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domingo, agosto 13, 2017

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Por que há deficientes?



Por Hermes C. Fernandes

Sou pai de uma linda menina portadora de necessidades especiais. Rayane, hoje com vinte e quatro anos, sofreu uma lesão cerebral ocasionada pela falta de oxigenação na hora do parto, afetando tanto a fala, quanto o desenvolvimento motor e cognitivo. Graças à uma intervenção divina, ela veio andar aos seis anos, contrariando o prognóstico médico. Sinto-me privilegiado por ter sido escolhido por Deus para ser pai deste ser maravilhoso que tanto me tem ensinado acerca do amor e da força de vontade em superar limites. Definitivamente, eu não seria o mesmo sem Rayane.

Pesquisando pela internet, percebo quão raro é encontrar literatura cristã tratando do assunto. Seria este um tabu entre os cristãos? Quantas mensagens já ouvimos sobre o tema em nossos púlpitos? Por que outras tradições religiosas como o espiritismo kardecista se debruçam sobre ele sem qualquer recato, enquanto as igrejas preferem varrê-lo para debaixo do tapete?

Pior do que ignorar é oferecer respostas carregadas de preconceitos e pressupostos simplistas. Enquanto uns preferem espiritualizar a questão, atribuindo qualquer deficiência à atuação demoníaca, outros preferem fazer uma leitura moralista, como se o portador de necessidades especiais fosse um castigo divino aos erros de seus progenitores.

O que as Escrituras têm a nos dizer?

Começando pelo Antigo Testamento, a primeira coisa que percebemos são as restrições à participação dos deficientes físicos ou mentais em atividades sacerdotais. Para alguns, fica a impressão de que o Deus dos hebreus não tem qualquer apreço por estas criaturinhas indefesas. Veja, por exemplo, o que diz Levítico 21:16-24:
“Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo: Fala a Arão, dizendo: Ninguém da tua descendência, nas suas gerações, em que houver algum defeito, se chegará a oferecer o pão do seu Deus. Pois nenhum homem em quem houver alguma deformidade se chegará; como homem cego, ou coxo, ou de nariz chato, ou de membros demasiadamente compridos, ou homem que tiver quebrado o pé, ou a mão quebrada, ou corcunda, ou anão, ou que tiver defeito no olho, ou sarna, ou impigem, ou que tiver testículo mutilado. Nenhum homem da descendência de Arão, o sacerdote, em quem houver alguma deformidade, se chegará para oferecer as ofertas queimadas do Senhor; defeito nele há; não se chegará para oferecer o pão do seu Deus. Ele comerá do pão do seu Deus, tanto do santíssimo como do santo. Porém até ao véu não entrará, nem se chegará ao altar, porquanto defeito há nele, para que não profane os meus santuários; porque eu sou o Senhor que os santifico. E Moisés falou isto a Arão e a seus filhos, e a todos os filhos de Israel.”
O que será que Deus teria contra esses indivíduos? Por que os proibiu de ser sacerdotes? Seria este um juízo moral?

Alguns exegetas afirmam que a perfeição física exigida aos sumo-sacerdotes apontaria para a perfeição moral de Cristo, o Sumo-Sacerdote da Nova Aliança. Uma vez que, segundo Paulo, a Lei contenha a sombra de uma realidade que só se revelaria sob os auspícios da Nova Aliança, há de se supor que tal interpretação possa estar correta. Porém, não encerra toda a verdade.

Primeiro, devemos ressaltar que estas regras só se aplicavam ao cargo de Sumo Sacerdote. Somente o ele poderia atravessar o véu e chegar-se ao altar para oferecer o sacrifício. Àquela época, ninguém se tornava sacerdote por escolha própria. Apenas os descendentes de sacerdotes podiam exercer o sagrado ofício. Portanto, independente de sua condição física, um descendente de Arão era alçado à posição sacerdotal. Todavia, se possuísse qualquer deficiência física ou mental, não poderia ser um Sumo Sacerdote. Um anão, por exemplo, não conseguiria abater um animal oferecido em sacrifício, nem tampouco alcançaria as hastes da Menorah que media mais de três metros de altura para acender as luzes do lugar santo, atividades que ele deveria exercer sem apelar para ajuda de ninguém. Imagine agora um sacerdote coxo tendo que ficar de pé entre sete e catorze horas encabeçando o ritual de abatimento de animais. E como um cego poderia identificar as veias certas do animal a ser degolado, evitando um sofrimento desnecessário? Como alguém com defasagem intelectual poderia julgar os delitos cometidos pelas pessoas?

Portanto, tais regras não visavam excluir os portadores de deficiência, mas poupá-los de um trabalho para o qual não estavam habilitados devido à sua condição.

Ninguém, em sã consciência, confiaria a um cego a direção de um carro. Porém, isso jamais deveria ser pretexto para que subestimássemos a capacidade dos portadores de necessidades especiais. Se não podem exercer uma ou outra atividade, certamente são plenamente capazes de tantas outras. Alguns chegam mesmo a nos surpreender, desenvolvendo habilidades notáveis.

Permita-me usar os termos “deficientes” e “portadores de necessidades especiais” de maneira intercambiável, sem qualquer juízo de valor e sem me preocupar em ser politicamente correto. Minha preocupação é de ser compreendido. Por isso, vou evitar termos técnicos e conceitos desconhecidos pelo senso comum. 

Em todas as sociedades, tais indivíduos sempre foram alvo de preconceito. Em algumas delas, como a grega, apesar de seu avanço no campo da filosofia e das artes, os deficientes eram descartados assim que nasciam, por serem considerados um peso extra. Se não pudessem lutar pela cidade numa eventual invasão inimiga, logo, não tinham o direito de viver.

Basta uma olhada mais atenciosa no Antigo Testamento para verificar que, graças às instruções contidas na lei, o povo hebreu experimentou um avanço na compreensão da dignidade que deveria ser atribuída ao deficiente. O respeito com que deveriam tratar os deficientes revelaria o grau de temor e reverência que tinham para com Deus. Repare a ênfase do mandamento:
“Não amaldiçoes o surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor.” Levítico 19:14
Era como se Deus dissesse: Quem mexer com eles vai se ver comigo! Ainda que o surdo jamais ouça os xingamentos e maldições lançados sobre ele, nem o cego veja o tropeço posto em seu caminho, Deus toma tais ofensas como se dirigidas a Ele próprio. Como todo mandamento, há sanções aplicadas àqueles que desrespeitam o deficiente: “Maldito quem desviar o cego do seu caminho” (Dt.27:18).

É característica do justo o tratar bem o portador de necessidades especiais. Por isso, Jó declara, ao relembrar de seus tempos áureos, que costumava ser “os olhos do cego e os pés do coxo” (Jó 29:15), o que evidenciava a pureza de seu caráter.

Apesar dos avanços patrocinados pela lei entregue por Deus a Moisés, ainda restava um ranço de preconceito contra os deficientes entre os hebreus. Prova disso é o injustificável ódio que Davi nutria contra esses indivíduos durante uma fase de sua vida. Tente não sentir-se constrangido diante do relato abaixo:
“Em Hebrom reinou sobre Judá sete anos e seis meses, e em Jerusalém reinou trinta e três anos sobre todo o Israel e Judá. E partiu o rei com os seus homens a Jerusalém, contra os jebuseus que habitavam naquela terra; e falaram a Davi, dizendo: Não entrarás aqui, pois os cegos e os coxos te repelirão, querendo dizer: Não entrará Davi aqui. Porém Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de Davi. Porque Davi disse naquele dia: Qualquer que ferir aos jebuseus, suba ao canal e fira aos coxos e aos cegos, a quem a alma de Davi odeia. Por isso se diz: Nem cego nem coxo entrará nesta casa.” 2 Samuel 5:5-8
Como alguém dotado de sensibilidade ímpar como Davi seria capaz de odiar indivíduos indefesos? Que bom que, como todo ser humano, Davi teve a oportunidade de rever sua postura extremamente preconceituosa.  Tanto que ao tomar conhecimento da existência de um filho deficiente de seu saudoso amigo Jônatas, mandou buscá-lo em casa e o constituiu príncipe em seu reino. Davi sustentou a Mefibosete até o fim de sua vida, mesmo sendo neto de seu arquirrival Saul (2 Sm.9:13).

Davi jamais poderia imaginar que séculos depois, um deficiente visual que mendigava à margem da estrada foi o primeiro a enxergar o que ninguém parecia ter notado: Aquele jovem galileu que arrastava multidões por onde andava era ninguém menos que o Descendente prometido por Deus a Davi e que assumiria seu trono para sempre.

É um consolo ler que as Escrituras buscam resgatar o valor do deficiente. Porém, isso não responde a mais das intrigantes perguntas: por que existem deficientes?

Esta pergunta também intrigava os discípulos de Jesus. O que os levou a perguntar a razão pela qual um homem era cego desde que nascera. Ecoando crenças difundidas entre os judeus, indagaram a Jesus se sua cegueira teria sido causada por seus próprios pecados ou pelos pecados cometidos por seus pais. Sem titubeios, Jesus lhes respondeu: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo.9:3).

