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sexta-feira, fevereiro 09, 2018

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SADOMASOQUISMO: Você já sentiu prazer na dor?



Por Hermes C. Fernandes

A prática sadomasoquista se popularizou nos últimos anos devido ao best-seller “Cinquenta Tons de Cinza”, romance erótico de autoria da inglesa Erika Leonard James, que graças ao seu estrondoso sucesso, lotou as salas de exibição em sua versão cinematográfica. O primeiro livro da trilogia que é fenômeno entre as mulheres vendeu mais de dez milhões de exemplares nas seis primeiras semanas. Sem dúvida, um dos maiores fenômenos literários das últimas décadas, alavancando como nunca a venda de produtos sadomasoquistas nos sex-shops que se proliferam mundo afora.

O romance tem como personagem principal uma jovem de 21 anos chamada Anastasia Steele. Após entrevistar Christian Grey para o jornal da universidade, passa a ter um relacionamento nada convencional com o magnata. Em meio ao luxo, ele a introduz num mundo sádico, intentando torna-la sua submissa sexual. Em vez do colorido comum aos romances literários, eles se envolvem numa relação em que o sexo casual e sádico se revela em tons envolventes.

O sadomasoquismo[1] é a prática sexual em que o prazer é buscado por meio da dor. Envolve sadismo e masoquismo. O sádico ou sadista é o que tem prazer em provocar dor, sofrimento físico ou moral no parceiro sexual. O masoquista é o que tem prazer em sofrer essa dor. E há pessoas que têm prazer em ambas as práticas, isto é, tanto em sentir dor, quanto em provoca-la.

Os termos “sádico” e “masoquista” foram criados pelo psiquiatra austríaco Richard Freiherr von Krafft-Ebing no livro ‘Psychopathia Sexualis’ publicado em 1886. Atualmente, o termo BDSM é mais usado para definir o sadomasoquismo, sendo a sigla de Bondage [2], Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo.

Durante a relação sexual entre sadomasoquistas, o cortisol (hormônio relacionado ao estresse) dos submissos cai significativamente, de modo que a sensação de dor se torna em prazer. Além disso, a dopamina (neurotransmissor relacionado ao prazer) é liberada com estímulos causados pela dor.

O comportamento sádico ou masoquista independe de fatores genéticos, pode ser influenciado pelo ambiente familiar até os seis anos de idade. Pais agressivos e chantagistas podem reforçar esses traços nas crianças, que poderão ser desenvolvidos futuramente num relacionamento a dois. Para Freud, que foi um dos primeiros a discutir o assunto dentro de uma visão psicológica, o sadomasoquismo é patológico, e teria origem na infância. “Se a criança quando ainda pequena presenciar o intercurso sexual, ela inevitavelmente irá considerar o sexo como uma forma de subjugação. As crianças veem isso de uma maneira sádica.”[3]

Engana-se quem imagina que a dor seja o principal elemento na relação sadomasoquista. Em vez disso, o que torna a prática atraente para muitos é a consciência de que se está sob o completo controle do outro. Submissão é a palavra chave. Mas não confunda este tipo de submissão com o proposto no Evangelho, que significa tão somente dispor-se a servir ao próximo em amor. No sadomasoquismo, o dominador da relação impõe o que o outro irá ouvir, fazer, provar ou sentir. Algumas experiências envolvem derramar gotas de cera quente sobre o corpo do dominado, açoitamentos, cordas, algemas, espartilhos, humilhação sexual e gritos de dor e prazer.[4] Dentre as práticas, talvez uma das mais assustadoras para os não praticantes seja a asfixiofilia, também chamada de sufocação erótica, em que a pessoa sente um aumento de prazer ao ter a respiração interrompida na hora do orgasmo. Apesar de a maioria das pessoas relatar que a experiência teria sido melhor do que o sexo tradicional, o objetivo do sexo sadomasoquista não é o intercurso em si, nem mesmo o orgasmo, mas a catarse.

Geralmente, os praticantes de sadomasoquismo têm uma mala com uma série de objetos que visam tornar a atividade mais completa, tais como salto agulha, velas, pregadores para os mamilos, pênis e clitóris, algemas, roupas de couro, cordas, cadeados, fitas adesivas, tachas pontiagudas, chicotes, palmatórias, vendagens, etc.

O sadomasoquista não deve ser considerado um psicopata. Mesmo agressivo na cama, ele pode ser calmo e levar uma vida social normal fora dela. A prática do sadomasoquismo é mais frequente entre homens e mulheres instruídos, geralmente de classe média alta. Por muito tempo, os praticantes do sadomasoquismo foram considerados doentes mentais. Porém, em 1980 a Associação Americana de Psiquiatria removeu o sadomasoquismo da categoria de desordens mentais.  A comunidade de especialistas em saúde mental concluiu baseada em pesquisas, que sua prática não causaria danos reais, desde que as coisas não saiam do controle. Nesse caso, o sadomasoquismo se tornaria doentio. Bem da verdade, em termos de saúde mental, a prática sadomasoquista em si não torna o indivíduo pior nem melhor que os demais.

