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terça-feira, abril 12, 2016

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Idolatria de Estado ou de Capital?




Por Hermes C. Fernandes

O Harging Bull é o maior símbolo de poder da bolsa de valores de Wall Street e é uma das atrações gratuitas mais visitadas pelo turistas em Nova York. A escultura de bronze idealizada por Arturo di Modica tem se tornado no símbolo do capitalismo americano. Muitos acreditam que esfregar a mão em seu chifre, focinho ou em seus testículos, atrai sorte, prosperidade e dinheiro. Turistas esperam horas em filhas gigantescas para tirar fotos agachados apalpando os testículos do touro. Crendices às parte, o fato é que, para quem conhece um pouco das Escrituras, é impossível não associar o símbolo do capitalismo com o bezerro de ouro confeccionado pelos hebreus enquanto esperavam por Moisés que se demorava no monte para receber das mãos de Deus as tábuas da Lei. Seria o capitalismo uma espécie de ídolo moderno?

O momento político em que estamos vivendo tem o mérito de trazer de volta questões ideológicas para o centro das atenções, fomentando discussões acaloradas em torno de quais seriam as atribuições do Estado e os limites de sua atuação. Distinções antes consideradas superadas voltaram à cena. Termos que já não inspiravam qualquer ameaça são agora considerados abomináveis por alguns setores mais reacionários da sociedade. "Esquerdopatas!", grita um tele-pastor conhecido por suas posições anacrônicas. "Petralhas!", "comunas!", brada o pastor blogueiro. Como se não bastasse o uso de expressões chulas, tentam espiritualizar o debate, tratando seus oponentes como verdadeiros hereges. 

De acordo com alguns cristãos conservadores identificados com a ala direita do espectro ideológico, os esquerdistas atribuiriam ao Estado papéis divinos. Em sua opinião, não competiria ao Estado prover educação, saúde, programas assistenciais, nem tampouco tentar regular a economia. Agindo assim, o Estado estaria usurpando o lugar de Deus. Todavia, por trás deste discurso aparentemente piedoso se esconde motivações nem sempre louváveis. Mesmo um conservador não cristão vai defender que não é justo usar seus impostos para socorrer os menos favorecidos. Já os do outro lado do espectro pensam de maneira inversa. Compete ao Estado diminuir a distância entre as classes, tirando das mais abastadas através de impostos, e provendo serviços que beneficiem a todos, sobretudo, aos mais necessitados.

Para o cristão de direita, o papel do Estado se limita ao que Paulo sucintamente apresenta em Romanos 13:

“Porque os magistrados não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira contra aquele que pratica o mal.” Romanos 13:3-4

Resumindo: Estabelecer a ordem, coibindo o avanço da maldade através do uso da lei e da força, julgando e punindo os criminosos. Isso justificaria forte investimento em segurança através do aparelhamento das forças armadas e das polícias. Um ambiente seguro garantiria um terreno fértil para o desenvolvimento de outras atividades e, consequentemente, a prosperidade da sociedade.

Se observarmos mais atentamente o texto, perceberemos que o papel do Estado vai além de garantir segurança aos seus cidadãos. Ele também deve ser ministro de Deus para a promoção do bem. Portanto, não basta coibir o mal, tem que promover o bem. E o que abrangeria este “bem”? Poderíamos incluir a saúde, a educação? E mais: o Estado deveria igualmente estimular a livre iniciativa que vise o bem comum? Creio que com base neste texto, a resposta é um sonoro sim. Receber louvor do Estado nada mais é do que receber estímulo, incentivo, inclusive de ordem econômica. Estimula-se o desenvolvimento de uma sociedade provendo-lhe educação, qualificando profissionalmente os seus cidadãos, investindo em pesquisas.  Estimula-se o progresso econômico através da desburocratização, e de incentivos fiscais, desonerando serviços essenciais à população, viabilizando o crédito, incentivando a produção.

Não se trata de atribuir ao Estado papéis divinos e sim de conferir-lhe o papel que as Escrituras lhe atribuem: ser ministro de Deus. 

Lutero costumava dizer que Deus age no mundo através de dois braços, o Estado e a Igreja, a Lei e a Graça. Como promotor do bem comum, compete ao Estado contribuir na distribuição de renda. Jamais foi plano de Deus que as riquezas deste mundo fossem concentradas em poucas mãos. A justiça do reino de Deus se caracteriza, sobretudo, pela distribuição equitativa dos recursos. Por isso, Paulo nos fala de um Deus que espalha, dá aos pobres, de modo que, "a sua justiça permanece para sempre” (2 Coríntios 9:9). Tanto a igreja, quanto o Estado têm a obrigação de ser agentes de Deus para espalhar, e não para concentrar. Não se trata de ser uma espécie de Robin Hood, que tira dos ricos para dar aos pobres. A propriedade privada deve ser garantida. O primeiro a comer do fruto do seu trabalho é aquele que o produziu (confira 2 Tim.2:6). Todavia, ser o primeiro não significa ser o único. Paulo nos adverte a trabalhar, “fazendo com as mãos o que é bom”, para que tenhamos “o que repartir com o que tiver necessidade” (Efésios 4:28).


A diferença entre o Estado e a igreja é que o primeiro age por força da lei, enquanto a igreja promove o bem através da conscientização. O Estado não pode me obrigar a partilhar os meus bens com quem quer que seja. O que ele pode e deve é usar os meus impostos para beneficiar a todos, sobretudo aos mais necessitados. Porém, cabe à igreja conscientizar-nos da importância da partilha. Não uma partilha imposta por lei, mas voluntária, motivada pelo amor. O Estado coage pela força. A igreja constrange pelo amor. O Estado impõe. A igreja propõe. O Estado busca prevalecer-se. A igreja, compadecer-se.

A igreja primitiva serve-nos de modelo de uma sociedade justa. Somos informados que “era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns” (Atos 4:32). Consequentemente, “não havia, pois, entre eles necessitado algum” (v.34). Tudo era repartido entre eles. Não de maneira compulsória, mas por amor.

O Estado incentiva, a igreja motiva. O Estado distribuiu através de serviços pagos pelos impostos dos seus cidadãos, a igreja distribuiu através da partilha voluntária. O bem promovido pela igreja não se limita aos seus membros, ainda que estes lhe sejam prioridade. Paulo orienta a que enquanto temos oportunidade, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6:10). Porém, há aqueles que, motivados por amor, invertem esta prioridade. João dá testemunho disso ao afirmar acerca daquele a quem sua terceira epístola era endereçada: “Amado, procedes fielmente em tudo o que fazes para com os irmãos, especialmente para com os estranhos, os quais diante da igreja testificaram do teu amor” (3 Jo 1:5-6). Sem importar se priorizaremos uns ou outros, o importante é que façamos o bem a todos. E fazer o bem implica repartir.

Nosso maior problema não é o Estado. Se fosse, Paulo teria dito que o amor ao Estado é a raiz de todos os males. Em vez disso, ele diz que o amor ao dinheiro é que é a raiz de todos os males. É o capital, tão defendido por eles, que promiscui o Estado. 

Nem mesmo Jesus enxergava no Estado um rival a ser combatido. Pelo contrário, Ele diz que é possível ser fiel a Deus, e ainda assim, ser leal ao Estado. Basta dar a César o que é de César, porém, sem negar a Deus o que é de Deus. Não obstante, Jesus afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Na verdade, tanto o Estado quanto o Capital têm potencial de se tornar num ídolo. Mas deles, nenhum é tão voraz quanto o dinheiro. O amor a ele é a raiz da corrupção. Quando o Estado se torna na grande prostituta, o Capital é o seu cafetão.