A crença articulada pelos discípulos atribuía qualquer deficiência física ou mental congênita ao pecado,  quer por parte do próprio portador (talvez numa vida anterior), ou por parte dos seus progenitores (neste caso, a deficiência seria uma espécie de maldição hereditária). Jesus desfere um golpe neste tipo de raciocínio raso e perverso. A graça por Ele revelada subverte a lógica do carma.

Em vez de um juízo moral, Jesus prefere enxergar naquela deficiência a oportunidade para a manifestação das obras de Deus.

Ora, que “obras” Deus poderia manifestar ao mundo através desses indivíduos? Nesse caso em particular, Jesus restaurou-lhe a visão.  Será que tais obras se limitariam à realização de milagres? Caso seja, então, por que nem todos os cegos são curados? Por que a maioria dos deficientes segue em sua débil condição mesmo depois de conhecer o amor de Cristo revelado no Evangelho?

São questões inquietantes, responsáveis pela postura equivocada adotada por muitas igrejas. Se o milagre não acontece, logo, conclui-se que a glória de Deus não se manifestou, restando-lhe uma alternativa: atribuir aquela condição à falta de fé do indivíduo ou daquele que intercedeu. Para eles, a glória de Deus só se manifesta se o paralítico saltar da cadeira de rodas e sair andando, se o mudo soltar a língua e falar, se o surdo ouvir perfeitamente e o cego puder descrever a aparência do pregador. É lamentável ver quantos destes deficientes já foram vítimas de todo tipo de sensacionalismo por parte dos que se apresentam ao mundo como a solução de todos os problemas.

Recentemente deparei-me com um anúncio publicado no facebook em que um autodenominado apóstolo se apresenta como ex-síndrome de down, que teria ido ao inferno sete vezes e morrido cinco vezes. Como se não bastasse, o sujeito cobra uma considerável quantia em dinheiro para assistir às suas palestras e receber sua oração. É este tipo de coisa que atenta contra a credibilidade da igreja atual. Quanta esperança falsa está sendo alimentada no coração dos incautos. Espero que da próxima vez que ele for ao inferno, ele fique por lá. Mas parece que nem o diabo caiu no seu conto e resolveu devolvê-lo com casca e tudo. Perdoem-me o sarcasmo. Mas só assim para aturar este tipo de coisa sem dizer impropérios. Ele deveria estar na cadeia.

Que Jesus segue curando, não tenho a menor dúvida. Minha filha é uma prova disso. Desenganada pela medicina, ela passou a andar em pleno culto dominical, sem que ninguém mandasse. Porém, ela não deixou de ser portadora de necessidades especiais.  Se quiser saber com detalhes, assista ao vídeo em que relato o testemunho de como conheci a graça de Deus através da minha filha. O vídeo está disponível em meu canal do youtube e na lateral do meu blog.

Todavia, as obras de Deus não se manifestam nestes indivíduos apenas através de um eventual milagre.

Vejamos, por exemplo, o caso de Mefibosete. Este era paraplégico. Não de nascença, mas por causa de uma queda sofrida quando ainda era um bebê. Que “obra” Deus manifestou ao mundo através dele? Que milagre o Senhor teria feito? Nele, nenhum. Pelo menos, não um milagre físico e aparente. Mas através dele, Deus operou um grande milagre no coração de Davi. Como vimos algumas linhas acima, Davi odiava “cegos e coxos”. Para que pudesse ser, de fato, um homem segundo o coração de Deus, Davi teria que aprender a amar o que Deus ama, sem jamais desprezar o que Deus não despreza.  Convidar a Mefibosete para que ocupasse lugar de honra em seu reino foi um enorme salto na vida de Davi. Ouso dizer que o preconceito que teve que vencer em si mesmo foi um gigante muito maior do que Golias.

Portanto, concluo que os portadores de deficiência são canais através dos quais a graça de Deus nos é ministrada. A maneira como lidam com suas limitações nos enternece o coração e nos desafia a enfrentar nossos próprios limites.

Vejamos, ainda, o caso de Moisés.
“Então disse Moisés ao SENHOR: Ah, meu Senhor! eu não sou homem eloquente, nem de ontem nem de anteontem, nem ainda desde que tens falado ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua. E disse-lhe o SENHOR: Quem fez a boca do homem? ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o SENHOR? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar.” Êxodo 4:10-12
Já ouvi argumentos afirmando que Deus não seria responsável pelo nascimento de pessoas especiais. Porém, nesta passagem, Deus toma para Si a responsabilidade. Foi Ele quem as criou, e as fez com um propósito.

Não sabemos ao certo qual seria a deficiência de Moisés. Cogita-se que ele fosse gago. Ainda assim não sabemos se sua “gagueira” teria origem emocional ou neurológica. Mas Deus o envia ao homem mais poderoso da Terra, a fim de confrontá-lo e libertar Seu povo da escravidão.

Ele faz uso de pessoas com deficiência, seja física ou mental, para dar exemplo de vida para quem aparentemente é saudável (Leia 1 Co.1:25-29). Quantos exemplos de pessoas que mudaram radicalmente sua postura, depois de ver ou ouvir testemunhos de superação de pessoas com algum tipo de deficiência. Emocionamo-nos quando percebemos o legado de pessoas como Stephen Hawking, o famoso físico que do alto de sua cadeira de rodas ocupa a cátedra que um dia foi ocupada por ninguém menos que Isaac Newton. Emocionamo-nos quando tomamos ciência de que algumas das mais lindas sinfonias foram compostas por um deficiente auditivo. Refiro-me a ninguém menos que Ludwig Van Beethoven.

A pior deficiência não é a de ordem física ou mental, mas a de caráter que se manifesta principalmente através do preconceito.

Consola-nos saber que tais deficiências não se constituem numa sentença irrevogável.  Nossas limitações, sejam quais forem, são temporárias. Paulo diz em 1 Coríntios 15:53 que “é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade.” Um dia, quando Cristo despontar no horizonte celeste, os deficientes serão plenamente restaurados. “Então os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão. Então os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará; porque águas arrebentarão no deserto e ribeiros no ermo. E a terra seca se tornará em lagos, e a terra sedenta em mananciais de águas; e nas habitações em que jaziam os chacais haverá erva com canas e juncos. E ali haverá uma estrada, um caminho, que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para aqueles; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão” (Isaías 35:5-8).

Enquanto não chega este dia, convém-nos lutar pelos direitos da pessoa portadora de qualquer deficiência, sem subestimar seu potencial de superação, mas também respeitando suas limitações sem jamais nos esquecer de nossas próprias. 

Se você tem um destes seres especiais em sua casa, sinta-se um privilegiado. Deus só dá pessoas especiais para famílias especiais. Trate-os, não apenas como portadores de necessidades especiais, mas como portadores de uma mensagem do céu para você, sua família e toda a humanidade. 

quarta-feira, agosto 02, 2017

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Pergunta idiota, tolerância zero!



Por Hermes C. Fernandes

O mesmo Jesus que tratava cordialmente àqueles que eram considerados os párias da sociedade, revelava-se diametralmente enérgico no trato dispensado aos religiosos de sua época. Basta uma conferida nos adjetivos nada amistosos que usava em referência a eles. O preferido deles era, sem dúvida, “hipócritas”

Entre as principais facções religiosas da época, duas se destacavam por sua rivalidade: os fariseus e os saduceus. Os fariseus eram a ala conservadora, fundamentalista, enquanto os saduceus eram a ala progressista, liberal. Jesus não se alinhava ideologicamente com nem uma das duas. Se alguém perguntasse de que lado estava, Jesus certamente responderia mais ou menos como respondeu aos discípulos enviados por João Batista para testá-lo: “Aos pobres é pregado o reino de Deus.” 

Mateus relata um episódio em que os saduceus se aproximaram d’Ele para suscitar uma discussão acerca da ressurreição (Mt.22:23-46). Em vez de irem direto ao ponto, preferiam apelar a uma pergunta capciosa. 
“Mestre, Moisés disse: Se morrer alguém, não tendo filhos, casará o seu irmão com a mulher dele, e suscitará descendência a seu irmão. Ora, houve entre nós sete irmãos; e o primeiro, tendo casado, morreu e, não tendo descendência, deixou sua mulher a seu irmão. Da mesma sorte o segundo, e o terceiro, até ao sétimo; por fim, depois de todos, morreu também a mulher. Portanto, na ressurreição, de qual dos sete será a mulher, visto que todos a possuíram?” 
Parece que ouço o cochichar de alguns deles: Quero ver se ele vai se sair dessa!  Sem papas na língua, Jesus respondeu: “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Porque na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus no céu. E, acerca da ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó? Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos.” 

Pergunta idiota, tolerância zero! Não basta conhecer as Escrituras e continuar subestimando o poder de Deus. Nem basta considerar o poder de Deus, ignorando o que dizem as Escrituras, tanto em suas linhas, quanto em suas entrelinhas. As Escrituras visam revelar a vontade geral de Deus, mas não podemos supor que Ele seja refém das mesmas. Ele segue agindo com absoluta soberania e autonomia, sem ter que dar satisfação a quem quer que seja. Portanto, não perca seu tempo buscando enredá-lo com seu parco e modesto conhecimento bíblico. 

