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quarta-feira, junho 15, 2016

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Gays, negros e deficientes e a maldição dos deuses



Por Hermes C. Fernandes

Em algumas sociedades antigas como a Grécia, crianças portadoras de deficiências físicas eram sacrificadas assim que nasciam. Havia uma razão prática para isso e uma justificativa religiosa. De acordo com a sua crença, os deuses só teriam criado pessoas perfeitas, e, portanto, somente estas mereciam viver. Acreditava-se que tais crianças eram aberrações, seres amaldiçoados. Matá-las era prestar um serviço aos deuses. Pelo menos, era assim que eles apaziguavam sua consciência depois de assassinarem seus próprios filhos. Porém, a razão verdadeira e nem sempre confessada era que deixá-las viver traria prejuízo à sociedade, já que não seriam produtivas, não poderiam lutar numa guerra, e ainda por cima, atrapalhariam os demais numa eventual fuga. Assim, tais seres indefesos eram vistos como um peso extra do qual deveriam se livrar o quanto antes. Poupá-las colocaria em risco a sobrevivência dos demais. Portanto, em nome do bem comum, da manutenção da ordem, só lhes restava uma coisa a fazer: eliminá-las.

Durante séculos convivemos com a vergonha da escravidão. Certas etnias se achavam no direito de escravizar a outras, usando suas crenças como justificativas. Brancos afirmavam-se superiores aos negros e até questionavam se os mesmos teriam alma ou seriam apenas seres irracionais, semelhantes aos animais. Versos bíblicos foram pinçados para justificar o uso de mão-de-obra escrava. Deixá-los livres colocaria em risco a ordem social. Por isso, os abolicionistas eram acusados de progressistas, de subversivos, de inimigos da ordem que conspiravam contra o bem-estar e a prosperidade da nação. Genocídios foram perpetrados e justificados por crenças equivocadas. Episódios bíblicos como o de Jericó e das cidades cananitas conquistadas por Israel eram evocados. Sociedades inteiras como as pré-colombianas foram dizimadas “em nome de Deus”. 

Quem seriam hoje as vítimas de nossos preconceitos? As mulheres? Os gays? Os muçulmanos? Que passagens bíblicas estaríamos usando para justificá-los? De que lado estaríamos se vivêssemos durante o tempo em que a escravidão era tida como um direito divino? Como nos posicionaríamos quanto à matança de crianças deficientes se vivêssemos na Grécia Antiga?

Deus não criou deficientes! Bradavam alguns.

Os negros são uma aberração! Não têm alma! Merecem ser escravizados. 

Em nome deste mesmo fundamentalismo muitos bradam: Deus criou macho e fêmea! Não criou homossexuais, nem transexuais ou coisa parecida! Portanto, que direitos especiais deveriam ter? Eles querem é privilégios! 

Um pastor americano declarou em um caloroso sermão que os homossexuais não têm direito sequer de existir. Segundo alguns, sua existência colocaria em risco o modelo de família tradicional que tanto prezamos, assim como a existência de crianças deficientes colocava em risco a segurança da sociedade grega antiga, e a liberdade dos escravos implodiria a ordem social vigente à época.

De fato, Deus não criou gays, como também não criou negros, brancos ou amarelos, nem deficientes, nem hermafroditas. Ele criou seres humanos, sujeitos a várias condições, circunstâncias, contingências e limitações. Nada mais complexo do que o ser a quem a Bíblia chama de “imagem e semelhança de Deus”. 

Assisti a uma matéria jornalística sobre uma criança transexual e sua luta para poder usar o banheiro feminino de sua escola. Seu irmão gêmeo é um menino como outro qualquer. Ele, porém, desde que se entende por gente, percebe-se como pertencente a um gênero distinto de sua anatomia. Veste-se como menina. Fala, sente, pensa e age como tal. O que dizer a esta criança? Estaria possuída de demônio? Um exorcismo resolveria seu problema? Seria simples assim? Ou seria a educação recebida em casa? Então, por que seu irmão gêmeo não apresentou o mesmo comportamento?

Senti-me tocado pela história desta criança. Imaginei como deve ser difícil para os pais ter que enfrentar uma sociedade hipócrita, que diz crer nos preceitos bíblicos, mas usam-nos para justificar um dos maiores pecados cometidos por membros de nossa raça: o preconceito. Minha alma chorou. Este pequeno ser humano poderá ser condenado ao limbo da existência.

