Por Hermes C. Fernandes
Eram meados dos anos 80. Como líder do grupo jovem de minha igreja, decidi levá-los a hospital psiquiátrico em Jacarepaguá, zona oeste do Rio. Jamais poderia supor o que me aconteceria naquela tarde de domingo.
Pessoas consideradas loucas transitavam livremente pelo hospital, enquanto eu e os jovens tentávamos organizar o que seria um mini-culto no pátio com a devida autorização da direção.
Enquanto falava sobre o amor que Deus tinha pelo ser humano, um homem completamente nu se aproximou. Não sei porque os responsáveis pela segurança não o impediram de fazê-lo. Afinal, havia moças de família entre nós. Todos ficamos visivelmente constrangidos.
Fingi que não o vi, e continuei a minha pregação, enquanto ele assistia em completo silêncio.
De repente, ele me interrompeu, dizendo não crer em nada daquilo que eu estava pregando. Embaraço, tentei prosseguir em meu raciocínio, mas ele novamente me interrompeu, dizendo algo mais ou menos assim:
- Como posso crer no que você diz? Se é verdade que vocês estão aqui porque nos amam, por que vocês me vêem nu, e não fazem nada. Você está aí, todo perequetado, bem vestido, enquanto eu estou aqui com frio. Agora vem me dizer que Jesus me ama? Que vocês se importam? Tudo não passa é de balela!
Depois desta, não dava pra continuar pregando. Seu argumento conseguiu me calar. A vontade que tive foi de tirar minha roupa ali mesmo, e vesti-lo, para que soubesse o quanto nos importávamos com seu estado.
Chegando à igreja, reuni os jovens, inclusive os que não puderam ir comigo, e os desafiei:
- Se é verdade aquilo que pregamos, então vamos nos mobilizar e na próxima semana, levaremos roupas para os internos daquela instituição.
Este episódio foi crucial para a formação de minha consciência social. Não basta pregar com palavras, temos que pregar com nossas obras. Não basta apontar o dedo e chamar os homens de pecadores, temos que estender a mão e demonstrar o quanto nos importamos com sua condição.
Hoje, dia 29 de Janeiro, nossa igreja no Rio estará promovendo mais um dia dos braços estendidos. Através desta singela campanha, já conseguimos levar centenas de pessoas para doar sangue no Hemorio. Desta vez, nosso objetivo é ajudar às milhares de vítimas da tragédia na região serrana do Rio.
Caso você esteja lendo este post ainda pela manhã, e more no Rio, quero convidá-lo a estar conosco ali. Não se trata de proselitismo, mas de um gesto de amor. Se você é pastor ou líder de uma comunidade, eu o encorajo a promover algo semelhante. Mesmo que isso não se reverta em novos membros para sua igreja, ou traga qualquer benefício palpável, saiba que aos olhos de Deus, bem como aos olhos dos homens, a mensagem anunciada em sua igreja terá maior credibilidade.
Infelizmente, desta vez eu e minha esposa não poderemos participar pessoalmente, por conta da distância, devido ao fato de estarmos residindo no Exterior. Mas estaremos orando para que através desse gesto muitas vidas sejam poupadas.
Parabéns Wilton pela iniciativa. Parabéns povo reinista pela coragem e pelo comprometimento com a mensagem subversiva do Amor.
