sexta-feira, agosto 24, 2012

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A política e a isenção profética da Igreja

















Por Hermes C. Fernandes

Devo deixar claro que sou apolítico, e jamais estive comprometido com qualquer partido ou ideologia. Nunca saí em defesa deste ou daquele sistema político. Fui chamado por Deus para pregar o Seu Reino e a Sua Justiça.

Conheço o trabalho de alguns expoentes da Teologia da Libertação, e os respeito profundamente. Entre eles, Rubem Alves, Frei Betto, Leonardo Boff, e outros. Se lêssemos suas obras desprovidos de preconceito, encontraríamos verdadeiras pérolas. Sigo a recomendação de Paulo que diz que devemos ler de tudo, porém reter o que for bom. Não subscrevo 100% de nada que tenha sido escrito ou ensinado por alguém, nem mesmo Calvino, que eu tanto admiro. Não compro pacotes fechados, nem doutrinários, nem ideológicos. Prefiro examinar as coisas de per si, e só reter comigo o que estiver de acordo com o espírito do Evangelho. Sou capaz de encontrar lírios no meio da lama. Por isso, presto tanta atenção na produção cultural secular. Detesto rótulos, e por isso, evito rotular quem quer que seja, e peço que não me rotulem.

Acredito que o marxismo levantou as questões certas, mas não encontrou as respostas corretas a estas questões. Questões que o Capitalismo preferiu varrer pra debaixo do tapete.

Mas também não vejo o regime socialista como um bicho-papão.

Prefiro manter-me numa posição de total isenção, o que me dá condição moral de denunciar as mazelas de qualquer que seja o sistema político. Sem esta isenção, perdemos a eficácia profética no mundo. Por conta disso, pude celebrar a queda do Muro de Berlim, bem como a Perestroika, mas jamais poderia concordar com o embargo à Cuba, responsável por manter a ilha de Fidel num atraso tecnológico de décadas. Celebrei a eleição de Obama, pelo que representa de avanço contra o preconceito racial nesse país. Mas não sou obrigado a concordar com sua política relativa ao aborto.

Foi este tipo de isenção que deu a Jesus a condição moral de elogiar um centurião romano por sua fé, sem com isso estar endossando o domínio imperial. Sem isenção, jamais João Batista poderia denunciar os erros praticados por Herodes. A falta de isenção produz profetas como Natan, que após dizer a Davi que desse continuidade ao seu projeto de construção do templo, se viu numa saia justa, ao ser ordenado por Deus a retornar ao palácio e dizer que não seria ele que Lhe edificaria uma casa. Imagine como deve ter sido difícil para o mesmo profeta chamar a atenção de Davi por haver pecado! Natan teve que apelar para uma parábola, em vez de ser direto, curto e grosso. Tudo isso por causa do seu comprometimento.

A igreja cristã tem que ser voz profética no mundo, e para tal, usando um português mais claro, não pode ter rabo preso com ninguém.

Achei vergonhoso o apoio irrestrito que alguns pastores americanos deram ao governo Bush, a despeito da morte de milhares de inocentes tanto no Afeganistão, quanto no Iraque. Embora ele se apresentasse como um presidente cristão, nenhum cristão teria que concordar com a sua política externa imperialista.

O Capitalismo selvagem pregado pela direita não tem moral alguma para falar contra o Socialismo/Comunismo. Não há mocinhos nesta história. Todos são vilões.

Se o Comunismo foi responsável pela morte de milhões de pessoas ao redor do mundo, o Capitalismo também o é, e todos os demais sistemas criados pelo homem.

Basta uma viagem à África para verificar do que o Capetalismo é capaz. São milhões e milhões de mortos e famintos, vítimas da ganância e da exploração dos países desenvolvidos. Sim, eu disse "capetalismo", pois isso que ele é.

Não sou partidário nem da esquerda, nem da direita. Se a esquerda produziu Lenin, a direita produziu Hitler e Mussolini.

Não há sistema capaz de produzir a verdadeira justiça preconizada pelo Evangelho. Todos estão fadados a fracassar. O mesmo Cetro de Cristo que derrubou o Muro de Berlim, também derrubará a ganância de Wall Street.

