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domingo, setembro 02, 2018

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A dimensão política do amor



“Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor.”
Desmond Tutu


C
omo poderíamos dizer que amamos a alguém sendo condescendentes com as estruturas que o oprimem? O amor nos impele a lutar por justiça. Este é o imperativo do amor.  Não se pode dizer “eu te amo” enquanto se faz vista grossa à todo tipo de opressão, exploração e descalabro de que o ser amado é vítima. E para tal, há que se mobilizar, lançando mão de todos os recursos disponíveis para viabilizar a existência do outro com dignidade. Ao menor sinal de que seus direitos estão sendo violados, nosso amor nos fará abrir a boca em seu favor, ainda que ao custo da própria vida. Pelo menos, é o que aprendemos com Jesus.

Lamentavelmente constatamos que muitos dos que se dizem seguidores de Cristo preferem cerrar fileiras com o que há de mais retrógrado, sujeitando-se,  assim, à agenda dos poderosos. Como discípulos de um preso político, torturado e morto por um Estado opressor, devemos nos posicionar invariavelmente ao lado dos desvalidos, dos que foram vítimas deste sistema cruel de que os poderosos se valem. “Até quando defendereis os injustos, e tomareis partido ao lado dos ímpios?”, questiona o salmista, para então arrematar: “Defendei a causa do fraco e do órfão; protegei os direitos do pobre e do oprimido. Livrai o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, e nada entendem. Andam em trevas.”[1]

Foi com vista a isso, que Paulo engrossou o coro ao declarar que “os poderosos deste mundo” estão destinados a serem aniquilados, pois nenhum deles conheceu a verdadeira sabedoria, “pois se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória.”[2] Por isso, o salmista diz que “eles nada sabem, e nada entendem”. Aliar-se a tais poderes, é o mesmo que aliar-se a algo destinado a ser completamente aniquilado, ou ainda, é como embarcar num navio em pleno naufrágio. Devemos, antes, como povo de Deus, optar pelos oprimidos, pelos fracos, pelos explorados, pelos excluídos, pelos pobres, pelas minorias.

Até quando os que alegam representar a Cristo na Terra continuarão se promiscuindo com os opressores? Não há meio termo. Quem deseja viver e propagar a justiça do reino tem que fazer opção pelos oprimidos, e não pelos opressores, trabalhando para tirá-los das mãos dos seus algozes. Isso é amor. Esta é, por assim dizer, a dimensão política do amor que o evangelho nos requer.

O sábio rei Salomão declarou: “Informa-se o justo da causa dos pobres; mas o ímpio não quer saber disso.”[3] O ímpio está sempre “lavando as mãos”, como fez Pilatos. Ele prefere omitir-se, em vez de tomar posição em favor dos menos favorecidos.

Tanto os profetas, quanto os apóstolos, aliaram-se às camadas mais necessitadas, e não aos poderosos. Por serem considerados subversivos, foram duramente perseguidos e mortos.

Entenda: não se trata de predileção, mas de prioridade. Deus não tem filhos prediletos. Porém, o pobre ocupa lugar de proeminência na agenda divina.

Contrário a qualquer tipo de discriminação social, Tiago escreve:

“Se na vossa reunião entrar algum homem com anel de ouro no dedo, e com trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e atentardes para o que tem os trajes de luxo, e lhe disserdes: Assenta-te aqui em lugar de honra, e disserdes ao pobre: Fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do estrado dos meus pés, não fazeis distinção entre vós mesmos, e não vos tornais juízes movidos de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos: Não escolheu Deus aos que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Não são os ricos os que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais?”[4]

Fica claro nessa passagem que o próprio Deus é que prioriza o pobre, o oprimido, o necessitado. Portanto, se pretendemos imitá-lo como filhos amados, não nos resta alternativa.

Como discípulos do Libertador, temos a obrigação de livrar o fraco e o necessitado, transmitindo-lhes a verdade emancipadora do evangelho. Eles precisam ser informados através dos nossos lábios acerca da dignidade que Cristo lhes conferiu. “Glorie-se o irmão de condição humilde na sua alta posição”, conclama Tiago, “o rico, porém, glorie-se na sua insignificância, porque ele passará como a flor da erva.”[5]

O evangelho preconiza a chegada de uma revolução sem precedentes, mas que não demandará derramamento de sangue, nem violência. Trata-se, antes, da revolução do amor, da paz e da justiça, anunciada exaustivamente pelos profetas. Porém ela não será fruto de uma intervenção divina futura, mas de nossa resposta aos Seus constantes apelos. Quem dera se tais apelos ecoassem agora mesmo no coração de todo ser humano que habita este planeta.

