terça-feira, dezembro 29, 2015

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Presença de Tabita - O presente dos ausentes



Por Hermes C. Fernandes 

Gosto de imaginar a vida como um trem. A cada estação, pessoas embarcam, enquanto outras descem. Algumas, porque chegaram ao seu destino, outras porque precisam fazer baldeação, tomar outro trem que as leve ao seu destino. Quantos embarcaram ou desembarcaram do vagão de nossa vida ao longo deste ano que se encerra? Os que fazem baldeação, simplesmente trocam de trem, mas continuam por aí, prosseguindo em sua viagem existencial. Pode ser que em algum momento, a gente se cruze novamente (se bem que, às vezes, a gente prefira que não). Há ainda as que não descem do trem, mas mudam de vagão por já não apreciarem nossa companhia. E quanto aos que chegaram ao seu destino? Refiro-me aos que nunca mais veremos, pelo menos, não nesta vida. Quantas saudades deixaram! Seus lugares ficaram vagos e não há quem possa preenchê-los. 

Afinal, o que torna alguém insubstituível na vida da gente? Por que deixam uma sensação de vazio ao partirem? Lemos no livro de Atos dos Apóstolos acerca de uma discípula chamada Tabita, conhecida também como Dorcas (tive uma prima com este nome e que partiu ainda jovem). O escritor faz questão de ressaltar que ela estava “cheia de boas obras e esmolas que fazia”. Portanto, tratava-se de alguém solidário com o sofrimento humano, que se negava a levar uma vida autocentrada. 

Naqueles dias, Tabita enfermou e veio a falecer. Sabe o que fizeram com o seu corpo? Ora, o que se esperaria que se fizesse a um corpo sem vida? Sepultasse, certo? Surpreendentemente, em vez disso, banharam-na e puseram-na no quarto mais alto da casa. Quem em sã consciência faria tal coisa? Mas o que pode parecer insano, na verdade, revela o quanto Tabita era importante para aquela comunidade. Muito além de uma medida sanitária que visa nos precaver da infestação de bactérias provenientes de um corpo em decomposição, o sepultamento é um ritual através do qual dizemos adeus ao corpo da pessoa amada. Depositar o corpo de Tabita no quarto mais alto da casa era recusar-se a dar aquele adeus esperado. Obviamente, eles sabiam de todos os riscos. O processo de decomposição seria seguido pelo de putrefação. O cheiro ficaria insuportável. Mas por Tabita, valia a pena o esforço. Suas expectativas quanto a ela não haviam se esgotado. Uma inexplicável esperança teimava em perdurar. Em vez do fatídico goodbye, preferiram deixá-la em stand by

Quantas coisas em nossa vida temos sepultado ao menor sinal de desgaste? Relacionamentos que deveriam ser perenes são simplesmente descartados. Sonhos que nos acalentaram durante a juventude são engavetados tão logo tenhamos chegado à maturidade. Amizades enterradas vivas. Não seria o caso de nos recusarmos a sepultá-los? Até que ponto não nos temos entregado a um luto precoce? Não seria melhor depositá-los num lugar alto de nossa vida, acreditando que a qualquer momento o quadro possa ser revertido? 

Ao serem informados de que Pedro estava nas circunvizinhanças, enviaram-lhe dois homens, “rogando-lhe que não demorasse em vir ter com eles.” Sem saber do que estava acontecendo, Pedro prontamente atendeu. Ao chegar à casa, deparou-se com uma cena inusitada. Chegando ao aposento em que jazia o corpo de Tabita, o apóstolo se viu rodeado por viúvas que chorando, exibiam as túnicas e roupas que ela lhes havia confeccionado. 

Mudando um pouco o foco: será que temos sido imprescindíveis na vida de alguém? Quantas “túnicas e vestidos” já costuramos para quem não tinha o que vestir? Que diferença temos feito na vida dos que nos acompanham nesta jornada? O que cochicharão entre si quando nosso corpo inerte estiver descendo à sepultura? Alguém seria capaz de reivindicar nossa restituição como fizeram a Tabita? Ou alguém deixaria escapar por entre os lábios: já foi tarde!? Pedro, visivelmente comovido, pediu que todos se ausentassem do cômodo, pôs-se de joelhos e orou. Rogou a Deus que restituísse aquela vida tão preciosa. Dirigindo-se ao corpo, disse: “Tabita, levanta-te. E ela abriu os olhos, e, vendo a Pedro, assentou-se. E ele, dando-lhe a mão, a levantou e, chamando os santos e as viúvas, apresentou-lha viva” (Atos 9:36-41). 

O que importa não é o quanto teremos amealhado para nós mesmos ao longo de nossa vida, e sim o bem que houvermos feito ao nosso semelhante. Se nossa vida houver sido verdadeiramente presente, nossa ausência será sentida e lamentada. Muito mais do que distribuir presentes é ser presente, digo, em ambos os sentidos. Ser presente no sentido de marcar presença e no sentido de ser uma dádiva. A propósito, nenhum presente material é capaz de compensar a ausência. Estar presente é mais importante do que cobrir alguém de presentes. 

