quarta-feira, abril 19, 2017

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Graça rara, nossa pérola negra




Por Hermes C. Fernandes

Como atribuímos valor a algo? Que critérios usamos? Por que algo que tem valor incomensurável para um, não tem valor algum para outro?

Recentemente assistia a um programa no History Channel chamado “Trato feito” apresentado pelos donos de uma loja que compra e vende antiguidades. Alguns itens que lhe foram oferecidos me chamaram muita atenção. Dentre eles, um exemplar antigo do livro “Drácula” de 1897 (se não me falha a memória, da primeira edição) assinado por Bram Stoker, o homem responsável pelo mito moderno dos vampiros. O livro com a capa puída, as páginas amarelas (algumas comidas por traças), foi vendido por milhares de dólares pelo simples fato de ter a assinatura do autor. Um exemplar adquirido em qualquer livraria talvez saísse por menos de trinta reais. O que levaria alguém a pagar dez mil dólares por um livro velho soltando páginas? Vai entender...

Outro veio com um relógio de bolso que teria sido de Abraham Lincoln, o mais popular presidente dos EUA. Depois de atestada a veracidade da peça, ofereceram-lhe duzentos e cinquenta mil dólares. Quando o especialista lhe disse que seria possível conseguir até um milhão de dólares num leilão, o dono da peça agradeceu a oferta e partiu, esperançoso de vendê-la por quatro vezes o que lhe estava sendo oferecido. Tudo isso porque aquele relógio um dia esteve no bolso e na mão de um herói nacional americano.

Um caso muito interessante foi o de um rapaz que trouxe uma bandeja e uma cumbuca de prata que teriam sido roubados por seu avô da casa de veraneio de Hitler. Os itens traziam seu nome e a suástica, símbolo do partido nazista. De acordo com ele, seu avô teria sido soldado na segunda guerra mundial e durante a tomada da Alemanha pelos aliados, aproveitara para furtar a prataria pertencente ao Führer. Depois de ouvir que seu avô era um herói, achou que conseguiria uma ótima oferta pelos itens, mas ficou desapontado quando os apresentadores do programa se recusaram a comprá-los por estarem vinculados a um dos mais terríveis capítulos da história.

O último caso que me chamou atenção foi de uma mulher que queria vender uma boneca estilo Barbie vestida de enfermeira. Examinada por um especialista em brinquedos antigos, a boneca pertencia a uma linha de brinquedos para meninos lançada em 1964. Como era época de guerra, a fábrica de brinquedos lançou vários bonecos de soldados (ao estilo do Falcon, alguém se lembra?), dentre eles uma boneca enfermeira. Como se tratava de uma boneca, os meninos se recusaram a comprar e ela acabou empoeirada nas prateleiras das lojas de brinquedo. As meninas também não se interessaram porque a boneca era de uma linha de brinquedos de menino. Quase cinquenta anos depois, essa mesma boneca se tornou uma raridade disputada por colecionadores. A mulher conseguiu vendê-la por dois mil e quinhentos dólares. Ao sair da loja de antiguidades, o repórter perguntou se estava satisfeita com o negócio e ela respondeu: - Claro! Comprei-a por 50 e vendi por 2.500!

Usei estes quatro exemplos para buscar uma resposta à minha pergunta: como atribuímos valor a algo?

Penso que Jesus nos oferece uma resposta consistente em duas de suas parábolas:
"O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo.O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou". Mateus 13:44-46
A maior parte das parábolas contadas por Jesus tinha o objetivo de explicar o que era e como funcionava o reino de Deus. Diferente dos reinos deste mundo, o reino de Deus não pode ser localizado geograficamente. Ninguém pode apontá-lo num mapa. Ele é, por assim dizer, uma escala de valores proporcionalmente inversa àquela tão cara ao mundo. Ao nos convertermos somos introduzidos neste reino de modo que muito daquilo que antes tanto valorizávamos, já não representa coisa alguma para nós, enquanto o que antes desprezávamos, passa a ser aquilo a que mais atribuímos valor.

Daí a importância de passar pelo o que Jesus chamou de “novo nascimento”. Sem que sejamos regenerados (gerados novamente), nossos olhos não podem vislumbrar o reino de Deus, e consequentemente, não estamos aptos a integrá-lo.