Por isso, em vez de optar entre o Comunismo e o Capitalismo, eu fico com o REINISMO. Acreditar que um sistema político poderá trazer justiça à terra é, no mínimo, ingenuidade. Só o Reino de Deus poderá transformar a sociedade humana.

E quanto aos mortos, desaparecidos e torturados durante a Ditadura Militar no Brasil? Quem foram os responsáveis? Sabe quantos pastores reformados desapareceram do mapa ou foram torturados? Quem vai clamar por eles? (Veja aqui)

Se no Comunismo se tem a partilha dos bens, em contrapartida, perde-se a liberdade. No Capitalismo preserva-se a liberdade (pelo menos em tese), mas os bens ficam concentrados nas mãos de poucos.

Só o REINISMO poderia trazer a liberdade e a partilha dos bens, porém, de maneira voluntária, fruto da consciência iluminada pelo Espírito do Evangelho.

Chamo de REINISMO a proposta vivida pela igreja primitiva, em que havia em todos abundante graça, expressada no cuidado recíproco, e no repartir do pão.

Cabe à igreja de Cristo ser paradigma para as nações, sendo uma espécie de amostra grátis do Reino do Deus.

O que for bom, a gente aplaude. O que for ruim, a gente denuncia. Venha de onde vier!

16 comentários:

  1. Anônimo9:22 AM

    Olá bispo, incrível esta exposição. Com certeza é através do REINISMO que a humanidade irá mudar, novos seres, novas criaturas, nascida do espírito (Uma nova consciência).
    Pois acreditamos num amanhã bem melhor, e a igreja precisa dessa isenção pra protestar a quem quer que seja. Vindo de onde vier. Gostei disso rsrsrsrsrsr

    Parabéns pelo trabalho do blog.
    Está muito edificante e interessante.

    Abraços bispo estamos juntos!

    Pr Roberto
    Christus Victor

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  2. Olá Hermes. Brilhante o seu... ensaio. Isso mesmo. Eu concordo com você: todos os sistemas humanos hão de perecer, simplesmente porque são humanos. Vemos que o que era bom em determinada época da história, tendo sido recebido como a salvação da "lavoura" passa a ser combatido em outra época. Assim foi Hitler, quando ascendeu ao poder na Alemanha, tirando-a do caos financeiro e elevando-a novamente à condição de potência continental. Da mesma forma Mussolini na Itália. E todos nós sabemos qual foi o resultado disso: genocídio. A justiça do homem sempre haverá de ser "trapo de imundície" para Deus. Concluo, pois, que não haverá sistema perfeito urdido pelo homem, uma vez que a perfeição pertence a Deus. Dê um passeio pelo meu blog e faça um comentário. (www.ricardomamedes.blogspot.com)

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  3. Caro Hermes,

    Isso vem ao encontro do que comentamos na sua postagem anterior acerca da tradição.
    Veja, dizer-se apolítico é semelhante ao dizer-se ateu, como se isso significasse uma atitude de distanciamento religioso. O posicionamento do ateu é um posicionamento religioso, quer ele goste disso ou não, seja lá como ele lute contra esta verdade. Do mesmo modo, o "apolítico" está fazendo política por meio de seu "apolitismo".
    Compreendo sua intenção em colocar-se à parte da discussão direita/esquerda, procurando aproveitar o que é bom e condenar o que não presta (isso é o que entendo você se referir por "apolítico", mas, ora, isso não é fazer política?). Por minha própria ignorância política, tento também fazer o mesmo. A única coisa que sei não ser ignorante quanto a isso é não me deixar enganar que existe alguma direita no Brasil (pelo menos no que se refere a partidos ou qualquer coisa organizada).
    Porém, o cristianismo exige uma postura conservadora (direita? não sei se é o caso), pois as várias correntes "progressistas" (esquerda) exigem uma síntese incoerente e impossível de cristianismo e certos pensamentos seculares (qualquer espécie de marxismo). Isso não significa que não tenhamos algumas bandeiras em comum.
    Pois bem, voltando à tradição, querer dizer que não se segue tradição alguma com ares de neutralidade ("eu sigo é a Bíblia", dizem, como se nós, calvinistas não o fizéssemos) é pura arrogância de uma razão totalmente influenciada pelo ceticismo típico pós-moderno. Para deixar isso um pouco mais claro, vou repetir o que disse a um amigo sobre este tipo de atitude:

