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sexta-feira, dezembro 27, 2013

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Reveladas as Bestas que ameaçam nossa Civilização




Por Hermes C. Fernandes

O livro de Apocalipse é repleto de simbolismo. Dentre as figuras usadas ali, talvez as mais assustadoras sejam das bestas. Uma vem da terra, a outra, do mar. Dentro de uma interpretação preterista, uma seria o judaísmo apóstata dos tempos apostólicos, e a outra, o império romano. Apesar de concordar com tal leitura, creio que o sentido do livro mais enigmático da Bíblia não se esgota no cumprimento histórico de suas profecias. Proponho uma leitura arquetípica, em que, ao longo da História, em que as carapuças cabem em muitas outras estruturas de poder. Ainda que tenha se cumprido no primeiro século, a profecia segue em seu cumprimento como que num efeito dominó. 

Não precisamos nos esforçar muito para identificarmos quais seriam hoje as bestas de nosso tempo. Não se trata propriamente de pessoas, mas de estruturas de poder que visam exercer soberania sobre os homens, usurpando, assim, o lugar de Deus.

A primeira besta que ameaça a nossa civilização é o Estado. Em vez de ocupar o papel de benfeitor confiado por Deus, o Estado se arroga no direito de exigir total subserviência de seus cidadãos. A máquina pública se agiganta, tornando-se num enorme elefante branco, incapaz de cumprir os desígnios que foram atribuídos. Impostos abusivos, corrupção, injustiça social, são algumas das marcas desta famigerada besta.

A segunda besta que nos ameaça a todos é o Mercado. Mamom é seu patrono. Como a primeira besta, esta também exige total lealdade. Em vez de cidadãos, somos relegados à posição de meros consumidores. Especulação, juros astronômicos, distribuição injusta das riquezas, desemprego, são algumas das marcas deste monstro.

Toda besta busca ser legitimada por um falso profeta. O lugar antes ocupado pela religião, agora é ocupado pela Mídia. Cabe a ela trabalhar pela manutenção do status quo, bem como inebriar as pessoas, suspendendo seu senso crítico, a fim de que se tornem presas fáceis desses monstros. Tanto a religião, quanto os esportes e a cultura acabam exercendo papel coadjuvante no processo. A Mídia, todavia, é quem assume o papel de orquestrar a sinfonia do engano e da ilusão. 

Estado, Mercado e Mídia são a antítese da Trindade Divina. O Estado paternalista no lugar do Pai. O Mercado sedutor no lugar do Filho. E a Mídia ilusionista no lugar do Espírito Santo.

E onde entra a igreja nisso tudo? Qual deveria ser o nosso papel?

Não basta que a igreja anuncie as boas novas do reino. Ela deve denunciar com a mesma veemência as estruturas de poder que repousam sobre a injustiça, chamando os homens ao exercício pleno de sua cidadania. Em vez de subserviência ao Estado, submissão consciente que não prescinda da liberdade. E, quando necessário, insurgência contra leis abusivas que violem nossa consciência. Em vez de consumo exacerbado, o uso consciente dos recursos naturais e dos bens produzidos pela sociedade. E no que diz respeito à Mídia, a igreja deve estimular nos homens o senso crítico, a fim de que possam assistir de tudo, mas só reter o que for bom. Não adianta promover boicotes culturais ou de qualquer outra natureza. Tal procedimento, além de alienante, revela-se contraproducente.

A igreja deve estimular o senso crítico. Há algo errado no mundo e que precisa ser consertado. Por que há tanta pobreza? Por que o meio-ambiente está sendo devastado? Por que a violência segue galopante? Por que nossa educação está sucateada? A quais interesses servem os poderes constituídos? 

A abordagem que a igreja tem feito de alguns desses problemas é, no mínimo, ingênua. Ou na pior das hipóteses, a igreja tem sido conivente. Em vez de propor solução efetiva, ela prefere comer das migalhas que caem da mesa do Estado. É daí que vem a indústria da miséria que serve de locomotiva do terceiro setor. Por que preocupar-nos em resolver o problema, se, no fundo, nos locupletamos dele? Se o problema for resolvido, as tetas nas quais mamamos se secarão. 

Com isso, a igreja dilui sua identidade e missão numa agenda político-partidária, promiscuindo-se despudoradamente com os poderes constituídos. 

Como se não bastasse a relação incestuosa entre o Estado e o Mercado, a igreja, em busca de visibilidade, acaba cedendo aos encantos da Mídia, ingressando nesta orgia capaz de deixar os bacanais romanos parecendo festa de criança. 

O que a igreja necessita não é de visibilidade, mas de credibilidade. E isso só virá quando deixar de dar ouvidos ao canto da sereia, e voltar-se para os necessitados, excluídos e vítimas desses monstros cruéis. Ademais, nada atenta mais contra a credibilidade e relevância da igreja do que sua desconcertante performance no circo midiático. 


sábado, novembro 24, 2012

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Expondo as entranhas das ideologias à luz do ideal do Reino


Por Hermes C. Fernandes

Que ideologia estaria mais próxima da proposta do Evangelho do Reino? Alguns diriam que o comunismo, devido à ênfase cristã na distribuição dos bens. Outros diriam que o capitalismo por sua ênfase na livre iniciativa. Outros ainda diriam que o anarquismo, haja vista que os poderes deste mundo estão fadados a desaparecer. Cada qual tem versículos bíblicos chaves previamente separados como munição para atacar os que pensam de maneira diferente.

