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quarta-feira, fevereiro 15, 2017

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Vamos falar de apropriação cultural?



Por Hermes C. Fernandes

Uma jovem branca que usava um turbante teria sido abordada por uma negra que a acusou de apropriação cultural. O que uma branca estaria fazendo com um adorno africano? De acordo com seu relato, o uso do turbante se devia ao tratamento de quimioterapia que ocasionara a queda de seus cabelos. Bastou que o episódio chegasse às redes sociais para que viralizasse, tornando a “apropriação cultural” no assunto do momento, provocando muito bate-boca e discussões infindáveis.

O verbo “apropriar” significa tomar para si. “Apropriação cultural” é um conceito da antropologia que se refere a adoção de elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. O conceito passa por uma reflexão política, e possui conotação negativa, especialmente quando a cultura de um grupo que foi oprimido é adotada por um grupo de uma cultura dominante. Pode incluir a introdução de formas de vestir ou adorno pessoal, música, arte, língua ou comportamento social. Estes elementos, uma vez removidos de seus contextos culturais, podem assumir significados diametralmente divergentes dos originais, ou simplesmente menos significativos. 

Cada cultura deve ser vista como um universo de símbolos, frutos de experiências humanas dentro de um contexto particular. Um turbante, por exemplo, carrega significados mais complexos e profundos do que simplesmente ser um adorno. Bem da verdade, por muito tempo, foi visto de forma pejorativa, considerado “coisa de macumbeiro”. Ao usá-lo, o negro não o toma apenas como um elemento estético, mas, sobretudo, como um símbolo de resistência, afirmação e orgulho de suas raízes. Não que haja qualquer problema em um branco resolver usá-lo. Vivemos numa sociedade teoricamente livre, onde cada um opta pelo que bem lhe convém. Porém, antes de usá-lo, deve considerar a questão ética acima da estética. Como sua postura será interpretada pelos que atribuem ao adorno um significado de resistência? Até que ponto seu uso por indivíduos pertencentes à etnia dominante não esvaziará seu significado original, banalizando-o, transformando-o em mais um item da moda?

Recentemente, o mundo fashion se apropriou dos turbantes com estampas étnicas. Modelos brancas posam para editoriais de revistas de moda. Ao ser adotado por uma determinada elite, o turbante passa a ser visto como estiloso. A propósito, por que não usaram modelos negras? Seria, no mínimo, mais digno.

Quando um símbolo de um povo marginalizado é tomado pela classe dominante, ele se esvazia de seu sentido. Trata-se de um processo que envolve privilégios, desigualdade e desrespeito. Mesmo que a intenção seja outra, como por exemplo, elogiar aspectos estéticos de uma cultura. A reapropriação de símbolos da cultura africana por negros do mundo inteiro deve ser encarada como um ato legítimo de afirmação de identidade, sobrevivência, empoderamento e resistência histórica. Não é o simples ato de usar um turbante ou outro adorno qualquer que ofende alguns grupos, mas o fato de usá-lo sem a devida consciência de seu valor simbólico. De onde teria vindo aquele artefato?

Que história ele conta? O que representa? A ofensa se agrava quando um símbolo é usado para fins econômicos e que não resultem em qualquer benefício para a comunidade de origem. Tomei o turbante como exemplo, mas isso se aplica igualmente à música, às tradições, etc.

Há uma passagem bíblica que exemplifica uma situação de apropriação cultural. Trata-se de um salmo composto durante o tempo em que os judeus estavam no exílio babilônico.
“Junto aos rios da Babilônia, ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião. Sobre os salgueiros que há no meio dela, penduramos as nossas harpas. Pois lá aqueles que nos levaram cativos nos pediam uma canção; e os que nos destruíram, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos uma das canções de Sião. Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha? Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, esqueça-se a minha direita da sua destreza. Se me não lembrar de ti, apegue-se-me a língua ao meu paladar; se não preferir Jerusalém à minha maior alegria.” Salmos 137:1-6
Os mesmos babilônios que os mantinham em cativeiro, agora pediam que os entretivessem com os cânticos que eram entoados em sua terra natal. O que fizeram os judeus? Penduraram suas harpas. Recusaram-se a divertir seus algozes. Pode até parecer uma coisa banal, mas o que estava em jogo era sua identidade étnica.

Quando se diz que em Cristo se acabam as distinções étnicas, sociais e sexistas, não significa que a diversidade cultural deva ceder à uniformidade (Gl.3:28). O que o evangelho faz é nivelar todos os povos e suas respectivas culturas. Mas jamais foi seu propósito dissolvê-las, descaracterizá-las, eliminá-las. Não há lugar para etnocentrismo no reino de Deus. Portanto, a produção cultural de um povo deve ser preservada, pois se constitui no que as Escrituras chamam de “as riquezas das nações”, destinadas a serem introduzidas na nova sociedade criada em Cristo (Is.60:11).

