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terça-feira, setembro 19, 2017

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Ser gay não é uma opção! - As razões biológicas da homossexualidade



Por Hermes C. Fernandes 

Em posts anteriores, abordei o preconceito sofrido pelos homossexuais, e defendi que a igreja deveria acolher respeitosamente a tais indivíduos. Mas a partir deste ponto, quero dar um passo além. Sei dos riscos que corro. Porém, não me vejo em condição de me acovardar ante o sofrimento de tantos por causa de sua orientação sexual. 

Como já tenho alardeado, homofobia é pecado. E quanto à homossexualidade, poderíamos dizer o mesmo? É pecado ser homossexual? O que diz a Bíblia acerca disso? O que dizem as últimas descobertas científicas? Sim, uma questão está intimamente ligada a outra, porque, se for comprovado cientificamente que a orientação sexual tem fatores biológicos, logo, teremos que rever o que tem sido dito acerca da homossexualidade em nossos púlpitos. Como Deus poderia condenar algo sobre o qual o indivíduo não tenha qualquer controle? Se o próprio Deus o criou nessa condição, que culpa lhe restaria? 

Por favor, em nome do amor, peço que leia as próximas linhas, não apenas com a mente aberta, mas, sobretudo, com o coração enternecido. Lembre-se de que poderia ser um filho seu. 

Vamos começar pela ciência. No próximo post, abordarei o tema sob o prisma bíblico. É verdade que ninguém nasce gay? Aquele papo de que não há gene gay procede? Quando alguém resolve sair do armário, ele ou ela se tornaram gay ou simplesmente resolveram assumir sua orientação sexual? Afinal, ser gay é uma opção ou orientação? Sejamos sinceros: alguém em sã consciência optaria por ser alvo de todo tipo de ódio e preconceito? Você consideraria isso uma opção razoável? A menos que, além de homossexual, fosse também masoquista. Se concluirmos que é uma opção, então, ninguém nasce nesta condição. Trata-se de um comportamento aprendido. Simples assim. Logo, Malafaia, Feliciano e Marisa Lobo estariam cobertos de razão. Tudo dependeria do ambiente e/ou da educação recebida. Porém, se concluirmos que é uma orientação, logo, teremos que admitir que se trata de uma condição inata. 

O fato de alguém ter sido violentado quando criança explicaria sua homossexualidade? Será que todo gay foi molestado na infância? E os que por ventura foram violentados, não o teriam sido por já manifestarem trejeitos que acabaram atraindo os predadores? Veja: não se trata de culpá-los pela violência sofrida. Nada justifica esta monstruosidade. O fato é que meninos com trejeitos femininos podem atrair a atenção de pedófilos, tanto como meninas. Pais que têm filhos homossexuais deveriam redobrar sua atenção e orientar seus filhos a evitar contato com pessoas que demonstrassem tal índole. Mas, afinal, o que diz a ciência?

Estudos biológicos indicam que a formação da sexualidade acontece antes mesmo do nascimento. Parte disso se deve aos genes, mas também há fatores que atuam no desenvolvimento do feto. Bem da verdade, não há nada comprovado. Entretanto, as evidências que estão surgindo a cada dia têm potencial para provocar uma revolução no pensamento científico. Se forem comprovadas, podem subverter o entendimento que temos acerca da homossexualidade, fazendo com que deixemos de encará-la como um comportamento antinatural, e, por conseguinte, pecaminoso.

Entre os séculos 19 e 20 a psiquiatria considerava a homossexualidade como um transtorno mental resultantes de uma educação equivocada. Se tal teoria fosse comprovada, então, seria plausível acreditar numa reversão da homossexualidade, bastando que o indivíduo fosse submetido a terapias baseadas em teorias de condicionamento. Em 1973, a Associação Psiquiátrica Americana decidiu tirar de sua lista de distúrbios mentais a atração sexual por pessoas do mesmo sexo. A partir daí, o termo homossexualismo foi substituído por homossexualidade, uma vez que o sufixo “ismo” denotava doença. Em 1991, o neurocientista Simon LeVay afirmou ter encontrado diferenças em cérebros de homens gays e héteros, depois de examinar o hipotálamo, zona cerebral responsável pela sexualidade, e descobrir que a região chamada INAH-3 era entre duas e três vezes menor nos homossexuais. Aquela foi a primeira evidência da origem biológica da homossexualidade. LeVay acreditava que algo acontecia ainda no ambiente intrauterino que afetaria a sexualidade do indivíduo. [1] 

Surge, então, a embaraçosa questão: o que ocorreria para definir a orientação sexual e não apenas seu gênero? Haveria um gene gay? Em 1993, o geneticista Dean Hamer, do Instituto Nacional do Câncer nos Estados Unidos, percebeu que a ocorrência de gays era maior do lado materno das famílias. Sua descoberta chamou sua atenção para o cromossomo X. Com um escâner, Hamer viu que uma região do cromossomo X, chamada de Xq28, era idêntica em muitos irmãos gays. Pode-se dizer que em vez de descobrir um gene gay, ele encontrou uma tira inteira de DNA.[2] A conexão entre a orientação sexual e os genes sugeria que ninguém escolhia ser homossexual, antes, tratava-se de uma condição congênita. Portanto, já não se podia dizer que a homossexualidade seria antinatural. Pelo menos, não à luz das descobertas científicas. 

Não obstante, pesquisas mais recentes dão conta de que a homossexualidade transcende o componente genético. A maior evidência disso é o caso de gêmeos, onde, apesar de serem geneticamente semelhantes, apenas um desenvolve a homossexualidade. Ora, se a causa da homossexualidade fosse estritamente cromossômica, os dois deveriam apresentar a mesma orientação sexual. Todavia, de acordo com os pesquisadores americanos Michael Bailey e Richard Pillard, entre gêmeos bivitelinos, quando um é gay, o outro teria 22% de possibilidade de ser gay. Já entre univitelinos, a probabilidade é maior que o dobro: 52%. Considerando que a taxa entre a população estaria entre 2% e 5%, fica provado a existência de um componente genético na homossexualidade.[3] 

Entretanto, fica igualmente provado que os genes não são a resposta para tudo nesta questão. Segundo o pesquisador Alan Sanders, os estudos com gêmeos sugerem uma estimativa de que até 40% da orientação sexual deva-se à influência genética. E quanto aos outros 60%? Uma possível resposta seria o desenvolvimento biológico do feto no ambiente intrauterino. De acordo com uma das mais promissoras pesquisas neste campo, os hormônios sexuais masculinos (andrógenos) se conectam às partes responsáveis pelos desejos sexuais no cérebro, influenciando seu crescimento, tornando o cérebro mais tipicamente masculino ou feminino. A conexão dependeria das proteínas receptoras de andrógenos. Supondo que cada célula do cérebro fosse uma casa, as proteínas receptoras de andrógenos (AR) funcionariam como o portão que controla a entrada. A quantidade e localização desses portões variam entre homens e mulheres. O hipotálamo masculino tem mais ARs que o feminino, por exemplo. Segundo esta teoria, a homossexualidade nos homens seria causada por portões que restringiriam a entrada de andrógenos nas regiões responsáveis pela sexualidade, produzindo, assim, um cérebro submasculinizado. Já nas mulheres, esses portões facilitariam entradas maiores, produzindo uma estrutura supermasculinizada. Tudo, portanto, seria consequência do número de ARs de cada feto, que possivelmente estaria relacionado à carga genética. Apesar de os cientistas admitirem que se trata de um processo complexo, o fato é que as pistas da ação dos hormônios pré-natais estão por toda a parte, revelando-se até nos aspectos físicos. É importante ressaltar que os hormônios importantes na formatação da orientação sexual não são os que circulam no sangue nos adultos, e cujos níveis são iguais entre héteros e homossexuais, e sim os hormônios que atuaram durante a gestação. 