O senso comum acredita que o ser humano é programado para fugir da dor e buscar o prazer. Porém, o que se passa na vida real é bem diferente. Dor e prazer são sensações fronteiriças. Diversas atividades prazerosas do dia a dia envolvem certa dose de dor: corridas, exercícios físicos, tatuagens, piercings etc. A ligação entre dor e prazer é biológica. Toda dor faz com que o sistema nervoso central libere endorfinas – proteínas que agem para bloquear a dor e que funcionam de maneira semelhante às drogas como a morfina, gerando uma sensação de euforia. O hipocampo, centro de controle do sistema nervoso, responde aos sinais de dor ao comandar a produção de endorfina, uma espécie de “narcótico natural”, que além de bloquear a dor, estimula as regiões límbicas e pré-frontal do cérebro, que são as mesmas ativadas pela paixão e pela música.

As dores também causam um salto na produção de outro analgésico natural: a anandamida. Conhecido como o "químico da felicidade", o aminoácido se alia a receptores cerebrais para bloquear a dor e induzir as sensações de prazer. A adrenalina, também produzida em resposta à dor, contribui para a excitação através do aumento nos batimentos cardíacos.

Há uma linha tênue que separa a dor do prazer e que muitas vezes é deliberadamente atravessada.  Prazer e dor, alegria e tristeza não são apostos entre si, mas sensações que se mesclam. O sábio Salomão é quem afirma: “Até no riso o coração sente dor e o fim da alegria é tristeza.”[5]

Não seria o sadomasoquismo uma perversão sexual?

Segundo a psicologia, a perversão sexual é uma estrutura psicopatológica caracterizada pelos desvios de objeto e finalidade sexuais. A pessoa portadora de perversão sente-se atraída por aquilo que é, em geral, socialmente proibido ou inaceitável. Deve-se salientar, entretanto, que a psicologia só considera perversão quando o comportamento individual de excitação sexual somente se dá em resposta a objetos ou situações diferentes das consideradas normais, e quando esse comportamento interfere na capacidade do indivíduo de ter relações sexuais ou afetivas consideradas normais.[6] Atualmente, a Psicologia substituiu o termo “perversão”, que já tem um peso pejorativo no senso comum, e colocou em seu lugar o termo “parafilia”[7] para caracterizar a patologia, numa tentativa de amenizar o estigma que a palavra perversão coloca sobre a sexualidade humana. O que caracteriza a patologia é a fixação nas escolhas distorcidas de objeto e finalidade sexual. As fantasias são especializadas, de natureza repetitiva e que angustiam a pessoa de modo que ela fica compelida ao ato parafílico. É justamente seu caráter compulsivo que torna a parafilia na causa de um sofrimento significativo ou prejuízo na vida familiar, ocupacional e social da pessoa. Segundo a psicóloga clínica e terapeuta sexual Kátia Horpaczky, “na parafilia, os meios se transformam em fins e de maneira repetitiva, configurando um padrão de conduta rígido que, na maioria das vezes, acaba por se transformar numa compulsão opressiva que impede outras alternativas sexuais.”[8]

De acordo com algumas teorias psicológicas, algumas parafilias podem ser consideradas inofensivas, constituindo-se parte integral da psique humana normal, a menos que sejam dirigidas a um objeto potencialmente perigoso, nocivo ao sujeito ou a outros, representando prejuízo para saúde ou segurança dos mesmos, ou ainda, quando impedem o funcionamento sexual normal.[9]

Considerar um comportamento como parafílico depende muito das convenções sociais estabelecidas num determinado momento e lugar. A homossexualidade e algumas práticas tais como o sexo oral ou anal e até a masturbação já foram consideradas parafílicas, apesar de hoje em dia serem consideradas variações normais e aceitáveis do comportamento sexual. Por isso, é praticamente impossível elaborar uma lista definitiva de parafilias.

A masturbação, por exemplo, já não figura no catálogo de parafilias. Entretanto, o excesso de masturbação depois da adolescência ou o fato de alguém preferir esta prática ao contato com outro indivíduo pode configurar-se numa parafilia. 

O mesmo se dá com o sadomasoquismo. Se houver uma espécie de dependência desta prática, a ponto do indivíduo não obter prazer sexual senão através dela, ela poderá ser considerada prejudicial à sua saúde emocional, constituindo-se numa parafilia, ou se preferir, numa perversão sexual. 

