Por Hermes C. Fernandes
Imagine se você se sentisse um homem preso num corpo feminino
ou uma mulher num corpo masculino, e não pudesse fazer nada para mudar esta realidade. Como mensurar o sofrimento de milhares de
transexuais que vivem este dilema existencial? Não bastasse a inadequação,
ainda têm que aguentar o olhar condenatório de uma sociedade hipócrita, incapaz
de amar o diferente, cujos preconceitos são alimentados por um discurso
religioso ultrapassado e desprovido de misericórdia.
Muitos achavam tratar-se de um comportamento aprendido influenciado pela cultura ou pelo ambiente, outros julgavam que seria fraqueza de caráter ou pura sem-vergonhice mesmo, até se
depararem com a chocante realidade de crianças trans como o caso apresentado no Fantástico do último domingo (12/03/2017). O fato é que o transexual percebe
desde cedo que está no sexo errado.
Não confunda homossexualidade com transexualidade. Não se
trata apenas de atração por pessoas do mesmo sexo. Trata-se, antes, de uma
sensação de profundo desconforto com seu próprio sexo anatômico, capaz de levar
a pessoa a desejar empreender uma jornada de transição de seu sexo de
nascimento para o sexo oposto. O que está em jogo é a identidade de gênero. Enquanto um homossexual é capaz de aceitar seu
próprio corpo, o transexual (ou transgênero) sente a necessidade de alterá-lo, adequando-o ao
seu sexo psicológico.
Também não se deve confundir transexualidade com hermafroditismo
ou pseudo-hermafroditismo. Hermafroditas são definidos como pessoas que possuem
ovários e ao mesmo tempo pênis e testículos funcionais, portanto, possuem, por
assim dizer, dois sexos. O transexual possui um único sexo biológico, mas que
não é compatível com seu sexo psicológico. Ele é, digamos, homem por fora, mas
mulher por dentro ou vice-versa.
Antes de abordar a questão à luz do evangelho, gostaria
de propor uma compreensão à luz da ciência. No embrião humano, a genitália se forma por volta da décima semana, enquanto o cérebro ainda se encontra em desenvolvimento. Por volta de vigésima semana, define-se a área que dá a identidade de gênero. Geralmente, a genitália e o cérebro apresentam o mesmo sexo. Porém, no transgênero, ocorre do cérebro apresentar uma formatação diferente. A genitália é masculina, mas o cérebro se estruturou como sexo feminino, ou a genitália é feminina, mas o cérebro é masculino. De acordo com a pesquisa feita no Netherlands Institute for Brain Research por Dick Swaab em 1995, o hipotálamo em transexuais masculinos era do tamanho do feminino ou ainda menor. Em outras palavras: um cérebro de mulher aprisionado em um corpo de homem. Convém salientar que o hipotálamo é a área do cérebro essencial à determinação do comportamento sexual.
Tragicamente, um em cada cinco transexuais tenta o
suicídio, e essa forma de morte é cinco vezes mais frequente entre eles do que
na população em geral. Para muitos deles, a cirurgia de mudança de sexo seria a
última esperança para uma vida mais digna, compatível com suas aspirações
existenciais.
O termo usado atualmente para definir mudanças de
características sexuais é cirurgia de reatribuição ou redesignação sexual, que
reflete a ideia de que as pessoas transexuais não estariam mudando de sexo
propriamente, mas corrigindo seus corpos.
No caso de mulheres
trans, os testículos são retirados e o pênis é cortado ao meio no sentido
do comprimento, com remoção do tecido interno. A uretra é realinhada e a pele
do pênis, preservada, é dobrada para dentro, forrando uma cavidade feita
cirurgicamente e que vai ser a vagina. Em alguns casos, a extremidade do pênis
é transformada em um clitóris capaz de provocar o orgasmo. Frequentemente,
mulheres trans preferem limitar o processo de redesignação sexual à cirurgia de
feminilização facial, o aumento de seios e terapias hormonais.
A cirurgia de redesignação genital em homens trans compreende um conjunto de
procedimentos, incluindo a remoção dos seios, a reconstrução dos genitais e a lipoaspiração.
A maioria delas, porém, prefere submeter-se unicamente à retirada dos seios.
Como poderíamos encarar tal realidade à luz do Evangelho?
No caso de um transexual que se convertesse, seria
correto esperar que voltasse ao sexo original ou ele poderia manter o atual? E
se isso não fosse possível? Estaria a igreja preparada para receber tais
indivíduos sem julgá-los e condená-los?