“Assim diz o Senhor: Exercei o juízo e a justiça, e livrai o oprimido das mãos do opressor. Não oprimais mais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva, e não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar.”[6]

Violência gera violência. Não se apaga fogo com fogo. Devemos transformar nossas armas em arados, e qualquer desejo de vingança em perdão. A profecia messiânica diz que Cristo “exercerá o seu juízo entre as nações, e repreenderá a muitos povos. Estes converterão as suas espadas em arados e as suas lanças em podadeiras. Não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerra.”[7]  Eis a nossa esperança, razão que nos impulsiona a apostar no futuro da civilização humana.

O exercício da justiça nada mais é do que o amor em ação. Porém, isso, não pode ficar restrito a um conjunto de doutrinas. Não basta o assentimento intelectual da verdade. O verbo tem que se tornar carne. O discurso tem que se transformar em práxis. A fé que opera pelo amor se manifesta através de obras de justiça. “Executai justiça verdadeira”, diz o Senhor, “mostrai bondade e misericórdia cada um a seu irmão. Não oprimais a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente o mal cada um contra o seu irmão em seu coração.”[8]

As viúvas e os órfãos representam para nossa sociedade as classes desassistidas, aqueles para os quais a corda rompe primeiro. Nossa sociedade está cheia de órfãos de pais vivos. Nossas crianças e adolescentes estão crescendo sem qualquer assistência. Embora o Estatuto da Criança e do Adolescente represente um avanço considerável, precisamos de políticas mais eficazes, que promovam uma educação de qualidade para os nossos filhos. O que será de uma geração inteira que cresceu aos cuidados da babá eletrônica?

E quanto aos nossos velhos? Até quando morrerão nas filas do INSS? São viúvos do Estado. Estão entregues à própria sorte, vulneráveis às aves de rapina a serviço deste sistema pérfido, carcomido pelas traças da corrupção.  

O estrangeiro representa o diferente, o pertencente a outra realidade, outra crença, outra ideologia, outra cultura. É triste verificar como os imigrantes brasileiros são explorados no Exterior. Geralmente, trabalham por menos que o salário mínimo do país. Mas é igualmente lamentável que tratemos os imigrantes que chegam ao nosso país de maneira semelhante e até pior, fazendo-os de escravos.

Membros de uma etnia não têm o direito de dominar os de outra etnia. Não há raças superiores, nem física, intelectual, ou espiritualmente. Todos possuem a mesma dignidade intrínseca e, por isso, devem ser respeitados e ter seus direitos assegurados.

Também é deprimente assistir ao crescimento dos bolsões de miséria, das favelas e guetos, habitados por aqueles que deixaram seus rincões, no afã de obterem melhores oportunidades na cidade grande.

O mandamento de Deus quanto ao tratamento que devemos dispensar ao imigrante é categórico: “O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás, pois estrangeiros fostes na terra do Egito.”[9] E mais: “Como o natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco. Amá-lo-eis como a vós mesmos, pois fostes estrangeiros na terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus.”[10]E ainda: “Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno. Ele faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe alimento e vestes. Amai o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.”[11]

O Deus Eterno apela à compaixão. Só podemos nos compadecer daquele que passa por algo pelo qual um dia também passamos. Somos um país de imigrantes. Quem não é imigrante, é, no mínimo, filho, neto ou bisneto de imigrante. Os únicos que têm suas raízes fincadas nesta terra há muito mais tempo são os indígenas. Os demais descendem de europeus, africanos e orientais. Portanto, antes de agirmos com preconceito, ou explorarmos mão-de-obra estrangeira, lembremo-nos de nossos ancestrais.

O trato que Deus ordenou que Seu povo dispensasse ao estrangeiro era de tal ordem, que é usado como referência para o trato que devemos dispensar a nossos irmãos, quando estes atravessarem alguma dificuldade econômica: “Quando teu irmão empobrecer e as suas forças decaírem, sustentá-lo-ás como a um estrangeiro ou peregrino, para que viva contigo.”[12]

Quem diria? Em vez de o estrangeiro ser tratado como irmão, o irmão que deveria ser tratado como estrangeiro. Porém, hoje, tratar um irmão como se fosse um estrangeiro, seria considerado um total descaso, dado o desprezo com que o tratamos.

Urge que se levantem políticos comprometidos com o bem comum, e não com suas ambições pessoais ou com interesses econômicos. A igreja cristã bem que poderia fornecer à sociedade tais políticos. Mas na maioria das vezes, candidatos evangélicos se apresentam apenas como defensores da moral cristã, da família tradicional ou dos interesses de sua própria denominação, garantindo-lhe cargos, privilégios, concessões de rádio e TV, etc.