Nem a sociedade, muito menos as igrejas, estão preparadas para lidar com isso. Algumas sociedades que adotam um tipo de islamismo mais radical e fundamentalista dão ao problema a mesma solução que os gregos davam às crianças deficientes: homossexuais e transexuais são condenados à morte, atirados de cima de edifícios ou apedrejados.

Vale aqui fazer uma distinção. O homossexual geralmente não tem problema com sua anatomia. Ele busca reconciliar sua homoafetividade com o seu sexo biológico. Já o transexual vive uma crise, pois se sente uma mulher num corpo masculino ou vice-versa. Muitos optam por submeter-se a uma cirurgia de troca de sexo.

Como reagiríamos se um transexual operado se convertesse ao evangelho? Aceitaríamos sua nova condição ou pressionaríamos a que revertesse sua operação? E como reimplantar um órgão masculino que fora removido? Muitas outras questões surgem daí e demandam respostas honestas e francas. Entretanto, a primeira medida que precisa ser tomada é nos conscientizarmos de que tais pessoas são seres humanos criados por Deus e que vivem numa crise interminável, não tanto com suas pulsões quanto com os preconceitos da sociedade. Devemos acolhê-los ou discriminá-los? Seria ético impormos alguma condição para que fossem recebidos? Que condição impusemos para recebermos outros tipos de pessoas? Como acolhemos um empresário desonesto que explora seus empregados sem dar-lhes os direitos trabalhistas e ainda sonega impostos emitindo notas frias? Somos condescendentes com eles? Por que somos tão radicais em se tratando de sexualidade, mas tão maleáveis em outras questões? De que temos medo, afinal? Será que a homossexualidade é contagiosa? A sexualidade dos nossos filhos correria algum risco caso a igreja acolhesse tais indivíduos? Haveria dentre nós alguns mal resolvidos nesta questão?

A verdade é que já há homossexuais em nossas igrejas, todavia, mantêm-se velados, temerosos de serem descobertos, expostos e excluídos. Tenho a impressão de que prezamos mais a hipocrisia do que a sinceridade e transparência. Tudo o que acontece sob a capa da clandestinidade só faz fomentar todo tipo de promiscuidade e perversão. Há gente molestando e sendo molestada nas igrejas. Mas desde que isso não venha a público, tudo bem. O importante é evitar o escândalo, pensariam alguns. 

Temos tomado a contramão do que Paulo apresenta como sendo o ideal para o ambiente de culto. Segundo o apóstolo dos gentios, onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade. Num ambiente desprovido de preconceito, cada pessoa tem liberdade de ser exatamente o que é, apresentando-se a Deus “com o rosto descoberto”[1] a fim de ser transformado segundo a imagem de Cristo. A transformação operada pelo Espírito tem como ponto de partida o que somos e não o que fingimos ser. Porém, num ambiente impregnado de legalismo e moralismo, as pessoas preferem lançar mão de máscaras religiosas, mantendo em sigilo seus conflitos interiores. O problema se agrava quando a igreja pressiona o indivíduo homossexual a se casar. O objetivo do matrimônio de fachada é provar que por trás dos trejeitos afeminados há um hétero enrustido. Conheço o caso de um “ex-gay” que se casou para provar sua conversão. Um ano depois, sua esposa procurou-nos no gabinete pastoral para confessar que se mantinha intacta. Ele jamais a tocara. Adoraria acreditar que isso fosse uma exceção.

Casos de homossexualidade atingem até famílias pastorais. Há pouco soube de um pastor que enviou seu filho de apenas 15 anos para fora do país, depois que o mesmo confessou ser homossexual. Pior que este foi o caso do filho de um renomado pregador norte-americano, que depois de admitir sua homossexualidade, suicidou-se com um tiro no coração.

Devo esclarecer que em nenhum momento saio em defesa de qualquer tipo de promiscuidade, seja de natureza homossexual ou heterossexual. Se há seis passagens bíblicas que condenam atos libidinosos entre pessoas do mesmo sexo, há mais de dois mil versículos que denunciam injustiças sociais e condenam o abuso do poder econômico. Parece que a Bíblia está mais preocupada com questões sociais do que com sexualidade. Nem Freud daria conta de explicar esta nossa obsessão por questões desta natureza.