Comecemos por Jesus. Ele afirma a existência de pessoas
que “castraram a si mesmos por causa do
reino dos céus.” Sabendo que estava pisando em terreno minado, Ele
arremata: “Quem pode receber isto,
receba-o” (Mateus 19:12).
Obviamente, alguns dirão tratar-se de eunucos e não de
transexuais. Precisamos, todavia, considerar
que a transexualidade não era uma questão daquele tempo. Porém, é possível
traçar um paralelo entre o transexual de hoje e os eunucos. Em alguns casos, ambos
têm em comum o fato de se submeterem a um procedimento de alteração em sua
genitália por livre e espontânea vontade.
Entretanto, no caso apresentado por Jesus, tais
indivíduos se castravam por uma causa específica que é o reino dos céus.
O que significaria castrar-se por causa do reino dos
céus? Será que remover a genitália nos tornaria mais dignos de entrar em Seu
reino? Orígenes, um dos pais da igreja, acreditava que sim. Tanto que se
submeteu a isso.
Haveria outra maneira de entender esta enigmática
passagem? Acredito que sim.
Em outra passagem, Jesus afirma que o reino de Deus está dentro
de nós (Lucas 17:20). Isto é, o que vale no reino anunciado por Jesus é o que
se é por dentro e não por fora. É no íntimo que habita a verdade (Salmos 51:6).
Nem sempre há compatibilidade entre o que vemos no espelho e
aquilo com que nos deparamos nos recônditos do nosso ser. E isso pode gerar tal
desconforto a ponto de empurrar-nos para o abismo da depressão e até do suicídio. Paulo diz que ainda que nosso homem exterior não correspondesse às nossas expectativas por está sujeito ao desgaste do tempo, o nosso homem interior se renovaria dia após dia (2
Coríntios 4:16). O corpo tem prazo de validade. A alma traz a vocação de ser
eterna. Razão pela qual, não deveríamos conhecer a ninguém segundo a carne, mas
segundo o espírito, isto é, de acordo com o que se é interiormente (2 Coríntios
5:16). Portanto, alguém poderia sim submeter-se a um procedimento cirúrgico que
visasse corrigir tal incompatibilidade entre seu exterior e seu interior sem
com isso estar rebelando-se contra o seu Criador. Em certo sentido, isso seria
feito pela causa do reino. De acordo com a definição do apóstolo Paulo, o reino
de Deus é alegria, justiça e paz (Romanos 14:17). Se tal procedimento, por mais
traumático que seja, gerar alegria, simetria entre corpo e alma (justiça) e
apaziguar o coração, então, não há razão para condenarmos quem a ele se
submeteu.
Trocar de sexo não significa ser promíscuo, imoral,
pervertido. Significa apenas buscar atenuar o sofrimento resultando da
incompatibilidade entre o que se é por fora e o que se é por dentro.
Não consigo entender porque os cristãos valorizam tanto
aparências, haja vista que o Deus a quem afirmam adorar toma a contramão desta
tendência. Ele mesmo disse ao profeta
Samuel: “O Senhor não vê como vê o homem,
pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração”
(1 Samuel 16:7b).
Alguns dirão: tentar corrigir o sexo é o mesmo que
afirmar que Deus errou.
Se seguirmos esta lógica, então, usar óculos, próteses,
perucas, também deveria ser considerado uma afronta ao Criador. O que dizer de
cirurgias plásticas com objetivos meramente estéticos? E a mulher do pastor que
resolveu dar uma turbinada nos seios? Não sejamos hipócritas!
Somos todos filhos de Adão. Pertencemos a uma raça submetida
às contingências da existência. Como costumo dizer, o mundo ideal ficou atrás
dos portões do Éden. Portanto, sejamos mais complacentes, buscando compreender
o drama vivido por milhares de transgêneros. Quem sabe um dia possamos
acolhê-los livremente em nossas comunidades levando em conta apenas sua
humanidade, reconhecendo neles nossa própria carência de graça, amor e aceitação. Estou
certo de que esta é a vontade de Deus. Uma coisa posso garantir com todas as letras: a multiforme graça de Deus é apta para abarca a multifacetária sexualidade humana. Ninguém, absolutamente ninguém, está excluído do escopo da graça. O Deus que salva héteros, salva gays, lésbicas, transexuais, bissexuais e qualquer que seja a categoria que exista ou venha surgir. Não ouse subestimar o escandaloso amor de Deus.
Certamente o assunto não se esgota aqui. Só espero ter
dado um pontapé inicial que provoque uma onda de diálogo entre os seguidores de Cristo e este importante segmento social.
Assista abaixo um drama verídico que poderá lhe ajudar a entender a questão com um olhar mais humano e cristão, e em seguida, a reportagem veiculada no Fantástico.