Mesmo quem não é adepto do sadomasoquismo pode apreciar comedidamente certos gestos comuns em qualquer relação sexual convencional, tais como mordiscadas, tapinhas, leves puxões de cabelo, etc. Aliás, a vida sexual da mulher, via de regra, começa com a dor provocada pelo rompimento do hímen. A diferença entre quem pratica pequenos gestos dolorosos como os citados acima e um sadomasoquista está basicamente na intensidade e na entrega. Portanto, ninguém deve ter seu caráter julgado por apreciar alguma dosagem de dor durante a relação sexual. Parafraseando Paulo, quem come não despreze quem não come e vice-versa.[10] “Tens tu fé? Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova.”[11]




[1] De acordo com a Classificação Internacional de Doenças F65.5 o sadomasoquismo é considerado doença se apenas a atividade é a fonte de estimulação mais importante do casal ou é necessária para a satisfação sexual. O sadomasoquismo pode causar agressões, traumas e morte.
[2] Bondage é o nome da técnica onde o submisso é amarrado.
[3] Citado em PsychologyToday traduzido e adaptado por Psiconlinews. Postado em 29 de outubro de 2016 e consultado em 19/01/2018.
[4] Spanking é uma das práticas mais comuns entre os sadomasoquistas e consiste em bater no outro com palmatória e outros objetos.
[5] Provérbios 14.13
[6] KERNBERG, O. Perversão, perversidade e normalidade: diagnóstico e considerações terapeuticas. Revista Brasileira de Psicanálise, 32(1):67-82, 1998
7] Parafilia - do grego παρά, para, "fora de",e φιλία, philia, "amor"
[8] Em “Qual é o limite entre a fantasia e a perversão sexual?”, Revista Super Interessante versão online publicada em 28 de fevereiro de 2006. 
[9] São classificadas como distorções da preferência sexual na CID-10 na classe F65.
[10] Romanos 14.3
[11] Romanos 14.22

terça-feira, setembro 19, 2017

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Ser gay não é uma opção! - As razões biológicas da homossexualidade



Por Hermes C. Fernandes 

Em posts anteriores, abordei o preconceito sofrido pelos homossexuais, e defendi que a igreja deveria acolher respeitosamente a tais indivíduos. Mas a partir deste ponto, quero dar um passo além. Sei dos riscos que corro. Porém, não me vejo em condição de me acovardar ante o sofrimento de tantos por causa de sua orientação sexual. 

Como já tenho alardeado, homofobia é pecado. E quanto à homossexualidade, poderíamos dizer o mesmo? É pecado ser homossexual? O que diz a Bíblia acerca disso? O que dizem as últimas descobertas científicas? Sim, uma questão está intimamente ligada a outra, porque, se for comprovado cientificamente que a orientação sexual tem fatores biológicos, logo, teremos que rever o que tem sido dito acerca da homossexualidade em nossos púlpitos. Como Deus poderia condenar algo sobre o qual o indivíduo não tenha qualquer controle? Se o próprio Deus o criou nessa condição, que culpa lhe restaria? 

Por favor, em nome do amor, peço que leia as próximas linhas, não apenas com a mente aberta, mas, sobretudo, com o coração enternecido. Lembre-se de que poderia ser um filho seu. 

Vamos começar pela ciência. No próximo post, abordarei o tema sob o prisma bíblico. É verdade que ninguém nasce gay? Aquele papo de que não há gene gay procede? Quando alguém resolve sair do armário, ele ou ela se tornaram gay ou simplesmente resolveram assumir sua orientação sexual? Afinal, ser gay é uma opção ou orientação? Sejamos sinceros: alguém em sã consciência optaria por ser alvo de todo tipo de ódio e preconceito? Você consideraria isso uma opção razoável? A menos que, além de homossexual, fosse também masoquista. Se concluirmos que é uma opção, então, ninguém nasce nesta condição. Trata-se de um comportamento aprendido. Simples assim. Logo, Malafaia, Feliciano e Marisa Lobo estariam cobertos de razão. Tudo dependeria do ambiente e/ou da educação recebida. Porém, se concluirmos que é uma orientação, logo, teremos que admitir que se trata de uma condição inata. 

O fato de alguém ter sido violentado quando criança explicaria sua homossexualidade? Será que todo gay foi molestado na infância? E os que por ventura foram violentados, não o teriam sido por já manifestarem trejeitos que acabaram atraindo os predadores? Veja: não se trata de culpá-los pela violência sofrida. Nada justifica esta monstruosidade. O fato é que meninos com trejeitos femininos podem atrair a atenção de pedófilos, tanto como meninas. Pais que têm filhos homossexuais deveriam redobrar sua atenção e orientar seus filhos a evitar contato com pessoas que demonstrassem tal índole. Mas, afinal, o que diz a ciência?

Estudos biológicos indicam que a formação da sexualidade acontece antes mesmo do nascimento. Parte disso se deve aos genes, mas também há fatores que atuam no desenvolvimento do feto. Bem da verdade, não há nada comprovado. Entretanto, as evidências que estão surgindo a cada dia têm potencial para provocar uma revolução no pensamento científico. Se forem comprovadas, podem subverter o entendimento que temos acerca da homossexualidade, fazendo com que deixemos de encará-la como um comportamento antinatural, e, por conseguinte, pecaminoso.