Fica desacreditada e descartada a hipótese de que o abuso sexual na infância seria a causa da homossexualidade, como também a que sugere que haja mais probabilidade de que haja gays em lares chefiados por mulheres ou entre filhos criados por casais de homossexuais. Dean Hamer conclui que os fatores biológicos (genes e hormônios) seriam responsáveis por mais de 50% da orientação sexual. Os outros quase 50% podem ser atribuídos a fatores psicológicos e sociais. Em outras palavras, a predisposição à homossexualidade vai se manifestar dependendo das experiências de vida da pessoa. Alguns indivíduos aprendem a sublimar, outros simplesmente se abdicam de sua sexualidade por uma causa maior. Estudo feito pelo Instituto Karolinska na Suécia, publicado em 2005, detectou através do escaneamento de atividades cerebrais que homossexuais homens apresentam resposta fisiológica aos feromônios do sexo masculino igual às mulheres heterossexuais, evidenciando claramente um componente biológico na orientação sexual. 

No mesmo ano, os pesquisadores Gleen Wilson e Qazi Rahm publicaram sua conclusão de que a orientação sexual seria determinada por uma combinação de fatores genéticos e atividade hormonal durante a gestação, e que as experiências posteriores na infância, bem como o ambiente familiar, a educação e a escolha pessoal teriam pouca ou nenhuma influência no assunto. [4] De acordo com os autores, homossexuais nascem homossexuais, e a proporção de indivíduos com esta orientação sexual na população mundial parece não variar significativamente. Em 1994, a Associação Americana de Psicologia declarou que a investigação científica sugere que a orientação sexual é determinada muito cedo no ciclo da vida, possivelmente antes mesmo do nascimento. 

Homossexualidade no reino animal 

Se o comportamento homossexual fosse antinatural como defendem alguns, como explicar o fato de ser tão comum no reino animal, envolvendo desde insetos até mamíferos? Pesquisa feita em 1999 pelo biólogo canadense Bruce Bagemihl [5]  revela que o comportamento homossexual já foi observado em cerca de 1500 espécies animais, desde primatas até vermes intestinais, e foi bem documentado em pelo menos 500 delas.[6] Dados atuais indicam que várias formas de comportamento sexual homossexual são encontradas em todo o reino animal.[7] Uma revisão das pesquisas feita em 2009 revelou que este comportamento é um fenômeno quase universal entre as espécies. Bem da verdade, apesar de indivíduos de centenas de espécies manterem relações sexuais com parceiros do mesmo sexo em ocasiões isoladas, poucos fazem disso uma rotina.[8]  Seu interesse pelo sexo oposto continua ao longo da vida. Portanto, não se pode classificá-los de homossexuais na acepção da palavra. 

Somente duas espécies exibem preferência pelo mesmo sexo pelo resto da vida, mesmo havendo parceiros disponíveis do sexo oposto: a espécie humana e o carneiro domesticado. No segundo caso, até 8% dos machos do rebanho preferem outros machos mesmo quando há fêmeas férteis por perto.[9] Em 1994, neurocientistas descobriram que os machos desta espécie tinham cérebro ligeiramente diferente do resto, com um hipotálamo menor, que é a parte que controla a liberação de hormônios sexuais.[10] Isso endossa o já citado estudo do neurocientista Simon LeVay que descrevia uma diferença entre a estrutura cerebral de homens héteros e homossexuais. 

Outro animal considerado um dos mais inteligentes e que mantém relações com indivíduos do mesmo sexo é o golfinho. Em um caso que chamou a atenção de muitos pesquisadores um par de golfinhos machos manteve um relacionamento por dezessete anos. 

Nem os leões, conhecidos como os reis da selva, escapam deste curioso fenômeno. Os leões africanos geralmente mantém haréns de fêmeas e exercem sua liderança através de uma hierarquia patriarcal. Apesar disso, uma porcentagem de leões africanos machos abandonam suas fêmeas para formar seus próprios grupos homossexuais. Os leões são reconhecidamente os felinos com o maior desejo sexual, o que não os impede de desenvolver este tipo de comportamento. Entre as aves, sabe-se que mais de setenta tipos acasalam-se com indivíduos do mesmo sexo, incluindo os fascinantes pinguins. 

O certo é que enquanto a homossexualidade está presente em tantas espécies animais, a homofobia só é verificada na espécie humana, e isso, para vergonha nossa. 

No próximo post falarei sobre a presença gay na igreja evangélica e o que dizem as Escrituras. Peço ao Espírito Santo que ilumine nossa consciência para que compreendamos as angústias sofridas por homossexuais, pelo simples fato de não se aceitarem como são, ou por não serem aceitos pelos que os cercam. Peço que as feridas em seus corações sejam cicatrizadas e a hemorragia em suas almas se estanque por completo. Que se sintam plenamente amados em sua condição. Que se entreguem inteiramente a este amor, de modo que possam viver dignamente, guardados de uma vida promíscua em que sejam tão-somente usados como objetos descartáveis. Que encontrem quem os ame de verdade, sem exigir que se mutilem, tendo sua integridade dissolvida para atender expectativas puramente moralistas. E que assim, vivam para a glória d'Aquele que os criou, enfrentando valentemente todo preconceito raivoso, mesmo aquele impingido em nome da religião.


[1] LeVay S. A difference in hypothalamic structure between heterosexual and homosexual men Science, 1991 
[2] HAMER, Dean H. et al. A linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation. Science, n. 261, 1993, p. 321-327. 
[3] BAILEY, J. Michael, PILLARD, Richard C. A genetic study of male sexual orientation. Archive of General Psychiatry, n. 48, 1991, p. 1089-1097 
[4] WILSON, Gleen, RAHM, Qazi, Born Gay: The Psychobiology of Sex Orientation, London, 2005 
[5] Bruce Bagemihl, Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity, St. Martin's Press, 1999. 
[6] Harrold, Max (16 de fevereiro de 1999). Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity The Advocate, reprinted in Highbeam Encyclopedia. 
[7] "Same-sex Behavior Seen In Nearly All Animals, Review Finds", Science Daily 
[8] Levay, Simon. Queer Science: The Use and Abuse of Research into Homosexuality. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 1996. 
[9] Levay, Simon. Gay, Straight, and The Reason Why The Science of Sexual Orientation. Cambridge, Massachusetts: Oxford University Press, 2011. 
[10] Roselli, Charles E.; Kay Larkin, John A. Resko, John N. Stellflug and Fred Stormshak. (2004,). "The Volume of a Sexually Dimorphic Nucleus in the Ovine Medial Preoptic Area/Anterior Hypothalamus Varies with Sexual Partner Preference". Journal of Endocrinology, Endocrine Society, Bethesda, MD 145 (2)

quinta-feira, março 16, 2017

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CARTA ABERTA AOS GAYS, TRANS E CIA



Por Hermes C. Fernandes 

Antes de tudo, quero dizer o quanto vocês são amados. Sim, digo em alto e bom som: VOCÊS SÃO AMADOS! E são amados exatamente do jeito que são. Suas vidas são preciosíssimas aos olhos d’Aquele que os criou. Sua homossexualidade não é fruto de uma contingência qualquer. Não se deve ao ambiente, à criação, à atuação de espíritos malignos, a uma maldição, ou mesmo a um abuso sofrido na infância. Ninguém tem culpa. Até porque, culpa a gente tem por algo errado que tenha sido feito. E o que vocês fizeram para ser o que são? Que tal substituir a palavra ‘culpa’ pela palavra ‘propósito’? Saibam que Deus os fez com um propósito: desafiar nossa sociedade a aprender a amar. Mas para tal, ela terá que se livrar de preconceitos arraigados por gerações. Terá que reaprender a arte do convívio respeitoso com o diferente. 

Se vocês e outros segmentos não existissem da maneira como são, nós estaríamos fadados a viver numa sociedade uniformizada, ensimesmada, narcisista, que só seria capaz de amar os que refletissem sua própria imagem. Vocês nos desafiam a ser melhor que isso. Somos tão acomodados que precisamos de quem nos arraste pelas veredas da evolução ética e moral. Sua existência serve a isso. 

Peço que perdoem a nossa ignorância. Imagino o quanto temos sido cruéis ao impor-lhes que se adequem ao nosso modo de ser. 

Perdoem porque não sabemos o que dizemos, muito menos o que fazemos. Somos uns tolos que se acham donos da verdade e que apelam à religião para justificarem seu preconceito. 

