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terça-feira, agosto 01, 2017

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O lugar do excluído na Agenda de Deus



Por Hermes C. Fernandes

Ninguém imaginava que aquele era o seu discurso de despedida. Quarenta dias após ter ressuscitado, Jesus se reunia pela última vez com o seus discípulos. Suas instruções finais foram para que não se ausentassem da cidade até que recebessem a capacitação dada pelo Espírito Santo para serem suas testemunhas. Tão logo se cumprisse tal promessa, eles deveriam começar seu ministério por Jerusalém, alcançando em seguida toda a região da Judeia, chegando, então, a Samaria, e, finalmente, aos confins da terra (At.1:8).

De Jerusalém até os confins da terra havia perímetros intermediários, etapas que não poderiam ser queimadas. Parecia sugerir que a lógica de Jesus partia de um perímetro menor para um mais amplo. Porém, a inclusão de Samaria rompia tal lógica. Imagine que Ele dissesse que nossa missão começaria no bairro, passando para a cidade, depois o estado, o país, e, por fim, o mundo inteiro. Ficaria bem mais razoável se Ele dissesse que a missão iniciada em Jerusalém deveria alcançar a Judeia, depois todo o território de Israel, em seguida, o império romano e, então, o restante do mundo. Por que incluir Samaria? O que haveria de especial lá?

Imagino que os discípulos tenham torcido o nariz ao ouvi-lo incluir os samaritanos  na agenda do seu reino. Por séculos, judeus e samaritanos cultivaram uma animosidade recíproca. Quais teriam sido os motivos que geraram tanta hostilidade?

Logo após a morte de Salomão, em cerca de 930 a.C., o reino de Israel se dividiu em dois: o reino do norte e o reino do sul. O reino do norte reunia a maioria das tribos (dez, ao todo) e manteve o nome “Israel”; porém, por haver perdido Jerusalém, que ficava ao sul, elegeu Samaria como sua nova capital. Já o reino do sul tinha seu território partilhado por duas tribos, a de Judá, de onde provinham os reis, e a de Benjamim, além da tribo de Levi, de onde provinham os sacerdotes, e que, por não ter direito às terras, dedicava-se inteiramente ao templo. Apesar de ter a minoria das tribos, tinha a vantagem de manter Jerusalém como capital, bem como o templo erigido em seu território. Devido a esta separação, os habitantes do reino do norte ficaram impossibilitados de cultuar a Deus no santuário em Jerusalém, e tiveram que eleger seu próprio lugar de adoração: o monte Gerizim, de onde Josué havia pronunciado a bênção sobre o povo de Israel. Por conta disso, desenvolveram uma religiosidade distinta. Em Samaria praticou-se bruxaria, adoração a deuses pagãos como Moloque, Baal, entre outros importados das culturas babilônica, cananeia e egípcia. Tudo isso fez com que o abismo entre eles aumentasse cada vez mais. Como se não bastasse o sincretismo que se intensificou quando foram levados cativos para a Assíria no ano 722 a.C., eles acabaram se mesclando com outros povos, tornando-se num povo mestiço (algo inadmissível para os judeus da época). Enquanto isso, os judeus, ao sul, mantiveram-se etnicamente puros e fiéis aos seus costumes. Para os judeus, os samaritanos eram apóstatas, mestiços, de caráter duvidoso, traidores do plano original de Deus, em suma, uma aberração, uma anomalia.

Nos tempos de Jesus, os samaritanos tinham suas próprias aldeias e cidades, sendo severamente hostilizados pelos judeus. Algumas atitudes extremadas começaram a ser tomadas pelos samaritanos no afã de afrontar seus desafetos. A gota d’água se deu quando Jesus tinha por volta de 19 anos. De acordo com Flavio Josefo, historiador judeu, um samaritano fanático invadiu o templo em Jerusalém com ossos humanos e os jogou no santo lugar, num tentativa de profaná-lo. Para se ter uma ideia da gravidade de tal atitude, era como se houvesse sido lançada uma bomba no santuário judeu. Algo bem mais grave do que uma transexual encenando a crucificação de Cristo na parada gay. O ódio gerado por esta atitude foi tão grande que, a partir daí, os rabinos pediam que cada judeu devoto, antes do pôr-do-sol, erguesse as mãos na direção de Samaria e amaldiçoasse os samaritanos em nome do Deus de Abraão. 

