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terça-feira, abril 12, 2016

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Que tipo de revolucionário foi Jesus?




Hermes C. Fernandes


Quando se fala de revolução, pensa-se em um levante popular, rebelando-se contra autoridades constituídas, depondo governos, provocando divisões, instigando o ódio e a revolta. E não é por menos. Basta uma rápida verificada na História para constatar isso. Toda revolução política teve seus mortos, desaparecidos, desapossados de suas terras ou posições, etc.

Porém, ao falarmos de revolução, não estamos endossando tais coisas. Na revolução proposta por Jesus, ninguém sai machucado, destruído. Aliás, a expectativa dos discípulos era de que Jesus promovesse um levante contra Roma e as autoridades judaicas que havia se promiscuído com o Império. Mas Jesus propunha um tipo de revolução totalmente inversa ao que eles esperavam. Não uma revolução armada, mas uma revolução de amor. Existiria algo mais forte que o amor?

O Evangelho é, por si só, a mais subversiva mensagem jamais pregada. Vejamos alguns exemplos de seu conteúdo subversivo e revolucionário.

Talvez o mais subversivo sermão pregado por Jesus tenha sido o que ficou conhecido como Sermão da Montanha. Enquanto o senso comum acreditava que felizes eram os ricos arrogantes, Jesus afirma que felizes são os pobres de espírito. Se para eles felizes eram os que gargalhavam nos banquetes dos palácios, para Jesus, felizes eram os que choravam.

Neste sermão, o Mestre Galileu propõe uma ética totalmente inversa àquela disseminada pelos mestres da época.

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser demandar contigo e tirar-te a túnica deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas” (Mt.5:38-41). 

Ora, se isso não é subversivo, o que é, então?

Não se trata apenas de pacifismo, mas de amor.

“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (vv.43-44).

Em momento algum, Jesus endossou o estilo de vida vigente à época. Seu compromisso não era com a manutenção do Status Quo, mas com a introdução de uma nova ordem de coisas, onde o ser humano teria mais importância do que as instituições e tradições. Onde o sábado fora feito para o bem-estar do homem, e não o homem para o sábado.

Ele denunciou através de Seus ensinamentos a inversão de valores predominante naquela sociedade. Desferiu um golpe fatal no espírito consumista, colocando a avareza como oponente de Deus.

“Ninguém pode servir a dois senhores. Ou há de odiar a um e amar o outro, ou se devotará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (v.24).

Em outras passagens, Ele demonstra que no Reino de Deus as coisas funcionam de maneira inversa ao mundo. No Reino quem quiser ser o maior, tem que ser o menor. Quem amar sua própria vida, acabará desperdiçando-a, mas quem se dispuser a gastá-la por amor de Cristo, a reencontrará.

Ora, não há nome mais próprio para isso que subversão.

Infelizmente, a igreja cristã tem se promiscuído com o mundo, trocando os valores eternos do reino pelas propostas indecorosas feitas por um sistema apodrecido. Pastores, em busca de fama e reconhecimento, vendem-se e negociam os votos de seu rebanho.

Cristãos ajustaram suas crenças às agendas políticas e ideológicas. A verdade foi trocada por um prato de lentilhas, e pior, lentilhas podres.

Se antes corríamos o risco de colocarmos vinho novo em odres velhos, hoje há muitos odres novos, estratégias, marketing, estruturas eclesiásticas para todo gosto. Porém, o vinho está em falta. Os odres estão vazios. As igrejas estão cheias de pessoas vazias.

Creio que assim como a Reforma só aconteceu porque a igreja redescobriu o conteúdo subversivo das epístolas paulinas, a Revolução acontecerá quando a igreja redescobrir o teor subversivo dos Evangelhos, principalmente do Sermão da Montanha.

Em vez de gastarmos nosso tempo pregando invencionices humanas, retornemos à mensagem do Reino e do Amor de Cristo. Em vez de uma nova Reforma Protestante, necessitamos sim é de uma Revolução Reinista, isto é, centrada no Reino, e não em estruturas denominacionais.

domingo, abril 10, 2016

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Nem esquerda, nem direita: Livrando a Fé da Matrix Ideológica


Por Hermes C. Fernandes

O
teólogo alemão Rodolf Bultmann afirmou que o Evangelho, para manter-se relevante ao homem moderno, teria que passar por uma desmitologização, isto é, uma desvinculação da linguagem mitológica fartamente usada na antiguidade. Sem querer entrar neste mérito, creio o que o Evangelho necessita atualmente é de uma desideologização, que consistiria em desvinculá-lo de qualquer ideologia.

A ideologia tem sido motivo de rompimento entre muitos cristãos. Durante os primeiros anos do regime militar, muitos pastores entregaram colegas às autoridades, mesmo sabendo do risco de que fossem torturados sob a alegação de serem subversivos. Será que uma posição ideológica teria mais peso para nós do que nossa irmandade em Cristo? Como Jesus se comportaria nessas circunstâncias?

Teria Jesus abonado ou desabonado alguma ideologia vigente em Seus dias? Sabemos por fontes históricas, além da própria Bíblia, que naqueles dias o povo judeu estava dividido em vários partidos político-religiosos, entres os quais podemos destacar os fariseus, os saduceus, os zelotes, os essênios e os publicanos. De fato, como dizia o sábio escritor de Eclesiastes, não há nada novo debaixo do céu. Esses partidos já defendiam posturas que mais tarde seriam adotadas por ideologias modernas.