Alguns alegam que o Estado não possui competência para atuar em certas áreas e que a prova disso seria o caos encontrado na saúde, na educação e em tantas outras áreas que deixam a desejar. Para estes, só haveria uma maneira de resolver o problema: privatização. Defendem, inclusive, que uma eventual privatização da Petrobrás, por exemplo, reduziria o preço do combustível. Interessante o argumento. Parece até que faz sentido. Porém, a experiência diz outra coisa. A telefonia foi privatizada e hoje pagamos mais pelo uso do celular que qualquer outro país do mundo. 

O buraco é bem mais embaixo. 

Qual a real razão de nossos hospitais e universidades públicas estarem sucateados? O que estaria por trás da educação de má qualidade? 

Tomemos como exemplo o SUS (Sistema Único de Saúde), que poderia ser considerada uma das maiores conquistas da sociedade brasileira, que já rendeu elogios até de Barack Obama, presidente dos EUA. O SUS foi criado para prestar atendimento universal e gratuito, sem distinção de classe ou categoria profissional. Obviamente, não interessa aos gestores dos grandes planos de saúde que algo como o SUS garanta atendimento de qualidade a todos. Quem pagaria uma fortuna a Amil, podendo recorrer à saúde pública, caso esta oferecesse um serviço de qualidade? Nas últimas eleições, os planos de saúde distribuíram R$ 52 milhões em doações para 131 candidaturas de 23 partidos diferentes. Eduardo Cunha, principal representante deste segmento no congresso, recebeu um "incentivo" de R$ 250 mil, repassados à sua campanha pelo Saúde Bradesco. Na hora de votar o orçamento para a saúde pública, a bancada eleita pela máfia dos planos de saúde vai trabalhar arduamente para sabotar qualquer tentativa de melhorar os serviços. O mesmo Eduardo Cunha que presidirá vergonhosamente a sessão que pretende destituir Dilma, foi relator de uma emenda que anistiava os planos de saúde em R$ 2 bilhões em multas (anistia semelhante a dada a pastores como R.R. Soares e Silas Malafaia. Leia sobre isso aqui). O deputado cujo bordão de campanha é "O povo merece respeito", assim que assumiu a presidência da Câmara, engavetou o pedido de criação da CPI dos Planos de Saúde, de autoria do deputado Ivan Valente (PSOL-SP). A desastrosa atuação de Cunha em favor dos Planos de Saúde mostra o quanto o financiamento de campanha determina os rumos das discussões das políticas públicas no país. O mesmo se dá com a educação. Colégios e Universidades privadas investiram milhões na eleição de representantes para sabotar o ensino público e assim garantir seus lucros galopantes. 

Se alguém acalanta a fantasia de que depois do impeachment da presidente, o país vai tomar um novo rumo, sinto em informar que está redondamente enganado. Se quisermos, de fato, que o país mude de rumo, precisamos urgentemente de uma reforma política que inclui o financiamento público das campanhas políticas, acabando de vez com esta orgia que mistura interesses públicos e privados. Somente assim, voltaremos a ter esperança de que o Estado cumprirá cabalmente seu papel de promover o bem comum em vez de aprofundar o abismo entre classes.

Não há regimes ou ideologias perfeitas. Creio que todos estão preparando o caminho para a grande síntese, o reino de Deus. É por ele que a humanidade tanto anseia. Nele a justiça e a liberdade, tão caros à civilização, finalmente se entrelaçarão. E o cupido que promoverá este encontro épico será o amor.


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Que tipo de revolucionário foi Jesus?




Hermes C. Fernandes


Quando se fala de revolução, pensa-se em um levante popular, rebelando-se contra autoridades constituídas, depondo governos, provocando divisões, instigando o ódio e a revolta. E não é por menos. Basta uma rápida verificada na História para constatar isso. Toda revolução política teve seus mortos, desaparecidos, desapossados de suas terras ou posições, etc.

Porém, ao falarmos de revolução, não estamos endossando tais coisas. Na revolução proposta por Jesus, ninguém sai machucado, destruído. Aliás, a expectativa dos discípulos era de que Jesus promovesse um levante contra Roma e as autoridades judaicas que havia se promiscuído com o Império. Mas Jesus propunha um tipo de revolução totalmente inversa ao que eles esperavam. Não uma revolução armada, mas uma revolução de amor. Existiria algo mais forte que o amor?

O Evangelho é, por si só, a mais subversiva mensagem jamais pregada. Vejamos alguns exemplos de seu conteúdo subversivo e revolucionário.

Talvez o mais subversivo sermão pregado por Jesus tenha sido o que ficou conhecido como Sermão da Montanha. Enquanto o senso comum acreditava que felizes eram os ricos arrogantes, Jesus afirma que felizes são os pobres de espírito. Se para eles felizes eram os que gargalhavam nos banquetes dos palácios, para Jesus, felizes eram os que choravam.

Neste sermão, o Mestre Galileu propõe uma ética totalmente inversa àquela disseminada pelos mestres da época.

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser demandar contigo e tirar-te a túnica deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas” (Mt.5:38-41). 

Ora, se isso não é subversivo, o que é, então?

Não se trata apenas de pacifismo, mas de amor.

“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (vv.43-44).

Em momento algum, Jesus endossou o estilo de vida vigente à época. Seu compromisso não era com a manutenção do Status Quo, mas com a introdução de uma nova ordem de coisas, onde o ser humano teria mais importância do que as instituições e tradições. Onde o sábado fora feito para o bem-estar do homem, e não o homem para o sábado.

Ele denunciou através de Seus ensinamentos a inversão de valores predominante naquela sociedade. Desferiu um golpe fatal no espírito consumista, colocando a avareza como oponente de Deus.

“Ninguém pode servir a dois senhores. Ou há de odiar a um e amar o outro, ou se devotará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (v.24).

Em outras passagens, Ele demonstra que no Reino de Deus as coisas funcionam de maneira inversa ao mundo. No Reino quem quiser ser o maior, tem que ser o menor. Quem amar sua própria vida, acabará desperdiçando-a, mas quem se dispuser a gastá-la por amor de Cristo, a reencontrará.

Ora, não há nome mais próprio para isso que subversão.

Infelizmente, a igreja cristã tem se promiscuído com o mundo, trocando os valores eternos do reino pelas propostas indecorosas feitas por um sistema apodrecido. Pastores, em busca de fama e reconhecimento, vendem-se e negociam os votos de seu rebanho.

Cristãos ajustaram suas crenças às agendas políticas e ideológicas. A verdade foi trocada por um prato de lentilhas, e pior, lentilhas podres.

Se antes corríamos o risco de colocarmos vinho novo em odres velhos, hoje há muitos odres novos, estratégias, marketing, estruturas eclesiásticas para todo gosto. Porém, o vinho está em falta. Os odres estão vazios. As igrejas estão cheias de pessoas vazias.

Creio que assim como a Reforma só aconteceu porque a igreja redescobriu o conteúdo subversivo das epístolas paulinas, a Revolução acontecerá quando a igreja redescobrir o teor subversivo dos Evangelhos, principalmente do Sermão da Montanha.

