Mais uma lindíssima canção que se encaixa perfeitamente na perspectiva reinista do Futuro.
Deleite-se nesta melodia e em sua letra repleta de esperança.

Façamos a revolução

Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para frente uma vez mais, elevo, só, minhas mãos na direção de quem eu fujo.
Estou gravemente enfermo. Gostaria de manifestar publicamente minhas escusas a todos que confiaram cegamente em mim. Acreditaram em meu suposto poder de multiplicar fortunas. Depositaram em minhas mãos o fruto de anos de trabalho, as economias familiares, o capital de seus empreendimentos.
Estive estes dias em uma igreja em um dos morros do Rio de Janeiro envolvidos no caos do tiroteio nos últimos dias. Era um culto "comum" realizado nos dias de semana. Fui convidada por uma conhecida que é Missionária. Era uma sexta-feira comum, sem culto em minha igreja, não vi nada demais e fui. Pois bem... Qual não foi minha surpresa, quando em um momento do culto, que aliás estava uma bênção até aquele momento, entraram três jovens armados e sentaram no fundo do salão. Iniciou-se muitos "Glórias & Aleluias", não sei bem se por medo ou exaltação ao Senhor por aquelas vidas terem entrado em seu Templo.
Os olhares do mundo se voltam novamente para o Rio de Janeiro. Mas desta vez, não se deve à acirrada disputa para sediar as Olimpíadas de 2016, e sim à disputa entre facções criminosas. Trinta e três mortos contabilizados até agora. Um helicóptero da polícia derrubado pelo tráfico. Moradores de um morro descem às pressas, por causa de uma suposta invasão de bandidos da facção adversária.
Há uma frase encontrada em muitos adesivos de carro que diz: “Não tenho tudo o que amo, mas amo tudo o que tenho”. Pode parecer um algo inocente, e até coerente, mas no fundo expressa um dos maiores mal-entendidos da história humana. Trata-se da coisificação do amor. 

A diferença sempre foi vista com curiosidade ou estranheza. A cor de sua pele, por exemplo, pode tornar você um estranho em alguns cenários. Já seu poder aquisitivo ou sua educação têm a capacidade de fazer com que se destaque em determinados ambientes. Até mesmo seu estilo de adoração, a linha teológica que você adota ou sua preferência por algum partido político podem colocá-lo à margem – ou para além dela – em certos casos. A verdade é que ser, pensar, olhar ou agir de modo diferente da maioria pode empurrar determinado indivíduo para fora dos círculos sociais e religiosos.
Nasceu no Palácio de Herodes em Jerusalém, centro do poder judaico. Veio para o que era seu, e os seus o receberam, e com muitas pompas!
Aos doze anos já discutia novas rotas comerciais e estratégias de conquista com os conselheiros reais.
Seu primeiro milagre aconteceu num pomposo casamento na realeza. Transformou a água em suco de caju, não por haver faltado bebida na festa, mas apenas para dar uma gorjeta do seu poder. Poderia tê-la transformada em vinho, vodka, ou até whisky, se quisesse. Mas preferiu não escandalizar a ala mais conservadora e fundamentalista dos religiosos.
Aos 30 anos, foi batizado na piscina da cobertura do palácio, por um dos profetas badalados da época. Enquanto descia às águas, viu-se uma águia, símbolo de conquista, sobrevoar sua cabeça, e uma voz que bradou de algum lugar: Este é o cara! Vai e arrasa!
Saiu dali e foi para uma região praiana, tirar quarenta dias de férias antecipadas. Não precisou ser tentado em nada, pois nunca se negou bem algum. Transformou pedras em pizza, só pra se divertir. E ainda fez malabarismo no pináculo do templo, pra tirar uma onda com os sacerdotes. No final das férias, subiu um monte bem alto, avistou os reinos deste mundo e disse pra si mesmo: Tudo isso me darei!
Quando aproximado por algum gentio, do tipo daquele centurião que tinha um servo enfermo, dizia-lhe: Dá um tempo! Não vim pra vocês, seus impuros, idólatras e ignorantes. E mais: Nunca vi tanta petulância! Onde já se viu? Pedir por um serviçal! Além de gentio, é burro!