No fundo, a razão pela qual os desprezamos reside em nosso machismo crônico. Apesar de tudo, insistimos com a ideia de que a mulher seja um ser de segunda categoria, portanto, inferior ao homem. Logo, é vergonhoso que um homem queira ser uma mulher ou manifeste atributos femininos. Crescemos ouvindo que “homem não chora”. Isso é coisa de mulherzinha. Gays mexem com nossos escrúpulos masculinos. Por isso, preferiríamos que não existissem. Mas já que existem, que vivam bem longe do nosso convívio. Sentimo-nos inseguros diante de vocês, pois expõem, sem qualquer recato e constrangimento, aquilo que preferimos manter em sigilo absoluto, encerrado nos porões de nossa alma. Ninguém precisa saber quão sensíveis os homens podem ser. O mesmo se dá com relação às lésbicas. Quem elas pensam que são para bancar os machos? Sua existência é um atentado ao nosso orgulho. Uma mulher jamais seria capaz de manifestar atributos predominantemente masculinos. Simples assim. Ninguém admite. Mas esta é a verdade. É por isso que nos sentimos tão incomodados com a homossexualidade. Ela mexe com nosso brio. Expõe nossas idiossincrasias. Revela nossa ambiguidade. 

Agora que conhecem a razão deste preconceito idiota, imploro que nos perdoem. 

Perdoem-nos por sabotá-los, buscando impedir que sejam quem são. Não nos importamos que sejam gays, desde que mantenham a discrição, não deem na pinta, e nem sonhem em sair do armário. Anulem-se! Finjam ser héteros. Ou tornem-se celibatários. Isso vai facilitar a vida de todo mundo. É isso que pensamos e não somos ‘machos’ o suficiente para assumir. 

Vocês têm o direito de se expressarem em reação a todo desprezo do qual têm sido vítimas por tanto tempo. Perdoem nossa cara de nojo ao testemunhar uma cena de carinho entre vocês. Deveríamos sentir nojos de nós mesmos e não de outros seres humanos que não sentem vergonha de se expor em público para demonstrar seu amor. Carinho que nem sempre se vê entre casais héteros que desfilam entretidos com seus celulares como se ignorassem a companhia um do outro. 

Perdoem-nos por ensejar impedir que vivam uma relação estável. Preferimos vê-los entregues à promiscuidade, passando de mão em mão, correndo o risco de contrariem doenças sexualmente transmissíveis. Pelo menos, assim, poderemos dizer que vocês receberam dos céus o castigo que mereciam. E por falar em “contrair”, deixe para nós a santa instituição do casamento. Fingimos valorizá-la, mas, cá entre nós, consideramos o casamento uma doença. Mas é doença de hétero. Talvez por isso falamos em “contrair matrimônio”. Este é o nosso castigo. Não o de vocês! Contentem-se com as DST! Deixem o casamento para nós! Deveríamos é nos envergonhar por desprezar uma instituição pela qual vocês resolveram lutar. Que lição vocês estão nos dando! É fácil exigir que um gay apele ao celibato em nome de uma regra religiosa. Difícil é colocar-se em seu lugar para perceber quão dolorosa é a solidão. 

Perdoem-nos por tentar lhes inviabilizar a adoção de filhos. Somos tão caras de pau que alegamos que nosso temor é que seus filhos sejam induzidos à homossexualidade, quando, na verdade, todo gay que conhecemos é filho de casal de heterossexuais. É verdade que você (ainda) não podem reproduzir. Mas também é verdade que muitos de vocês estão dispostos a assumir os cuidados de crianças que foram abandonadas por pais héteros. 

Perdoem-nos por lhes tachar de promíscuos. Não deve ser fácil encontrar alguém que não queira se aproveitar de sua carência e abusar de sua condição. 

Peço que não guardem rancor de seus pais, caso tenham sido rejeitados pelos mesmos. Eles são filhos do seu próprio tempo. Enxergam a vida com categorias ultrapassadas que lhes foram passadas por seus antepassados. Vocês são filhos do futuro, e por isso, nos desafiam a evoluir em nossos conceitos.  
Como Jesus ensinou, paguem com amor aos que lhes ofenderem. O ódio só faz retroalimentar o ciclo de violência. Só o amor é capaz de rompê-lo. 

Lembrem-se: sua vida é uma lição para todos nós. Lição de coragem e resiliência. 

Aos que preferem se resguardar e manter em sigilo sua orientação sexual, meu respeito e solidariedade. Aos que romperam com o obstáculo e saíram do armário, minha admiração. E aos que escondem sua orientação sexual atrás de um discurso homofóbico, deixo-lhes a advertência de Cristo: “Nada há oculto que não seja revelado.” Prepare-se, pois sua máscara eventualmente vai cair. Troque seu ódio mortal por si mesmo, por amor ao seu próximo. 

P.S. Quanto à questão da homossexualidade, quero deixar claro que só há salvação se houver arrependimento seguido de conversão. Se o sujeito segue homofóbico, continua perdido em seus delitos e pecados. Mas se ele se arrepende e passa a acolher o homossexual sem preconceitos e juízos condenatórios, a mesma misericórdia que ele aplicar virá em seu socorro. Homofobia não é apenas crime na justiça dos homens, mas também pecado na justiça de Deus.

sábado, setembro 26, 2015

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Sobre a aprovação do texto do Estatuto da Família na Câmara de Deputados




Por Hermes C. Fernandes

A comissão especial que discute o Estatuto da Família na Câmara dos Deputados aprovou hoje o texto principal do projeto que define família como a união entre homem e mulher. A comissão aprovou o relatório por 17 votos favoráveis e 5 contrários, numa reunião tumultuada. 

A deputada Érika Kokay (PT-DF) afirmou que o projeto "institucionaliza o preconceito e a discriminação". Já o deputado e pastor evangélico Takayama (PSC-PR) interrompeu a deputada, gritando: "homem com homem não gera" e "mulher com mulher não gera". Manifestantes contrários ao projeto rebateram: "não gera, mas cria". 

Os paladinos da moral e dos bons costumes parecem ter vencido mais uma importante batalha nesta épica guerra de nervos travada no congresso nacional. Segundo eles, a família tradicional estaria sob um acirrado ataque daqueles que almejam destruí-la, impondo à sociedade sua nefasta agenda, cujo objetivo principal seria a implantação de uma espécie de ditadura gay. 

O que seria, então, uma família ideal? De onde buscaríamos um modelo perfeito? Certamente responderiam que na Bíblia. Então, saiamos em busca de um modelo ideal de família nas páginas sagradas. Que tal a primeira família? Sim, aquela formada inicialmente por Adão e Eva. Lá estavam o pai, a mãe e os filhos. Família perfeita, não? Pena que o irmão mais velho resolveu matar o caçula. 

Se avançarmos um pouco, nos depararemos com a família de Noé. Foi com ela que Deus teria dado o restart na raça humana após o catastrófico dilúvio. Lá também estavam a figura do pai, da mãe, acompanhados de três filhos e três noras. Perfeito, não? Como manda o figurino! Só não se esqueça de que um dos irmãos resolveu avacalhar o pai após flagrá-lo nu e embriagado. É, minha gente...isso acontece nas melhores famílias. Resultado: acabou amaldiçoado! 

E que tal a família de Abraão? Estamos falando do grande patriarca hebreu, comumente chamado pelos cristãos de “pai na fé”. O problema em seu núcleo familiar é que faltava prole. Portanto, a família não era completa. Pelo menos, não segundo os defensores da tal família tradicional. O velho Abraão, aconselhado por sua esposa igualmente idosa, resolveu ter um affair com a escrava egípcia. Resultado: um filho bastardo. Foi um bafafá. 

E o que dizer de Jacó? Quatro mulheres. Doze filhos. Dez deles planejaram matar o então caçula José. Não me parece uma família que nos sirva de modelo, certo? 

Vamos pular para Davi. Homem segundo o coração de Deus. Além de suas puladas de cerca (que lhe renderam sérias dores de cabeça), teve o desprazer de amargar todo tipo de conflito entre seus filhos, desde incesto até assassinato. Sem contar que teve seu trono usurpado por seu próprio filho. 

Poderia citar outros exemplos, mas é melhor ficar por aqui. 