Em vez de gastarmos nosso tempo pregando invencionices humanas, retornemos à mensagem do Reino e do Amor de Cristo. Em vez de uma nova Reforma Protestante, necessitamos sim é de uma Revolução Reinista, isto é, centrada no Reino, e não em estruturas denominacionais.

domingo, abril 10, 2016

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Nem esquerda, nem direita: Livrando a Fé da Matrix Ideológica


Por Hermes C. Fernandes

O
teólogo alemão Rodolf Bultmann afirmou que o Evangelho, para manter-se relevante ao homem moderno, teria que passar por uma desmitologização, isto é, uma desvinculação da linguagem mitológica fartamente usada na antiguidade. Sem querer entrar neste mérito, creio o que o Evangelho necessita atualmente é de uma desideologização, que consistiria em desvinculá-lo de qualquer ideologia.

A ideologia tem sido motivo de rompimento entre muitos cristãos. Durante os primeiros anos do regime militar, muitos pastores entregaram colegas às autoridades, mesmo sabendo do risco de que fossem torturados sob a alegação de serem subversivos. Será que uma posição ideológica teria mais peso para nós do que nossa irmandade em Cristo? Como Jesus se comportaria nessas circunstâncias?

Teria Jesus abonado ou desabonado alguma ideologia vigente em Seus dias? Sabemos por fontes históricas, além da própria Bíblia, que naqueles dias o povo judeu estava dividido em vários partidos político-religiosos, entres os quais podemos destacar os fariseus, os saduceus, os zelotes, os essênios e os publicanos. De fato, como dizia o sábio escritor de Eclesiastes, não há nada novo debaixo do céu. Esses partidos já defendiam posturas que mais tarde seriam adotadas por ideologias modernas.

Os zelotes, por exemplo, eram um movimento político que procurava incitar o povo da Judeia a rebelar-se contra Roma e a expulsar os conquistadores através da luta armada. Foram eles os responsáveis pela Primeira Guerra Judaico-Romano entre 66 e 70 d.C., que culminou com a queda de Jerusalém. Eram considerados subversivos, insurgentes, dispostos a desafiar o status quo. Não vemos nenhuma crítica direta de Jesus aos zelotes, apesar de Seu discurso pacifista ser o inverso da proposta deles. Mesmo assim, um dos apóstolos de Jesus, “Simão, o Zelote”, era membro deste partido (Lc.6:15 e At.1:13). Eu diria que sua ideologia era o equivalente à extrema esquerda de nossos dias. Imagine, Jesus seguido por um discípulo chamado ‘carinhosamente’ de “Simão, o Comuna”.

Os zelotes eram considerados um partido clandestino e seus membros não tinham representação no sinédrio. O mesmo se dava com os essênios. Sob vários aspectos, os essênios eram extremamente progressistas, apesar de seu ascetismo e de viverem em comunidades separadas dos demais. Aboliam a propriedade privada (quer mais comunista que isso?). Defendiam que as mulheres tinham os mesmos direitos que os homens, podendo ser alçadas à posição de mestres. Acreditavam que a natureza, os seres humanos e todas as coisas vivas constituíam o verdadeiro Templo de Deus, e que Ele não habitava em santuários feitos por mãos de homens. Defendiam que as ofertas aceitas por Deus eram o partilhar da comida com os famintos, fossem homens ou animais. Assim como os crentes primitivos, os essênios tinham tudo em comum.  Jesus não disse uma só palavra contra este movimento. Alguns até acreditam que Jesus tenha sido influenciado por suas ideias e que João Batista fora um dos seus membros mais proeminentes.

Deixando a ala esquerda, consideremos a ala direita dos tempos de Jesus. Àquela época, grupos reacionários surgiram dentro da sociedade judaica, tentando restabelecer o seu prestígio e poder, ou pelo menos o que eles consideravam como certo segundo a Lei e as tradições judaicas. Entre eles, os saduceus, considerados como "pertencentes ao partido da estirpe sacerdotal dominante". Diferiam dos fariseus por serem mais abertos às influências helênicas (gregas). Formavam um dos dois partidos aceitos no sinédrio, e como tal, representavam os interesses da classe dominante. Talvez por sua hostilidade a qualquer coisa considerada sobrenatural, não há registro nas Escrituras de saduceus seguidores de Cristo.

Já os fariseus compunham o partido mais popular dentre os que tinham assentos no sinédrio. O termo “fariseu” (prushim, heb.) significa “separado”. Todavia, sua separação não envolvia ascetismo, como os essênios, pois julgavam ser importante o ensino das Escrituras e das tradições dos pais à população. Eram muito religiosos e respeitados na comunidade como pessoas que pautavam seu comportamento na ética e na moral. Jesus, entretanto, denunciou sua hipocrisia e formalidade. Apesar dos constantes pegas pra capar que Jesus tinha com eles, um dos Seus mais fervorosos discípulos pertencia a este partido: ninguém menos que Paulo, o apóstolo dos gentios.

O último grupo que gostaria de citar são os publicanos. Eram os responsáveis pela coleta de impostos para os romanos. Arqui-inimigos dos fariseus, os publicanos eram detestados pelos judeus e muitas vezes envolviam-se em corrupção cobrando das pessoas além do devido. Os Evangelhos relatam que alguns deles se converteram ao cristianismo, entre os quais Mateus, também chamado de Levi, que deixou o ofício para se tornar apóstolo, e Zaqueu (Lucas 19:1-10) que ao ser visitado por Jesus, fez questão de restituir a todos o que havia defraudado. Apesar da má fama dos publicanos, Jesus utilizou-os para ilustrar algumas de Suas mais importantes parábolas, entre elas a Parábola do Fariseu e do Publicano e a Parábola da Ovelha Perdida.

Imagine se Jesus diluísse Sua mensagem em qualquer uma das ideologias vigentes em Seus dias. Como Ele poderia congregar sob o mesmo teto, zelotes, fariseus e publicanos? Uns separatistas, outros inclusivistas. Uns a favor da propriedade privada, outros contra. Uns trabalhando por Roma, outros promovendo rebelião contra o império.

Em momento algum Jesus comprometeu o conteúdo de Sua mensagem com as agendas político-ideológicas do Seu tempo. Ele a manteve intacta. O que Lhe importava era a agenda do Reino de Deus. Por conta disso, salvaguardou Sua isenção profética. Se Ele Se deixasse levar pela pressão ideológica daqueles que O cercavam, certamente teria marchado para o palácio de Herodes, destituindo-o e assumindo o seu trono no dia em que foi recebido em Jerusalém ao som de “hosanas ao que vem em nome do Senhor!”. Foi justamente por não atender à demanda popular, que as mesmas vozes que O louvavam, vinte e quatro horas depois pressionavam no pátio de Pilatos para que este O crucificasse.

Temos tanto o que aprender com o Mestre! Constitui-se uma afronta fazer da pregação do Evangelho panfletagem ideológica, ou usar passagens isoladas das Escrituras para justificar suas preferências. Jesus não é garoto-propaganda de regime algum. Ele não é americano, nem cubano. Não é petista, nem tucano. Não é conservador, nem progressista. Não é socialista, nem neoliberal. Sua mensagem é comprometida com o idealismo, não com a ideologia, seja de esquerda, de centro ou de direita. Seu compromisso é prioritariamente com os pobres, mesmo que alguém o acuse de comunista. Porém, o mesmo Jesus que atende ao clamor de Bartimeu, o mendigo cego às margens do caminho, também atende aos anseios de Zaqueu, o publicano corrupto. Não confundam prioridade com predileção. O Cristo dos Evangelhos jamais fez acepção de pessoas. Ele é capaz de cercar-se de prostitutas em plena luz do dia e ainda atender a um figurão da sociedade na calada da noite. Ele perdoa os romanos que O crucificam, mas também demonstra importar-se com o destino da alma do ladrão crucificado ao Seu lado.