Vejo com muita reserva a apropriação cultural de elementos judaicos por parte das igrejas cristãs. Festas judaicas sendo celebradas completamente fora de seus contextos. Apetrechos e elementos cúlticos surrupiados. Danças folclóricas que remontam a diáspora judaica pelo leste europeu adotadas como se fossem provenientes dos tempos bíblicos. Será que alguém se deu o trabalho de perguntar a um rabino judeu o que acha de tal apropriação?

Em momento algum fiz apologia de qualquer tipo de segregação. A cultura é dinâmica. Ela invariavelmente se mescla a outras, produzindo sínteses culturais. O que não se pode é reduzir símbolos caros a uma tradição em meros bens de consumo, artigos da moda para serem ostentados por classe dominante alheia ao sofrimento do povo que os produziu.

quarta-feira, junho 15, 2016

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Gays, negros e deficientes e a maldição dos deuses



Por Hermes C. Fernandes

Em algumas sociedades antigas como a Grécia, crianças portadoras de deficiências físicas eram sacrificadas assim que nasciam. Havia uma razão prática para isso e uma justificativa religiosa. De acordo com a sua crença, os deuses só teriam criado pessoas perfeitas, e, portanto, somente estas mereciam viver. Acreditava-se que tais crianças eram aberrações, seres amaldiçoados. Matá-las era prestar um serviço aos deuses. Pelo menos, era assim que eles apaziguavam sua consciência depois de assassinarem seus próprios filhos. Porém, a razão verdadeira e nem sempre confessada era que deixá-las viver traria prejuízo à sociedade, já que não seriam produtivas, não poderiam lutar numa guerra, e ainda por cima, atrapalhariam os demais numa eventual fuga. Assim, tais seres indefesos eram vistos como um peso extra do qual deveriam se livrar o quanto antes. Poupá-las colocaria em risco a sobrevivência dos demais. Portanto, em nome do bem comum, da manutenção da ordem, só lhes restava uma coisa a fazer: eliminá-las.

Durante séculos convivemos com a vergonha da escravidão. Certas etnias se achavam no direito de escravizar a outras, usando suas crenças como justificativas. Brancos afirmavam-se superiores aos negros e até questionavam se os mesmos teriam alma ou seriam apenas seres irracionais, semelhantes aos animais. Versos bíblicos foram pinçados para justificar o uso de mão-de-obra escrava. Deixá-los livres colocaria em risco a ordem social. Por isso, os abolicionistas eram acusados de progressistas, de subversivos, de inimigos da ordem que conspiravam contra o bem-estar e a prosperidade da nação. Genocídios foram perpetrados e justificados por crenças equivocadas. Episódios bíblicos como o de Jericó e das cidades cananitas conquistadas por Israel eram evocados. Sociedades inteiras como as pré-colombianas foram dizimadas “em nome de Deus”. 

Quem seriam hoje as vítimas de nossos preconceitos? As mulheres? Os gays? Os muçulmanos? Que passagens bíblicas estaríamos usando para justificá-los? De que lado estaríamos se vivêssemos durante o tempo em que a escravidão era tida como um direito divino? Como nos posicionaríamos quanto à matança de crianças deficientes se vivêssemos na Grécia Antiga?

Deus não criou deficientes! Bradavam alguns.

Os negros são uma aberração! Não têm alma! Merecem ser escravizados. 

Em nome deste mesmo fundamentalismo muitos bradam: Deus criou macho e fêmea! Não criou homossexuais, nem transexuais ou coisa parecida! Portanto, que direitos especiais deveriam ter? Eles querem é privilégios! 

Um pastor americano declarou em um caloroso sermão que os homossexuais não têm direito sequer de existir. Segundo alguns, sua existência colocaria em risco o modelo de família tradicional que tanto prezamos, assim como a existência de crianças deficientes colocava em risco a segurança da sociedade grega antiga, e a liberdade dos escravos implodiria a ordem social vigente à época.

De fato, Deus não criou gays, como também não criou negros, brancos ou amarelos, nem deficientes, nem hermafroditas. Ele criou seres humanos, sujeitos a várias condições, circunstâncias, contingências e limitações. Nada mais complexo do que o ser a quem a Bíblia chama de “imagem e semelhança de Deus”. 

Assisti a uma matéria jornalística sobre uma criança transexual e sua luta para poder usar o banheiro feminino de sua escola. Seu irmão gêmeo é um menino como outro qualquer. Ele, porém, desde que se entende por gente, percebe-se como pertencente a um gênero distinto de sua anatomia. Veste-se como menina. Fala, sente, pensa e age como tal. O que dizer a esta criança? Estaria possuída de demônio? Um exorcismo resolveria seu problema? Seria simples assim? Ou seria a educação recebida em casa? Então, por que seu irmão gêmeo não apresentou o mesmo comportamento?