O problema não são as Escrituras em si, mas nossa compreensão prejudicada por nossos pressupostos e preconceitos. Na resposta dada por Jesus aos saduceus, fica claro que certas instituições que vigoram desde a criação, perderão sua validade quando adentrarmos os portais eternos. Ninguém vai levar certidão de casamento para o céu! Todavia, laços terrenos serão substituídos por laços eternos. 

As multidões ficaram maravilhadas com a resposta de Jesus. Quando os fariseus viram que Jesus calou os saduceus, seus arquirrivais, reuniram-se imediatamente. Posso imaginar o papo entre eles: Viram o que Ele fez com os saduceus? Será que Ele é dos nossos? Se não é, que tal trazê-lo para o nosso lado? 

Ao vê-los reunidos como abutres sobrevoando a carniça, Jesus se aproximou e perguntou-lhes: “Que pensais vós do Cristo? De quem é filho?” Eles responderam unânimes: “De Davi!” 

Bingo! A resposta estava... exata! Pronto. Já podiam ser recrutados como discípulos. Ou será que não? Será que basta ter as respostas certas? Basta ter uma teologia correta? Basta seguir a ortodoxia? Basta repetir feito papagaio o que dizem os compêndios teológicos? Se Jesus houvesse escolhido um lado, teria optado pelo o que tinha a melhor teologia? 

Quando eles esperavam um tapinha nas costas, Jesus se vira e diz: “Como é então que Davi, em espírito, lhe chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho?” 

Os saduceus devem ter comemorado. Pau que dá em saduceu, também dá em fariseu. A questão levantada por Jesus tinha como objetivo mostrar que as coisas não são tão simples como parecem. Nem tudo é preto no branco. Cada questão tem sua complexidade, apesar de nem sempre atentarmos para isso. A partir daí, ninguém mais se atrevia a fazer qualquer pergunta. Em vez disso, começaram a tramar contra Sua vida. 

A propósito, Jesus jamais se sentiu ofendido por alguém expor suas dúvidas e questionamentos. O problema era quando as perguntas tinham como objetivo expor uma suposta contradição a fim de ridicularizá-lo e minar Sua credibilidade.

Numa das mais calorosas discussões que tivera com os fariseus (Jo. 8:39-49), estes apelaram à sua ancestralidade: “Nosso pai é Abraão!” Sem se intimidar, Jesus respondeu: “Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Mas agora procurais matar-me (...) Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.” A chapa esquentou! Ele jamais usou termos tão fortes no trato dispensado a meretrizes e publicanos. Em outra ocasião, Ele os chamou de “geração adúltera”, expressão próxima a “filhos da p*ta”. Mas daí, chamá-los de “filhos do diabo” já era demais. Ou não? 

Os fariseus não deixaram barato. Devolveram na mesma moeda. “Não dizemos bem que és samaritano, e que tens demônios?” Com estas palavras eles vomitaram todo o preconceito que tinham contra aquela raça mestiça que transitava entre eles: os samaritanos. O que haveria de errado em ser samaritano? Absolutamente, nada. Mas o uso que eles fazem do termo denota um preconceito raivoso.  Nos artigos anteriores, exploro mais este tema. Por favor, não deixe de lê-los. 

Jesus respondeu: “Eu não tenho demônio, antes honro a meu Pai, e vós me desonrais.” Repare, apesar de não ser samaritano, Ele não os desmente, mas, apenas afirma não estar endemoninhado. Se dissesse que não era samaritano, poderia parecer que estivesse endossando aquele preconceito idiota.

De onde tiraram a ideia de que Jesus fosse samaritano? Não foi Ele mesmo que destacou a gratidão do samaritano que fora curado de sua lepra, enquanto os outros nove, que eram judeus, nem sequer voltaram? Não foi também Ele que foi flagrado conversando despudoradamente com uma samaritana de moral duvidosa à beira de um poço? Não foi Ele que impediu que dois de Seus discípulos rogassem a Deus para que enviasse fogo do céu para consumir toda uma aldeia samaritana? E por que içou um samaritano ao papel de protagonista de uma de Suas principais parábolas? Agora, chegara a fatura e Ele teria que pagar. Quem mandou demonstrar compaixão por aquela gente detestada por Seus patrícios? Talvez seja por isso que muitos preferem manter distância de certas questões. Temem ser estigmatizados por defender causas consideradas abomináveis tanto para os fariseus conservadores, quanto para os saduceus liberais. Enquanto isso, Jesus vai tomando sobre Si as nossas dores, sem importar-Se com o estigma que terá que carregar. Muito mais importante do que a reputação é a compaixão que demonstramos para com aqueles com os quais não possuímos qualquer identificação. O resto... que se dane! Da próxima vez que me perguntarem de que lado estou, terei o prazer de responder: Estou do lado daqueles de quem Jesus certamente estaria.

Continua em breve.

terça-feira, agosto 01, 2017

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O lugar do excluído na Agenda de Deus



Por Hermes C. Fernandes

Ninguém imaginava que aquele era o seu discurso de despedida. Quarenta dias após ter ressuscitado, Jesus se reunia pela última vez com o seus discípulos. Suas instruções finais foram para que não se ausentassem da cidade até que recebessem a capacitação dada pelo Espírito Santo para serem suas testemunhas. Tão logo se cumprisse tal promessa, eles deveriam começar seu ministério por Jerusalém, alcançando em seguida toda a região da Judeia, chegando, então, a Samaria, e, finalmente, aos confins da terra (At.1:8).

De Jerusalém até os confins da terra havia perímetros intermediários, etapas que não poderiam ser queimadas. Parecia sugerir que a lógica de Jesus partia de um perímetro menor para um mais amplo. Porém, a inclusão de Samaria rompia tal lógica. Imagine que Ele dissesse que nossa missão começaria no bairro, passando para a cidade, depois o estado, o país, e, por fim, o mundo inteiro. Ficaria bem mais razoável se Ele dissesse que a missão iniciada em Jerusalém deveria alcançar a Judeia, depois todo o território de Israel, em seguida, o império romano e, então, o restante do mundo. Por que incluir Samaria? O que haveria de especial lá?

Imagino que os discípulos tenham torcido o nariz ao ouvi-lo incluir os samaritanos  na agenda do seu reino. Por séculos, judeus e samaritanos cultivaram uma animosidade recíproca. Quais teriam sido os motivos que geraram tanta hostilidade?

Logo após a morte de Salomão, em cerca de 930 a.C., o reino de Israel se dividiu em dois: o reino do norte e o reino do sul. O reino do norte reunia a maioria das tribos (dez, ao todo) e manteve o nome “Israel”; porém, por haver perdido Jerusalém, que ficava ao sul, elegeu Samaria como sua nova capital. Já o reino do sul tinha seu território partilhado por duas tribos, a de Judá, de onde provinham os reis, e a de Benjamim, além da tribo de Levi, de onde provinham os sacerdotes, e que, por não ter direito às terras, dedicava-se inteiramente ao templo. Apesar de ter a minoria das tribos, tinha a vantagem de manter Jerusalém como capital, bem como o templo erigido em seu território. Devido a esta separação, os habitantes do reino do norte ficaram impossibilitados de cultuar a Deus no santuário em Jerusalém, e tiveram que eleger seu próprio lugar de adoração: o monte Gerizim, de onde Josué havia pronunciado a bênção sobre o povo de Israel. Por conta disso, desenvolveram uma religiosidade distinta. Em Samaria praticou-se bruxaria, adoração a deuses pagãos como Moloque, Baal, entre outros importados das culturas babilônica, cananeia e egípcia. Tudo isso fez com que o abismo entre eles aumentasse cada vez mais. Como se não bastasse o sincretismo que se intensificou quando foram levados cativos para a Assíria no ano 722 a.C., eles acabaram se mesclando com outros povos, tornando-se num povo mestiço (algo inadmissível para os judeus da época). Enquanto isso, os judeus, ao sul, mantiveram-se etnicamente puros e fiéis aos seus costumes. Para os judeus, os samaritanos eram apóstatas, mestiços, de caráter duvidoso, traidores do plano original de Deus, em suma, uma aberração, uma anomalia.

Nos tempos de Jesus, os samaritanos tinham suas próprias aldeias e cidades, sendo severamente hostilizados pelos judeus. Algumas atitudes extremadas começaram a ser tomadas pelos samaritanos no afã de afrontar seus desafetos. A gota d’água se deu quando Jesus tinha por volta de 19 anos. De acordo com Flavio Josefo, historiador judeu, um samaritano fanático invadiu o templo em Jerusalém com ossos humanos e os jogou no santo lugar, num tentativa de profaná-lo. Para se ter uma ideia da gravidade de tal atitude, era como se houvesse sido lançada uma bomba no santuário judeu. Algo bem mais grave do que uma transexual encenando a crucificação de Cristo na parada gay. O ódio gerado por esta atitude foi tão grande que, a partir daí, os rabinos pediam que cada judeu devoto, antes do pôr-do-sol, erguesse as mãos na direção de Samaria e amaldiçoasse os samaritanos em nome do Deus de Abraão. 