Ele não despreza homem algum, senão o arrogante, o presunçoso, o que se acha dono da verdade, e que em seu nome despreza os que pensam diferentemente dele. Todos têm o direito de ter suas predileções ideológicas. Mas não se enganem. Não há ideologia perfeita. Portanto, não vale a pena matar ou morrer por elas. Nem é de bom tom demonizar a ideologia do outro. Neste campo não há mocinhos ou bandidos. Ambos têm telhado de vidro. Todos os regimes produziram heróis e mártires, mas também algozes e torturadores. Protegeram interesses legítimos, mas às vezes, ao custo de vidas inocentes. Todos são bestas furiosas que devoram seus adversários, e, por vezes, seus próprios cidadãos.

Atribui-se ao nazismo a morte de vinte milhões de pessoas, e ao comunismo, cem milhões. E quanto ao capitalismo? Quantas vítimas fez e está fazendo até hoje? De acordo com “O livro negro do Capitalismo”[1], pelo menos cem milhões de pessoas foram mortas por causa deste sistema. Os tópicos abordados por este livro vão desde o tráfico de escravos africanos até a era financeira da globalização. Na lista incompleta de vítimas do século XX, Gilles Perrault[2] inclui 58 milhões de mortos da Primeira e Segunda Guerras Mundiais (ambas por motivos capitalistas), além de mortes nas várias guerras coloniais, repressões, conflitos étnicos, sem contar as inúmeras vítimas de fome ou desnutrição. Basta uma viagem à África atual para verificar do que o capitalismo é capaz. São milhões e milhões de mortos e famintos, vítimas da ganância e da exploração dos países desenvolvidos. Quando se quer criticar o comunismo aponta-se Cuba, com o seu atraso tecnológico, esquecendo-se que o mesmo se deve ao embargo econômico promovido pela a maior potência capitalista do mundo.

Há santos e pecadores, anjos e demônios em ambas as trincheiras. Se a esquerda produziu Lenin, a direita produziu Hitler e Mussolini. Não há sistema capaz de produzir a verdadeira justiça preconizada pelo Evangelho. Todos estão fadados a fracassar. O mesmo Cetro de Cristo que derrubou o Muro de Berlim, também derrubará a ganância de Wall Street. Não ficará pedra sobre pedra.

É perda de tempo ficar contabilizando para ver que regime matou mais, ou promoveu mais a prosperidade do seu povo. Cada regime tem seu próprio altar e sacrifício. Se um sacrifica a liberdade no altar da justiça social, o outro sacrifica a justiça social no altar da liberdade. Sempre alguém sairá ganhando enquanto outros sairão perdendo. É inevitável. Então, não queiram canonizá-los, tampouco demonizá-los. São simplesmente humanos, tão falhos quanto os que os criaram. Sabendo disso, por que nos digladiarmos com nossos irmãos na fé em nome de uma ideologia qualquer?

Parafraseando Paulo, se por causa de uma ideologia se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa de uma ideologia aquele por quem Cristo morreu (Rm.14:15). Posso até considerar que um irmão esteja enganado quanto à sua ideologia, mas isso não me confere o direito de pôr em xeque a sua integridade e fé.





[1]  Perrault, Gilles, O livro negro do Capitalismo, Editora Record, Paris, 1998
[2] Jacques Peyroles, mais conhecido como Gilles Perrault (Paris, 9 de março de 1931) é um advogado, escritor, jornalista e historiador francês que geralmente aborda temas políticos da relação do ocidente com outras regiões e culturas.

* Extraído do livro "Ao oriente do Éden" de Hermes C. Fernandes (à venda pelo blog).

quinta-feira, março 31, 2016

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Precipício à vista: Pastores entregam colegas para serem torturados


Por Hermes C. Fernandes

É assustador notar que depois de mais de cinquenta anos do golpe militar, boa parte da liderança evangélica brasileira sinta-se atraída pela possibilidade de que o país retroceda e volte aos "anos dourados" da ditadura. Razão pela qual resolvi postar novamente este artigo que oferece um vislumbre do que foram os anos que se seguiram e de quanto alguns setores da igreja evangélica se beneficiaram do regime, apoiando-o a ponto de pastores entregarem seus colegas para serem torturados.

Durante os primeiros anos do regime militar, os grandes centros do Brasil experimentaram uma enxurrada de pregadores norte-americanos. Com suas tendas portáteis, eles pregavam uma versão do evangelho diluída em ideologia capitalista, com discurso notavelmente fundamentalista e anti-comunista. Esses movimentos foram os matizes do neo-pentecostalismo brasileiro. Qualquer vertente protestante ou católica socialmente engajada era considerada subversiva, e por isso, tinha que ser combatida. Foi nesta mesma época que o Brasil importou dos EUA o movimento de renovação carismática da igreja católica.

Os militares, atendendo aos interesses do imperialismo americano, perceberam que uma religiosidade mais mística, que promovesse alienação nas camadas populares, inibiria a emergência de uma consciência crítica da realidade. A ênfase exacerbada nos dons espirituais, nas manifestações prodigiosas, somada a uma escatologia escapista, se incumbiriam de manter as pessoas distraídas, enquanto a agenda política americana fosse implantada na América Latina (o mesmo aconteceu no Chile e na Argentina). O fruto disso tudo é o estado atual em que se encontra a igreja brasileira. Lamentável. Deprimente. Para não dizer, desesperador.

Quanto aos pastores delatores, estes certamente achavam estar prestando um serviço à causa de Deus. Foram marionetes nas mãos dos poderosos. Desde então, a igreja evangélica brasileira vêm se promiscuindo, aliando-se às famigeradas oligarquias que têm governado este país desde as capitanias hereditárias, em vez de denunciar as injustiças, sendo voz profética em favor dos que não têm voz.

Temo que a presente animosidade que tem dividido nosso povo tenha chegado também à classe pastoral, e que isso possa gerar disposição semelhante a de outrora; se não de entregar colegas à prisão, pelo menos usar as redes sociais e os púlpitos para desmoralizá-los pelo simples fato de não esboçarem uma visão reacionária ou por não apoiarem o impeachment de Dilma Rousseff. Deixa-me perplexo ver homens que têm dado uma grande contribuição à evangelização do país sendo vítimas deste patrulhamento ideológico, execrados por companheiros que antes os apoiavam. Eu mesmo já recebi comentários inusitados em minhas páginas nas redes sociais. Fui chamado de patife, esquerdopata, comunista, e o pior de tudo é que isso partiu de irmãos em Cristo. Eles apenas repetem exaustivamente o que ouvem de seus gurus e mentores espirituais. Se, de fato, almejamos dias melhores, temos que aprender a conviver com o contraditório, sem nos ressentir nem sair por aí ofendendo a quem quer que seja. Por favor, mais amor, menos rancor. 

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O Ato Institucional Número Cinco foi o quinto de uma série de decretos emitidos pelo regime militar nos anos seguintes ao Golpe militar de 1964 no Brasil. Redigido pelo Presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968, veio em represália à decisão da Câmara que se negara a conceder licença para que o deputado Márcio Moreira Alves fosse processado por um discurso pedindo ao povo brasileiro que boicotasse as festividades do dia 7 de setembro. Mas o decreto também vinha no correr de um rio de ambições, ações e declarações pelas quais a classe política fortaleceu a chamada linha dura do regime instituído pelo Golpe Militar. O Ato Institucional Número Cinco, ou AI-5, foi um instrumento de poder que deu ao regime poderes absolutos e cuja primeira conseqüência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano.