Senti-me tocado pela história desta criança. Imaginei como deve ser difícil para os pais ter que enfrentar uma sociedade hipócrita, que diz crer nos preceitos bíblicos, mas usam-nos para justificar um dos maiores pecados cometidos por membros de nossa raça: o preconceito. Minha alma chorou. Este pequeno ser humano poderá ser condenado ao limbo da existência.

Nem a sociedade, muito menos as igrejas, estão preparadas para lidar com isso. Algumas sociedades que adotam um tipo de islamismo mais radical e fundamentalista dão ao problema a mesma solução que os gregos davam às crianças deficientes: homossexuais e transexuais são condenados à morte, atirados de cima de edifícios ou apedrejados.

Vale aqui fazer uma distinção. O homossexual geralmente não tem problema com sua anatomia. Ele busca reconciliar sua homoafetividade com o seu sexo biológico. Já o transexual vive uma crise, pois se sente uma mulher num corpo masculino ou vice-versa. Muitos optam por submeter-se a uma cirurgia de troca de sexo.

Como reagiríamos se um transexual operado se convertesse ao evangelho? Aceitaríamos sua nova condição ou pressionaríamos a que revertesse sua operação? E como reimplantar um órgão masculino que fora removido? Muitas outras questões surgem daí e demandam respostas honestas e francas. Entretanto, a primeira medida que precisa ser tomada é nos conscientizarmos de que tais pessoas são seres humanos criados por Deus e que vivem numa crise interminável, não tanto com suas pulsões quanto com os preconceitos da sociedade. Devemos acolhê-los ou discriminá-los? Seria ético impormos alguma condição para que fossem recebidos? Que condição impusemos para recebermos outros tipos de pessoas? Como acolhemos um empresário desonesto que explora seus empregados sem dar-lhes os direitos trabalhistas e ainda sonega impostos emitindo notas frias? Somos condescendentes com eles? Por que somos tão radicais em se tratando de sexualidade, mas tão maleáveis em outras questões? De que temos medo, afinal? Será que a homossexualidade é contagiosa? A sexualidade dos nossos filhos correria algum risco caso a igreja acolhesse tais indivíduos? Haveria dentre nós alguns mal resolvidos nesta questão?

A verdade é que já há homossexuais em nossas igrejas, todavia, mantêm-se velados, temerosos de serem descobertos, expostos e excluídos. Tenho a impressão de que prezamos mais a hipocrisia do que a sinceridade e transparência. Tudo o que acontece sob a capa da clandestinidade só faz fomentar todo tipo de promiscuidade e perversão. Há gente molestando e sendo molestada nas igrejas. Mas desde que isso não venha a público, tudo bem. O importante é evitar o escândalo, pensariam alguns. 

Temos tomado a contramão do que Paulo apresenta como sendo o ideal para o ambiente de culto. Segundo o apóstolo dos gentios, onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade. Num ambiente desprovido de preconceito, cada pessoa tem liberdade de ser exatamente o que é, apresentando-se a Deus “com o rosto descoberto”[1] a fim de ser transformado segundo a imagem de Cristo. A transformação operada pelo Espírito tem como ponto de partida o que somos e não o que fingimos ser. Porém, num ambiente impregnado de legalismo e moralismo, as pessoas preferem lançar mão de máscaras religiosas, mantendo em sigilo seus conflitos interiores. O problema se agrava quando a igreja pressiona o indivíduo homossexual a se casar. O objetivo do matrimônio de fachada é provar que por trás dos trejeitos afeminados há um hétero enrustido. Conheço o caso de um “ex-gay” que se casou para provar sua conversão. Um ano depois, sua esposa procurou-nos no gabinete pastoral para confessar que se mantinha intacta. Ele jamais a tocara. Adoraria acreditar que isso fosse uma exceção.

Casos de homossexualidade atingem até famílias pastorais. Há pouco soube de um pastor que enviou seu filho de apenas 15 anos para fora do país, depois que o mesmo confessou ser homossexual. Pior que este foi o caso do filho de um renomado pregador norte-americano, que depois de admitir sua homossexualidade, suicidou-se com um tiro no coração.

Devo esclarecer que em nenhum momento saio em defesa de qualquer tipo de promiscuidade, seja de natureza homossexual ou heterossexual. Se há seis passagens bíblicas que condenam atos libidinosos entre pessoas do mesmo sexo, há mais de dois mil versículos que denunciam injustiças sociais e condenam o abuso do poder econômico. Parece que a Bíblia está mais preocupada com questões sociais do que com sexualidade. Nem Freud daria conta de explicar esta nossa obsessão por questões desta natureza.

Que tal sermos mais compassivos? Que tal soltarmos nossas pedras em vez de arremessá-las? Antes de nos arrogarmos detentores da cura para a homossexualidade, sugiro que busquemos em Cristo a cura para os nossos próprios preconceitos. O remédio tem em sua fórmula dois componentes: graça e amor. Graça para perdoar. Amor para acolher. O resto, deixemos por conta do Espírito Santo.