Por se sentirem excluídos, os samaritanos pagavam com a mesma moeda. O próprio Jesus, sendo judeu, sentiu na pele esta hostilidade.  Lucas nos relata um episódio em que Jesus manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém, mas como a viagem era longa, decidiu pernoitar numa aldeia samaritana. Ele, então, enviou mensageiros para preparar-lhe hospedagem. Quando os samaritanos desconfiaram que Ele e seus discípulos estavam a caminho de Jerusalém, recusaram-se a recebê-los. Dois dos seus discípulos mais chegados, Tiago e João, vendo aquilo, compraram as dores de Jesus e deram-lhe uma inusitada sugestão: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?” (Lc.9:51-56).

Repare que eles não tiraram aquilo do nada. Havia um precedente histórico. Ninguém menos que o grande profeta Elias havia agido do mesmo jeito. Também é interessante notar que Elias foi profeta justamente no reino do norte. Portanto, aqueles discípulos achavam que deveriam tratá-los com o mesmo rigor com que Elias os tratara séculos antes. Na opinião deles, só mesmo fogo vindo do céu poderia liquidar de vez com aquela aberração étnica. Para sua surpresa, Jesus não apenas recusou-se a acatar sua sugestão, como também os repreendeu: “Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.”

Não queiramos comparar o modus operandi de Jesus com nenhum outro profeta que tenha existido. Se insistirmos nisso, retroalimentaremos o preconceito e o ódio cultivados  por séculos entre os mais diversos segmentos sociais.

Aquele episódio mostrou a Jesus o quão enfermos estavam seus discípulos. O preconceito, seja de que natureza for, nada mais é do que uma enfermidade da alma. Quem não se cura, acaba contagiando a outros. A partir daí, Jesus deflagrou uma discreta, porém, eficiente terapia medicamentosa que visava romper-lhes os seus grilhões.

A primeira dose do remédio foi-lhes ministrada através de uma parábola.

A oportunidade surgiu quando um certo doutor da lei, querendo dar uma saia justa em Jesus, perguntou-lhe: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” Parecia uma pergunta sincera. Porém, Jesus sabia exatamente aonde ele queria chegar. Ele devolveu-lhe a pergunta: “Que está escrito na lei? Como lês?”  Perceba que são duas perguntas distintas. A primeira tem caráter objetivo. Trata-se da letra fria da lei. O que está escrito, está escrito. Não há o que tirar, nem por. Mas, a segunda pergunta tem caráter subjetivo: Como lês?

Não basta saber o que as Escrituras dizem sobre este ou aquele assunto. Devemos nos perguntar “como” as temos lido.  Pode-se usar textos isolados da Bíblia para justificar qualquer coisa, desde estupro até genocídio. Tudo vai depender de como a lemos. Há quem a leia para justificar seus preconceitos, suas opiniões, sua ideologia. Experimente lê-la contra si mesmo em vez de contra o seu próximo. Deixemos que ela nos confronte antes mesmo de nos confortar. Leiamos a partir de Jesus e não de nossos pressupostos. 

A resposta dada pelo doutor da lei foi corretíssima. Ele citou de cor os dois principais mandamentos: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. O assunto estava encerrado. A resposta estava ali, na ponta da língua. Bastava que ele cumprisse os mandamentos. “Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?” (Lc.10:25-37). Em outras palavras, com quem eu realmente devo me importar? A quem tenho a obrigação de amar?
Jesus nunca foi dado a respostas prontas. Ele prefere recorrer a metáforas e parábolas. Assim, Ele fala primeiro à imaginação, depois à razão. 

Aproveitando a presença dos discípulos, Jesus começa a contar-lhes uma estorinha.

Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de ladrões que o despojaram, e espancando-o fugiram deixando-o quase morto. Por um acaso, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote, que vendo-o naquelas condições, passou direto, sem se importar. Em seguida, vinha um levita (membro de uma das tribos do sul), que ao vê-lo, preferiu se distanciar. Nenhum dos dois se deu o trabalho de acudir o pobre coitado. Nem o profissional do altar, nem o membro da tradicional tribo do sul. Mas, de repente, surge um terceiro elemento. Ao introduzi-lo na história, toda a audiência arregalou os olhos. Um samaritano ia de viagem, e quando o viu, aproximou-se, compadeceu-se, prestou-lhe os primeiros socorros, colocou-o sobre sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, pagou adiantado sua hospedagem e ainda pediu que lhe dessem todo o cuidado necessário, porque quando voltasse de viagem acertaria com eles.

Aquela parábola era uma provocação. Desde quando um samaritano agiria dessa maneira, com mais amor e compaixão do que um sacerdote ou um levita puro-sangue?

Se aquele doutor da lei quisesse herdar a vida eterna, teria que tomar aquele pária como referência.

Os discípulos devem ter ficado com uma pulga atrás da orelha. Não fazia muito tempo eles foram praticamente expulsos de uma aldeia samaritana, e, agora, Jesus contava uma estória em que o herói era ninguém mesmo que um samaritano. Não teria sido melhor se ele fosse o ladrão da parábola?

Pouco tempo depois, Jesus lhes ministrou a segunda dose do remédio anti-preconceito. Mas, dessa feita, não seria uma parábola, mas um fato real, testemunhado por cada um deles.

Havia tantos trajetos que Jesus podia pegar para Jerusalém. Mas, propositadamente, Ele preferia pegar aquele que os fizesse passar por Samaria. Era como se Ele não houvesse aprendido ainda a lição. Numa dessas vezes, passando pelo meio de Samaria, “saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe; e levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós. E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes” (Lc.17:11-18).

Aqueles leprosos não se atreveram a se aproximar de Jesus porque a lei os impedia. Um passo além do permitido, eles deveriam ser apedrejados até a morte.  Jesus ordena que se apresentem aos sacerdotes. Enquanto caminhavam, a lepra desapareceu de seus corpos. De acordo com o preceito, somente os sacerdotes poderiam autorizá-los a voltar ao convívio social depois de constatar a sua cura. Mas no meio do caminho, um deles resolveu voltar, pois se lembrou de que, por ser samaritano, os sacerdotes não o receberiam no templo. Os outros nove prosseguiram, pois eram judeus. Estando todos leprosos, não havia distinção entre eles. Mas, uma vez curados, a distinção étnica veio à tona. Antes, eram todos leprosos. Agora, eram nove judeus e um samaritano. Enquanto os noves se dirigiam aos sacerdotes, aquele samaritano resolveu voltar a Jesus. A princípio, alguém poderia achar que ele estava desobedecendo a uma instrução clara dada por Jesus. Mas como ele poderia se dirigir aos sacerdotes sabendo que não seria recebido? Da mesma maneira, quantos adorariam ir a uma igreja, mas não vão porque sabem que serão rejeitados? Quantos 'sacerdotes' atuais se disporiam a acolher os diferentes, os excluídos, vítimas de nossos mais entranhados preconceitos? Algumas igrejas até se propõem a fazer trabalhos sociais e evangelísticos, visitando cadeias, cracolândias, bolsões de miséria, zonas de prostituição, mas não estão dispostas a receber em suas dependências elementos oriundos desses ambientes fétidos. Que procurem, então, uma igreja com o seu perfil! Daí surgirem igrejas dedicadas a certos segmentos geralmente abominados pelas demais. Triste constatação. 

Quando aquele ex-leproso (mas não ex-samaritano) chegou a Jesus, prostrou-se e o adorou em gratidão por sua cura. Ele não foi curado de sua condição de samaritano. Não há e nunca haverá ex-samaritanos. Mas ele foi curado de sua lepra. Assim como podemos ser curados de feridas abertas pelo preconceito.

Os nove obedeceram, mas não voltaram para agradecer. O samaritano desobedeceu porque não era possível ser recebido no templo, mas voltou para agradecer. Nem tudo se resume a obedecer ou desobedecer. A vida é mais complexa do que nosso fundamentalismo nos permite perceber. 

Continua em breve.

terça-feira, março 14, 2017

30

Transexualidade à luz da graça



Por Hermes C. Fernandes

Imagine se você se sentisse um homem preso num corpo feminino ou uma mulher num corpo masculino, e não pudesse fazer nada para mudar esta realidade. Como mensurar o sofrimento de milhares de transexuais que vivem este dilema existencial? Não bastasse a inadequação, ainda têm que aguentar o olhar condenatório de uma sociedade hipócrita, incapaz de amar o diferente, cujos preconceitos são alimentados por um discurso religioso ultrapassado e desprovido de misericórdia.

Muitos achavam tratar-se de um comportamento aprendido influenciado pela cultura ou pelo ambiente, outros julgavam que seria fraqueza de caráter ou pura sem-vergonhice mesmo, até se depararem com a chocante realidade de crianças trans como o caso apresentado no Fantástico do último domingo (12/03/2017). O fato é que o transexual percebe desde cedo que está no sexo errado. Não confunda homossexualidade com transexualidade. Não se trata apenas de atração por pessoas do mesmo sexo. Trata-se, antes, de uma sensação de profundo desconforto com seu próprio sexo anatômico, capaz de levar a pessoa a desejar empreender uma jornada de transição de seu sexo de nascimento para o sexo oposto. O que está em jogo é a identidade de gênero. Enquanto um homossexual é capaz de aceitar seu próprio corpo, o transexual (ou transgênero) sente a necessidade de alterá-lo, adequando-o ao seu sexo psicológico. Também não se deve confundir transexualidade com hermafroditismo ou pseudo-hermafroditismo. Hermafroditas são definidos como pessoas que possuem ovários e ao mesmo tempo pênis e testículos funcionais, portanto, possuem, por assim dizer, dois sexos. O transexual possui um único sexo biológico, mas que não é compatível com seu sexo psicológico. Ele é, digamos, homem por fora, mas mulher por dentro ou vice-versa. 

