Por Hermes C. Fernandes
Hoje
é dia de Corpus Christi. Feriado nacional. Apesar de termos um estado laico, o país celebra um
dos mais importantes feriados do calendário cristão (pelo menos para os católicos). Diferente de tantos outros feriados dedicados a acontecimentos importantes como o Natal ou a Páscoa, ou a pessoas consideradas
santas, o dia de Corpus Christi é dedicado à Eucaristia. Sem
querer entrar no mérito religioso, quero aproveitar a oportunidade para
refletir um pouco sobre o assunto. Refiro-me ao Corpo de Cristo e não propriamente à celebração eucarística.
Deus
Se fez carne e habitou entre nós. Esta é a verdade que se pretende celebrar
neste feriado. O Deus transcendente Se fez imanente. O Deus invisível ficou ao
alcance das mãos. Em Cristo, Deus agora tem um corpo tangível, dotado de olhos,
boca, ouvidos, pulmões, rins, fígado e
coração. Ele tornou-Se um de nós. Respirou nosso ar. Comeu nossa comida. Bebeu nossa água. Banhou-Se em nossos rios. Sofreu nossas dores. Sorriu. Chorou. Dormiu. Sonhou. Isso não é espantoso?
Mesmo
depois de ressurreto, Seu corpo manteve as propriedades físicas, o que pode ser comprovado no episódio em que se deixou tocar pelos discípulos, dizendo-lhes:
“Vede as
minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um
espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.” Lucas 24:39
Portanto,
não era uma aparição fantasmagórica, nem uma visão. Era Jesus em carne e osso.
Ainda que Seu corpo fosse capaz de atravessar paredes, conservava até as
cicatrizes dos cravos que lhe perfuraram as mãos e os pés (Jo.20:26-27). E não
só isso: Seu corpo continuou processando alimentos, como sugerido na passagem
em que se encontrou com dois discípulos no caminho de Emáus e quando se
encontrou com os demais à beira da praia (Lc.24:30; Jo.21:12-13).
Quarenta
dias se passaram desde que ressurgira, quando diante do olhar atento de Seus
discípulos, Jesus ascendeu ao céu.
Onde
estaria Seu corpo agora? A resposta comumente ouvida é: no céu. Estamos tão
acostumados a ouvir isso que nem sequer paramos para pensar no que isso poderia
significar. Como um corpo físico poderia estar no céu? Ora, se o céu é uma
realidade espiritual e não uma localização geográfica, não seria, no mínimo,
estranho afirmar isso? Como o tangível poderia habitar o intangível? Todavia,
as Escrituras afirmam que “convém que o
céu o contenha até o tempo da restauração de todas as coisas” (At.3:21).
Portanto, por mais paradoxal que seja aos nossos sentidos, afirmamos que o
corpo de Cristo adentrou o céu e lá permanecerá até o dia que Se manifestará
novamente aos homens.
Não
nos atreveríamos a dar um passo além desta compreensão se não nos deparássemos
com outras passagens que redimensionam esta verdade e nos desafiam a
perscrutá-la reverentemente. Uma destas passagens é a que Paulo afirma que
Cristo “subiu muito acima de todos os céus,
para encher todas as coisas”
(Ef.4:10).
Logo,
concluímos que Cristo não subiu ao céu apenas para esperar o momento de
retornar a Terra. O propósito maior de Sua ascensão era “encher todas as coisas”, plenificá-las, preenchê-las. Portanto, ao subir ao céu, Seu corpo abarcou toda a realidade. Enquanto o céu O contém, Ele
contem em Si mesmo a plenitude da existência. O universo inteiro está contido n’Ele. Ora, como isso é possível? Como a imensidão do cosmos poderia comportar num corpo finito? Antes de espantar-se com isso, considere qual seria mistério maior: o universo contido num corpo finito ou o Deus infinito habitando entre nós? Qual seria maior, Deus ou o cosmos? Se o Deus eterno pôde esvaziar-Se de tal maneira a acomodar-Se no ventre de uma mulher por nove meses, o que mais lhe seria impossível?