[1] 2 Coríntios 3:18


P.S. Tanto tempo depois da abolição da escravidão no Brasil, os negros ainda são discriminados. Pelo jeito, não basta uma canetada num pedaço de papel para abolir uma das mais cruéis mazelas humanas: o preconceito. O que ocorreu com a jornalista Maju Coutinho, a garota do tempo do Jornal Nacional, é uma triste comprovação disso. E pelo jeito, ainda que os homossexuais consigam garantir todos os seus direitos civis, ainda terão que lidar com o preconceito por muito tempo. É o tipo de nódoa que só é removida com a aplicação contínua do mais poderoso alvejante: o amor. Talvez leve algumas gerações até que nos livremos de vez desta maldição que nos acompanha desde os primórdios da humanidade. 

sexta-feira, novembro 20, 2015

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Por que CONSCIÊNCIA NEGRA em vez de simplesmente CONSCIÊNCIA HUMANA?



Por Hermes C. Fernandes

Basta chegar a semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra para nos depararmos com inúmeros protestos nas redes sociais apelando a uma frase atribuída ao ator negro americano Morgan Freeman: “O dia em que pararmos de nos preocupar com consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com a consciência humana, o racismo desaparece.” Logo, não faria sentido dedicar um dia do ano à consciência negra. Será que esta linha de raciocínio está correta? Bastaria parar de falar de um assunto para que ele perdesse a importância e desaparecesse? Bem, parece que Martin Luther King, o pastor protestante que liderou a luta pelos direitos civis dos negros americanos, discorda veementemente: “Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam. É agradável esperar que as coisas sumam ignorando-as, mas chega um tempo em que se torna necessário dizer “Pare! Isso é inaceitável!”.

Interessante ressaltar que nunca vi ninguém protestando no "DIA DAS CRIANÇAS", alegando que somos todos HUMANOS, independentemente da idade. Nunca vi ninguém protestando no "DIA INTERNACIONAL DA MULHER", alegando que independentemente do gênero, somos todos humanos. Então, não entendo a razão que leva alguns a protestar contra o DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA. De fato, somos todos humanos, mas nenhuma etnia sofreu tanto nos últimos séculos do que a negra. Digo, sofreu e ainda sofre nas mãos de outros pertencentes à mesma raça, a humana. Morgan Freeman que me perdoe, mas deixar de falar de um assunto não vai fazê-lo desaparecer.

Não precisamos de um dia dedicado à consciência humana, assim como não precisamos celebrar o Dia do Adulto ou o Dia do Homem, ou mesmo o Dia do Orgulho Hétero (sim, não vejo nada de errado em que os homossexuais tenham um dia para celebrar a luta por seus direitos civis). E respaldo meu posicionamento nas Escrituras.

Antes de citar o trecho bíblico no qual me apoio, devo salientar que creio que a igreja de Cristo nada mais é do que o embrião da nova humanidade. Portanto, muitas das regras apostólicas que deveriam ser seguidas pelas igrejas, são igualmente pertinentes na organização social do novo mundo sonhado pelos profetas.

Tomando o corpo humano como analogia, Paulo diz que os membros que têm sido menos honrados, a esses deveríamos honrar muito mais, enquanto que, os que têm sido prestigiados ao longo da história não teriam necessidade disso. Segundo a lógica do apóstolo, isso certamente contribuiria para que não houvesse divisão no corpo, de modo que se corrigisse uma injustiça, e que todos tivessem igual cuidado uns dos outros. “De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1 Coríntios 12:26).

À luz disso, alguém ainda insistiria em dizer que precisamos celebrar o DIA DO HOMEM, ou o DIA DA CONSCIÊNCIA BRANCA, ou o DIA DO ADULTO ou do ORGULHO HÉTERO? Chega a ser cômico!

Devemos honrar a quem tem sido desprezado, roubado em sua honra e dignidade, visto que os demais não necessitam disso. Ou você conhece alguém que deixou de ser empregado por ser branco? Ou alguém que teve seu salário reduzido por ser homem? Ou foi privado de algum direito por ser hétero? 

Como diz a profecia, “todo vale será exaltado, e todo o monte e todo outeiro será abatido; e o que é torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará. E a glória do Senhor se manifestará, e toda a HUMANIDADE juntamente a verá, pois a boca do Senhor o disse” (Isaías 40:4-5).  Nosso trabalho é “preparar o caminho do Senhor”, isto é, nivelar o terreno, dar voz aos que não têm voz, tornar visíveis os invisíveis, honrar os que foram desonrados ao longo do processo histórico, corrigindo assim a injustiça cometida pelas gerações que nos antecederam.  

terça-feira, novembro 17, 2015

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Politicamente correto ou apenas coerente?



