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domingo, março 26, 2017

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INFERNO: FECHADO PARA BALANÇO



Por Hermes C. Fernandes

No penúltimo parágrafo do meu último post sobre o inferno, fiz uma afirmação que inquietou algumas mentes. Qual seria a vantagem de se crer e obedecer às demandas do evangelho, uma vez que todos indistintamente serão alvos da misericórdia divina? Apesar de relutar em responder a tal questão (apesar de pertinente, não gosto de falar em vantagens. Soa-me pretensioso demais), declarei que os que crerem serão preservados íntegros, corpo, alma e espírito para o dia de Jesus Cristo, e, por conseguinte, para toda a eternidade. Enquanto os demais estarão como que fragmentados, haja vista que sua existência terá sido descartada, porém, sua essência será redimida e preservada.

Em que me baseei para chegar a esta conclusão? De primeira mão, na passagem em que Paulo diz que o mesmo Deus de paz nos santificaria em tudo, de modo que o nosso espírito, alma e corpo fossem plenamente conservados íntegros (1 Tessalonicenses 5:23). Geralmente, pensamos em integridade como uma virtude moral. Mas neste texto em particular, está se falando de inteireza, de totalidade, de completude. Nosso ser não se dissipará, mas chegará inteiro à eternidade. Quando se fala de “espírito” (pneuma), está se falando da essência, daquela centelha divina que existe em cada ser humano. Trata-se de consciência, o maior de todos os mistérios. Já a “alma” (psique) é onde reside nossa personalidade, com suas qualidades, seus traços peculiares, sua memória, suas emoções, suas vontades. O “corpo” (soma) é o instrumento através do qual interagimos com o mundo à nossa volta.

Permita-me uma analogia: o computador que estou usando agora pode ser dividido em três partes distintas, mas que trabalham em conjunto. Há o hardware, que é a parte física, a máquina em si, com seus transistores, suas placas, sua tela, teclado e entradas. Este equivale ao nosso corpo. Há o software composto pelos programas instalados. Sem ele, a máquina não roda. Este equivale à alma, nossa psique. E finalmente, há a internet que conecta o computador, via provedor, a uma rede mundial de computadores. Este é o espírito! E nem precisa dizer que o tal provedor é o Espírito Santo, mediante quem temos acesso a Deus (Efésios 2:18).

A salvação proposta em Cristo é plena e abarca o ser por inteiro. Nada se perde! O escritor de Hebreus afirma que Cristo “pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus” (Hebreus 7:25). Em Cristo, existência e essência se fundem. Tudo o que há no céu e tudo o que há na terra convergem (Efésios 1:10), tornando-se um todo indivisível, dois lados de uma mesma moeda.

Nem mesmo nosso corpo será descartado. Ele ressuscitará incorruptível! É um baita equívoco acreditar que seremos espíritos desencarnados feitos fantasminhas vagando entre as nuvens. Receberemos um corpo novinho em folha! Convém, porém, salientar que, a Bíblia fala da ressurreição do "corpo" (soma), não da "carne" (sarx). Isso, porque "carne e sangue não podem herdar o reino de Deus; nem a corrupção herda a incorrupção" (1 Coríntios 15:50).  O corpo espiritual de que fala Paulo será tangível, material, mas não carnal, nem tampouco sujeito ao desgaste do tempo e à morte (Leia mais sobre a ressurreição do corpo aqui).

O novo corpo não será a continuidade do atual. Paulo compara nosso corpo atual a uma tenda portátil (tabernáculo), enquanto nosso corpo celestial seria um edifício, reservado no céu para nós (2 Coríntios 5:1).  As moradas a que Jesus se refere como estando preparadas para nós não são mansões literais, mas nossos corpos celestiais. Essa "tenda" é apenas o andaime que precisará ser removido para dar lugar ao edifício glorioso que emergirá. Ou se preferir, este corpo é o casulo que se romperá para que possamos usufriur plenamente da vida em seu novo estágio na eternidade. Nossos novos corpos serão, ao mesmo tempo, continuação dos atuais no que tange à morfologia (forma), e algo totalmente novo no que tange à natureza.  Sem este novo corpo, jamais poderíamos viver no ambiente da eternidade, composto do novo céu e da nova terra, que nada mais são do que os atuais inteiramente restaurados.

Mesmo que não seja exatamente o mesmo corpo, creio que nosso corpo espiritual guardará várias de nossas características físicas, sobretudo, as fisionômicas. É como se Deus guardasse nos arquivos celestiais um backup com a sequência exata de nosso DNA, acrescido de uma espécie de código de nossa consciência, que preservará intacta a memória de todas as nossas experiências. Nada se perderá! A única coisa que será removida de nossa natureza será o pecado, causador da morte. Seremos nós, nosso código genético, nossa personalidade, nossa fisionomia, porém, aperfeiçoados, sem enfermidades ou deformações, sejam de caráter físico ou psicológico. Talvez, apenas algumas cicatrizes que serão como troféus, marcas de uma vida dedicada à causa do reino de Deus e de Sua justiça.

Fique tranquilo, que certamente nos reconheceremos lá, mesmo com as eventuais correções em nossa aparência. Nossa personalidade, e, por conseguinte, nossa memória serão preservadas. Nossa história jamais será esquecida. Caso contrário, não seríamos nós, mas outros. E não haveria qualquer razão para ações de graça.  Como agradecer por algo de que não temos qualquer lembrança? Como poderemos louvar ao Cordeiro, se não nos lembrarmos dos nossos pecados que O levaram à cruz? Quando a Bíblia diz que não haverá mais lembranças das coisas passadas, não é no sentido de que seremos submetidos a uma espécie de amnésia. Mas no sentido de que não serão mais essas lembranças que determinarão nossa vida. Assim como Deus diz não se lembrar dos nossos pecados. Todavia, ninguém deduz daí que Ele sofra de amnésia.

E quanto aos que serão alvos tão somente da reconciliação universal? O que eu quis dizer ao afirmar que os tais estarão como que fragmentados? Sua existência terrena terá sido descartada, restando-lhe apenas a essência, a centelha divina. Terão que conviver com a vergonha de terem desperdiçado a oportunidade de existirem por algo mais significativo que suas próprias vidas.

Algo análogo pode ser visto em Paulo. Sua vida pregressa era motivo de grande vergonha. Afinal, ele foi um perseguidor voraz dos seguidores de Cristo. Apesar de inteiramente convertido, o apóstolo dos gentios teve que conviver com um espinho em sua carne, que segundo ele, era um mensageiro de Satanás que o esbofeteava, jogando em sua cara seu passado tenebroso. Suas orações não foram suficientes para que tal espinho fosse removido. Em vez disso, ouviu de Cristo que a Sua graça lhe bastava.

Pense nisso numa proporção astronômica. Mesmo não tendo o diabo para acusá-los, nem mesmo um mensageiro dele para esbofeteá-los, os que forem alvos da soberana graça de Deus após sua morte terão que conviver com a lembrança de haver desperdiçado sua existência, insistindo em viver para si mesmos. Nada lhes poderá remover tal espinho. Todavia, a mesma graça que bastava a Paulo, ser-lhes-á suficiente para sempre.

Uma pista disso pode ser encontrada na profecia de Enoque citada por Judas em sua epístola: “Vede, o Senhor vem com milhares de seus santos, para fazer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e de todas as duras palavras que ímpios pecadores contra ele proferiram” (Judas 1:14b-15). Quão profunda e perturbadora será essa convicção! Se o olhar de Jesus fez com que Pedro passasse uma noite inteira chorando arrependido por tê-lo negado, como se sentirão aqueles que o houverem negado por toda sua vida?

Contudo, devo salientar que não creio que haverá distinção entre cidadãos de primeira classe (que houverem sido salvos durante sua existência terrena) e cidadãos de segunda classe (que se beneficiaram unicamente da reconciliação universal). Todos terão consciência de que foram alvos da mesma misericórdia. A graça que nos salvou em vida, os terá salvado de uma eternidade de tormento. E não será uma salvação meia-boca. Abarcará igualmente seu ser por inteiro, corpo, alma e espírito.