Os zelotes, por exemplo, eram um movimento político que procurava incitar o povo da Judeia a rebelar-se contra Roma e a expulsar os conquistadores através da luta armada. Foram eles os responsáveis pela Primeira Guerra Judaico-Romano entre 66 e 70 d.C., que culminou com a queda de Jerusalém. Eram considerados subversivos, insurgentes, dispostos a desafiar o status quo. Não vemos nenhuma crítica direta de Jesus aos zelotes, apesar de Seu discurso pacifista ser o inverso da proposta deles. Mesmo assim, um dos apóstolos de Jesus, “Simão, o Zelote”, era membro deste partido (Lc.6:15 e At.1:13). Eu diria que sua ideologia era o equivalente à extrema esquerda de nossos dias. Imagine, Jesus seguido por um discípulo chamado ‘carinhosamente’ de “Simão, o Comuna”.

Os zelotes eram considerados um partido clandestino e seus membros não tinham representação no sinédrio. O mesmo se dava com os essênios. Sob vários aspectos, os essênios eram extremamente progressistas, apesar de seu ascetismo e de viverem em comunidades separadas dos demais. Aboliam a propriedade privada (quer mais comunista que isso?). Defendiam que as mulheres tinham os mesmos direitos que os homens, podendo ser alçadas à posição de mestres. Acreditavam que a natureza, os seres humanos e todas as coisas vivas constituíam o verdadeiro Templo de Deus, e que Ele não habitava em santuários feitos por mãos de homens. Defendiam que as ofertas aceitas por Deus eram o partilhar da comida com os famintos, fossem homens ou animais. Assim como os crentes primitivos, os essênios tinham tudo em comum.  Jesus não disse uma só palavra contra este movimento. Alguns até acreditam que Jesus tenha sido influenciado por suas ideias e que João Batista fora um dos seus membros mais proeminentes.

Deixando a ala esquerda, consideremos a ala direita dos tempos de Jesus. Àquela época, grupos reacionários surgiram dentro da sociedade judaica, tentando restabelecer o seu prestígio e poder, ou pelo menos o que eles consideravam como certo segundo a Lei e as tradições judaicas. Entre eles, os saduceus, considerados como "pertencentes ao partido da estirpe sacerdotal dominante". Diferiam dos fariseus por serem mais abertos às influências helênicas (gregas). Formavam um dos dois partidos aceitos no sinédrio, e como tal, representavam os interesses da classe dominante. Talvez por sua hostilidade a qualquer coisa considerada sobrenatural, não há registro nas Escrituras de saduceus seguidores de Cristo.

Já os fariseus compunham o partido mais popular dentre os que tinham assentos no sinédrio. O termo “fariseu” (prushim, heb.) significa “separado”. Todavia, sua separação não envolvia ascetismo, como os essênios, pois julgavam ser importante o ensino das Escrituras e das tradições dos pais à população. Eram muito religiosos e respeitados na comunidade como pessoas que pautavam seu comportamento na ética e na moral. Jesus, entretanto, denunciou sua hipocrisia e formalidade. Apesar dos constantes pegas pra capar que Jesus tinha com eles, um dos Seus mais fervorosos discípulos pertencia a este partido: ninguém menos que Paulo, o apóstolo dos gentios.

O último grupo que gostaria de citar são os publicanos. Eram os responsáveis pela coleta de impostos para os romanos. Arqui-inimigos dos fariseus, os publicanos eram detestados pelos judeus e muitas vezes envolviam-se em corrupção cobrando das pessoas além do devido. Os Evangelhos relatam que alguns deles se converteram ao cristianismo, entre os quais Mateus, também chamado de Levi, que deixou o ofício para se tornar apóstolo, e Zaqueu (Lucas 19:1-10) que ao ser visitado por Jesus, fez questão de restituir a todos o que havia defraudado. Apesar da má fama dos publicanos, Jesus utilizou-os para ilustrar algumas de Suas mais importantes parábolas, entre elas a Parábola do Fariseu e do Publicano e a Parábola da Ovelha Perdida.

Imagine se Jesus diluísse Sua mensagem em qualquer uma das ideologias vigentes em Seus dias. Como Ele poderia congregar sob o mesmo teto, zelotes, fariseus e publicanos? Uns separatistas, outros inclusivistas. Uns a favor da propriedade privada, outros contra. Uns trabalhando por Roma, outros promovendo rebelião contra o império.

Em momento algum Jesus comprometeu o conteúdo de Sua mensagem com as agendas político-ideológicas do Seu tempo. Ele a manteve intacta. O que Lhe importava era a agenda do Reino de Deus. Por conta disso, salvaguardou Sua isenção profética. Se Ele Se deixasse levar pela pressão ideológica daqueles que O cercavam, certamente teria marchado para o palácio de Herodes, destituindo-o e assumindo o seu trono no dia em que foi recebido em Jerusalém ao som de “hosanas ao que vem em nome do Senhor!”. Foi justamente por não atender à demanda popular, que as mesmas vozes que O louvavam, vinte e quatro horas depois pressionavam no pátio de Pilatos para que este O crucificasse.

Temos tanto o que aprender com o Mestre! Constitui-se uma afronta fazer da pregação do Evangelho panfletagem ideológica, ou usar passagens isoladas das Escrituras para justificar suas preferências. Jesus não é garoto-propaganda de regime algum. Ele não é americano, nem cubano. Não é petista, nem tucano. Não é conservador, nem progressista. Não é socialista, nem neoliberal. Sua mensagem é comprometida com o idealismo, não com a ideologia, seja de esquerda, de centro ou de direita. Seu compromisso é prioritariamente com os pobres, mesmo que alguém o acuse de comunista. Porém, o mesmo Jesus que atende ao clamor de Bartimeu, o mendigo cego às margens do caminho, também atende aos anseios de Zaqueu, o publicano corrupto. Não confundam prioridade com predileção. O Cristo dos Evangelhos jamais fez acepção de pessoas. Ele é capaz de cercar-se de prostitutas em plena luz do dia e ainda atender a um figurão da sociedade na calada da noite. Ele perdoa os romanos que O crucificam, mas também demonstra importar-se com o destino da alma do ladrão crucificado ao Seu lado.