Por Hermes C. Fernandes 


“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados.” Provérbios 31:8 


Com quase dez anos de blogagem, já me acostumei a todo tipo de crítica, desde as mais ácidas até as consideradas “fogo amigo”. Porém, de um tempo para cá, há um tipo de crítica que tem me causado certo desconforto. Trata-se de um tipo de patrulhamento ideológico que reduz a importância de qualquer debate ao acusar o oponente de tentar ser “politicamente correto”. Afinal, o que caracterizaria tal posicionamento? E por que ele parece incomodar tanto? Haveria algum mérito ou demérito em ser politicamente correto? 

Deixando de lado os falsos escrúpulos, proponho que analisemos o fenômeno. A começar pela constatação de que a língua não é um instrumento neutro. Não me refiro aqui aos sujeitos que se utilizam da linguagem, mas aos próprios vocábulos, bem como as estruturas linguísticas e suas entonações como que carregados de sentidos culturais e políticos. 

Palavras nunca são apenas “palavras”, pois trazem consigo um peso que não pode ser ignorado. Elas podem edificar, como também podem destruir. Constroem pontes, mas também abrem abismos. Não é à toa que as Escrituras declaram que “a morte e a vida estão no poder da língua” (Provérbios 18:21). Tiago adverte: “Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim! Acaso pode sair água doce e água amarga da mesma fonte?” (Tiago 3:10-11). Paulo corrobora: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem” (Efésios 4:29). E Jesus arremata: “Digo-vos, pois, que de toda palavra fútil que os homens disserem, hão de dar conta no dia do juízo” (Mateus 12:36). Algum cristão sincero ousaria discordar destas passagens? 

Portanto, não se trata de ser puritano, ou de querer ser politicamente correto, mas de ser coerente com o espírito do evangelho. Não me parece correto, por exemplo, usar palavras de baixo calão para menosprezar quem pense diferentemente de nós. Quando Jesus usou expressões como “geração adúltera” (algo próximo de fdp) não estava xingando pecadores, mas expondo a hipocrisia dos religiosos de sua época. Jamais o vimos referir-se aos homossexuais com palavras chulas como veados, bichinhas, baitolas ou mariquinhas, nem às prostitutas como putas, vadias, quengas ou coisa parecida. Pelo contrário, Jesus tratava a todos com dignidade. 

Seria pedir muito que nos referíssemos a alguém como portador de necessidades especiais em vez de aleijado ou retardado, como dependente químico em vez de viciado, como homossexual em vez de bicha, como síndrome de down em vez de mongoloide, como afrodescendente em vez de crioulo, como umbandista em vez de macumbeiro? Seria pedir de mais que fôssemos, ao menos, educados? Não nos ocorre que usando determinadas palavras estejamos sendo cruéis e impingindo um sofrimento extra ao nosso semelhante? 

Frequentemente, a mera menção de algum episódio envolvendo racismo, homofobia, sexismo ou xenofobia é desqualificada com a ridícula acusação de estarmos sendo politicamente corretos. Se tratar as pessoas com deferência significa ser politicamente correto, então, devo admitir minha culpa. E confesso que não me deixarei inibir pelo patrulhamento ideológico. 

Acima de qualquer distinção ideológica ou doutrinária está o ser humano, imagem e semelhança de Deus, portanto, portador de dignidade intrínseca. 

Os inimigos do “politicamente correto” alegam que tudo não passa de censura disfarçada, um atentado à liberdade de expressão. Ambos os lados se dizem vítimas da patrulha ideológica. Mas qual dos dois faz o maior número de vítimas? Quem busca policiar sua própria fala para não ofender seus semelhantes ou quem se acha no direito de despejar seu ódio e preconceito nos outros através de suas palavras? 

O uso da língua em qualquer que seja o contexto é sempre político. Não há isenção. E como bem disse Jesus, “a boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 12:34). Basta observar o que se diz para saber o que se pensa. Um coração tomado de preconceito não conseguirá disfarçar por muito tempo. Cada piadinha ou comentário despretensioso acabará por revelar preconceitos dissimulados. Não se trata de coibir a liberdade de expressão. Ninguém está impedido de dizer o que pensa. Todavia, há que se tomar cuidado com a maneira como se expressa, para que sua liberdade não seja motivo de constrangimento a quem quer que seja. Parafraseando Paulo, que nossa liberdade não seja motivo de tropeço a ninguém (1 Coríntios 8:9). 

De fato, a palavra molda o mundo. Nossa relação com a realidade é mediada pela palavra. Por isso, o poema da criação nos mostra Deus fazendo perfilar todos os animais para que o homem lhes desse nome. Nomear é exercer poder. Quem nomeia dita as regras do jogo. Como disse Alicia Dillon, “a palavra tem o poder: de nos tornar empoderadas ou indefesas, de ser fonte de certeza ou de dor. Alguém que age como se não pudéssemos falar por nós mesmas ou se refere a nós por um nome que não reconhecemos está usando a palavra para nos machucar, para roubar nossa subjetividade, para apagar nossa existência. Então, para continuar existindo, respondemos, interpelamos, machucamos. Usar a palavra é negociar os termos de nossa própria existência.”[1] 

Antes de classificar alguém ou um grupo, consideremos a maneira como gostaríamos de ser classificados. Como ensinou Jesus, “assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazei vós também” (Lucas 6:31). Esta é a regra de ouro que vale tanto para quem esteja à esquerda do espectro ideológico, quanto para quem esteja à direita.