Serão como filhos pródigos, recebidos com festa por um pai amoroso. Duvido que seus irmãos primogênitos se neguem a participar da grandiosa recepção que os aguarda, como fez o irmão mais velho da parábola. 

Primícias. É assim que as Escrituras se referem a nós, os que houvermos sido alcançados pela graça salvadora ainda em vida. De acordo com o testemunho de Tiago, “ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tiago 1:18). Somos os que “foram comprados dentre os homens para serem as primícias para Deus e para o Cordeiro” (Apocalipse 14:4).

Este termo é oriundo da agricultura e refere-se aos primeiros frutos da terra. O termo também era aplicado à primogenitura. Somos os primeiros a gozar das bem-aventuranças da nova criação. Porém, não os únicos.

Formamos o que o escritor sagrado chama de “igreja dos primogênitos inscritos nos céus” (Hebreus 12:23). Não somos chamados de unigênitos, e sim de primogênitos, indicando que haja outros depois de nós.

Enquanto nos dedicamos ao nosso pai, temos irmãos que como o pródigo da parábola estão desperdiçando suas vidas nos prazeres terrenos. O mesmo pai que celebra nossa fidelidade e companhia, há de celebrar seu retorno, declarando em alto e bom tom: o que havia se perdido, foi achado e o que estava morto, reviveu.

É importante que se diga que o que tenho proposto aqui está longe de ser comparado à doutrina do purgatório. O inferno serve ao propósito de conscientização, não simplesmente de punição ou retribuição. Quem para lá for enviado terá que reconhecer a gravidade de seu pecado, bem como sua desesperadora necessidade de redenção. Porém, esta redenção é mediante o sacrifício de Jesus somente. Não se trata da pessoa pagar por seu pecado, para então ter direito à vida eterna.

Por quanto tempo viverão no inferno? Esta é uma pergunta que perde o sentido quando nos damos conta de que se trata de uma esfera atemporal. Um milionésimo de segundo no inferno poderia equivaler a uma eternidade em nosso tempo. Neste caso, a intensidade conta mais que a durabilidade. Imagine o estrago feito por uma gota de lava vulcânica? A quantidade não significa tanto quanto a intensidade.

Há razões bíblias para se crer que haverá graduações de castigo. Na parábola contada por Jesus, aquele servo que disser em seu coração: “O meu senhor tarda em vir; e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, virá o senhor desse servo num dia em que não o espera, e numa hora de que não sabe.” Porém, “o servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; mas o que não a soube, e fez coisas que mereciam castigo, com poucos açoites será castigado. Daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá” (Lucas 12:45-48). Uma boa hermenêutica não nos permite elaborar uma doutrina a partir de uma parábola. Entretanto, esta parábola, aliada ao bom senso, nos oferece indícios de que a justiça divina requeira penas proporcionais ao delito praticado.

Obviamente que “açoites” deve ser entendido com um eufemismo. O algoz que nos aplica tal açoite é a nossa própria consciência.

Nem sempre estes "açoites" vêm em forma de castigo propriamente. Muitas vezes se manifestam através de gestos de amor que nos constrangem. Trata-se de uma graça que nos deixa absolutamente sem graça. Muito da ética cristã brota daí. Daí a instrução de Cristo para que amemos e tratemos bem a nossos inimigos. "Portanto", conclui Paulo, "se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber, porque, fazendo isto, AMONTOARÁS BRASAS DE FOGO sobre a sua cabeça" (Romanos 12:20). De fato, como disse Paulo, "o amor de Cristo nos constrange" (2 Coríntios 5:14). Juntar brasas sobre a cabeça de alguém é como incendiar sua consciência, deixando profundamente constrangido ante o amor por ele demonstrado. Um exemplo clássico disso é encontrado no livro "Os Miseráveis" de Victor Hugo.  Jean Valijean, um ex-presidiário rejeitado por todos é recebido na casa do benevolente bispo Myriel. Mas em vez de mostrar gratidão, rouba-lhe os talheres de prata durante a noite e foge. Logo é preso e levado pelos policiais à presença do bispo, que em vez de incriminá-lo, prefere inocentá-lo, alegando que a prata flagrada com ele havia sido um presente. Após esta demonstração de bondade, Jean Valijean tem sua vida transformada. Ninguém jamais o havia amado como aquele bispo. Pode-se dizer que aquele gesto de amor foi o açoite mais doloroso que ele recebeu na vida, mas que transformou-o em um novo homem. 

A eternidade é o reino da consciência. O inferno representa uma consciência perturbada e torturada pela culpa. O céu representa uma consciência apaziguada, em plena harmonia com os propósitos do Criador.  


Na medida em que nossa consciência vai se ampliando através do processo chamado de arrependimento (metanoia = expansão de consciência), é-nos concedida entrada cada vez mais ampla no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (Confira 2 Pedro 1:10-11).

Quão gratificante é saber que no universo restaurado por Deus não haverá lugar para uma câmara de tortura e que a misericórdia divina é bem mais ampla do que nos contaram. Como é bom saber que mesmo os que morreram sem o conhecimento desta surpreendente graça há de por ela ser contemplada, pois as misericórdias do Senhor não têm fim, mas se renovam de eternidade em eternidade. 

sexta-feira, março 24, 2017

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O FIM DO INFERNO!



"Se eu te adorar por medo do inferno, queima-me no inferno. 
Se eu te adorar pelo paraíso, exclua-me do paraíso. 
Mas se eu te adorar pelo que Tu és, não escondas de mim a Tua face." 
Rabia, 800 d.C.

 Por Hermes C. Fernandes

Se alguém entendeu através dos posts anteriores que não creio na existência do inferno, sinto informar que se enganou. O inferno existe. Mas não é a câmara de tortura eterna que muitos imaginam que seja. As imagens usadas para descrever o inferno nada mais são do que uma tentativa de conscientizar às pessoas sobre a gravidade de se levar uma vida autocentrada, alienada de Deus e de seus semelhantes. O inferno é uma condição existencial. Ele começa a ser experimentado já nesta vida e se plenifica após a morte. Suas chamas são uma metáfora do juízo divino sobre toda impiedade e injustiça. Isso está claro em passagens como a de Deuteronômio 32:22, onde lemos: “Porque um fogo se acendeu na minha ira, e arderá até ao mais profundo do inferno, e consumirá a terra com a sua colheita, e abrasará os fundamentos dos montes.”

Portanto, pode-se afirmar que o inferno seja a resposta de Deus à injustiça perpetrada pelo homem.

Mesmo o batismo de fogo a que se refere o movimento pentecostal nada mais é do que a manifestação da justa ira de Deus contra a iniquidade. Ao referir-se àquele que o sucederia, João Batista declarou: “Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das sandálias; esse vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele tem a pá na sua mão; e limpará a sua eira, e ajuntará o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga” (Lucas 3:16-17). Repare nisso: são dois tipos de batismo que Jesus traria: o do Espírito que visa a restauração e renovação de tudo e o de fogo que visa a purificação. Para que haja purificação, algo precisa ser consumido. Tudo que é palha deve ser consumido pelo fogo da justiça divina. Tudo o que é fruto da vaidade e presunção humanas. Tudo que tem no ego a sua base de sustentação. É a isso que o escritor sagrado se refere ao falar da “remoção das coisas abaláveis (...) para que as inabaláveis permaneçam” (Hebreus 12:27).

