sexta-feira, abril 13, 2018

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Tesouros em vasos de barro



Por Hermes C. Fernandes

Onde, geralmente, guardamos objetos de grande valor tais como joias ou quantias vultuosas em dinheiro?  Ninguém em sã consciência vai guarda-los numa caixão de papelão ou numa jarro de barro, não é verdade? Em vez disso, recorremos a cofres, e por mais fortes que sejam, ainda fazemos questão de escondê-los. Ao adquirir um cofre, ninguém está preocupado com sua beleza, e sim com a segurança que oferece. Só nos damos por satisfeitos quando temos a garantia do fabricante de que o cofre é à prova de arrombamento.

Pois Deus toma o sentido oposto disso. Em vez de num cofre forte, Ele deposita Seu maior tesouro em frágeis vasos de barro.  Pelo menos, esta foi a constatação feita por Paulo:

“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos.” 2 Coríntios 4:7-10

Eis o maior de todos os tesouros: a vida de Jesus pulsando em nós.

Não haveria um lugar mais seguro onde Deus pudesse depositá-la? Talvez os anjos fossem bem mais confiáveis que nós. Ainda assim, Deus preferiu correr todos os riscos, e a razão para isso, segundo Paulo, é para que os créditos por sua manutenção seja inteiramente d’Ele, não nossos.

Mais adiante na mesma epístola, o apóstolo diz que se fosse preciso gloriar-se, ele se gloriaria em sua fraqueza, isto é, em sua fragilidade e vulnerabilidade. [1] Quantas pessoas em nosso círculo de amizades costumam se gabar de suas fraquezas? Geralmente, preferimos fazer propaganda de nossas virtudes, enquanto disfarçamos nossas vicissitudes.  Aprendemos que as qualidades devem ser realçadas e os defeitos varridos para debaixo do tapete.  O evangelho, entretanto, nos propõe exatamente o inverso.  Paulo vai ainda mais longe ao admitir que, caso resolvesse se gloriar, não estaria sendo insensato, pois estaria dizendo a verdade. Ele, de fato, tinha razões para se gabar. Seu currículo era invejável. Sua conduta ilibada. “Mas abstenho-me”, afirma, “para que ninguém pense de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve.”[2]

Será que Paulo estaria com isso afirmando haver uma total compatibilidade entre o que ele pregava e o que ele vivia? Acredito que não. Conhecendo Paulo como conheço, ele se considerava uma contradição ambulante, a ponto de dizer noutra passagem que não reconhecia em si bem algum. Pelo contrário, o bem que queria fazer, não fazia, mas o mal que não queria, estava sempre diante dele.  Então, o que Paulo quis dizer, afinal?

Considerando a primeira passagem que lemos, ouso afirmar que aquilo a que ele se referia quanto ao que nele se via nada mais era do que fraqueza.  Portanto, Paulo não queria fazer propaganda falsa a seu respeito. Bastava fitar-lhe para perceber quão fraco ele era. Porém, o que dele se ouvia era nada mais, nada menos que o Evangelho de Cristo.

Se não quisermos criar expectativas sobre-humanas naqueles que nos cercam, precisamos enfatizar que o que se vê em nós não corresponde necessariamente o que se ouve de nossa boca. O vaso segue sendo de barro, mas seu conteúdo é preciosíssimo.

Nossa contradição nos impede que nos vangloriemos. O que pregamos depõe contra nós mesmos, conquanto revele quão dependentes somos da graça divina. Mesmo o selo do Espírito Santo que recebemos equivaleria àquele adesivo que põe na bagagem para indicar que o seu conteúdo é frágil.
Os que se gloriam na carne são os que ostentam uma santidade de fachada. Os tais preferem valorizar mais o frasco que o perfume nele contido.

Sabendo da propensão de Paulo em se vangloriar, Deus lhe aplicou um método preventivo e pedagógico. O apóstolo dá testemunho disso:

 “E, para que não me exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar. Três vezes orei ao Senhor para que o afastasse de mim. Ele, porém, me disse: A minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Portanto, de boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Pois quando estou fraco, então é que sou forte.” 2 Coríntios 12:7-10

Repare que Paulo trata o tal espinho na carne como um verdadeiro dom. “Foi-me dado”, testifica.  Sem ele, seu ego inflaria até explodir. E não adiantava orar, suplicar, implorar.  O espinho visava seu bem, não seu mal. Era necessário que Paulo não apenas fosse vacinado contra qualquer tipo de vanglória, mas aprendesse a sentir prazer em suas próprias fraquezas, bem como nas injúrias que sofresse por causa delas. A grande sacada é a consciência de que a nossa força advém da admissão de nossa fraqueza.  