Lendo a parábola do bom samaritano, encontramos ali a representação de cada uma dessas ideologias.[1]

Jesus estava sendo arguido por um doutor da lei (o mais próximo do que hoje chamamos de advogado). Em vez de respondê-lo diretamente, Jesus lhe faz duas outras perguntas: O que está escrito na Lei e como a lês? A primeira tem caráter objetivo, a segunda, subjetivo.  O que diz a Lei revela quem Deus é, mas a maneira como a lermos revelará quem nós somos.

E é aí que mora o problema quando se trata de ideologia. Quem tem predileção pelo comunismo, vai ler a Bíblia a partir de sua ótica comunista. E o mesmo se dará por quem tem predileção por qualquer outra ideologia. A bem da verdade, a Bíblia oferece recursos para reforçar qualquer discurso ideológico.  Difícil é fazer uma leitura isenta, sem as lentes ideológicas.

Perguntando-lhe sobre o dizia a Lei, este o respondeu: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

A resposta está... EEEXATA!

- Faça isso e viva! Respondeu Jesus.

- Mas espera aí... só isso? Não pode ser! Eu sou um advogado, não posso contentar-me com uma resposta tão simplista.  Já sei! Tenho uma nova questão: Quem é o meu próximo?

Com esta pergunta, ele se revelou. Suas entranhas foram expostas.

Alguns se sentem mais próximos dos poderosos. Outros, dos miseráveis. Outros, dos religiosos. E ainda outros, dos pecadores.

Em vez de respondê-lo diretamente, Jesus resolve contar mais uma de suas histórias.: Um homem que descia de Jerusalém para Jericó foi abordado por assaltantes, que depois de espancá-lo, deixaram-no meio morto.

Podemos atribuir a esses assaltantes o lema “o que é teu é meu”. Eles não respeitavam a propriedade privada. Achavam-se no direito de subtraí-la a seu bel-prazer. Ainda que fossem como Robin Hood, roubando dos ricos para distribuir entre os pobres, ainda assim seriam ladrões.  Facilmente identificamos sua postura com a ideologia comunista. 

Os dois principais mandamentos abrangem  todos os demais. Uns dizem respeito ao amor que devemos a Deus, como por exemplo, não adorar outras divindades além d’ Ele, não pronunciar Seu santo nome em vão, etc. Os demais dizem respeito ao amor que devemos ao nosso próximo. E entre esses encontramos dois que defendem claramente o direito à propriedade privada: não cobiçarás o que for do seu próximo (seja mulher, bens, etc.), e não furtarás. Não se trata apenas de deveres, mas da garantia de direitos. 

Qualquer regime que atribua ao Estado o direito de ingerência na vida privada de seus cidadãos está extrapolando suas funções. A justiça social não pode ter como partida a violação da propriedade privada. Não é tirando arbitrariamente dos ricos e dando aos pobres que vamos resolver o problema.

E há vários mecanismos usados pelo Estado para subtrair seus cidadãos, principalmente através da cobrança de impostos pesados.

Jesus, então, introduz o terceiro personagem de sua trama: o sacerdote. Todos esperavam que este socorresse o moribundo. Mas em vez disso, ele sequer se aproxima. Provavelmente, ele estava indo para Jerusalém para prestar seu serviço no templo. Segundo a Lei, se tocasse em um cadáver, o sacerdote ficaria impuro, e portanto, impossibilitado de cumprir seu turno.  Seu lema era “O que é meu é meu”. Em outras palavras, tenho que preservar o que tenho, sem me importar com o que se passa com o outro. Perceba aqui a similaridade desta postura com a ideologia capitalista, em que cada homem é uma ilha. O individualismo é enfatizado. A performance não pode ser comprometida com distrações. A ordem é produzir. Cumprir seu turno. Preservar seu status a qualquer custo. Neste mesmo espírito, as sociedades capitalistas promovem a segregação social. Os ricos blindam seus automóveis. Vivem nababescamente em seus condomínios luxuosos. Isolam-se da realidade. Enviam seus filhos para estudarem no exterior, longe das ameaças das ruas. Cumprir a agenda é mais importante que socorrer uma vítima da injustiça. Lucrar é o sue afã.

O capitalismo acaba por alimentar uma espécie de sistema de castas. Todos almejam chegar ao topo da pirâmide. O sonho do oprimido é um dia tornar-se no opressor. Quem um dia foi cauda, finalmente será cabeça.  Ascensão social é a palavra mágica que mantém a máquina girando.  E a religião está aí para lubrificar a máquina com seu discurso triunfalista e a justificação do lucro. A Teologia da Prosperidade é a versão pós-moderna deste discurso. Ela não só justifica, mas canoniza o lucro. Se no comunismo, o Estado usurpa o lugar de Deus, no capitalismo quem o usurpa é o capital, a quem Jesus carinhosamente chama de Mamom.