O próprio Jesus dá testemunho de que para tal Ele viera ao mundo: “Vim lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está aceso?” (Lucas 12:49). É este fogo que põe à prova nossas obras. Tudo o que é feito para durar, escapa ileso à sua fúria. Mas o que visa tão-somente alimentar nossa arrogância e narcisismo e suprir nossa busca desenfreada por prazer será fadado a ser consumido. Só vale a pena manter o que transcende à nossa própria existência; o que não tem prazo de validade; o que visa não apenas o nosso bem, mas o do nosso próximo. É o que Jesus chama de "ajuntar tesouros no céu." E quando digo “próximo”, não me refiro apenas à proximidade geográfica ou similitude, mas também àquele que vem depois de nós, e que desfrutará do nosso legado. Amar o próximo também é amar que vem após nós; aquele que ocupará o lugar que hoje ocupamos, e que usufruirá do fruto de nosso trabalho. Tudo o que for feito visando apenas nosso aprazimento, não resistirá à prova do fogo, e, portanto, não sobreviverá a nós.

Viver para si é a essência do que as Escrituras chamam de pecado. Se repararmos na natureza, nada vive para si. As árvores não se alimentam dos frutos que produzem. Os rios não bebem de sua própria água. O sol não brilha para si. As flores não sentem a fragrância que exalam. Tudo o que Deus criou, Ele o fez para que existisse para além de si. Isso é transcendência! Somente isso poderia nos garantir a eternidade. De acordo com Paulo, Cristo morreu por todos “para que os que vivem não vivam mais para si” (2 Coríntios 5:15).

Este é um dos assuntos principais abordados por Paulo em suas cartas. Ele mesmo deu testemunho em sua despedida dos efésios: “Em nada, porém, considero minha vida preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24). Por isso, ele não se importava de sofrer qualquer que fosse o prejuízo, até mesmo a morte. Sua obra no Senhor seria a evidência de que sua vida não teria sido em vão.

Só há, por assim dizer, uma maneira de ser poupado das chamas do juízo de Deus: deixar-se consumir em vida por amor. O que não for consumido pelas chamas do amor, será consumido pelas chamas do juízo. Era tal consciência que movia o apóstolo de modo que não se importava em exaurir suas forças e energias pelo bem de todos. “Eu de muito boa vontade gastarei”, testifica, “e me deixarei gastar pela vossa alma, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado” (2 Coríntios 12:15). Tal postura subversiva era alimentada pelas palavras de Cristo: “Quem ama sua vida, a perderá, mas quem odeia a sua vida neste mundo a guardará para a vida eterna” (João 12:25). “Odiar” aqui tem o sentido de desprezar, não atribuir valor, fazer pouco caso, desdenhar. Somos desafiados a abrir mão de nossa própria vida por algo infinitamente maior. “Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá”, diz o Cristo, “mas quem perder a sua vida por minha causa e do evangelho, esse a salvará” (Marcos 8:35). Para nós, seguidores de Cristo, o inferno não é o outro como dizia Sartre, o filósofo existencialista francês. O outro é a possibilidade do céu. Viver para o outro é poupar-se de uma vida desprovida de significado. Viver para o outro é deixar vago seu lugar no inferno. É garantir que suas obras continuarão a repercutir mesmo depois de sua partida, ecoando na eternidade. Eis a promessa: “Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansarão dos seus trabalhos, pois as suas obras os acompanharão” (Apocalipse 14:13).

Tanto Paulo, quanto Moisés, parecem ter captado tal verdade. Somente isso justificaria certas posturas radicais adotadas por eles. Paulo, por exemplo, diz que preferia estar separado de Cristo se isso resultasse na salvação de seus patrícios. “Porque eu mesmo”, afirma o apóstolo, “desejaria ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne; os quais são israelitas...” (Romanos 9:3-4a).  Repare: Ele estava disposto a abrir mão da própria salvação caso isso garantisse que os judeus fossem alcançados. Ele hipotecaria a eternidade pelo bem de quem o perseguia. Moisés adotou postura semelhante ao pedir que Deus riscasse seu nome do livro da vida, mas não desistisse do Seu povo (Êxodo 32:32). Uma espiritualidade egocêntrica como a que tem sido pregada em nossos dias jamais produziria tal disposição. Cada qual está interessado em salvar a sua própria pele.

Para Paulo, Cristo é o fundamento da nova humanidade, assim como Adão foi o fundamento da humanidade original. Cada ser humano é convidado a escolher com que material vai edificar sua vida em cima deste fundamento.  Uns escolhem material de primeira, resistente ao tempo e ao fogo, outros, porém, escolhem material de qualidade duvidosa.

“Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio construtor, o fundamento, e outro edifica sobre ele. Mas veja cada um como edifica sobre ele. Pois ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento levantar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará, porque o dia a demonstrará. Pelo fogo será revelada, e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou sobre ele permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda; o tal será salvo, todavia como pelo fogo.” 1 Coríntios 3:10-15

Repare nisso: o fogo é o instrumento de controle de qualidade usado por Deus. O que sobrevive a ele, está destinado a durar para sempre. O que sucumbe a ele, está destinado a perecer para sempre. Mas há algo que geralmente passa despercebido nesta passagem: “Se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda; O TAL SERÁ SALVO, todavia como pelo fogo.” Leia quantas vezes quiser. O texto seguirá sendo o mesmo. Nenhum tradutor da Bíblia ousou modificá-lo para encaixá-lo em sua doutrina.

É esta mesma esperança que encontramos numa outra passagem igualmente ignorada: “E apiedai-vos de alguns que estão na dúvida, salvai-os, arrebatando-os do fogo” (Judas 22-23a). Que bom que as portas do inferno não prevalecem contra nós! Podemos simplesmente invadi-lo e tirar de lá os que estão perecendo ainda em vida. Se é verdade que podemos salvar o que perecem em vida, que dirá Cristo poderá arrebatar os que lá estiverem após a morte (vamos nos aprofundar nisso adiante).

Então, o inferno não teria a última palavra? Não! Ele visa consumir o que não foi “consumido” pelo amor. A palha do egoísmo, o feno da avareza, a madeira da corrupção e da promiscuidade que coisifica o ser serão devorados por suas chamas. Porém, no final, a essência do ser será salva. Embora sua existência terrena não tenha passado no controle de qualidade dos céus, sua essência (espírito) será salva, ainda que pelo fogo.

E como lemos anteriormente, este fogo já está aceso. Suas labaredas podem ser sentidas desde já. O escritor de Hebreus afirma que “se voluntariamente continuarmos no pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas certa expectação horrível de juízo e ardor de fogo que há de devorar os adversários” (Hb.10:26-27). Observe bem: apesar de filhos, não somos poupados deste “ardor de fogo”, porém, não somos devorados por ele. Afinal, o inferno foi “preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41). Por isso, lemos que este fogo “há de devorar os adversários”. Aliás, para quem diz que se trata de “fogo” diferente, como explicar esta passagem? O fogo é exatamente o mesmo! Uma metáfora para o juízo de Deus contra toda a injustiça. Este fogo devora uns, purifica outros. Devora demônios, purifica humanos.

Vasos de honra x vasos de desonra

Estariam todos destinados à salvação? Não! Quer dizer... depende do que chamamos de salvação. A Bíblia é clara ao afirmar que há “vasos de honra” destinados à salvação, e “vasos de desonra” destinados à perdição. Todavia, precisamos entender o sentido disso, e para tal, recorreremos a duas passagens. Em Romanos 9:21-23 lemos que da mesma massa, Deus, o Oleiro, fez um vaso para honra e outro para desonra. Para o autor desta epístola, o objetivo de Deus ao criar vasos para desonra era “mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder”,  e que os mesmos estaria “preparados para a perdição”. Em contraste, o mesmo Oleiro teria criado vasos de honra, através dos quais “desse a conhecer as riquezas da sua glória”. Estes também são chamados de “vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou”.

Geralmente, quando lemos “vasos de misericórdia”, entendemos que se trata de recipientes destinados a serem alvo da misericórdia divina, resultando em sua salvação. Acho que não entendemos direito. Ser vaso não é ser receptáculo, mas ser instrumento através do qual algo será servido. Portanto, ser vaso de misericórdia é ser o canal pelo qual a misericórdia será servida a outros. E como bem disse Jesus, “bem-aventurados os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia” (Mateus 5:7). Contudo, Tiago nos alerta que “o juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia”;  mas apesar disso, mesmo que o juízo divino seja severo, “a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tiago 2:13).