Não creio que um seguidor de Cristo deveria opor-se aos direitos de qualquer que seja o segmento social. Ser cristão não é ser anti-gay, anti-feminista, anti-direitos trabalhistas, anti-qualquer coisa. Não deveríamos ser vistos como a turma do contra, os estraga-prazeres. Em nome de uma agenda conservadora, boa parte dos políticos ditos evangélicos prefere ser flagrada ao lado dos que defendem o porte de arma, a pena de morte, a redução da maioridade penal, etc. E foi assim que surgiu a união de três bancadas conhecidas pela sigla BBB: Bancada da Bíblia, da Bala e do Boi.[13]

Imagine se os políticos e líderes evangélicos defendessem os direitos das minorias com a mesma veemência com que defendem a moral religiosa. Mas seus escrúpulos religiosos, bem como seus interesses ideológicos não os permitem. E assim, o bem se passa por mal, e o mal por bem. Aos tais, vale a advertência: “Ai dos que ajuntam casa a casa, e reúnem herdade a herdade, até que não haja mais lugar, e fiquem como únicos moradores da terra (...). Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade, que põem o amargo por doce, e o doce por amargo.”[14]

Em uma sociedade capitalista, onde o capital tem supremacia sobre o trabalho, enriquecer às custas do trabalho alheio é visto como um sinal de esperteza, de sagacidade, de inteligência. Trata-se de uma clara inversão de valores.

Infelizmente, assistimos à igreja sucumbindo a este espírito. Pastores bradam de seus púlpitos que o crente deve almejar ser patrão, em vez de conformar-se em ser empregado. Deve ser cabeça em vez de cauda, alusão à promessa contida na Lei de Moisés: “E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo, se obedeceres aos mandamentos do Senhor teu Deus, que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir.”[15] Em contraste a isso, Paulo diz que não devemos fazer nada “por contenda ou por vanglória, mas por humildade”, e que cada um deve considerar “os outros superiores a si mesmo”, não atentando “cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros” (Isso é revolucionário!), “de sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.”[16] De fato, a Nova Aliança da graça contém promessas infinitamente superiores às da Antiga Aliança da Lei.[17] E a maior delas é a de nos tornarmos semelhantes a Cristo. Portanto, o que vale agora não é mais ser cabeça ou cauda, mas ser coração. O que está em jogo não é mais quem está por cima ou por baixo, mas no centro. E o centro ao redor do qual tudo deve orbitar é o amor. Já não vivemos em função de provar nada a quem quer que seja. Já não nos preocupamos em ficar nos comparando aos outros para ver quem é melhor ou mais bem sucedido. O que nos interessa é parecermos cada vez mais com Cristo, a começar pelo mesmo sentimento que o motivava.

O problema não está em encorajar as pessoas a melhorarem sua condição econômica. Não há nada de errado em querer ascender socialmente. O problema é quando esta ascensão é desejada apenas pelo glamour, pela vaidade, desprezando a responsabilidade social que ela demanda. Quem dera estivessem atentos à sabedoria que diz que “onde os bens se multiplicam, ali se multiplicam também os que deles comem.”[18]

Ao estimular seu povo a ascender socialmente, o pregador deveria focar as oportunidades de trabalho que um empregador poderia criar, diminuindo assim o alto índice de desemprego, e consequentemente, a criminalidade. Mas em vez disso, enfatiza-se apenas o conforto material e o status social que tal ascensão poderá promover a ele e à sua família.

Testemunhos são colhidos de pessoas que usam suas conquistas materiais, como a aquisição de carros luxuosos, ou coberturas de frente para a praia, como aferidor de sua fé. Ainda não se viu um pastor midiático perguntando a tais empresários emergentes, quantos foram beneficiados através de sua prosperidade, quantos chefes de família foram empregados, quantas iniciativas foram tomadas para ingressar os jovens no mercado de trabalho, etc. O que tem sido chamado de “testemunho” não passa de ostentação. Testemunhar tornou-se sinônimo de contar vantagem, estimulando os ouvintes à inveja e à esperança de que um dia chegará a sua vez de ganhar nesta loteria de fé.

A advertência profética diz que Deus esperava que Seu povo exercesse justiça, mas viu opressão, esperou retidão, mas ouviu clamor, e um tipo de clamor que jamais gostaria de ouvir.[19] De quem seria este clamor? Daqueles que são explorados pelos que almejam concentrar riquezas. Quem dera atentassem ao mandamento que diz: “Não explorarás o assalariado pobre e necessitado, seja ele teu irmão, seja ele estrangeiro que mora na tua terra e nas tuas cidades. No mesmo dia lhe pagarás o seu salário, para que o sol não se ponha sobre a dívida, pois ele é pobre, e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado.”[20] Para os tais, isso não passaria de uma sugestão divina, não propriamente um mandamento. Se se recusam a dar ouvidos ao mandamento, que ouçam ao menos a advertência: “Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus aposentos sem direito, que se serve do serviço do seu próximo sem paga, e não lhe dá o salário do seu trabalho.”[21]

A expressão “ai” encontrada em algumas advertências divinas visa ressaltar a seriedade e o rigor com que Deus trata certas injustiças, sem jamais fazer-lhes vistas grossas. O Deus revelado em Jesus está sempre atento ao clamor dos injustiçados. E ainda que estes não saibam como clamar reivindicando seus direitos, a própria injustiça por eles sofrida deporá diante do tribunal divino: “Vede! O salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, e que por vós foi retido com fraude, está clamando. Os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor Todo-poderoso.”[22] Não obstante, Deus se recusa a ouvir o clamor dos exploradores, dos que trabalham com o único intuito de concentrar bens, e que para isso, não hesitam explorar descaradamente a seu semelhante:

