Por Hermes C. Fernandes
Todo segundo dia do mês de novembro se comemora no Brasil o Dia de Finados. Milhões de
pessoas dirigem-se aos cemitérios para prestar homenagens aos seus mortos. Trata-se de um feriado católico, e que, portanto, não é
observado por outras religiões, inclusive pelos evangélicos.
Particularmente, acredito que os evangélicos desperdiçam uma
ótima oportunidade de relembrar seus antepassados. Poderíamos adaptar esta celebração à nossa
fé. Em vez de orar pelos mortos, como se isso pudesse interferir de alguma
maneira em seu destino, poderíamos render graças por eles pelo legado que deixaram, ou simplesmente pela
oportunidade que tivemos de conviver com eles.
Não há nas Escrituras qualquer respaldo para que os vivos
orem pelos mortos. Mas também não há nada que nos impeça de agradecer a Deus
pela vida que tiveram. Não apenas os que nos foram contemporâneos, mas também os
que viveram muito antes de nós. Temos uma dívida de gratidão com todas as
gerações que nos antecederam.
Já era costume homenagear os mortos nos dias de Jesus. Ele
mesmo conta que os religiosos de seu tempo adornavam os sepulcros dos profetas.
Em momento algum Ele condenou tal prática. Mas deixou subentendido que a melhor
maneira de honrá-los era encarnar seus ensinamentos.
Ademais, as discípulas mais chegadas de Jesus foram ao Seu
sepulcro prestar-lhe homenagem póstuma, achando que ainda estava morto. Nada há
de errado nisso. Seres humanos necessitamos de vínculos, não apenas com os
vivos, mas também com os que nos precederam. Isso ajuda a conferir sentido à
existência. Somos todos ramos de uma árvore cujas raízes se encontram abaixo da
terra.
Cada vez que leio uma obra escrita séculos atrás, meu coração
se enche de gratidão a Deus por haver instrumentalizado aquela vida para
abençoar a várias gerações. Louvo a Deus por Paulo, Agostinho, Francisco de
Assis, Teresa d'Ávila, Lutero, Calvino, Edwards, Spurgeon e tantos outros. São homens como
Abel, que mesmo depois de mortos, sua contribuição não perdeu a eloquência.
Confesso que nunca fui ao cemitério prestar homenagem a
ninguém, a não ser por ocasião do sepultamento. Às vezes, sinto-me culpado por
jamais ter depositado flores no túmulo de meu pai e no de minha querida sogra. Porém, tenho buscado honrá-los através de minha vida. A
melhor maneira de honrar a memória de minha sogra é amando sua filha até o fim.
E a melhor maneira de honrar meu pai é honrando o seu legado, jamais permitindo
que caia no esquecimento.
Quanto à comunicação com os mortos defendida por algumas
tradições religiosas, não há qualquer possibilidade à luz das
Escrituras. Há, entretanto, uma maneira de comunicar-nos
com eles. Os valores que aprendi do meu pai foram introjetados, tornando-se
parte do meu ser. Cada vez que tenho que tomar uma decisão importante, lembro-me
do que ele me ensinou. Aquela voz rouca ainda soa dentro de mim. A sepultura
guarda apenas seus restos mortais, que aguardam o dia da ressurreição. Porém, quem carrega sua vida sou eu e meus irmãos. Meu pai vive em mim. Sou a extensão de sua
existência terrena. Trago em mim, além seu DNA, sua ética, seus princípios e
valores. E hoje, ele fala comigo através do eco de sua voz em minha
consciência.
Definitivamente, meu pai não era perfeito. E a outra maneira
que tenho de honrá-lo é buscando aperfeiçoá-lo em mim.
Se puder ir ao Cemitério depositar um ramalhete de flores,
faça-o sem culpa. Mas lembre-se que seu ente querido já não está lá. Assegure-se
de que ele vive em você, em sua memória, e na maneira como tem procurado conduzir-se
nesta vida.
