Por Hermes C. Fernandes
Fui surpreendido ao entrar em minha
fanpage e deparar-me com o link de uma matéria escrita pelo senhor Julio
Severo acerca de minha opinião sobre a homossexualidade. Não é a primeira vez
que este senhor escreve para confrontar meus posicionamentos. Ele, como um “guardião
da verdade”, não poderia deixar passar em branco um artigo tão “grave” quanto o
que escrevi cerca de uma semana atrás.
Primeiro, ele tenta desmerecer os estudos
científicos que apresentei lançando mão de um livreto (ou seria um panfleto?)
publicado por um ministério americano chamado “Focus on the Family", um dos porta-vozes mais eloquentes na defesa dos valores morais cristãos. Um ex-líder deste ministério John Paulk, que também era presidente da Exodus (aquele ministério da cura gay), protagonizou um escândalo de repercussão internacional ao ser visto e fotografado num bar de gays em Washington DC. Inicialmente, Paulk negou frequentar o estabelecimento, apesar da prova fotográfica, logrando com isso o apoio do fundador e líder
da Focus, Dr. James
Dobson. Mas em seguida, Paulk confirmou,
por escrito, que havia mentido e que, de fato, teria estado naquele bar.
Ted Haggard, outro pregador de renome,
amigo do fundador da Focus, admitiu ter recebido massagem de um homossexual
e de ter comprado metanfetamina. Ted ,
que era presidente da NAE (Associação Nacional dos Evangélicos), declarou,
inicialmente, que teria sido apenas uma massagem, sem qualquer conotação
sexual. Posteriormente, após ter sido declarado culpado pela diretoria da
igreja e afastado de suas atividades pastorais, Ted veio à público do púlpito
de sua igreja e admitiu ser “culpado de imoralidade sexual” , confessando ser “um
enganador e mentiroso”. James Dobson, o
presidente da Focus afirmou que continuaria sendo seu amigo, e que pretendia ajudá-lo
na restauração de seu casamento e de sua reputação. Tempos depois, Dobson
voltou atrás, afirmando que não pretendia mais participar do longo processo de
restauração de Ted Haggard.
Por que estou expondo isso aqui? Não é
para descredenciar a fonte usada por meu oponente para tentar desacreditar
estudos científicos sérios, mas tão-somente para demonstrar o perigo que é
adotar uma postura inflexível, desprovida de misericórdia. Por trás de todo
discurso moralista pode haver muita coisa escondida. Eu disse, “pode haver”, e
não que necessariamente haja.
Se agirmos com misericórdia, no momento
em que dela precisarmos, ela não nos será negada. Mas se agirmos com
intransigência e impiedade, elas igualmente nos alcançarão.
Sei de pastores flagrados em relação
sexual com obreiros no gabinete pastoral. Homens cujo discurso moralista era
inflamado. Não se trata apenas de hipocrisia, pregando
uma coisa enquanto se vive outra. Não. Em muitos casos, acredita-se piamente que
combater o mal encontrado em si mesmo atenuaria sua culpa perante Deus.
Julio Severo me acusa de fazer um “saneamento
científico” da Bíblia. Seria isto o mesmo que Galileu tentou fazer ao dizer que
nosso sistema era heliocêntrico? Ora, se a ciência é este bicho-papão que
pintam, por que insistem em usufruir de suas conquistas? Seria mais coerente
com o seu discurso se se isolassem do mundo como fazem algumas comunidades
menonitas que vivem como se vivessem dois séculos atrás, sem eletricidade, sem
água encanada, sem telefone, sem veículos automotivos, etc. São discursos retrógrados como o de
Severo e cia que rendem à igreja críticas tão severas por parte dos que
percebem sua incongruência.
A Bíblia não precisa ser reescrita, sr.
Severo. Nós é que precisamos lê-la sem as lentes de nossos preconceitos. Se você acredita que ela é tão incisiva quanto
à homossexualidade, explique-me a razão por que entre mais de 31 mil
versículos, apenas 6 abordam o assunto, enquanto mais de 2 mil falam de justiça social. E ainda assim, todos eles são passíveis
de interpretação, como expus em meu último post sobre o tema (talvez não tenha
lido). A propósito, você poderia alternar os assuntos em seu blog. Fica parecendo que você tem fixação naquilo. É só um palpite.
Meu caro, não me considero bispo. Fui
sagrado bispo pelas mãos de oito bispos de tradição anglicana e pelas mãos do
fundador da igreja a que sirvo.
De onde você tirou que fico “satisfeito
e excitado” toda vez que aparece um
estudo “científico” que dê suporto aos meus “sentimentos e paixões”? Seria isso
uma insinuação acerca de minha sexualidade? É isso mesmo?
Meu caro, sou casado há vinte e cinco
anos com a mesma mulher, pai de três lindos filhos. Não preciso ser negro para
defender a causa do negro, por séculos oprimido por gente da minha cor. Não
preciso ser mulher para defender a causa das mulheres, por milênios oprimidas
por homens como eu. Não preciso ser uma árvore para defender a causa do
meio-ambiente. Tampouco preciso ser homossexual para emprestar meus lábios a
este segmento tão massacrado por gente impiedosa que usa suas convicções religiosas
como pretexto para destilar ódio e preconceito.
Por fim, você diz que ao apelar ao amor,
eu estaria lançando mão do último recurso dos covardes espirituais. Covarde eu seria se me calasse diante do que
tem sido vociferado em nossos púlpitos sob o disfarce de piedade. Covarde seria
se, para proteger minha ilibada reputação, eu fizesse coro com os intolerantes.
Como se não bastasse, você ainda
conclama a blogosfera apologética calvinista a um linchamento contra mim (vai
bater em Hermes?). Será que seu mentor Olavo de Carvalho vai comprar esta briga também? Como esquecer do artigo que ele escreveu me detonando sem dó nem piedade no Mídia Sem Máscara?
Diferentemente de você, meu caro Severo,
homens com Renato Vargens, apesar de discordar de mim em vários pontos, sabe
apresentar seus pontos de vista sem atacar minha honra, nem levantar suspeitas
infundadas.
Depois de toda a salada, você asperge
seu amargo vinagre, tentando ligar meu nome a coisas como “sacrifício de bebês”.
Conheço bem este artifício. É próprio dos que não possuem escrúpulos.
Não sou de esquerda. Nem de direita. Nem mesmo de centro. Sou pela
desideologização do evangelho. Não
defendo o aborto. Tenho um vídeo no
youtube onde confronto o bispo Macedo sobre isso.
Não sou adorador de Baal. Sou um
seguidor de Cristo. Sem lenço, nem documento. Sem compromisso com qualquer
ideologia. Sem ligação com movimento algum. Apesar de simpatizar-me com alguns
pressupostos da Teologia de Missão Integral, não compro pacotes fechados de
ninguém. E também não peço que comprem de mim. Não tenho procuração para pensar por ninguém. Prefiro examinar item por item,
retendo somente o que for coerente com o que creio ser a expressão mais próxima
do evangelho.