Antes de abordar a questão à luz do evangelho, gostaria de propor uma compreensão à luz da ciência. No embrião humano, a genitália se forma por volta da décima semana, enquanto o cérebro ainda se encontra em desenvolvimento. Por volta de vigésima semana, define-se a área que dá a identidade de gênero. Geralmente, a genitália e o cérebro apresentam o mesmo sexo. Porém, no transgênero, ocorre do cérebro apresentar uma formatação diferente. A genitália é masculina, mas o cérebro se estruturou como sexo feminino, ou a genitália é feminina, mas o cérebro é masculino. De acordo com a pesquisa feita no Netherlands Institute for Brain Research por Dick Swaab em 1995, o hipotálamo em transexuais masculinos era do tamanho do feminino ou ainda menor. Em outras palavras: um cérebro de mulher aprisionado em um corpo de homem. Convém salientar que o hipotálamo é a área do cérebro essencial à determinação do comportamento sexual. 

Tragicamente, um em cada cinco transexuais tenta o suicídio, e essa forma de morte é cinco vezes mais frequente entre eles do que na população em geral. Para muitos deles, a cirurgia de mudança de sexo seria a última esperança para uma vida mais digna, compatível com suas aspirações existenciais. O termo usado atualmente para definir mudanças de características sexuais é cirurgia de reatribuição ou redesignação sexual, que reflete a ideia de que as pessoas transexuais não estariam mudando de sexo propriamente, mas corrigindo seus corpos. No caso de mulheres trans, os testículos são retirados e o pênis é cortado ao meio no sentido do comprimento, com remoção do tecido interno. A uretra é realinhada e a pele do pênis, preservada, é dobrada para dentro, forrando uma cavidade feita cirurgicamente e que vai ser a vagina. Em alguns casos, a extremidade do pênis é transformada em um clitóris capaz de provocar o orgasmo. Frequentemente, mulheres trans preferem limitar o processo de redesignação sexual à cirurgia de feminilização facial, o aumento de seios e terapias hormonais. 

A cirurgia de redesignação genital em homens trans compreende um conjunto de procedimentos, incluindo a remoção dos seios, a reconstrução dos genitais e a lipoaspiração. A maioria delas, porém, prefere submeter-se unicamente à retirada dos seios. 

Como poderíamos encarar tal realidade à luz do Evangelho? No caso de um transexual que se convertesse, seria correto esperar que voltasse ao sexo original ou ele poderia manter o atual? E se isso não fosse possível? Estaria a igreja preparada para receber tais indivíduos sem julgá-los e condená-los? 

Comecemos por Jesus. Ele afirma a existência de pessoas que “castraram a si mesmos por causa do reino dos céus.” Sabendo que estava pisando em terreno minado, Ele arremata: “Quem pode receber isto, receba-o” (Mateus 19:12). Obviamente, alguns dirão tratar-se de eunucos e não de transexuais. Precisamos, todavia, considerar que a transexualidade não era uma questão daquele tempo. Porém, é possível traçar um paralelo entre o transexual de hoje e os eunucos. Em alguns casos, ambos têm em comum o fato de se submeterem a um procedimento de alteração em sua genitália por livre e espontânea vontade. Entretanto, no caso apresentado por Jesus, tais indivíduos se castravam por uma causa específica que é o reino dos céus. O que significaria castrar-se por causa do reino dos céus? Será que remover a genitália nos tornaria mais dignos de entrar em Seu reino? Orígenes, um dos pais da igreja, acreditava que sim. Tanto que se submeteu a isso. 

Haveria outra maneira de entender esta enigmática passagem? Acredito que sim. Em outra passagem, Jesus afirma que o reino de Deus está dentro de nós (Lucas 17:20). Isto é, o que vale no reino anunciado por Jesus é o que se é por dentro e não por fora. É no íntimo que habita a verdade (Salmos 51:6). 

Nem sempre há compatibilidade entre o que vemos no espelho e aquilo com que nos deparamos nos recônditos do nosso ser. E isso pode gerar tal desconforto a ponto de empurrar-nos para o abismo da depressão e até do suicídio. Paulo diz que ainda que nosso homem exterior não correspondesse às nossas expectativas por está sujeito ao desgaste do tempo, o nosso homem interior se renovaria dia após dia (2 Coríntios 4:16). O corpo tem prazo de validade. A alma traz a vocação de ser eterna. Razão pela qual, não deveríamos conhecer a ninguém segundo a carne, mas segundo o espírito, isto é, de acordo com o que se é interiormente (2 Coríntios 5:16). Portanto, alguém poderia sim submeter-se a um procedimento cirúrgico que visasse corrigir tal incompatibilidade entre seu exterior e seu interior sem com isso estar rebelando-se contra o seu Criador. Em certo sentido, isso seria feito pela causa do reino. De acordo com a definição do apóstolo Paulo, o reino de Deus é alegria, justiça e paz (Romanos 14:17). Se tal procedimento, por mais traumático que seja, gerar alegria, simetria entre corpo e alma (justiça) e apaziguar o coração, então, não há razão para condenarmos quem a ele se submeteu. Trocar de sexo não significa ser promíscuo, imoral, pervertido. Significa apenas buscar atenuar o sofrimento resultando da incompatibilidade entre o que se é por fora e o que se é por dentro. 

Não consigo entender porque os cristãos valorizam tanto aparências, haja vista que o Deus a quem afirmam adorar toma a contramão desta tendência. Ele mesmo disse ao profeta Samuel: “O Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1 Samuel 16:7b). Alguns dirão: tentar corrigir o sexo é o mesmo que afirmar que Deus errou. Se seguirmos esta lógica, então, usar óculos, próteses, perucas, também deveria ser considerado uma afronta ao Criador. O que dizer de cirurgias plásticas com objetivos meramente estéticos? E a mulher do pastor que resolveu dar uma turbinada nos seios? Não sejamos hipócritas! 

Somos todos filhos de Adão. Pertencemos a uma raça submetida às contingências da existência. Como costumo dizer, o mundo ideal ficou atrás dos portões do Éden. Portanto, sejamos mais complacentes, buscando compreender o drama vivido por milhares de transgêneros. Quem sabe um dia possamos acolhê-los livremente em nossas comunidades levando em conta apenas sua humanidade, reconhecendo neles nossa própria carência de graça, amor e aceitação. Estou certo de que esta é a vontade de Deus. Uma coisa posso garantir com todas as letras: a multiforme graça de Deus é apta para abarca a multifacetária sexualidade humana. Ninguém, absolutamente ninguém, está excluído do escopo da graça. O Deus que salva héteros, salva gays, lésbicas, transexuais, bissexuais e qualquer que seja a categoria que exista ou venha surgir. Não ouse subestimar o escandaloso amor de Deus. 

Certamente o assunto não se esgota aqui. Só espero ter dado um pontapé inicial que provoque uma onda de diálogo entre os seguidores de Cristo e este importante segmento social. 

Assista abaixo um drama verídico que poderá lhe ajudar a entender a questão com um olhar mais humano e cristão, e em seguida, a reportagem veiculada no Fantástico.





quarta-feira, junho 22, 2016

6

Os excluídos e a quebra de patente da graça



Por Hermes C. Fernandes

Os discípulos foram matriculados num curso intensivo que visava desintoxicá-los de todo tipo de preconceito, a começar pelo que nutriam contra os samaritanos, aquela raça mestiça detestada pelos judeus.

As duas primeiras lições já haviam sido ministradas. A primeira, através de uma parábola. A segunda, através da gratidão de um leproso curado. Mas, nenhuma lição foi tão radical quanto a aprendida à beira de um poço.

O texto parece insinuar que Jesus sentiu-se incomodado por sua popularidade ascendente. O comentário que chegara aos ouvidos dos religiosos era de que o sucesso alcançado por Jesus havia desbancado o ministério de seu primo João, e que o número de pessoas batizadas por seus discípulos ultrapassava em largo o de seu predecessor. Os discípulos devem ter ficado bem confusos quando Jesus resolve deixar aquela região e retornar para a Galileia, onde não gozava de tanta credibilidade e fama. Mais confusos ficaram quando lhes anunciou que era necessário passar por Samaria. A primeira experiência havia sido horrível. Os samaritanos negaram-se a hospedá-los. Como entender o que se passavam na cabeça de Jesus? Havia rotas alternativas, mas Ele insistia em passar por lá.

Quando chegaram numa cidade samaritana chamada Sicar, Jesus sentou-se junto a um poço para descansar, enquanto seus discípulos saíram em busca de comida. Era quase meio-dia, quando uma mulher samaritana se aproximou para tirar água. Sem qualquer cerimônia, Jesus se dirige a ela pedindo-lhe água. Percebendo que ele era judeu, ela questionou sua abordagem: “Como sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?” Só o fato de ela ser mulher já se constituía num enorme tabu para aquela época. Homens não abordavam mulher estranhas publicamente. Mas nada pesava mais do que o fato de ser samaritana. Jesus, portanto, quebra dois tabus numa tacada só (Jo.4:1-30).