Que tal sermos mais compassivos? Que tal soltarmos nossas pedras em vez de arremessá-las? Antes de nos arrogarmos detentores da cura para a homossexualidade, sugiro que busquemos em Cristo a cura para os nossos próprios preconceitos. O remédio tem em sua fórmula dois componentes: graça e amor. Graça para perdoar. Amor para acolher. O resto, deixemos por conta do Espírito Santo.



[1] 2 Coríntios 3:18


P.S. Tanto tempo depois da abolição da escravidão no Brasil, os negros ainda são discriminados. Pelo jeito, não basta uma canetada num pedaço de papel para abolir uma das mais cruéis mazelas humanas: o preconceito. O que ocorreu com a jornalista Maju Coutinho, a garota do tempo do Jornal Nacional, é uma triste comprovação disso. E pelo jeito, ainda que os homossexuais consigam garantir todos os seus direitos civis, ainda terão que lidar com o preconceito por muito tempo. É o tipo de nódoa que só é removida com a aplicação contínua do mais poderoso alvejante: o amor. Talvez leve algumas gerações até que nos livremos de vez desta maldição que nos acompanha desde os primórdios da humanidade. 

terça-feira, março 17, 2015

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Entre a Babilônia e o Jornal Nacional



Por Hermes C. Fernandes

Para começo de conversa, detesto qualquer tipo de patrulhamento, seja cultural, político ou ideológico. “Foi pra liberdade que Cristo nos libertou”. Ou não foi? Então, não me venha com esta conversa de que devemos boicotar este ou aquele programa de TV. Cada qual deve ser guiado por sua consciência, que por sua vez, deve ser iluminada pelo Espírito Santo e pelo bom senso.

Perdoem-me a franqueza, mas estou cansado da mesma ladainha como a que se ouviu no lançamento de outras novelas como a “Salve Jorge”. Porém agora, com uma agravante. O título da novela é “Babilônia”. Como um cristão poderia dar audiência a um folhetim cujo nome nos remetesse às pragas do Apocalipse? Deixar de assistir a uma novela por se chamar "Babilônia" seria equivalente a deixar de tomar um ônibus porque seu número é 666. 

Para piorar a situação, logo no primeiro capítulo, duas atrizes consagradas se beijam. Talvez se fossem duas mocinhas alguns marmanjos não se incomodassem tanto. Deixariam passar batido. Mas duas anciãs? Que pouca vergonha é essa? Não assisti à tal cena devido ao horário em que cheguei à casa. Mas deu tempo de pegar o finalzinho do primeiro capítulo, quando uma das protagonistas assassina friamente o motorista de seu marido com quem teria se envolvido sexualmente. Ninguém se queixou disso. Tirar a vida do outro para encobrir seu erro já não embrulha estômago de ninguém. Mas duas velhinhas se beijando... isso é nojento! Também não vi comentários sobre as cenas finais da última novela (Império) em que o pai é assassinado pelo próprio filho. Ninguém deu tremelique, nem protestou. 

Quão hipócritas somos! Acostumamo-nos com certas cenas violentas, porém outras ainda mexem com nossos escrúpulos e expõem as entranhas de nossos preconceitos. “Isso é pecado!”, esbravejam alguns. Mas tirar a vida de alguém também não o é?

Quando se trata de dois rapazes, o receio é que isso acabe influenciando os jovens a se envolverem sexualmente com pessoas do mesmo gênero. Há pastores cujo temor é que um de seus filhos descambe para o homossexualismo. Que baita escândalo isso não provocaria em seu ministério! A preocupação maior é com a repercussão do que propriamente com o bem-estar do filho. É claro que não estou generalizando, mas esta a conclusão a que cheguei depois de conversar com alguns. Já ouvi alguns dizerem que prefeririam ter filhos bandidos a ter filhos gays. Mas em se tratando de duas anciãs, o que isso poderia provocar? Já pensou se a moda pega e as irmãzinhas do coral resolvem virar a casaca? rs

Ora, se o que a novela apresenta nos ofende, basta trocar de canal. Só espero que adotemos os mesmos critérios para os enlatados made in USA. A gente abomina a teledramaturgia nacional, mas consome vorazmente tudo o que o cinema e os canais por assinatura oferecem. Ainda não vi ninguém se levantar no meio de um filme e deixar a sala de exibição ofendido com as imagens. No cinema, tudo entra na conta da licença poética. É como se o escurinho do cinema nos cobrisse com um manto que nos permitisse deixar do lado de fora os escrúpulos. Mas a TV, via de regra, está no centro de nossa sala de estar, lugar de passagem de toda a família. Neste ambiente, um discurso moralista cai bem e preserva nossa imagem. Santa hipocrisia, Batman!