[1] http://www.gnovisjournal.org/2011/11/10/do-i-need-to-say-it/

sexta-feira, novembro 06, 2015

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Taís Araújo, Maju e o lado negro da força




Por Hermes C. Fernandes

Vira e mexe, presenciamos um surto racista inundando as redes sociais. Meses atrás o tempo fechou para Maju, a garota da meteorologia do Jornal Nacional. As bolas da vez são Taís Araújo, com seus exuberantes cachos e inquestionável talento para a dramaturgia, e o ator John Boyega, o novo Stormtrooper da franquia cinematográfica Star Wars. Quem estava acostumado com Darth Vader, um vilão branco com armadura negra, terá que se acostumar com um personagem negro em armadura branca. Os personagens mudam, mas o roteiro é vergonhosamente o mesmo. Não suportamos ver um negro em proeminência. Isso parece depor contra nossa suposta superioridade. Afinal, não custa nada relembrar de que somos os detentores de quase todas as patentes científicas. Nossa genialidade já está mais do que comprovada. Então, o que é que um negro está fazendo na ancoragem de um telejornal? Já não basta se destacarem tanto nos esportes? Agora querem também a ribalta, o protagonismo político, a ascensão econômica? Quem eles pensam que são?

Surge, então, campanhas do tipo “somos todos Maju”. Por um breve momento, todos discutem o tema, para logo em seguida voltar ao usual ostracismo. Ninguém é Maju, senão ela mesma. Ninguém conhece a dor causada pelo preconceito do que aquele que a sofre na própria pele. O máximo que podemos é nos solidarizar. Mas cada um segue sendo o que se é. 

Quando chega novembro, mês em que se comemora a consciência negra, Morgan Freeman, ator negro norte-americano, surge nas redes sociais para nos dizer que “o dia em que pararmos de nos preocupar com a consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com a consciência humana, o racismo desaparecerá.” Muito legal ouvir isso de um negro bem-sucedido em Hollywood. Mas ouso discordar do “todo-poderoso”. Não será varrendo o problema para debaixo do tapete que vamos resolvê-lo. Enquanto houver negros sendo explorados, diminuídos por causa da cor de sua pele, vituperados, perseguidos, o dia da consciência negra não poderá cair nos descaso.  Não basta saber que há negros dirigindo conversíveis em Beverly Hills, ou morando na Casa Branca, ou à frente de empresas multinacionais. Enquanto houver negros vivendo em condições subumanas nas favelas dos grandes centros urbanos, convivendo com ratos à beira do esgoto a céu aberto, lesados em seus direitos essenciais, mister se fará conclamarmos a sociedade a abraçar a causa do negro. 

Nossas raízes mais profundas estão na África. Se Adão, o primeiro homem, fosse branco, teria sido feito da areia da praia, não do pó da terra (sim, creio que o poema da criação nos ofereça muitas pistas importantes sobre nossas origens). À medida que nos afastamos do paraíso, símbolo da integração com o Criador e com o restante da criação, empalidecemo-nos. O frio das longínquas terras para as quais migramos nos clareou a epiderme, mas também resfriou nossa alma. Nossos cabelos ficaram escorridos, pois não precisavam mais reter a água que refrigerava nossas têmporas durante os dias de sol escaldante das regiões áridas do velho continente. Perdemos o tônus muscular quando deixamos de correr pelas savanas para escapar das feras. Passamos a nos refugiar em cavernas para nos proteger do frio. O fogo agora não nos servia apenas para assar nossa comida, mas também para aquecer nossas noites e preservar a rica herança negra que carregávamos na alma. Os tambores jamais deixaram de rufar. Mesmo sem entender direito o que efeito que causavam na constituição de nosso ser, deixávamos que seu som nos seduzisse e nos pusesse a dançar. Cada canto, cada passo de dança, cada ritual, era uma tributo que prestávamos às nossas raízes.

Se nossa mente é grega, nossa fé é judaica, nossas leis são romanas, nossa moral é vitoriana, nossa alma é africana. Se a Mesopotâmia é o nosso berço, a África é o útero no qual fomos formados. Não há como negar! A melanina que nos falta à pele pigmenta nossa alma. Não é possível disfarçar por muito tempo nossa latente negritude, pois ela ainda vibra ao som dos tambores, se delicia pelo encanto dos sabores e se inspira nos ideias de heróis como Luther King e Mandela.

Nem mesmo a escravidão foi capaz de sufocar o espírito aguerrido que nos habita. Como a fênix, a África renasce das cinzas através de sua arte, para brindar a civilização com sua desaforada musicalidade.