Por se sentirem excluídos, os samaritanos pagavam com a mesma moeda. O próprio Jesus, sendo judeu, sentiu na pele esta hostilidade.  Lucas nos relata um episódio em que Jesus manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém, mas como a viagem era longa, decidiu pernoitar numa aldeia samaritana. Ele, então, enviou mensageiros para preparar-lhe hospedagem. Quando os samaritanos desconfiaram que Ele e seus discípulos estavam a caminho de Jerusalém, recusaram-se a recebê-los. Dois dos seus discípulos mais chegados, Tiago e João, vendo aquilo, compraram as dores de Jesus e deram-lhe uma inusitada sugestão: “Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?” (Lc.9:51-56).

Repare que eles não tiraram aquilo do nada. Havia um precedente histórico. Ninguém menos que o grande profeta Elias havia agido do mesmo jeito. Também é interessante notar que Elias foi profeta justamente no reino do norte. Portanto, aqueles discípulos achavam que deveriam tratá-los com o mesmo rigor com que Elias os tratara séculos antes. Na opinião deles, só mesmo fogo vindo do céu poderia liquidar de vez com aquela aberração étnica. Para sua surpresa, Jesus não apenas recusou-se a acatar sua sugestão, como também os repreendeu: “Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.”

Não queiramos comparar o modus operandi de Jesus com nenhum outro profeta que tenha existido. Se insistirmos nisso, retroalimentaremos o preconceito e o ódio cultivados  por séculos entre os mais diversos segmentos sociais.

Aquele episódio mostrou a Jesus o quão enfermos estavam seus discípulos. O preconceito, seja de que natureza for, nada mais é do que uma enfermidade da alma. Quem não se cura, acaba contagiando a outros. A partir daí, Jesus deflagrou uma discreta, porém, eficiente terapia medicamentosa que visava romper-lhes os seus grilhões.

A primeira dose do remédio foi-lhes ministrada através de uma parábola.

A oportunidade surgiu quando um certo doutor da lei, querendo dar uma saia justa em Jesus, perguntou-lhe: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” Parecia uma pergunta sincera. Porém, Jesus sabia exatamente aonde ele queria chegar. Ele devolveu-lhe a pergunta: “Que está escrito na lei? Como lês?”  Perceba que são duas perguntas distintas. A primeira tem caráter objetivo. Trata-se da letra fria da lei. O que está escrito, está escrito. Não há o que tirar, nem por. Mas, a segunda pergunta tem caráter subjetivo: Como lês?

Não basta saber o que as Escrituras dizem sobre este ou aquele assunto. Devemos nos perguntar “como” as temos lido.  Pode-se usar textos isolados da Bíblia para justificar qualquer coisa, desde estupro até genocídio. Tudo vai depender de como a lemos. Há quem a leia para justificar seus preconceitos, suas opiniões, sua ideologia. Experimente lê-la contra si mesmo em vez de contra o seu próximo. Deixemos que ela nos confronte antes mesmo de nos confortar. Leiamos a partir de Jesus e não de nossos pressupostos. 

A resposta dada pelo doutor da lei foi corretíssima. Ele citou de cor os dois principais mandamentos: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. O assunto estava encerrado. A resposta estava ali, na ponta da língua. Bastava que ele cumprisse os mandamentos. “Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?” (Lc.10:25-37). Em outras palavras, com quem eu realmente devo me importar? A quem tenho a obrigação de amar?
Jesus nunca foi dado a respostas prontas. Ele prefere recorrer a metáforas e parábolas. Assim, Ele fala primeiro à imaginação, depois à razão. 

Aproveitando a presença dos discípulos, Jesus começa a contar-lhes uma estorinha.

Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de ladrões que o despojaram, e espancando-o fugiram deixando-o quase morto. Por um acaso, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote, que vendo-o naquelas condições, passou direto, sem se importar. Em seguida, vinha um levita (membro de uma das tribos do sul), que ao vê-lo, preferiu se distanciar. Nenhum dos dois se deu o trabalho de acudir o pobre coitado. Nem o profissional do altar, nem o membro da tradicional tribo do sul. Mas, de repente, surge um terceiro elemento. Ao introduzi-lo na história, toda a audiência arregalou os olhos. Um samaritano ia de viagem, e quando o viu, aproximou-se, compadeceu-se, prestou-lhe os primeiros socorros, colocou-o sobre sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, pagou adiantado sua hospedagem e ainda pediu que lhe dessem todo o cuidado necessário, porque quando voltasse de viagem acertaria com eles.

Aquela parábola era uma provocação. Desde quando um samaritano agiria dessa maneira, com mais amor e compaixão do que um sacerdote ou um levita puro-sangue?

Se aquele doutor da lei quisesse herdar a vida eterna, teria que tomar aquele pária como referência.

Os discípulos devem ter ficado com uma pulga atrás da orelha. Não fazia muito tempo eles foram praticamente expulsos de uma aldeia samaritana, e, agora, Jesus contava uma estória em que o herói era ninguém mesmo que um samaritano. Não teria sido melhor se ele fosse o ladrão da parábola?

Pouco tempo depois, Jesus lhes ministrou a segunda dose do remédio anti-preconceito. Mas, dessa feita, não seria uma parábola, mas um fato real, testemunhado por cada um deles.

Havia tantos trajetos que Jesus podia pegar para Jerusalém. Mas, propositadamente, Ele preferia pegar aquele que os fizesse passar por Samaria. Era como se Ele não houvesse aprendido ainda a lição. Numa dessas vezes, passando pelo meio de Samaria, “saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe; e levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós. E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes” (Lc.17:11-18).

Aqueles leprosos não se atreveram a se aproximar de Jesus porque a lei os impedia. Um passo além do permitido, eles deveriam ser apedrejados até a morte.  Jesus ordena que se apresentem aos sacerdotes. Enquanto caminhavam, a lepra desapareceu de seus corpos. De acordo com o preceito, somente os sacerdotes poderiam autorizá-los a voltar ao convívio social depois de constatar a sua cura. Mas no meio do caminho, um deles resolveu voltar, pois se lembrou de que, por ser samaritano, os sacerdotes não o receberiam no templo. Os outros nove prosseguiram, pois eram judeus. Estando todos leprosos, não havia distinção entre eles. Mas, uma vez curados, a distinção étnica veio à tona. Antes, eram todos leprosos. Agora, eram nove judeus e um samaritano. Enquanto os noves se dirigiam aos sacerdotes, aquele samaritano resolveu voltar a Jesus. A princípio, alguém poderia achar que ele estava desobedecendo a uma instrução clara dada por Jesus. Mas como ele poderia se dirigir aos sacerdotes sabendo que não seria recebido? Da mesma maneira, quantos adorariam ir a uma igreja, mas não vão porque sabem que serão rejeitados? Quantos 'sacerdotes' atuais se disporiam a acolher os diferentes, os excluídos, vítimas de nossos mais entranhados preconceitos? Algumas igrejas até se propõem a fazer trabalhos sociais e evangelísticos, visitando cadeias, cracolândias, bolsões de miséria, zonas de prostituição, mas não estão dispostas a receber em suas dependências elementos oriundos desses ambientes fétidos. Que procurem, então, uma igreja com o seu perfil! Daí surgirem igrejas dedicadas a certos segmentos geralmente abominados pelas demais. Triste constatação. 

Quando aquele ex-leproso (mas não ex-samaritano) chegou a Jesus, prostrou-se e o adorou em gratidão por sua cura. Ele não foi curado de sua condição de samaritano. Não há e nunca haverá ex-samaritanos. Mas ele foi curado de sua lepra. Assim como podemos ser curados de feridas abertas pelo preconceito.

Os nove obedeceram, mas não voltaram para agradecer. O samaritano desobedeceu porque não era possível ser recebido no templo, mas voltou para agradecer. Nem tudo se resume a obedecer ou desobedecer. A vida é mais complexa do que nosso fundamentalismo nos permite perceber. 