Ele não despreza homem algum, senão o arrogante, o presunçoso, o que se acha dono da verdade, e que em seu nome despreza os que pensam diferentemente dele. Todos têm o direito de ter suas predileções ideológicas. Mas não se enganem. Não há ideologia perfeita. Portanto, não vale a pena matar ou morrer por elas. Nem é de bom tom demonizar a ideologia do outro. Neste campo não há mocinhos ou bandidos. Ambos têm telhado de vidro. Todos os regimes produziram heróis e mártires, mas também algozes e torturadores. Protegeram interesses legítimos, mas às vezes, ao custo de vidas inocentes. Todos são bestas furiosas que devoram seus adversários, e, por vezes, seus próprios cidadãos.

Atribui-se ao nazismo a morte de vinte milhões de pessoas, e ao comunismo, cem milhões. E quanto ao capitalismo? Quantas vítimas fez e está fazendo até hoje? De acordo com “O livro negro do Capitalismo”[1], pelo menos cem milhões de pessoas foram mortas por causa deste sistema. Os tópicos abordados por este livro vão desde o tráfico de escravos africanos até a era financeira da globalização. Na lista incompleta de vítimas do século XX, Gilles Perrault[2] inclui 58 milhões de mortos da Primeira e Segunda Guerras Mundiais (ambas por motivos capitalistas), além de mortes nas várias guerras coloniais, repressões, conflitos étnicos, sem contar as inúmeras vítimas de fome ou desnutrição. Basta uma viagem à África atual para verificar do que o capitalismo é capaz. São milhões e milhões de mortos e famintos, vítimas da ganância e da exploração dos países desenvolvidos. Quando se quer criticar o comunismo aponta-se Cuba, com o seu atraso tecnológico, esquecendo-se que o mesmo se deve ao embargo econômico promovido pela a maior potência capitalista do mundo.

Há santos e pecadores, anjos e demônios em ambas as trincheiras. Se a esquerda produziu Lenin, a direita produziu Hitler e Mussolini. Não há sistema capaz de produzir a verdadeira justiça preconizada pelo Evangelho. Todos estão fadados a fracassar. O mesmo Cetro de Cristo que derrubou o Muro de Berlim, também derrubará a ganância de Wall Street. Não ficará pedra sobre pedra.

É perda de tempo ficar contabilizando para ver que regime matou mais, ou promoveu mais a prosperidade do seu povo. Cada regime tem seu próprio altar e sacrifício. Se um sacrifica a liberdade no altar da justiça social, o outro sacrifica a justiça social no altar da liberdade. Sempre alguém sairá ganhando enquanto outros sairão perdendo. É inevitável. Então, não queiram canonizá-los, tampouco demonizá-los. São simplesmente humanos, tão falhos quanto os que os criaram. Sabendo disso, por que nos digladiarmos com nossos irmãos na fé em nome de uma ideologia qualquer?

Parafraseando Paulo, se por causa de uma ideologia se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa de uma ideologia aquele por quem Cristo morreu (Rm.14:15). Posso até considerar que um irmão esteja enganado quanto à sua ideologia, mas isso não me confere o direito de pôr em xeque a sua integridade e fé.





[1]  Perrault, Gilles, O livro negro do Capitalismo, Editora Record, Paris, 1998
[2] Jacques Peyroles, mais conhecido como Gilles Perrault (Paris, 9 de março de 1931) é um advogado, escritor, jornalista e historiador francês que geralmente aborda temas políticos da relação do ocidente com outras regiões e culturas.

* Extraído do livro "Ao oriente do Éden" de Hermes C. Fernandes (à venda pelo blog).

quinta-feira, março 31, 2016

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Precipício à vista: Pastores entregam colegas para serem torturados


Por Hermes C. Fernandes

É assustador notar que depois de mais de cinquenta anos do golpe militar, boa parte da liderança evangélica brasileira sinta-se atraída pela possibilidade de que o país retroceda e volte aos "anos dourados" da ditadura. Razão pela qual resolvi postar novamente este artigo que oferece um vislumbre do que foram os anos que se seguiram e de quanto alguns setores da igreja evangélica se beneficiaram do regime, apoiando-o a ponto de pastores entregarem seus colegas para serem torturados.

Durante os primeiros anos do regime militar, os grandes centros do Brasil experimentaram uma enxurrada de pregadores norte-americanos. Com suas tendas portáteis, eles pregavam uma versão do evangelho diluída em ideologia capitalista, com discurso notavelmente fundamentalista e anti-comunista. Esses movimentos foram os matizes do neo-pentecostalismo brasileiro. Qualquer vertente protestante ou católica socialmente engajada era considerada subversiva, e por isso, tinha que ser combatida. Foi nesta mesma época que o Brasil importou dos EUA o movimento de renovação carismática da igreja católica.

