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terça-feira, agosto 01, 2017

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O lugar do excluído na Agenda de Deus



Por Hermes C. Fernandes

Ninguém imaginava que aquele era o seu discurso de despedida. Quarenta dias após ter ressuscitado, Jesus se reunia pela última vez com o seus discípulos. Suas instruções finais foram para que não se ausentassem da cidade até que recebessem a capacitação dada pelo Espírito Santo para serem suas testemunhas. Tão logo se cumprisse tal promessa, eles deveriam começar seu ministério por Jerusalém, alcançando em seguida toda a região da Judeia, chegando, então, a Samaria, e, finalmente, aos confins da terra (At.1:8).

De Jerusalém até os confins da terra havia perímetros intermediários, etapas que não poderiam ser queimadas. Parecia sugerir que a lógica de Jesus partia de um perímetro menor para um mais amplo. Porém, a inclusão de Samaria rompia tal lógica. Imagine que Ele dissesse que nossa missão começaria no bairro, passando para a cidade, depois o estado, o país, e, por fim, o mundo inteiro. Ficaria bem mais razoável se Ele dissesse que a missão iniciada em Jerusalém deveria alcançar a Judeia, depois todo o território de Israel, em seguida, o império romano e, então, o restante do mundo. Por que incluir Samaria? O que haveria de especial lá?

Imagino que os discípulos tenham torcido o nariz ao ouvi-lo incluir os samaritanos  na agenda do seu reino. Por séculos, judeus e samaritanos cultivaram uma animosidade recíproca. Quais teriam sido os motivos que geraram tanta hostilidade?

Logo após a morte de Salomão, em cerca de 930 a.C., o reino de Israel se dividiu em dois: o reino do norte e o reino do sul. O reino do norte reunia a maioria das tribos (dez, ao todo) e manteve o nome “Israel”; porém, por haver perdido Jerusalém, que ficava ao sul, elegeu Samaria como sua nova capital. Já o reino do sul tinha seu território partilhado por duas tribos, a de Judá, de onde provinham os reis, e a de Benjamim, além da tribo de Levi, de onde provinham os sacerdotes, e que, por não ter direito às terras, dedicava-se inteiramente ao templo. Apesar de ter a minoria das tribos, tinha a vantagem de manter Jerusalém como capital, bem como o templo erigido em seu território. Devido a esta separação, os habitantes do reino do norte ficaram impossibilitados de cultuar a Deus no santuário em Jerusalém, e tiveram que eleger seu próprio lugar de adoração: o monte Gerizim, de onde Josué havia pronunciado a bênção sobre o povo de Israel. Por conta disso, desenvolveram uma religiosidade distinta. Em Samaria praticou-se bruxaria, adoração a deuses pagãos como Moloque, Baal, entre outros importados das culturas babilônica, cananeia e egípcia. Tudo isso fez com que o abismo entre eles aumentasse cada vez mais. Como se não bastasse o sincretismo que se intensificou quando foram levados cativos para a Assíria no ano 722 a.C., eles acabaram se mesclando com outros povos, tornando-se num povo mestiço (algo inadmissível para os judeus da época). Enquanto isso, os judeus, ao sul, mantiveram-se etnicamente puros e fiéis aos seus costumes. Para os judeus, os samaritanos eram apóstatas, mestiços, de caráter duvidoso, traidores do plano original de Deus, em suma, uma aberração, uma anomalia.

Nos tempos de Jesus, os samaritanos tinham suas próprias aldeias e cidades, sendo severamente hostilizados pelos judeus. Algumas atitudes extremadas começaram a ser tomadas pelos samaritanos no afã de afrontar seus desafetos. A gota d’água se deu quando Jesus tinha por volta de 19 anos. De acordo com Flavio Josefo, historiador judeu, um samaritano fanático invadiu o templo em Jerusalém com ossos humanos e os jogou no santo lugar, num tentativa de profaná-lo. Para se ter uma ideia da gravidade de tal atitude, era como se houvesse sido lançada uma bomba no santuário judeu. Algo bem mais grave do que uma transexual encenando a crucificação de Cristo na parada gay. O ódio gerado por esta atitude foi tão grande que, a partir daí, os rabinos pediam que cada judeu devoto, antes do pôr-do-sol, erguesse as mãos na direção de Samaria e amaldiçoasse os samaritanos em nome do Deus de Abraão. 

Por se sentirem excluídos, os samaritanos pagavam com a mesma moeda. O próprio Jesus, sendo judeu, sentiu na pele esta hostilidade.  Lucas nos relata um episódio em que Jesus manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém, mas como a viagem era longa, decidiu pernoitar numa aldeia samaritana. Ele, então, enviou mensageiros para preparar-lhe hospedagem. Quando os samaritanos desconfiaram que Ele e seus discípulos estavam a caminho de Jerusalém, recusaram-se a recebê-los. Dois dos seus discípulos mais chegados, Tiago e João, vendo aquilo, compraram as dores de Jesus e deram-lhe uma inusitada sugestão: “Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?” (Lc.9:51-56).

Repare que eles não tiraram aquilo do nada. Havia um precedente histórico. Ninguém menos que o grande profeta Elias havia agido do mesmo jeito. Também é interessante notar que Elias foi profeta justamente no reino do norte. Portanto, aqueles discípulos achavam que deveriam tratá-los com o mesmo rigor com que Elias os tratara séculos antes. Na opinião deles, só mesmo fogo vindo do céu poderia liquidar de vez com aquela aberração étnica. Para sua surpresa, Jesus não apenas recusou-se a acatar sua sugestão, como também os repreendeu: “Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.”

Não queiramos comparar o modus operandi de Jesus com nenhum outro profeta que tenha existido. Se insistirmos nisso, retroalimentaremos o preconceito e o ódio cultivados  por séculos entre os mais diversos segmentos sociais.

Aquele episódio mostrou a Jesus o quão enfermos estavam seus discípulos. O preconceito, seja de que natureza for, nada mais é do que uma enfermidade da alma. Quem não se cura, acaba contagiando a outros. A partir daí, Jesus deflagrou uma discreta, porém, eficiente terapia medicamentosa que visava romper-lhes os seus grilhões.

A primeira dose do remédio foi-lhes ministrada através de uma parábola.

A oportunidade surgiu quando um certo doutor da lei, querendo dar uma saia justa em Jesus, perguntou-lhe: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” Parecia uma pergunta sincera. Porém, Jesus sabia exatamente aonde ele queria chegar. Ele devolveu-lhe a pergunta: “Que está escrito na lei? Como lês?”  Perceba que são duas perguntas distintas. A primeira tem caráter objetivo. Trata-se da letra fria da lei. O que está escrito, está escrito. Não há o que tirar, nem por. Mas, a segunda pergunta tem caráter subjetivo: Como lês?

Não basta saber o que as Escrituras dizem sobre este ou aquele assunto. Devemos nos perguntar “como” as temos lido.  Pode-se usar textos isolados da Bíblia para justificar qualquer coisa, desde estupro até genocídio. Tudo vai depender de como a lemos. Há quem a leia para justificar seus preconceitos, suas opiniões, sua ideologia. Experimente lê-la contra si mesmo em vez de contra o seu próximo. Deixemos que ela nos confronte antes mesmo de nos confortar. Leiamos a partir de Jesus e não de nossos pressupostos. 

A resposta dada pelo doutor da lei foi corretíssima. Ele citou de cor os dois principais mandamentos: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. O assunto estava encerrado. A resposta estava ali, na ponta da língua. Bastava que ele cumprisse os mandamentos. “Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?” (Lc.10:25-37). Em outras palavras, com quem eu realmente devo me importar? A quem tenho a obrigação de amar?
Jesus nunca foi dado a respostas prontas. Ele prefere recorrer a metáforas e parábolas. Assim, Ele fala primeiro à imaginação, depois à razão. 

Aproveitando a presença dos discípulos, Jesus começa a contar-lhes uma estorinha.

Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de ladrões que o despojaram, e espancando-o fugiram deixando-o quase morto. Por um acaso, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote, que vendo-o naquelas condições, passou direto, sem se importar. Em seguida, vinha um levita (membro de uma das tribos do sul), que ao vê-lo, preferiu se distanciar. Nenhum dos dois se deu o trabalho de acudir o pobre coitado. Nem o profissional do altar, nem o membro da tradicional tribo do sul. Mas, de repente, surge um terceiro elemento. Ao introduzi-lo na história, toda a audiência arregalou os olhos. Um samaritano ia de viagem, e quando o viu, aproximou-se, compadeceu-se, prestou-lhe os primeiros socorros, colocou-o sobre sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, pagou adiantado sua hospedagem e ainda pediu que lhe dessem todo o cuidado necessário, porque quando voltasse de viagem acertaria com eles.