Pena que muitos se atêm à passagem em que Paulo distingue os vasos de misericórdia dos vasos de ira. Bom seria se avançassem um pouco no texto e lessem, dentre muitas coisas, o que ele diz no capítulo 11: “Assim como vós também outrora fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia pela desobediência deles, assim também estes agora foram desobedientes, para igualmente alcançarem misericórdia a vós demonstrada. Pois Deus colocou a todos debaixo da desobediência, a fim de PARA COM TODOS USAR DE MISERICÓRDIA”(vv.30-32).

Portanto, a misericórdia revelada através dos “vasos de honra” é apenas uma amostra grátis da que se revelará indistintamente a todos. Se invariavelmente ela triunfa sobre o juízo, logo, a única conclusão possível é que ela, a misericórdia, terá a última palavra. Quem se sente desconfortável com isso precisa rever sua fé, pois esta não parece estar baseada no amor, a não ser que seja no amor próprio.

A figura do vaso é uma referência à nossa existência terrena. O vaso, portanto, está sujeito às contingências desta vida. Como disse Paulo em outra passagem, “numa grande casa não há somente vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar dessas coisas, será vaso para honra, santificado, idôneo para uso do Senhor e preparado para toda a boa obra” (2 Timóteo 2: 20). Mesmo os vasos de desonra servem a um propósito divino: ser instrumentos através dos quais a justa ira de Deus é demonstrada.

Vasos de ouro e de prata estão destinados a terem suas existências eternizadas. Suas obras os acompanharão, como vimos há pouco. Vasos de pau e de barro são aqueles cujas existências foram desperdiçadas numa vida autocentrada. Em se tratando de "existência", não há segunda chance. Só existimos uma vez. Falo de existência de acordo com a definição existencialista. Vamos levar daqui exatamente o que houvermos vivido. Mas as obras de alguns serão queimadas. Entretanto, seu "eu essencial" será salvo. Como disse o sábio Salomão, o corpo volta para o pó, mas o espírito volta pra Deus que o deu.  O que mais importa não é o recipiente em si, mas seu conteúdo. Por isso Paulo identifica o homem interior, a essência, como um tesouro em vaso de barro (2 Coríntios 4:7), e conclui afirmando que “ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (v.16).

Com isso em mente, fica mais fácil entender o que Paulo intentava ao afirmar haver entregue alguém a Satanás “para a destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus” (1 Coríntios 5:5). Obviamente que foi uma medida disciplinar drástica, usada pelo apóstolo para poupar a igreja de um escândalo sem precedentes. Quem se atrever a acusa-lo de falta de misericórdia, deve repensar sua postura ao defender que alguém padeceria eternamente no inferno sem dó, nem piedade. Apesar de drástica, a disciplina apostólica não excluía a certeza de que aquela vida seria poupada de um sofrimento eterno.  Entregar o corpo ao diabo é um eufemismo, e pode ser considerado o mesmo que colocar a existência sob o escrutínio e juízo divinos.  

Ainda que a existência se perca, que a vida tenha sido um completo desperdício, destino à lixeira do universo, a essência não pode ser perder, haja vista ter sua origem no próprio Deus.

Para fins didáticos, faço uma distinção entre salvação e a reconciliação. Salvação diz respeito à existência, reconciliação diz respeito à essência.  Repare no que diz Paulo aos Romanos:
“Pois se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida (...) Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens, para justificação e vida.” Romanos 5:10,18
Parece-me claro que haja uma distinção entre salvação e reconciliação. Através da cruz, toda a criação foi reconciliada com Deus. Somos reconciliados pela morte de Cristo e salvos pela sua vida em nós. Esta reconciliação, todavia, não se restringe aos que têm sua existência ressignificada, mas a todos os homens indistintamente.  O que não significa que não possam ser condenados, isto é, ter suas existências reprovadas pelo juízo divino e sofrer as devidas sanções. Entretanto, sua essência será plenamente redimida para além do tempo e do espaço.

E como se dará isso? Da mesma maneira como ocorre durante a vida terrena, mediante o reconhecimento e confissão do senhorio de Cristo sobre todas as esferas da existência. “Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor(...) serás salvo”, declara Paulo (Romanos 10:9).

Para muitos, esta confissão só tem validade durante nosso prazo de vida terrena. Após a morte, todas as possibilidades estão esgotadas. Porém, não é isso que encontramos nas Escrituras. O mesmo Paulo diz ao nome de Jesus se dobrará “todo joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra” e que toda língua confessará “que Cristo Jesus é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Filipenses 2:10).

João reverbera o mesmo ensino apostólico na descrição de sua visão no Apocalipse:

“Então ouvi a toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e no mar, e a todas as coisas que neles há, dizerem: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o poder para todo o sempre.” Apocalipse 5:13

Ora, a expressão "debaixo da terra" é uma alusão àquela esfera existencial a que chamamos de inferno. Se os que lá estiverem reconhecerem a Jesus como Senhor, serão igualmente salvos, podendo, então, usufruir da reconciliação provida pelo sacrifício de Jesus.  O que João descreve é a cena desta promessa divina concretizada: toda criatura, inclusive as que estiverem no inferno, prestando tributos e louvores ao Cordeiro, reconhecendo-O como Senhor.

Ainda que suas existências tenham sido desperdiçadas, sendo lançadas no lixão da história, sua essência será restaurada.

Então, qual a vantagem de se servir a Cristo se no final das contas todos serão alcançados por esta mesma graça? Caso você tenha feito esta pergunta, sugiro que reveja sua fé. Você está adotando a mesma postura do irmão mais velho da parábola do Filho Pródigo.

O mesmo Cristo que é “a propiciação pelos nossos pecados”, também é “pelos de todo o mundo” (1 João 2:2). Não ouse subestimar o alcance de Sua graça.

E isso também não é justificativa para deixarmos de trabalhar pelo avanço do reino de Deus. Cada vida salva durante sua jornada neste mundo é poupada do ardor do fogo da justa ira divina. "Pois para isto é que trabalhamos e lutamos”, conclui Paulo, “porque esperamos no Deus vivo, que é o salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis”(1 Timóteo 4:10). Ele não é salvador de alguns. Ele é salvador de todos, ainda que, de maneira especial, seja o salvador daqueles que n’Ele depositam sua fé. Portanto, Ele é salvador de crentes e incrédulos! A diferença é que uns são alcançados durante a História, enquanto outros, após ela. Os que são salvos durante sua jornada existencial são os vasos de honra, aqueles através de quem a misericórdia é servida ao mundo. Os que são salvos após a história são os vasos de desonra, cujas vidas servem ao propósito de serem um sinal de advertência da justiça divina.

A parte d’Ele está feita! Resta apenas a nossa parte.

“E tudo isto provém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação, isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens os seus pecados, e nos confiou a palavra da reconciliação.” 2 Coríntios 5:18-19

Deus não está de mal com o mundo! Esta é boa nova do evangelho! Nossa missão é anunciar tal fato a todos para que desfrutem imediatamente o favor divino. Não se trata de garantir passagem de ida para o céu, mas de trabalhar para que a vontade de Deus seja feita aqui na terra como é feita no céu.

Conhecida como “reconciliação universal”, tal perspectiva teológica considera a possibilidade de que todos, eventualmente, desfrutarão da comunhão com Deus, ainda que após o final da história. Se alguém imagina que tal perspectiva seja algo novo, devo salientar que muitos cristãos sinceros a têm esboçado ao longo dos séculos. Entre eles, destacamos C.S. Lewis, anglicano, autor de “As Crônicas de Nárnia”, Philip Yancey, celebrado autor norte-americano, Gerald Mann, pastor batista, Charles Schulz, metodista e criador do Snoopy, Robert Short, pastor presbiterianos, Carl Rahner, teólogo católico, Tony Campolo, pastor batista, Brennan Manning, ex-monge franciscano e autor também muito celebrado entre os evangélicos brasileiros, Karl Barth, teólogo protestante, Hans Küng, teólogo católico, Paul Tournier, psiquiatra protestante, Emil Brunner, teólogo protestante, Rob Bell, considerado o mais influente pastor norte-americano das últimas décadas, e tantos outros. Até o século V era uma das vertentes mais fortes dentro da teologia cristã. Outros como John Stott, pastor e autor episcopal, não acreditavam propriamente numa reconciliação universal, mas se recusam a endossar o ensino de um inferno eterno por considerá-lo incompatível com o amor de Deus. Para estes, só uma chama poderia ser eterna, e não era a do inferno!