Os militares, atendendo aos interesses do imperialismo americano, perceberam que uma religiosidade mais mística, que promovesse alienação nas camadas populares, inibiria a emergência de uma consciência crítica da realidade. A ênfase exacerbada nos dons espirituais, nas manifestações prodigiosas, somada a uma escatologia escapista, se incumbiriam de manter as pessoas distraídas, enquanto a agenda política americana fosse implantada na América Latina (o mesmo aconteceu no Chile e na Argentina). O fruto disso tudo é o estado atual em que se encontra a igreja brasileira. Lamentável. Deprimente. Para não dizer, desesperador.

Quanto aos pastores delatores, estes certamente achavam estar prestando um serviço à causa de Deus. Foram marionetes nas mãos dos poderosos. Desde então, a igreja evangélica brasileira vêm se promiscuindo, aliando-se às famigeradas oligarquias que têm governado este país desde as capitanias hereditárias, em vez de denunciar as injustiças, sendo voz profética em favor dos que não têm voz.

Temo que a presente animosidade que tem dividido nosso povo tenha chegado também à classe pastoral, e que isso possa gerar disposição semelhante a de outrora; se não de entregar colegas à prisão, pelo menos usar as redes sociais e os púlpitos para desmoralizá-los pelo simples fato de não esboçarem uma visão reacionária ou por não apoiarem o impeachment de Dilma Rousseff. Deixa-me perplexo ver homens que têm dado uma grande contribuição à evangelização do país sendo vítimas deste patrulhamento ideológico, execrados por companheiros que antes os apoiavam. Eu mesmo já recebi comentários inusitados em minhas páginas nas redes sociais. Fui chamado de patife, esquerdopata, comunista, e o pior de tudo é que isso partiu de irmãos em Cristo. Eles apenas repetem exaustivamente o que ouvem de seus gurus e mentores espirituais. Se, de fato, almejamos dias melhores, temos que aprender a conviver com o contraditório, sem nos ressentir nem sair por aí ofendendo a quem quer que seja. Por favor, mais amor, menos rancor. 

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O Ato Institucional Número Cinco foi o quinto de uma série de decretos emitidos pelo regime militar nos anos seguintes ao Golpe militar de 1964 no Brasil. Redigido pelo Presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968, veio em represália à decisão da Câmara que se negara a conceder licença para que o deputado Márcio Moreira Alves fosse processado por um discurso pedindo ao povo brasileiro que boicotasse as festividades do dia 7 de setembro. Mas o decreto também vinha no correr de um rio de ambições, ações e declarações pelas quais a classe política fortaleceu a chamada linha dura do regime instituído pelo Golpe Militar. O Ato Institucional Número Cinco, ou AI-5, foi um instrumento de poder que deu ao regime poderes absolutos e cuja primeira conseqüência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano.

O AI-5 era o endurecimento do regime militar. A tortura tornou-se instrumento de política de Estado e a repressão entrou na sua fase mais violenta. Começava então o estranhamento entre o governo militar e a Igreja Católica, principalmente com o setor progressista, defensor da Teologia da Libertação, uma leitura da inspiração marxista do Evangelho. Aquele foi o único espaço que realmente encarou a ditadura. Até jovens evangélicos abandonados por suas igrejas encontraram apoio nos progressistas católicos. Diante do silêncio da maioria das igrejas evangélicas, para muitos seminaristas e pastores, a Igreja Católica tornou-se um grande guarda-chuva onde podiam se abrigar.


Em Volta Redonda, no sul do Estado do Rio de Janeiro, o pastor batista Geraldo Marcelo foi preso três vezes como agente da subversão, chegando a ficar 43 dias em poder dos militares. Ex-funcionário da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e membro do Conselho Fiscal do Sindicato dos Metalúrgicos, o religioso, hoje com 84 anos, superou os traumas e relembra dos cultos que realizava na cadeia: “Cinco companheiros se converteram e um deles hoje é pastor”, aponta. A mesma sorte não teve Anivaldo – preso em 1970, ele permaneceu 11 meses incomunicável no famigerado Departamento de Operações e Informações - Centro de Operações e Defesa Interna, o DOI-Codi, principal órgão de repressão do regime militar. Sofrendo torturas diárias, pensou em suicídio para não sucumbir à coação para entregar os amigos e irmãos de fé. “Eu pensava em me matar. A pressão era muito grande. Só que eu era forte – precisava de cinco, seis, para me torturar”, conta, ainda visivelmente comovido com as lembranças. “Foi pela ação de Deus que eu não morri. Eu me sentia como Jesus, querendo passar de mim aquele cálice de dor”.

Por sua vez, Anivaldo soube pelos torturadores que foi denunciado por um pastor e um bispo da Igreja Metodista. Mas a certeza só veio quando, anos depois, teve acesso à sua documentação nos arquivos da ditadura. “No meu processo está o bilhete que o pastor José Sucasas Junior e seu irmão, o bispo Isaías Sucasas, mandaram ao coronel Faustine, diretor do Serviço Nacional de Informações e presbiteriano, me entregando. Havia uma aliança implícita entre os setores conservadores da Igreja e os órgãos de repressão”, denuncia. A falta de registros históricos do período da ditadura pela Igreja Evangélica é uma das formas de não revelar seus paradoxos. A mesma denominação que o delatou também tinha setores que o apoiavam e à sua família. “Houve um bispo que tentou me visitar e não conseguiu. Igrejas oraram em atos de fé e coragem”.

Deduragem – Luiz Caetano Grecco Teixeira, também preso após o AI-5, lembra que a “deduragem era fenomenal” entre os crentes e até entre pastores e as próprias ovelhas. Ele conta que, numa reunião de oração de estudantes cristãos, uma então líder da Aliança Bíblica Universitária, a ABU – hoje, pregadora conhecida – entregou ativistas aos agentes da repressão que entraram no recinto. Entre eles, estava Mozart Noronha, que na época era crente presbiteriano e hoje é pastor luterano no Rio. O nome da mulher, Grecco não revela. “É um acerto de contas pessoal”, justifica.