Somos todos filhos da África. Mas numa espécie de Édipo planetário, ensejamos matá-la e nos apoderar de tudo o que ela produz. Queremos sua arte, sua jinga, sua fé, sua fibra, mas rejeitamos sua gente. Cobiçamos as curvas de seus corpos, mas desprezamos os traços de seus rostos. Invejamos sua virilidade, mas nos enojamos de seu odor.  Ambicionamos sua força e destreza, mas rejeitamos sua companhia.

Nosso preconceito nos entrega. Revela nossa face mais cruel e indigna. Expõe nossas vísceras fétidas, carregadas de excremento racista.

Fizemos a eles o que Dalila e os filisteus fizeram a Sansão. Vazamos seus olhos quando lhes oferecemos uma educação tacanha, incapaz de fazê-los enxergar criticamente o arranjo social no qual são inseridos. Tosquiamos seus cabelos ao convencê-los de sua suposta fraqueza e inferioridade. Pusemos-los a trabalhar em nossos moinhos, tornando-os meras engrenagens de nosso sistema, lubrificado pelo seu sagrado suor.  E por fim, cedemos-lhes (não sem resistência) a ribalta, proporcionando-lhes a ilusão de serem o centro das atenções enquanto nos divertimos à sua custa. Iludidos são os que pensam que não haverá uma reação. Tal qual o herói hebreu, abraçaram os pilares de nossa cultura, mas em vez de derrubá-los, passaram, na verdade, a escorá-los. Se quisessem, derrubariam nosso templo, e nos soterrariam sob os escombros de nossa vaidade. Mas surpreendentemente, preferem nos poupar, abençoando-nos com sua presença no mundo, ensinando-nos a resiliência capaz de sorrir e festejar mesmo em face da dor.

Para riscar a África do mapa, teríamos que rasgar os poemas de Machado de Assis, esquecer os solos psicodélicos de Jimmi Hendrix, a voz rouca de Ray Charles, o balanço de Tim Maia e Jorge Benjor, a genialidade esportiva de Pelé e Tiger Woods, os passos de Michael Jackson, o caráter de Joaquim Barbosa, a envergadura ética de Desmond Tutu, o carisma de Barack Obama, o idealismo de Nina Simone e Bob Marley, o empoderamento de Beyoncé, a extensão vocal de Whitney Houston, o humor de Eddie Murphy, o engajamento de Oprah Winfrey, o brilhantismo da atuação de Sidney Poitier, Denzel Washington, Will Smith, Milton Gonçalves, Lázaro Ramos e o inesquecível Grande Otelo, o talento musical de Cartola, Milton Nascimento, Djavan, Alcione, Emicida e tantos outros. Definitivamente, o mundo não seria o mesmo sem esses ilustres filhos da África. Por essas e outras, dou boas vindas ao mês da Consciência Negra. 

quinta-feira, janeiro 16, 2014

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"Nós vamos invadir seu shopping!" - A onda do rolezinho veio pra ficar?



Por Hermes C. Fernandes

Desde que me entendo por gente, os shopping centers brasileiros sempre foram redutos da classe média, que por sua vez é formada por uma maioria branca. Mesmo com a febre dos shoppings, a maior parte das pessoas que transita por seus corredores tem este perfil. Não poucas vezes, os raros negros ou pardos são os seguranças vestidos de terno e gravata. E são justamente estes que acompanham com olhares desconfiados aqueles que não se enquadram no estereótipo dos seus ilustres frequentadores.

Mesmo em regiões cercadas de comunidades, os centros de consumo parecem inacessíveis às camadas mais humildes. É como se houvesse um muro invisível e intransponível ou um aviso do tipo “aqui não é seu lugar”. É claro que em algum momento esta bolha estouraria.

Com o aumento do poder econômico das classes C, D e E, os templos de Mamom receberiam novos adeptos ávidos por consumir os mesmos produtos usados pelas classes A, B e C. Sem contar que os shoppings se tornaram em points de encontro de adolescentes e jovens, papel antes desempenhados pelas praças e parques. Ali eles papeiam, paqueram, namoram e fazem amizades. Antes, somente os filhos da classe média se sentiam à vontade nesse ambiente. Os mais humildes não se achavam em condição de vestir-se adequadamente para frequentá-lo. As coisas mudaram. Hoje, eles não só se vestem com roupas de grifes caras (ainda que, em alguns casos, falsificadas), como também gostam de ostentar. 

Obviamente que ninguém em sã consciência deseja ver  um dos únicos espaços urbanos que ainda inspiram uma sensação de segurança se tornando cenário de arruaças e badernas. Todos queremos preservar a integridade de nossa família, e circular livremente sem sermos incomodados.