“A vós que aborreceis o bem, e amais o mal, que arrancais a pele de cima deles, e a sua carne de cima dos seus ossos, que comeis a carne do meu povo, e lhes arrancais a pele, e lhes esmiuçais os ossos, e os repartis como para a panela, e como carne do meio do caldeirão. ENTÃO CLAMARÃO AO SENHOR, MAS ELE NÃO OS OUVIRÁ, antes esconderá deles a sua face naquele tempo, visto que eles fizeram mal nas suas obras.”[23]

Os ricos deste mundo precisam acordar para o fato de que todas as nossas obras são sementes, que mais cedo ou mais tarde, resultarão em colheitas. Como diz o adágio bíblico, “eles semeiam ventos, e colhem tempestades.”[24]  Toda a injustiça praticada pelas elites brasileiras, tem resultado numa escalada da violência sem precedentes na História deste país. Os mesmos que se negam a pagar um salário justo a seus empregados são obrigados a gastar fortunas em segurança, blindando seus carros, colocando sistemas de alarme caríssimos em suas residências, e contratando equipes de vigilância. De fato, Deus está exercendo juízo sobre essa elite indiferente, que enriquece às custas da injustiça feita ao trabalhador: Depois, não adianta querer espiritualizar as coisas, atribuindo a miséria à atuação de demônios. Como disse Thomas Hobbes, “o homem é o lobo do homem.” Isto é, o homem é o maior inimigo do próprio homem. Ou como repetia exaustivamente meu saudoso pai: “De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados.”[25] Deus exerce Seu juízo sobre nós, simplesmente permitindo que colhamos exatamente o que plantamos. Deus é tão bom que nos confere a liberdade de semear o que quisermos, mas é tão justo que não nos permitirá colher senão o que houvermos semeado. “Chegar-me-ei a vós para juízo”, adverte o Senhor, “e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o trabalhador, e pervertem o direito da viúva, e do órfão, e do estrangeiro, e não me temem.”[26] Para Deus, não há diferença entre o que pratica a feitiçaria, o adultério e o que defrauda o trabalhador. São todos, por assim dizer, farinha do mesmo saco. O feiticeiro usurpa o poder de Deus, achando-se capaz de manipulá-lo a seu favor, o adúltero usurpa a companhia da mulher alheia, e o que defrauda o trabalhador usurpa o inalienável direito de quem sobrevive do suor do seu rosto. Ambos praticam a injustiça e eventualmente colherão o que houver sido semeado.

Por que há tão poucos em posse de tantas riquezas, enquanto grande parte da sociedade humana vive abaixo da linha da pobreza? Como poderíamos reverter isso? A mensagem do reino, sempre na contramão do sistema deste mundo, constitui-se na mais subversiva mensagem jamais pregada. Todavia, não basta pregá-la. Temos que encarná-la, isto é, trazê-la da teoria para a prática. Em outras palavras, precisamos semear justiça, onde até hoje só se semeou opressão e exploração.

“Semeai para vós em justiça, ceifai o fruto do constante amor, e lavrai o campo de lavoura, porque é tempo de buscar ao Senhor, até que venha e chova a justiça sobre vós.”[27]

Observe que semear em justiça é sinônimo de buscar ao Senhor. Ainda que as mudanças não ocorram com a rapidez que desejamos, não podemos nos cansar de fazer o bem, até que chova a justiça sobre a terra.  A admoestação apostólica ecoa esta verdade: “Não vos enganeis: Deus não se deixa escarnecer. Tudo que o homem semear, isso também ceifará (...). E não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido. Então, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé.”[28] E o escritor de Hebreus complementa: “Não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir com outros, pois com tais sacrifícios Deus se agrada.”[29]

Cada vez que praticamos o bem, repartindo com alguém aquilo que o Senhor nos deu, estamos semeando no reino de Deus. Em breve, a chuva virá, e toda a terra será renovada. É sobre isso que repousa nossa esperança.