A família é a primeira das instituições criadas por Deus. E como tal, foi criada para o bem do homem. Vale para a família o mesmo princípio que Jesus aplicou a outra instituição divina: o sábado. De acordo com o mestre galileu, “o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” Semelhantemente, a família existe para oferecer ao homem certa segurança e não para ser um fardo. Não se pode colocar qualquer que seja a instituição acima do valor da vida humana. Por isso, Jesus disse que mesmo no sábado deveríamos socorrer quem estivesse em apuros. Não foi à toa que a maioria das curas que realizou foi no dia santo. 

Interessante notar que sempre que vinha a Jerusalém, o lugar onde costumava se hospedar era na casa de três solteirões num vilarejo chamado Betânia. Lázaro, Marta e Maria eram irmãos. Nenhum deles havia se casado. Portanto, não constituíam uma família de modelo tradicional de acordo com o que tem sido apontado pelos defensores da moral cristã. Para um judeu daquela época, estar solteiro na vida adulta era considerado uma desonra. Às favas com as tradições! Era na casa deles que Jesus se sentia acolhido. 

Mas o que mais intrigava os religiosos era o fato de que Jesus andava muito mal acompanhado. Eles o chamavam de “amigo de pecadores”. Prostitutas e proscritos sentavam-se para ouvi-lo. Ele jamais os recriminou. Chegou mesmo a dizer que eles precederiam os religiosos no reino dos céus. 

Uma das poucas casas bem frequentadas em que ele entrou foi a de certo religioso que ficou escandalizado ao vê-lo sendo presenteado com um perfume das mãos de uma meretriz. O que para o religioso hipócrita era a profanação da santidade de seu lar, para Jesus era a mais solene manifestação de amor. Ouso dizer que Jesus jamais havia se sentido tão amado quanto foi por aquela prostituta. 

Voltando à questão inicial deste capítulo: o que deveria ser considerado uma família ideal? Minha resposta é: aquela formada por seres humanos que se amam e se respeitam mutuamente. O que legitima uma família não são a presença de um pai, uma mãe e seus filhos, e sim o sentimento puro que une seres humanos em vínculos perenes. 

Se há amor, Deus está ali. Mas, se não há amor, nem mesmo laços consanguíneos garantem um ambiente acolhedor e saudável aos seus integrantes. 

O ideal é que todo lar fosse constituído pelas figuras paterna, materna e sua prole. Porém, vivemos em um mundo de contingências. Crianças são abandonadas. Pais se separam. Núcleos familiares se dissolvem. Num mundo imperfeito, famílias imperfeitas podem ser o cenário onde vidas serão resgatadas e amadas. 

Nunca houve, nem jamais haverá famílias perfeitas. Mas toda família, independentemente do modelo, deve ser perfeitamente capaz de amar e acolher os seus membros. 

Infelizmente, muitas famílias tradicionais desprezam e abandonam seus filhos quando descobrem sua orientação sexual. Conheço o caso de um pastor que enviou seu filho para o exterior para que a igreja não descobrisse que ele era gay. Outro caso que se tornou notório nos Estados Unidos foi o do filho de um pastor famoso que se suicidou depois que seu pai o excomungou publicamente por assumir sua homossexualidade. 

A família deveria ser o lugar onde o indivíduo fosse aceito a despeito de sua orientação sexual ou de qualquer outra coisa. Pais de verdade jamais desistem de amar. 

Confesso que me sensibilizo ao ver um homossexual que, mesmo tendo sido desprezado pela própria família, deseja dedicar seu amor e cuidado a uma criança órfã ou abandonada. Ele se propôs a dar o que jamais recebeu. Haveria algo mais louvável que isso? 

O receio que muitos têm é que uma criança criada por um homossexual acabe abraçando a mesma orientação sexual. Entretanto, praticamente todo homossexual que já conheci é oriundo de uma família tradicional. 

A maioria dos abusos sexuais perpetrados contra infantes ocorre em lares tradicionais, alguns até religiosos. 

Sinceramente, prefiro mil vezes ver uma criança acolhida por um casal homossexual a vê-la vivendo a relento, sem carinho, sem educação e privada de sua dignidade. 

Nossa hipocrisia religiosa é tamanha que preferimos ver um homossexual vivendo promiscuamente com múltiplos parceiros a vê-lo constituindo uma família numa relação monogâmica. Enquanto os paladinos da moral sobem aos palanques das marchas para Jesus ostentando um terceiro ou quarto casamento, ou exibindo um casamento de fachada onde o lugar da amante está assegurado, gays lutam pelo direito de contraírem uma união estável. 

Já está mais do que na hora de deixarmos nossas trincheiras ideológicas e enxergarmos esta demanda social com amor. 

Não será privando gays de seus direitos que conseguiremos atraí-los ao evangelho. Pelo contrário. Deveríamos defendê-los, ainda que seu estilo de vida desafie nossos escrúpulos religiosos. Acima de tudo, são seres humanos, criaturas do mesmo Deus a quem declaramos amar e servir. 

Portanto, ame-os e deixe-os amar, acolha-os e deixo-os acolher. 

Pecado é tudo aquilo que atenta contra a dignidade humana, insultando assim ao Criador. Homofobia é pecado. Preconceito, qualquer que seja, também o é. Mas “o amor cobre multidão de pecados” e que “a misericórdia triunfa sobre o juízo.” Todavia, "o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não teve misericórdia." 

Fico a imaginar se estes nobres deputados vivessem duzentos anos atrás e tivessem que votar a definição de ser humano, que resultado obteríamos. 

Enquanto eles comemoram, parte da sociedade lamenta. Para alguns deles, apenas um voto, mas para a sociedade brasileira, um enorme retrocesso. 

Se o estado é, de fato, laico, não se pode impor uma visão religiosa de um grupo ao restante da população. Valores devem ser abraçados conscientemente e não por imposição de terceiros. 

Com isso, não apenas direitos são vetados a certos segmentos, como também se aprofunda ainda mais o abismo entre tais segmentos e a igreja.

segunda-feira, agosto 10, 2015

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O que a Bíblia diz sobre a homossexualidade



Por Hermes C. Fernandes

Você se considera tímido? Então, responda-me com sinceridade: como se sente ao saber que os tímidos encabeçam a lista dos que passarão toda a eternidade sendo torturados no inferno? Pelo menos é o que lemos em Apocalipse 21:8. Confira:

“Mas, quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos que se prostituem, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte.”

Quando postei esta pergunta em meu perfil no facebook, a primeira resposta que obtive foi: “Sinto q se eu n for p o inferno de um jeito, vou de outro...rs”

Obviamente que esta resposta bem humorada está baseada na crença de que ir ou não para o inferno tenha a ver com o fato de constar de uma lista. Se depender exclusivamente disso, seria aconselhável dar uma checada noutras listas apresentadas nas Escrituras:
“Mas, ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira.”Apocalipse 22:15
E então, escapou desta? Você se considera um “cão”, seja lá o que isso signifique? Pratica feitiçaria? Anda se prostituindo por aí? Já matou alguém? Possui ídolos? Se prostra perante eles? Conta uma mentirinha de vez em quando? Não!? Tem certeza? Ok. Digamos que desta você escapou por pouco. Mas não termina aí. Vamos à próxima lista?

“Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.”  
1 Coríntios 6:9,10

A coisa agora começou a apertar pra você, não? Já está até suando frio, hein? Mas que bom que você não é o que se poderia chamar de devasso, muito menos de adúltero... quer dizer, desde que não leve em conta aquela estória de que basta uma olhada para a mulher alheia e você já adulterou com ela...  Mas, tudo bem, né? Ninguém é de ferro. Mas pelo menos, você não é GAY! Isso mesmo! Tudo, menos isso.  Você pode até ser um maldizente (vulgo, fofoqueiro), mas não anda por aí desmunhecando. Quer saber... Deus nem vai se importar com os outros itens da lista. Desde que você não seja gay.

Está vendo como a gente trata logo de arrumar uma desculpa para salvar nossa pele? O importante é garantir que você esteja dentro e não fora, incluído e não excluído dos VIP’s que herdarão o reino dos céus.

É relativamente fácil dar uma manipulada quando nossas vicissitudes se encontram perdidas entre tantas outras. Parecem ser apenas detalhes que passam despercebidos. Mas aquela lista de Apocalipse é intragável. Pelos simples fato de ser encabeçada por uma vicissitude que julgamos ser trivial. Sete em cada dez pessoas se consideram tímidas. E agora?