Para ele, a partir de 1970 houve um desmonte da consciência política da Igreja Evangélica brasileira, movimento com influência americana: “Veio para cá o chamado grupo da Califórnia, da extrema direita protestante americana, uma organização com muito dinheiro.” A ação do movimento consistia em enviar ao Brasil professores de teologia e recursos para tocar projetos educacionais ligados a igrejas. “Era a direita se fortalecendo dentro da Igreja."

A partir dali, começou a falência da Escola Bíblica dominical e o fortalecimento do modelo eclesial americano”, avalia Gracco.Percival de Souza, que em 1968 era repórter do Jornal da Tarde, em São Paulo, foi duas vezes enquadrado na Lei de Segurança Nacional, acusado de jogar o povo contra os militares através de suas matérias. Denunciado na Justiça Militar, o jornalista diz que não recebeu nenhuma palavra de apoio da igreja a que pertencia: “Só não fui preso pelos desígnios divinos”, comenta.

Enquanto o regime prendia pessoas que sequer sabiam porque eram detidas, Percival lembra que movimentos extremistas de esquerda executavam sumariamente companheiros que consideravam ter práticas burguesas. Ele conta um episódio curioso: “Um casal de militantes comunistas foi repreendido simplesmente por cantar Parabéns pra você no aniversário da filha”. Percival também faz questão de contar que Diógenes de Oliveira, que durante o regime pertencia ao movimento revolucionário, em 2001 foi acusado de fazer acordo com a polícia para não incomodar o jogo do bicho, em Porto Alegre (RS), quando era coordenador financeiro da campanha de Olívio Dutra à reeleição para o governo do Estado. “Escapamos da ditadura militar e entramos na ditadura da mediocridade, inclusive na Igreja”, conclui Percival.

Comissão da Verdade vai apontar religiosos que ajudaram a ditadura

A Comissão Nacional da Verdade criou um grupo para investigar padres, pastores e demais sacerdotes que colaboraram com a ditadura militar (1964-1985), bem como os que foram perseguidos. 

“Os que resistiram [à ditadura] são mais conhecidos do que os que colaboraram”, afirmou Paulo Sérgio Pinheiro, que é o coordenador desse grupo. “É muito importante refazer essa história." 

Ele falou que, de início, o apoio da Igreja Católica ao golpe de Estado “ficou mais visível”, mas ela rapidamente se colocou em uma “situação de crítica e resistência.” 

O bispo Carlos de Castro, presidente do Conselho de Pastores do Estado de São Paulo, admitiu que houve pastores que trabalharam como agentes do Dops, a polícia de repressão política da ditadura. Mas disse que nenhuma igreja apoiou oficialmente os militares. 

No ano passado, a imprensa divulgou o caso do pastor batista e capelão Roberto Pontuschka. De dia ele consolava os presos, falando sobre Deus, e à noite os torturava. Em maio deste ano, a Comissão de Anistia concedeu indenização ao evangélico Anivaldo Padilha, 72, que foi denunciado ao regime pelo bispo Isaías Fernando Sucasas e pastor José Sucasas Jr, da Igreja Metodista. Os sacerdotes desses casos já morreram. 

O batista Enéas Togninini, 97, é um religioso que ficou do lado da repressão militar. Ele chegou a pedir aos aos fiéis um dia jejum e oração ao regime. "Não me arrependo porque eles [os militares] fizeram um bom trabalho", disse ele recentemente à revista Istoé. "Salvaram a pátria do comunismo."

O novo grupo da Comissão da Verdade vai pesquisar documentos, depoimentos, teses e arquivos internacionais. O resultado desse trabalho será divulgado em um relatório final. 

"Podemos indicar elementos de igreja que trabalharam como informantes da ditadura, mas não condená-los", disse Pinheiro.


Pastor torturava à noite presos da ditadura e de dia falava da Bíblia


O pastor batista e capelão Roberto Pontuschka era um assíduo frequentador dos porões da ditadura militar (1964-1985). À noite ele torturava os presos políticos, no pau de arara, e de dia os consolava falando de Deus e lhes dava exemplares do Novo Testamento. Entre os presos, havia evangélicos, como o presbiteriano Rubem Cesar Fernandes, 68.

Fernandes foi preso em 1962 pelos policiais da Oban (Operação Bandeirantes) por ser militante estudantil. Ele disse ter sido dedurado por pastores por ser considerado “elemento perigoso”. Até hoje o antropólogo não se conforma: “Não é justificável usar o poder militar para prender irmãos”.

Outras histórias como a de Fernandes estão vindo à tona a partir do exame das cópias de documentação de tribunais militares que o CMI (Conselho Mundial de Igrejas), organização internacional ecumênica, acaba de repatriar ao Brasil. Mais de um milhão de páginas estavam protegidas em Chicago, no Center For Research Libraries. Sem que os militares suspeitassem, as cópias foram feitas quando os advogados dos presos retiravam dos tribunais os processos para examiná-los por 24 horas.

Os militantes de oposição à ditadura sempre acusaram as igrejas evangélicas de terem dado apoio à repressão, diferentemente da Igreja Católica de dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, que se colocou na linha de frente da resistência ao regime.

A documentação do CMI confirma a conivência institucional dos evangélicos.