Alguns como Jürgen Moltmann, autor de “Teologia da Esperança” não chegam a afirmar categoricamente a reconciliação universal, mas deixam aberta a porta da possibilidade de que esta seja a vontade de Deus. "Não prego a reconciliação total, prego a todos a reconciliação na cruz de Cristo”, declarou o teólogo suíço. “Não anuncio que todos serão remidos, mas confio que a mensagem será anunciada até que todos se salvem. Se o futuro de Deus se chama realmente: eis que faço novas todas as coisas, todos estão convidados e ninguém está excluído. Mesmo para aqueles que rejeitam o convite ele continua de pé, pois vem de Deus. Eu não sou um universalista, mas Deus pode sê-lo. Eu não ensino a reconciliação total, mas também não nego. Deus não sossega até que todas as suas criaturas, como o filho pródigo da parábola, tenham retornado a seu seio.”

Durante muito tempo, estive entre estes. Torcia para que fosse verdade. E acho que este deveria ser o desejo de todo discípulo de Cristo. Até que um dia, deparei-me com um verso que deixa claro que esta não era apenas a minha vontade, mas a vontade do próprio Deus. A partir daí, deixei de torcer para que tal possibilidade se comprovasse verdadeira, e passei a pregá-la em alto e bom tom, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado. Refiro-me à maravilhosa passagem que diz que Deus “quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4). Esta passagem é confirmada pelo testemunho de Pedro de que Deus não quer “que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se” (2 Pedro 3:9).

Uma coisa sou eu querer. Outra coisa é Deus querer.

Quem poderá impedir que Seu desejo se cumpra? “Operando eu, quem impedirá?” (Isaías 43:13).

E se alguém insiste em que as coisas só possam ser resolvidas durante nosso prazo de vida, dou-lhe a resposta dada pelos santos lábios de Jesus: “Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25). Quem diria que alguém já estando morto, ainda assim, poderia crer?


Chegará o momento em que já não haverá razão para que o inferno exista. Seu destino está selado. Ele terá que devolver os que nele estiverem, e por fim, será lançado no lago de fogo (Apocalipse 20:13-14). O inferno deixará de ser.

Sabe quando você decide apagar um arquivo de seu computador? Ele primeiro vai para a lixeira. Mas ainda está ali, na memória da sua máquina. Até que você resolva deletá-lo de uma vez, de modo que jamais possa recuperá-lo. De igual modo, toda existência que houver sido desperdiçada pelo egoísmo, será banida, aniquilada para sempre, juntamente com o inferno no lago de fogo.

Se puder enumerar vantagens (detesto este termo), posso dizer que os que creram durante sua vida terrena serão preservados íntegros, corpo, alma e espírito por toda a eternidade (1 Tessalonicenses 5:23). Os demais estarão como que fragmentados, posto que sua existência terá sido descartada, mas sua essência preservada pelos séculos dos séculos em honra às entranháveis misericórdias de Deus.

Não desperdice sua vida! Não queira fazer escala no inferno. Um milionésimo de segundo lá vale por uma eternidade. Viva para a glória de Deus! E só há uma maneira de fazê-lo: vivendo para o bem de todos, gastando-se e se deixando gastar por amor. 

P.S. - Já que insistem com rótulos: Calvinismo - Deus pode, mas não quer salvar a todos. Arminianismo - Deus quer, mas não pode. Universalismo - Deus tanto pode, quanto quer. Ele é tanto Todo-Poderoso, quanto Todo-Amoroso. Haveria glória maior? Todo joelho se dobrará, toda a língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor para a GLÓRIA de Deus Pai. 

domingo, novembro 29, 2015

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A Redenção do Meio-Ambiente e a Coroa de Espinhos


Por Hermes C. Fernandes




Para entendermos melhor a grandiosidade da redenção realizada por Cristo, precisamos compreender a extensão do estrago feito pela Queda/Ruptura. O pecado não apenas atingiu o ser humano, seu protagonista, como também o cenário no qual estava inserido. E isso por causa de profunda ligação entre o homem e a terra. Biblicamente, esses dois termos são muitas vezes intercambiáveis (por exemplo: Sl.96:13; Jr.22:29; Os.1:2; Ap.13:3). Quando Deus fala à Terra, está falando aos seus moradores. O homem não é apenas produto do pó da terra, ele é a Terra, que recebendo o sopro da vida, passa a ter consciência de si mesma, e da realidade na qual está inserida.

O pecado humano não poderia ficar impune. Ele traria resultados que afetariam o homem e o seu ambiente.
“Ao homem disse: Porque deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por tua causa; em fadiga comerás dela todos os dias da tua vida. Ela produzirá também espinhos e abrolhos, e comerás das ervas do campo. Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; pois és pó, e ao pó tornarás.” Gênesis 3:17-19
Até aquele momento, a Terra era um ecossistema perfeito, um verdadeiro paraíso. Todos os seres vivos estavam em harmonia, e submetiam-se prazerosamente ao homem. Lavrar e guardar a terra era uma atividade extremamente prazerosa e gratificante. Mas agora, o trabalho tornar-se-ia penoso, na medida em que a terra passasse a produzir espinhos e abrolhos. O homem e toda a natureza havia se degenerado.

Nas palavras de Paulo, “a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou” (Rm.8:20). Os espinhos representam a reação da natureza à vaidade humana. Ela que antes estava sujeita ao homem em plena comunhão com seu Criador, agora teria que se sujeitar a um homem rebelde e vaidoso. Por mais que o homem busque construir um ambiente mais acolhedor, tentando de algum modo reproduzir artificialmente o paraíso perdido, os espinhos o acompanham. Isaías profetiza: “Nos seus palácios crescerão espinhos, urtigas e cardos nas suas fortalezas. Ela será uma habitação de chacais, e lar para as corujas” (Is.34:13). Não há como fugir, os espinhos estão por toda parte, como lembrança de que nossa natureza está igualmente degenerada, à exemplo da natureza à nossa volta.


Na verdade, os espinhos servem a um propósito benéfico. Eles nos esvaziam quando estamos inflados por nossa própria vaidade. Que o diga Paulo, que para que não se exaltasse pela excelência das revelações que recebera de Deus, recebeu de bônus um espinho na carne.

De fato, o mundo não é mais um lugar seguro pra se viver. E não se trata de um fenômeno novo. Desde a Ruptura, o mundo deixou de ser um lugar seguro para a raça humana. Não só a terra passou a produzir espinhos, mas o próprio coração humano passou a ser um terreno inóspito para o Espírito de Deus e para a Sua Palavra.

Na parábola do Semeador, Jesus diz que uma parte das sementes “caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram (...) O que foi semeado entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo, e a sedução das riquezas, sufocam a palavra, e fica infrutífera” (Mt.13:7,22).

O homem natural não consegue entender as coisas espirituais, pois lhe parecem loucura, já dizia Paulo. Seu coração está tomado de espinhos, devido à sua natureza degenerada. Jesus identifica esses espinhos com “os cuidados deste mundo”, e com “a sedução das riquezas”. Quando ele começa a achar que está conseguindo preencher o vazio de sua alma, esses mesmos espinhos lhe causam perfurações tão agudas, que acabam por ocasionar em um vazio ainda maior.

