sexta-feira, julho 10, 2015

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O que não se pode tolerar



Por Hermes C. Fernandes

Conversões. Não há nada que um cristão que milite na evangelização almeje mais. O que ocorreu em Samaria é o sonho de consumo de todo ministro cujo coração bata no compasso do coração de Deus. Porém, conversão não é obra humana, mas divina. Estratégias humanas poderão produzir adesões, mas não conversões. Nosso papel é dar testemunho do amor de Deus, sendo amostras grátis do que o evangelho é capaz de produzir naqueles que creem. Mas, mesmo quando nos atemos em anunciar a Cristo, adesões superficiais são inevitáveis.

Temo que já tenha chegado o tempo em que ser cristão se tornaria moda. Cantores, atores e jogadores de futebol proeminentes vêm a público assumir a sua fé. É óbvio que isso acaba por atrair a muitos dentre os seus fãs. Sem contar os que aderem à fé por motivos pouco louváveis, como no caso de candidatos que forjam sua conversão no afã de conquistar o eleitorado evangélico.

O fenômeno ocorrido em Samaria não foi exceção. Em meio a conversões em massa, surge um homem chamado Simão, que por muito tempo havia exercido fascínio nos moradores da cidade devido à arte do ilusionismo, o que lhe rendera a alcunha de “O Grande Poder de Deus”. Assim que percebeu que sua clientela estava ameaçada, Simão resolveu juntar-se a Filipe. Depois de batizado, Simão colou em Filipe como se quisesse sugar dele o “pulo do gato” responsável por tantos milagres. Sua esperança era que pudesse recobrar o terreno perdido.

Quando Pedro e João chegaram a Samaria, Simão ficou completamente embasbacado de ver como as pessoas recebiam o Espírito Santo ao receberem a imposição dos apóstolos. Desavergonhadamente, aproximou-se oferecendo dinheiro para que lhe outorgassem o mesmo poder. Sem titubear, Pedro respondeu: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro. Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus.”[1]

Por que Pedro foi tão duro com o mago Simão? Isso não seria um sinal de intolerância? A resposta é sim. Se Pedro tolerasse a conduta de seu xará, aquela cobra se criaria e voltaria a enganar a muitos com sua arte ilusória.

Não se pode ser tolerante com quem almeje se locupletar da credulidade alheia. O mal precisa ser cortado pela raiz. Pedro foi tomado do mesmo sentimento que levou Jesus a derrubar as mesas dos vendilhões do templo. Por trás desta intolerância está o amor.

Uma coisa é ser tolerante com quem, em sua ignorância ou ingenuidade, comete equívocos, ou mesmo com quem adota uma crença diferente da nossa. Outra coisa é ser tolerante com quem sabe exatamente o que está fazendo, e que, portanto, age dolosamente.

Jesus jamais demonstrou tolerância com os religiosos hipócritas, que “atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los.”[2] Aqueles cujo lema é “faça o que digo, mas não o que eu faço”. Gente cujo discurso não confere com a prática.

Jesus nunca tolerou os que fecham aos homens o reino dos céus, de modo que nem eles entram, nem deixam outros entrar. [3] Aqueles que se acham os porteiros do céu, em cujos ombros repousa o sacrossanto dever de decidir quem está dentro, quem está fora.

Ele jamais tolerou os que devoram as casas das viúvas, “sob pretexto de prolongadas orações”. Gente que se aproveita da boa fé dos incautos para explorá-los, sugando-lhes até o último tostão. Eles os alertou: “Por isso sofrereis mais rigoroso juízo”.[4]

Ele nunca tolerou, e duvido que um dia tolere, os que percorrem o mar e a terra para converter alguém, para em seguida torná-lo “filho do inferno duas vezes mais.”[5] Apesar de não lhes faltar disposição e espírito aguerrido, o resultado é desastroso.

Ele também não tolera os que se valem de suas práticas religiosas, mas desprezam “o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé”[6] Ele os chama de “condutores cegos” que coam mosquitos, mas engolem camelos. Brigam por tão pouco, enquanto fazem vista grossa para o que realmente importa. Geralmente, se preocupam com questões morais, rituais, dogmáticas, mas desprezam questões éticas de relevância insofismável.

Ele denunciou os que se preocupam com exterioridades, mas não cultivam uma espiritualidade autêntica; que limpam o exterior do copo e do prato, mas o interior segue cheio de rapina e de intemperança. Ele os assemelha a sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas por dentro carregam cadáveres em estado de putrefação.[7]

Ele não tolera quem se dispõe a corrigir o erro alheio sem que antes admita o seu;[8]que mesmo tendo telhado de vidro, não pensa duas vezes antes de arremessar pedras sobre o telhado alheio.

Pelo que conheço de Jesus, Ele é capaz de tolerar qualquer fraqueza humana, exceto a hipocrisia.

O que poderia ter acontecido se Pedro não desse aquele “chega pra lá” em Simão? Um perigoso precedente teria sido aberto. Um câncer cuja metástase poderia comprometer todo o tecido em pouco tempo.

Na carta endereçada à igreja de Tiatira, Jesus afirma conhecer suas obras, seu amor, sua fé, seu serviço, sua perseverança, e admite que suas últimas obras eram mais numerosas que as primeiras. Apesar disso, Ele adverte: “Tenho, porém, contra ti que toleras a Jezabel, mulher que se diz profetisa.”[9]

Uma coisa é ser, outra é se dizer ser. A tal Jezabel não era, de fato, uma profetisa, mas se fazia passar por uma. Como tantos que se autoproclamam apóstolos, patriarcas, bispos, pastores, sacerdotes, mas cuja intenção é de se locupletar, não se importando de induzir tantos ao erro. Deus não os terá por inocente. Paulo os chama “desordenados, faladores, vãos e enganadores”, “aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância.”[10]

Ganância. Eis o que os move. Se atraíssem poucos, não haveria muito com que nos preocupar. Porém, o fato é que tais elementos arrastam multidões, com suas promessas mirabolantes, com seus milagres no atacado, com suas dissoluções. Cumpre-se, pois, o que Pedro anteviu: “E muitos seguirão as suas dissoluções, e por causa deles será blasfemado o caminho da verdade; também movido pela ganância, e com palavras fingidas, eles farão de vós negócio.”[11] Mas a batata deles está assando! “A condenação dos quais já de largo tempo não tarda e a sua destruição não dormita.”[12] Deus não os deixará impunes. Todo o sucesso alcançado por seus ministérios não compensará o juízo que os espera.

Todavia, compete-nos “tapar a boca” dessas sanguessugas do altar. E isso fazemos quando denunciamos seus intentos, livrando as vítimas de suas malévolas mãos. A verdade deve ser proclamada, a fim de que as trevas do engano sejam dissipadas. Como disse Victor Hugo, “quem poupa o lobo, sacrifica a ovelha.”




[1] Atos 8:20,21
[2] Mateus 23:4
[3] Mateus 23:13
[4] Mateus 23:14
[5] Mateus 23:15
[6] Mateus 23:23
[7] Mateus 23:25-28
[8] Mateus 7:3-5
[9] Apocalipse 2:18-20
[10] Tito 1:10-11
[11] 2 Pedro 2:2
[12] 2 Pedro 2:3

Um comentário:

  1. Anônimo4:41 PM

    Amém! Poderosa mensagem, que Deus tenha misericórdia de mim que sou pecadora! !!

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