“Porque, como a terra produz os seus renovos, e como o jardim faz brotar o que nele se semeia, assim o Senhor Deus fará brotar a retidão e o louvor perante todas as nações.”[30]

Tudo o que nos é concedido pelo Senhor, tem como objetivo abençoar aos que nos cercam. Não temos o direito de concentrar nada em nossas mãos. Fazê-lo constitui-se em injustiça e franca rebeldia à Sua Palavra. Tomemos, portanto, o exemplo da igreja primitiva em que “era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns.”[31]



[1] Salmos 82.2-5a
[2] 1 Coríntios 2.6,8
[3] Provérbios  29.7
[4] Tiago 2.2-6
[5] Tiago 1.9-10
[6] Jeremias 22.2
[7] Isaías 2.4
[8] Zacarias 7.9-10
[9] Êxodo 22.21
[10] Levítico 19.34
[11] Deuteronômio 10.17-19
[12] Levítico 25.35
[13] A Bancada BBB é um termo pejorativo usado para referir-se conjuntamente à bancada armamentista ("da bala"), bancada ruralista ("do boi") e à bancada evangélica ("da bíblia").
[14] Isaías 5.8,20
[15] Deuteronômio 28.13
[16] Filipenses 2.3-5
[17] Hebreus 8.6
[18] Eclesiastes 5.11
[19] Isaías 5.7
[20] Deuteronômio 24.14-15
[21] Jeremias 22.13
[22] Tiago 5.4
[23] Miquéias 3.2-4
[24] Oséias 8.7a
[25] Lamentações 3.39
[26] Malaquias 3.5
[27] Oséias 10.12
[28] Gálatas 6.7,9-10
[29] Hebreus 13.16
[30] Isaías 61.11
[31] Atos 4.32

quinta-feira, março 05, 2015

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O que penso sobre o impeachment de Dilma

“Seja bendito o nome de Deus para todo o sempre, porque são dele a sabedoria e a força. Ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis; é ele quem dá a sabedoria aos sábios e o entendimento aos entendidos. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz.” Daniel 2:20-22


Por Hermes C. Fernandes

Sempre estimulei manifestações populares legítimas. Fiz coro com os que pediam “Diretas Já” , com os que pediam o fim da corrupção em Junho de 2013, mas recuso-me a engrossar o coro dos que pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff, assim como não pintei a cara para pedir o impeachment de Collor, mesmo me opondo às medidas tomadas por seu governo.

Muitos dos “caras pintadas” dos anos 90, hoje lustram suas caras com óleo de peroba.

Um dos critérios que uso para decidir se participo ou não de um movimento é identificar quem está com a batuta em mãos. Não quero estar entre os que são regidos por interesses secretos inconfessáveis.

Pena que nosso povo tenha tão pouca noção de história.

Este “filme” é um remake do mesmo já vivido mais de uma vez por nosso sofrido país no último século. Em 1945, Getúlio Vargas foi deposto pelas Forças Armadas. Cinco anos depois, Getúlio foi eleito com 43% dos votos. Foi nessa fase que ele implantou a ELETROBRAS e criou a PETROBRAS. A oposição (PSD e UDN) insistia com a ideia do impeachment/golpe. Lacerda acusava o governo Vargas de corrupção e convocava as forças armadas ao golpe. Faltando um ano para encerrar seu mandato, Vargas não suportou a pressão e acabou suicidando. O Vargas amado pelo povo e odiado pelas elites, hoje é celebrado por todos.

Abaixo, a reprodução do segundo parágrafo de sua carta testamento:
“A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma.”
Perceba que Vargas identifica quem regia a funesta sinfonia golpista. E pela primeira vez, ainda em seu nascedouro, a Petrobrás estava no cerne da crise política.

Nem Juscelino Kubitschek, vencedor do pleito seguinte, escapou de tentativas frustradas de golpe. Posteriormente, JK foi cassado e exilado. Morreu em 1976 num acidente automobilístico que ainda levanta suspeita.

Em 1964 aconteceu o golpe que manteria os militares no governo até 1985. Somente em 1989 o Brasil voltou às urnas para eleger diretamente seu presidente. E isso, graças a homens como Ulisses Guimarães, que morreu na queda de um helicóptero e cujo corpo jamais foi encontrado.

Foram vinte e um anos de ditadura, em que generais se revezavam no poder, impondo uma agenda responsável por uma lacuna histórica caracterizada por atraso educacional, cultural e estrutural. Quem quer que se atrevesse a discordar ideologicamente do governo, corria o risco de ser banido da sociedade, quer por exílio, como foram alguns de nossos artistas e intelectuais, quer por desaparecimento, como aconteceu com alguns padres e pastores cujos discursos eram considerados subversivos.

Toda besta apocalíptica precisa de um falso profeta para legitimá-la. A grande mídia encabeçada pela Globo da família Marinho exerceu cabalmente este papel. Foi ela quem atribuiu o título de “Caçador de Marajás” a um candidato desconhecido vindo de Alagoas, transformando-o num fenômeno eleitoral. A mesma mídia que o elegeu, depois o derrubou, estimulando, através de uma série de TV, manifestações pedindo seu impeachment. E não pensem que foi por lesar a população ao congelar o que tinha guardado nos bancos. Não! A verdade é que a insatisfação da Globo com o Collor se deu por ele haver renovado a concessão da Record recém adquirida por Edir Macedo, contrariando assim um pedido pessoal de Roberto Marinho. A Globo conseguiu o que queria. Ironicamente, “Anos Rebeldes”, uma série inspirada na luta dos jovens contra a ditadura militar da qual ela mesma foi cúmplice, motivou a juventude alienada dos anos 90 a pedir a cabeça do primeiro presidente eleito democraticamente em 25 anos.