As réguas pelas quais o mundo afere todas as coisas são a posse, o poder e o prazer. Algo só tem valor se nos proporciona uma dessas coisas. Já no reino de Deus, em contrapartida, valoriza-se o desapego, a humildade e o serviço, valores antagônicos àqueles. Em vez de perguntarmos que benefício aquilo nos proporcionará, perguntamos que bem aquilo resultará e quantos dele se beneficiarão.

Segundo Jesus, o reino de Deus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O que é um tesouro, afinal? Pode ser o que alguém com muito sacrifício amealhou durante toda a vida. Para aquele que o achou, nada custou. Mas para aquele que o escondeu ali, pode ter custado toda a sua vida. O que faz aquele homem que topou com ele acidentalmente? Ele sabe que o campo tem dono. Mas provavelmente o dono desconhece a existência do tesouro. Aproveitando-se disso, aquele homem vai, vende tudo quanto tem e lhe faz uma oferta. Talvez o dono do campo tenha se surpreendido com o valor oferecido. Ele jamais suporia que suas terras valessem tanto.  Mas o comprador sabe de algo que ele desconhece. Ele compra o campo mas o que realmente interessa é o que nele está escondido.

Aprendemos com isso que não se pode avaliar nada superficialmente. Abaixo das sucessivas camadas de poeira pode haver um tesouro. Por trás da aparência simples de uma criança pode haver um extraordinário potencial ainda latente. Mas quem se dispõe a cavar? No reino de Deus vale mais a vocação, isto é, aquilo a que se destina algo/alguém do que sua situação atual.

Aquele homem vende tudo o que tem para adquirir o campo. O valor que atribuímos a algo é proporcional àquilo de que estamos dispostos a abrir mão para adquiri-lo.

Na segunda parábola, Jesus diz que o reino de Deus é como um negociante que procura e acha uma pérola de grande valor. Ele faz exatamente como o da primeira parábola: vende tudo o que tem para adquiri-la.

Como alguém poderia dispor de toda uma vida por um único objeto? Ora, aquele homem já negociava pérolas. Aquela era a sua profissão. O que ele teria visto naquela pérola em particular que valeria toda uma vida de trabalho?

Na época, a cobiça pelas pérolas era tão grande que os registros históricos mostram que no apogeu do império Romano, o general Vitellius financiou um exército inteiro vendendo apenas um dos brincos de pérola de sua mãe. Todavia, Jesus usa o artigo definido para referir-se a tal pérola. Portanto, não se tratava de uma pérola comum, o que já seria sobremodo valiosa. Embora Jesus não especifique, acredito que se tratava de uma pérola negra, a mais rara dentre as pérolas.

Valorizamos algo de acordo com sua indisponibilidade. Quanto mais raro, maior valor lhe atribuiremos. Vale aqui a lei da oferta e da procura.

Uma pérola negra não é mais bela que uma pérola comum. Até seu brilho é inferior. No entanto, pérolas negras são raríssimas. Somente uma espécie de ostra encontrada no Taiti chamada pinctada margaritifera é capaz de produzi-la. Esta ostra possui uma listra negra em seu interior. Se a pérola se formar em contato com a listra, a pérola resultante será negra. Entretanto, mesmo entre essas ostras isso é um fenômeno raro – acontece uma vez em cada 10 mil.

Pérolas negras não são produzidas em série. Tudo quanto Deus faz é raro, é único, é especial. As coisas de Deus não são comuns. A própria graça de Deus é um fenômeno raro. Quantos bilhões de seres humanos já viveram neste planeta? Mas quantos deles poderiam arcar com o alto preço de nossa salvação? Quantos seriam aptos? Para tal teriam que ter vivido neste mundo sem ter praticado um único pecado. Alguém se habilitaria? Não foi à toa que João chorava desesperadamente em sua visão registrada em Apocalipse, “porque ninguém fora achado digno” (Ap.5:4a).

Jesus é a nossa pérola negra, aquele que “não tinha parecer nem formosura; e, olhando nós para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos” (Is.53:2). Desprovido de beleza, porém, raro, raríssimo, sui generis.