Continua em breve.

domingo, março 06, 2016

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Uau! Perfume de Mulher




Hermes C. Fernandes

Perfume de Mulher é um filme americano rodado em 1992, dirigido por Martin Brest e estrelado por ninguém menos que Al Pacino, o gigante de pequena estatura.  Em busca de realizar um antigo sonho antes de morrer, um militar cego (Al Pacino) contrata um jovem e inexperiente estudante (Chris O'Donnell) para ajudá-lo a passar um fim de semana inesquecível em Nova York. Por não desejar piedade nem tolerar discordância, passa a criticar o comportamento do acompanhante. Porém, na viagem, aos poucos, ele passa a se interessar pelos problemas do jovem, esquecendo um pouco sua amarga infelicidade.

A cegueira tirou todos os facínios do Coronel Slade, exceto o seu facínio por mulheres. Sem poder ver a beleza de uma mulher, o personagem de Pacino passa a ser seduzido por suas fragrâncias. Porém, isso não é suficiente para que Slade queira continuar vivo, e é em torno deste eixo que a história do filme se desenrola, contando como um garoto introvertido do interior de Oregon influencia o decidido Coronel Slade.

Uma das cenas inesquecíveis é quando eles vão a um luxuoso restaurante, e o Coronel convida uma moça para dançar tango. Ela hesita e ele lhe diz bombasticamente “Não se preocupe, o tango não é como a vida; você pode errar e continuar dançando.” Além de um ótimo olfato, ele adquire uma habilidade especial de superar limites. Dizem que quando somos privados de algum de nossos sentidos, os outros tendem a se desenvolver mais.

As Escrituras estão cheias de referências a perfumes e unguentos. Dentre todos, nenhum tem o destaque dado à mirra. Esta é extraída de um arbusto espinhoso que cresce nas regiões desérticas, especialmente na África, em países como a Etiópia e a Somália. Tem sido usada, desde a antiguidade, para embalsamar corpos. Os egípcios, por exemplo, a usavam em suas múmias. Além de evitar o mal odor, a mirra tem ação bactericida, impedindo a proliferação de fungos, vírus e bactérias. Ao ser ingerida serve como entorpecente, aliviando as dores e atenuando o contato com a realidade.

Nos tempos bíblicos a mirra era comumente usada para embalsamar os mortos. Por ser muito cara, era costume da família economizar o equivalente a um ano de trabalho para comprá-la e guardá-la para ser usada por ocasião da morte de um de seus membros.

Também era usada pelos noivos na preparação do casamento. Ester teve que banhar-se em óleo de mirra por seis meses e em outros unguentos por mais seis meses antes de apresentar-se ao rei Assuero para ser escolhida como a nova rainha. (Ester 2:12).

Portanto, a mirra tem a ver tanto com casamento, quanto com sepultamento. Então, por que razão os magos vindos do Oriente a escolheram como um dos presentes do recém-nascido Jesus?

Confira:
“E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra” Mateus 2:11
Que utilidade teria a mirra para um bebê?

Por mais mórbido que pareça, aquele perfume caríssimo era para ser usado no sepultamento de Jesus, e visava poupar Maria e José de um ano inteiro de trabalho. Talvez houvesse suficiente para usá-lo para embalsar tanto Jesus, quanto o resto da família.

Mas o fato é que, se aquela mirra chegou a ser usada, não foi em Jesus. Se é verdade que Maria ficou viúva antes que Jesus fosse crucificado (o que explicaria a ausência de José na cena da crucificação), talvez parte daquela mirra tenha sido usada para embalsamá-lo.

A mirra, porém, não foi o único presente recebido por Jesus na ocasião de Seu nascimento. Muito tem sido dito sobre seu simbolismo, mas gostaria de propor uma interpretação alternativa (ainda que pareça pretensão de minha parte): O ouro aponta para Sua chegada, o valor de Sua encarnação, o início. O incenso aponta para Sua obra, e a extensão de Sua existência terrena, o meio. Assim como o incenso se consome à medida que vai queimando, Sua vida terrena seria gasta inteiramente na dedicação da obra que veio fazer. Já a mirra aponta para Sua morte, a consumação de Sua obra, o fim. Início, meio e fim. Criação, redenção e consumação.