Recentemente, Collor foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal por falta de provas no processo em que era acusado de chefiar um esquema de propina para facilitar licitações. O ex-presidente e atual senador usou a tribuna do Senado para celebrar sua absolvição e desabafou: “Quem vai me devolver o que me foi tomado?”

Apesar de ter péssimas lembranças da Era Collor, não acho que ele deveria ter sofrido um impeachment. Da mesma maneira como não acho que um eventual impeachment da atual presidente vai reverter o quadro de crise em que o país está mergulhado. O fato é que a vitória de Aécio estava dada como certa. A suspeita morte do candidato Eduardo Campos abriu caminho para isso. Porém, o tiro saiu pela culatra.  Não foi o que se poderia chamar de uma vitória esmagadora, mas esmagou a pretensão de muitos em se apoderar de um dos motivos de maior orgulho do país atualmente: o Pré-Sal. A luta pelo petróleo que estava no centro do debate político nos anos 50, segue central agora. O que deveria ser uma bênção para o nosso país, pode vir a se tornar numa verdadeira maldição, capaz de descambar numa guerra civil. Foi com a intenção de amortecer o desgaste causado por uma eventual privatização que FHC propôs transformar Petrobrás em Petrobrax. Foi feita, então, uma dura campanha midiática para transformar o motivo de orgulho em motivo de vergonha nacional. A diferença é que antes a campanha colocava em xeque a competência da empresa, agora coloca sob judice sua idoneidade. Mas o objetivo é o mesmo: vendê-la como fizeram com outras estatais.

As mesmas forças que pressionaram os militares a tomarem o poder em 1964, voltam à cena. Os Estados Unidos não se deram por satisfeitos ao serem preteridos na partilha de uma das maiores reservas de petróleo do mundo. A maior parte ficou com a China, candidata à nova potência mundial.

Corrupção sempre houve. Não começou com o PT, nem mesmo com o PSDB. Começou desde que os portugueses tentaram aliciar os índios em troca de apetrechos. Todavia, a mídia parece estar engajada em incutir na cabeça da sociedade brasileira que isso é invenção do Lula e de sua corja. Enquanto nos distraímos com um escândalo boi-de-piranha que envolve dois bilhões de reais, uma boiada inteira passa incólume: vinte bilhões de sonegação através do HSBC. E antes que me esqueça, quase a metade dos nomes da desonrosa lista do ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, estava ligada às campanhas de Aécio ou Marina Silva. As empreiteiras pegas na Operação Lava Jato doaram quase meio bilhão de reais aos políticos e aos partidos com as maiores bancadas no Congresso, o que inclui os de oposição, como PSDB e DEM.

Como se não bastasse toda a mobilização por parte da mídia, líderes evangélicos proeminentes resolvem tomar partido pró-impeachment. Ora, se não estamos satisfeitos com o governo, vamos dar a resposta nas urnas. Muitos destes líderes foram contrários aos protestos de 2013. Santa conveniência, Batman! Eles deveriam convocar o povo para orar pelas autoridades e não para serem cúmplices de um golpe. Mais triste ainda é ver pastores de renome pedindo a volta dos militares ao poder. Tal postura me remete aos israelitas que pediram o impeachment de Moisés e o retorno ao Egito.

Devo confessar minha insatisfação com o atual governo. O PT parece estar pedindo por tudo isso, fornecendo munição para os que almejam o poder a qualquer custo. Mas o que mais me chama a atenção é que o PT está fazendo justamente o que era esperado do outro candidato. Aliás, era para que os aecistas estivessem comemorando. Aumentar a taxa Selic, cortar investimento nas áreas sociais, e outras medidas conservadoras não coadunam com a proposta que foi apresentada durante a campanha. Digamos, então, que o time do PT está fazendo gol contra. Antes de pedir a substituição do técnico, que tal nos lembrar dos gols anteriores que tanto favoreceram as camadas mais necessitadas da sociedade? E mais: que tal esperar o fim do jogo quando o placar estiver definido? Com o jogo em andamento, a gente substitui jogadores, não o treinador. Espero que a dona Dilma aprenda com os próprios erros e saia da retranca. Para virar o jogo é preciso estar na ofensiva. Não é  hora de ficar deprimida, choramingando pelos cantos do palácio do Planalto. É hora de mostrar a que veio. Afinal de contas, ela está respaldada por mais da metade dos votos no último pleito. 

No próximo dia 15, uma multidão deverá sair às ruas para pedir o impeachment de Dilma, que sequer aparece citada na operação Lava Jato. Será que vão pedir também o impeachment do senador Aécio Neves, cuja campanha recebeu doações das mesmas empreiteiras? Dois pesos, duas medidas. Mais uma vez o povo será peão no tabuleiro das jogadas políticas que visam o poder e o lucro a todo custo. 