O AI-5 era o endurecimento do regime militar. A tortura tornou-se instrumento de política de Estado e a repressão entrou na sua fase mais violenta. Começava então o estranhamento entre o governo militar e a Igreja Católica, principalmente com o setor progressista, defensor da Teologia da Libertação, uma leitura da inspiração marxista do Evangelho. Aquele foi o único espaço que realmente encarou a ditadura. Até jovens evangélicos abandonados por suas igrejas encontraram apoio nos progressistas católicos. Diante do silêncio da maioria das igrejas evangélicas, para muitos seminaristas e pastores, a Igreja Católica tornou-se um grande guarda-chuva onde podiam se abrigar.


Em Volta Redonda, no sul do Estado do Rio de Janeiro, o pastor batista Geraldo Marcelo foi preso três vezes como agente da subversão, chegando a ficar 43 dias em poder dos militares. Ex-funcionário da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e membro do Conselho Fiscal do Sindicato dos Metalúrgicos, o religioso, hoje com 84 anos, superou os traumas e relembra dos cultos que realizava na cadeia: “Cinco companheiros se converteram e um deles hoje é pastor”, aponta. A mesma sorte não teve Anivaldo – preso em 1970, ele permaneceu 11 meses incomunicável no famigerado Departamento de Operações e Informações - Centro de Operações e Defesa Interna, o DOI-Codi, principal órgão de repressão do regime militar. Sofrendo torturas diárias, pensou em suicídio para não sucumbir à coação para entregar os amigos e irmãos de fé. “Eu pensava em me matar. A pressão era muito grande. Só que eu era forte – precisava de cinco, seis, para me torturar”, conta, ainda visivelmente comovido com as lembranças. “Foi pela ação de Deus que eu não morri. Eu me sentia como Jesus, querendo passar de mim aquele cálice de dor”.

Por sua vez, Anivaldo soube pelos torturadores que foi denunciado por um pastor e um bispo da Igreja Metodista. Mas a certeza só veio quando, anos depois, teve acesso à sua documentação nos arquivos da ditadura. “No meu processo está o bilhete que o pastor José Sucasas Junior e seu irmão, o bispo Isaías Sucasas, mandaram ao coronel Faustine, diretor do Serviço Nacional de Informações e presbiteriano, me entregando. Havia uma aliança implícita entre os setores conservadores da Igreja e os órgãos de repressão”, denuncia. A falta de registros históricos do período da ditadura pela Igreja Evangélica é uma das formas de não revelar seus paradoxos. A mesma denominação que o delatou também tinha setores que o apoiavam e à sua família. “Houve um bispo que tentou me visitar e não conseguiu. Igrejas oraram em atos de fé e coragem”.

Deduragem – Luiz Caetano Grecco Teixeira, também preso após o AI-5, lembra que a “deduragem era fenomenal” entre os crentes e até entre pastores e as próprias ovelhas. Ele conta que, numa reunião de oração de estudantes cristãos, uma então líder da Aliança Bíblica Universitária, a ABU – hoje, pregadora conhecida – entregou ativistas aos agentes da repressão que entraram no recinto. Entre eles, estava Mozart Noronha, que na época era crente presbiteriano e hoje é pastor luterano no Rio. O nome da mulher, Grecco não revela. “É um acerto de contas pessoal”, justifica.

Para ele, a partir de 1970 houve um desmonte da consciência política da Igreja Evangélica brasileira, movimento com influência americana: “Veio para cá o chamado grupo da Califórnia, da extrema direita protestante americana, uma organização com muito dinheiro.” A ação do movimento consistia em enviar ao Brasil professores de teologia e recursos para tocar projetos educacionais ligados a igrejas. “Era a direita se fortalecendo dentro da Igreja."

A partir dali, começou a falência da Escola Bíblica dominical e o fortalecimento do modelo eclesial americano”, avalia Gracco.Percival de Souza, que em 1968 era repórter do Jornal da Tarde, em São Paulo, foi duas vezes enquadrado na Lei de Segurança Nacional, acusado de jogar o povo contra os militares através de suas matérias. Denunciado na Justiça Militar, o jornalista diz que não recebeu nenhuma palavra de apoio da igreja a que pertencia: “Só não fui preso pelos desígnios divinos”, comenta.

Enquanto o regime prendia pessoas que sequer sabiam porque eram detidas, Percival lembra que movimentos extremistas de esquerda executavam sumariamente companheiros que consideravam ter práticas burguesas. Ele conta um episódio curioso: “Um casal de militantes comunistas foi repreendido simplesmente por cantar Parabéns pra você no aniversário da filha”. Percival também faz questão de contar que Diógenes de Oliveira, que durante o regime pertencia ao movimento revolucionário, em 2001 foi acusado de fazer acordo com a polícia para não incomodar o jogo do bicho, em Porto Alegre (RS), quando era coordenador financeiro da campanha de Olívio Dutra à reeleição para o governo do Estado. “Escapamos da ditadura militar e entramos na ditadura da mediocridade, inclusive na Igreja”, conclui Percival.

Comissão da Verdade vai apontar religiosos que ajudaram a ditadura

A Comissão Nacional da Verdade criou um grupo para investigar padres, pastores e demais sacerdotes que colaboraram com a ditadura militar (1964-1985), bem como os que foram perseguidos. 

“Os que resistiram [à ditadura] são mais conhecidos do que os que colaboraram”, afirmou Paulo Sérgio Pinheiro, que é o coordenador desse grupo. “É muito importante refazer essa história." 

Ele falou que, de início, o apoio da Igreja Católica ao golpe de Estado “ficou mais visível”, mas ela rapidamente se colocou em uma “situação de crítica e resistência.” 

O bispo Carlos de Castro, presidente do Conselho de Pastores do Estado de São Paulo, admitiu que houve pastores que trabalharam como agentes do Dops, a polícia de repressão política da ditadura. Mas disse que nenhuma igreja apoiou oficialmente os militares. 

No ano passado, a imprensa divulgou o caso do pastor batista e capelão Roberto Pontuschka. De dia ele consolava os presos, falando sobre Deus, e à noite os torturava. Em maio deste ano, a Comissão de Anistia concedeu indenização ao evangélico Anivaldo Padilha, 72, que foi denunciado ao regime pelo bispo Isaías Fernando Sucasas e pastor José Sucasas Jr, da Igreja Metodista. Os sacerdotes desses casos já morreram. 

O batista Enéas Togninini, 97, é um religioso que ficou do lado da repressão militar. Ele chegou a pedir aos aos fiéis um dia jejum e oração ao regime. "Não me arrependo porque eles [os militares] fizeram um bom trabalho", disse ele recentemente à revista Istoé. "Salvaram a pátria do comunismo."

O novo grupo da Comissão da Verdade vai pesquisar documentos, depoimentos, teses e arquivos internacionais. O resultado desse trabalho será divulgado em um relatório final. 

"Podemos indicar elementos de igreja que trabalharam como informantes da ditadura, mas não condená-los", disse Pinheiro.


Pastor torturava à noite presos da ditadura e de dia falava da Bíblia


O pastor batista e capelão Roberto Pontuschka era um assíduo frequentador dos porões da ditadura militar (1964-1985). À noite ele torturava os presos políticos, no pau de arara, e de dia os consolava falando de Deus e lhes dava exemplares do Novo Testamento. Entre os presos, havia evangélicos, como o presbiteriano Rubem Cesar Fernandes, 68.