O que esperar de uma raça caída, com a alma tomada por espinhos? Miquéias, em um momento de desespero, deixa escapar um grito:
“Ai de mim! Estou feito como quando são colhidas as frutas do verão, como os rabiscos da vindima; não há cacho de uvas para comer, nem figos temporãos para que a minha alma deseja. Pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja reto. Todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com uma rede. As suas mãos fazem diligentemente o mal; o príncipe exige condenação, o juiz aceita suborno, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles são perturbadores. O melhor deles é como um espinho, o mais reto é pior do que uma sebe de espinhos. Veio o dia dos teus vigias, veio o dia da tua visitação. Agora é o tempo da sua confusão. Não creiais no amigo; não confieis no companheiro. Daquela que repousa no teu seio guarda as portas da tua boca. Pois o filho despreza o pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem são os da sua própria casa”. Miquéias 7:1-6.
Sentimo-nos envergonhados, e igualmente desesperados quando constatamos a grave situação em que se encontra a humanidade. Corrupção, impunidade, terrorismo, intrigas, são apenas alguns dos espinhos produzidos no terreno inóspito do coração humano sem Deus. Mas o que dizer da Igreja, a nova humanidade recriada em Cristo. O que se deve esperar dela?
“A terra que embebe a chuva que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção da parte de Deus. Mas se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada, e perto está da maldição. O seu fim é ser queimada. Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores e pertencentes à salvação, ainda que assim falamos.”Hebreus 6:7-9
Esta é a promessa de Deus para com o Israel da Nova Aliança: “A casa de Israel nunca mais terá espinho que a pique, nem abrolho que lhe cause dor, entre os que se acham ao redor deles e que os desprezam. Então saberão que eu sou o Senhor Deus” (Ez.28:24).

Somos o povo regenerado por Deus. Somos a nova Criação. Somos a nova Terra. E o prenúncio de que em breve, tudo à nossa volta será igualmente regenerado. O preço pago por Cristo na Cruz, não apenas liquidou nossa fatura, mas também desfez a maldição que pesava sobre a natureza. A coroa de espinhos que Ele trazia em Sua cabeça apontava para a redenção de toda a criação (Mc.15:16-17). A Cabeça da nova humanidade, Cristo, foi perfurada pelos espinhos da nossa vaidade. Antes que os espinhos brotem na terra, eles brotam na cabeça, na mente, na consciência humana cauterizada pelo pecado. Por isso, Cristo teve Sua cabeça coroada de espinhos. Lá na cruz, Deus feito homem, arcou com as conseqüências da Queda.

Uma vez que Cristo tenha pago o preço da redenção da criação, resta-nos trabalhar para que a humanidade se alie ao resto da criação, deixando de ser predadora e destruidora, para ser sua cultivadora e guardiã.

terça-feira, agosto 18, 2015

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Que esperança haveria para os que partiram sem conhecer a Cristo?



Por Hermes C. Fernandes

Recentemente estive em um debate radiofônico em que uma mesa formada por quatro pastores abordou suas perspectivas acerca dos conflitos geracionais e da evasão de jovens das igrejas. Contei-lhes sobre a maneira como meu pai logrou conquistar meu coração com um singelo gesto de amor no momento de maior rebeldia em minha conturbada adolescência.

Assim que terminei meu relato, um dos pastores pediu para compartilhar sua própria experiência com o seu pai. Imaginei que seria algo próximo do que relatei. Em vez disso, sua história conseguiu embargar minha voz. Contou-nos que fora criado num lar ateísta, e que seu pai detestava qualquer tipo de religiosidade. Já na adolescência, foi trabalhar na empresa de seu pai. Qual foi sua surpresa quando um dia a secretária convidou-o para fumar um baseado de maconha. Constrangido, disse-lhe que não poderia fazer tal coisa, pois seu pai estava ali. Pelo que a secretária retrucou, contando que seu próprio pai também consumia a droga. Com o dinheiro dado pelo pai, ele e a secretária dirigiram-se a uma boca de fumo próxima e adquiriram quantidade suficiente para ser consumida pelos três. Sob o efeito da droga, pai e filho acabaram compartilhando os favores sexuais da secretária.

Imaginei que seu relato sofreria uma guinada, mas em vez disso, ele contou que seu pai morreu ateu, e que ele, por sua vez, veio a conhecer Jesus enquanto desfolhava uma Bíblia. Impactado pelo Jesus que emergia das páginas dos Evangelhos, saiu à Sua procura em várias igrejas, mas aquilo que era pregado dos púlpitos não parecia em nada com a proposta do Jesus que conhecera. Mais tarde, ainda desiludido, entrou numa igreja onde o discurso se assemelhava com o de Cristo, ficando ali até tornar-se pastor após a conclusão de seu seminário. Passei o dia pensando sobre aquilo.

Como me sentiria sabendo que meu próprio pai teria tido um fim daqueles? Como conviveria com a ideia de que ele poderia estar no inferno, enquanto eu estivesse convidando pessoas a desfrutarem do céu?

Sou a terceira geração de pastores da minha família. Meu avô materno foi pastor. Meu pai, idem. Meus tios e primos por parte de mãe, meus cunhados e irmãos, são todos cristãos comprometidos com o Reino de Deus. Isso me traz um enorme conforto. Sei que ao deixarmos este mundo, reencontrar-nos-emos na glória celestial.

Como compartilhar tal conforto com quem tem uma história diferente da minha? Creio firmemente que um dos papéis que devem ser desempenhados pela igreja é a promoção da conversão dos pais aos filhos e dos filhos aos pais. Em se tratando de famílias onde os pais e os filhos servem ou serviram a Cristo, tal missão é relativamente fácil. Mas como podemos reconciliar pais e filhos quando os mesmos se encontram em posição antagônica com relação a Cristo? Para responder a isso, temos que considerar a abrangência da obra reconciliadora promovida por Cristo em Sua Cruz.

“E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.” 
Colossenses 1:20

Nada ficou fora do escopo desta reconciliação. Todas as gerações passadas, presentes e futuras. Em termos espaciais, podemos dizer que o termo “céus” refere-se ao avesso da realidade, isto é, àquilo que não é perceptível aos sentidos, à esfera espiritual, também chamada de “regiões celestiais”. Não se trata, portanto, de uma localização geográfica, algum ponto para além das galáxias. Quando se fala de céu como estando acima de nós, trata-se de uma metáfora que indica a sua superioridade em relação à esfera terrena. 

Lembrando a teoria dos conjuntos que aprendemos ainda no ensino fundamental, o céu contém a terra. Estamos rodeados pelos céus, tanto o sideral, quanto o espiritual. Por isso, Paulo cita os filósofos gregos no areópago de Atenas: “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração” (Atos 17:28).

No sentido temporal, o termo “céus” refere-se ao futuro, ao porvir. O que hoje é latente, no futuro será patente. O que hoje se oculta, no futuro será revelado. Coisas que nossos olhos ainda não viram e nossos ouvidos jamais ouviram, todavia, já estão preparadas para aqueles que amam a Deus. Embora reais hoje, são imperceptíveis aos sentidos humanos, mesmo estando imersos nesta realidade.

Já o termo “terra” é uma referência ao presente, ao que nos é contemporâneo e patente aos olhos, ao momento histórico em que estamos vivendo.

Para nós, humanos, céus e terra são realidades distintas. Vivemos o presente e ansiamos pelo futuro. Porém, para Deus, são facetas da mesma realidade, para quem não há distinção entre passado, presente e futuro. Ele os habita concomitantemente, podendo transitar livremente entre eles. Para Deus, o passado não passou e o futuro é tão presente quanto o próprio presente.

Com estas definições em mente, podemos dizer que céus e terra, presente e futuro, bem como os que neles habitam, foram reconciliados com Deus em Cristo Jesus. Mas não para por aí. Em outra passagem, Paulo vai um pouco mais longe, incluindo também o passado no escopo desta reconciliação.

“Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.” Filipenses 2:10-11

A expressão “debaixo da terra” refere-se ao passado e seus habitantes, àquela esfera existencial abaixo de camadas sucessivas de poeira histórica. Aquilo que foi e já não o é. Metaforicamente, é o mundo dos mortos, às vezes chamado de inferno (grego Hades, hebraico Sheol).