Se torço pelo atual governo? Claro que sim! Ainda que não tenha sido a minha opção na hora do voto. Torcer por seu sucesso é torcer pelo Brasil. O resto a gente resolve nas próximas eleições. Só não quero ser cúmplice de uma injustiça histórica como a que levou os militares ao poder e submergiu o país em mais de vinte anos de censura e atraso. Caso discorde do que expus aqui, espero que ainda me considere seu irmão em Cristo. Mas espero que não discorde da admoestação apostólica:“Exorto, pois, antes de tudo que se façam súplicas, orações, intercessões, e ações de graças por todos os homens, pelos reis, e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e sossegada, em toda a piedade e honestidade” (1 Tm. 2:1-2). Portanto, oremos. 

quarta-feira, setembro 03, 2014

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Igreja sem rabo preso




“A política é a arte de obter dinheiro dos ricos e votos dos pobres, com o fim de proteger uns dos outros.” Noel Clarasó, escritor espanhol



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efinitivamente, não há posição mais confortável do que a proporcionada pela isenção. Não ter rabo preso com ninguém, nem tampouco estar comprometido ideologicamente, me oferece as condições necessárias para poder avaliar cada candidatura e suas respectivas propostas sem paixões desmedidas. Comprometi-me com a minha consciência de que não usarei minha influência e liderança para induzir quem quer que seja a votar nesta ou naquela candidatura. Por mais que me sinta atraído por uma ou outra, não sairei em sua defesa. Mas não posso fazer vista grossa com os argumentos usados por alguns líderes para convencer os membros de sua igreja a apoiar seus candidatos.

Um dos mais usados é o que usa o exemplo de José de Arimatéia, membro do Sinédrio, que intercedeu junto a Pilatos para que liberasse o corpo de Jesus para ser sepultado. Não fosse sua intervenção, o corpo de Jesus teria tido destino semelhante aos dos outros crucificados: apodreceria na cruz até ser comido por urubus. De igual modo, a igreja, Corpo Místico de Cristo, necessitaria de quem representasse seus interesses nas esferas de poder.

Primeiro, não somos um corpo inanimado, um cadáver, como era, então, o corpo de Jesus. Não precisamos de quem nos carregue, nem mesmo de quem nos proteja. Estamos assentados nos lugares celestiais em Cristo, muito acima de qualquer autoridade, seja terrena ou espiritual (Ef.2:6). A posição de Advogado da igreja já está devidamente ocupada. Quem defende nossa causa é Cristo!

Ademais, a igreja não carece de quem a enterre, lançando uma pá de cal sobre a sua credibilidade e relevância.

Segundo, precisamos de quem defenda o direito do pobre, dos excluídos, dos desfavorecidos deste sistema iníquo, e não de quem faça lobby em favor dos interesses eclesiásticos.

Leia atentamente:

"Abre a tua boca a favor do mudo, a favor do direito de todos os desamparados. Abre a tua boca; julga retamente, e faze justiça aos pobres e aos necessitados." 
Provérbios 31:8-9

O sucesso da igreja no cumprimento de sua missão não depende da intervenção ou ajuda do Estado. Pelo contrário, ela geralmente prospera mais onde o Estado lhe faz oposição. Veja o exemplo da China, onde a igreja mantém-se na clandestinidade, reunindo-se em salas subterrâneas. Em nenhum outro lugar ela tem crescido tanto.

Quando Paulo se viu perante as autoridades do seu tempo, ele não fez lobby pela igreja, mas deu testemunho da verdade do Evangelho. “Nada podemos contra a verdade, senão em favor da verdade” (2 Co.13:8), dizia ele. Era em defesa do evangelho, e não da igreja, que o apóstolo militava (Fp.1:17).

Que Deus levante em nossos dias líderes e cristãos comprometidos com o Reino e com a causa dos necessitados, mesmo quando isso representar qualquer prejuízo às instituições a que chamamos de igrejas.

Não se trata de adotar uma postura apolítica, e sim de não se comprometer com qualquer partido ou ideologia. Que jamais saiamos em defesa deste ou daquele regime. Fomos chamados por Deus para pregar o Seu Reino e a Sua Justiça.

É sempre preferível nos manter numa posição de total isenção, que nos dará condição moral de denunciar as mazelas de qualquer que seja o sistema político. Sem esta isenção, perdemos a eficácia profética no mundo.

Foi este tipo de isenção que deu a Jesus a condição moral de elogiar um centurião romano por sua fé, sem com isso endossar o domínio imperial. Sem isenção, João Batista jamais poderia denunciar os erros praticados por Herodes. Nem presentes ou privilégios oferecidos pelo monarca eram capazes de calá-lo. Não foi à toa que sua cabeça acabou num prato. Um profeta que não se vende vale mais do que a metade de um reino (Mc.6:23), em contrapartida, o que tem sua alma etiquetada não vale coisa alguma.