    "Tive recentemente uma discussão nestes termos, como os tais "equilibrados". Eles dizem que são bíblicos com uma pretensa humildade que arminianos e, principalmente, calvinistas não possuem. Aliás, nós sempre somos os arrogantes dos arrogantes.
    Um amigo, criticando esta atitude, chamou essa humildade de "falsa modéstia", pois é impossível não ter uma tradição, uma cosmovisão. Todos e qualquer um tem uma, quer seja consciente dela ou não. Ele diz que isso é "mais desespero epistemológico do que humildade genuína", pois, para os "equilibrados", as tradições são apenas interpretações e nenhuma delas presta. Isso é um ceticismo teológico!
    Eu prefiro dar um passo além e chamar essa falsa modéstia de "absoluta arrogância racional", pois tal ceticismo, muito correto ao verificar a incapacidade da razão, ao mesmo tempo continua a colocá-la num trono como rainha e juíza de todas as coisas em sua interpretação pretensamente despida de tradição".

    Meu caro, embora meu tom aqui seja de certa crítica a determinadas afirmações suas (porém muito mais a coisas que ouço e leio por aí), entendo perfeitamente onde você quis chegar com seu texto e, neste sentido, estou de acordo.

    Grande abraço, no Senhor
    Roberto

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  4. Muito interessante o ensaio.

    De fato, nenhum sistemoahumano será capaz de consertar o cosmos. Apenas o Reino de Deus o fará.

    Abraços,
    Daniel

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  5. Roberto, obrigado por mais este comentário.

    Ao me dizer apolítico, não estou afirmando que não seja politizado. Apenas me dou o direito de não me comprometer com qualquer que seja o setor (governo ou oposição), ou regime ou ideologia.

    Concordo com você que não exista genuína representação de direita no Brasil. Mas talvez o mesmo se dê com a esquerda. Parece que estamos cada vez mais parecidos com os moradores de Nínive, que não sabiam a diferença entre esquerda e direita. rs

    Sinceramente, acho que situar posicionamentos políticos como 'direita' e 'esquerda' soa um pouco anacrônico.

    O que você chamaria de posturas conservadora e progressista?

    Por exemplo: acreditar na primazia do capital sobre o trabalho me faz um conservador? acreditar na primazia do trabalho sobre o capital me faz um progressista?

    Acho que todos os regimes e ideologias são como queijos suíços, cheios de buracos. Por isso, não fecho com nenhum deles, embora concorde que tenhamos alguma bandeira comum.

    Sobre a tradição, concordo com a maioria das coisas que você expôs aqui.

    Negar a tradição é negar a história, é jogar fora o bebê com a água suja do banho.

    O problema é quando fazemos da tradição um ídolo, colocando-a acima de qualquer outro bem.

    Forte abraço!

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  6. Hermes, meu caro,

    Como eu disse, entendi o uso que fez do termo "apolítico" e eu mesmo tenho postura semelhante. Apenas fiz considerações para o significado que ele pode ter em conexão com o que conversamos sobre a tradição.

    Quanto aos termos conservador/progressita, bem, isso é mesmo de difícil caracterização. É mais fácil associar o progressista às esquerdas (leia-se: adotar em qualquer grau filosofias de qualquer tipo de marxismo) e o conservador em oposição a elas. Mas meu ponto não é bem esse, pois eu também considero tudo isso um "queijo suíço" (embora este seja bom e aqueles não! rs). Meu ponto, nesta questão, é que não é necessário, para ter certas bandeiras em comum, unir-se às esquerdas, pois elas efetivamente são incompatíveis com o cristianismo. Meu ponto é que a síntese é impossível e incoerente.

    Voltando à tradição, estamos em acordo quanto ao risco que se corre, como você poderá ver em Da minha relação com não-reformados (veja os comentários também).

    No amor dEle,
    Roberto

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  7. A todo momento o autor reintera que não está defendendo o comunismo mas seus exemplos tentam dizer justamente o contrário.
    Me engana que eu gosto!!!

