sexta-feira, outubro 14, 2016

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Sonhos & Cicatrizes




 Por Hermes C. Fernandes

Lá estava eu, nas primeiras horas do dia, em pleno outono, no que lembrava um bosque inglês. Os primeiros raios de sol rasgavam impiedosamente o espesso nevoeiro proporcionando uma agradável visão.

Meus pés afundavam por entre as folhas amareladas que cobriam o chão enquanto buscava um caminho por entre as árvores.

De repente, avisto um menino de pele alva e cabelos dourados.

Ele estava sentado com a perna direita dobrada e a esquerda estendida. Cada vez que tomava um punhado de folhas e as jogava para o alto, ele soltava uma gargalhada que ecoava livremente pelo bosque.

O que uma criança estaria fazendo sozinha naquele lugar uma hora dessas? – perguntei-me. Talvez estivesse perdida – ponderei.

Receoso de espantá-lo, fui aproximando-me lentamente, circulando o perímetro, buscando o melhor ângulo para abordá-lo.

Ao ver-me, passou-me a impressão de que já esperava por mim.

Havia algo estranhamente familiar em sua fisionomia.

Observando a maneira como estava vestido, de camiseta de mangas curtas e short azul claro, sandálias de couro em seus pés, lembrei-me de como minha mãe costumava me vestir quando tinha aquela idade. Apesar do frio, ele não estava agasalhado.

Não posso acreditar no que meus olhos veem! – exclamei.

Aquela criança perdida no bosque era eu.

E quem a havia perdido era ninguém menos que... EU!

Seu sorriso parecia indicar que estava feliz de ter sido encontrada. Ou melhor, de ter me encontrado. Talvez, quem estivesse perdido fosse eu, não ela que sempre esteve ali, esperando que um dia pudéssemos nos reencontrar.

Olhei para sua mãozinha esquerda e percebi que não trazia as cicatrizes do corte sofrido no ventilador quando tinha nove anos. Por alguma razão, aquilo me trouxe sensações díspares. Alegre por ver sua mão lisinha, sem calos nem cicatrizes, mas triste por saber que em alguns poucos anos, ela seria ferida. E se eu a avisasse? Se pedisse para jamais dormir próxima de um ventilador de hélices de aço e com tanto espaço entre as frestas de sua grade de proteção?

Olhei para o pulso da mesma mão e percebi a ausência de outra cicatriz adquirida numa briga aos treze anos com aquele que era seu melhor amigo. Um soco desferido numa janelinha de vidro num momento de fúria fez jorrar sangue para todo o lado. O que eu deveria dizer a ela? Que jamais confiasse num amigo que tentaria difamá-la com o seu próprio pai?

Seus joelhos ainda não exibiam as marcas das quedas sofridas enquanto aprendia a andar de bicicleta sozinho na Ilha de Paquetá.

Havia uma última cicatriz que queria conferir. Fiz como se lhe oferecesse um cafuné e verifiquei que seu couro cabeludo ainda estava intato. Minha vontade era implorar que nunca desejasse ser adulto antes do tempo. Porque foi justamente por isso que ela saiu correndo do táxi onde estava com sua mãe, para atravessar sozinha uma avenida movimentada e acabou sendo golpeada na cabeça por um ônibus que por sorte já estava freando.

Mas o que mais me impressionou foi a pureza do seu sorriso que indicava não haver cicatrizes em seu coração. Jamais havia sofrido uma decepção. O futuro se estendia feito um tapete vermelho, convidando-o a trilhá-lo.

Que saudade eu tive de você, garoto.

Senti-me frustrado por não poder alterar em nada o roteiro de sua vida. Mas pensando bem, se lograsse fazê-lo, ele jamais seria eu. Afinal, sou o resultado de todas as minhas vivências, inclusive as que me deixaram cicatrizes. Estas, portanto, deveriam ser celebradas em vez de lamentadas.

Como que por um lampejo, percebi que, o futuro daquela criança era o meu passado e não poderia ser mudado. Eu nada podia fazer por ela, poupando-a das dores que lhe acometeriam em breve. Mas, por incrível que pudesse parecer, ela poderia fazer muito por mim. Ironicamente, eu não podia mudar o seu passado, mas ela podia mudar para sempre o meu futuro.

Resolvi, então, deixar de lado as dores e focar exclusivamente nos sonhos.

O carpete de folhas que se formava no chão representava os sonhos de que abrira mão ao longo da minha jornada. A julgar por sua coloração, as folhas estavam mortas.

Concluí que o outono era a atual fase da minha vida.

O melhor havia ficado para trás. A estação que se avizinhava era o temido inverno.

Aquela criança parecia não se importar com nada disso. Ela jogava as folhas para o alto irreverentemente.

Seu vocabulário talvez não lhe oferecesse um repertório de palavras capaz de argumentar comigo. Mas a inocência do seu olhar me soava inexplicavelmente eloquente.

Sem que me dissesse uma palavra, ela me fez entender que aquelas folhas se decomporiam e se tornariam adubo natural que permitiria novas primaveras em minha existência.

As flores estavam a caminho!

Os sonhos que se soltaram dos meus ramos e foram espalhados pelo vento, estavam destinados a fertilizar meu solo existencial para que voltassem a florescer.

Achei que havia chegado a hora de me despedir do menino. Mas ele se levantou, deu-me a mão e saiu caminhando comigo.

Aquele gesto soou-me como uma renovação de compromisso entre o que fui um dia, o que sou hoje e o que pretendo ser no futuro. Somente a reconciliação com o meu passado, garantiria o meu futuro.

Nada há que se possa fazer para mudar nossa história. Mas temos em mãos as ferramentas necessárias para ressignificá-la.

Duas resoluções resultaram desta experiência. A primeira delas é nunca mais voltar a ter saudade da criança que fui, pois ela me acompanhará até meus últimos passos. E a segunda é jamais me envergonhar de quem me tornei.

Este texto é parte do livro "O menino que sentia demais e sabia de menos", disponível no Amazon no link: https://www.amazon.com.br/dp/B01M7OV8UU

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