Que dentre os votos que faremos na passagem para o novo ano, esteja o de ser presente dos céus a todos à nossa volta, ao mesmo tempo em que acolheremos àqueles cujas vidas são igualmente uma dádiva celestial para nós. O amor tem o poder de eternizar o que se é amado. Ninguém pode dizer que amou alguém sem que , no fundo, ainda o ame. Como disse Paulo, o amor jamais se acaba. Portanto, mesmo que um dia tenhamos que sepultar o corpo de quem tanto amamos, depositemos sua lembrança no mais alto lugar de nosso ser. 

Abaixo a canção eternizada por Tim Maia na voz de Nando Reis. Dedico-a à minha querida sogra Edelzuíta que nos deixou no dia 7 de dezembro de 2009, mas que estará eternamente gravada em nossos corações. No dia em que eu e Tânia fomos nos despedir dela na véspera de nossa mudança para os Estados Unidos, ela me disse com lágrimas nos olhos, na esquina de sua igreja em Paciência, que nunca mais nos veríamos novamente. Meses depois, ela nos deixou, e nem sequer pudemos vir ao seu sepultamento por questões documentais que estavam em processo. Jamais me esquecerei quando de volta ao Brasil, levei Tânia ao Jardim de Saudade onde o corpo de sua mamãe foi depositado. Fechou-se ali um ciclo. Mas como cristão, estou certo de que nos veremos novamente. Não importa em que estação se desça, todos desembarcaremos um dia na estação final. O reencontro se dará com muitos abraços, beijos e lágrimas.

3 comentários:

  1. Muito bom o texto! Fez me lembrar de algo bastante simbólico
    Meu cunhado faleceu no dia 19.02.15 .Dias antes do seu falecimento , minha irmã teve um sonho com ele.
    Ela sonhou que estava dentro de um ônibus , que estava cheio e todos sentados. Nisso ela vê esse meu cunhado , que se encontrava à frente dela, se levantar e ficar em pé enfrente a porta de saída, junto com mais algumas pessoas. O ônibus parou no ponto e ela viu aquelas pessoas descerem , bem como o meu cunhado. Ela começou a gritar:"Não , não desce. Agora não! Vamos continuar a viagem!" Mas ele lá fora , acenou-lhe , dando-lhe adeus!
    Ela sentiu que não era a sua hora de descer e que tinha que prosseguir . Nisso o ônibus começou a se movimentar seguindo a viagem. Passado poucos dias , meu cunhado veio a falecer.

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  2. Tem uma conhecida nossa da igreja que em janeiro de 2009 perdeu o seu filho mais velho em um acidente com moto. Ficamos muito tristes com o ocorrido e principalmente ao ver o seu sofrimento. A dor daquela mãe era muito profunda; ela estava inconsolável. Afinal, perder um filho é uma das piores dores emocionais que um ser humano possa vir a sentir.
    Passado alguns dias do falecimento do seu filho, uma amiga nossa com o seu grupo de visita, marcaram uma visita à casa dela, para fazerem uma oração e levarem alguma palavra de consôlo. A visita foi marcada para uma sexta-feira à tarde.
    Quando chega na sexta-feira à tarde, essa nossa amiga com o seu grupo, estava se dirigindo para a casa daquela mãe, quando sente fluir em sua mente uma voz em forma de pensamento, aconselhando-a à passar, antes, na padaria para comprar dois sonhos e levar para ela.
    Minha amiga, sem entender nada, compra os dois sonhos e se dirige com o seu grupo para a visita.
    Chegando lá, são recebidos com muito carinho por aquela mãe. Oram, e depois ficam conversando com ela que ainda estava muito abatida.
    Na hora deles irem embora, aquela mãe já um tanto consolada e se sentindo melhor, oferece um café com lanches para os visitantes; então, minha amiga se lembra dos dois sonhos que estavam embrulhados, e lhe entrega o pacotinho, dizendo que sentiu de comprar para ela.
    Quando aquela mãe recebe aquele embrulho, e ao abrir vê que são dois sonhos, desata a chorar sem parar... Minha amiga, curiosa, lhe pergunta por que ela está chorando daquele jeito, e ela lhe confessa algo surpreendente:
    Que por aqueles dias, em grande tristeza, ela orou ao Pai celestial que lhe desse um sinal como prova de que Ele estava bem juntinho dela naquele sofrimento que ela estava passando; algo que tocasse e aliviasse um pouco a sua dor... E disse que aqueles dois sonhos eram o sinal, e explicou:
    Seu filho, todas as sextas-feiras à tarde, comprava dois sonhos na padaria e os levava para a sua casa, para juntos tomarem café.
    E ali estavam os dois sonhos, e naquele dia, que era uma sexta-feira à tarde.

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