de Marechal Hermes, RJ, conversando em espanhol com os nossos convidados. Não é que ele fala bem mesmo? Convenceu!

Depois de orarmos, agradecendo a Deus por nos haver enviado Seu Filho, e pedindo em favor de nossos irmãos espalhados pelo mundo, chegou o momento de compartilharmos daquilo que o Senhor proveu. Nossa ceia natalina foi uma mistura de pratos típicos do nosso país com pratos de Porto Rico. O peru feito por Tony estava suculento e delicioso. Um dos pratos que trouxeram é chamado "pastel", mas não lembra em nada o pastel que comemos com caldo de cana nas lanchonetes cariocas. Trata-se de um prato feito de banana verde, embrulhado com folhas como uma pamonha. Tive que provar uma bebida típica deles, que mistura entre outras coisas, ovos e canela. Desceu queimando!

Difícil foi fazer rabanada com pão cubano! Tânia e Revelyn bem que se esforçaram.

Na hora de compartilharmos os presentes, fui surpreendido por um presente inusitado: um GPS. Rosie que me presenteou! Já não precisarei consultar mapas e pegar direção no Google toda vez que tiver que sair para algum lugar desconhecido. Já me perdi muitas vezes! O GPS chegou em ótima hora, já que temos sido convidados para pregar em igrejas de outras cidades.

No dia 25, logo de manhã, fui à Igreja Luterana (Saint Luke’s Lutheran Church em Oviedo), onde o Bispo Bill Mikler congregou desde a infância. Lá chegando, encontramos Lisa, sua esposa, Amy e Christian, suas filhas, seu genro Jerry, e seus dois netos.

A igreja estava linda, devidamente ornamentada para a ocasião, com presépio, pinheiros, e muitas flores natalinas.

Na noite anterior, ligando para diversos pastores e amigos do Rio para desejar-lhes feliz natal, um deles, Pr. Martins, contou-me um sonho que tivera. Dois rios, um de águas claras e outros de águas turvas, se encontravam, formando um novo rio. Segundo ele, era algo como o entroncamento do rio Negro e o rio Solimões, que dão origem ao rio Amazonas. Ele me contara que por alguma razão sabia em seu espírito que um desses rios representava Lutero. O que ele não podia supor é que na manhã seguinte eu estaria, pela primeira vez, num culto luterano.

Lá estava eu, um bispo com sucessão apostólica pelas mãos de oito bispos episcopais, nascido numa igreja pentecostal (Assembléia de Deus), criado no berço do neo-pentecostalismo, e que abraçara a doutrina reformada a partir de uma experiência que tivera em Outubro de 1995, envolvendo sua filha especial. Com tantos ‘afluentes’, talvez eu representasse o rio Negro, com suas águas turvas. De fato, era como se dois mundos colidissem.

Tive que receber uma permissão especial para participar da Santa Ceia, de acordo com os regulamentos luteranos.

Desde a procissão com a Cruz, passando por todo o rito litúrgico, a homilia, a Comunhão, até a bênção apostólica, era como seu estivesse entrado numa máquina do tempo.

Emocionei-me com o choro compulsivo do Bill quando o coral começou a entoar um antigo hino eslovaco, que era cantado por seus ancestrais que migraram para os Estados Unidos há cerca de um século.

O que assisti ali não tinha nada de entretenimento. Não era um show, mas um culto reverente ao Deus que enviara Seu único Filho a este mundo para redimir o Seu povo.

É claro que como expositor da Palavra, preferia que a pregação durasse mais que os 17 minutos utilizados. Talvez uma canção contemporânea de adoração também ajudasse a contextualizar mais o culto. Mas devo confessar: embora fosse um culto litúrgico, seguindo uma tradição de cinco séculos, não cheirava a naftalina, pelo contrário, havia vida pulsando naquele lugar. Bem diferente do que muita gente pensa quando se trata de liturgia.

Acho que hoje se fechou um ciclo em minha vida ministerial. Já preguei e participei de cultos em muitas denominações diferentes, desde pentecostais, passando por presbiterianas, batistas, metodistas, comunidades, católicas, episcopais... só faltava mesmo a igreja luterana. Embora já tenha lido tanta coisa atribuída a Lutero, somente agora posso dizer que conheço um pouquinho mais da raiz do protestantismo. Quiçá, tenha se iniciado uma nova fase em minha trajetória ministerial.

Aquela visita me fez refletir por quase todo o dia sobre a beleza que há nas diversas expressões de louvor e adoração a Deus. Temos tanto que aprender uns com os outros. Breve estarei postando alguns artigos frutos desta reflexão.

Depois do culto, fomos ao cemitério da igreja, onde Bill e Lisa me mostraram onde foram sepultados seus antepassados. Fiquei a me perguntar qual seria a razão que impede que as igrejas brasileiras tenham seus próprios cemitérios. Como seria maravilhoso poder ser sepultado ao lado de outros irmãos em Cristo no mesmo lugar.