Bem faríamos em dar ouvidos à advertência de Jesus a Seus discípulos: “Guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes” (Mc.8:15).  O fermento é o recurso usado para promover o crescimento rápido da massa. Todavia, o que se vê ali não é, de fato, crescimento, mas, tão somente inchação.

Uma das principais razões pelas quais alguns se rendem ao assédio dos poderosos é o desejo de atrair para si os holofotes e alcançar relevância política. Em nome disso, conchavos são celebrados, sejam com os fariseus ou com Herodes, com os rótulos religiosos/doutrinários ou com os rótulos políticos/ideológicos. E assim, a massa inteira fica comprometida. Basta uma pitada de fermento para levedá-la por completo (Gl.5:9). No afã de obter a atenção dos novos Herodes, marchas e eventos que visam demonstrar nossa força são promovidos. Multidões nas ruas são sinônimo de capital político, poder de barganha. Seria ingênuo imaginar que o objetivo de tais concentrações seja a evangelização ou mesmo a glória de Deus. Como a enteada de Herodes, o que se almeja é seduzi-lo com sua dança insinuante. Depois de deixá-lo encantado, poderemos pedir dele o que bem entendermos: riquezas, influência, cargos, privilégios, concessões, e até a cabeça de algum desafeto.

O que muitos líderes parecem desconhecer é que a proposta do reino vai totalmente na contramão de tudo isso. A massa na qual Deus está trabalhando é completamente nova e dispensa qualquer fermento. Por isso, Paulo é tão incisivo ao ordenar: “Lançai fora o fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como sois sem fermento. Pois Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Pelo que celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” (1 Co. 5:7-8).

A esposa de Cristo não pode ser teúda e manteúda de Herodes.

Mesmo um descomprometido flerte pode invalidar nosso testemunho e nos colocar numa posição constrangedora. Ao aproximar-nos de um segmento, estaremos nos distanciando daquele que lhe faz oposição. Hoje, são adversários. Amanhã, aliados. Meter-se em briga política é como tomar partido por um dos cônjuges quando se divorciam. Se eventualmente retornarem, adivinha quem ficará mal na história?

Herodes e Pilatos eram inimigos políticos. Ambos estavam sob a autoridade de César, mas não se bicavam. Querendo livrar-se da responsabilidade de julgar um rabi que gozava de boa popularidade, Pilatos enviou Jesus a Herodes, alegando que, por ser galileu, estava em sua jurisdição. O monarca fantoche de Roma divertiu-se à custa de Jesus. Pediu que lhe fizesse um sinal. Fez-lhe perguntas. Porém, em momento algum Jesus correspondeu às suas expectativas. Não querendo ficar mal com os sacerdotes, nem com o povo, Herodes enviou Jesus de volta a Pilatos. Isso soou para o governador da Judeia como o reconhecimento de sua autoridade. Resultado: “Nesse mesmo dia Pilatos e Herodes tornaram-se amigos” (Lc.23:12).

Quantas vezes já não vimos acontecer coisa semelhante no cenário político nacional? Os adversários de hoje, tornam-se aliados amanhã. Quem xingou o outro de ladrão em rede nacional, agora compõe chapa com o mesmo. Alianças esdrúxulas são feitas, minando assim o que restou de credibilidade na classe política. Se ao menos fossem frutos da consciência, seriam mais digeríveis, mas pelo que se constata, são frutos da conveniência. Tão logo passe a oportunidade eleitoreira, voltam a ser o que sempre foram: inimigos.

A recente amizade entre Herodes e Pilatos não fez a menor diferença para Jesus que se manteve neutro em todo o tempo. Em momento algum Jesus esfregou Sua popularidade na cara deles, afim de colher algum benefício. Ele bem que poderia ter dito algo do tipo: Vocês viram a multidão gritando meu nome? Tenho capital político para enfrentá-los e derrubá-los. Em vez disso, Ele disse: “O meu reino não é deste mundo, se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu reino não é daqui” (Jo.18:36).

A falta de isenção nos expõe a saias justas como a do profeta Natan, que após incentivar a Davi a dar continuidade ao seu projeto de construção do templo, foi ordenado por Deus a retornar ao palácio para dizer que não seria ele que o edificaria, mas aquele que depois dele viria, isto é, seu filho Salomão (2 Sm.7:1-13). Imagine como deve ter sido difícil para o mesmo profeta chamar a atenção de Davi quando pecou! Natan teve que apelar para uma parábola, em vez de ser direto, curto e grosso (2 Sm.12:1-7). Tudo isso devido ao seu comprometimento.

A igreja cristã tem que ser voz profética no mundo, e para tal, usando um português mais claro, não pode ter rabo preso com ninguém.


Somente assim, teremos autonomia para dizer o que pensamos. O que for bom, a gente aplaude. O que for ruim, a gente denuncia. Venha de onde vier!