Aquela parábola era uma provocação. Desde quando um samaritano agiria dessa maneira, com mais amor e compaixão do que um sacerdote ou um levita puro-sangue?

Se aquele doutor da lei quisesse herdar a vida eterna, teria que tomar aquele pária como referência.

Os discípulos devem ter ficado com uma pulga atrás da orelha. Não fazia muito tempo eles foram praticamente expulsos de uma aldeia samaritana, e, agora, Jesus contava uma estória em que o herói era ninguém mesmo que um samaritano. Não teria sido melhor se ele fosse o ladrão da parábola?

Pouco tempo depois, Jesus lhes ministrou a segunda dose do remédio anti-preconceito. Mas, dessa feita, não seria uma parábola, mas um fato real, testemunhado por cada um deles.

Havia tantos trajetos que Jesus podia pegar para Jerusalém. Mas, propositadamente, Ele preferia pegar aquele que os fizesse passar por Samaria. Era como se Ele não houvesse aprendido ainda a lição. Numa dessas vezes, passando pelo meio de Samaria, “saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe; e levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós. E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes” (Lc.17:11-18).

Aqueles leprosos não se atreveram a se aproximar de Jesus porque a lei os impedia. Um passo além do permitido, eles deveriam ser apedrejados até a morte.  Jesus ordena que se apresentem aos sacerdotes. Enquanto caminhavam, a lepra desapareceu de seus corpos. De acordo com o preceito, somente os sacerdotes poderiam autorizá-los a voltar ao convívio social depois de constatar a sua cura. Mas no meio do caminho, um deles resolveu voltar, pois se lembrou de que, por ser samaritano, os sacerdotes não o receberiam no templo. Os outros nove prosseguiram, pois eram judeus. Estando todos leprosos, não havia distinção entre eles. Mas, uma vez curados, a distinção étnica veio à tona. Antes, eram todos leprosos. Agora, eram nove judeus e um samaritano. Enquanto os noves se dirigiam aos sacerdotes, aquele samaritano resolveu voltar a Jesus. A princípio, alguém poderia achar que ele estava desobedecendo a uma instrução clara dada por Jesus. Mas como ele poderia se dirigir aos sacerdotes sabendo que não seria recebido? Da mesma maneira, quantos adorariam ir a uma igreja, mas não vão porque sabem que serão rejeitados? Quantos 'sacerdotes' atuais se disporiam a acolher os diferentes, os excluídos, vítimas de nossos mais entranhados preconceitos? Algumas igrejas até se propõem a fazer trabalhos sociais e evangelísticos, visitando cadeias, cracolândias, bolsões de miséria, zonas de prostituição, mas não estão dispostas a receber em suas dependências elementos oriundos desses ambientes fétidos. Que procurem, então, uma igreja com o seu perfil! Daí surgirem igrejas dedicadas a certos segmentos geralmente abominados pelas demais. Triste constatação. 

Quando aquele ex-leproso (mas não ex-samaritano) chegou a Jesus, prostrou-se e o adorou em gratidão por sua cura. Ele não foi curado de sua condição de samaritano. Não há e nunca haverá ex-samaritanos. Mas ele foi curado de sua lepra. Assim como podemos ser curados de feridas abertas pelo preconceito.

Os nove obedeceram, mas não voltaram para agradecer. O samaritano desobedeceu porque não era possível ser recebido no templo, mas voltou para agradecer. Nem tudo se resume a obedecer ou desobedecer. A vida é mais complexa do que nosso fundamentalismo nos permite perceber. 

Continua em breve.

segunda-feira, maio 15, 2017

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Parábolas x Fábulas - A diferença entre o reino de Deus e o reino da fantasia


Por Hermes C. Fernandes

Fábulas. Quem não as ouviu quando criança? Quem nunca adormeceu enquanto sua mãe as contava? Elas servem para entreter e estimular a imaginação das crianças. Pelo menos, a intenção de quem as conta geralmente é esta.  O problema começa quando o indivíduo chega à vida adulta insistindo em viver num mundo de fantasia parecido com o dos contos de fada.

O apóstolo Paulo diz que haveria tempo em que as pessoas já não suportariam a sã doutrina, isto é, a verdade por si só, e como quem tem comichão nos ouvidos, se cercariam de mestres prontos a alimentar suas fantasias.  “E desviarão os ouvidos da verdade, voltando-se às fábulas” (2 Tm.4:3-4).

Uma dose de fantasia é sempre bem-vinda, pois amortece o impacto produzido pela realidade em nossa alma. Todavia, pessoas em posse de suas faculdades mentais sabem diferenciar entre fantasia e realidade. Somente os psicóticos e esquizofrênicos não conseguem distingui-las.

Não desprezemos o poder alucinógeno que tem as fábulas. Na pior das hipóteses, elas são capazes de provocar delírios e alucinações, alienando-nos da realidade. 

Quando os poderosos perceberam o potencial entorpecedor das fábulas, trataram de adotá-las como instrumento de dominação.

Mesmo as verdades do Evangelho podem ser de tal maneira pervertidas que acabem se tornando em fábulas e se pondo à serviço dos poderosos.

Sabendo que os riscos eram reais e que o dia de sua partida se aproximava, Pedro escreveu:

“Mas também eu procurarei em toda a ocasião que depois da minha morte tenhais lembrança destas coisas. Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade.” 2 Pedro 1:15-16

Como diferenciar o Jesus do Evangelho e o Gezuis das fábulas, o Cristo real e o Cristo genérico?

Se as fábulas se tornaram num recurso retórico para o entorpecimento e adestramento da população, as parábolas eram o recurso predileto de Jesus para despertar e chamar as pessoas de volta à realidade. Tanto as fábulas quanto as parábolas são estórias fictícias, porém, têm elementos, desdobramentos e objetivos bem diferentes. Se as fábulas pervertem, as parábolas subvertem.

Vejamos os elementos comuns às fábulas e que as diferenciam das parábolas contadas por Jesus.

O cenário das fábulas é sempre um lugar bem distante e extraordinário, um reino mágico, uma floresta encantada, um país das maravilhas. Assim, o ouvinte é arrebatado, deixando sua dura realidade para explorar lugares só acessíveis à imaginação. Já as parábolas contadas por Jesus tinham como cenário o chão da vida, o cotidiano das pessoas, o dia-a-dia de gente comum.

Toda fábula tem um herói. Geralmente, um príncipe encantado. Alguém que salva a mocinha indefesa das garras do dragão ou da rainha má. Ele não vem das classes humildes. Não é um trabalhador braçal. É um membro da realeza. Um bravo e valente príncipe. Não é à toa que nosso povo, adestrado pelas fábulas, nutre a expectativa de que um dia alguém virá em sua defesa. Trata-se de um messianismo falso, alimentado por uma esperança fantasiosa. Foi esta esperança que colocou Collor no poder. O caçador de marajás parecia a resposta aos nossos mais profundos anseios por justiça. Deu no que deu...

As parábolas de Jesus não tem mocinhos nem bandidos. Não há lugar para heróis. Nelas a ambiguidade de nossa humanidade é exposta. Nossos preconceitos são postos à prova. De quem se espera socorro, recebe-se indiferença. E quem deveria ser vilão, inusitadamente se comporta com altruísmo e compaixão. A mocinha indefesa da fábula se transforma no povo chamado a ser protagonista de sua própria história em vez de ficar aguardando passivamente o beijo do príncipe. 

Não há maçãs enfeitiçadas nas parábolas. Não há nada de que os poderosos nos convençam que não possamos tocar, nem mesmo nos aproximar. Paulo denuncia este instrumento de dominação:

“Tendo cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens (...) Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu (...) Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne.” Colossenses 2:8,18,20-23

Os poderosos usam e abusam da ignorância das pessoas para manipulá-las a seu bel-prazer. Foi assim que os senhores de engenho convenceram os escravos a não comerem as mangas, produto recém-chegado ao Brasil e que prometia trazer muitos lucros. Alegavam que comer manga e beber leite podia levar à morte. Séculos depois, ainda damos crédito a esta fábula ridícula sem qualquer embasamento científico.