Decepção geral! A audiência de Jesus deve ter reagido mais ou menos como a torcida age quando se perde um pênalti. Logo quem... o sacerdote.

Sai de cena o sacerdote e entra o levita.

- Agora vai! Um homem pertencente a uma tribo totalmente dedicada ao Senhor...  Não vai pensar duas vezes. Aquele homem pode considerar-se socorrido.

Inusitadamente, o levita adota a mesma postura do sacerdote (que, diga-se de passagem, pertencia à mesma tribo). Todas as ideologias e regimes possuem a mesma origem: humana. O que se pode esperar delas? O lema do levita era “O que é teu é teu”. Em outras palavras: não me envolve em questões alheias. O sistema é bruto! É cada um por si e... Deus por todos? Tem certeza disso? Acredito que esta postura se assemelhe muito com a proposta anarquista, ainda defendida por alguns intelectuais idealistas. Será que a sociedade humana atingiu tal grau de evolução e sofisticação que possa dispensar qualquer tipo de governo? Confesso que considero um tanto quanto romântica esta visão, e muitas vezes tenho me sentido atraído a ela. Mas cada vez que me deparo com as injustiças, sejam individuais ou coletivas, percebo que não podemos viver em sociedade sem que haja representação política. Não dá pra viver numa sociedade sem leis, sem regras sociais, sem punição para os criminosos, sem infraestrutura, sem educação, etc. A anarquia é uma utopia. Não dá pra cada um ser por si mesmo, ignorando a necessidade dos demais. O levita é uma pipa avoada. Passa levitando pelos demais, sem importar-se, sem perceber sua ligação com o todo. Apatia é o seu sobrenome. [2]

Entra em cena uma figura depreciada pelos judeus. Um samaritano. O que se pode esperar daquele mestiço, lembrança de que um dia estivemos sob o domínio assírio? Ele não tem o nosso pedigree. Ele é um gaiato em nossa nau. Um ser asqueroso, com um sotaque ridículo, sem qualquer etiqueta. Se o sacerdote passou batido, e o levita passou voado, o mínimo que o samaritano vai fazer é cuspir no pobre coitado.

Para escândalo de sua atenta audiência, o samaritano interrompe sua viagem de negócio, se aproxima do moribundo, presta-lhe os primeiros socorros, coloca-o em sua cavalgadura, hospeda-o com recursos próprios, e ainda custeia o seu tratamento. Seu lema era “o que é meu é teu”. Nada do que fez foi por imposição do Estado, nem visando obter algum lucro, mas por livre e espontânea vontade. O texto diz que ele foi movido por compaixão. A solidariedade era a sua bandeira. Não importava a nacionalidade daquele a quem socorria. Ele nem mesmo espera receber qualquer recompensa.

As ideologias nos distanciam. Os ideais do Reino nos aproximam. Não precisamos demonizar, tampouco canonizar ideologia alguma. Todas têm suas incongruências e idiossincrasias. Os ideias preconizados por cada uma delas só será alcançado mediante a práxis do Evangelho do Reino. Uso o neologismo “reinismo” para identificar tal práxis. Ela seria, por assim dizer, a grande síntese ideológica tão almejada pela sociedade humana. Em que a liberdade almejada por liberais/capitalistas é preservada, sem que para isso seja sacrificada a justiça social tão cara aos comunistas/socialistas. Em que a auto-governança defendida por anarquistas seja possível, não como alternativa à hierarquia governamental, mas como base para toda e qualquer governança. O ideal anarquista só será possível quando finalmente Cristo houver desfeito toda estrutura de poder, quando a humanidade houver alcançado tal maturidade mediante Cristo, que não precisará submeter-se a nenhuma autoridade, senão a de Deus. Como bem afirmou Paulo: Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder” (1 Co. 15:24). Até lá, compete-nos submeter-nos a toda autoridade que preze pelo bem comum (Rom.13), que estimule a prática do bem enquanto coíba a propagação do mal através da aplicação da justiça.




[1] Limito-me às ideologias principais, sem ignorar o vasto espectro ideológico existente em nossos dias.
[2] Considerada por alguns como alternativa ao comunismo e ao capitalismo, o Distributismo é uma filosofia econômica que defende que a posse dos meios de produção deve estar o mais amplamente distribuída possível entre a população, em vez de estar centralizada no Estado (como defende o comunismo/socialismo) ou concentrada em uma minoria de indivíduos (capitalismo liberal). Nesse sistema, a maior parte das pessoas deveria conseguir sobreviver sem ter que contar com o uso da propriedade alheia. Valoriza-se a propriedade privada ao passo que valoriza o acesso a tais propriedades. Entre os que defendiam tal ideologia estavam o celebrado Chesterton e Hilaire Belloc.