À noite, eu, minha esposa e filhos fomos à casa dos Mikler para a celebração natalina, mesmo lugar onde celebramos o Dia de Ação de Graças. Fomos recebidos lá como parte da família. A mesa estava ornamentada com um presépio em seu centro.

Fico feliz de dar aos meus filhos a oportunidade de inserir-se neste caldeirão cultural que os Estados Unidos nos oferecem. Estamos aprendendo muito com todos eles. Tanto os irmãos portorriquenhos (hispanos), quanto os americanos (anglos) têm contribuído substancialmente para que aprendamos a amar e respeitar às pessoas em seu próprio contexto social e cultural.

Apesar de toda esta experiência rica, a saudade não deu trégua. Saudade de nossa gente, de seu jeito festivo, do seu calor, de suas gargalhadas. Infelizmente não consegui falar com todos para os quais liguei. Provavelmente estavam na igreja, ou reunidos em casa de parentes. Mas valeu a pena tentar. Alguns nos atenderam emocionados, chorando de alegria e de saudade. Sorrimos com quem não conseguiu reconhecer nossa voz. Vibramos com a voz do Bispo Celso, nosso guerreiro. Choramos com a notícia da morte da filha de uma de nossas missionárias, Luciana, que tinha apenas 37 anos. Ela faleceu no dia 14. Que Deus conforte sua família. Emocionei-me ao falar com minha mãezinha. Que saudade!

Confesso que tive receio que Tânia, minha esposa, fosse tomada de tristeza quando se lembrasse que sua mãe já não está entre nós. Porém, tantas tarefas não permitiram que ela se deixasse tomar por este sentimento. Mesmo ligando para sua família, e sentindo profundamente pelo seu pai, logo se recompôs, dando vazão ao espírito natalino.

Só faltou a neve para alegrar um pouco mais as crianças. Mas querer neve aqui na Flórida já é pedir demais!

sexta-feira, dezembro 04, 2009

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O Mundo que me recebeu a 40 anos...

1969 foi um ano emblemático. Ano em que o homem pôs seus pés na Lua pela primeira vez. Neil Armstrong, o primeiro a colocar seus pés em solo lunar declarou: "É um pequeno passo para um homem, mas um gigantesco salto para a Humanidade". Pois foi justamente na efervescência desse ano que eu nasci.

O mundo que encontrei? Para se ter uma idéia, basta lembrar que foi nesse ano que foi realizado o maior festival de Rock da história na cidade de Woodstock, reunindo mais de quatrocentos mil jovens para ouvir nomes como The Who, Jimmi Hendrix e Joe Cocker. Não se tratava apenas de um concerto de Rock, mas também de uma reação da juventude contra a guerra. “Faça amor, não faça guerra”, era o lema daqueles jovens idealistas, que se deixaram embalar pela música dos Beatles e pela loucura inebriante das drogas.

As mulheres reivindicavam direitos iguais aos dos homens. Negros lutavam pelos direitos civis. Ícones como Martin Luther King e John Kennedy haviam sido assassinados.

Uma revolução cultural e social estava em andamento.

O Brasil vivia dias difíceis com a implantação da ditadura militar. Muitos artistas e intelectuais brasileiros estavam no exílio, perseguidos por causa de suas idéias subversivas.

Um mundo em ebolição. Foi este o cenário escolhido por Deus pra me receber no dia 5 de Dezembro de 1969, precisamente às 1:15 h da madrugada.

Naquela madrugada, em um bairro de São Gonçalo chamado Alcântara, uma parteira foi convidada a ir urgentemente à casa onde estava uma jovem de 19 anos chamada Mirian.

Numa casa humilde, cercada de goiabeiras e outras árvores, nascia Hermes Carvalho Fernandes, filho de um sapateiro chamado Cecílio e da jovem Mirian. Mamãe queria que eu recebesse nome de profeta, mas meu pai preferiu homenagear seu irmão que morrera ainda em tenra idade. Dada sua origem humilde, talvez não soubesse que “Hermes” era o nome de uma divindade alada grega, que fazia a ponte entre Zeus e os homens. Portanto, sem que eles soubessem, recebi nome de profeta. Ou não são eles, os profetas, arautos de Deus, tal qual fora Hermes na mitologia grega? Talvez eles também não soubessem que meu nome consta das Escrituras cristãs (Rm. 16:14).

Nasci ao som de hinos cristãos tocados por LPs que rodavam numa vitrola. Talvez seja esta a razão porque gosto tanto de música. A noite era chuvosa, o que explicaria minha afinidade com tempo nublado, e meu gosto pelo cheiro de terra molhada.

Sei que vim ao mundo com uma missão, e por isso, a exemplo do meu xará grego, tenho pressa e asas nos pés, para anunciar à humanidade o futuro glorioso que a espera.

Estou ciente do mundo que encontrei, mas estou mais preocupado com o mundo que deixarei. E se porventura, não conseguir deixá-lo melhor, espero pelo menos contribuir para não piorá-lo ainda mais, e inspirar as próximas gerações a prosseguirem nesta luta.