Igualmente, há um evangelho que alimenta superstições, levando as pessoas a evitarem certos ambientes e comportamentos, não por consciência, mas por medo de serem ‘enfeitiçadas’ ou de darem ‘legalidade’ ao maligno. De fato, só a verdade liberta. A mentira amordaça e idiotiza.

Toda fábula esboça uma moral. Aquela que serve aos interesses das classes dominantes. “Qual é mesmo a moral da estória?” é a pergunta que paira no ar. Já as parábolas de Jesus demonstram preocupação com questões éticas que seguem pertinentes independentemente da época, da cultura e do lugar.

Algumas parábolas parecem pegadinhas que visam expor nosso senso de moral contraditório.

Não importa qual seja o enredo, todas as fábulas têm final feliz. O que começa invariavelmente com “era uma vez”, termina com “e foram felizes para sempre”. Quem não gostaria que fosse assim na vida real?As parábolas de Jesus rompem com este clichê. Algumas nem sequer parecem terminar. As estórias contadas por Jesus não terminam com final feliz, simplesmente porque elas não terminam. A trama humana segue em aberto. A vida segue seu ritmo. Há espaço para contingências e eventualidades. Fábulas falam de certezas. Parábolas falam de surpresas.

Quando parecia que Jesus ia dar o arremate da estória, ele introduz uma situação inusitada.

Se uma fábula como a da Branca de Neve fosse uma parábola, ela não teria o desfecho que teve. Depois do beijo que quebrou o feitiço da maçã que lhe fora ofertada pela rainha má, a Branca de Neve se casaria, teria filhos, e viveria muitas outras coisas, nem todas tão felizes. Ninguém fica feliz para sempre. Um casamento, por mais maravilhoso que seja, um dia termina, seja pelo divórcio ou pela morte. Haverá dias de sol, mas também dias nublados. Haverá risos, mas também lágrimas em abundância.

De acordo com as fábulas, o objetivo da vida humana é a sua própria felicidade. As parábolas nos sugerem outros objetivos: o bem comum e a glória para Deus.

Enquanto as fábulas nos apresentam um mundo de fantasia, as parábolas revelam como deve funcionar o mundo sob os princípios que regem o reino de Deus.

Depois de terem ouvido Jesus contar inúmeras parábolas, sem conter a curiosidade, os discípulos o cercaram  e perguntaram: “Por que lhes falas por parábolas? Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus (...)  bem-aventurados os vossos olhos, porque veem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. Porque em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram ” (Mateus 13:10,16-17).

A noção que muitos têm do reino de Deus tem mais a ver com as fábulas do que com as parábolas de Jesus. Imaginam um reino num lugar mui, mui, mui distante, para além do sol e das estrelas. Ou, quem sabe, numa dimensão paralela. Para estes, o reino ainda não veio. Foi ofertado por Jesus durante Seu ministério terreno, porém, teve que ser adiado. Todavia, um dia ele virá de maneira estrondosa, com direitos a efeitos especiais dignos de um filme de Steven Spielberg. Nada mais distante da verdade do que isso.

Em uma de Suas parábolas, Jesus diz que “o reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo; o qual é, realmente, a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos” (Mt.13:31-32). Portanto, o reino não vem com aparência majestosa. Uma de suas principais características é a discrição. Na parábola seguinte, Ele compara o reino de Deus “ao fermento, que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado” (Mt.13:33). Portanto, o reino não se manifesta de maneira espetaculosa, mas vai se infiltrando sorrateiramente nas estruturas erigidas pelo gênio humano. 

Preferimos confundir a realidade do reino de Deus com o que seria um mundo ideal, onde as coisas sempre começassem e terminassem bem, sem choro, nem sofrimento ou morte.

O ideal do reino, porém, está mais para utopia do que para fantasia. Utopia é aquilo que nos move na direção do horizonte, ainda que a cada passo que dermos, o horizonte pareça se distanciar. Sonhamos com um mundo onde impere a justiça, a verdade e o amor. Um mundo sem guerras, pestes, exploração e violência. Todavia, este mundo com que sonhamos não deve ser esperado, mas perseguido. Ele não está em algum outro lugar. Ele está no futuro. Em vez de aguardarmos uma intervenção divina, devemos arregaçar as mangas e trabalhar como instrumentos usados por Deus na edificação do Seu reino na terra. A intervenção divina já aconteceu no momento que nos foi enviado o Seu único Filho, e posteriormente o Seu Espírito para nos habilitar ao cumprimento do Seu propósito. O futuro, portanto, precisa ser construído, ainda que, do ponto de vista de Deus ele já seja real.

A fantasia produz letargia. A utopia nos impulsiona a caminhar. A fantasia nos anestesia. A utopia nos dá um choque de realidade, sem, contudo, permitir que nos conformemos a ela.

Dentre as várias parábolas registradas nos evangelhos sinóticos, as duas mais conhecidas são, sem dúvida, a do filho pródigo e a do bom samaritano.

Proponho aqui um exercício de imaginação para revermos estas parábolas em camadas.

Na parábola primeira, o filho mais novo pede ao pai que lhe dê sua parte na herança. O pai, por ser justo, resolve repartir a herança entre ele e seu irmão mais velho. O caçula deixa sua casa e gasta tudo o que recebera com orgias e jogatina. Sem dinheiro, humilhado e tendo que trabalhar cuidando de porcos, cai em si e resolve voltar para a casa do pai e pedir-lhe uma chance. Surpreendentemente, o pai não apenas o recebe, mas promove uma festa para recepcioná-lo. O filho mais velho, enciumado, recusa-se a participar da festa. 

Se vivêssemos num mundo ideal, o irmão mais velho celebraria a volta do irmão, certo? Mas, espera aí... num mundo ideal, seu irmão jamais teria gastado tudo com mulheres e farra. Ou ainda: num mundo ideal, ele nem mesmo teria abandonado o seu pai àquela altura da vida. A propósito, por que o mais velho não se manifestou quando o caçula requereu sua parte na herança? Talvez, por ter percebido que ele também seria beneficiado, recebendo sua parte na herança. Num mundo ideal, ele chamaria seu irmão para conversar e o dissuadiria daquela loucura. Porém, o fato é que não vivemos num mundo ideal, tampouco num mundo de fantasias. No mundo real, filhos torram o que custou aos pais uma vida inteira de trabalho árduo. No mundo real, irmãos sentem inveja entre si por se acharem preteridos por seus pais. Onde o reino de Deus entra nisso tudo? Como um reino real e justo opera num mundo real e injusto?

Já que o filho mais novo requereu sua parte... Que o pai reparta com equidade entre ambos os filhos. Já que o pródigo perdeu tudo... Que ele caia em si, se arrependa de sua loucura e tome o rumo da casa do pai. Já que filho rebelde retornou arrependido... Que o pai lhe dê uma festa de recepção. Já que o filho mais velho se recusa a celebrar a volta do irmão... Que o pai vá ao seu encontro e o convença de entrar na festa. Se fosse uma fábula, a estória teria terminado com o irmão mais velho dançando ao lado do resto da família, abraçado ao pai e ao seu irmão pródigo, e, assim, foram felizes para sempre. Em vez disso, a estória termina com o pai argumento com seu primogênito. O que ele teria feito, então? Jamais saberemos. Todavia, podemos saber o que nós mesmos faremos numa situação que demande uma postura semelhante.

Na segunda parábola, um homem é assaltado e deixado semimorto à beira da estrada. Vem um sacerdote e finge não ver. Vem um levita e faz o mesmo. Até que surge um samaritano, e para surpresa de todos, não só lhe presta os primeiros socorros, como também o coloca em sua cavalgadura, leva-o para uma hospedaria, paga a conta do seu tratamento e pede que o dono não economize, caso seja necessário. Na volta, ele passaria por lá e acertaria a conta.

Num mundo ideal, o sacerdote e o levita jamais se recusariam a socorrer àquele moribundo. Num mundo ideal, os ouvintes de Jesus jamais teriam ficado surpresos com a atenção dispensada por um samaritano a um judeu naquelas condições. Não haveria preconceito num mundo ideal. Num mundo ideal, aquele homem nem sequer teria sido assaltado. Num mundo ideal, certamente não haveria assaltantes nas estradas. Mas, definitivamente, este não é um mundo ideal. Coisas ruins acontecem a qualquer um. Nem mesmo os justos estão imunes a isso.

