segunda-feira, julho 25, 2016

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LOUCURA: O que você faria por um grande amor?




Por Hermes C. Fernandes

Ele estava tão concentrado naquele que seria um dos mais épicos duelos registrados, que não percebeu que havia prêmios em jogo. Em sua mente, o que estava realmente em jogo era a reputação do seu Deus. Foi esta a sua motivação ao derrotar o brutamonte que afrontava o exército de Israel.

Após aquela memorável vitória, o menino anônimo é aclamado herói nacional. Um mero pastorzinho rouba a cena, ofuscando a glória do seu rei. Enciumado, o velho monarca busca uma maneira de eliminá-lo, sem que isso atente contra sua popularidade já em vertiginosa decadência.

Para os israelitas, os créditos da vitória eram de Davi. Mas para os filisteus, eram de Saul. Como reverter isso? Saul preferia que o seu povo lhe atribuísse a glória, enquanto os filisteus elegessem a Davi como seu inimigo #1.

Enquanto buscava um jeito de livrar-se de Davi, Saul lembrou-se de que Davi não havia cobrado os prêmios  prometidos a quem derrotasse Golias: riquezas, isenção de impostos para toda a sua família, e... a mão da filha do rei. Era como ganhar na loteria e não ir descontar o bilhete. Como que por um lampejo, Saul imaginou que se Davi tomasse sua filha como esposa, aparentando-se com a casa real, isso o tornaria num alvo prioritário dos filisteus.

A quem ponto chega uma mente maquiavélica! Usar a própria filha como arapuca para destruir um desafeto.

A princípio, a filha prometida seria Merade, a primogênita. Porém, Davi não demonstrou qualquer interesse. Talvez Merade não possuísse atributos estéticos que o atraíssem. Sua desculpa foi não se achar merecedor de ser genro do rei. Afinal, seu duelo contra Golias não tinha mesmo este objetivo. Desprezada por Davi, Merade acabou se casando com outro.

Chegou aos ouvidos de Saul que sua filha caçula, Mical, estaria apaixonada por Davi. Esta seria a grande chance de liquidar de vez aquela fatura. Desta feita, Davi argumentou que por ser de família pobre, não teria condição de pagar o dote requerido por uma princesa. Pelo jeito, Davi não havia requerido nem mesmo as riquezas prometidas a quem derrotasse o gigante. Mas Saul percebeu que rolava um clima entre Davi e Mical. Pelo que insistiu e estipulou um dote simbólico: cem prepúcios de filisteus.

Para Saul, aquela era a armadilha perfeita. Como seu candidato a genro conseguiria tal proeza? Que filisteu se deixaria circuncidar? Se Davi aceitasse o desafio, ele certamente seria morto.

Mical parecia valer a pena. Por isso, Davi não titubeou. Se este era o preço estipulado pelo pai, ele estava disposto a pagar. Reunindo seus homens, partiu em direção dos inimigos.  Como nenhum deles estaria disposto a ceder gentilmente o seu prepúcio, Davi não teve escolha, senão... você já sabe.

Dias depois, Davi volta trazendo o dobro de prepúcios estipulados por Saul. Em vez de cem, duzentos. Era como se dissesse a Saul: Sua filha vale mais do que você avaliou.

Se Mical era apaixonada, depois desta, ficou enlouquecida de amor. Como não amar a quem lhe atribuiu valor maior do que seu próprio pai?

De igual modo, o apóstolo Paulo afirma que fomos “comprados por bom preço, razão pela qual deveríamos glorificar a Deus em nosso corpo e no nosso espírito, os quais pertencem a Deus (1 Coríntios 6:20). Não que valêssemos alguma coisa. O pecado destituiu-nos da glória de Deus, de maneira, que perdemos nosso valor original. Porém, ninguém jamais nos amou como Ele. Em vez de prepúcios, Ele pagou nosso dote com o Seu próprio sangue.