De fato, Deus parece brincar com nossa noção de espaço e tempo. Um dos atributos de Seu reino é subverter a ordem espacial, de modo que o maior seja o menor e vice-versa, bem como a ordem temporal, de modo que o primeiro seja o último e vice-versa. Ele transita com a mesma mobilidade entre as galáxias e entre as partículas subatômicas. De Sua perspectiva, um átomo pode ser visto tão grande quanto uma estrela, ao passo que uma estrela pode ser vista tão diminuta quanto um átomo. Portanto, para Deus, tamanho não é documento!
De fato, Deus parece brincar com nossa noção de espaço e tempo. Um dos atributos de Seu reino é subverter a ordem espacial, de modo que o maior seja o menor e vice-versa, bem como a ordem temporal, de modo que o primeiro seja o último e vice-versa. Ele transita com a mesma mobilidade entre as galáxias e entre as partículas subatômicas. De Sua perspectiva, um átomo pode ser visto tão grande quanto uma estrela, ao passo que uma estrela pode ser vista tão diminuta quanto um átomo. Portanto, para Deus, tamanho não é documento!
Em outra passagem, somos informados de que em Cristo“foram criadas
todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam
tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado
por ele e para ele. E ele é
antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o
primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele
habitasse, E que, havendo por ele feito a
paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as
coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” (Col.1:16-20). Repare nisso: não se trata
apenas de afirmar que Ele é o Criador de todas as coisas. Ele também é o ambiente em
que tudo foi criado. Ele encerra em Si mesmo tudo quanto existe. Ele é a causa
e o propósito de tudo. Tudo provém d’Ele e para Ele retorna. Ao fazer-Se homem,
Ele Se esvaziou. Porém, ao ser assunto ao céu, Ele retomou Sua glória original.
O Pai agradou-Se de que n’Ele habitasse a plenitude, tanto da divindade, quanto
da criação (Col.2:9). E aqui, uma vez mais, pergunto: o que é deveria nos maravilhar mais, o fato de Ele ser habitado por toda a criação ou pela plenitude da divindade? O que é maior, afinal, a criação como um todo ou o Criador? O mais espantoso é saber que ambos residem n'Ele ao mesmo tempo. N’Ele, Criador e criação Se reencontram e Se mesclam. Também n’Ele que todos os mundos convergem. Tudo quanto há no céu e na terra, nas
múltiplas dimensões da realidade, em todas as esferas existenciais, encontram n’Ele
o Seu ponto de convergência. O que antes havia sido divorciado por causa do
pecado, agora foi reconciliado através de Seu sacrifício na cruz. Pode-se dizer que as hastes da cruz representem esta interseção entre o tempo e a eternidade, a terra e o céu, a criação e o Criador.
Paulo se refere
a isso como “o mistério da sua vontade”. Hoje chamaríamos de plano TOP SECRET.
Deus propusera “tornar a congregar em
Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tantos as que
estão nos céus como as que estão na terra” (Ef.1:9-10).
“Convergir”, “congregar”,
reunir em assembleia o que antes estava disperso. Trata-se, portanto, da
instituição da igreja, identificada como Seu Corpo.
O que é a
igreja, afinal? A reunião de tudo quanto fora criado por Ele e para Ele. Céu e
terra, bem como tudo o que neles há, congregaram-se n’Ele e tornaram-Se o Seu
Corpo. Daí o escritor de Hebreus afirmar que já temos chegado “à cidade do Deus
vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos, à universal
assembleia e igreja dos primogênitos escritos nos céus” (Hb.12:22-23). O que
seria a tal “universal assembleia” senão a congregação de todos os seres, animados
e inanimados, provenientes de todos os mundos, eras e dimensões? Imagine uma
congregação cósmica! Tal é a igreja de Cristo! Tal é o Seu Corpo Místico e
Cósmico.
Deus Lhe
sujeitou todas as coisas debaixo dos pés, e para ser cabeça sobre todas as
coisas entregou-O à igreja, a qual é o seu corpo, o receptáculo daquele que
enche todas as coisas (Ef.1:22-23). Portanto, a igreja não é apenas a reunião
dos fiéis, dos que creem, mas a reunião de toda a criação. A criação como um
todo se tornou no Corpo de Cristo.
