quarta-feira, fevereiro 15, 2017

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Vamos falar de apropriação cultural?



Por Hermes C. Fernandes

Uma jovem branca que usava um turbante teria sido abordada por uma negra que a acusou de apropriação cultural. O que uma branca estaria fazendo com um adorno africano? De acordo com seu relato, o uso do turbante se devia ao tratamento de quimioterapia que ocasionara a queda de seus cabelos. Bastou que o episódio chegasse às redes sociais para que viralizasse, tornando a “apropriação cultural” no assunto do momento, provocando muito bate-boca e discussões infindáveis.

O verbo “apropriar” significa tomar para si. “Apropriação cultural” é um conceito da antropologia que se refere a adoção de elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. O conceito passa por uma reflexão política, e possui conotação negativa, especialmente quando a cultura de um grupo que foi oprimido é adotada por um grupo de uma cultura dominante. Pode incluir a introdução de formas de vestir ou adorno pessoal, música, arte, língua ou comportamento social. Estes elementos, uma vez removidos de seus contextos culturais, podem assumir significados diametralmente divergentes dos originais, ou simplesmente menos significativos. 

Cada cultura deve ser vista como um universo de símbolos, frutos de experiências humanas dentro de um contexto particular. Um turbante, por exemplo, carrega significados mais complexos e profundos do que simplesmente ser um adorno. Bem da verdade, por muito tempo, foi visto de forma pejorativa, considerado “coisa de macumbeiro”. Ao usá-lo, o negro não o toma apenas como um elemento estético, mas, sobretudo, como um símbolo de resistência, afirmação e orgulho de suas raízes. Não que haja qualquer problema em um branco resolver usá-lo. Vivemos numa sociedade teoricamente livre, onde cada um opta pelo que bem lhe convém. Porém, antes de usá-lo, deve considerar a questão ética acima da estética. Como sua postura será interpretada pelos que atribuem ao adorno um significado de resistência? Até que ponto seu uso por indivíduos pertencentes à etnia dominante não esvaziará seu significado original, banalizando-o, transformando-o em mais um item da moda?

Recentemente, o mundo fashion se apropriou dos turbantes com estampas étnicas. Modelos brancas posam para editoriais de revistas de moda. Ao ser adotado por uma determinada elite, o turbante passa a ser visto como estiloso. A propósito, por que não usaram modelos negras? Seria, no mínimo, mais digno.

Quando um símbolo de um povo marginalizado é tomado pela classe dominante, ele se esvazia de seu sentido. Trata-se de um processo que envolve privilégios, desigualdade e desrespeito. Mesmo que a intenção seja outra, como por exemplo, elogiar aspectos estéticos de uma cultura. A reapropriação de símbolos da cultura africana por negros do mundo inteiro deve ser encarada como um ato legítimo de afirmação de identidade, sobrevivência, empoderamento e resistência histórica. Não é o simples ato de usar um turbante ou outro adorno qualquer que ofende alguns grupos, mas o fato de usá-lo sem a devida consciência de seu valor simbólico. De onde teria vindo aquele artefato?

Que história ele conta? O que representa? A ofensa se agrava quando um símbolo é usado para fins econômicos e que não resultem em qualquer benefício para a comunidade de origem. Tomei o turbante como exemplo, mas isso se aplica igualmente à música, às tradições, etc.

Há uma passagem bíblica que exemplifica uma situação de apropriação cultural. Trata-se de um salmo composto durante o tempo em que os judeus estavam no exílio babilônico.
“Junto aos rios da Babilônia, ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião. Sobre os salgueiros que há no meio dela, penduramos as nossas harpas. Pois lá aqueles que nos levaram cativos nos pediam uma canção; e os que nos destruíram, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos uma das canções de Sião. Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha? Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, esqueça-se a minha direita da sua destreza. Se me não lembrar de ti, apegue-se-me a língua ao meu paladar; se não preferir Jerusalém à minha maior alegria.” Salmos 137:1-6
Os mesmos babilônios que os mantinham em cativeiro, agora pediam que os entretivessem com os cânticos que eram entoados em sua terra natal. O que fizeram os judeus? Penduraram suas harpas. Recusaram-se a divertir seus algozes. Pode até parecer uma coisa banal, mas o que estava em jogo era sua identidade étnica.

Quando se diz que em Cristo se acabam as distinções étnicas, sociais e sexistas, não significa que a diversidade cultural deva ceder à uniformidade (Gl.3:28). O que o evangelho faz é nivelar todos os povos e suas respectivas culturas. Mas jamais foi seu propósito dissolvê-las, descaracterizá-las, eliminá-las. Não há lugar para etnocentrismo no reino de Deus. Portanto, a produção cultural de um povo deve ser preservada, pois se constitui no que as Escrituras chamam de “as riquezas das nações”, destinadas a serem introduzidas na nova sociedade criada em Cristo (Is.60:11).

Vejo com muita reserva a apropriação cultural de elementos judaicos por parte das igrejas cristãs. Festas judaicas sendo celebradas completamente fora de seus contextos. Apetrechos e elementos cúlticos surrupiados. Danças folclóricas que remontam a diáspora judaica pelo leste europeu adotadas como se fossem provenientes dos tempos bíblicos. Será que alguém se deu o trabalho de perguntar a um rabino judeu o que acha de tal apropriação?

Em momento algum fiz apologia de qualquer tipo de segregação. A cultura é dinâmica. Ela invariavelmente se mescla a outras, produzindo sínteses culturais. O que não se pode é reduzir símbolos caros a uma tradição em meros bens de consumo, artigos da moda para serem ostentados por classe dominante alheia ao sofrimento do povo que os produziu.