Depois do episódio de Seu nascimento, deparamo-nos com a mirra novamente no episódio em que Ele é surpreendido por uma mulher que, sem pedir licença, quebra todos os protocolos, invade o recinto em que estava, e derrama-Lhe sobre a cabeça o precioso bálsamo. Percebendo que os discípulos a censuravam, e que Judas argumentava que aquele perfume poderia ter sido vendido e seu valor revertido para os pobres, Jesus sai em sua defesa e diz: “Deixai-a, por que a aborreceis? Ela praticou boa obra para comigo. Sempre tendes os pobres convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde. Antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura. Em verdade vos digo que em todo o mundo onde este evangelho for pregado, o que ela fez também será contado para sua memória”(Mc.14:6-9).

Esta mulher era ninguém menos que Maria, irmã de Lázaro, a quem Jesus ressuscitara poucos dias antes (Jo.12). No Evangelho de acordo com João, Jesus afirma: “Ela guardou este perfume para o dia do meu enterro”(Jo.12:7).

Pense comigo: aquele perfume custava 300 denários. Praticamente um ano de trabalho. Era economia de uma vida inteira. Considerado um bem da família, destinado a ser usado no embalsamento de seus membros. Era de se esperar que ela o tivesse usado em Lázaro, pelo menos a terça parte do perfume, já que sua família era composta de três pessoas. Se o tivesse feito, não haveria razão para que Lázaro cheirasse mal no quarto dia após seu sepultamento.

Em vez disso, ela o guardou para Jesus.

De acordo com o testemunho do próprio Jesus, ela se antecipou a prepará-lO para o sepultamento. O que significa isso?

Ao expirar na cruz, já eram três horas da sexta-feira. O sábado judeu começa às seis horas da tarde. Portanto, faltavam apenas três horas. Pelos romanos, Jesus ficaria pendurado no madeiro sendo devorado pelas aves de rapina, como geralmente acontecia com os demais crucificados. Porém, havia um membro do sinédrio chamado José de Arimatéia que era Seu discípulo secreto. Foi por intercessão dele que Pilatos liberou Seu corpo para ser sepultado (Mt.27:57-60). A correria foi enorme. Um judeu não poderia fazer absolutamente nada no sábado, nem mesmo sepultar seus mortos, quanto mais embalsamá-los. Aproveitaram que havia uma sepultura nova que alguém esqueceu aberta próxima do lugar da crucificação. Só deu tempo de enrolar o corpo do Senhor em lençóis, fechar a sepultura com uma grande pedra e esperar até que o sábado passasse para que pudessem retornar com calma para os procedimentos normais, incluindo o embalsamento.

O texto diz que as duas Marias, entre elas a Madalena, seguiram José de Arimatéia e viram onde puseram o Seu corpo. A pressa delas em embalsamar Jesus era tão grande, que mesmo antes de começar o sábado, elas “prepararam especiarias e unguentos”, e ficaram esperando as primeiras horas do dia seguinte para prosseguir em sua empreitada (Lc.23:56). Elas devem ter pensado: Vamos ser mais rápidas do que José de Arimatéia. Quando ele chegar no domingo para embalsamá-lO, terá uma surpresa.

Outro personagem que entra nesta corrida é citado por João. Trata-se de Nicodemos, outro discípulo secreto de Jesus.  Segundo o relato de João, Nicodemos providenciou “quase cem libras de uma mistura de mirra e aloés” para embalsamar Jesus. Mas devido à aproximação do sábado, só deu tempo de perfumar os lençóis que envolveram o Seu corpo.

Ao chegar bem cedo no sepulcro onde estaria Jesus, quem teve uma surpresa foi Maria Madalena. Algo inusitado ocorrera. A pedra estava removida. O sepulcro estava vazio. Não! Ninguém levou Seu corpo, como Maria inicialmente achou que acontecera. Jesus ressuscitou dos mortos, como muitas vezes avisou aos Seus discípulos que ocorreria. Maria teve que voltar para casa com aquele perfume. Porém, Jesus não ficou sem receber o devido tratamento. Ela pode ter chegado antes dos discípulos secretos, e mesmo antes dos demais discípulos, mas alguém se ANTECIPOU. Outra Maria fez o serviço.

Talvez Madalena não tenha se dado conta disso. Possivelmente não tenha presenciado o ocorrido na casa de Lázaro cerca de quatro dias antes.