Todos conhecemos a direção que aquela conversa tomou. Jesus lhe oferece água viva. Mas ela não percebe que se tratava de uma figura de linguagem. A primeira coisa que faz é tentar descredenciá-lo. “Não me leve a mal, mas você não tem como tirar água deste poço fundo" (perdoe-me as paráfrases que usarei a partir deste ponto). Em seguida, ela acaba trazendo à baila questões nevrálgicas que alimentavam a hostilidade recíproca entre seus respectivos povos. A primeira delas era o fato de ambos terem um ancestral comum. “Você não está querendo dizer que é maior que o nosso pai Jacó, está? Foi ele que nos deu este poço!” Era como se ela dissesse: “Não me venha com este papo de que judeus têm o que os samaritanos não têm. Jacó não é pai só de vocês. Ele também é nosso pai! E quem você pensa que é para me oferecer algo que nem mesmo ele pôde dar?”

Jesus não entra na pilha dela. Seu propósito não é o de entrar numa queda de braços para ver quem é o dono da razão. Esse tipo de discussão jamais lhe apeteceu, e, sinceramente, não creio que Ele tenha mudado de lá para cá. Em vez disso, Ele avisa que o tipo de água que lhe oferecia era de natureza diferente daquela:“Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede.” Sua dificuldade de abstrair a impede de entender a metáfora. Não sei se em tom irônico, ela responde: “Ok. Então, me dê logo desta água para que eu não precise mais ficar voltando aqui todo dia pra tirar água.” Sem se fazer de rogado, Jesus lhe faz um inusitado pedido: “Vai, chama o teu marido, e vem cá”. Meio sem graça, ela responde: “Agora, o Senhor me pegou. Não tenho marido!” Creio que ela deva ter pensado: “Ufa! Já estava começando a achar que ele era um profeta ou coisa parecida. Mas se ele desconhece meu estado civil, então, é apenas um estranho querendo jogar conversa fora. Ou talvez, esteja me testando para me passar uma cantada.” Para sua surpresa, Jesus respondeu: “Disseste bem: Não tenho marido; porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade.”

Engana-se quem enxerga aí uma abordagem moralista, que visasse expor as fraquezas daquela mulher a fim de condená-la. Longe disso, a pretensão do Mestre era revelar a que tipo de sede Ele se propunha saciar. Sede que a levara a experimentar múltiplos relacionamentos, e que, naquele momento a envolvera numa relação adúltera. Não bastasse o fato de ser mulher e samaritana, ainda por cima tinha uma moral suspeita. Duvido que a comunidade local desconhecesse isso. Estar ali sentado em sua companhia era uma exposição e tanto para Jesus.

“Vejo que és profeta”, retrucou. Constrangida, ela tenta mudar o foco e o rumo da conversa. “Nossos pais adoraram neste monte, e vocês, judeus, vivem dizendo que o lugar certo para adorar a Deus é em Jerusalém.” Jesus não permitiu que a conversa descambasse nem para o moralismo estéril, tampouco para uma discussão teológica. “Mulher, acredite no que vou lhe dizer: está chegando a hora, e se quer mesmo saber, já chegou, em que o importante não é o lugar onde se adora a Deus, se no monte ou no templo em Jerusalém. Esta é uma questão que já deveria ter sido superada! O que importa para o Pai é ser adorado em espírito e em verdade.”

Uma das dificuldades que temos com certos segmentos da sociedade é que sempre trazemos à baila assuntos que já perderam sua relevância há tempos. Tornamo-nos um povo retrógrado, com uma agenda anacrônica e uma teologia que cheira à naftalina. Insistimos em responder a perguntas que deixaram de ser feitas há quinhentos anos. Ignoramos descobertas científicas, avanços sociais, contextos históricos, para impor nossa moral e nossos costumes, fechando-nos inteiramente ao diálogo. Nem sempre Deus está se importando com aquilo que nos tira o sono. “Deus é Espírito”, foi a resposta que Jesus deu à samaritana. Portanto, não queira rebaixá-lo a questiúnculas.

Impressionada, ela confessou-lhe: “Eu estou sabendo que quando o Messias vier, vai nos esclarecer sobre muita coisa”. Jesus respirou fundo, olhou à sua volta para conferir se não vinha ninguém, mirou-a nos olhos e disse: “Eu o sou, eu que falo contigo”. Foi a primeira vez que Jesus se declarou o Messias. E justamente a uma mulher samaritana. Os discípulos jamais haviam ouvido isso de seus lábios. Mas Ele não resistiu e acabou segredando àquela mulher a sua verdadeira identidade.

Recentemente, no episódio em que uma transexual encenou a crucificação em plena parada gay, alguém escreveu em meu perfil: Pai, perdoa-lhe, porque ela não sabe o que faz. Por alguma razão, aquilo me soou desconcertantemente presunçoso. Não resisti e escrevi embaixo: Pai, perdoa-nos, pois não sabemos o que dizemos. Talvez, aquela transexual soubesse mais o que estava fazendo do que nós o que temos dito. Não se escandalize ainda. Deus tem dessas coisas. Ele se revela a quem quer, e não precisa de nossa autorização para isso. Não detemos o copyright de Deus. E se quer mesmo saber, Ele já quebrou esta patente faz tempo, desde que Jesus disse que o vento sopra onde quer, e ninguém sabe de onde veio, nem para onde vai. Se quisermos ser co-partícipes do que Deus está fazendo, precisamos descer de nosso pedestal, abdicar de nossa presunção e admitir a sua atuação para muito além de nosso perímetro eclesiástico.

Quando os discípulos chegaram, flagraram-no papeando com a tal mulher. O texto afirma que eles ficaram estupefatos, porém, não se atreveram a questionar. A mulher, então, deixou de lado o seu cântaro e foi correndo à cidade espalhar entre os seus moradores a sua descoberta. Interessante notar que ela não demonstrou estar certa de nada acerca d’Aquele que se revelara o Cristo. O convite que fez aos seus concidadãos foi: “Venham e vejam um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será que ele não é o Cristo?” Resultado: a cidade inteira saiu ao encontro de Jesus.


O que move o mundo não são as respostas, mas as perguntas. Soa presunçoso demais apresentar-nos ao mundo como possuindo todas as respostas. É mais honesto dizer como ela, e admitir que ainda não sabemos de tudo quanto gostaríamos de saber. As pessoas se sentem bem mais à vontade seguindo quem tem as perguntas certas, do que quem afirma ter respostas para todas as questões. 

Há uma passagem onde Jesus ordena que dois de seus discípulos providenciassem um local para sua última ceia. Em vez de lhes dar um endereço certo, Ele s orienta a seguir um jovem que aparecesse nas ruas carregando um cântaro. Na porta por onde ele entrasse, eles deveriam se apresentar e dizer que seu mestre pretendia festejar a páscoa lá. Àquela época, era raríssimo flagrar um homem em atividades domésticas como aquela. Buscar água era atividade restrita às mulheres. Pois Deus usa um jovem que estava quebrando um tabu sexista para guiar os discípulos de Jesus ao lugar que lhes serviria de cenário não apenas para a santa ceia, mas também para a descida do Espírito Santo cerca de cinquenta dias depois. 

Continua em breve.

domingo, junho 12, 2016

5

Massacre em Orlando: Sangue e mortes no Reino da Magia




Por Hermes C. Fernandes

Recebi com muita tristeza a notícia do ataque ocorrido hoje em Orlando, Flórida, que ceifou a vida de cerca de cinquenta pessoas, deixando outras cinquenta e três feridas, algumas em estado crítico. Morei com minha família por duas vezes na região metropolitana de Orlando e lá deixei muitos amigos, tanto brasileiros, quanto hispanos e americanos. Uma região caracterizada por sua aura de magia definitivamente não combina com o terror.

Um jovem americano cuja família teria origem afegã teria sido o responsável pelo maior massacre ocorrido em solo americano desde o fatídico 11 de setembro, e o pior tiroteio em massa da história dos EUA. Omar Saddiqui Mateen de 29 anos abriu fogo dentro de uma boate voltada para o público LGBT, no momento em que acontecia uma festa latina. O agressor morreu durante intensa troca de tiros com a polícia. 

O FBI assumiu a investigação do caso por considerá-lo um possível ataque terrorista, já que, segundo a agência, o rapaz teria jurado lealdade ao Estado Islâmico. 

Um dia antes, Orlando já havia sido cenário da morte da cantora Christina Grimmie de apenas 20 anos, assassinada logo após seu show por tiros disparados por Kevin James Loibl de 27 anos.

Orlando é um dos maiores centros turísticos do mundo, atraindo para os seus parques temáticos milhares de visitantes todos os dias, em sua maioria, crianças e adolescentes. Pode-se dizer que é uma cidade pacífica, cujos moradores estão acostumados a acolher pessoas oriundas das mais diversas culturas e etnias. 