Entre os séculos 19 e 20 a psiquiatria considerava a homossexualidade como um transtorno mental resultantes de uma educação equivocada. Se tal teoria fosse comprovada, então, seria plausível acreditar numa reversão da homossexualidade, bastando que o indivíduo fosse submetido a terapias baseadas em teorias de condicionamento. Em 1973, a Associação Psiquiátrica Americana decidiu tirar de sua lista de distúrbios mentais a atração sexual por pessoas do mesmo sexo. A partir daí, o termo homossexualismo foi substituído por homossexualidade, uma vez que o sufixo “ismo” denotava doença. Em 1991, o neurocientista Simon LeVay afirmou ter encontrado diferenças em cérebros de homens gays e héteros, depois de examinar o hipotálamo, zona cerebral responsável pela sexualidade, e descobrir que a região chamada INAH-3 era entre duas e três vezes menor nos homossexuais. Aquela foi a primeira evidência da origem biológica da homossexualidade. LeVay acreditava que algo acontecia ainda no ambiente intrauterino que afetaria a sexualidade do indivíduo. [1] 

Surge, então, a embaraçosa questão: o que ocorreria para definir a orientação sexual e não apenas seu gênero? Haveria um gene gay? Em 1993, o geneticista Dean Hamer, do Instituto Nacional do Câncer nos Estados Unidos, percebeu que a ocorrência de gays era maior do lado materno das famílias. Sua descoberta chamou sua atenção para o cromossomo X. Com um escâner, Hamer viu que uma região do cromossomo X, chamada de Xq28, era idêntica em muitos irmãos gays. Pode-se dizer que em vez de descobrir um gene gay, ele encontrou uma tira inteira de DNA.[2] A conexão entre a orientação sexual e os genes sugeria que ninguém escolhia ser homossexual, antes, tratava-se de uma condição congênita. Portanto, já não se podia dizer que a homossexualidade seria antinatural. Pelo menos, não à luz das descobertas científicas. 

Não obstante, pesquisas mais recentes dão conta de que a homossexualidade transcende o componente genético. A maior evidência disso é o caso de gêmeos, onde, apesar de serem geneticamente semelhantes, apenas um desenvolve a homossexualidade. Ora, se a causa da homossexualidade fosse estritamente cromossômica, os dois deveriam apresentar a mesma orientação sexual. Todavia, de acordo com os pesquisadores americanos Michael Bailey e Richard Pillard, entre gêmeos bivitelinos, quando um é gay, o outro teria 22% de possibilidade de ser gay. Já entre univitelinos, a probabilidade é maior que o dobro: 52%. Considerando que a taxa entre a população estaria entre 2% e 5%, fica provado a existência de um componente genético na homossexualidade.[3] 

Entretanto, fica igualmente provado que os genes não são a resposta para tudo nesta questão. Segundo o pesquisador Alan Sanders, os estudos com gêmeos sugerem uma estimativa de que até 40% da orientação sexual deva-se à influência genética. E quanto aos outros 60%? Uma possível resposta seria o desenvolvimento biológico do feto no ambiente intrauterino. De acordo com uma das mais promissoras pesquisas neste campo, os hormônios sexuais masculinos (andrógenos) se conectam às partes responsáveis pelos desejos sexuais no cérebro, influenciando seu crescimento, tornando o cérebro mais tipicamente masculino ou feminino. A conexão dependeria das proteínas receptoras de andrógenos. Supondo que cada célula do cérebro fosse uma casa, as proteínas receptoras de andrógenos (AR) funcionariam como o portão que controla a entrada. A quantidade e localização desses portões variam entre homens e mulheres. O hipotálamo masculino tem mais ARs que o feminino, por exemplo. Segundo esta teoria, a homossexualidade nos homens seria causada por portões que restringiriam a entrada de andrógenos nas regiões responsáveis pela sexualidade, produzindo, assim, um cérebro submasculinizado. Já nas mulheres, esses portões facilitariam entradas maiores, produzindo uma estrutura supermasculinizada. Tudo, portanto, seria consequência do número de ARs de cada feto, que possivelmente estaria relacionado à carga genética. Apesar de os cientistas admitirem que se trata de um processo complexo, o fato é que as pistas da ação dos hormônios pré-natais estão por toda a parte, revelando-se até nos aspectos físicos. É importante ressaltar que os hormônios importantes na formatação da orientação sexual não são os que circulam no sangue nos adultos, e cujos níveis são iguais entre héteros e homossexuais, e sim os hormônios que atuaram durante a gestação. 

Fica desacreditada e descartada a hipótese de que o abuso sexual na infância seria a causa da homossexualidade, como também a que sugere que haja mais probabilidade de que haja gays em lares chefiados por mulheres ou entre filhos criados por casais de homossexuais. Dean Hamer conclui que os fatores biológicos (genes e hormônios) seriam responsáveis por mais de 50% da orientação sexual. Os outros quase 50% podem ser atribuídos a fatores psicológicos e sociais. Em outras palavras, a predisposição à homossexualidade vai se manifestar dependendo das experiências de vida da pessoa. Alguns indivíduos aprendem a sublimar, outros simplesmente se abdicam de sua sexualidade por uma causa maior. Estudo feito pelo Instituto Karolinska na Suécia, publicado em 2005, detectou através do escaneamento de atividades cerebrais que homossexuais homens apresentam resposta fisiológica aos feromônios do sexo masculino igual às mulheres heterossexuais, evidenciando claramente um componente biológico na orientação sexual. 