Tudo quanto hoje está na superfície, um dia estará “debaixo da terra”. O que hoje é presente, amanhã será passado. O dia chamado “hoje”, o momento chamado “agora” é que determinará o que vai pra debaixo da terra e o que será remetido aos céus, o que vai ficar perdido no passado para sempre, e o que será remetido ao futuro.

O escritor de Hebreus afirma que há coisas abaláveis que precisam ser removidas, para que somente as inabaláveis permaneçam (Hb.12:27-29). Todas terão que passar pela prova de fogo. Nas palavras de Paulo, aquilo que for palha não subsistirá, mas o que for ouro, prata ou pedra preciosa permanecerá. O dia demonstrará com que material edificamos nossa existência. Se o que houvermos feito se mostrar resistente ao tempo e ao fogo, seremos galardoados. Caso contrário, sofreremos prejuízo. Ainda nas palavras do apóstolo, “o tal será salvo todavia como que pelo fogo” (1 Co.3:15). Em outras palavras, sua existência será condenada ao passado (de lá não passará!), porém, sua essência será reconciliada com Deus, mesmo que pelo fogo. Não haverá segunda chance! O que se viveu, viveu. O passado se manterá intocável. O inferno só é eterno porque Deus decidiu que o passado não pode ser alterado.

A despeito disso, o passado pode ser relido, ressignificado, reinterpretado à luz da contribuição que deu ao futuro. Dizer que Cristo tem a chave do hades (inferno) pode significar que em Cristo temos a chave hermenêutica da história (e não apenas das Escrituras!). Através d’Aquele que era, que é e que há de vir, podemos reexaminar o passado e ressignificá-lo.

Dizer que os habitantes das esferas inferiores haveriam de confessar o senhorio de Cristo é o mesmo que afirmar que teriam suas consciências finalmente reconciliadas com Deus. Afinal, como afirmou Paulo, quem quer que com sua boca confessar que Jesus é o Senhor, “será salvo” (Rm.10:9).

Seu passado continua lá, onde sempre esteve. Porém, agora, seus olhos são desvendados, e sua mente capaz de processar a síntese, dando-lhe uma visão panorâmica da história, e de como sua própria existência se encaixa no propósito divino, ainda que pareça ter sido um completo desperdício. Deus, o grande Alquimista e Reciclador do Universo sabe como transformar lixo existencial em ouro! Mesmo um pecado como o de Davi com Bate-seba pode resultar numa bênção como Salomão.

O propósito de Deus é alinhar todas as coisas, como quem justifica as linhas de um texto digitado no computador. Prelúdio, interlúdio e poslúdio se harmonizam na grande sinfonia da história, composta e regida pelo sumo maestro.

João ficou estupefato quando se lhe descortinou a realidade por trás do cenário da existência. Em seu relato registrado no livro de Apocalipse, o vidente afirma ter ouvido “toda a criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que está no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre” (Apocalipse 5:13). Nenhuma esfera existencial ficou de fora do escopo da redenção.

Se faltasse uma só esfera, seria como um coral em que não houvesse uma das várias categorias de vozes: contralto, tenor, barítono, baixo e soprano. Sob a batuta de Cristo, as diferentes categorias vocais se harmonizam.

Poderíamos definir a reconciliação como uma harmonização de cada fato dentro do quadro geral da história. Cada peça do mosaico encontrará seu lugar e se harmonizará com as demais, provendo um sentido amplo e profundo da trama universal.

Ser reconciliado é compreender seu papel dentro da execução dos propósitos divinos e assim, ter sua alma apaziguada. É compreender o dom da vida sob a perspectiva de um propósito que a transcende.

A maior necessidade do ser humano não é de sobrevivência ou de conforto material, mas de encontrar sentido para sua existência. O acaso não nos convence. O caos não nos parece razoável. Almejamos desesperadamente beleza, simetria, destino, propósito. A razão pela qual nos sentimos tão miseráveis perante as tragédias é que elas não fazem o menor sentido. Que sentido haveria num pai enterrar seu próprio filho? A ordem natural não é que os filhos enterrem os pais? Que sentido há num cataclismo que ceifa milhares de vidas? Não nos soa como um desperdício? Como explicar a prodigalidade da natureza? Ainda que não admitamos, no fundo, achamos que Deus nos deve alguma explicação. Mas na maioria das vezes, Ele parece manter-Se em silêncio. É como se sussurrasse em nossos ouvidos o que disse a Pedro: “O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois” (João 13:7).

A vida precisa valer a pena, e para tal, tem que fazer sentido. Salvar-se é perceber-se parte de um plano maior. Somos salvos da insignificância. Ser salvo seria viver por aquilo pelo qual se dispõe a morrer. É reconhecer que a missão que recebemos ao nascer é mais importante e sagrada do que a vida em si (At.20:24).  E segundo Jesus, somente abrindo mão dela é que se pode salvá-la. O inverso também é verdadeiro. Quando se faz questão de preservá-la, ela escorre por entre os dedos (Lc.17:33). Quem nunca se dispôs a um sacrifício por um bem maior, não sabe realmente o que é viver.

Viver pela fé é encontrar este sentido na perspectiva do futuro. É ter a certeza de que no final tudo se encaixará perfeitamente, e de que não ficarão perguntas sem respostas. Não que Deus nos deva explicação, mas Ele certamente fará questão de nos desvendar os olhos a fim de que nos maravilhemos e nos regozijemos em Seu glorioso plano.

Ao deixarmos a esfera temporal, encontramos a plenitude do sentido em retrospectiva. Por enquanto, resta-nos alegrar-nos com vislumbres proporcionados pela fé. Há coisas que ainda não compreendo, mas prefiro confiar. O futuro justificará as aflições do tempo presente. Como bem disse Paulo: “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Rm.8:18).

Lembro-me da última viagem que fiz com meu pai antes de seu falecimento em 2001. Estávamos caminhando pelas ruas de sua terra natal, a pacata cidade de Irupi no interior do Estado do Espírito Santo. De repente, ao pararmos de frente a um barranco, meu pai começou a chorar. Contou-me que ali seu pai lhe havia dado a última surra aos 19 anos. Sem jamais ter-lhe dado uma explicação, seu pai tomou um chicote usado em burro, e bateu nele até deixa-lo arriado. Na madrugada seguinte, meu pai pegou suas coisas e saiu de casa em direção ao Rio de Janeiro. Senti a dor que ainda havia no coração do meu velho pai e quis atenuá-la, consolando-o de alguma maneira. Como que por insight, disse-lhe: Acho que tenho uma resposta, pai. Não sei o porquê, mas imagino que haja um ‘pra quê’. Não fosse aquela surra, o senhor não teria ido para o Rio, onde conheceu a minha mãe, e principalmente, a Jesus. Logo, não fosse aquela surra injusta, eu não estaria aqui ao seu lado.

Dizer que Jesus é o Senhor é reconhecer que Ele sempre esteve por trás dos bastidores da história, conduzindo-a segundo o Seu eterno propósito. É reconhecer que nada aconteceu, acontece ou acontecerá por acaso. Tudo coopera para o bem daqueles que O amam e que são chamados segundo o Seu propósito (Rm.8:28). Cada nota dissonante tem seu lugar na sinfonia composta por Deus. Isolando-a, não tem beleza alguma. Mas colocando-a entre outras notas, percebe-se sua beleza.

Que beleza haveria na grotesca cena da crucificação? Isaías exprime seu horror ao vislumbrá-la:

“Não tinha formosura nem beleza; e quando olhávamos para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos. Era desprezado, e rejeitado dos homens; homem de dores, e experimentado nos sofrimentos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” Isaías 53:2-5

A cruz, como um evento isolado, parece-nos brutal, sem sentido, pitoresco, mas na perspectiva do plano de redenção, é o capítulo mais glorioso da história da humanidade. É o amor revelado em toda a sua majestade.