Então... já que há assaltantes na estrada, bom seria que aquele homem não viajasse sozinho. Mas, já que viajava só e foi assaltado... Que quem quer que passe por ali, sem importar sua posição social ou seu credo religioso, pare para prestar-lhe socorro. Já que o sacerdote e o levita se recusaram a parar... Que entre em cena aquelaeque passou a vida inteira sendo alvo de bullying e chacotas por parte dos judeus, e preste o devido socorro àquela vítima sem perguntar-lhe nada.

Num mundo ideal não haveria aborto. Mas já que meninas são estupradas e no momento do desespero acabam optando pelo aborto... Que haja quem as acolha, sem condená-las. Que seu sofrimento seja atenuado.

Num mundo ideal não haveria divórcio. Mas no mundo real, há. Então, que nos habilitemos a acolher os que foram machucados por este tão dolorido processo, sem julgá-los ou discriminá-los.


Num mundo ideal todos sentiríamos atração por pessoas do outro sexo, e assim, não veríamos casais formados por indivíduos do mesmo gênero. Porém, no mundo real as coisas nem sempre são assim. Há mais homossexuais do que imaginamos, inclusive dentro das igrejas. Boa parte deles prefere manter-se no armário para não sofrer discriminação. Então, deixemos de lado nossos preconceitos idiotas e tratemos de acolhê-los com amor.

Num mundo ideal não há drogas. No real, há. Logo, qual deve ser nossa postura ante tão sério e crônico problema social?

Num mundo ideal não há cadeias superlotadas, nem mesmo criminosos para serem presos. Já que isso é coisa do mundo real, então, vamos visitá-los.

Num mundo ideal há acontecem tragédias naturais. Em nosso mundo, sim. O que é que estamos fazendo de braços cruzados? Saiamos ao encontro de suas vítimas, solidarizando-nos com a sua dor.

Num mundo ideal não há fome. No real, sim. Então, repartamos o nosso pão com os que nada têm. Deixemos de apontar o dedo acusador e estendamos as mãos, as mesmas que usualmente levantamos ao céu em adoração a Deus. 

Enquanto a vida acontece lá fora, a bela igreja segue adormecida...

terça-feira, fevereiro 14, 2017

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A Santa Anarquia do Reino de Deus



Por Hermes C. Fernandes

Nenhuma ideologia política tem sido alvo de tantos maus entendidos como o anarquismo. Para o senso comum, anarquismo ou anarquia são sinônimos de desordem, caos ou vandalismo. Foi baseado neste conceito equivocado que a profetiza norte-americana Cindy Jacobs relatou à cantora Ana Paula Valadão uma visão que teria tido com uma letra A dentro de um círculo (logo do anarquismo) que pairava sobre o Brasil, o que levou ambas à conclusão de que um “principado de anarquia” estava tomando o país de assalto, resultando em rebeliões nos presídios e o caos nas ruas do Espírito Santo devido à paralisação da política militar.

“Anarquismo” nada tem a ver com isso. Trata-se, antes, de um conjunto de princípios políticos, sociais e culturais que defende o fim de qualquer forma de hierarquia e dominação (política, econômica, social e religiosa). Em suma, os anarquistas defendem uma sociedade baseada na liberdade total, porém, responsável. O objetivo do anarquismo é superar a ordem social vigente através de um projeto construtivo fundamentado na autogestão, tendo em vista a constituição de uma sociedade libertária que tenha por base a cooperação e a ajuda mútua entre seus indivíduos livremente associados.

A própria origem etimológica do termo aponta para este conceito. “Anarquismo” deriva-se do grego anarkhos (ἀναρχος) que significa “sem governantes”.

Justamente por questionar a necessidade da autoridade,  o anarquismo tem sido visto por cristãos como incompatível com a proposta do evangelho. Afinal de contas, somos ensinados a nos submeter às autoridades constituídas, reconhecendo-as como ministros de Deus, ainda que sejam déspotas, tiranos, sanguinários.

Infelizmente, estamos habituados a ler as Escrituras com as lentes ideológicas que visam justificar o status quo. Não foi em vão que Napoleão Bonaparte disse: “Religião é uma coisa excelente para manter as pessoas comuns quietas.” Ou como bem conclui Karl Marx, “a religião é o ópio do povo.”

O que a maioria parece desconhecer é que a proposta cristã original nada tinha de religião (pelo menos, não o que hoje consideramos religião). Ela estava bem mais próxima de uma proposta revolucionária. Mas desde que se tornou numa religião estatal, o cristianismo perdeu boa parte de seu poder subversivo. O Estado apropriou-se de seu discurso e adaptou-o aos seus interesses. A mensagem do Cristo que antes fazia tremer os tronos dos poderosos, passou a justificar a sede de poder das classes dominantes.

O Cristo que emerge das páginas do Novo Testamento jamais poderia ser considerado rei nos moldes deste mundo. Ele está bem mais para um anti-rei. Seu discurso desarticula qualquer ambição de dominação.

Certa feita, Jesus flagrou um bate-boca entre seus discípulos para ver quem seria o maioral. Sua resposta foi paradigmática:

“Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores. Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve. Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve.” Lucas 22:24b-27

O que foi isso, senão um golpe desferido sobre a pretensão de se estabelecer uma hierarquia entre seus discípulos? Propositadamente, Jesus subverte a ordem baseada na autoridade imposta de cima para baixo. Em seu reino, o maior é aquele que serve à mesa, e não aquele que almeja ser servido. Ele nos introduz um novo conceito sobre o exercício da autoridade. Em vez de ser aquele que exerce controle, é aquele que exerce cuidado.

Alguém com um discurso desses teria que ser banido o quanto antes. Não eram seus milagres que preocupavam as autoridades da época, e sim o seu discurso revolucionário. O que Ele propunha não era uma insurreição contra os romanos, mas algo bem mais profundo e amplo. Um levante contra o modelo social baseado em hierarquias e controle. E a única arma que deveria ser usada para emperrar este sistema era o amor.

A natureza do reino que Ele representava era, indubitavelmente, anárquica. Ele mesmo, sendo o Rei enviado do céu, não pretendia impor-se como tal, mas apresentar-se como um servo, o menor de todos, o que se apresentava para lavar os pés dos demais.

A igreja por Ele iniciada tinha como objetivo oferecer ao mundo uma amostra grátis de como as coisas funcionam no reino de Deus. Uma comunidade formada por pessoas oriundas de todas as classes sociais, porém, niveladas pela graça. Qualquer distinção classista deveria desaparecer. Entre eles já não haveria distinção étnica, social ou mesmo sexista.

Muito antes da constituição da igreja neotestamentária, Israel experimentou um período de três séculos e meio de anarquia. Eis a prova cabal de que a utopia pode ser alcançada. Mesmo sem a presença operante do Espírito Santo iluminando as consciências (o que só ocorreria a partir de Pentecostes), as doze tribos de Israel coexistiram por 349 anos sem se submeterem à figura de um monarca.

Há um livro da Bíblia inteiramente dedicado a este período da história de Israel. Nele lemos que “naqueles dias não havia rei em Israel; porém cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos” (Juízes 21:25).

Apesar de não terem reis, as tribos se articulavam entre si sob a orientação do seu Deus que falava pelos lábios de profetas.  Com o passar do tempo, os israelitas começaram a almejar constituir uma monarquia semelhante à de outros povos da região. Bastou que um dos juízes se destacasse para que eles o vissem como um pretenso candidato ao trono. Foi assim com Gideão que se recusou bravamente a ocupar a vaga. A proposta que lhe fora feita pelo povo que acabara de libertar da exploração dos midianitas era que Gideão não apenas se fizesse rei, mas também fundasse uma dinastia. “Domina sobre nós”, disseram eles, “tanto tu, como teu filho e o filho de teu filho; porquanto nos livraste da mão dos midianitas.” Quem em sã consciência recusaria a uma oferta dessas? Pois Gideão a recusou peremptoriamente: “Sobre vós eu não dominarei, nem tampouco meu filho sobre vós dominará; o Senhor sobre vós dominará” (Juízes 8:22,23). Ele teria sido o primeiro rei de Israel, caso se dobrasse ante as reivindicações do seu povo. Mas preferiu passar a vez. Se dependesse do herói hebreu, Israel seguiria sendo uma perfeita anarquia.

Séculos mais tarde, quando o oráculo de Deus pesava sobre os ombros de Samuel que reunia o triplo ofício de profeta, sacerdote e juiz, “todos os anciãos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá, e disseram-lhe: Eis que já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora um rei sobre nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações.” Por razões óbvias, Samuel sentiu-se ofendido pela demanda popular e trouxe o assunto a Deus que lhe disse: “Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles” (1 Samuel 8:4-7).