Já sei. Há uma saída! Vamos vasculhar o texto em seu idioma original. Quem sabe a palavra “tímido” tenha outro significado. Talvez assim, a gente consiga salvar a pele de muita gente, inclusive a nossa.

Depois de uma breve pesquisada, a gente descobre que a palavra traduzida por “tímido” naquela passagem é ‘deilos’, encontrada em outros dois textos do Novo Testamento. Vamos dar uma conferida neles para ver se a gente escapa da lista?

Ambas as passagens relatam o episódio em que Jesus socorreu os Seus discípulos numa tempestade que quase os levou ao naufrágio (Mt.8:26, Mc.4:40). “Por que sois tão tímidos?  Ainda não tendes fé?”, repreendeu-os Jesus.  Concluímos daí que a tal timidez de que fala Apocalipse deve estar ligada à falta de fé. Não é o nosso caso, não é mesmo? Quer dizer... pensando bem, houve momentos em nossa caminhada em que nos intimidamos diante das circunstâncias. Ser “tímido” não teria a ver com ser introspectivo, calado, ter pavor de falar em público, e sim com sentir-se intimidado diante de uma situação. Então, sinto em lhe informar que por mais que nos desdobremos para fazer uma exegese que livre a nossa cara, estamos todos numa situação delicada.  Então, que tal colocar tudo isso na conta da misericórdia divina? Se Jesus pôde sair em socorro daqueles discípulos, certamente se compadecerá de nós e não nos deixará de fora.

Concordo plenamente. Só não concordo quando usamos duas medidas. Uma para livrar nossa pele, e outra para condenar os que consideramos indignos de desfrutar da mesma salvação. Esquecemo-nos de que estamos todos no mesmo barco, enfrentando a mesma tempestade. Somos humanos. Falíveis. Vulneráveis. Desesperadamente carentes da graça de Deus.

Reparou que numa das listas que apresentei acima encontramos os “efeminados” e “sodomitas”? É baseada nesta lista que afirmamos com convicção de que homossexuais são indignos de serem alcançados pela mesma graça que nos alcançou.

Que tal sermos honestos para fazer o mesmo tipo de exegese que fizemos para tentar salvar a pele dos tímidos?

O termo grego traduzido por “efeminados” é “malakoi”, que pode ser literalmente traduzido como “mole”, “macio”, “suave ao toque” (algo como “molengão”).  Alguém sem fibra, que se entregava facilmente diante de uma situação de pressão. Em época de implacável perseguição contra os cristãos, o mínimo exigido de um seguidor de Cristo é que fosse firme. O termo “malakoi” aponta para uma inaceitável fraqueza de caráter. Por que traduziram este termo como “efeminado”? Porque nas culturas antigas, a feminilidade era vista como sinônimo de fragilidade. Seria mais ou menos como dizer a um filho hoje em dia: Seja homem! Não seja uma mulherzinha! É óbvio que o objetivo de quem usa tal expressão não é diminuir o valor da mulher, mas encorajar o filho a portar-se varonilmente.  

Dicionários teológicos associam malakos (singular de “malakoi”) a um homem afeminado, mas reconhecem que o termo pode significar pessoas promíscuas, isto é, dadas aos prazeres da carne, tanto homens, quanto mulheres.  Porém, há estudos que relacionam malakoi com a prostituição masculina praticada na época de Paulo, principalmente em Corinto, cidade famosa por sua depravação sexual.

Já o termo “arsenokoitai”,  traduzido como “sodomita” na versão de Ferreira de Almeida, só passou a se referir a prática homossexual a partir da Alta Idade Média. Etimologicamente, o radical linguístico “arsen” significa macho, enquanto “koitos” significa leito. Bem da verdade, “arsenokoitai” é um termo de significado obscuro, que não possui qualquer registro na literatura clássica grega. O que levou alguns a considerar tratar-se de neologismo do próprio Paulo. Convém lembrar que há uma enorme quantidade de vocábulos do grego clássico usados para designar o comportamento homossexual, porém, Paulo não lançou mão de nenhum deles.  Logo, podemos deduzir que o apóstolo estivesse falando de algo bem particular e não propriamente da homossexualidade. A Bíblia de Jerusalém, considerada uma das melhores traduções das Escrituras, traduz o termo “arsenokoitai” como “pessoas de costumes infames”.

É plausível crer que Paulo estivesse se referindo à prática da prostituição cúltica tão disseminada no império romano, onde homens, independentemente de sua orientação sexual, tinham relações tanto com pessoas do mesmo sexo, quanto com do sexo oposto, atribuindo a isso um valor devocional.  

Festas religiosas como a dedicada a Dionísio, deus do vinho (conhecido também como Baco; daí o termo “bacanal”, festival de Baco) eram verdadeiras orgias, onde famílias inteiras se entregavam aos prazeres desenfreados da carne, julgando com isso estarem cultuando ao seu ídolo.

É também neste contexto de idolatria que Paulo expressa seu repúdio no primeiro capítulo de sua epístola aos Romanos, onde denuncia aqueles que, “dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis”(Rm.1:22-23). Razão pela qual “Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador”(vv.24-25). Repare que tudo começa na idolatria. Este é o contexto imediato. Como juízo, Deus os entrega a si mesmos, como se dissesse: É isso mesmo que vocês querem? Então, lá vai...

A partir deste ponto, Paulo descreve as tais “paixões infames” às quais Deus os abandonou.
“Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.” Romanos 1:26-27
Interessante notar que, se a interpretação que tem sido feita está correta, é a primeira vez que encontramos nas Escrituras qualquer menção à homossexualidade feminina. Em Levíticos 18:22 lemos sobre a proibição de homem deitar-se com outro homem como se fosse mulher, mas não vemos nada acerca da mulher que se relaciona sexualmente com outra.  Acho que isso mereceria certa atenção. Porque se o assunto é, de fato, homossexualidade, então, não se poderia deixar de fora as mulheres. Há quem acredite que Paulo teria corrigido isso.

Será que Paulo estava falando de homoafetividade? Ou estaria falando de uma prática diretamente ligada à idolatria?

Imagine homens de orientação heterossexual mantendo relações homossexuais só para agradar a uma divindade pagã! Pois era justamente isso que acontecia naquela sociedade. Nada mais antinatural. Por isso, eles se embriagavam e usavam máscaras. A embriaguez era para tomar coragem e desafiar sua própria natureza. A máscara era para proteger o anonimato, e assim, ajudá-los a lidar com a culpa e a vergonha. Não se tratava de homossexualidade propriamente, mas de orgia, de promiscuidade elevada ao mais alto grau. Seres humanos reduzidos a objetos de prazer. Tudo em nome do culto a uma divindade pagã.

Assim como é antinatural a um homem ter relações com outro homem, sendo ambos héteros, também é antinatural forçar um homossexual a casar-se com alguém do sexo oposto para suprir as expectativas da sociedade de prima pela hipocrisia.

Mas digamos que a exegese apresentada aqui não o tenha convencido. Você prefere crer que homossexuais estão fadados a serem punidos para sempre no inferno, desde que sua própria timidez seja alvo da misericórdia divina.  Que tal se avançarmos um pouco na leitura de Romanos 1?

A severidade com que Deus julgará os idólatras, também julgará os que não se importaram de ter conhecimento de Deus (e aqui, o apóstolo mira sua metralhadora giratória para os judeus), que, mesmo não praticando tais coisas, aprovavam os que a praticavam (v.32). Por isso, o mesmo Deus que entregou os gentios às suas próprias paixões, também os entregou “a um sentimento perverso,  para fazerem coisas que não convêm; estando cheios de toda a iniquidade, fornicação, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia” (vv. 28-31).

E por falar em lista, sabe o que mais me chama atenção nesta em particular? O último item.  De que adiantaria escaparmos de todas as listas apresentadas nas Escrituras, mas cairmos justamente no último item desta?

A falta de misericórdia nos faz inescusáveis perante Deus. Não foi à toa que Jesus disse que bem-aventurados são os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia. Sinceramente, espero ser contado entre estes. Se tiver que pecar pelo excesso, que peque pelo excesso de misericórdia e não de juízo.