No mesmo ano, os pesquisadores Gleen Wilson e Qazi Rahm publicaram sua conclusão de que a orientação sexual seria determinada por uma combinação de fatores genéticos e atividade hormonal durante a gestação, e que as experiências posteriores na infância, bem como o ambiente familiar, a educação e a escolha pessoal teriam pouca ou nenhuma influência no assunto. [4] De acordo com os autores, homossexuais nascem homossexuais, e a proporção de indivíduos com esta orientação sexual na população mundial parece não variar significativamente. Em 1994, a Associação Americana de Psicologia declarou que a investigação científica sugere que a orientação sexual é determinada muito cedo no ciclo da vida, possivelmente antes mesmo do nascimento. 

Homossexualidade no reino animal 

Se o comportamento homossexual fosse antinatural como defendem alguns, como explicar o fato de ser tão comum no reino animal, envolvendo desde insetos até mamíferos? Pesquisa feita em 1999 pelo biólogo canadense Bruce Bagemihl [5]  revela que o comportamento homossexual já foi observado em cerca de 1500 espécies animais, desde primatas até vermes intestinais, e foi bem documentado em pelo menos 500 delas.[6] Dados atuais indicam que várias formas de comportamento sexual homossexual são encontradas em todo o reino animal.[7] Uma revisão das pesquisas feita em 2009 revelou que este comportamento é um fenômeno quase universal entre as espécies. Bem da verdade, apesar de indivíduos de centenas de espécies manterem relações sexuais com parceiros do mesmo sexo em ocasiões isoladas, poucos fazem disso uma rotina.[8]  Seu interesse pelo sexo oposto continua ao longo da vida. Portanto, não se pode classificá-los de homossexuais na acepção da palavra. 

Somente duas espécies exibem preferência pelo mesmo sexo pelo resto da vida, mesmo havendo parceiros disponíveis do sexo oposto: a espécie humana e o carneiro domesticado. No segundo caso, até 8% dos machos do rebanho preferem outros machos mesmo quando há fêmeas férteis por perto.[9] Em 1994, neurocientistas descobriram que os machos desta espécie tinham cérebro ligeiramente diferente do resto, com um hipotálamo menor, que é a parte que controla a liberação de hormônios sexuais.[10] Isso endossa o já citado estudo do neurocientista Simon LeVay que descrevia uma diferença entre a estrutura cerebral de homens héteros e homossexuais. 

Outro animal considerado um dos mais inteligentes e que mantém relações com indivíduos do mesmo sexo é o golfinho. Em um caso que chamou a atenção de muitos pesquisadores um par de golfinhos machos manteve um relacionamento por dezessete anos. 

Nem os leões, conhecidos como os reis da selva, escapam deste curioso fenômeno. Os leões africanos geralmente mantém haréns de fêmeas e exercem sua liderança através de uma hierarquia patriarcal. Apesar disso, uma porcentagem de leões africanos machos abandonam suas fêmeas para formar seus próprios grupos homossexuais. Os leões são reconhecidamente os felinos com o maior desejo sexual, o que não os impede de desenvolver este tipo de comportamento. Entre as aves, sabe-se que mais de setenta tipos acasalam-se com indivíduos do mesmo sexo, incluindo os fascinantes pinguins. 

O certo é que enquanto a homossexualidade está presente em tantas espécies animais, a homofobia só é verificada na espécie humana, e isso, para vergonha nossa. 

No próximo post falarei sobre a presença gay na igreja evangélica e o que dizem as Escrituras. Peço ao Espírito Santo que ilumine nossa consciência para que compreendamos as angústias sofridas por homossexuais, pelo simples fato de não se aceitarem como são, ou por não serem aceitos pelos que os cercam. Peço que as feridas em seus corações sejam cicatrizadas e a hemorragia em suas almas se estanque por completo. Que se sintam plenamente amados em sua condição. Que se entreguem inteiramente a este amor, de modo que possam viver dignamente, guardados de uma vida promíscua em que sejam tão-somente usados como objetos descartáveis. Que encontrem quem os ame de verdade, sem exigir que se mutilem, tendo sua integridade dissolvida para atender expectativas puramente moralistas. E que assim, vivam para a glória d'Aquele que os criou, enfrentando valentemente todo preconceito raivoso, mesmo aquele impingido em nome da religião.


[1] LeVay S. A difference in hypothalamic structure between heterosexual and homosexual men Science, 1991 
[2] HAMER, Dean H. et al. A linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation. Science, n. 261, 1993, p. 321-327. 
[3] BAILEY, J. Michael, PILLARD, Richard C. A genetic study of male sexual orientation. Archive of General Psychiatry, n. 48, 1991, p. 1089-1097 
[4] WILSON, Gleen, RAHM, Qazi, Born Gay: The Psychobiology of Sex Orientation, London, 2005 
[5] Bruce Bagemihl, Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity, St. Martin's Press, 1999. 
[6] Harrold, Max (16 de fevereiro de 1999). Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity The Advocate, reprinted in Highbeam Encyclopedia. 
[7] "Same-sex Behavior Seen In Nearly All Animals, Review Finds", Science Daily 
[8] Levay, Simon. Queer Science: The Use and Abuse of Research into Homosexuality. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 1996. 
[9] Levay, Simon. Gay, Straight, and The Reason Why The Science of Sexual Orientation. Cambridge, Massachusetts: Oxford University Press, 2011. 
[10] Roselli, Charles E.; Kay Larkin, John A. Resko, John N. Stellflug and Fred Stormshak. (2004,). "The Volume of a Sexually Dimorphic Nucleus in the Ovine Medial Preoptic Area/Anterior Hypothalamus Varies with Sexual Partner Preference". Journal of Endocrinology, Endocrine Society, Bethesda, MD 145 (2)