Apesar de sentir-se preterido por seu próprio povo, Deus resolveu atender ao seu apelo. Todavia, convém salientar que a monarquia foi uma concessão divina, não significando que expressasse “a boa, perfeita e agradável vontade de Deus” para o seu povo.

Alguém poderá objetar dizendo que já era plano de Deus para que mais adiante, Davi, que era um homem segundo o seu coração, ascendesse ao trono. Fica subentendido que Saul, o primeiro rei, foi um improviso, alguém que deveria esquentar o trono para aquele que seria, de fato, a provisão de Deus, de cuja descendência viria o governante dos povos, o Filho de Deus.

Permita-me uma analogia. Digamos que a anarquia experimentada por Israel naquele longo período equivalesse ao primeiro andar de uma construção. Deus, então, resolve ceder à pressão popular, permitindo a construção de um segundo andar que seria a monarquia. Davi e sua descendência equivaleriam à escada que ligaria ambos os andares. Através dele, Deus traria ao mundo um rei diferente de todos, que abriria mão do controle pelo cuidado, do poder pelo amor.

Em outras palavras, a provisão divina é tão vasta que abarca até nossos mais desastrosos improvisos.
Porém, isso não significa que Deus tenha desistido de seu plano original. Não há plano B. As eventuais contingências no percurso não impedirão a execução de seu propósito.

Dentro do contexto do Novo Testamento, ouso afirmar que Maria, a mãe de Jesus, foi a primeira pessoa a perceber o teor subversivo da proposta de Deus para a sociedade humana. Em seu cântico conhecido como Magnificat, ela expressa eloquentemente suas expectativas anárquicas:

“A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador; porque atentou na baixeza de sua serva; pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque me fez grandes coisas o Poderoso; e santo é seu nome. E a sua misericórdia é de geração em geração sobre os que o temem. Com o seu braço agiu valorosamente; dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs dos tronos os poderosos, e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos.” Lucas 1:46-53

Depor os poderosos? Elevar os humildes? Esvaziar o bolso dos ricos? Distribuir bens para os famintos? Quem diria que a mãe de Jesus pintada pela tradição como uma figura inofensiva tivesse ideias tão revolucionárias e ideais tão libertários? Que educação ela não teria dado a Jesus, hein? Que tipos de valores ela não lhe teria passado?

Por incrível que pareça, este tipo de ideário perpassa todo o Novo Testamento. Dos Evangelhos sinóticos a Apocalipse.

Foi justamente este ideário subversivo e anárquico que bancou a postura dos apóstolos diante das ameaças recebidas da casta sacerdotal. Expressamente proibidos de ensinarem em nome de Jesus, Pedro e os demais responderam às maiores autoridades religiosas de seu tempo: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29). O que repesentaria tal postura senão desobediência civil? A mesma pregada por Martin Luther King Jr, Mahatma Gandhi, Mandela, Leon Tolstói e tantos outros.

Nenhuma autoridade, por mais legítima que seja, tem a palavra final. Suas ordens devem passar pelo crivo da consciência. A submissão requerida nas Escrituras, sobretudo nas epístolas de Paulo e de Pedro, não pode ser confundida com subserviência (falaremos mais sobre isso num próximo post). Recuso-me a crer que Deus requeresse que obedecêssemos cegamente a alguém, violando nossa consciência em nome de um capricho qualquer.

Embora creiamos que as autoridades constituídas servem a um propósito divino, não atribuímos a elas inerrância, infalibilidade, tampouco vitaliciedade. Toda autoridade tem escopo e prazo de validade. Nenhuma autoridade pode extrapolar as bordas da sua esfera de atuação, nem o prazo estabelecido para o seu exercício.

O mesmo apóstolo que nos advertiu a que nos submetêssemos às autoridades, afirmou que agora mesmo os poderosos deste mundo “estão sendo reduzidos a nada” (1 Coríntios 2:6). O Cristo de Deus é aquele em cuja mão há um cetro de ferro com o qual está quebrando toda estrutura de poder. O anúncio da boa nova do reino é seguido pela denúncia das estruturas hierárquicas que visam manter os homens num cativeiro. E não imagine que a revolução virá de cima para baixo. Pelo contrário. Ela acontece de baixo para cima. Não se trata de uma intervenção apoteótica, mas de uma insurreição pacífica, motivada exclusivamente por amor.

A igreja é convocada a participar de uma conspiração divina que visa depor os poderosos e elevar os humildes, estabelecendo assim a anarquia do reino de Deus. Somos, por assim dizer, a ferramenta pretendida por Deus para emperrar a máquina, sabotar o sistema de dominação, opressão e exploração.

É a isso que Paulo alude no primeiro capítulo de sua primeira epístola aos Coríntios:

 “Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele.” 1 Coríntios 1:26-29

Por isso, a igreja precisa caminhar par a par com os movimentos sociais, identificando-se com seus clamores e aspirações. Em vez disso, temos nos alinhado aos poderosos, sem perceber que assim, estamos nos insurgindo contra o projeto do reino de Deus.

O último capítulo da história já foi escrito. Paulo nos oferece um irresistível spoiler:

“Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder. Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés.” 1 Coríntios 15:24,25

Não se trata do fim do mundo, mas da conclusão do processo histórico. Todas as estruturas de poder terão sido demolidas. A mensagem libertária do evangelho terá sido espalhada por todo o tecido social, gerando uma nova consciência que resultará no apogeu do processo civilizatório, em que governos se tornarão obsoletos.  Seremos, então, governados pela consciência iluminada pelo Espírito de Cristo. Cumprir-se-á a última pincelada profética de Paulo: Quando todas as estruturas de poder houverem se sujeitado a Cristo,  então, Ele mesmo “se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos” (1 Coríntios 15:28). Haveria um desfecho melhor que esse? Deus será tudo em todos! Nada de hierarquias! Nada de governantes! Não mais nações divididas por fronteiras! Não mais a hegemonia do capital! Nada de exploração! Nada de opressão! Apenas Deus sendo tudo em todos.  Seja bem-vindo à santa anarquia do reino de Deus.


Na próxima semana, abordaremos Romanos 13 à luz do que expusemos até agora. 

Segue abaixo a palestra que dei recentemente sobre o tema em questão. Acho que vale a pena dar uma conferida.

domingo, fevereiro 01, 2015

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A sublime semente da subversão



Por Hermes C. Fernandes

Como não se surpreender com Jesus? Até a maneira como Ele revela o modus operandi do Seu reino nos causa admiração. Pena que quase dois mil anos depois, os que se identificam como Seus discípulos parecem não terem entendido a natureza do reino de Deus.

De um lado, estão os que acreditam que o reino é um evento futuro, que teve que ser adiado quando os patrícios de Jesus recusaram Sua oferta. Do outro lado, estão os que creem que o reino deva se estabelecido na história através de mecanismos legais. Estes são, geralmente, chamados de teonomistas. Acreditam que por força da lei, o pecado será restringido e a justiça do reino será estabelecida na terra. Bastaria que o decálogo fosse a base da constituição de todas as nações e, pronto, o mundo seria transformado. Como esperar que homens inconversos produzam leis justas? Ou ainda: como esperar que leis justas convertam homens maus? A restauração do mundo deve começar pelo ambiente do coração humano, onde Deus prometeu gravar as Suas leis (Hb.8:10).

Entre um grupo e outro, estão os que perceberam o caráter subversivo do reino de Deus.  Ele não vem por meios legais, mas, em certo sentido, por meios considerados marginais.  Ele não virá de maneira espalhafatosa como fantasiam alguns, como no filme Independence Day de Spielberg. Tampouco se manifestará através de canetadas nos palácios de governo. Mas de maneira sorrateira, discreta, quase imperceptível, ele vai se infiltrando no tecido social, transformando mentes e corações, levando cativos todos os pensamentos à obediência de Cristo. 