Imagine se Davi resolvesse pechinchar. Em vez de cem prepúcios, ele ofereceria cinquenta ou até menos. Mas ele toma o caminho inverso. Em vez de desdenhar o ‘produto’, ele o super valoriza. Seria como se puséssemos um carro à venda, pedindo, digamos, vinte mil reais, e alguém nos oferecesse quarenta mil.

Cristo não pechinchou conosco! Não ofereceu contraproposta. Em vez disso, pagou o mais alto preço que alguém poderia pagar: Sua própria vida. Talvez por isso, Paulo se refira a isso como a "loucura de Deus" (1 Co.1:15). Seria isto uma loucura de amor?

O Escritor de Hebreus diz que Ele tinha em vista a “alegria que lhe estava proposta” (Hb.12:2). Ele sabia que valeria a pena cada gota de sangue, cada açoite, cada ferida. Isaías profetiza que Ele viria o resultado de Seu sacrifício e ficaria satisfeito (Is.53:11). Em outras palavras, Ele olharia para nós e diria: Valeu!

De acordo com Paulo, o resultado de Sua entrega por nós, seria uma igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível (Ef.5:27).

Foi pela igreja, o embrião da nova humanidade, que Cristo pagou tão alto preço. Não merecíamos nem ao menos Sua atenção. Porém, Ele se apaixonou por nós. Foi amor à primeira vista. Aliás, amor antes mesmo da primeira vista. Antes da fundação do mundo!

Não bastaria derrotar Golias! Davi tinha pagar o dote. Mical não seria apenas um prêmio, mas uma conquista de amor. Igualmente, não bastaria o que Jesus fez durante Seu ministério, Seus ensinos, Seus milagres. Sem a Cruz, seríamos apenas um prêmio em reconhecimento por Seu desempenho aqui na terra. Pela Cruz, nosso valor foi excedido. Ele não apenas remediou o prejuízo que o pecado nos causara, mas atribuiu-nos valor que não possuiríamos ainda que não houvéssemos pecado.

Abaixo, um poema que compus recentemente, intitulado "Loucuras por amor".


Que loucura tu farias por amor?
Que aventura viverias?
O que tu arriscarias?
Quanto que permitirias?
Como te explicarias?

Até onde tu irias por amor?
Quantas voltas tu darias?
O que desperdiçarias?
Que pressão aguentarias?
Que vergonha passarias?

De quê abririas mão por amor?
O que renunciarias?
O que denunciarias?
Que promessas cumpririas?
Quantas que tu quebrarias?

A que ponto chegarias por amor?
Que lágrimas derramarias?
Quantas que enxugarias?
Que sorriso estamparias?
Que alegria provocarias?

Quanta dor suportarias por amor?
Que humildade expressarias?
Quanto orgulho engolirias?
O que tu revelarias?
O que tu esconderias?

Que salto tu darias por amor?
Que palavra tu dirias?
Que silêncio tu farias?
Que sonho sonharias?
De que sono acordarias?

Que dogma questionarias por amor?
Que teorias contestarias?
Que interesses feririas?
Que perigo enfrentarias?
Que coragem exibirias?

O que tu perdoarias por amor?
Que pecado confessarias?
Que vida levarias?
Que morte morrerias?
A que sobreviverias?

Que canção tu comporias por amor?
Que poema escreverias?
Que preço pagarias?
Que riqueza desprezarias?
Que ordem subverterias?

Em que mar navegarias por amor?
Que rincões desbravarias?
Quantos céus tu riscarias?
Que pedido negarias?
Que desejo atenderias?

O amor está acima de regras e códigos.
Dentre outros sentimentos, se destaca entre os pródigos.
Abre vias e caminhos, nos coloca além dos pórticos.
Como rosas entre espinhos, se esconde nos acrósticos.
Depõe deuses do Olimpo, sejam gregos, sejam nórdicos.
Feito ouro no garimpo, desafia os agnósticos.

O amor é indomável, quando quer insiste, teima
É capaz do improvável, tanto arde quanto queima
Nossa vida é um vapor, dura tanto quanto a chama,

Mas sua luz e seu calor eternizam o que se ama.

* Não deixe de ler a continuação desta postagem nos próximos dias.

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