quarta-feira, agosto 05, 2015

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Para que um gay seja cristão tem que reverter sua orientação sexual?




Por Hermes C. Fernandes

Nesta semana, uma das mais badaladas igrejas do mundo protagonizou outro escândalo (Sim, não foi o primeiro!). Segundo uma matéria divulgada nas redes sociais, a Hillsong teria ordenado um casal de homossexuais como ministros de louvor de sua filial em Nova Iorque. Em menos de vinte e quatro horas, o pastor Brian Houston, presidente da igreja australiana, veio à público desmentir a matéria, afirmando que sua posição quanto à prática homossexual segue a ortodoxia evangélica, e que, tão logo os dois ministros de louvor admitiram seu relacionamento, foram afastados de seus postos. Fica a impressão de que, se eles não houvessem assumido sua orientação sexual e seu relacionamento não se tornasse público, teriam sido mantidos no cargo. Sem querer emitir qualquer juízo, confesso meu desconforto com posturas que beiram a hipocrisia. É cada vez mais rara uma igreja em que não haja homossexuais envolvidos diretamente com ministérios de louvor, dança ou teatro. Se eles se comportarem direitinho, ninguém vai implicar. Mas se forem atrevidos o bastante para assumir o que são, correm o risco de não apenas serem removidos do cargo, mas também serem excluídos do rol de membros da igreja. Estamos mais preocupados com a língua do povo e com a nossa reputação do que em comprar a briga deste segmento tão sofrido e discriminado.

Deixe-me relatar a conversa que tive com um colega de turma. Um rapaz com inteligência acima da média. Não raramente roubava a cena durante a aula de psicologia, explicando a matéria com mais desenvoltura que o próprio professor. Duas coisas percebi nele, mesmo antes de ter tido a oportunidade de conversar, uma pelo trejeito, e outra, pelo uso de certos jargões. Ele era gay e já havia sido evangélico. Num dia em que a professora atrasou-se para aula, tivemos a oportunidade de trocar ideias. Ele me confessou ter sido criado na igreja, chegando a ser presidente do grupo jovem. Quando percebeu-se homossexual, lutou bravamente para libertar-se (sic). Jejuou por um ano inteiro. Orou. Chorou. Participou de reuniões de libertação. Submeteu-se a sessões de exorcismo. Mas, nada. Ele continuava sentindo-se atraído por pessoas do mesmo sexo. Vendo que a igreja não se dispunha a acolher quem se assumisse como gay, ele resolveu se afastar. Aparentemente emocionado, contou-me que tentou recorrer a outras religiões. Frequentou centro de umbanda, templo budista, reuniões kardecistas, mas não conseguiu se achar. “O problema é que sou cristão”, confidenciou-me.

Desde que comecei a escrever sobre o tema em meu blog, já recebi muitos e-mails e mensagens in box de pessoas em crise por causa de sua orientação sexual. Algumas considerando tirar a própria vida, outras já teriam tentado suicídio várias vezes. É fácil julgar moralmente quando se coloca de lado o coração. Mas quando a gente se aproxima desprovido de preconceito, o coração se enternece. Principalmente quando se trata de um adolescente. “Poderia ser um filho meu”, ponderamos. O que dizer a esses indivíduos? Que não tiveram fé suficiente para se libertarem? Que não amam a Cristo o bastante para renunciar seus sentimentos “pervertidos”? Que encabeçam a lista dos que serão lançados no inferno?

Não reconheço área mais complexa da natureza humana do que a sexualidade. Quanto mais busco compreendê-la, mas percebo quão rasas são as abordagens que tentam dissecá-la. A situação se agrava quando adentramos a questão da diversidade sexual.

Respostas prontas ofendem a sensibilidade e a inteligência dos que se debruçam sobre o assunto. Já ouvi inúmeras vezes o argumento de que se Deus aprovasse a homossexualidade, não teria criado Adão e Eva, mas Adão e Ivo. De fato, só existem dois gêneros sexuais: macho e fêmea. Porém, os espinhos, cardos e abrolhos que passaram a crescer em nosso habitat desde o evento que a teologia chama de “queda”, também brotaram na própria natureza humana, afetando seus relacionamentos, seu comportamento, seu psiquismo. O mundo ideal ficou atrás do portão do paraíso. Condenados ao exílio, os humanos tiveram que aprender a lidar com as demandas de um mundo real, por vezes hostil à sua presença.