Jesus sabia o que teria que passar, e quando Seus discípulos tentaram dissuadi-lo, Ele respondeu:

“Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas para isto vim a esta hora.” João 12:27

Quando não se vive na perspectiva da fé, valorizamos o momento em si, e não o que ele representa no contexto geral. O que importa é livrar-nos da dor, do sofrimento momentâneo, e não cumprir o propósito que nos trouxe até aqui. Porém, a fé nos faz vislumbrar o resultado de tudo aquilo, de sorte que a dor é sublimada para que a missão seja cumprida. Ainda que a alma se perturbe, ela não esmorecerá. O que tiver que ser, será. Então, que se cumpra em nós a Sua vontade, mesmo que nos custe nosso conforto.

O problema é que não enxergamos a vida em perspectiva. Tudo o que nos importa é o aqui e o agora. Esquecemo-nos do longo caminho percorrido por todos os que nos antecederam para que chegássemos até aqui. Somos frutos de todas as contingências permitidas pelo arquiteto das circunstâncias. Com isso em vista, Paulo vaticina: “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1 Co.15:19). Nossa vida é apenas um elo numa corrente interminável de elos que nos antecederam e que nos sucederão.

Carregamos conosco o DNA que recebemos de nossos progenitores e que repassaremos aos nossos herdeiros. Podemos dizer que em certo sentido, nossa salvação pessoal implica também na reconciliação do tronco do qual somos ramos. Nossos pais foram redimidos em nós. Sua história foi justificada pelo fruto que ela produziu: nós. Repare: eu não disse que eles foram redimidos POR nós, mas EM nós.

Talvez tenha sido neste sentido que Paulo afirmou que a mulher seria salva “dando à luz filhos” (1 Tm.2:15). Um filho é capaz de redimensionar nossa vida, atribuindo-lhe novo significado. Toda dor que a mulher sente ao parir é justificada quando se lhe é dada a alegria de embalar nos braços o fruto do seu ventre. Nas palavras de Jesus, “a mulher quando está para dar à luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora, mas, depois de nascida a criança, já não se lembra da aflição, pelo prazer de ter vindo um homem ao mundo” (Jo.16:21).

Se nossos filhos são a nossa “salvação” (a justificação de nossa existência), somos, por assim dizer, a “salvação” dos nossos pais. Eles não são salvos por nós, mas EM NÓS!

O escritor de Hebreus diz que em Abraão, Levi, seu descendente de quarta geração, deu o dízimo (Hebreus 7:9). Portanto, o que meus filhos fizerem, de certo modo, será creditado a mim. E o que eu faço hoje, de igual modo, pode ser creditado àqueles que trago latentes em mim. Sou fruto de uma árvore, e ao mesmo tempo, trago em mim as sementes que originarão muitas outras árvores e seus respectivos frutos. Foi nesta perspectiva que Paulo escreveu a pupilo Timóteo: "Dou graças a Deus, a quem desde os meus antepassados sirvo com uma consciência pura..." (2 Timóteo 1:3a). Como alguém poderia servir a Deus desde os seus antepassados, senão através deles mesmos? 

Em mim, Deus resgata a história dos meus pais. Nos meus filhos, minha própria história será justificada. Não seria disso que Paulo falava ao citar a curiosa e misteriosa prática de batismo pelos mortos? Repare no contexto:

“Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. (...)  Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte. (...) E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos. Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?” 1 Coríntios 15:21-22, 25-26, 28-29

Muito já foi dito sobre a misteriosa passagem. Há até uma igreja que promove batismo pelos mortos. 

Particularmente não creio que Paulo estivesse falando de uma prática à parte do habitual batismo promovido na igreja primitiva. Outrossim, creio que o apóstolo estivesse reportando à abrangência da obra realizada por Cristo, representada na cerimônia batismal.

Creio que tanto a passagem em que Paulo diz que a mulher seria salva gerando filhos, quanto a que fala do batismo pelos mortos apontam numa mesma direção. Somos salvos ‘pelo’ futuro! Não me refiro à salvação em termos soteriológicos, mas no sentido de ressignificar a vida, dando-lhe um propósito que vá além de nosso horizonte existencial. No caso da mulher dando à luz parece ser claro. Quanto ao batismo pelos mortos, precisamos considerar que para nossos antepassados, nós somos o futuro. Portanto, em nós suas vidas são ressignificadas [1]. Quando somos batizados, tudo aquilo de que somos compostos, nossa bagagem existencial, nossa carga genética, nossa história desde nossos tataravôs, desce conosco às águas batismais. Nossa história é redimida.

Isso parece encontrar ressonância na promessa em que Deus afirma: “Sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, mas faço misericórdia até MIL GERAÇÕES daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Êx.20:5b-6).

Repare nisso: Deus visita a maldade dos pais NOS filhos. Os filhos são perpetuadores da história dos pais. Portanto, a redenção deles implica na redenção da história começada em seus pais. Uma vez que a misericórdia triunfa sobre o juízo, sua abrangência é sempre maior. O mesmo Deus que visita a maldade dos pais nos filhos até quatro gerações, tem misericórdia dos pais nos filhos até MIL GERAÇÕES.

Jesus ratifica este princípio ao desmascarar a hipocrisia dos fariseus:

"Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês edificam os túmulos dos profetas e adornam os monumentos dos justos. E dizem: ‘Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos antepassados, não teríamos tomado parte com eles no derramamento do sangue dos profetas’. Assim, vocês testemunham contra si mesmos que são descendentes dos que assassinaram os profetas. Acabem, pois, de encher a medida do pecado dos seus antepassados!” Mateus 23:29-32

Ora, se um indivíduo impenitente ajuda a completar a medida do pecado de seus antepassados, o que acontece com aquele que se arrepende? Este não apenas começa uma nova história, mas também provoca uma guinada na história dos seus ancestrais. Nossa história particular é um capítulo da saga de nossa família. Por isso, Deus promete a Abraão que através dele seriam benditas todas as famílias da terra. Sempre que alguém se volta para Deus, seu tronco familiar é abençoado.

Ao responder à pergunta do carcereiro de Filipo, Paulo afiançou-lhe que se cresse em Jesus Cristo, tanto ele quanto sua casa seriam salvos (At.16:31). Seria isso uma referência aos seus descendentes, à sua família atual, ou também englobaria seus ancestrais? O termo grego para casa é oikos, que em alguns textos do Novo Testamento alude às origens de uma pessoa. Em Lucas 1:27 lemos que José era da “casa de Davi”. Por isso mesmo, Jesus era chamado de “filho de Davi”.

Trago latente em mim aqueles que do meu tronco ainda brotarão. Da mesma maneira como estive latente em meus ancestrais. Por isso que quando Adão pecou, todos pecamos com ele, pois já existíamos nele. 

Quando ele caiu, todos caímos. Porém, fomos enxertados na Videira Verdadeira que é Cristo, de maneira que também estávamos n’Ele durante o tempo de Sua peregrinação, desde o Seu nascimento até Sua ascensão.

Mesmo quando partirmos, continuaremos nossa peregrinação no mundo através daqueles que carregarem nosso DNA. Viveremos neles de maneira imanente, assim como eles vivem em nós agora de maneira latente. Porém, quando Cristo Se manifestar, também nos manifestaremos com Ele, de sorte que deixaremos a existência imanente pela existência patente. Porém, em Cristo existimos de maneira transcendente. Repare nisso: quatro formas de existência.

Latente, imanente e patente, transcendente.

Existimos de forma latente em nossos ancestrais. Existiremos de forma imanente em nossos descendentes. Existimos de forma patente durante o tempo de nossa peregrinação. Existiremos de forma transcendente através de Cristo pelos séculos dos séculos, e através disso, nossa essência será preservada para sempre.




[1] Ressignificação é o método utilizado em neurolingüística para fazer com que as pessoas possam atribuir "novo significado" a acontecimentos pela mudança de sua visão de mundo.

* Este texto foi publicado originalmente no dia 04/09/2012 sob o título "Salvos pelo futuro: a reconciliação dos que partiram."