Anivaldo Padilha foi torturado pela ditadura militar
Padilha foi denunciado
por pastores metodistas
Anivaldo Padilha (foto), hoje com 71 anos, foi denunciado pelo pastor José Sucasas Jr. e pelo bispo Isaías Fernandes Sucasas, ambos metodistas e já falecidos.

Padilha foi torturado por 20 dias no DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo entre fevereiro e março de 1970. Estava com 29 anos. Era metodista e estudava ciências sociais na USP (Universidade de São Paulo). O trauma quase o levou ao suicídio. Viveu 13 anos no exílio.

Preso em 1969, Leonildo Silveira Campos foi torturado por dez dias. Estava com 21 anos e era seminarista da Igreja Presbiteriana Independente. Hoje é teólogo e professor de ciências da religião na Umesp. Ele também não se esqueceu das “pregações” de Pontuschka, o pastor torturador.

Zwinglio Mota Dias, 70, hoje pastor emérito da IPU (Igreja Presbiteriana Unida do Brasil), foi expulso em 1962 do Seminário Presbiteriano de Campinas porque defendia que a salvação das almas passava pelas questões sociais. Outros 38 seminaristas foram expulsos.

Na Faculdade de Teologia de São Paulo, da Igreja Metodista, o pastor Boanerges Ribeiro, presidente na época da denominação, “convidou” alunos e professores a se retirarem.

Anivaldo Padilha afirmou que vários evangélicos colaboraram com a repressão, delataram irmãos e assumiram o discurso dos militares. “Eu acreditava ser impossível que alguém que se dedica a ser padre ou pastor, cuja função é proteger suas ovelhas, pudesse dedurar alguém.”

Ele contou que anos depois se encontrou com um de seus torturadores em um Carnaval e o perdoou. “O perdão, para mim, foi uma forma de exorcizar os demônios das torturas que me causaram pesadelos durante quase seis anos”.

Mas nem por isso os torturadores devem ficar impunes, disse.

“A punição deles é importante para resgatar a dignidade dos que foram torturados, da memória dos assassinados, das famílias que não puderam ainda sepultar seus membros desaparecido.”

Fontes: Wikipédia, Eclésia, Istoé e Blog do Paulo Lopes

terça-feira, outubro 28, 2014

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Jesus não combina com preconceito!




Por Hermes C. Fernandes

Já no começo Ele mostrou a que veio. Escolheu nascer numa família humilde e em circunstâncias que poderiam ser, no mínimo, consideradas suspeitas. Definitivamente, Jesus não combina com preconceito.

Poderia ter nascido num palácio, mas preferiu nascer entre os animais, acolhido numa manjedoura em vez de num berço de ouro. Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Ainda bebê, recebeu presentes de magos estrangeiros que não professavam a religião dos Seus pais (“magos” é um eufemismo para “bruxos”). Por que hoje Ele discriminaria quem O quisesse louvar, ainda que não pertencesse ao Seu povo? Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Já adulto, foi inusitadamente banhado pelo perfume de uma dama da noite, adquirido no exercício de sua atividade. Jamais Se incomodou por ser flagrado andando publicamente na companhia delas e de outros de moral duvidosa. Será que hoje Ele ficou mais seletivo? Definitivamente, Jesus não combina com preconceito.

Nunca usou termos pejorativos para tratar leprosos, mendigos, excluídos, eunucos. Por que alguns dos Seus seguidores insistem em usá-los. Não consigo imaginá-lo chamando alguém de “gay aidético”, ou de "leproso imundo". Ele sempre foi um gentleman. Tratava com dignidade a qualquer ser humano. Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Ele foi capaz de elogiar publicamente a manifestação da fé de um oficial do exército do império que ocupava Sua terra. Mesmo sabendo que aquele homem provavelmente era devoto de muitos deuses, Ele não recriminou, mas admirou sua devoção ao criado enfermo. Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Ele escandalizou Seus conterrâneos, ao usar uma figura por eles desprezada para ser o principal personagem de algumas de Suas parábolas. Para Ele, mesmo um samaritano era capaz de surpreender o mundo com atitudes dignas e motivadas por amor. Definitivamente, Jesus não combina com preconceito.

Foi flagrado aos papos com uma "nordestina" de sotaque estranho (Samaria ficava ao norte de Jerusalém) à beira de um poço, e mesmo sabendo de seu estilo de vida promíscuo, não a condenou, mas ofereceu-lhe saciar sua sede existencial. Você ainda acha que Jesus combine com preconceito?

Ao escolher Seus discípulos, não os censurou por suas ideologias. De fato, entre eles havia publicanos, zelotes e até fariseus, abrangendo todo o espectro ideológico da época. Por que alguns dos Seus seguidores atuais apaixonam-se de tal maneira por certas ideologias, que acabam demonizando os que pensam diferente? Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Ao ressuscitar, Ele quebrou todos os protocolos ao aparecer antes às mulheres e enviá-las como portadoras da boa nova aos demais discípulos. Por incrível que pareça, ainda há quem se diga discípulo d'Ele e que pensa que a mulher não deve ter oportunidade no ministério. Parece que Jesus vivia bem à frente do Seu tempo e por isso, jamais combinou com preconceito.

Paulo, um dos Seus mais proeminentes discípulos, fez eco ao que aprendeu do seu mestre. Tanto que foi capaz de citar poetas seculares em seu discurso, revelando estar desprovido de qualquer espírito discriminatório. Haveria algum erro em citar poetas seculares atuais? Será que isso nos desqualificaria como pregadores? Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Jesus só demonstrou intolerância para com os intolerantes, aqueles que se achavam tão santos, que ao subirem ao templo para orar, ousavam declarar não serem tão pecadores como os outros. Estes não foram poupados de Suas duras e severas críticas. Com a mesma severidade com que julgaram, foram julgados. Para estes, Jesus tinha adjetivos muito especiais, tais como hipócritas, “raças de víboras” e “geração adúltera” (equivalente mais polido de um xingamento muito usado em nossos dias). Definitivamente, Jesus não combina com preconceito, muito menos com intolerância. 