Fernandes foi preso em 1962 pelos policiais da Oban (Operação Bandeirantes) por ser militante estudantil. Ele disse ter sido dedurado por pastores por ser considerado “elemento perigoso”. Até hoje o antropólogo não se conforma: “Não é justificável usar o poder militar para prender irmãos”.

Outras histórias como a de Fernandes estão vindo à tona a partir do exame das cópias de documentação de tribunais militares que o CMI (Conselho Mundial de Igrejas), organização internacional ecumênica, acaba de repatriar ao Brasil. Mais de um milhão de páginas estavam protegidas em Chicago, no Center For Research Libraries. Sem que os militares suspeitassem, as cópias foram feitas quando os advogados dos presos retiravam dos tribunais os processos para examiná-los por 24 horas.

Os militantes de oposição à ditadura sempre acusaram as igrejas evangélicas de terem dado apoio à repressão, diferentemente da Igreja Católica de dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, que se colocou na linha de frente da resistência ao regime.

A documentação do CMI confirma a conivência institucional dos evangélicos.

Anivaldo Padilha foi torturado pela ditadura militar
Padilha foi denunciado
por pastores metodistas
Anivaldo Padilha (foto), hoje com 71 anos, foi denunciado pelo pastor José Sucasas Jr. e pelo bispo Isaías Fernandes Sucasas, ambos metodistas e já falecidos.

Padilha foi torturado por 20 dias no DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo entre fevereiro e março de 1970. Estava com 29 anos. Era metodista e estudava ciências sociais na USP (Universidade de São Paulo). O trauma quase o levou ao suicídio. Viveu 13 anos no exílio.

Preso em 1969, Leonildo Silveira Campos foi torturado por dez dias. Estava com 21 anos e era seminarista da Igreja Presbiteriana Independente. Hoje é teólogo e professor de ciências da religião na Umesp. Ele também não se esqueceu das “pregações” de Pontuschka, o pastor torturador.

Zwinglio Mota Dias, 70, hoje pastor emérito da IPU (Igreja Presbiteriana Unida do Brasil), foi expulso em 1962 do Seminário Presbiteriano de Campinas porque defendia que a salvação das almas passava pelas questões sociais. Outros 38 seminaristas foram expulsos.

Na Faculdade de Teologia de São Paulo, da Igreja Metodista, o pastor Boanerges Ribeiro, presidente na época da denominação, “convidou” alunos e professores a se retirarem.

Anivaldo Padilha afirmou que vários evangélicos colaboraram com a repressão, delataram irmãos e assumiram o discurso dos militares. “Eu acreditava ser impossível que alguém que se dedica a ser padre ou pastor, cuja função é proteger suas ovelhas, pudesse dedurar alguém.”

Ele contou que anos depois se encontrou com um de seus torturadores em um Carnaval e o perdoou. “O perdão, para mim, foi uma forma de exorcizar os demônios das torturas que me causaram pesadelos durante quase seis anos”.

Mas nem por isso os torturadores devem ficar impunes, disse.

“A punição deles é importante para resgatar a dignidade dos que foram torturados, da memória dos assassinados, das famílias que não puderam ainda sepultar seus membros desaparecido.”

Fontes: Wikipédia, Eclésia, Istoé e Blog do Paulo Lopes

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

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Batistérios cheios de ratos num museu de grandes novidades



Por Hermes C. Fernandes


Recentemente, alguns comentários que fiz em um post meu no facebook renderam repercussão inesperada. Por isso, resolvi trabalhar um pouco mais o assunto, evitando assim, qualquer possibilidade de ambiguidade. O assunto começou com um comentário que fiz sobre a atitude de John Piper, teólogo e pastor americano no Congresso de Lausanne em 2010:

Deparei-me agora com uma informação que me deixou profundamente decepcionado. John Piper, pastor e teólogo americano que sempre admirei, teria se recusado a pregar no congresso de Lausanne em 2010, pelo simples fato de uma mulher ter sido convidada para conduzir um estudo bíblico, ocupando, assim, o púlpito da conferência. A mulher em questão é ninguém menos que Ruth Padilla (filha do René Padilla, um dos maiores teólogos latino-americanos), que sequer é pastora, mas apenas teóloga, sendo a única mulher entre os preletores. Piper teria dito que se ela subisse ao púlpito, ele não iria. Os organizadores do congresso disseram então que ele poderia ficar em casa, pois ela iria. Ele, então, teria voltado atrás e aceitado o convite. Quando ela subiu ao púlpito para ministrar o estudo, uma turma contrária de homens (pastores/líderes) se levantou e abandonou o recinto. Fico me indagando o que esses homens teriam feito quando aquela mulher de moral duvidosa invadiu o recinto onde estava Jesus e derramou sobre ele o perfume que lhe havia custado um ano de prostituição. Fico ainda imaginando se eles teriam aceitado o testemunho de Maria Madalena acerca da ressurreição de Jesus. Tudo isso me enoja e revela o quão distantes estamos da mensagem subversiva do Filho de Deus.
Não sei ao certo as razões que levaram Piper recusar-se a subir ao púlpito. Se foi por ter que dividi-lo com uma mulher (já que ele é contrário à ordenação feminina), ou por causa da teologia que ela defende, e da qual seu pai é um dos maiores representantes (Missão Integral). Por qualquer que tenha sido a razão, nada justifica a deselegância, ainda que transpareça certa coerência. E o pior é que houve reação em cadeia. Outros líderes se viram no direito de fazer o mesmo, boicotando o estudo bíblico que Ruth ministrou. Quando chegou a vez de Piper, ele a corrigiu publicamente, comentando um suposto erro de interpretação que ela teria feito.

Bastou que eu expressasse minha decepção para virem críticas de todos os lados, principalmente da ala mais conservadora dos reformados. Alguns chegaram a pedir que eu me retratasse, pois teria dado um falso testemunho sobre aquele santo homem de Deus.

Se quiser ter a sensação de ter mexido num vespeiro, critique algum baluarte da verdade numa rede social qualquer. Experimente criticar Calvino, Lutero, Spurgeon, ou alguns dos atuais como John Piper, R.C. Sproul ou Augusto Nicodemos. Protestantes que tanto criticaram o dogma da infalibilidade papal, agora o atribuem aos heróis da ortodoxia. Pelo menos os ídolos da veneração católica não fazem bem nem mal, posto que são apenas representações feitas em escultura de homens e mulheres que serviram a Deus em seu próprio tempo. Já os protestantes têm ídolos que, apesar de não terem sido oficialmente canonizados, parecem estar acima do bem e do mal. Alguns ainda vivem. São de carne e osso e não de gesso, e por isso, passíveis de erro e de acerto.

Apesar da dívida que temos com eles, devemos reconhecer que são filhos de seu próprio tempo. Cada qual pintou seu próprio quadro com as tintas que as Escrituras lhes deram. Porém, envolveram a tela numa moldura feita a partir de pressupostos culturais e sociais de sua época. Aliás, isso não depõe contra eles. Pelo contrário: os isenta de muita coisa. Como explicar, por exemplo, o fato de Calvino ter enviado Serveto para a fogueira? Ou o vício de tabagismo de Spurgeon? Ou o fato de Lutero, logo após ter afixado suas teses no castelo de Wittemberg, ter se dirigido a um bar para beber cerveja? Aliás, isso nem de perto poderia se comparar ao seu reconhecido antissemitismo. Não estou aqui fazendo juízo de valores, mas mostrando que eram seres humanos passíveis de erro. Algumas de suas atitudes nem sequer eram consideradas erros à época. Vários deles eram escravagistas, nem por isso sentiram-se culpados.