Se considerarmos o livro de Cânticos e o relacionamento de Salomão e Sulamita como uma alegoria do relacionamento entre nós e Cristo, faremos coro à resposta que ela dá às suas amigas:

“Que diferença há entre o seu amado e outro qualquer, ó você, das mulheres a mais linda? Que diferença há entre o seu amado e outro qualquer, para você nos obrigar a tal promessa? O meu amado tem a pele bronzeada; ele se destaca entre dez mil.” Cânticos 5:9-10

Estatisticamente, qual a probabilidade de surgirem na humanidade pessoas como Leonardo da Vinci, Mahatma Gandhi, Albert Eistein, Siddarta Gautama, Maomé e outros? Ínfimas, provavelmente. E qual a probabilidade de surgir alguém como Jesus Cristo, capaz de reatar nossa comunhão com Deus? Absolutamente, zero!

Portanto, tudo o que se refere a Ele é raro, raríssimo. Seu Reino é único. Sua graça é ímpar. Quem não entendeu isso certamente não teve seus olhos desvendados ainda, e, por isso, não pôde contemplar o esplendor do Seu reino, nem ter consciência da inefabilidade de Sua graça.

Se não percebermos o quão rara é a graça, não lhe atribuiremos o devido valor. Corremos o risco de a confundirmos com uma graça barata, expressão cunhada pelo teólogo alemão Bonhoeffer.

Apesar de a salvação nos ser oferecida gratuitamente, ela custou muito caro a Ele, da mesma maneira que a produção de uma pérola custa muito caro à ostra. O único trabalho que o negociante de pérolas tem é o de encontrar a ostra e abri-la. Devo admitir que não é nada fácil abrir uma ostra hermeticamente fechada. E não adianta tentar quebrá-la. Sua casca é duríssima. A melhor saída é esperar o momento em que a ostra se abre por si só, revelando assim o seu conteúdo.

Jesus diz que até os dias de João Batista o reino de Deus era tomado à força. Porém, até ali, ninguém havia obtido êxito em apossar-se de tão preciosa pérola. Mas, chegada a plenitude dos tempos, a ostra se abriu e a pérola tornou-se disponível aos homens.

Embora seja exteriormente resistente, a ostra é interiormente muito sensível. Talvez mais sensível que os olhos humanos. Se um cisco no olho é capaz de nos levar ao desatino, imagine o que significa para a ostra quando seu interior é invadido por um grão de areia. A dor é incalculável. Sua reação para tentar diminuir o desconforto é cobrir o grão de areia com camadas de carbonato de cálcio. A substância vai endurecendo até formar a pérola.

Pode-se dizer que pérola é a cicatriz da ferida causada pelo grão de areia invasor.

Da mesma maneira, para que o reino de Deus nos tornasse acessível, Jesus teve que ser ferido. Isaías profetizou cerca de setecentos anos antes, que Ele seria “desprezado e o mais indigno entre os homens; homem de dores e experimentado no sofrimento. Como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum” (Is.53:3).

Jesus recebeu em Seu corpo inocente feridas em todas as extremidades, nas mãos, nos pés, na cabeça, nas costas e no tronco. As feridas deixaram de sangrar. Mas as cicatrizes permanecem mesmo em Seu corpo glorificado. Elas são as testemunhas do preço pago pela nossa redenção e admissão no reino de Deus. Não é por coincidência que as doze portas de acesso à Nova Jerusalém, símbolo de sua igreja e do seu reino, são representadas por doze pérolas (Ap.21:21).

Será que temos atribuído o devido valor a esta graça? De que estaríamos dispostos a abrir mão por ela? Quanto vale o que custou a vida do único inocente a ter passado por esta terra? Pois o valor de Sua vida é proporcional ao valor da salvação que nos é oferecida gratuitamente. Não valorizar isso é pisar o Filho de Deus, profanar o sangue da aliança e insultar o Espírito da graça (Hb.10:29).


Um comentário:

  1. Uau! Que texto maravilhoso! Louvo a Deus pela sua vida Pr. Hermes e fico muito feliz por poder desenvolver uma espiritualidade sadia com a ajuda de irmãos tão zelosos como vc. Abcs,

    Rafael Thiago

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