Aos xerifes da vida alheia, uma linda canção do "gay aidético" (foi assim que um deles se referiu ao Renato Russo). Vocês envergonham o Evangelho com esta postura preconceituosa extremista. Que Deus tenha misericórdia de suas almas (refiro-me tanto ao que escreve, quanto aos que compactuam com suas ideias). 

Larga de ser severo, amigo! Ou seja severo consigo, porém compassivo com os demais. Imagine se Jesus resolvesse implicar com o cumprimento dos seus cabelos! Lembre-se: somente os misericordiosos alcançarão misericórdia. Os severos alcançarão severidade.

sábado, novembro 24, 2012

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Expondo as entranhas das ideologias à luz do ideal do Reino


Por Hermes C. Fernandes

Que ideologia estaria mais próxima da proposta do Evangelho do Reino? Alguns diriam que o comunismo, devido à ênfase cristã na distribuição dos bens. Outros diriam que o capitalismo por sua ênfase na livre iniciativa. Outros ainda diriam que o anarquismo, haja vista que os poderes deste mundo estão fadados a desaparecer. Cada qual tem versículos bíblicos chaves previamente separados como munição para atacar os que pensam de maneira diferente.

Lendo a parábola do bom samaritano, encontramos ali a representação de cada uma dessas ideologias.[1]

Jesus estava sendo arguido por um doutor da lei (o mais próximo do que hoje chamamos de advogado). Em vez de respondê-lo diretamente, Jesus lhe faz duas outras perguntas: O que está escrito na Lei e como a lês? A primeira tem caráter objetivo, a segunda, subjetivo.  O que diz a Lei revela quem Deus é, mas a maneira como a lermos revelará quem nós somos.

E é aí que mora o problema quando se trata de ideologia. Quem tem predileção pelo comunismo, vai ler a Bíblia a partir de sua ótica comunista. E o mesmo se dará por quem tem predileção por qualquer outra ideologia. A bem da verdade, a Bíblia oferece recursos para reforçar qualquer discurso ideológico.  Difícil é fazer uma leitura isenta, sem as lentes ideológicas.

Perguntando-lhe sobre o dizia a Lei, este o respondeu: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

A resposta está... EEEXATA!

- Faça isso e viva! Respondeu Jesus.

- Mas espera aí... só isso? Não pode ser! Eu sou um advogado, não posso contentar-me com uma resposta tão simplista.  Já sei! Tenho uma nova questão: Quem é o meu próximo?

Com esta pergunta, ele se revelou. Suas entranhas foram expostas.

Alguns se sentem mais próximos dos poderosos. Outros, dos miseráveis. Outros, dos religiosos. E ainda outros, dos pecadores.

Em vez de respondê-lo diretamente, Jesus resolve contar mais uma de suas histórias.: Um homem que descia de Jerusalém para Jericó foi abordado por assaltantes, que depois de espancá-lo, deixaram-no meio morto.

Podemos atribuir a esses assaltantes o lema “o que é teu é meu”. Eles não respeitavam a propriedade privada. Achavam-se no direito de subtraí-la a seu bel-prazer. Ainda que fossem como Robin Hood, roubando dos ricos para distribuir entre os pobres, ainda assim seriam ladrões.  Facilmente identificamos sua postura com a ideologia comunista. 

Os dois principais mandamentos abrangem  todos os demais. Uns dizem respeito ao amor que devemos a Deus, como por exemplo, não adorar outras divindades além d’ Ele, não pronunciar Seu santo nome em vão, etc. Os demais dizem respeito ao amor que devemos ao nosso próximo. E entre esses encontramos dois que defendem claramente o direito à propriedade privada: não cobiçarás o que for do seu próximo (seja mulher, bens, etc.), e não furtarás. Não se trata apenas de deveres, mas da garantia de direitos. 

Qualquer regime que atribua ao Estado o direito de ingerência na vida privada de seus cidadãos está extrapolando suas funções. A justiça social não pode ter como partida a violação da propriedade privada. Não é tirando arbitrariamente dos ricos e dando aos pobres que vamos resolver o problema.

E há vários mecanismos usados pelo Estado para subtrair seus cidadãos, principalmente através da cobrança de impostos pesados.

Jesus, então, introduz o terceiro personagem de sua trama: o sacerdote. Todos esperavam que este socorresse o moribundo. Mas em vez disso, ele sequer se aproxima. Provavelmente, ele estava indo para Jerusalém para prestar seu serviço no templo. Segundo a Lei, se tocasse em um cadáver, o sacerdote ficaria impuro, e portanto, impossibilitado de cumprir seu turno.  Seu lema era “O que é meu é meu”. Em outras palavras, tenho que preservar o que tenho, sem me importar com o que se passa com o outro. Perceba aqui a similaridade desta postura com a ideologia capitalista, em que cada homem é uma ilha. O individualismo é enfatizado. A performance não pode ser comprometida com distrações. A ordem é produzir. Cumprir seu turno. Preservar seu status a qualquer custo. Neste mesmo espírito, as sociedades capitalistas promovem a segregação social. Os ricos blindam seus automóveis. Vivem nababescamente em seus condomínios luxuosos. Isolam-se da realidade. Enviam seus filhos para estudarem no exterior, longe das ameaças das ruas. Cumprir a agenda é mais importante que socorrer uma vítima da injustiça. Lucrar é o sue afã.