Deixando de lado os mortos, observemos o caminho dos que ainda transitam entre nós. No que eles acertarem, imitemo-los. Mas, no que errarem, repreendemo-los.

Muitos deles conquistaram sua fama em cima de uma defesa acirrada das verdades bíblicas que mais lhes são caras.

É admirável o zelo de alguns no cumprimento das instruções apostólicas à igreja primitiva. Razão pela qual são contrários à ordenação feminina. Sugiro que, por uma questão de coerência, impeçam que suas esposas cortem o cabelo e usem joias. Que tratem bem seus escravos e, para tal, terão que adquiri-los. E que, sobretudo, repartam todos os seus bens com os pobres. E aí... vamos radicalizar?

É muito conveniente defender qualquer instrução apostólica ou bíblica, mesmo que fora de contexto, desde que corrobore com nossa ideologia e práxis. Mas ninguém defende aquilo que está claro e que deveria ser aplicado em qualquer contexto, quando nossos interesses são contrariados. Por isso, tantos defenderam a escravidão tomando as Escrituras como base, mas jamais defenderam a partilha dos bens, conforme se vê na igreja primitiva. Quem se dignaria a vender sua Harley-Davidson para repartir com os necessitados?

Condenamos a luxúria com a mesma veemência com que abonamos a ganância. Mandamos as bruxas para a fogueira, ao passo que fomos subservientes com os poderosos. Vendemos nossa alma. Somos um completo fiasco!

Precisamos voltar ao projeto original do reino de Deus!

Parafraseando Cazuza, nossos batistérios estão cheios de ratos. Nossos seminários estão cheios de mofo. Nossos púlpitos cheiram a naftalina. Nossas ideias não correspondem aos fatos. Precisamos reciclar. O tempo não para!

Como cristãos, temos nos revelado capazes de acompanhar a evolução tecnológica, mas totalmente anacrônicos quando se trata de evolução sociológica, cultural e científica. Ainda estamos preocupados em responder questões de cinco séculos atrás. Combatemos as indulgências como se ainda estivessem sendo cobradas. E mantemos opiniões sobre certos assuntos como se o mundo não houvesse passado pelo Iluminismo. Ainda há quem defenda um sistema geocêntrico com a mesma veemência com que repudia outras teorias científicas. Para os tais, a era das trevas não terminou.  

Alisto abaixo algumas declarações supostamente respaldadas nas Escrituras, feitas por pessoas que defendiam com unhas e dentes a inerrância do texto sagrado, mas que, no fundo, queriam mesmo assegurar a inerrância de suas próprias interpretações na defesa do que lhes interessava.

"A Bíblia ensina claramente, do décimo capítulo de Gênesis e diante, que Deus estabeleceu diferenças entre as pessoas na terra para manter a terra dividida." - Bob Jones III, defendendo a política da Universidade Bob Jones que proibia namoros e casamentos inter-raciais em 1982. A política foi alterada em 2000. 
"O direito de manter escravos está claramente estabelecido pelas Sagradas Escrituras, tanto por preceito quanto por exemplo." - Rev. Richard Furman, primeiro presidente da Convenção Batista do Estado Carolina do Sul em 1823. 
"As pessoas deram ouvidos a um astrólogo novato que se esforçou para mostrar que é a Terra que gira, não os céus ou o firmamento, o sol e a lua. Este idiota ... quer reverter toda a ciência da astronomia, mas a Sagrada Escritura nos diz que Josué ordenou que o sol ficasse parado, e não a terra "- Martinho Lutero, o reformador protestante no século 16 em uma conversa de mesa sobre o sistema solar heliocêntrico. 
"Às vezes, a Escritura declara que mulheres e crianças deveriam perecer junto com os pais ... Nós temos luz suficiente da Palavra de Deus para os nossos trabalhos." - Capitão John Underhill, defendendo a dizimação da tribo Pequot promovida por puritanos em 1637. 
 "A evidência de que havia ambos, escravos e senhores de escravos em igrejas fundadas e dirigidas pelos apóstolos, não pode ser eliminada, sem recorrer a métodos de interpretação que porão tudo a perder." - Rev. Leonard Bacon, em defesa da escravidão na América em 1846. 
"A Bíblia é a vontade revelada de Deus, e declara a esfera atribuída por Deus à mulher. A Bíblia, então, é a nossa autoridade para dizer que a mulher deve contentar-se com esta esfera ... Quem exige o direito ao voto para a mulher ? Eles não são amigos de Deus , nem são crentes em Cristo. Pode haver exceções, mas a maioria prefere a alegria de um infiel ao favor de Deus e o amor da comunidade cristã .”  Rev. Justin Dewey Fulton em seu tratado contra o sufrágio feminino em 1869. 
"Onde quer que tenhamos raças misturadas em grande número, temos dificuldade... Estes liberais religiosos são os piores infiéis no país, e alguns deles estão enchendo os púlpitos no sul. Eles não acreditam mais na Bíblia (...)  e recorrem ao modernismo , para extraviarem tanto brancos quanto negros. Mas todo cristão ortodoxo bom e inteligente,  que crê na Bíblia, pode ler a Palavra de Deus e saber que o que está acontecendo no Sul agora não é de Deus ." - Bob Jones Sr., em seu tratado contra a integração de brancos e negros , intitulado  “A segregação é bíblica?” em 1960. 
“O Antigo Testamento considera o homossexualismo não somente como uma ofensa criminosa, mas também como uma ofensa capital, merecedora de morte. Eu concordo com esta categorização e com esta punição, e há pelo menos uns poucos outros teólogos que também concordam com isto. Isto é apenas dizer que estamos de acordo com a Bíblia sobre o assunto. Assim, os cristãos não deveriam discutir tão apressadamente o casamento e a união civil entre homossexuais. O que eu quero discutir com o incrédulo é, em primeiro lugar, o porquê o homossexualismo não é um crime (...) Novamente, minha posição não é apenas que os homossexuais não devem se casar, mas que o homossexualismo é um crime, assim como o assassinato ou roubo, de forma que mesmo antes de considerar a união civil, devemos considerar punir ou não aos homossexuais, com as possíveis punições, abrangendo desde a prisão à execução.” - Vicente Cheung , teólogo nascido em Hong Kong, radicado nos EUA, autor de mais de trinta livros e centenas de palestras sobre teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Sua influência é crescente entre teólogos e seminaristas brasileiros reformados e conservadores.
Poderíamos incluir mais textos de teólogos considerados profundos conhecedores da Bíblia, defendendo o regime da Apartheid, o nazismo, ou justificando lucros exorbitantes, o trabalho escravo, entre outras coisas, mas isso se tornaria exaustivo.

As próximas gerações julgarão nossos posicionamentos atuais. De que lado estaremos? Da justiça ou de algum interesse nem sempre claro, camuflado de piedade? Quanto daquilo que tem sido dito com amparo bíblico não esconde agendas inconfessáveis? Estaremos fadados a repetir os erros do passado? Ou como diria Cazuza, será que a igreja se tornou num museu de grandes novidades?

O problema começa quando a gente toma o que a Bíblia diz para justificar nossos preconceitos e afinidades ideológicas.

