sexta-feira, outubro 06, 2006

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Surpreendidos pelo Amor
Por Hermes C. Fernandes

Uma das mais surpreendentes passagens das Escrituras está relatada no capítulo 13 do Evangelho segundo São João. Ali somos impactados por um tipo de amor altamente consciente e lúcido. Quem disse que o amor é cego?

Aquela era Sua última semana no mundo, antes de Sua terrível morte. “Sabendo Jesus que a sua hora de passar deste mundo para o Pai já tinha chegado, como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim”.[1]

Jesus estava plenamente consciente de tudo quanto havia de passar nas próximas horas. Ele sabia que, enquanto estava reunido com Seus discípulos, uma conspiração estava em andamento. A cúpula dos sacerdotes estava reunida, tramando uma maneira de matar Jesus, sem que isso produzisse uma revolta popular. Mesmo em face da morte, Jesus amou Seus discípulos até o fim. Esse é o amor ágape, que não se esmorece, nem mesmo diante da morte.

Era a última reunião de Jesus com Seus discípulos. Que mensagem Ele deveria pregar numa ocasião como essa? Havia tanta coisa pra falar! Três anos não tinham sido suficientes para ensinar todas as coisas sobre o Reino de Deus. Jesus sabia que Seus discípulos não eram dotados de uma mente espiritual, que pudesse assimilar as mais profundas verdades do Reino de Deus. Somente quando o Espírito Santo lhes fosse outorgado, eles estariam aptos para apreendê-las.[2] Em vez de um novo “sermão da montanha”, os discípulos precisavam assistir a uma demonstração de amor que só seria ofuscada pouco mais tarde pela Cruz.

João segue seu relato, dizendo que Jesus sabia que Judas já se dispusera a traí-lO. Mas nem mesmo isso foi capaz de alterar o amor que sentia pelos Seus. “Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas, e que havia saído de Deus e ia para Deus, levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela”.[3] Veja que Ele não estava ciente apenas da aproximação da morte, mas também da autoridade que o Pai lhe havia confiado. Ele conhecia Sua origem, e Seu destino. No apogeu de Sua maturidade como ser humano, com Seus 33 anos, Jesus possuía plena consciência de quem era, e com que propósito havia vindo ao mundo. E ainda assim, foi capaz de amar a Seus discípulos até o fim. E foi esse amor que O levou a tomar uma atitude que jamais poderia ter sido prevista por qualquer de Seus seguidores.

Quem ama está sempre disposto a humilhar-se. Sua encarnação já teria sido um grande gesto de amor. Ter descido da glória, e adotado a natureza humana, submetendo-se às mesmas limitações, já se constitui uma forte evidência de Seu amor. Mas isso ainda não era tudo. Para provar Seu amor por nós, Cristo teria que descer uma escada de quatro degraus. Paulo nos informa que Ele “sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas a sim mesmo se esvaziou”[4]. O verbo grego usado aqui é kenósis. Ao tornar-Se humano, Cristo teve que esvaziar-Se de Seus atributos divinos, e de Sua glória original. Deus Se fez feto, embrião, menino, e experimentou todos os estágios que um ser humano qualquer vive até a idade adulta. Mas agora, Ele deveria tomar “a forma de servo”[5]. Não Lhe bastava tornar-Se semelhante aos homens, Ele deveria humilhar-Se a Si mesmo, e ainda descer outros dois degraus: o da obediência irrestrita, e o da morte. Nesses quatro degraus, o amor de Deus Se revelaria em todas as Suas dimensões, Phileo, Storge, Agape e Eros.

Para que Se fizesse servo, Jesus teria que assumir alguma tarefa que fosse exclusiva de servos (lit.: escravos). E foi isso que Ele fez, ao despir-Se, vestir-Se de uma toalha, e lavar e enxugar os pés de Seus discípulos. Ninguém entendeu coisa alguma. Nem mesmo Pedro, que recusou-se deixar que Jesus lhe lavasse os pés. Aquela era uma tarefa pra escravos. Diante da recusa de Pedro, Jesus carinhosamente lhe respondeu: “O que eu faço não o sabes agora, mas o compreenderás depois”[6]. Pedro só foi dissuadido, ao saber dos lábios de Jesus, que se não lhe permitisse lavar os pés, não teria parte com Ele.

Aprendemos com essa lição que quem ama serve. Só podemos servir aqueles a quem realmente amamos. E quando amamos, não nos preocupamos com nossa reputação, ou com a eventual censura que possamos sofrer.

Paulo afirma que devemos ter o mesmo sentimento que houve em Cristo, levando-o a descer os quatro degraus da humildade, experimentando assim, o amor em todas as suas dimensões. E o próprio Jesus, após dar essa lição em Seus discípulos, admoestou-lhes: “Vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns dos outros. Eu vos dei o exemplo, para que façais o que eu fiz”.[7] O lavar os pés foi apenas um gesto de amor e humildade da parte de Jesus. Hoje em dia, não necessitamos lavar os pés de ninguém. Mas devemos nos dispor a servir às pessoas com quem convivemos, a fim de que sintam quão amadas são.

Texto extraído do livro "Amor Radical" de autoria de Hermes C. Fernandes

[1] João 13:1
[2] João 16:12-13
[3] João 13:3-4
[4] Filipenses 2:7
[5] Ibid.id.
[6] João 13:7
[7] vv.13-15

Um comentário:

  1. olá pastor, li seu comentário no Blog do pr Ed e me alegro em ver que Deus está levantando homens de caráter e bem preparados que nos ajudem a nos desviar dos inúmeros lobos que tomaram conta do nosso meio. Sou pastoreada por alguém como vcs 2 e me tranquiliza ver que o vento que sopra aqui é o que sopra na IBAB e aí tb. Graças a Deus!
    Enfim, voltarei aqui pra ler tudinho desde o início. Por enquanto só li o post anterior - sobre amar o q se tem... e concordo em 100% - sou muito interessada neste assunto - CONSUMO - e tenho visto como ele pode tragar nossa energia, tempo e vida - é um verdadeiro afanhoto como os irmaos neo-pentecostais gostam de dizer. Li um cometário sobre isto em um blog de um "pastor-cabeção" ( entenda isso como um elogio,= inteligente) americano e concordei. Enfim, um abraco ao senhor , sua família e igreja.

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