O capitalismo acaba por alimentar uma espécie de sistema de castas. Todos almejam chegar ao topo da pirâmide. O sonho do oprimido é um dia tornar-se no opressor. Quem um dia foi cauda, finalmente será cabeça.  Ascensão social é a palavra mágica que mantém a máquina girando.  E a religião está aí para lubrificar a máquina com seu discurso triunfalista e a justificação do lucro. A Teologia da Prosperidade é a versão pós-moderna deste discurso. Ela não só justifica, mas canoniza o lucro. Se no comunismo, o Estado usurpa o lugar de Deus, no capitalismo quem o usurpa é o capital, a quem Jesus carinhosamente chama de Mamom.

Decepção geral! A audiência de Jesus deve ter reagido mais ou menos como a torcida age quando se perde um pênalti. Logo quem... o sacerdote.

Sai de cena o sacerdote e entra o levita.

- Agora vai! Um homem pertencente a uma tribo totalmente dedicada ao Senhor...  Não vai pensar duas vezes. Aquele homem pode considerar-se socorrido.

Inusitadamente, o levita adota a mesma postura do sacerdote (que, diga-se de passagem, pertencia à mesma tribo). Todas as ideologias e regimes possuem a mesma origem: humana. O que se pode esperar delas? O lema do levita era “O que é teu é teu”. Em outras palavras: não me envolve em questões alheias. O sistema é bruto! É cada um por si e... Deus por todos? Tem certeza disso? Acredito que esta postura se assemelhe muito com a proposta anarquista, ainda defendida por alguns intelectuais idealistas. Será que a sociedade humana atingiu tal grau de evolução e sofisticação que possa dispensar qualquer tipo de governo? Confesso que considero um tanto quanto romântica esta visão, e muitas vezes tenho me sentido atraído a ela. Mas cada vez que me deparo com as injustiças, sejam individuais ou coletivas, percebo que não podemos viver em sociedade sem que haja representação política. Não dá pra viver numa sociedade sem leis, sem regras sociais, sem punição para os criminosos, sem infraestrutura, sem educação, etc. A anarquia é uma utopia. Não dá pra cada um ser por si mesmo, ignorando a necessidade dos demais. O levita é uma pipa avoada. Passa levitando pelos demais, sem importar-se, sem perceber sua ligação com o todo. Apatia é o seu sobrenome. [2]

Entra em cena uma figura depreciada pelos judeus. Um samaritano. O que se pode esperar daquele mestiço, lembrança de que um dia estivemos sob o domínio assírio? Ele não tem o nosso pedigree. Ele é um gaiato em nossa nau. Um ser asqueroso, com um sotaque ridículo, sem qualquer etiqueta. Se o sacerdote passou batido, e o levita passou voado, o mínimo que o samaritano vai fazer é cuspir no pobre coitado.

Para escândalo de sua atenta audiência, o samaritano interrompe sua viagem de negócio, se aproxima do moribundo, presta-lhe os primeiros socorros, coloca-o em sua cavalgadura, hospeda-o com recursos próprios, e ainda custeia o seu tratamento. Seu lema era “o que é meu é teu”. Nada do que fez foi por imposição do Estado, nem visando obter algum lucro, mas por livre e espontânea vontade. O texto diz que ele foi movido por compaixão. A solidariedade era a sua bandeira. Não importava a nacionalidade daquele a quem socorria. Ele nem mesmo espera receber qualquer recompensa.

As ideologias nos distanciam. Os ideais do Reino nos aproximam. Não precisamos demonizar, tampouco canonizar ideologia alguma. Todas têm suas incongruências e idiossincrasias. Os ideias preconizados por cada uma delas só será alcançado mediante a práxis do Evangelho do Reino. Uso o neologismo “reinismo” para identificar tal práxis. Ela seria, por assim dizer, a grande síntese ideológica tão almejada pela sociedade humana. Em que a liberdade almejada por liberais/capitalistas é preservada, sem que para isso seja sacrificada a justiça social tão cara aos comunistas/socialistas. Em que a auto-governança defendida por anarquistas seja possível, não como alternativa à hierarquia governamental, mas como base para toda e qualquer governança. O ideal anarquista só será possível quando finalmente Cristo houver desfeito toda estrutura de poder, quando a humanidade houver alcançado tal maturidade mediante Cristo, que não precisará submeter-se a nenhuma autoridade, senão a de Deus. Como bem afirmou Paulo: Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder” (1 Co. 15:24). Até lá, compete-nos submeter-nos a toda autoridade que preze pelo bem comum (Rom.13), que estimule a prática do bem enquanto coíba a propagação do mal através da aplicação da justiça.




[1] Limito-me às ideologias principais, sem ignorar o vasto espectro ideológico existente em nossos dias.
[2] Considerada por alguns como alternativa ao comunismo e ao capitalismo, o Distributismo é uma filosofia econômica que defende que a posse dos meios de produção deve estar o mais amplamente distribuída possível entre a população, em vez de estar centralizada no Estado (como defende o comunismo/socialismo) ou concentrada em uma minoria de indivíduos (capitalismo liberal). Nesse sistema, a maior parte das pessoas deveria conseguir sobreviver sem ter que contar com o uso da propriedade alheia. Valoriza-se a propriedade privada ao passo que valoriza o acesso a tais propriedades. Entre os que defendiam tal ideologia estavam o celebrado Chesterton e Hilaire Belloc.