De fato, quase qualquer coisa pode encontrar um suposto ‘amparo’ bíblico. Seja através de mandamentos que deveriam ser cumpridos dentro de um contexto específico, ou ainda através do exemplo de alguns de seus mais proeminentes personagens. Além da escravidão, pode-se justificar o estupro, a poligamia, o genocídio e, pasmem, até a pedofilia.

Como bem disse Rachel Held Evans:É fácil olhar para os cristãos que vieram antes de nós, considerando-os ignorantes e desinformados. Mas para aceitar a tese de Galileu, os nossos antepassados ​​do século 17 tiveram que rejeitar 1600 anos de interpretações cristãs tradicionais de passagens como Salmo 93:1, Eclesiastes 1:5, e Josué 10:12-14. E para aceitar os argumentos abolicionistas, os nossos tataravós tiveram de enxergar para além do "significado claro" de textos usados como prova, tais como Efésios 6:1-5 , Colossenses 3:18-25 , 4:1 e I Timóteo 6 :1 -2; empreendendo uma varredura geral das Escrituras em busca de seu apoio à causa da justiça e liberdade. Nós gostamos de caracterizar as pessoas nas citações acima como tendo usado as Escrituras para sua própria vantagem. Mas acho que é ao mesmo tempo assustador e humilhante notar que, muitas vezes, a nossa forma de fazer a distinção entre aqueles que amaram Escritura e aqueles que usaram a Escritura é retrospectiva.”[1]

Portanto, devemos ler as Escrituras como quem garimpa ouro, deixando de lado nossos pressupostos e abraçando aquilo que esteja dentro do espírito do evangelho, ainda que contrarie nossos interesses. Qualquer coisa que não se coadune com este espírito, deve ser considerada sob a luz da advertência paulina: “A letra mata, o Espírito vivifica.”




[1] Texto de  Rachel Held Evans com o título “The Bible was ‘clear’...

Postado originalmente em 29/01/2014

terça-feira, novembro 17, 2015

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Politicamente correto ou apenas coerente?



Por Hermes C. Fernandes 


“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados.” Provérbios 31:8 


Com quase dez anos de blogagem, já me acostumei a todo tipo de crítica, desde as mais ácidas até as consideradas “fogo amigo”. Porém, de um tempo para cá, há um tipo de crítica que tem me causado certo desconforto. Trata-se de um tipo de patrulhamento ideológico que reduz a importância de qualquer debate ao acusar o oponente de tentar ser “politicamente correto”. Afinal, o que caracterizaria tal posicionamento? E por que ele parece incomodar tanto? Haveria algum mérito ou demérito em ser politicamente correto? 

Deixando de lado os falsos escrúpulos, proponho que analisemos o fenômeno. A começar pela constatação de que a língua não é um instrumento neutro. Não me refiro aqui aos sujeitos que se utilizam da linguagem, mas aos próprios vocábulos, bem como as estruturas linguísticas e suas entonações como que carregados de sentidos culturais e políticos. 

Palavras nunca são apenas “palavras”, pois trazem consigo um peso que não pode ser ignorado. Elas podem edificar, como também podem destruir. Constroem pontes, mas também abrem abismos. Não é à toa que as Escrituras declaram que “a morte e a vida estão no poder da língua” (Provérbios 18:21). Tiago adverte: “Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim! Acaso pode sair água doce e água amarga da mesma fonte?” (Tiago 3:10-11). Paulo corrobora: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem” (Efésios 4:29). E Jesus arremata: “Digo-vos, pois, que de toda palavra fútil que os homens disserem, hão de dar conta no dia do juízo” (Mateus 12:36). Algum cristão sincero ousaria discordar destas passagens? 

Portanto, não se trata de ser puritano, ou de querer ser politicamente correto, mas de ser coerente com o espírito do evangelho. Não me parece correto, por exemplo, usar palavras de baixo calão para menosprezar quem pense diferentemente de nós. Quando Jesus usou expressões como “geração adúltera” (algo próximo de fdp) não estava xingando pecadores, mas expondo a hipocrisia dos religiosos de sua época. Jamais o vimos referir-se aos homossexuais com palavras chulas como veados, bichinhas, baitolas ou mariquinhas, nem às prostitutas como putas, vadias, quengas ou coisa parecida. Pelo contrário, Jesus tratava a todos com dignidade. 

Seria pedir muito que nos referíssemos a alguém como portador de necessidades especiais em vez de aleijado ou retardado, como dependente químico em vez de viciado, como homossexual em vez de bicha, como síndrome de down em vez de mongoloide, como afrodescendente em vez de crioulo, como umbandista em vez de macumbeiro? Seria pedir de mais que fôssemos, ao menos, educados? Não nos ocorre que usando determinadas palavras estejamos sendo cruéis e impingindo um sofrimento extra ao nosso semelhante? 

Frequentemente, a mera menção de algum episódio envolvendo racismo, homofobia, sexismo ou xenofobia é desqualificada com a ridícula acusação de estarmos sendo politicamente corretos. Se tratar as pessoas com deferência significa ser politicamente correto, então, devo admitir minha culpa. E confesso que não me deixarei inibir pelo patrulhamento ideológico. 

Acima de qualquer distinção ideológica ou doutrinária está o ser humano, imagem e semelhança de Deus, portanto, portador de dignidade intrínseca. 

Os inimigos do “politicamente correto” alegam que tudo não passa de censura disfarçada, um atentado à liberdade de expressão. Ambos os lados se dizem vítimas da patrulha ideológica. Mas qual dos dois faz o maior número de vítimas? Quem busca policiar sua própria fala para não ofender seus semelhantes ou quem se acha no direito de despejar seu ódio e preconceito nos outros através de suas palavras? 

O uso da língua em qualquer que seja o contexto é sempre político. Não há isenção. E como bem disse Jesus, “a boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 12:34). Basta observar o que se diz para saber o que se pensa. Um coração tomado de preconceito não conseguirá disfarçar por muito tempo. Cada piadinha ou comentário despretensioso acabará por revelar preconceitos dissimulados. Não se trata de coibir a liberdade de expressão. Ninguém está impedido de dizer o que pensa. Todavia, há que se tomar cuidado com a maneira como se expressa, para que sua liberdade não seja motivo de constrangimento a quem quer que seja. Parafraseando Paulo, que nossa liberdade não seja motivo de tropeço a ninguém (1 Coríntios 8:9). 

De fato, a palavra molda o mundo. Nossa relação com a realidade é mediada pela palavra. Por isso, o poema da criação nos mostra Deus fazendo perfilar todos os animais para que o homem lhes desse nome. Nomear é exercer poder. Quem nomeia dita as regras do jogo. Como disse Alicia Dillon, “a palavra tem o poder: de nos tornar empoderadas ou indefesas, de ser fonte de certeza ou de dor. Alguém que age como se não pudéssemos falar por nós mesmas ou se refere a nós por um nome que não reconhecemos está usando a palavra para nos machucar, para roubar nossa subjetividade, para apagar nossa existência. Então, para continuar existindo, respondemos, interpelamos, machucamos. Usar a palavra é negociar os termos de nossa própria existência.”[1] 

Antes de classificar alguém ou um grupo, consideremos a maneira como gostaríamos de ser classificados. Como ensinou Jesus, “assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazei vós também” (Lucas 6:31). Esta é a regra de ouro que vale tanto para quem esteja à esquerda do espectro ideológico, quanto para quem esteja à direita.


[1] http://www.gnovisjournal.org/2011/11/10/do-i-need-to-say-it/