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  8. Ôpa! Em que momento defendi o comunismo? Como eu poderia defendeu um regime que suprime a liberdade?
    Como também não defenderia um regime que distribuiu injustamente as riquezas de uma nação.

    Sou pelo Reino!

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  9. ...Aliás, todos os sistemas reacionários que vêm para 'criar uma nova ordem' têm, como 'conditio sine qua non' negar a tradição. Pois assim negam-se valores arraigados, criando-se novos - que darão suporte à "sua visão", ou à visão do grupo dominante. Concordo ainda com o Roberto em uma questão: dizer-se apolítico certamente coloca a pessoa em situação privilegiada, pois de fato permite uma neutralidade cômoda. Nesse diapasão, entre dois conceitos (direita e esquerda), o 'apolítico' tanto pode pender para um lado como para o outro sem se comprometer. Daí a afirmação de que, transpondo-se esse raciocínio para a ótica teológica, culminamos com a "falsa modéstia = arrogância racional". É o que acontece hoje com a "nova visão evangélica": destrói todos os valores adquiridos ao longo do tempo, sob a pecha de que é "tradição", como sinônimo de valores retrógrados e ultrapassados.

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  10. Bispo, achei muito bom a explanação da sua posição... Gostaria muito de ter conhecimento de livros de sua indicação...

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  11. Olá Júlio, obrigado pelo comentário.

    Não tenho nenhum livro para lhe recomendar sobre este assunto. Há um livro de minha autoria chamado "A Justiça do Reino", que todavia está no prelo. Espero lançá-lo em breve.

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  12. Se eu tivesse qualquer tendência comunista, jamais teria celebrado a queda do Muro de Berlim, ou a Perestroika.

    Meu posicionamento não significa que eu esteja em cima do muro.

    Prefiro o conforto/desconforto que me confere a isenção profética.

    Me identifico com o calvinismo, mas isso não me obrigada a concorda com tudo o que Calvino disse ou fez.

    Também não me obriga a aplaudir o regime Apartheid, responsável pela segregação racial na África do Sul. Foram irmãos calvinistas de origem holandesa que arquitetaram tal regime. Vibrei de alegria quando da eleição de Mandela.

    Não sou hindu, mas sou um profundo admirador de Mahatma Gandhi.

    Não sou batista, mas sou um profundo admirador de Martin Luther King, Jr.

    Não sou católico romano, mas tenho que tirar o chapéu para Madre Teresa de Calcutá, e o faço com muito gosto. Como também sou um profundo admirador de Agostinho, Tomás de Aquino, Teresa de Ávila, Francisco de Assis e tantos outros.

    Não sou um seguidor da teologia da libertação, mas gosto de muita coisa que eles dizem, embora não concorde com todas. O diagnóstico parece preciso, mas o remédio receitado não.

    E assim por diante.

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  13. Bem, eu não quis dizer que você se coloca "em cima do muro". Apenas entendi o raciocínio elaborado. Penso que é possível discordar e concordar 'em parte', sem estar nessa posição desconfortável. De fato apreciei muito o ensaio - concordando em parte. No entanto o raciocínio que você desenvolveu - concordemos ou não com a essência - é cativante. Como todos os seus escritos que eu tenho lido. Só isso. Aliás, é um prazer falar contigo . Ooops, na verdade é apenas um monólogo (rs).

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  14. Anônimo5:15 PM

    Gostei muito do texto e dos comentários. Nesse blog aprendemos muito, os assuntos são pertinentes. Os comentaristas tem classe até pra discordar e concordar.rsrsrs!

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  15. Já me tornei um admirador teu. Concordo com seus pensamentos expostos neste texto. Principalmente quando diz: "A igreja cristã tem que ser voz profética no mundo, e para tal, usando um português mais claro, não pode ter rabo preso com ninguém."
    Deus o abençoe!

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  16. E foi Mussolini em acordo secreto pela madrugada que junto com o "papa de Hitler", pio XII, que fundaram o "estado do vaticano", em uma barganha escandalosa, o papa dava total apoio a ditadura assassina de Mussolini e este assinava a concessão para a criação desta coisa que hoje faz todos os paises se dobrarem, como se fosse um "estado divino".

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