Cada espinho é um lembrete de quem somos à parte da graça. O escritor de Hebreus diz que o sumo-sacerdote só poderia se compadecer dos que não tinham conhecimento  e andam errantes pelo fato de ele mesmo estar “rodeado de fraquezas”.[3] Talvez esse seja o sentido de Jesus ter sido coroado de espinhos. Como nosso sumo-sacerdote, Ele estava rodeado de fraqueza.  Daí Paulo dizer que “ainda que foi crucificado por fraqueza, vive contudo pelo poder de Deus. Pois nós também somos fracos nele, mas viveremos com ele pelo poder de Deus para convosco.”[4]

Escrevendo aos gálatas, Paulo expõe sua frustração ao perceber que aqueles cristãos estavam se desviando do Evangelho para depender de seu próprio desempenho.  “Receio por vós”, desabafa, “que de algum modo eu tenha trabalhado em vão para convosco. Irmãos, rogo-vos que sejais como eu, pois também eu sou como vós. Em nada me ofendestes. E vós sabeis que primeiro vos anunciei o evangelho estando em fraqueza da carne. Embora minha enfermidade na carne vos fosse uma tentação, não me rejeitastes nem me desprezastes; antes me recebestes como a um anjo de Deus, como ao próprio Cristo Jesus. Qual é, logo, a vossa alegria? Dou-vos testemunho de que, se possível fora, teríeis arrancado os vossos olhos e os teríeis dado a mim. Fiz-me, acaso, vosso inimigo, dizendo a verdade? Os que tanto se esforçam para vos agradar não o fazem com sinceridade, mas querem afastar-vos de mim, para que vós tenhais zelo por eles. É bom ser zeloso, mas sempre do bem, e não somente quando estou presente convosco.”[5]

Desconfie de todo aquele que procura destacar-se dos demais, fazendo com que todos o superestime.  “Sou como vós”, brada Paulo. Sofro as mesmas agruras. Passo pelas mesmas tentações. Exibo as mesmas ambiguidades. Basta olhar para mim e perceber. Não me sinto ofendido por ser como os demais. Pelo contrário, é justamente nisso que me glorio.

Quando chegou á região da Galácia, Paulo estava com uma inflação crônica nos olhos. Era algo que causava repulsa. Todavia, sua enfermidade não o impediu de anunciar o Evangelho.  E sabe o que isso produziu em seus interlocutores? Um amor tal que, se possível fosse, eles tirariam seus próprios olhos para dar a Paulo. Ninguém questionou sua credibilidade como apóstolo pelo fato de estar enfermo. Ninguém pôs em xeque sua idoneidade, autoridade e integridade.  E Paulo, por sua vez, não se inibiu de falar-lhes a verdade.E sabe por quê? Porque eles o viam com as lentes do amor. O amor lhes conferia a habilidade de enxergar para além do recipiente frágil do seu corpo, de sorte que podiam identificar nele o próprio Cristo. 

Devemos pregar a verdade ainda que esta deponha contra nós mesmos. O que está em jogo não é a nossa reputação, mas a glória d’Aquele que nos chamou e enviou a anunciar a boa nova do Seu reino.

Há, todavia, os que buscam atrair as pessoas após si. Estes são facciosos, partidaristas, e exigem exclusividade (Se for amigo de Paulo, não pode ser meu amigo!).  Seu objetivo é afastá-los de quem realmente lhes quer bem.  E para tal, estão sempre dispostos a apontar os erros do outro, realçar seus defeitos, expor suas contradições, desacreditá-lo, descredenciá-lo. 

O genuíno evangelho não produz gente perfeita, arrogante, que arrota santidade, mas gente que admite sua fragilidade e que busca ser zelosa do bem, tanto na presença, quanto na ausência. Gente que, apesar de suas contradições, procura ser coerente. Gente que busca salvaguardar a reputação de seus irmãos por enxergar neles sua própria humanidade. 





[1] 2 Coríntios 11:30
[2] 2 Coríntios 12:6
[3] Hebreus 5:2
[4] 2 Coríntios 13:4
[5] Gálatas 4:11-18

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