Paulo seguiu à risca esta cartilha. Jamais o veremos promovendo o boicote de instituições contrárias à justiça do reino de Deus. Mesmo vivendo numa sociedade escravagista, poligâmica, onde a pedofilia era incentivada pelo Estado, nem ele ou algum outro apóstolo foi para as ruas em protesto contra tais práticas. Todavia, em cada epístola, Paulo deixou cair sementes que eventualmente eclodiriam. Ao dizer que em Cristo não há mais macho ou fêmea, escravo ou livre, grego ou judeu, o apóstolo enterrava minas no terreno, que em algum momento explodiriam e derrubariam as fortalezas da discriminação e do preconceito. Demorou séculos até que uma dessas minas explodiu e fez ruir o regime escravocrata no mundo. Mais tarde, outra dessas minas explodiria fazendo com que a mulher conquistasse seu espaço no mercado de trabalho, bem como seu direito a voto. Creio que ainda haja minas que a qualquer momento explodirão e que nos farão lembrar que não é por força, nem por violência, mas exclusivamente pela ação do Espírito Santo (Zc.4:6), convencendo o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo.16:8).

As parábolas de Jesus tinham como objetivo explicar os mecanismos subversivos usados na instalação do reino de Deus entre os homens. Uma das mais significantes é conhecida como a parábola do semeador. Prefiro chamá-la de “a parábola do semeador pródigo”.

O semeador em questão é ninguém menos que o próprio Cristo. Porém, considerando o fato de sermos o Seu Corpo Místico, podemos identificá-lo igualmente com cada cristão infiltrado nas engrenagens deste mundo.

Nosso principal papel não é alardear, mas apenas semear. Nada mais subversivo que isso. Sementes não chamam a atenção para si. Porém, têm um potencial infinito. Cada semente poderá produzir novas plantas que por sua vez produzirão inúmeros frutos, que por sua vez produzirão ainda mais sementes e o ciclo se retroalimentará ad infinitum. Pode-se contar quantas sementes há num fruto, mas não se pode contar quantos frutos produzirá uma única semente.

Cada agente do reino é um semeador de sonhos. Por onde ele passa, sempre fica um rastro de sementes que parecem ter caído acidentalmente, mas que, no fundo, foram deixadas propositadamente.

Jesus diz que “uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves, e comeram-na”(Mt.13:4). Na explicação particular que dá aos discípulos, “o que foi semeado à beira do caminho” é aquele que ouvindo “a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração” (v.19).

É, no mínimo, curioso que Jesus tenha começado Sua exposição falando sobre os que vivem à beira do caminho. Estes são os excluídos e marginalizados pela sociedade. São os que comem das migalhas que caem da mesa dos poderosos. Quem os colocou nesta condição? Quem os empurrou para a margem? Ainda que esta parte da semente não tenha resultado em colheita, não foi em vão que Jesus a destinou justamente aos da beira do caminho. E se a semente não vingou, não foi por culpa deles. Foi o maligno que arrebatou o que fora semeado em seu coração. O fato de viverem à margem, tornou-os vulneráveis à atuação dessas aves de rapina. Porém, para toda regra há exceções. O mendigo Bartimeu é uma delas. Embora cego, viu o que muitos não conseguiram ver e não hesitou em clamar pelo Filho de Davi, e ao ser atendido, recobrou a visão. Qual seria o instrumento de que o maligno se valeria para devorar as sementes lançadas no coração dos que estão à beira do caminho? Estou cada vez mais convencido de que seja todo tipo de preconceito, semelhante ao que levou os discípulos a pedirem que Bartimeu se calasse, alegando que estaria incomodando o Mestre. É lamentável notar que os próprios cristãos têm se prestado a este papel, entrincheirando-se contra alguns segmentos em nome da moral e dos bons costumes. Se esquecem de que quem precisa de médico não são os sãos. A ordem de Jesus aos Seus discípulos foi "tragam-no a mim!" Portanto, devemos tirá-los das margens e trazê-los para o nosso meio, onde receberão amor, carinho, respeito, e terão seus clamores atendidos por Jesus. 

Como aquele semeador, devemos ser pródigos com as sementes que nos foram confiadas. Não há qualquer razão para economizar. Sempre haverá quem se beneficie delas, principalmente entre os considerados párias da sociedade. Todavia, enquanto semeamos, trabalhemos para removê-las da indigência. Partilhemos com elas o nosso pão. Promovamos ações que melhorem suas condições de vida. Eduquemos seus filhos. Acolhamos os desterrados. Defendamos os direitos das minorias. Se lograrmos removê-las da beira do caminho, provavelmente haverá maior chance da semente vingar.

Na sequência da parábola, Jesus diz que “outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda; mas, vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz” (vv.5-6). Na explicação subsequente, Jesus diz que “o que foi semeado em terreno pedregoso é o que ouve a palavra, e a recebe imediatamente, com alegria. Mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração. Chegada a angústia e a perseguição por causa da palavra, logo a abandona” (vv.20-21).

Eis a razão porque cresce assustadoramente o número de desigrejados. O coração de muitos tem estado endurecido, de modo que a semente, ainda que germine, não consegue lançar raízes. O solo não tem profundidade. O que estaria por trás deste estado de petrificação dos corações? Talvez, parte do problema se deva à decepção que muitos têm tido com a igreja. Foi-se o tempo em que o solo dos corações era virgem, por isso, sempre receptivo à Palavra. Mas hoje, dificilmente encontramos alguém que já não tenha tido alguma experiência com a igreja. O solo foi tão explorado que se tornou infértil e duro. Não basta, portanto, lançar a semente. O solo precisa ser revirado, afofado, irrigado e fertilizado, para que a semente encontre o ambiente propício para germinar. Alguns necessitam passar por uma desintoxicação eclesiástica para voltarem a acreditar. Se a semente não se aprofundar no solo, ficará exposta ao sol e fatalmente secará. Apesar disso, ela não perde sua validade. Li, recentemente, que cientistas teriam semeado uma semente com seiscentos anos, e ela, surpreendentemente eclodiu.

Compreendo perfeitamente o drama dos desigrejados. Porém, devo salientar a necessidade que todos temos de congregar, de criar raízes, de construir relacionamentos fortes, de nos alimentar espiritualmente. Se o próprio Deus não desistiu da igreja, por que nós desistiríamos? Não me refiro à instituição, mas à comunhão dos santos. Não deixe que a alegria semeada em seu coração seja suplantada pela decepção com os homens.

A terceira parte das sementes “caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na” (v.7).  Segundo Jesus, “o que foi semeado entre espinhos é o que ouve a palavra, mas as preocupações deste mundo e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e ela fica infrutífera” (v.22).

Pergunto: quem andou semeando espinhos por aí? Estes espinhos não podem ter surgido do nada. Estou convencido de que em nossos dias, ninguém tem cultivado tantos espinhos no coração das pessoas do que os adeptos da teologia da prosperidade. Cobiça, inveja, avareza, são algumas das manifestações destes cardos que sufocam a boa semente do reino de Deus. Infelizmente, há uma enorme clientela para este engodo que se faz passar por evangelho. Esquece-se que a marca registrada de um discípulo de Jesus não é a prosperidade, mas a generosidade. A proposta do reino nada tem a ver com concentração de riquezas, e sim com a sua justa distribuição. Urge, portanto, denunciar e remover tais espinhos para que semente seja arejada e frutifique.

A última parte das sementes “caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a trinta” (v8). Este “é o que ouve a palavra e a compreende” (v.23). Sem que a palavra seja devidamente compreendida, por melhor que seja a qualidade da semente, não vingará. Há, aqui, um sinergismo que não podemos ignorar. Semente boa em solo ruim não pode resultar em colheita. Semente ruim em solo bom, idem.  Mas semente boa em solo bom produz além das expectativas.

Nosso papel, portanto, é de revirar o solo, adubá-lo, irrigá-lo, remover os espinhos, e garantir que a semente não se perca. 

segunda-feira, maio 19, 2014

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A justiça começa em casa... na cama!



Por Hermes C. Fernandes

A justiça começa em casa! Cresci ouvindo isso dos lábios de meu pai. Nossa família deveria ser modelo para as demais famílias da igreja. Ser filho de pastor não era apenas um privilégio, mas uma responsabilidade. Deus tem interesse de que a justiça do Seu reino seja implantada neste mundo,e que Sua vontade seja feita aqui na terra como no céu. Porém, há um caminho que esta justiça tem que percorrer até que o mundo seja inteiramente tomado por ela. Este caminho tem vários estágios, e os primeiros deles passam pela família.

Resumindo, a justiça começa sua jornada em casa, nos relacionamentos familiares, depois adentra a igreja, e desta para as nações.

Usando a metáfora bíblica, a justiça é como um rio, cuja nascente é o coração de Deus, que jorra inicialmente no coração do homem que se torna nova criatura, afetando todos os seus relacionamentos, a começar pelos familiares. “Corra, porém, a justiça como as águas, e a retidão como ribeiro perene” (Amós 5:24). À medida em que este rio avança, sua calha fica mais profunda e larga (Ez.47).