O objetivo de Paulo nos primeiros capítulos de Romanos é mostrar que todos somos farinha do mesmo saco. Judeus e gentios, héteros e homossexuais, homens e mulheres, só escaparemos do severo juízo divino se formos tão misericordiosos com os outros quanto somos condescendentes conosco mesmos.  “Portanto”, arremata o apóstolo, “és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer se sejas, pois te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro” (Rm.2:1). 

Quando vejo o sofrimento de milhões de seres humanos, reputados como escória pelo simples fato de serem gays, meu coração é tomado de misericórdia. Não me vejo à vontade diante de um discurso odioso, que, direta ou indiretamente, fomenta o preconceito. Quando recebo e-mails e mensagens in box de seres humanos dispostos a tirar a própria vida por não se aceitarem, ou por não conseguirem lidar com a pressão social, meu coração se enternece. Foi o que senti ao assistir ao vídeo postado por Viviany Beleboni, a transexual que encenou a crucificação na Parada Gay deste ano em SP, que em prantos denunciou a agressão sofrida por alguém que a chamava de "demônio" e dizia "Você não é de Deus!" Com o olho roxo e feridas à faca abertas no rosto e no braço por uma faca, Viviany lamentava o episodio. Como ela, muitos têm sido agredidos e até mortos por causa de sua orientação sexual. Espero que este singelo texto ajude a desarmar espíritos e conduzir-nos pelas sendas da compreensão, do amor e da misericórdia. 

quarta-feira, agosto 05, 2015

17

Para que um gay seja cristão tem que reverter sua orientação sexual?




Por Hermes C. Fernandes

Nesta semana, uma das mais badaladas igrejas do mundo protagonizou outro escândalo (Sim, não foi o primeiro!). Segundo uma matéria divulgada nas redes sociais, a Hillsong teria ordenado um casal de homossexuais como ministros de louvor de sua filial em Nova Iorque. Em menos de vinte e quatro horas, o pastor Brian Houston, presidente da igreja australiana, veio à público desmentir a matéria, afirmando que sua posição quanto à prática homossexual segue a ortodoxia evangélica, e que, tão logo os dois ministros de louvor admitiram seu relacionamento, foram afastados de seus postos. Fica a impressão de que, se eles não houvessem assumido sua orientação sexual e seu relacionamento não se tornasse público, teriam sido mantidos no cargo. Sem querer emitir qualquer juízo, confesso meu desconforto com posturas que beiram a hipocrisia. É cada vez mais rara uma igreja em que não haja homossexuais envolvidos diretamente com ministérios de louvor, dança ou teatro. Se eles se comportarem direitinho, ninguém vai implicar. Mas se forem atrevidos o bastante para assumir o que são, correm o risco de não apenas serem removidos do cargo, mas também serem excluídos do rol de membros da igreja. Estamos mais preocupados com a língua do povo e com a nossa reputação do que em comprar a briga deste segmento tão sofrido e discriminado.

Deixe-me relatar a conversa que tive com um colega de turma. Um rapaz com inteligência acima da média. Não raramente roubava a cena durante a aula de psicologia, explicando a matéria com mais desenvoltura que o próprio professor. Duas coisas percebi nele, mesmo antes de ter tido a oportunidade de conversar, uma pelo trejeito, e outra, pelo uso de certos jargões. Ele era gay e já havia sido evangélico. Num dia em que a professora atrasou-se para aula, tivemos a oportunidade de trocar ideias. Ele me confessou ter sido criado na igreja, chegando a ser presidente do grupo jovem. Quando percebeu-se homossexual, lutou bravamente para libertar-se (sic). Jejuou por um ano inteiro. Orou. Chorou. Participou de reuniões de libertação. Submeteu-se a sessões de exorcismo. Mas, nada. Ele continuava sentindo-se atraído por pessoas do mesmo sexo. Vendo que a igreja não se dispunha a acolher quem se assumisse como gay, ele resolveu se afastar. Aparentemente emocionado, contou-me que tentou recorrer a outras religiões. Frequentou centro de umbanda, templo budista, reuniões kardecistas, mas não conseguiu se achar. “O problema é que sou cristão”, confidenciou-me.

Desde que comecei a escrever sobre o tema em meu blog, já recebi muitos e-mails e mensagens in box de pessoas em crise por causa de sua orientação sexual. Algumas considerando tirar a própria vida, outras já teriam tentado suicídio várias vezes. É fácil julgar moralmente quando se coloca de lado o coração. Mas quando a gente se aproxima desprovido de preconceito, o coração se enternece. Principalmente quando se trata de um adolescente. “Poderia ser um filho meu”, ponderamos. O que dizer a esses indivíduos? Que não tiveram fé suficiente para se libertarem? Que não amam a Cristo o bastante para renunciar seus sentimentos “pervertidos”? Que encabeçam a lista dos que serão lançados no inferno?

Não reconheço área mais complexa da natureza humana do que a sexualidade. Quanto mais busco compreendê-la, mas percebo quão rasas são as abordagens que tentam dissecá-la. A situação se agrava quando adentramos a questão da diversidade sexual.

Respostas prontas ofendem a sensibilidade e a inteligência dos que se debruçam sobre o assunto. Já ouvi inúmeras vezes o argumento de que se Deus aprovasse a homossexualidade, não teria criado Adão e Eva, mas Adão e Ivo. De fato, só existem dois gêneros sexuais: macho e fêmea. Porém, os espinhos, cardos e abrolhos que passaram a crescer em nosso habitat desde o evento que a teologia chama de “queda”, também brotaram na própria natureza humana, afetando seus relacionamentos, seu comportamento, seu psiquismo. O mundo ideal ficou atrás do portão do paraíso. Condenados ao exílio, os humanos tiveram que aprender a lidar com as demandas de um mundo real, por vezes hostil à sua presença.

Sabiamente, Jesus nos descortina esta realidade ao abordar um dos mais delicados assuntos no campo do relacionamento humano: o divórcio. Segundo o mestre galileu, o divórcio não constava do plano original de Deus. Ele não apenas o reprova, como também o detesta (Ml.2:16). Mesmo assim, nos dias de Jesus, o divórcio havia se banalizado. Os homens estavam despedindo suas esposas por qualquer bobagem, e se justificavam na autorização dada por Deus através de Moisés (Dt.21:1).

Perguntado se era lícito ao homem divorciar-se da mulher por qualquer motivo, Jesus respondeu:

Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la? Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim.” Mateus 19:4-8

Repare na última frase: “ao princípio não foi assim”. O divórcio foi uma concessão divina em resposta a uma demanda humana em seu trânsito pelo mundo real. Não significa que Deus endosse tal prática. Porém, Jesus reconheceu a necessidade desta alternativa frente à dureza da natureza humana. Dizer que nem sempre foi assim equivale a afirmar que este não é o ideal de Deus para o ser humano. O ideal é que ele se case e continue casado com a mesma pessoa até o fim. O ideal é que o casamento seja monogâmico, indissolúvel e entre pessoas de sexos opostos. Todavia, nem sempre é isso que acontece. Temos, portanto, que tratar a situação de maneira realista.

Desde que atravessamos os portões do Éden, tantas coisas mudaram. E provavelmente, nenhum outro campo sofreu tantas alterações quanto o dos relacionamentos.

Recebi um comentário em meu blog que me chamou a atenção. Resolvi compartilhá-lo na timeline do meu perfil no facebook para saber o que as pessoas pensavam sobre o argumento apresentado; o que acabou originando um debate que me desafiou a pensar um pouco mais sobre o tema. Reproduzo abaixo o comentário postado por um anônimo:

"Diante destas investidas satânicas, fico a imaginar: o que seria da humanidade sem o nascimento de figuras ilustres e que, de fato, trouxeram algo de bom, de construtivo para a humanidade. Figuras como Albert Einstein, maior cientista do século XX, Martin Luther King, o símbolo máximo da luta contra uma das pragas do século XX, o racismo, Henry Ford, Ludwig van Beethoven, compositor alemão, enfim, a lista é imensa e nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Será que estas pessoas nasceram do nada? Ou nasceram de chocadeira? Com certeza que não, nasceram de um relacionamento amoroso entre um homem e uma mulher! NASCERAM no seio de uma família tradicional. Ainda dentro do meu círculo imaginário, pensei: e se a MÃE ou PAI destes defensores desta abominável aberração (DIVERSIDADE SEXUAL) tivessem optado por serem GAYS. Conclui que uma coisa seria certa, não estaria eu, neste momento, perdendo o meu tempo precioso escrevendo este texto.”