Durante o tempo em que lá moramos, houve um tiroteio envolvendo um aluno que estudava na mesma High School dos meus filhos em Lake Mary (era colega de classe de um deles). O adolescente matou seus próprios pais dentro da casa num condomínio em frente à escola. A cidade ficou em choque. Foi assunto nos telejornais por vários dias. Posso imaginar o choque que o assassinato da cantora seguido do massacre na boate LGBT não deve estar causando. 

Aquela região é uma das que mais concentram imigrantes brasileiros nos EUA. Como se tratava de um evento dedicado ao público latino, muitos ficaram preocupados de terem familiares ou amigos na boate. O Itamaraty informou que até agora não há registro de brasileiros entre as vítimas. 

É de se esperar que o caso seja explorado politicamente por ambos os candidatos à presidência dos EUA. Donald Trump poderá se aproveitar da situação para reafirmar sua posição contrária à imigração, principalmente de pessoas oriundas de países islâmicos. Seu discurso de ódio e segregação poderá encontrar ainda mais aceitação numa sociedade sacudida por esta tragédia. Hillary Clinton, por sua vez, poderá apelar para o fato de que o atentado teve como alvo uma minoria (LGBT) e ainda por cima, reafirmar sua posição contrária ao armamento da população. 

Não é hora de buscar apontar mocinhos e bandidos. Se insistirmos nisso, retroalimentaremos o ciclo do ódio e do preconceito. 

Lembro-me perfeitamente de como era difícil ser um bom muçulmano durante o tempo que se seguiu ao ataque às torres gêmeas. Qualquer pessoa de turbante era vista como um terrorista em potencial. Nem as crianças muçulmanas eram poupadas do olhar preconceituoso de seus colegas. Infelizmente, o episódio de hoje vai reacender a velha chama do preconceito. 

Numa entrevista cedida à NBC, o pai de Omar comentou já ter presenciado comportamentos de repúdio do rapaz diante de casais homossexuais. Portanto, trata-se de um crime de homofobia, ainda que se prove que tenha sido um atentado encomendado pelo Estado Islâmico. As vítimas desta atrocidade podem ser computadas na conta do fundamentalismo religioso. Ele poderia ter aberto fogo na saída de um parque qualquer (já que para entrar num deles, teria que passar por um detector de metais), ou num resort luxuoso ou num dos hotéis da International Drive. Em vez disso, escolheu uma balada gay. A munição fartamente usada por sua AR-15 não era tão letal quanto o discurso extremista do qual seu coração estava munido. O que separa uma alma armada de mãos armadas é um empurrãozinho. E todo fundamentalismo, independente de que matiz religioso seja, eventualmente poderá provocar embates desta natureza. O discurso arma a alma muito antes que a vítima esteja na mira.

Se de fato foi um atentado, a mensagem está clara. Antes atingiram o centro nevrálgico do capital, o coração da Big Apple. Desta vez, atingiram a cidade símbolo da fantasia americana, escolhendo justamente um lugar onde a moral fundamentalista é desafiada.

Não será o fundamentalismo cristão que poderá fazer frente a esta tsunami fundamentalista islâmica. Fogo não se combate com fogo. Somente um discurso baseado no amor interromperá este ciclo nefasto de ódio, impedindo que nos aniquilemos mutuamente.

P.S.: Aos que culpam o islamismo pelo massacre em Orlando, não custa relembrá-los de que em julho de 2011, na Noruega, atentados perpetrados por um homem branco norueguês, cristão fundamentalista, ativista de extrema-direita, resultaram na morte de pelo menos 76 jovens integrantes do partido trabalhista. Tanto o atentado de Orlando, quanto o da Noruega, bem como o de Paris em 2015 e os da Bélgica em 2016 têm algo em comum: o crescimento enorme da intolerância, muitas vezes patrocinada pelo radicalismo religioso (não importa se cristão ou islâmico), que por sua vez, bebe das turvas fontes do fundamentalismo. A reportagem do Fantástico deste domingo afirmou que os EUA têm sofrido cerca de cinco ataques a tiros em massa por semana só neste ano. Façam a conta! Quantos desses ataques foram perpetrados por supostos discípulos de Maomé? E quanto foram perpetrados por supostos seguidores de Cristo? Portanto, independe de credo. O problema é o ódio disseminado por um discurso ora travestido de piedade religiosa, ora disfarçado de ideologia política. Não será jogando gasolina que apagaremos as labaredas da intolerância. Quando reconhecermos em nós as vicissitudes que facilmente apontamos em nossos desafetos, estaremos a um passo da reconciliação. Aprenderemos a amá-los quando desenvolvermos a habilidade de vermos-nos neles ao mesmo tempo em que pudermos vê-los em nós.

Pelo amor de Deus! Chega deste papo de que o massacre ocorrido em Orlando foi de autoria muçulmana, e que, portanto, nos isenta como cristãos, e ainda evidencia quem são os verdadeiros homofóbicos. Fica a impressão indigesta de que muitos cristãos estejam curtindo o momento, como se o nosso fundamentalismo não fosse tão nocivo quanto o deles. Sinceramente, para cada muçulmano extremista 'xiita', há um crente 'chaato', soberbo, apático, desprovido de compaixão. O fato é que tanto muçulmanos, quanto homossexuais são vítimas do nosso próprio preconceito. Pode até ser que não atiremos homossexuais de cima de edifícios como faz o Estado Islâmico, nem entremos em boates gays atirando a esmo. Mas nosso discurso não difere muito daquele que arma suas almas de ódio e preconceito. Em vez de demonstrar alguma misericórdia para com as vítimas, preferimos aproveitar a situação para reforçar nossa rivalidade com o mundo islâmico. Não sei o que é pior: nossa apatia ante à morte de cinquenta inocentes (talvez por serem gays), ou nosso ódio velado pelos seguidores de Maomé. Deveríamos, antes, buscar acolher ambos os grupos, sem julgá-los, nem discriminá-los. Só o amor apaga este incêndio.

domingo, junho 05, 2016

2

A pele que não habito - A delícia e a dor de se colocar no lugar do outro



Por Hermes C. Fernandes

É preciso ter estômago e muita sensibilidade para assistir ao filme “A pele que habito” dirigido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar e estrelado por Antonio Bandeiras. Nossos mais enraizados preconceitos são confrontados sem dó nem piedade. Por um instante, ficamos sem chão, em busca de algo em que se segurar. A filha de um bem-sucedido cirurgião plástico sofre uma tentativa de estupro no jardim de uma mansão onde acontecia uma festa da alta sociedade. Quando seu pai a encontra, ela está deitada, aparentemente inconsciente. Ao tentar despertá-la, ela julga que seu próprio pai a está violentando e começa a gritar. Devido a um colapso emocional, ela é internada num hospital psiquiátrico e na primeira oportunidade, se suicida jogando-se da janela. Arrasado, o pai sai à caça do rapaz que a havia molestado, e ao encontrá-lo, decide capturá-lo e mantê-lo em cárcere privado por anos a fio. Durante este tempo, o médico lhe aplica procedimentos cirúrgicos sem o seu consentimento, começando pela troca de sexo. Paulatinamente, ele vai esculpindo o corpo e o rosto do rapaz até torná-lo numa linda jovem, por quem, inusitadamente, acaba se apaixonando. Obviamente, há muito mais no enredo do filme, e posso garantir que vale a pena assisti-lo.

Haveria melhor vingança contra um estuprador do que torná-lo semelhante à sua vítima? Já imaginou se Deus resolvesse agir da mesma forma e fizesse com que todo machista vivesse ao menos um dia como mulher? E se todo racista, ao acordar e olhar-se no espelho, se desse conta de que da noite para o dia se tornou negro? E se todo homofóbico experimentasse ser homossexual por algum tempo? E se alguém cheio de preconceito contra deficientes se tornasse num cadeirante de uma hora para outra (aliás, disso, ninguém está isento)? E se dormíssemos cristãos e acordássemos candomblecistas ou hinduístas, ou até mesmo ateus?


Sorte nossa Deus não ser vingativo, não? Ele poderia nos transformar justamente naquilo que menosprezamos.  É por isso que não vejo qualquer sentido em menosprezar um idoso. Afinal, todos caminhamos para a velhice e a alternativa a isso ninguém quer. Ou envelhecemos, ou morremos.

Apesar de não ser este o caminho escolhido por Deus para nos moldar, estou certo de que Seu desejo é que aprendamos a nos colocar no lugar do outro antes de julgá-lo ou desprezá-lo.

Empatia. Eis a palavra. É disso que precisamos com urgência. Caso contrário, tornar-se-á insuportável viver numa sociedade em que as pessoas não deem o mínimo para o sofrimento alheio, preferindo ocupar o seu tempo em julgar e cultivar todo tipo de preconceito.

Houve uma família que partiu de Belém para refugiar-se nas terras de Moabe durante um período de fome. Um casal e dois filhos. Mesmo cientes das dificuldades que teriam em viver entre um povo hostil, eles não tiveram alternativa. A fome e a possibilidade da morte os assustavam mais do que a animosidade dos moabitas.

Chegando a Moabe, a família conseguiu se integrar na sociedade local, a ponto de seus filhos se casarem com duas jovens moabitas, Orfa e Rute. Eventualmente, Eimeleque, o patriarca da família, veio a falecer. Mas Noemi, agora viúva, ainda podia contar com seus filhos e noras naquela terra estranha. Dez anos depois, seus filhos também morreram. Agora, só restara a Noemi a companhia de suas noras moabitas.  Numa sociedade patriarcal como aquela, não era nada fácil que uma família só de mulheres sobrevivesse.