Sabiamente, Jesus nos descortina esta realidade ao abordar um dos mais delicados assuntos no campo do relacionamento humano: o divórcio. Segundo o mestre galileu, o divórcio não constava do plano original de Deus. Ele não apenas o reprova, como também o detesta (Ml.2:16). Mesmo assim, nos dias de Jesus, o divórcio havia se banalizado. Os homens estavam despedindo suas esposas por qualquer bobagem, e se justificavam na autorização dada por Deus através de Moisés (Dt.21:1).

Perguntado se era lícito ao homem divorciar-se da mulher por qualquer motivo, Jesus respondeu:

“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la? Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim.” Mateus 19:4-8

Repare na última frase: “ao princípio não foi assim”. O divórcio foi uma concessão divina em resposta a uma demanda humana em seu trânsito pelo mundo real. Não significa que Deus endosse tal prática. Porém, Jesus reconheceu a necessidade desta alternativa frente à dureza da natureza humana. Dizer que nem sempre foi assim equivale a afirmar que este não é o ideal de Deus para o ser humano. O ideal é que ele se case e continue casado com a mesma pessoa até o fim. O ideal é que o casamento seja monogâmico, indissolúvel e entre pessoas de sexos opostos. Todavia, nem sempre é isso que acontece. Temos, portanto, que tratar a situação de maneira realista.

Desde que atravessamos os portões do Éden, tantas coisas mudaram. E provavelmente, nenhum outro campo sofreu tantas alterações quanto o dos relacionamentos.

Recebi um comentário em meu blog que me chamou a atenção. Resolvi compartilhá-lo na timeline do meu perfil no facebook para saber o que as pessoas pensavam sobre o argumento apresentado; o que acabou originando um debate que me desafiou a pensar um pouco mais sobre o tema. Reproduzo abaixo o comentário postado por um anônimo:

"Diante destas investidas satânicas, fico a imaginar: o que seria da humanidade sem o nascimento de figuras ilustres e que, de fato, trouxeram algo de bom, de construtivo para a humanidade. Figuras como Albert Einstein, maior cientista do século XX, Martin Luther King, o símbolo máximo da luta contra uma das pragas do século XX, o racismo, Henry Ford, Ludwig van Beethoven, compositor alemão, enfim, a lista é imensa e nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Será que estas pessoas nasceram do nada? Ou nasceram de chocadeira? Com certeza que não, nasceram de um relacionamento amoroso entre um homem e uma mulher! NASCERAM no seio de uma família tradicional. Ainda dentro do meu círculo imaginário, pensei: e se a MÃE ou PAI destes defensores desta abominável aberração (DIVERSIDADE SEXUAL) tivessem optado por serem GAYS. Conclui que uma coisa seria certa, não estaria eu, neste momento, perdendo o meu tempo precioso escrevendo este texto.”

Imagino o prazer sentido pelo comentarista ao achar que estava dando a palavra final sobre a questão. Xeque-mate! Confesso que não perderia tempo respondendo a este infeliz comentário se não verificasse que é exatamente assim que muitos pensam.

Ora, o argumento usado poderia ser aplicado também em casos de esterilidade. Quem é incapaz de conceber filhos não teria o direito de se casar? Somente a concepção de uma prole justificaria nossa passagem por este mundo? E quanto aos celibatários? Quem opta pelo celibato estaria desperdiçando a vida? Convém lembrar de que o próprio Jesus era celibatário, juntamente com Paulo, João Batista e tantos outros. Portanto, se quiser combater a diversidade sexual terá que apelar a outro argumento, e espero que mais sólido.

Ademais, graças ao fato de muitos não poderem ter filhos biológicos, tantas crianças órfãs ou abandonadas puderam ser adotadas. 

Quanto à diversidade sexual em si, devemos considerar que muitos personagens proeminentes da história foram homossexuais. Não nos deixaram filhos, porém, deixaram-nos um legado valioso. Um exemplo disso foi Santos Dumont, de quem todo brasileiro se orgulha por ter inventado o avião, além do relógio de pulso (espero que ninguém resolva boicotar nenhum dos dois...rs). O pai da viação acabou se suicidando. Segundo alguns dos seus biógrafos, por ver sua invenção usada como arma na primeira grande guerra. Mas para outros, o que o teria levado ao suicídio foi uma depressão profunda devido à sua sexualidade.

Alan Turing, matemático e cientista da computação foi um dos responsáveis pela formalização do conceito de algoritmo, base da teoria da computação. Também foi o inventor da Máquina de Turing, precursora do computador moderno. Em sua condição de homossexual, Turing não deixou herdeiros, mas deixou um legado e tanto. Consegue imaginar um mundo sem computador?

Falta-me tempo e disposição para falar de tantos outros como o gênio Leonardo da Vinci, o conquistador Alexandre, o Grande, e Sócrates, o pai da filosofia clássica. Portanto, não se deve julgar o caráter ou a genialidade de um ser humano por sua orientação sexual.