Imagino o prazer sentido pelo comentarista ao achar que estava dando a palavra final sobre a questão. Xeque-mate! Confesso que não perderia tempo respondendo a este infeliz comentário se não verificasse que é exatamente assim que muitos pensam.

Ora, o argumento usado poderia ser aplicado também em casos de esterilidade. Quem é incapaz de conceber filhos não teria o direito de se casar? Somente a concepção de uma prole justificaria nossa passagem por este mundo? E quanto aos celibatários? Quem opta pelo celibato estaria desperdiçando a vida? Convém lembrar de que o próprio Jesus era celibatário, juntamente com Paulo, João Batista e tantos outros. Portanto, se quiser combater a diversidade sexual terá que apelar a outro argumento, e espero que mais sólido.

Ademais, graças ao fato de muitos não poderem ter filhos biológicos, tantas crianças órfãs ou abandonadas puderam ser adotadas. 

Quanto à diversidade sexual em si, devemos considerar que muitos personagens proeminentes da história foram homossexuais. Não nos deixaram filhos, porém, deixaram-nos um legado valioso. Um exemplo disso foi Santos Dumont, de quem todo brasileiro se orgulha por ter inventado o avião, além do relógio de pulso (espero que ninguém resolva boicotar nenhum dos dois...rs). O pai da viação acabou se suicidando. Segundo alguns dos seus biógrafos, por ver sua invenção usada como arma na primeira grande guerra. Mas para outros, o que o teria levado ao suicídio foi uma depressão profunda devido à sua sexualidade.

Alan Turing, matemático e cientista da computação foi um dos responsáveis pela formalização do conceito de algoritmo, base da teoria da computação. Também foi o inventor da Máquina de Turing, precursora do computador moderno. Em sua condição de homossexual, Turing não deixou herdeiros, mas deixou um legado e tanto. Consegue imaginar um mundo sem computador?

Falta-me tempo e disposição para falar de tantos outros como o gênio Leonardo da Vinci, o conquistador Alexandre, o Grande, e Sócrates, o pai da filosofia clássica. Portanto, não se deve julgar o caráter ou a genialidade de um ser humano por sua orientação sexual.

Enquanto expunha tais fatos em minha timeline, surgiram várias questões. Uma recorrente é se acredito que um homossexual possa ter sua orientação sexual transformada. Em outras palavras, se um gay pode tornar-se heterossexual.

Primeiro, quero deixar claro que para Deus tudo é possível. Se Ele quiser, pode fazer nascer cabelo em careca, fazer um branco tornar-se negro ou vice-versa, e até possibilitar que um animal fale. Porém, tenho minhas dúvidas se haja n’Ele o interesse de realizar tais proezas.

O que me cansa é ver a exploração que se faz em cima do testemunho de pessoas que teriam sido homossexuais e que agora exibem seus cônjuges e filhos como prova de que foram transformadas, apesar de algumas manterem trejeitos efeminados (não há aqui juízo de valor).

É um crime impor a um gay que mude sua orientação sexual para evidenciar sua conversão. Conheço casos em que a pessoa contraiu matrimônio por pressão da igreja, e tempos depois não havia nem sequer consumado o ato. Nesses casos, acho bem mais louvável que se abdique voluntariamente de uma vida sexual ativa por amor à causa do evangelho. É mais honesto do que forjar uma transformação. Porém, isso jamais deveria ser imposto a ninguém. É desumano.

Há, todavia, casos de pseudo-homossexuais que se tornaram o que, no fundo, jamais deixaram de ser, héteros. Algumas delas se lançaram na prática homossexual devido a contingências tais como abusos sofridos na infância, influências externas como amigos, mídia, cultura, educação, etc., mas jamais perderam o desejo por pessoas do outro sexo. Muitas acabam adotando um comportamento bissexual. Porém, em boa parte das vezes, o que ocorre é que a pessoa anuncia ter sido transformada, casa-se com alguém do sexo oposto, mas segue nutrindo desejos inconfessáveis por pessoas do mesmo sexo. Não ouso por em xeque sua conversão. Elas amam a Cristo e sentem-se amarguradas por terem que lidar com tais pulsões. Se ao menos a igreja fosse mais complacente, não haveria necessidade disso.

A igreja deveria ser aquele lugar de que Paulo fala: “Onde está o Espírito de Deus, aí há liberdade”. Não se trata de liberdade para viver promiscuamente, mas para ser o que se é, sem medo de ser rejeitado, olhado com nojo e preconceito. Em vez disso, a igreja se tornou num antro de discriminação. Os púlpitos destilam homofobia, e tudo, cínica e ironicamente “em nome do amor”.

Há, ainda, uma falácia que tem sido disseminada principalmente por pregadores televisivos: a de que ninguém nasce gay. E isso geralmente é dito como se fosse cientificamente comprovado. Para quem vive refém do ambiente eclesiástico, uma declaração como esta, não influi, nem contribui. Mas quem transita por outros ambientes, principalmente o acadêmico, tem que aturar piadinhas e insinuações grosseiras por conta deste tipo de posicionamento anacrônico e infundado.  

Se não quiserem dar ouvidos às últimas descobertas científicas, que ouçam o próprio Jesus que afirma haver ao menos três classes de eunucos: os que foram feitos eunucos (castrados para que pudessem cuidar dos haréns dos reis sem se constituir ameaça à integridade da rainha e de suas concubinas), os que se faziam eunucos pelo reino de Deus (celibatários como Paulo) e os que nasciam nesta condição, isto é, desprovidos de desejo por pessoas do sexo oposto. Pesquisas revelam que os eunucos eram, em geral, homossexuais.  Portanto, segundo Jesus, a homossexualidade pode ser de nascença.

No debate que fomentei no facebook, perguntaram-me se eu não pregava contra o homossexualismo e lesbianismo (sic). Respondi que prego contra o pecado que há em nós, em nossa natureza caída, e que se manifesta tanto na vida do homossexual, quanto na vida do heterossexual. Mas me recuso a entrar nesta campanha sórdida que a igreja evangélica tem travado com os gays, e que, no fundo, tem cunho político. Descobriram aí uma mina de votos. Se amassem mais às almas do que os votos, olhariam para a causa homossexual com mais compaixão e amor, em vez de fomentarem tanto preconceito e ódio.

Repito: creio que por amor a Cristo, tanto o gay, quanto o hétero, podem ofertar sua sexualidade, isto é, renunciar suas pulsões para dedicarem-se exclusivamente à causa do reino de Deus. Porém, não me vejo capaz de impor isso a ninguém. Paulo dizia que gostaria que todos fossem como ele, porém, reconhecia que cada um tinha recebido de Deus o seu próprio dom. Portanto, acredito num celibato consciente, fruto do amor e não de imposição de terceiros. O que me recuso a acreditar é que alguém possa mudar sua orientação sexual mediante pressões externas.

E, sinceramente, creio que a existência do homossexual serve a um propósito divino: por à prova nosso amor e desafiar nossos preconceitos.

Se Deus pode mudá-los? Quem sou eu para limitar o Seu poder? Ele também podia ter removido o espinho que havia na carne de Paulo, mas não o fez, alegando que a Sua graça deveria ser suficiente. 

* Este é o primeiro de uma série de posts sobre o assunto. 

sábado, junho 27, 2015

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Direitos negados, justiça suicida




Por Hermes C. Fernandes 

Perguntaram-me recentemente de que lado eu estava. Esta é uma pergunta que sempre me faço. Ponho-me a refletir sobre aqueles que hoje são celebrados como heróis da nossa civilização, mas que em seu tempo foram tachados de hereges, subversivos, revolucionários, e por isso mesmo, foram duramente combatidos. Pergunto-me de que lado eles se poriam nas questões que hoje nos dividem. Por fim, pergunto-me de que lado Jesus estaria. Alguém conseguiria enxergá-lo cerrando fileira com a casta sacerdotal de Sua época? Se fosse este o caso, duvido que Ele entrasse no templo derrubando as mesas e expulsando os vendilhões. Alguém o imaginaria engrossando o coro de quem pretendia apedrejar aquela mulher? Em vez disso, Ele preferiu defender seu direito. Isso mesmo! Seu direito de viver (Eis a razão por que adotei como lema "viva e deixe viver!"

