Se a reivindicação fosse por uma reforma política ampla que
acabasse com o financiamento de campanhas políticas por parte de empresas,
principalmente as que participam de licitações públicas.
Se fosse para demonstrar minha insatisfação com todo tipo de corrupção e não apenas a que envolva membros de um partido em particular.
Se fosse para reclamar dos serviços públicos sucateados devido ao agressivo lobby feito por deputados eleitos para defender os interesses das operadores dos planos de saúde e dos donos de estabelecimentos de ensino privados.
Se não tivessem o objetivo de derrubar um governo democraticamente
eleito.
Se não fossem claramente estimuladas pela grande mídia que
apoiou o golpe militar em 64 e sempre perseguiu governos com apelo popular.
Se não tivessem o apoio de lideranças evangélicas eticamente
comprometidas.
Se a corrupção houvesse começado em 2002.
Se não percebesse os interesses inconfessáveis por trás da
privatização da Petrobrás.
Se acreditasse que a privatização provocaria preços mais
baixos para o consumidor. O que não aconteceu, por exemplo, com a telefonia
cujos preços estão entre os mais caros do mundo.
Se concordasse que programas sociais como o Bolsa Família
fossem apenas esmolas em vez de terem ajudado a tirar da miséria trinta e seis
milhões de pessoas.
Se achasse que o sistema de cotas fosse sinônimo de
incompetência.
Se acreditasse que a democratização da mídia fosse o mesmo
que censura.
Se defendesse que direitos humanos não passam de muleta para
marginal.
Se concordasse que bandido bom é bandido morto.
Se achasse que todo sem teto é um vagabundo e todo sem terra
um terrorista.
Se não acreditasse que homossexuais tenham os mesmos
direitos que qualquer heterossexual.
Se não defendesse a laicidade do Estado.
Se houvesse me esquecido das manchetes dos jornais dos anos
90, quando o PSDB estava no governo.
Se conseguisse me esquecer dos 170% de aumento da gasolina durante a gestão de FHC.
Se conseguisse me esquecer dos 170% de aumento da gasolina durante a gestão de FHC.
Se as manifestações fossem legitimamente populares, espontâneas, e não orquestradas por empresas multinacionais,
partidos com reserva moral zero e a
grande mídia para impedir o avanço de programas sociais que permitiram que as
camadas mais pobres da sociedade finalmente se tornassem protagonistas de sua
própria história.
Só por isso, não sairei às ruas dia 15.
E não... desta vez o gigante não acordou, ele só está sonâmbulo.
Hermes C. Fernandes, 13/03/2015