À luz disso, a relação que devemos estabelecer com a criação é
eucarística. A palavra grega “eucharistia”
significa “ação de graça”. Paulo chama nossa atenção para o fato de que “toda a criação de Deus é boa, e não há nada
que rejeitar, sendo recebido com ações de graça” (1 Tm.4:4). O pão e o
vinho que tomamos na ceia representam a presença de Cristo em toda a criação.
Com a mesma gratidão com que os ingerimos, devemos acolher cada dom que a
natureza nos concede. E caso não haja em nós este discernimento, estaremos
comendo para a nossa própria condenação. Paulo adverte que “o que come e bebe indignamente, come e bebe para
sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor” (1 Co.11:29).
Discernir é compreender a presença d’Ele nos elementos, não apenas os
consagrados para a ceia, mas os consagrados por Sua própria morte. Come
dignamente aquele para os quais “todas as coisas são puras”, pois sua
consciência foi purificada. Este acolhe os dons da natureza com os olhos
iluminados e a consciência purificada (Tt.1:15). Tudo quanto faz é por fé. E a fé
santifica a tudo. “Mas aquele que tem
dúvidas, se come está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de
fé é pecado” (Rm.14:23). E repare que neste texto em particular, Paulo não
está tratando da ceia do Senhor, mas de comida de um modo geral. Entretanto,
nota-se igual ênfase. O que nos condena não é o Senhor, mas nossa própria
consciência contaminada pelo pecado. Nosso desafio é discernir o corpo de Cristo em tudo e, em especial, nos elementos componentes da Mesa do Senhor.
Já havia nos dias da igreja primitiva os que defendiam que a salvação
viria à custa da privação, do ascetismo. Paulo diz que tal ensinamento não passava de
doutrina de demônios. “Portanto”, alerta o apóstolo, “ninguém
vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua
nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é
de Cristo” (Col.2:16-17). O que tudo isso tem a ver com o assunto “corpo de
Cristo”? Absolutamente, tudo. Aquelas ordenanças eram anteriores à cruz,
ressurreição e ascensão de Cristo, quando o abismo entre céu e terra
permanecia. Daí a proibição de certos alimentos. A cruz alterou radicalmente a
realidade. Por isso, na visão que Pedro teve em Jope, foi-lhe ordenado comer
da carne de animais antes vetados pela Lei. Ao argumentar que jamais havia
comido coisas imundas, Pedro ouviu: “Não
chames tu imundo ao que Deus purificou” (At.11:9).
Todas as ordenanças eram sombra de coisas futuras. Porém, em Cristo, o
futuro veio até nós. Não vivemos mais à sombra destas ordenanças. Vivemos
inseridos no Corpo de Cristo, através do qual todas as coisas tiveram sua
sacralidade original resgatada.
O ambiente no qual vivemos, existimos e nos movemos é o
Corpo de Cristo e não mais o mundo. O que antes era secular, agora é sagrado.
Estamos mortos para o mundo e vivos para Deus. Logo, conclui Paulo, “se, pois, estais mortos
com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de
ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como:
Não toques, não proves, não manuseies?
As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo
os preceitos e doutrinas dos homens” (Col.2:20-22).
Uma
vez dotados da consciência de que estamos ligados à cabeça, sentimo-nos parte
de um corpo “provido e organizado pelas
juntas e ligaduras”, onde tudo está conectado a tudo e todos compartilham de
uma vocação comum. (Col.2:19). Nem
todos têm esta consciência ainda. Porém, Cristo, através de Seu Espírito, está
agora mesmo trabalhando para que todos cheguem ao conhecimento da verdade, e se
sujeitem à boa, perfeita e agradável vontade de Deus. “E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo
Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja
tudo em todos” (1 Co.15:28).
Enquanto não chega este dia, meu trabalho é contagiar a todos à minha volta com esta consciência. A mesma alcançada por homens como Francisco de Assis, que dirigia-se ao sol e à lua, bem como a todos os seres animados ou não, chamando-os de irmãos.
Enquanto não chega este dia, meu trabalho é contagiar a todos à minha volta com esta consciência. A mesma alcançada por homens como Francisco de Assis, que dirigia-se ao sol e à lua, bem como a todos os seres animados ou não, chamando-os de irmãos.
Meu Deus ler esse comentario parece um balsamo para a nossa tristeza de ver nosso Salvador sendo tao ofendido por tanta imoralidade ,o que falta mais acontecer ?
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