Maria, irmã de Lázaro agiu antes mesmo da morte. Ela se antecipou à cruz. Teve um vislumbre do futuro. Tomou para si a responsabilidade.

Maria Madalena, sinto em lhe informar, mas mesmo tendo madrugado em frente ao sepulcro, você chegou atrasada.

Imagine comigo: quando Jesus entrou em Jerusalém montado no jumento, Ele já estava devidamente perfumado para ser sepultado. Quando expulsou os cambistas, ele exalava aquele perfume forte. Pilatos, enquanto O julgava, devia ter pensado: que fragrância maravilhosa é esta? E enquanto era crucificado, aquele perfume se espalhava pelo ar…

* "Apenas para uso externo..."

De repente, no auge de Seu suplício, alguém se compadece de Sua dor e para atenuá-la, oferece-Lhe “vinho com mirra” (Mc.15:23). Esta mistura promovia um efeito semelhante a de um anestésico. Mas Jesus Se recusa a tomá-la. A mirra era bem-vinda como perfume, mas não como entorpecente. Um “homem de dores, e experimentado no sofrimento” (Is.53:3b) não podia deixar-Se entorpecer.

Infelizmente, a oferta recusada por Jesus tem sido aceita por Sua igreja em nossos dias. Perdemos o contato com a realidade. Buscamos desesperadamente o alívio de nossa dor.

O que deveria servir como perfume através do qual exalássemos a fragrância de Seu amor, tem sido usado como entorpecente, para não dizer, alucinógeno.

A mirra pode representar nossa espiritualidade, com todos os dons que o Senhor nos outorgou pelo Seu Espírito. Se esta espiritualidade nos fizer pessoas voltadas para dentro de si mesmas, então ela nos entorpecerá. Uma igreja entorpecida perdeu o contato com a realidade à sua volta, e por isso, já não é capaz de afetá-la e transformá-la. Tornamo-nos apáticos, incapazes de nos solidarizar com a dor do mundo. Já não nos importamos com nada que aconteça à nossa volta. Simplesmente nos desligamos. Isso não é espiritualidade genuína, mas mera religiosidade, aquilo que Karl Marx chamou de “ópio do povo”. A verdadeira espiritualidade nos convida à compaixão e a nos engajarmos na transformação da realidade, para que o sofrimento humano seja atenuado.

Mesmo na Cruz, Jesus demonstrou preocupar-Se com os que estavam à Sua volta. Desde Sua mãe, passando pelos Seus algozes, até os ladrões crucificados ao Seu lado, todos foram alvo de Sua compaixão e solidariedade. Desta forma, Ele exalou o bom perfume de Seu amor em um cenário de dor e crueldade. Se Ele Se deixasse tomar por um sentimento de auto-compaixão, certamente teria aceitado a oferta daquela esponja, e sorvido por inteiro a mirra que Lhe aliviaria a dor. Mas Ele recusou.

Agora somos convocados a levar “sempre por toda a parte o morrer do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos; e assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossa carne mortal” (2 Co.4:10-11). E é assim que Deus “por meio de nós manifesta em todo lugar o cheiro do seu conhecimento. Pois para Deus somos o bom perfume de Cristo” (2 Co.2:14b-15a).

Nossa missão é espalhar Seu aroma pelo mundo.

Cantares retrata a esposa do rei, representação da igreja de Cristo, como aquele cujas mãos “gotejavam mirra”, e os dedos “mirra com doce aroma” (Ct.5:5). Ela é aquela que “sobe do deserto, como colunas de fumaça, perfumada de mirra” (Ct.3:6). 

Como Esposa de Cristo, temos que deixar um rastro de mirra por onde passarmos. Os ambientes que frequentamos devem ficar impregnado da fragrância de Cristo. E isso se dá quando deixamos de viver para nós mesmos, para viver para Cristo e por aqueles por quem Ele Se entregou na Cruz. 