Este mesmo espírito permeava a sociedade americana durante as primeiras décadas do século XX. Brancos se recusavam a compartilhar dos mesmos ambientes e serviços que os negros. Até no transporte público, negros tinham que sentar-se na parte de trás para não incomodar os demais. As igrejas, por não poderem recusar a frequência de negros, passaram a construir galerias nos fundos dos templos para que os acomodassem distantes da vista dos brancos. Foi necessário que uma negra se recusasse a deixar seu assento sob o insulto de um branco, para que se deflagrasse naquele país uma verdadeira revolução que culminaria na conquista dos direitos civis para os negros. Primeiro, eles resolveram sabotar os ônibus provocando a quase falência de várias viações. Mais tarde, sob o comando de Martin Luther King, Jr., promoveram a "marcha do milhão"  na esplanada de Washington, centro do poder político do país, sacudindo os alicerces da sociedade majoritariamente anglo-saxônica.

Dizem que no Brasil não há racismo. Todos sabemos que isso não é verdade, mas nos gabamos como se fosse. Pode ser velado, discreto, mas, ainda assim, é racismo do mais cruel. Basta ver os papéis que nossos atores negros recebem nas novelas (salvo raras exceções). Pois agora, o gigante mantido na senzala do nosso inconsciente coletivo acordou e quer de volta o tempo perdido. 

É impossível fazer uma projeção do tamanho que esta onda vai chegar. Mas é bom que estejamos preparados. O rolezinho de hoje será o rolezão de amanhã. A classe média terá que aprender a conviver com os seus mais recentes componentes. Talvez alguns não tenham tido a mesma educação, porque esta lhes fora negada por muito tempo. Talvez outros pareçam rústicos e de gosto cultural duvidoso e tenham um jeito excêntrico de se vestir. Mas são cidadãos brasileiros, detentores de todos os direitos garantidos pela constituição. E mais: são seres humanos como quaisquer outros, imagem e semelhança de Deus. 

Li em algum lugar que esses são rolés da inveja. Que os maloqueiros vão para os shoppings cobiçar o que os mauricinhos usam. Desconfio que o o problema seja outro. Não se trata de inveja deles, mas de ciúmes daqueles que não admitem ver suas marcas em corpos cuja jinga denuncia sua origem pobre e humilde. Afinal, quem eles pensam que são?

Agora, já era! Os filhos do patrão terão que transitar pelos mesmos corredores dos filhos da empregada. Vestirão e calçarão as mesmas marcas. Lancharão no mesmo fastfood. Frequentarão o mesmo cinema. E espero que, em breve, também possam frequentar a mesma escola, o mesmo teatro, o mesmo museu, a mesma biblioteca. 

Que ninguém ouse barrá-los. Que todos sejam inocentes até que se prove o contrário. Que ninguém seja julgado pela cor da epiderme, nem pelo endereço em que mora. Lembremo-nos que da favela também saem doutores, professores, engenheiros e médicos. 

Deixo-os livres. Viva e deixe-os viver.

Que só haja repressão se houver crime, baderna, vandalismo. Caso o contrário, a turba se enfurecerá e as coisas poderão não terminar bem. Ruim para eles. Ruim para todos nós. Aliás, que não haja mais esta distinção eles/nós. Que sejamos todos "nós".

Lembro-me de que nos anos 80 houve muita balbúrdia por conta dos chamados farofeiros que passaram a frequentar praias como a do Guarujá em São Paulo e da Barra no Rio de Janeiro, redutos da classe média destas respectivas cidades. Seus moradores e frequentadores mais nobres se sentiam ultrajados com a presença daquela gente parda, sem qualquer refinamento, e que, ainda por cima, deixava seu lixo para trás. Foi nesta época que surgiu a banda Ultraje a Rigor estourando nas paradas de sucesso com a canção "Nós vamos invadir sua praia."

Veja quão atual é a letra do velho hit:

Daqui do morro dá pra ver tão legal
O que acontece aí no seu litoral
Nós gostamos de tudo, nós queremos é mais
Do alto da cidade até a beira do cais
Mais do que um bom bronzeado
Nós queremos estar do seu lado

Nós 'tamo' entrando sem óleo nem creme
Precisando a gente se espreme
Trazendo a farofa e a galinha
Levando também a vitrolinha
Separa um lugar nessa areia
Nós vamos chacoalhar a sua aldeia

Mistura sua laia
Ou foge da raia
Sai da tocaia
Pula na baia
Agora nós vamos invadir sua praia

Daqui do morro dá pra ver tão legal
O que acontece aí no seu litoral
Nós gostamos de tudo, nós queremos é mais
Do alto da cidade até a beira do cais
Mais do que um bom bronzeado
Nós queremos estar do seu lado

Agora se você vai se incomodar
Então é melhor se mudar
Não adianta nem nos desprezar
Se a gente acostumar a gente vai ficar
A gente tá querendo variar
E a sua praia vem bem a calhar

Não precisa ficar nervoso
Pode ser que você ache gostoso
Ficar em companhia tão saudável
Pode até lhe ser bastante recomendável
A gente pode te cutucar
Não tenha medo, não vai machucar