Ao deparar-se com um cobrador de impostos desonesto, que subira numa árvore só pra lhe ver, Gezuis lhe disse: Como é que é, meu irmão! Vamos ou não vamos dividir esta grana? Desce logo, que tô com pressa! Hoje convém me hospedar no melhor hotel da região.
Ao ser tocado por uma mulher hemorrágica, esbravejou: Tira essa louca daqui! Não sabe que a Lei proíbe qualquer aproximação de uma pessoa em seu estado? Imunda!
Por onde passava, seus discípulos estendiam um cordão de isolamento, para que leprosos, morféticos, cegos, endemoninhados, e todo tipo de gente asquerosa não ousassem se aproximar do Rei da cocada preta.
Diferente era o trato que dispensava aos fariseus e religiosos da época.
Venham a mim, todos os que querem alguma vantagem da religião. Vocês serão cabeça e não cauda. Comerão o melhor da terra! Unam-se a mim, e eu lhes farei milionários. Aprendam comigo, que sou malandro e esperto de coração. Espertos são os que riem da desgraça alheia. Espertos são os que gostam de ver o circo pegar fogo. Espertos são os que têm fome e sede de sucesso. Eu saciarei seu ego!
Quando procurado por um jovem rico, disse-lhe, sem o menor pudor: Quer sociedade? Vamos rachar esta grana? Vai ter um lugar especial no meu reino, garoto...
E quando entrou em Jerusalém montado naquele exuberante corcel branco 0 km? Foi tremendo! Não tinha pra ninguém!
- Cruz? Que cruz? Tá doido? Cruz é pra gente como Jesus, aquele nazareno nascido numa manjedoura. Eu vim pra ter vida, e vida com abundância. Quem quiser vir após mim, passa tudo o que tem pra minha conta, e me siga. Ou tudo ou nada! Ou dá ou desce!
Revolucionário? Que nada! Graças a um conchavo político feito às escuras com o Império Romano, Gezuis garantiu para si a sucessão de Herodes, e viveu muitos e muitos anos.
Ao morrer, farto de dias, Gezuis confiou seu legado a um grupo de discípulos seletos, que juraram que sua mensagem jamais seria esquecida, e que ao longo dos séculos, sempre haveria quem a promovesse em sua própria geração. Partiu ordenando que cada um dos seus discípulos lhe beijasse os pés, em sinal de submissão. E que aprendessem a se servir uns dos outros, e ainda se servir dos poderes constituídos, sem jamais criticá-los ou censurá-los.
Promessa feita, promessa cumprida.
Basta ligar a TV, o rádio, ou mesmo acessar a internet, para se dar conta de quantos discípulos de Gezuis ainda dão eco à sua voz.

Lá estava Paulo, no coração intelectual do mundo. Enquanto aguardava por Silas e Timóteo que vinham a caminho, o apóstolo dos gentios começou a enojar-se de toda aquela idolatria que imperava em Atenas.
Sua vontade era soltar o verbo, e esculhambar de vez com tudo aquilo. Sem conseguir se segurar, Paulo partiu pra sinagoga, e lá, num ambiente mais propício, ele esbravejou, discutindo com gregos e troianos, quer dizer, com judeus e gregos convertidos ao judaísmo.
Mas o caldo engrossou, quando chegaram os filósofos epicureus e estóicos. Espertos, trataram de tirar Paulo do ambiente religioso, e levá-lo para um ambiente secular, que, na opinião deles, não lhe era tão familiar. Com o apóstolo em desvantagem, eles poderiam “cantar de galo” em seu próprio terreno.
Levaram-no ao Areópago.
Quem ia à sinagoga, ia com a intenção de adorar ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó (pelo menos, em tese). Mas quem ia ao Areópago, ia em busca de novidades. O Areópago seria o equivalente à internet em nossos dias. Em outras palavras, 'terra de ninguém'.
Imaginemos que Paulo estivesse acompanhado de um crente legalista, do tipo com que a gente se esbarra por aí. Daqueles que se escondem por trás de uma fachada de santidade, ou por trás de um perfil falso na internet (fake), com direito a pseudônimo e tudo.
Vamos chamá-lo carinhosamente de “irmão Faísca”, ou Faisquinha (sonhando em ser “labareda” um dia...).
Vendo Paulo em maus lençóis, ele pensa com seus botões:
- E agora, Paulo? Como você vai se sair dessa? Mandar bem na sinagoga é fácil, quero ver como vai se sair num ambiente secular...