Jesus invariavelmente se pôs ao lado dos excluídos, dos marginalizados, dos oprimidos, dos explorados. Jamais posou de bom garoto ao lado dos opressores e dos que se locupletavam do sistema. Ele não resistia ao clamor das minorias. Da vez em que foi importunado por uma mulher cananeia (depois pesquise na Bíblia o significado de ser cananeu na visão de um judeu daquela época), disse, à princípio, que não tiraria o pão da boca dos filhos para dá-lo aos cachorrinhos. Quem lê esta passagem cruamente corre o risco de escandalizar-se com Jesus. Mas Sua pretensão não era de compará-la a um animal qualquer. Sabendo de antemão qual seria sua reação, Ele quis dar uma lição em Seus discípulos. É possível que eles, como judeus que eram, até tenham gostado de ouvi-lo fazendo aquela comparação esdrúxula. Eles chegaram a pedir que Jesus a dispensasse logo, porque ela vinha atrás clamando por sua filha enferma. Porém, para a surpresa deles (mas não de Jesus!), ela respondeu: “Sim, Senhor, mas os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa do seu senhor” (Mt.15:28). Compadecendo-se dela, Jesus elogiou sua fé, atendeu ao seu clamor e curou sua filha. 

Que lição encontramos aí? Aquilo que para uns já não tem tanto valor, para outros tem valor inestimável. O que para uns não passa de migalha, para outros é o pão que lhes resta. 

Hoje os Estados Unidos deram um passo enorme que causou comoção e escândalo no mundo inteiro. A Suprema Corte daquele país autorizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todos os cinquenta estados americanos. As reações foram imediatas. Milhões celebraram, enquanto outros milhões lamentaram. Dificilmente encontramos (pelo menos nas redes sociais) quem se mantivesse isento. 

Ironicamente, uma instituição que tem sido tão desgastada ao longo das últimas décadas, tornou-se o sonho de consumo de milhões de casais homossexuais. Os mais conservadores vociferavam: Este é um direito concedido por Deus exclusivamente a casais heterossexuais. Sim, assim como o ministério terreno de Jesus era focado exclusivamente nos judeus. Mas isso não o impediu de sensibilizar-se com aquela cananeia. Com toda a pressão política e religiosa sofrida pela Suprema Corte, ela preferiu ser sensível ao clamor desta minoria e atender à sua reivindicação. 

Como seguidor de Cristo, encontro aí razão para celebrar. Por favor, não me tache de herege, pelo menos, não ainda. Prefiro ver gays num relação monogâmica a vê-los entregues à prostituição e a promiscuidade. Além do mais, ninguém vai conduzir um gay a Cristo negando-lhe os direitos. Infelizmente, alguns celebram quando a dama da justiça usa sua espada para retribuir o mal, mas não celebram quando usa sua balança atribuindo direitos iguais a todos. O problema é que toda vez que um dos pratos da balança pende para um lado, a espada da justiça vem contra ela mesma. 

Mas isso é contra a lei de Deus! Esbravejariam alguns. Não perca seu tempo citando os versos bíblicos que condenam tal prática. Eu os conheço todos. Como também conheço aquelas passagens bíblicas que apoiam a escravidão, por exemplo. Passagens como Levítico 25:44 foram prodigamente usadas por religiosos que tentavam impedir que os escravos fossem livres. Segundo eles, isso faria com que a sociedade entrasse em colapso. Os abolicionistas foram chamados de hereges por renegarem o sagrado direito de se ter escravos. Isso é uma abominação! Sim, casamentos mistos também. Começo a acreditar que chamamos deliberadamente de abominação aquilo que ainda embrulha nosso estômago. Tem mais a ver com nossos escrúpulos do que com o que cremos. Assim como hoje ouvimos aquela velha alegação de que se um pastor se negar a celebrar as bodas de um casal gay será preso, na época da abolição, pregadores bradavam dos púlpitos que se os escravos fossem livres, em breve, haveria casamentos mistos, claramente proibidos pelas Escrituras conforme passagens como Esdras 10:2-3 e Neemias 13:23-27. Os fiéis ficavam horrorizados ao imaginar suas lindas filhas, louras e de olhos azuis, sendo desposadas por negros de mãos calejadas. 

Quer gostemos ou não, o mundo mudou. O que hoje causa ojeriza em alguns, será visto como normal pelos seus netos. Assim como nos horrorizamos ao saber dos maus-tratos que os negros sofriam no passado, nossos netos se horrorizarão ao tomarem conhecimento da homofobia que vigorava em nossos dias. Homens como Martin Luther King viveram à frente do seu tempo. De que lado eles estariam agora? Jesus viveu muito, muito à frente do seu tempo. Por isso, reconheceu que seus contemporâneos não estavam prontos para lidar com questões ligadas à sexualidade. “Nem todos podem receber esta palavra”, disse com relação aos eunucos, homens que não tinham qualquer interesse no sexo oposto (Mt.19:11-12). Ninguém que tenha vivido à frente do seu tempo ficou ileso. Há um preço a se pagar por posicionar-se pela justiça e pelo direito (Acabei de ler uma ameaça escrita nos comentários do meu blog). O que me encoraja é saber que estamos presenciando um momento histórico. Nossos descendentes nos invejarão por havermos sido testemunhas disso. 

Uma parcela considerável da população americana teve seus direitos assegurados. Eu temeria o juízo de Deus se o direito lhes fosse negado. Pois foi Ele mesmo quem advertiu: “Ai dos que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores, para privar os pobres dos seus direitos, e da justiça os oprimidos do meu povo; fazendo das viúvas sua presa e roubando dos órfãos” (Is.10:1-2). Entende-se por "leis injustas" aquelas que são parciais, que atendem a uns em detrimento de outros. Equidade é tratar a todos de igual modo, sem privilégios, sem prejuízos. Iniquidade é exatamente o oposto disso. Iniquidade não é conceder direitos, mas negá-los. 

Assim como teria celebrado se houvesse assistido a Jesus atendendo ao clamor de uma mulher pertencente a um povo amaldiçoado, concedendo-lhe o que os “filhos” desprezavam, celebro a conquista da população homossexual daquele país e espero celebrar em breve também em nosso país, ainda que isso me custe ser atacado pelos que não sabem chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram. 

Se discorda mim, saiba que o respeito. Graças à democracia em que vivemos, temos o direito de discordar uns dos outros. Portanto, não neguemos este direito aos outros. Como disse Voltaire: Posso não concordar com nada que você diz, mas morreria pelo seu direito de dizê-lo. 

P.S. Enquanto isso, do lado de cá do Equador, no país que foi o último a abolir a escravidão, um deputado evangélico propõe uma bolsa ex-gay. Será que muita gente vai voltar para o armário com este incentivo? Aproveito para sugerir que os mesmos que propuseram um boicote a uma empresa de perfumes, também boicote os Estados Unidos. Em vez de torrarem seu dinheirinho suado em Nova Iorque ou Miami, deixem para gastá-lo em Moscou. Afinal, a Rússia proibiu a parada gay pelos próximos 100 anos. Ou se preferirem, vão para a China onde a homossexualidade é tratada com choques elétricos nos genitais. 

Sei o que é ser vítima de preconceito. Quando criança, tive minha casa apedrejada pelo simples fato de sermos uma família protestante. Acordei com um paralelepípedo rente à minha barriga. Teria me matado se atingisse a cabeça. Casei-me com uma mulher de ascendência negra, e para tal, tive que enfrentar a reprovação de muitos. E por fim, tenho o privilégio de ser pai de uma portadora de necessidades especiais. Sei como é lidar com aqueles olhares indiscretos. Talvez por isso me identifique tanto com o clamor das minorias. E antes que coloquem em xeque minha sexualidade, deixo claro que sou hétero, pai de três filhos héteros, irmão de cinco irmãos héteros. Eu não preciso ser uma árvore para sair em defesa do meio-ambiente. 

Assista abaixo uma mensagem que preguei anos atrás acerca do pecado de Sodoma. Você vai descobrir quem são os verdadeiros sodomitas desta nação.