Muitos cristãos sinceros aguardam por uma intervenção divina que porá fim às injustiças no mundo. Porém, esta intervenção já se deu, quando fomos visitados pelo “sol da justiça” (Ml.4:2; Lc.1:78-79).

Se quisermos compreender a trajetória da justiça do Reino na História, até o seu estabelecimento pleno, basta investigarmos a trajetória feita pelo sol. O astro rei nasce no Oriente, discretamente, e aos poucos, seus raios vão dissipando as trevas, até que seja dia perfeito. Deus Se compromete através dos lábios de Malaquias: “Desde o nascente do sol até o poente o meu nome será grande entre as nações” (Ml.1:11a). Não significa que o sol da justiça irá se pôr um dia, mas que a justiça de Deus abarcará toda a extensão da terra, do Oriente ao Ocidente. Cristo é o Sol da Justiça, e veio ao mundo discretamente, nascendo num lar pobre do Oriente Médio.

É no contexto familiar que a justiça encontra seu berço. Toda a injustiça prevalecente no mundo, e que tanto nos enoja, parte do ambiente doméstico. É ali que ela é engendrada.

O político corrupto, o traficante sanguinário, o empresário ganancioso, são todos frutos da mesma árvore. Se não estancarmos esta hemorragia moral e ética, a sociedade humana perderá totalmente seu brio.

Jamais lograremos mudar as instituições, se não começarmos esta mudança pela mãe de todas elas, a família.
Portanto, é correto o adágio que diz que a justiça começa em casa.

Poderíamos localizar com mais precisão o lugar de onde ela deveria jorrar? Em que lugar da casa a justiça deveria ter seu ponto de partida? Eu diria, sem medo errar: a justiça começa na cama. Antes de justificar o que acabo de afirmar, permita-me uma rápida digressão.

O que é justiça, afinal? Qual o conceito bíblico de justiça? Justiça é dar a cada um o que lhe é de direito. Paulo nos apresenta este conceito na passagem em que fala de nossa relação com as autoridades constituídas:
“Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra” (Rm.13:7).
Quando se fala de tributos e impostos, o foco recai em nossa relação com o Estado. Sonegar equivaleria a privar o Estado de algo que lhe é de direito. Portanto, trata-se de uma injustiça. Quando se fala de temor, o escopo é mais abrangente, e se estende à nossa relação com Deus. Deixar de temê-lO também é um ato de injustiça.

Em Apocalipse encontramos um dos mais lindos hinos já compostos:

“Grandes e maravilhosas são as tuas obras, ó Senhor Deus Todo-poderoso. Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos séculos. Quem não te temerá, ó Senhor, e não glorificará o teu nome? Pois só tu és santo. Todas as nações virão, e se prostrarão diante de ti, pois os teus juízos são manifestos” (Ap.15:3b-4).

Quando a justiça de Deus encher toda a terra, todo homem O temerá, todo joelho se dobrará e toda língua confessará Sua soberania. Ele finalmente será temido em todas as nações.

Deixando um pouco o Apocalipse, voltemos pra cama do casal…

Paulo fala de tributos, impostos, temor e… honra! E o que isso tem a ver com a cama?

Leia o que diz o escritor sagrado acerca da cama do casal:
“Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula, pois aos devassos e adúlteros Deus os julgará” (Hb.13:4).
O tradutor usa a palavra “leito”, que é sinônimo de “cama”; talvez por ser uma palavra mais elegante. Porém, o texto original usa o vocábulo grego “koité”, de onde vem a palavra “coito”. Portanto, tanto o matrimônio quanto o coito (o ato sexual em si) devem ser igualmente honrados.

É aí que começa o percurso da justiça no mundo, até alcançar as nações. Parece bobagem? Mas não é!

Nossa sociedade tem transformado o sexo numa coisa suja, banalizando-o, coisificando-o. Rita Lee retrata isso em uma de suas composições, em que diz que o amor é cristão, mas o sexo é pagão.

A pornografia nada mais é do que a vulgarização de algo sagrado, a perversão da justiça.

Como deixamos de honrar o matrimônio e o ato sexual?

Deixemos que Paulo nos diga:
“O marido pague à mulher o que lhe é devido, e da mesma sorte a mulher ao marido. A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no o marido. Do mesmo modo o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no a mulher. Não vos defraudeis um ao outra, senão por consentimento mútuo por algum tempo, para vos aplicardes à oração. Depois ajuntai-vos outra vez, para que Satanás não vos tente por causa da incontinência” (1 Co.7:3-5).
Pode parecer que Paulo esteja sendo rude. Como reduzir a relação sexual a um pagamento? Porém, não é esta a intenção do apóstolo. Ele está pensando em termos de justiça, o que implica em deveres e direitos.

Não me venha com essa de que Paulo era machista. Tanto o homem quanto a mulher tem os mesmos direitos e deveres. O corpo do homem já não lhe pertence mais. Tão-pouco o corpo da mulher.

Imaginemos a cama como um altar. Ela não apenas tem a forma de uma altar (lugar alto, acima do nível do chão, em formato retangular), como também o que ali é feito (além de dormir, é claro…) tem o caráter de oferta.

Assim como devemos oferecer nossos corpos em sacrifício santo e agradável a Deus (Rm.12:1), devemos também oferecer nossos corpos em oferta de amor ao nosso cônjuge.

Nosso corpo é um direito que nosso cônjuge tem. Nosso dever é mantê-lo disponível. E isso vale para os dois. Privar o outro disso equivale a defraudar, isto é, cometer uma injustiça. A única excessão à regra é quando um dos cônjuges pretende dedicar-se por um tempo à oração. Mesmo assim, tem que ter o aval do outro. E tão logo termine o período de oração, devem disponibilizar-se mutuamente. E isso, segundo Paulo, para que Satanás não se aproveite de nossa fraqueza.

Engana-se quem pensa que Paulo legislou em causa própria, pois sequer era casado. Muito antes dele, o sábio Salomão escreveu:
“Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de vida da tua vaidade, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade. Porque esta é a tua porção nesta vida, e do teu trabalho, que tu fazes debaixo do sol” (Ec.9:9).
Nossa porção está nas mãos de quem amamos. Ninguém tem o direito de reter a porção pertencente ao outro. E se possível (caso haja disposição pra isso), todos os dias de sua vaidade. rs

Claro que ninguém é de ferro. Porém, o casal deve buscar manter certa sincronia, em que o desejo de um coincida com o desejo do outro. Isso será conquistado à medida que estreitarem sua comunhão e intimidade. Quanto mais conhecemos a pessoa amada, mais nos adequamos a ela.

Uma vida sexual descompensada nos afeta em todas as áreas, inclusive nosso relacionamento com Deus e com os demais.

Veja o que Pedro diz:
“Igualmente, vós, maridos, vivei com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais frágil, e como sendo elas herdeiras convosco da graça da vida, para que não sejam impedidas as vossas orações” (1 Pe.3:7).
Deus Se recusa a ouvir e atender a oração de maridos que abusem da fragilidade de suas esposas. Não há maior castigo do que este. Em matéria de sexo, a mulher é a parte mais frágil e vulnerável. Portanto, cabe a ela a honra de estabelecer quais são os limites a serem respeitados pelo marido.

Nesta questão, a mulher deve ter primazia. Este princípio pode ser observado em outra passagem, em que Paulo fala do relacionamento entre os membros do Corpo de Cristo: “Antes, os membros do corpo que parecem ser mais fracos, são necessários, e os que nos parecem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais…” (1 Co.12:22-23a).

Se alguém me pergunta o que vale e o que não vale entre quatro paredes, minha resposta é: pergunte à sua mulher. O problema é que muitos não sabem respeitar e honra seus próprios corpos, como poderão respeitar e honrar o corpo de seu cônjuge?

A recomendação de Paulo é clara:
“Que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra; não no desejo da lascívia, como os gentios, que não conhecem a Deus; e que, nesta matéria, ninguém oprima ou engane a seu irmão. O Senhor é vingador de todas estas coisas, como também antes vo-lo dissemos e testificamos” (1 Ts.4:4-6).
Ninguém tem o direito de transformar o sexo numa arma para dominar o outro a seu bel-prazer. Nem usá-lo como chantagem para tirar do outro o que quiser.