Enquanto expunha tais fatos em minha timeline, surgiram várias questões. Uma recorrente é se acredito que um homossexual possa ter sua orientação sexual transformada. Em outras palavras, se um gay pode tornar-se heterossexual.

Primeiro, quero deixar claro que para Deus tudo é possível. Se Ele quiser, pode fazer nascer cabelo em careca, fazer um branco tornar-se negro ou vice-versa, e até possibilitar que um animal fale. Porém, tenho minhas dúvidas se haja n’Ele o interesse de realizar tais proezas.

O que me cansa é ver a exploração que se faz em cima do testemunho de pessoas que teriam sido homossexuais e que agora exibem seus cônjuges e filhos como prova de que foram transformadas, apesar de algumas manterem trejeitos efeminados (não há aqui juízo de valor).

É um crime impor a um gay que mude sua orientação sexual para evidenciar sua conversão. Conheço casos em que a pessoa contraiu matrimônio por pressão da igreja, e tempos depois não havia nem sequer consumado o ato. Nesses casos, acho bem mais louvável que se abdique voluntariamente de uma vida sexual ativa por amor à causa do evangelho. É mais honesto do que forjar uma transformação. Porém, isso jamais deveria ser imposto a ninguém. É desumano.

Há, todavia, casos de pseudo-homossexuais que se tornaram o que, no fundo, jamais deixaram de ser, héteros. Algumas delas se lançaram na prática homossexual devido a contingências tais como abusos sofridos na infância, influências externas como amigos, mídia, cultura, educação, etc., mas jamais perderam o desejo por pessoas do outro sexo. Muitas acabam adotando um comportamento bissexual. Porém, em boa parte das vezes, o que ocorre é que a pessoa anuncia ter sido transformada, casa-se com alguém do sexo oposto, mas segue nutrindo desejos inconfessáveis por pessoas do mesmo sexo. Não ouso por em xeque sua conversão. Elas amam a Cristo e sentem-se amarguradas por terem que lidar com tais pulsões. Se ao menos a igreja fosse mais complacente, não haveria necessidade disso.

A igreja deveria ser aquele lugar de que Paulo fala: “Onde está o Espírito de Deus, aí há liberdade”. Não se trata de liberdade para viver promiscuamente, mas para ser o que se é, sem medo de ser rejeitado, olhado com nojo e preconceito. Em vez disso, a igreja se tornou num antro de discriminação. Os púlpitos destilam homofobia, e tudo, cínica e ironicamente “em nome do amor”.

Há, ainda, uma falácia que tem sido disseminada principalmente por pregadores televisivos: a de que ninguém nasce gay. E isso geralmente é dito como se fosse cientificamente comprovado. Para quem vive refém do ambiente eclesiástico, uma declaração como esta, não influi, nem contribui. Mas quem transita por outros ambientes, principalmente o acadêmico, tem que aturar piadinhas e insinuações grosseiras por conta deste tipo de posicionamento anacrônico e infundado.  

Se não quiserem dar ouvidos às últimas descobertas científicas, que ouçam o próprio Jesus que afirma haver ao menos três classes de eunucos: os que foram feitos eunucos (castrados para que pudessem cuidar dos haréns dos reis sem se constituir ameaça à integridade da rainha e de suas concubinas), os que se faziam eunucos pelo reino de Deus (celibatários como Paulo) e os que nasciam nesta condição, isto é, desprovidos de desejo por pessoas do sexo oposto. Pesquisas revelam que os eunucos eram, em geral, homossexuais.  Portanto, segundo Jesus, a homossexualidade pode ser de nascença.

No debate que fomentei no facebook, perguntaram-me se eu não pregava contra o homossexualismo e lesbianismo (sic). Respondi que prego contra o pecado que há em nós, em nossa natureza caída, e que se manifesta tanto na vida do homossexual, quanto na vida do heterossexual. Mas me recuso a entrar nesta campanha sórdida que a igreja evangélica tem travado com os gays, e que, no fundo, tem cunho político. Descobriram aí uma mina de votos. Se amassem mais às almas do que os votos, olhariam para a causa homossexual com mais compaixão e amor, em vez de fomentarem tanto preconceito e ódio.

Repito: creio que por amor a Cristo, tanto o gay, quanto o hétero, podem ofertar sua sexualidade, isto é, renunciar suas pulsões para dedicarem-se exclusivamente à causa do reino de Deus. Porém, não me vejo capaz de impor isso a ninguém. Paulo dizia que gostaria que todos fossem como ele, porém, reconhecia que cada um tinha recebido de Deus o seu próprio dom. Portanto, acredito num celibato consciente, fruto do amor e não de imposição de terceiros. O que me recuso a acreditar é que alguém possa mudar sua orientação sexual mediante pressões externas.

E, sinceramente, creio que a existência do homossexual serve a um propósito divino: por à prova nosso amor e desafiar nossos preconceitos.

Se Deus pode mudá-los? Quem sou eu para limitar o Seu poder? Ele também podia ter removido o espinho que havia na carne de Paulo, mas não o fez, alegando que a Sua graça deveria ser suficiente. 

* Este é o primeiro de uma série de posts sobre o assunto.