terça-feira, março 19, 2013

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Por que Deus não impediu a Queda?


Por Hermes C. Fernandes

Eis uma das mais delicadas questões com que se depara a teologia cristã. Como crentes na soberania divina, não podemos supor que a Queda tenha pego Deus de surpresa. A prova de que Deus não apenas previa a desobediência humana, como a permitiu, e a incluiu em Seu glorioso plano, é que, antes mesmo da fundação do mundo, Ele havia provido um meio de equacionar o problema do pecado. De forma que a Bíblia nos apresenta Cristo como o “Cordeiro que foi morto desde antes da fundação do mundo” (Ap.13:8b).

Não há improvisos no plano arquitetado por Deus. Quem faz provisão não necessita fazer improviso. Não há planos tapa-buraco. Em Sua Onisciência, Deus sempre soube com antecedência de todas as coisas. O Deus das Escrituras não deve ser confundido com o “deus” da chamada teologia de processo, que nada sabe quanto ao futuro, pois é refém do tempo que ele mesmo criou. O Criador vive na Eternidade, onde não há passado ou futuro, mas um eterno agora. Todas as coisas estão diante d’Ele concomitantemente. Portanto, não precisa lançar mão de dados estatísticos para saber a probabilidade de algo acontecer ou não. Ele simplesmente sabe.

Em Sua sabedoria, Ele decidiu que o homem só conheceria Seu amor e Sua graça, se tropeçasse e caísse de seu estado original. Agostinho foi feliz ao declarar: “Oh bendita queda, que nos proporcionou tão grande redentor!”. Se não houvesse Queda, não haveria necessidade de Redenção. Se não ocorresse a Ruptura, também não haveria a Convergência em Cristo na Plenitude dos Tempos. Portanto, não haveria cruz; jamais entenderíamos a profundidade do amor de Deus. A graça nos seria um conceito desprovido de qualquer sentido.

Sem a Queda, fatalmente seríamos corrompidos por nossa própria perfeição, como teria ocorrido a um querubim que se amotinara contra Deus. Foi melhor sermos humilhados, para, depois sermos exaltados pela Graça divina, do que nos exaltarmos, e sermos definitivamente derrubados de nossa arrogância.

Tudo estava no plano de Deus. A maneira como cairíamos, e como seríamos reconduzidos à glória a fim de que jamais voltássemos a cair.

A serpente não entrou no paraíso por um descuido de Deus.

A provisão de Deus para a reversão da Queda é Cristo. Ele reverteu, através de Sua obediência, o processo desencadeado pelo pecado. E não só zerou nosso débito, mas colocou-nos numa situação de crédito com Deus.

Adão foi tentado no paraíso e caiu. Jesus foi tentado no deserto, e não caiu. Enquanto Adão podia comer de todas as árvores, Jesus, no deserto, não tinha alternativa para saciar Sua fome, senão transformar pedras em pães. Mas Ele resistiu até o último instante.

Agora, Sua vida justa e santa é creditada em nossa conta, enquanto nossos pecados foram debitados na Sua. “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co.5:21).

3 comentários:

  1. Caro pr. Hermes Fernandes,

    Havia alguns dias vinha te acompanhando, pois achei você muito lúcido. Cheguei a elogiá-lo em conversas com a minha esposa. Entretanto, li esse seu texto e percebo que o irmão também é adepto da teologia do deus que bate e assopra, que monta o circo para fazer valer os seus caprichos; que nos trata apostando na nossa infantilidade, uma vez que "Tudo estava no PLANO de Deus".
    Consola-me saber que a sua interpretação da queda não é original, é produto da teologia fundamentalista que, há séculos, norteia o nosso jeito de pensar Deus. Porém, concluo que, com essa hermenêutica bíblica, textos como o seu terminarão sempre a pergunta - "Por que Deus não impediu a Queda?" - em aberto. A resposta tradicional, que remonta, principalmente, os tempos do bispo de Hipona, resume-se a esse jogo de “empurração” em que admitimos a culpabilidade humana, mas sutilmente remetemos a responsabilidade para Deus já que, como frisa o seu texto, “Em Sua sabedoria, Ele [Deus] decidiu que o homem só conheceria Seu amor e Sua graça, se tropeçasse e caísse de seu estado original”.

    Como disse Ricardo Quadros Gouveia, luto para me livrar desse deus. Prefiro continuar crendo no Deus que comanda soberanamente (não controla), que diante da decisão errada, que resulta na queda do ser humano, amorosamente providencia salvação em Jesus Cristo.

    Um abraço,
    Paulo Silvano

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  2. Caro Paulo,

    Sinto ter-lhe desapontado. Minha compreensão é deveras imperfeita, haja vista minhas limitações como ser humano. Faço coro com o bispo de Hipona, pois creio firmemente na soberania divina.

    Se eu não crer em um Deus de Provisão, só me restara crer em um deus de improvisos.

    Definitivamente, Deus jamais foi pego de surpresa. Ele anteviu a queda, e a introduziu em Seu plano redentor.

    Sinto-me mais seguro sabendo que Deus decreta os fins e estabelece os meios. Portanto, nada escapa ao Seu controle (ou comando, se a palavra for mais politicamente correta).

    De qualquer forma, estou sempre aberto a repensar meus posicionamentos. Até o momento, não encontrei nada que me desse mais segurança quanto ao meu futuro, e ao futuro de toda a humanidade.

    Obrigado pelo comentário.

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  3. Dia desses perguntei a Deus porque ele me permitiu pecar. Sim. Aquele pecado que nos traz nojo. Ele poderia ter me impedido disso.
    Ele tem poder pra tudo.

    Mas hoje sei que Deus queria que eu experimentasse do amor, graça e misericórdia Dele e que eu conhecesse mais sobre o perdão através de Jesus.

    Hoje posso dizer:
    ONDE ABUNDOU O PECADO, SUPERABUNDOU A GRAÇA.
    Ufa! Amém!

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