É lógico que entre o casal deve haver desejo, cumplicidade, ou como diriam alguns, tesão. O que Paulo chama de lascívia é o que hoje chamaríamos de tara, perversão. Nossas fantasias sexuais devem manter-se no terreno da sanidade.

O homem tem que entender que sua mulher, além de mãe dos seus filhos, é herdeira da mesma graça da vida. Não é um objeto, uma atriz pornô ou uma garota de programa. Por isso, seus escrúpulos têm que ser considerados, e seus limites respeitados.

Só pode haver uma entrega total onde haja confiança total. Parafraseando o salmista, “entregue seu corpo ao seu cônjuge, confia nele, e o mais ele fará…” Porém, confiança se conquista com o tempo. Mulheres que sofreram abusos de seus maridos, terão dificuldade em voltar a confiar. Estarão sempre com um pé atrás.

A mulher necessita sentir-se amada, e não usada. Já o homem necessita sentir-se desejado, e não apenas estimado. Se ambos compreenderem os desejos e os limites do outro, tudo fluirá sem dificuldade.

Em vez de encarar a relação sexual apenas como um dever, que tal encará-la como um direito a ser usufruído e compartilhado com quem se ama?

segunda-feira, outubro 28, 2013

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O Horário de Verão e o Reino de Deus

Hermes C. Fernandes

O Horário de Verão foi instituído pela primeira vez no Brasil no verão de 1931/1932. O período 2002/2003 correspondeu à 29ª vez de implantação do sistema no Brasil, sendo que desde 1985 esse horário especial ocorre todos os anos, somando 18 vezes consecutivas. O principal objetivo da implantação do Horário de Verão é o melhor aproveitamento da luz natural ao entardecer, o que proporciona substancial redução na geração da energia elétrica que se destina à iluminação artificial.  

Desde que cheguei aqui nos Estados Unidos, tenho participado ao vivo, via satélite, de algumas reuniões em nossa igreja no Brasil. Através do sistema que implantamos, tanto posso ver os irmãos, quanto sou visto por eles. Até Santa Ceia servimos através do Skype. Enquanto partimos o pão aqui com minha família, concomitantemente é partido o pão em nossa igreja. Uma experiência inédita para nós.

Durante quase o ano inteiro a diferença de horário entre os Estados Unidos e o Brasil é de apenas uma hora. Mas quando chega o horário de verão... a diferença passa a ser de três horas. E isso porque, enquanto os relógios no Brasil avançam uma hora, os daqui recuam uma hora. Por conta disso, temos que acordar muito mais cedo para participar do culto de Santa Ceia. Lá são 8h. da manhã, e aqui são 5h. Lá está claro, e aqui ainda escuro.

Da outra vez que morei aqui nos Estados Unidos, eu tinha que voltar ao Brasil a cada mês, e isso me trouxe muitos problemas. Os comissários de bordo chamam de Jet lag o efeito causado no organismo humano pela diferença de fuso horário. Pessoas que viajam constantemente sabem do que estou falando. Temos um relógio biológico em nosso corpo, que se adequa ao nosso fuso local. Quando trocamos esse fuso regularmente, nosso relógio biológico fica desequilibrado, e a gente começa a trocar a noite pelo dia, e vice-versa. E eu exatamente o que é isso. Já passei muitas noites acordado por causa do Jet lag.

Não haveria também uma espécie de fuso horário distinto entre o Reino de Deus e o resto do mundo?

Ora, sabemos pelas Escrituras, que quando abraçamos a fé em Jesus, fomos “arrebatados do império das trevas, e transportados para o Reino” (Cl.1:13). Portanto, fomos introduzidos em uma nova realidade, em um novo território (ainda que espiritual!). Nada mais coerente do que supor que essa nova realidade tenha seu próprio fuso horário.

Dada a rotação da Terra, o Sol aparece primeiro no Oriente. Por isso, a Austrália comemora a chegada do Ano Novo algumas horas antes de nós.

Como Igreja de Cristo, somos a Nação Santa, a Nova Jerusalém, lugar onde se vê primeiro o raiar do Novo Dia. É para nós, que tememos o nome do Senhor, que nasce “o sol da justiça, trazendo salvação debaixo das suas asas” (Ml.4:2).

Ainda que o Mundo esteja mergulhado nas densas trevas de uma noite que pareça eterna, para nós o dia já raiou:

“Levanta-te, resplandece, pois já vem a tua luz, e a glória do Senhor vai nascendo sobre ti. As trevas cobrem a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti o Senhor vem surgindo, e a sua glória se vê sobre ti. As nações caminharão à tua luz, e os reis ao resplendor que te nasceu” (Is.60:1-3).

E mais: somos informados que este Sol que acaba de nascer, jamais se porá. Portanto, o novo dia que raiou vai durar para sempre.

“Nunca mais se porá o teu sol (...) O Senhor será a tua luz perpétua” (Is.60:20).

Porém a Terra não pára de girar. O novo dia que surgiu para nós, há de raiar para todas as nações do Globo.

Para nós, que vivemos no fuso horário do Reino de Deus, Paulo escreve:

“A noite é passada, e o dia é chegado. Rejeitemos, pois, as obras das trevas e vistamo-nos das armas da luz” (Rm.13:12).

É hora de aposentarmos nossos pijamas, e despertarmos para vivermos o novo dia, o hoje eterno.

E esse novo dia começou quando Cristo rendeu Seu espírito na Cruz, dizendo: Está consumado. O velho aión (era) teve seu fatídico fim.

As trevas encontraram o seu apogeu. No relógio profético, a Cruz se deu à meia-noite. Por isso Jesus afirmou ao ser preso: “Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas” (Lc.22:53).

A partir da Cruz, começa o novo dia, o Dia do Senhor.

Portanto, a tendência é que as coisas clareiem, em vez de escurecerem. Em outras palavras, o mundo caminha para a restauração, e não para a destruição, como insistem alguns.

Quando começa um novo dia? Não é no primeiro segundo após a meia -noite? Entretanto, a noite continua tão escura quanto antes. Porém, a partir daí, gradativamente, as trevas vão cedendo à luz. Ainda que os olhos não percebam, dado o caráter paulatino com que o dia vai clareando. As horas que se seguem testemunham o embate entre as trevas e a luz. Invariavelmente, as trevas são vencidas.

“A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram sobre ela” (Jo.1:5).

Horas depois, surge no horizonte a estrela da manhã, anunciando que a qualquer momento, os primeiros raios solares serão vistos.

Não é debalde que Jesus Se apresenta nas páginas de Apocalipse como a Estrela da Manhã (Ap.22:16).

Sempre que o Evangelho chega a novos rincões, Jesus Se apresenta ali como a estrela matutina.

A Igreja dos dias de João presenciou a alvorada do novo dia. Por isso João, o mesmo autor de Apocalipse, escreveu em sua epístola:

“...as trevas vão passando, e já brilha a verdadeira luz” (1 Jo.2:8b).

Em breve, a luz do Evangelho terá alcançado todos os povos, e o novo dia alcançará o seu apogeu. Todas as nações se renderão à Cristo, Luz do Novo Dia. “Todos os confins da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor; todas as famílias das nações adorarão perante ele” (Sl.22:27).

Ser reinista é crer piamente que a História terá um desfecho glorioso, e que a Igreja de Cristo cumprirá a sua missão de discipular as nações.

Cumprir-se-á o que diz o sábio Salomão:

"A vereda dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito" (Pv.4:18).

Em outras palavras, o bem triunfará. As trevas serão totalmente dissipadas. A verdade e o amor prevalecerão. E aí... será dia perfeito!

Apesar de já vivermos a alvorada deste novo dia, há muitos que ainda dormem, sob o efeito de um Jet lag espiritual.

Para estes, vale a advertência apostólica, que diz: "Todos vós sois filhos da luz, e filhos do dia. Nós não somos da noite, nem das trevas. Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos, e sejamos sóbrios. Pois os que dormem, dormem de noite, e os que se embriagam, embriagam-se de noite. Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios..." (1 Ts.5:5-8a).

Lembre-se: Fomos arrebatados das trevas para luz. Pertencemos a uma outra ordem. Não podemos cede a este Jet lag, vivendo como se ainda estivéssemos no mundo. Estamos assentados nas regiões celestiais em Cristo Jesus, e portanto, reinando com Ele. E para aqueles que insistem em dormir, Paulo vocifera:

"Desperta, ó tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará" (Ef.5:14).

Triiiiiimmmmmmm! Hora de acordar!