Ao saber que a situação em sua terra natal havia se revertido, Noemi decidiu voltar. Certamente, seria mais fácil, na condição em que estava, sobreviver em sua própria terra, cercada por parentes e amigos. Vendo que suas noras ainda eram jovens e belas (eu não disse recatadas, ok?), Noemi aconselhou-as a que buscassem dar um novo rumo às suas vidas. Não havia razão para acompanhar uma mulher idosa em sua marcha de volta ao lar, desperdiçando assim a sua juventude.

 – Voltem para suas famílias! Aproveitem a vida que ainda têm pela frente. Vocês vão acabar encontra novos maridos, constituindo novas famílias – teria argumentado Noemi.

Porém, chorando, elas prometeram jamais deixá-la. O que teria levado Noemi a agir dessa maneira? Afinal, ela bem que poderia se aproveitar da juventude de suas noras, colocando-as para trabalhar para ela, tanto dentro, quanto fora de casa. Todavia, seu caráter extraordinário não lhe permitia sequer imaginar a possibilidade de sabotar o futuro daquelas que haviam sido a razão da felicidade de seus falecidos filhos. Isso sim é vestir-se na pele do outro; colocar-se em seu lugar; assumir os anseios alheios como sendo seus. A felicidade do outro deve estar acima de nossas necessidades particulares. Quem ama deve desejar mais a felicidade do outro do que a sua própria companhia. 

Na segunda tentativa, Noemi argumentou:

 – Filhas, parece até que vocês têm esperança de que um dia eu lhes possa gerar outros maridos. Ora, já sou velha. E ainda que me engravidasse nesta noite, por quanto tempo vocês teriam que esperar até que meus filhos crescessem? Não insistam em me acompanhar. Vocês têm o direito de sair em busca de sua própria felicidade.

Desta feita, Orfa cedeu ao argumento da sogra, deu-lhe um beijo banhado de lágrimas e se foi. Porém, Rute não arredou os pés. Nada conseguia demovê-la da decisão de acompanhar Noemi.

 – Por que não faz como a sua concunhada? Aproveita. Vá com ela. Volte para o seu povo e para o seu deus!

Pelo que Rute respondeu:
“Não insistas comigo que te deixe e não mais a acompanhe. Aonde fores irei, onde ficares ficarei! O teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus!” Rute 1:16
O que deu em Rute? Será que ela surtou de vez? Aquela mulher idosa não tinha nada a lhe oferecer a não ser a sua companhia e alguns conselhos de quem já havia vivido o suficiente. 

Estou certo de que a mesma empatia que houve no coração de Noemi com relação às suas noras, houve também no coração de Rute com relação à sua sogra. Ela deve ter imaginado como seria difícil para uma mulher daquela idade ter que se virar sozinha, sem ninguém por perto para apoiá-la.

Empatia deveria ser uma estrada de mão-dupla. Sem reciprocidade, o circuito não se completa. Pais devem saber se colocar no lugar dos filhos, entendendo que um dia também foram adolescentes, tiveram seus momentos de rebeldia, de vontade de conhecer o mundo, de experimentar coisas novas, etc. Semelhantemente, os filhos devem “vestir a pele” dos pais e imaginar como deve ser ter a idade em que agora estão, com tantas histórias para contar e com tão pouco futuro pela frente (pelo menos em comparação a eles). Maridos devem saber se colocar no lugar de suas respectivas esposas, compreender seus anseios e os desafios que enfrentam em seu dia a dia. Assim como as esposas devem se imaginar no lugar de seus maridos, suas carências, suas frustrações.

Quanta coisa não seria evitada, hein? De quanto desgaste desnecessário as relações seriam poupadas?Para Noemi, a felicidade de sua nora importava mais do que a sua agradável e tão querida companhia. Mas para Rute, abandonar a sua sogra àquela altura do campeonato não parecia justo.

Depois de devidamente instaladas em Belém, Rute saiu em busca de algum trabalho. Se já era difícil ser mulher naquela época, imagina ser mulher e, ainda por cima, estrangeira. Vendo alguns ceifeiros trabalharem num vasto campo, infiltrou-se entre eles, e saiu catando as espigas que eles deixavam para trás.

Quando Boaz, o dono do campo, chegou, quis saber quem seria aquela jovem estranha que desde cedo se colocara a trabalhar. Informaram-lhe que se tratava da nora de Noemi, sua parente. Chamando-a a parte, aconselhou-a a não buscar outra lavoura para trabalhar, mas a permanecer por ali, onde ele lhe garantiria segurança. Nenhum dos rapazes que ali trabalhavam poderia importuná-la. E se tivesse sede ou fome, ali mesmo poderia saciar-se à vontade.

Não há porque buscar outras lavouras, quando se tem o que precisa. Como também não razão para insegurança e o ciúme quando nos dispomos a oferecer ao outro os cuidados de que necessita. Empatia também consiste em dar liberdade ao outro para que vá ou fique. Em vez de chantagens emocionais ou cerceamento da liberdade, oferece-se razões para ficar, dentre as quais, segurança. Em vez de controle, cuidados. Ciúme nada mais do que a admissão de que outro possa proporcionar felicidade maior do que a que nos propusemos oferecer. 

Quando Jesus se viu abandonado pela multidão que o acompanhava, deixou claro aos Seus discípulos que eles tinham liberdade de partirem a hora que quisessem. Pedro, porém, toma a palavra diz: Para onde iremos, Senhor, se só tu tens palavras de vida eterna?

O que teria feito com que Boaz agisse com tal humanidade para com uma desconhecida estrangeira? Arrisco-me a dizer que o simples fato de ser filho de quem era. Aquele homem de bom coração era filho de ninguém menos que Raabe, a prostituta que após ter acolhido dos espias de Josué em Jericó, foi integrada ao povo de Israel.

Por certo, Boaz teve que aprender a lidar com o estigma de ser filho de uma meretriz. Ora, quem já foi vítima de qualquer tipo de preconceito, não tem o direito de vitimar ninguém. Olhando para Rute, a jovem viúva moabita, Boaz se lembrou da própria mãe e do período de adaptação que ela amargou entre os filhos de Israel.  O que ambas tinham em comum era o fato de serem estrangeiras. Porém, enquanto uma era viúva, a outra havia sido prostituta.

Ao chegar a casa com os feixes recolhidos no campo, Rute contou à sua sogra o que se passara e como aquele homem a recebeu com dignidade. Noemi só faltou festejar. Ela reconheceu tratar-se de um parente bem próximo de seu falecido marido. E de acordo com os costumes da época, ele poderia ser o resgatador de Rute, isto é, aquele que poderia libertá-la de sua condição. Bastaria tão somente que se dignasse a tomá-la por esposa.  
“Certo dia, Noemi, sua sogra, lhe disse: "Minha filha, tenho que procurar um lar seguro, para sua felicidade. Boaz, aquele com cujas servas você esteve, é nosso parente próximo. Esta noite ele estará limpando cevada na eira. Lave-se, perfume-se, vista sua melhor roupa e desça para a eira.”
Noemi, então, aconselhou-a a esperar que Boaz se adormecesse,  viesse discretamente, descobrisse seus pés e se aconchegasse junto a eles. Mesmo sem entender direito o significado de tal gesto, Rute optou por obedecer à recomendação de sua sogra.

Ao acordar assustado, Boaz sentiu-se surpreso com a cena de Rute deitada aos seus pés. Ela poderia ter se aproveitado do fato de ele ter se embriagado antes de dormir, seduzindo-o e até provocando uma gravidez que lhe garantiria um futuro promissor. Em vez disso, ela tão-somente descobre os seus pés e neles se aconchega.

Vendo-o assustado, ela diz:

 – Estende sobre mim a sua capa, pois o senhor é o meu resgatador.

Vejo nesta cena cada um de nós, aconchegado aos pés de Cristo e rogando-lhe que nos estenda Seu manto de amor e misericórdia. Ele é o nosso Resgatador!

O coração de Rute deveria estar a mil. Qual seria a reação de Boaz? Não poderia ser outra senão a de um gentleman.
“O Senhor a abençoe, minha filha! Este seu gesto de bondade é ainda maior do que o primeiro, pois você poderia ter ido atrás dos mais jovens, ricos ou pobres! Agora, minha filha, não tenha medo; farei por você tudo o que me pedir. Todos os meus concidadãos sabem que você é mulher virtuosa.”
Boaz considerou que Rute agiu para com ele com a mesma bondade com que agiu para com a sua sogra, recusando-se a abandoná-la. A esta altura, todos em Belém já sabiam que aquela jovem viúva não era uma aproveitadora, alguém em busca de locupletar-se, e sim, uma mulher dotada de admiráveis virtudes. 

O que Rute jamais poderia presumir era que ao se casar com Boaz, ela não apenas era desposada pelo filho de uma prostituta cananeia, mas também ingressava na árvore genealógica que traria ao mundo o grande Resgatador, o Filho de Deus, que ao se fazer carne, sentiria na própria pele “a delícia e a dor” de ser humano.