quinta-feira, setembro 10, 2009

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Não pare de sofrer!

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Regozijai-vos e alegrai-vos, porque grande é o vosso galardão nos céus, pois assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós.” Mateus 5:10-12

Pode até parecer que Jesus estivesse propondo algum tipo de reação masoquista por parte dos Seus discípulos diante do sofrimento que lhes seria impingido. Entretanto, isso está muito longe do que Jesus intentava dizer. A ênfase não deve recair sobre o sofrimento em si, e sim sobre as cláusulas “por causa da justiça”, e “por minha causa”. Não há qualquer bem-aventurança no sofrimento se este não for resultado de uma perseguição suscitada pelas razões expostas por Jesus. Com a mesma veemência com que condenamos o hedonismo, também condenamos o masoquismo. Quem aprecia sofrer, precisa passar por um exame psiquiátrico. Porém, outra coisa totalmente diferente é sofrer por uma causa justa. E aqui Jesus nos apresenta duas: a justiça do Seu Reino, e Ele próprio. Quem sofre por estas causas, deve regozijar-se em vez de se entristecer, pois a promessa é de que deles é o reino dos céus.

Ao recrutar Seus discípulos, Jesus não omitiu deles o fato de que segui-lO implicaria sofrer severamente. Ele os avisou: “Eu vos envio como ovelhas ao meio de lobos. Portanto sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Acautelai-vos, porém, dos homens; eles vos entregarão aos tribunais e vos açoitarão nas suas sinagogas. Sereis até conduzidos à presença de governadores e de reis por minha causa, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios” (Mt.10:16-18). Jamais Jesus induziu-os a buscar a perseguição, fazendo dela um objetivo.

Ao contrário disso, Ele ordenou que Seus discípulos fossem cautelosos com os homens. Em outras palavras, se eles pudessem evitar, deveriam fazê-lo. Afinal, a paz com todos deveria ser o alvo, e não a perseguição. Entretanto, as perseguições viriam invariavelmente. Mais cedo ou mais tarde, eles seriam brutalmente perseguidos, tanto pelas autoridades eclesiásticas, como pelas autoridades civis, e até mesmo dentro de suas próprias famílias. “Um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai aos filhos; e os filhos se levantarão contra os pais, e os matarão. E odiados de todos sereis POR CAUSA DO MEU NOME” (vv.21-22a).

Mesmo diante das advertências de Jesus, eles não deveriam temer. Nem mesmo deveriam se preocupar em defender sua própria causa. Uma vez que eles estivessem sofrendo pela causa de Cristo, caberia ao Espírito Santo pleitear por eles. “Mas, quando vos entregarem” ressaltou Jesus, “não fiqueis preocupados como, ou o que haveis de falar. Naquela mesma hora vos será concedido o que haveis de dizer, pois mão sois vós que falareis, mas o Espírito de vosso Pai é quem fala em vós” (vv.19-20). Aleluia! O mesmo Espírito que consola os que choram, defende a causa dos que sofrem por causa da Justiça.

A primeira perseguição sofrida pela igreja se deu logo nos primórdios do cristianismo. Tal qual prenunciado por Cristo, Seus discípulos foram cruelmente perseguidos, a começar por seus próprios compatriotas.

Lucas registra a primeira perseguição, que se deu logo após o Pentecostes, quando as autoridades sacerdotais se viram incomodadas, diante da cura de um paralítico na porta do Templo. O fato é que aquele milagre, colocou os discípulos de Jesus em evidência, dando-lhes grande prestígio e credibilidade perante o povo, o que veio a causar grande inveja (At.5:17-18). Se eles o houvessem curado em seu próprio nome, talvez os sacerdotes não se incomodassem tanto. Entretanto, eles o curaram em nome dAquele que os sacerdotes haviam entregue nas mãos dos romanos para ser crucificado. Era isso que os aborrecia. Isso os colocava numa posição de descrédito diante da população.

Ao se apresentarem ao sumo sacerdote, após terem sido miraculosamente soltos por uma intervenção angelical, os apóstolos receberam a seguinte advertência: “Não vos admoestamos expressamente que não ensinásseis nesse nome? Contudo, enchestes Jerusalém dessa vossa doutrina, e quereis lançar sobre nós o sangue deste homem. Respondeu Pedro e os apóstolos: Mais importa obedecer a Deus do que aos homens! O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, suspendendo-o no madeiro (...) Ouvindo eles isto, se enfureceram, e deliberaram matá-los” (At.5:28-30).

Eles não estavam sendo perseguidos por terem participado de alguma atividade ilegal, nem por terem praticado curandeirismo, ou por ter explorado a fé das pessoas. A acusação que pesava sobre eles, é que estavam ensinando em nome de Jesus.

Portanto, tal perseguição era legítima, e havia sido profetizada por Jesus. Por se lembrarem das palavras de seu Mestre, a reação deles ante a perseguição que se deflagrara não poderia ser outra: “Os apóstolos retiraram-se da presença do Sinédrio regozijando-se, porque tinham sido julgados dignos de padecer afronta pelo nome de Jesus” (At.5:41). Pedro, que era um deles, escreveu muitos anos depois deste episódio:

“Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus. Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem; mas, se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome”
(1 Pe. 4:12-16).

Há muitos, em nossos dias, sendo perseguidos por causa de uma postura antiética, e ainda têm coragem de se gloriar dessas perseguições, como se sofressem por amor a Cristo.

E a perseguição não é privilégio da igreja primitiva. Talvez não soframos tanto quanto ela sofreu, mas ainda sim, guardadas as devidas proporções, “todos os que desejam viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Tm.3:12). Não há exceção!

Em certo sentido, podemos dizer que seguir a Jesus é um convite ao sofrimento. Devemos encarar o sofrimento pela causa do Reino como uma espécie de “dom”, de privilégio. É Paulo quem diz que nos foi concedido “por amor de Cristo, não somente o crer nele, como também o padecer por ele” (Fp.1:29).


Um comentário:

  1. Caro Hermes,

    De fato, os crentes contemporâneos não sabem sofrer, e são estimulados o tempo todo por discursos que são verdadeiras massagens de ego, tornando-os mais "frágeis" frente as dificuldades da vida. E o que chamam de luta é a própria não realização ou frustração de seus planos pessoais, aspirações egoístas,sofrimentos esses que não têm nada haver com o Reino ou com o Cristo.

    Agradeço e retribuo a visita que fez ao Clamando no Deserto

    Em Cristo

    Ielton Isorro

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