terça-feira, setembro 21, 2010

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Encontrando Deus na obra de Saramago


Por Zé Luís

Ato falho é aquela situação onde revelamos, de forma espontânea, o mais sigilosos segredos. Conta-se que isso é um ato do inconsciente. Um exemplo clássico é a do sujeito que troca o nome, e acaba chamando a esposa pelo nome da amante.

Quando li o angustiante “Ensaio sobre a cegueira” de Saramago, ateu ferrenho, notei algo em um de seus personagens: a mulher do médico é a única capaz de ver quando a epidemia de cegueira branca domina todo o país(se você não o leu, e pretende, talvez haja aqui alguns spoilers que atrapalhem quando fizer isso. Por exemplo, no livro inteiro, não existe o nome dos personagens, e sim, sua posição social, ou, o que representam na ordem em que se apresentam na história).


Ela escolhe estar com o médico, seu marido, quando ele é recolhido pelo governo para o isolamento, se fazendo de cega. Eles, e mais um grupo, se apinham em uma ala de hospital, abandonados pelo governo, que tenta esconder o problema.

A epidemia não se restringe à classe A, B, ou C. Repórteres estão no meio do noticiário quando ficam cegos, e agora, no “campos de concentração”, se amontoam cegos, montando facções rivais, a ponto de uma ala tentar dominar a outra, com direito a violência sexual e assassinato.

Enquanto os cegos se multiplicam, os hábitos higiênicos destes inexperientes desprovidos de visão são abandonados gradativamente defecam pelo caminho, sem se limpar, comem como animais, fazem relações sexuais no meio dos outros, cagados, e já não se vestem de forma adequada.

Nem imaginam que ali, existe alguém que se obriga a ver tudo, em silêncio, guardando para si toda a tragédia e humilhação que se espalha por sua sadia retina. Até o marido(só ele então sabe de sua visão), por quem se sacrificou, a trai com uma prostituta, mantendo relações sexuais diante dela, ignorando sua presença e ciência.

Eles estão agora submersos num mundo onde são imundos, precários, mesquinhos, e a mulher, que ajuda o grupo com seu dom, vê tudo aquilo e se reserva a sofrer silenciosamente.

O que não é Deus muitas vezes que não isso? A presença que se obriga a ver a miséria de quem perdeu a visão, que mais parece uma epidemia fictícia, e a perda o faz, aos poucos, se entregar a imundícia.

A mulher, por amor, permanece no auxílio e cuidado, mesmo quando ele o traí com a garota de programa. lembrando nossa condição de saber que Ele está aqui – e não LÁ – mas nos fazemos de desentendidos, fingindo que não existe, ou que faltou bem nesse dia.

Um dos cegos entra em pânico quando descobre que existe entre eles alguém que enxerga, e sua reação é tentar destruir aquela presença. Destruir a presença daquele que vê tudo, e portanto, sabe de nossa vergonha.

Saramago era ateu, mas toda a onisciência de seu personagem em relação a miséria humana, e sua insistente crença neles, só conseguem me lembrar de um Deus que ele não cria, mas em um ato falho, acabou por inserir como personagem principal de sua tragédia épica.

Um personagem que se obriga a sofrer tudo por amor de seu esposo, e depois, incorpora novos cegos em seu sacrifício, se fazendo líder e servo, pondo sua vida em risco em prol daqueles outros personagens tão mesquinhos, e que realmente, não valem a pena. Como eu, e você.

Zé Luís (Via Cristão Confuso)

9 comentários:

  1. Pior cego é o que não quer ver Aquele que vê tudo.

    Excelente texto!

    Acesse: www.blogdojairofilho.blogspot.com

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  2. Um belo texto acompanhado de uma bela reflexão, mas a obra de Saramago foi inscrita com base no Livro VII da República de Platão. O mito da caverna...

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  3. Hermes, que texto maravilhoso, é perfeito.
    Que o Senhor continue, sempre, te fazendo esse canal de edificação em Cristo Jesus, valeu?
    E é uma honra te-lo como seguidor do meu Blog, e me sinto honrado por estar aqui também, como seguidor.
    http://lucianoac.blogspot.com/
    @LucianoSantosac

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  4. Saramago como ateu professo conscientemente não escreveria nada que fizesse alguém a ter um "encontro com Deus".
    Essa perspectiva é de quem lê, que pode escolher um deus "para matar com as próprias mãos" ou um deus que é um amante ignorado.
    Escolhei hoje a quem sirvais,..., mas eu e minha casa serviremos ao SENHOR.

    Bjs

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  5. "Se os teus olhos forem bons todo o teu corpo será luminoso" - É bíblico.

    Leio Saramago sempre com bons olhos, para enxergar justamente o que emblematicamente você escreveu aqui:

    "...se fazendo líder e servo, pondo sua vida em risco em prol daqueles outros personagens tão mesquinhos, e que realmente, não valem a pena. Como eu, e você".

    AMÉM.

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  6. Caro Hermes, somente as mentes pequenas são capazes de interromper um rio de sabedoria com suas tolices. Conforme bem sabemos o homem perece pois lhe falta o conhecimento.
    Mesmo Saramago foi capaz de mostrar ao Homem que as melhores escolhas estão acima e não abaixo de todos nós.

    Desculpe o sumiço, os afazeres me consomem rapaz! rsrs..

    Aliás, pra resolver tua dúvida:

    Sou eu em:
    www.gildocarvalho.blogspot.com

    www.quadrangularpari.blogspot.com
    (agradeço teu comentário por lá e aceito com honras o incentivo tão nobre de tua parte)

    www.twitter.com/gildodecarvalho
    (onde não me canso de indicá-lo para o meu pequeno grupo de seguidores)

    www.myspace.com/gildodecarvalho
    (caso tenha tempo pra ouvir algumas composições minhas)

    Bem, depois disso, se quiser - pode chamar-me de amigo..rsrs

    Grande abraço!

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  7. Fiquei contente por estar me seguindo,e ja estou seguindo também.

    Gostei dos seus textos e reflexões. Que Deus continue usando sua vida, e seu blog como fonte de vida e edificação dos santos em Cristo Jesus.

    Conte Comigo.

    Grande Abraço.

    A Paz.

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  8. Desculpe-me Gildo, pela confusão. Queria ter certeza de que era você mesmo.

    Busco incentivar os blogs cujo conteúdo e proposta dignificam o reino de Deus. E este, sem dúvida, é o seu caso.

    Parabéns pelo trabalho em ambos.

    Obrigado por me franquear sua amizade. Vou honrá-la.

    Abraços!

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  9. Profundo este texto.
    Lembro-me de ter assistido ao filme baseado neste livro e ter ficado escandalizada, nauseada com tudo aquilo. Pensava: como pode alguém produzir algo mesquinho assim, onde o ser humano não vale nada?
    Fui cega de não ter percebido que, apesar de Saramago querer mostrar a suposta "não-existência" de Deus, o efeito foi contrário...
    Afinal, quem amaria como a mulher do médico, que se prejudica, se macula, se machuca simplesmente para proteger não só o marido, mas também aos demais?

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