O Mundo pode até estar cego, como o personagem vivido por Al Pacino, mas certamente será capaz de perceber no ar o aroma de Cristo exalado por nós.

quarta-feira, abril 03, 2013

7

A pergunta mais importante não é "por quê" nem "pra quê"


Por Hermes C. Fernandes

Já há algum tempo tenho aprendido que antes de buscar respostas, devemos reconsiderar as perguntas. Geralmente, perguntamos "por quê". Por que fomos traídos? Por que estamos doentes? Por que nos mandaram embora do trabalho? Por que... Por que... Por que...

Tenho ensinado que em vez de "por quê", deveríamos perguntar "pra quê". Em outras palavras, deveríamos nos preocupar mais com os propósitos do que com as razões. Mas ultimamente tenho refletido sobre outra pergunta igualmente importante. Em vez de "por quê", deveríamos perguntar "por quem".

Deixe-me exemplificar:

Jesus teve que mudar seu trajeto à caminho de Jerusalém. Em vez de um atalho, tomou o caminho mais largo, que passava por Samaria, um lugar inóspito para judeus. Talvez os discípulos perguntassem: Por quê? Mas a pergunta certa era "por quem". E a resposta é: por uma samaritana a qual Jesus queria encontrar.

Filipe, conquanto gozasse do maior sucesso ministerial obtido por um dos seguidores de Jesus até então, foi tirado pelo Espírito de Samaria, e levado para o deserto. Por quê? Não. Por quem? Por um eunuco desejoso de conhecer a Palavra.

Paulo e Silas foram presos e açoitados injustamente em Filipos. O que eles fizeram pra merecer aquilo? Nada. Mas eles estavam ali por alguém. Um carcereiro frustrado e suicida. Aquele carcereiro era o tal "varão macedônio" com o qual Paulo havia sonhado dias antes, rogando para ele passasse à Macedônia.

Se Deus lhe enviou a um lugar, pergunte-O por quem você está ali. Seja atrás das grades de uma prisão, no CTI de um Hospital, numa fila de desempregados. Talvez haja ali uma vida preciosa aos olhos de Deus, com a qual deseja que você se encontre.

Depois de três anos, eu e minha família retornamos aos Estados Unidos. Muitos perguntam a razão pela qual eu me dispus a expor minha família, num momento em que esse país atravessa sua maior crise econômica. Sei, porém, que o que me trouxe aqui não foi nenhum desejo de aventurar-me, ou de fugir de qualquer que seja o problema. Estou aqui por alguém. Por um povo que aprendi a amar. Por gente sedenta e faminta da Palavra.

Todos os propósitos de Deus vão de encontro àqueles que Ele mesmo escolheu desde a fundação do mundo. E para que tais sejam alcançados, vale a pena atravessar oceanos, vales e montanhas, arriscar tudo, inclusive a própria vida.

Pessoas são mais importantes do que paredes, projetos, programas, estratégias, etc. Foi por elas que Jesus deu a vida. E é por elas que devemos viver.


* Postado originalmente em 24/05/2009 durante os primeiros meses de minha estada nos EUA

quinta-feira, setembro 23, 2010

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O desafio de traduzir a Bíblia para mais de 6 mil idiomas

Vonette Bright, eu e Bob Creson, presidente da Wycliffe
Ontem tive o privilégio de participar de uma celebração no Wycliffe Bible Translators. Esta organização é responsável pela tradução da Bíblia em cerca de 700 idiomas. Há cerca de 7 mil línguas faladas no Mundo. Portanto, apenas 10% delas dispõem da Palavra de Deus traduzida. O desafio é deveras grande. Atualmente, a Wycliffe está trabalhando na tradução em mais de 1300 idiomas. Há ainda outras 2200 línguas em que os projetos de tradução ainda não começaram. O número de pessoas que falam esses idiomas ultrapassa a casa dos 350 milhões!

O motivo da celebração foi a tradução das Escrituras em mais 25 idiomas. Foi emocionante assistir a procissão de pessoas que trabalharam da tradução vestidas a caráter, empunhando a bandeira do país e a bíblia traduzida.

Quem pensa que essas traduções são feitas num ambiente aconchegante de um escritório, diante de um laptop da Apple, está redondamente enganado. A Google ainda não dispõe de ferramentas para isso. rs

sábado, fevereiro 28, 2009

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O Futuro da África: Desafio de todos nós!





Parabéns Rev. Luiz Correa pelo belíssimo e entusiasmante trabalho.