O irmão Faísca imaginou que, a julgar pela maneira como falava lá na sinagoga, Paulo perderia as estribeiras, e detonaria aqueles idólatras. Mas para sua surpresa, Paulo se revelou um getleman.
- Homem atenienses, já vi que vocês são muito fervorosos em sua religiosidade. Com estas palavras, Paulo iniciou seu surpreendente discurso. E continuou:
- Passando por um dos santuários da cidade, dei de cara com um altar que tinha uma placa onde se lia: AO DEUS DESCONHECIDO. Querem saber de uma coisa? É sobre esse Deus que quero falar com vocês.
Imediatamente, o irmão Faísca deu um passo atrás, e cochichou para outros dois dos seus companheiros, o irmão Recalcado e o irmão Cabideiro:
- Aonde é que Paulo quer chegar? Que estória imbecil é esta? Quem disse que esse “deus desconhecido” é o Deus de Jesus Cristo? Paulo tá doido? Tá trocando as bolas!
O Recalcado, tomado por uma revolta nada santa, acrescentou:
- Será que ele não sabe como se originou este culto bizarro? Ninguém contou pra ele que este deus desconhecido é só mais um ídolo idiota? E se é ídolo, por trás dele tem um demônio. Quando esta gente se dobra perante este altar, está adorando o capeta. E como Paulo pode endossar isso?
Indiferente às críticas do Faisquinha e seus colegas, Paulo prosseguiu em seu discurso. Em vez de atacar os “idólatras”, Paulo os acalentava, e assim, conquistava sua simpatia, garantindo que ouvissem sua pregação.
Gradativamente, o apóstolo introduzia as verdades eternas do Evangelho da Graça, sem espantar, nem criticar ninguém.
Se na sinagoga Paulo tinha sempre um ‘pega pra capar’ com os crentes judeus, no Areópago, ele parecia brando, porém firme em suas convicções.
Em poucos minutos, falou-lhes sobre a graça e a soberania de Deus.
Durante esta etapa de seu discurso, Faisquinha já estava mais calmo. Percebeu que apesar de ter dado aquele furo no início, Paulo já havia voltado para os trilhos, e agora, apresentava-lhes o genuíno Evangelho (Era assim que ele imaginava).
De repente, em vez de citar passagens bíblicas, extraídas do Antigo Testamento, ou mesmo palavras atribuídas a Jesus, Paulo resolve citar filósofos gregos.
Não se segurando em si, o Cabideiro soltou entre os seus amigos:
- Que é isso, Paulo? Assim você vai estragar tudo! Esses caras não sabiam o que estavam falando. Eles eram tudo satanistas. Nunca parou pra ouvir suas canções? Seja mais bíblico, mais ortodoxo, senão, daqui há pouco a turma lá da sinagoga vai lhe taxar de herege.
Eles bem que queriam ter dito tudo isso diretamente a Paulo, em alto e bom som. Mas como não havia um perfil fake naquela época, sob o qual pudessem emitir qualquer opinião, sem ter que se expor, preferiram ficar calados.
Conhecedor da cultura secular, Paulo cita de cor o verso atribuído aos poetas gregos:
“Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos. Como também alguns dos vossos poetas disseram: Somos também sua geração” (At.17:28).
Fico imaginando se isso houvesse acontecido hoje, quem seriam os poetas que Paulo citaria. Talvez citasse Cazuza, Renato Russo, Tom Jobim, sem se importar com o credo professado por eles.
O fato é que, ao final do seu discurso, vários se converteram à fé, inclusive o chefe do Areópago, chamado Dionísio (nome do deus do vinho).
Enquanto isso, o Faisquinha apagou, e seu sonho em ser um dia uma labareda, apagou-se juntamente com ele.
Uma das figuras que mais me intrigam nas Escrituras é João Batista, o primo excêntrico de Jesus. Quanto mais leio sobre ele, mais me identifico com sua história. Dentre os testemunhos que Jesus dá acerca do último dos profetas da Antiga Aliança, chama-me a atenção aquele em que diz: “João era a lâmpada que ardia e iluminava, e vós escolhestes alegrar-vos por algum tempo com a sua luz” (João 5:35).
O papel profético da igreja não se limita a denunciar os erros de nossa sociedade, mas também de apontar um caminho, anunciar um novo tempo.