Assisto a qualquer filme ou novela com o mesmo olhar: o de alguém que busca entender os conflitos humanos. Para mim, o que importa não é se haverá ou não nudez ou cenas de sexo ou beijos homossexuais, e sim se há uma trama bem construída que exija de mim uma atenção redobrada e o uso de mais de dois neurônios.

É de Paulo a recomendação para que vejamos de tudo, mas retenhamos somente o que for bom. Talvez alguém argumente que não há absolutamente nada de bom num folhetim de TV. Tudo vai depender do nosso olhar. Como me interesso pelo ser humano e suas idiossincrasias, sempre encontrarei algo bom, até em filme de terror.

Parte do problema é que as pessoas não conseguem distinguir entre narrativa e apologia. Um filme ou novela que tem que lançar mão de cenas gratuitas de nudez, violência ou sexo para alavancar a audiência não é capaz de despertar meu interesse. Prezo pelo conteúdo, pela construção, pelo argumento. Se enriquece a trama, tudo bem, não me incomodo. O importante é suscitar o tema, provocar debate, nos fazer pensar. 

Alguns, mais afoitos, chegam a propor o boicote da emissora por seu conteúdo supostamente imoral. Sinceramente, considero que o pior veneno que a tal emissora destila em nossos lares não é através de suas novelas, mas de seus telejornais. Não faz sentido trocar de canal durante a exibição de Babilônia depois de dar crédito a tudo o que assistiu no Jornal Nacional. Prefiro ter meus escrúpulos ofendidos a ter minha inteligência subestimada.

segunda-feira, abril 22, 2013

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Sabotando o boicote à Globo



Por Hermes C. Fernandes

No último domingo (21/04), milhares de evangélicos aderiram à campanha de boicote à Rede Globo de Televisão. Sinceramente, jamais aderiria a uma campanha assim, por achá-la ingênua, contraproducente e potencialmente alienante.

Paulo diz que não devemos ser julgados pela consciência alheia. Ninguém tem o direito de dizer o que devo ou não assistir. Minha liberdade em Cristo é inegociável. Devo exercê-la enquanto examino de tudo, retendo somente o que for bom. Aderir a uma campanha assim é como passar uma procuração para que outros pensem e decidam por mim.  

Esta mania de boicotar produtos vem da igreja americana, que já boicotou a Disney, a CNN (porque é democrata e apoia o Obama), redes de supermercados e lojas que apoiem a causa gay, etc.

Não vamos mudar o mundo simplesmente boicotando canais de TV ou qualquer outro produto.  Em vez disso, deveríamos SABOTAR o sistema, recusando-nos a entrar no jogo de poder. O tal boicote só serve para mostrar "para eles" o quão poderosos somos. Trata-se de estratégia mercadológica e política. Que desperdício! É como entrar numa queda-de-braço com o mundo. Prefiro atentar à admoestação de Paulo e não me conformar, isto é, não adequar-me aos padrões vigentes. Recuso-me a contribuir estatisticamente para fortalecer a agenda de alguns grupos cujo interesse não é outro, senão, o poder. No meu controle-remoto, mando eu!

As pessoas devem ser conscientizadas, não manipuladas. Quase não assisto a esta emissora. Geralmente, vejo o programa do Jô e o jornal da Globo. Prefiro um bom filme (seja no cinema, alugado ou em canais por assinatura) ou uma boa leitura. Espero influenciar o rebanho com a minha postura, mas não me vejo no direito de interferir em sua liberdade. Quero que sejam guiados por suas consciências iluminadas pelo Espírito.

Ademais, toda abstinência tem o mesmo tipo de efeito colateral. Geralmente, quem jejua acaba comendo mais do que devia depois de terminar seu período de jejum. Depois de 24 horas sem assistir a um canal, acabamos vencidos pela curiosidade e a ansiedade gerada pela abstinência.

Não boicote! Sabote! E comece sabotando este tipo de campanha infantil.