10 comentários:

  1. Anônimo2:03 AM

    Fico imaginando o texto do Hermes se fosse uma branca que tivesse tido essa atitude em relação a uma negra em tratamento de quimioterapia, iria vomitar toda a sua retórica fascista/nazista/comunista disfarçada de "cristianismo subversivo" ao contrário da "volta" que fez no texto pra tentar disfarçar a esquerdopatia do ocorrido.

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  2. Anônimo2:10 AM

    A mesma esquerda que defende o "multiculturalismo" consegue "falar" de "apropriação cultural", e os zumbis vermelhos nem se dão conta da bizarrice intelectual... pior, se bobear ainda te mandam "estudar"... rs =/

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  3. Anônimo10:02 AM

    Pois então, eu não vou nem bobear pra te mandar estudar!

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    1. Anônimo4:06 PM

      Você nem percebe, mas é um elogio alguém "estudado" como você me mandar estudar... rs

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  4. Mas quem disse que o turbante é adereço exclusivo dos povos negros,O turbante (do persa دلبنت dulband, em turco tülbent) consiste em uma grande tira de pano de até 45 metros de comprimento enrolada sobre a cabeça, e de uso muito comum na Índia, no Bangladesh, no Paquistão, no Afeganistão, no Oriente Médio.

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  5. Como sempre um texto esclarecedor e propondo uma reflexão ética e moral sob o cunho biblico. Parabéns pelo excelente artigo.

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  6. Anônimo3:46 PM

    "Gente, só pra ficar bem claro: apropriação cultural é coisa de gente imbecil que não tem nada melhor da vida pra fazer ou se preocupar, além de ser uma falácia histórica visto que os povos se misturam desde que o mundo é mundo, trocando costumes, hábitos, descobertas, línguas e culturas.
    A moça que tem câncer e usava turbante para cobrir sua cabeça num ônibus quando foi abordada por moças negras que se incomodaram com isso, mostra como o nosso mundo está louco, de cabeça pra baixo e banalizando a verdadeira luta contra o racismo e qualquer outro tipo de preconceito.
    Na África é comum que os povos recebam visitantes lhe ensinando sua própria cultura, oferecendo-lhes trajes locais, convidando-os para seus rituais e outras coisas típicas. Isso é uma forma de EXALTAR a cultura deles, não praticar racismo. O turbante nem nasceu na África, por exemplo, mas no Oriente Médio muito antes até do surgimento do Islamismo. Tudo o que fazemos e somos hoje é uma grande mistura de culturas.
    Portanto PAREM DE SER IDIOTAS!!!! Vão cuidar das próprias vidas!!! Bando de sem noção." - Renata Barreto

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  7. Anônimo3:48 PM

    "Salvador é a cidade mais negra do país.
    75% dos soteropolitanos são afrodescendentes.
    Todas as vezes que vou ao Pelourinho em Salvador sofro um assédio danado das trançadeiras afros para sentar em seus salões ao ar livre.
    Percebo que, em geral, suas maiores freguesas são as "gringas" americanas e européias.
    Concluo, portanto, que as negras trançadeiras de Salvador pouco se importam com uma invenção chamada "apropriação cultural".
    Elas se importam e se envaidecem é com a possibilidade de que a cultura afrodescendente possa ser reconhecida como algo de valor para os outros, permitindo-lhes que se apropriem dos dólares dos turistas por meio da troca voluntária, do intercâmbio cultural.
    Além da geração de renda e da mobilidade social resultantes da atividade, o SEBRAE concluiu em um estudo, após ouvir as trançadeiras, que o intercâmbio cultural favoreceu muito a valorização da cultura afrodescendente.
    "As mulheres afrodescendentes estão deixando de alisar os cabelos para aderir ao estilo das tranças e não há como resistir a essa tendência, porque não só os negros e descendentes estão usando cabelos e penteados afro, mas os americanos, os italianos, alemães e outros aderiram também à novidade. Hoje a negritude está assumindo a sua identidade e as trançadeiras têm parte nessa contribuição. "É um orgulho muito grande porque a gente está mudando a mente das pessoas", vangloria-se a trançadeira Alessandra Andrade dos Santos." (Agência SEBRAE de Notícias, 31/01/2005)
    Em suma, quem se importa com apropriação cultural são os "negros da casa grande", aqueles que querem dominar todos os outros, os "negros da senzala" se entusiasmam com o intercâmbio cultural e seus benefícios." - Thaísa Raquel Lamounier

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  8. A cabra sem vergonha, esse Hermes...

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  9. Anônimo10:29 PM

    A questão da apropriação cultural é complexa. Penso que estamos em constante interação com o outro. Esta diferença nos define e promove na sociedade constante mudança. Não somos seres estáticos, mas em constante tranformação.

    O uso do turbante pela negra tem uma simbologia, uma conotação, uma percepção.

    A mesma peça usada pela outra mulher traz outros significados e valores. Não houve uma inferiorização, apenas uma ressocialização.

    Os objetos nao possuem uma essência em si. Somos nos, sujeitos como nosso valores, que damos a estes objetos suas simbologias. Logo, este mesmo turbante, possui características distintas para pessoas distintas.

    Mesmo se uma pessoa usá-la para uma questão estética, ainda sim, é um valor que tal personagem recoloca sobre o produto. Vejo um processo de ressocialização de valores e simbologias sobre os produtos.

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