terça-feira, janeiro 18, 2022

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RACISMO REVERSO



Por Hermes C. Fernandes

A mais nova invencionice do racismo perverso é o tal do racismo reverso, que surge com a única pretensão de relativizar e minimizar a crueldade do preconceito racial. 

O fato inconteste é que nosso vergonhoso passado escravagista deixou fortes raízes em nossa estrutura social, derrubando o mito de que vivemos numa democracia racial, e de que, portanto, não existe racismo no Brasil. Nada mais falacioso! 

Ao considerarmos que o racismo esteja calcado em relações de poder, fica evidente que não faz o menor sentido falar de racismo reverso, já que os negros jamais possuíram poder institucional para bancarem estruturas racistas. Embora mais da metade da população brasileira seja negra (negros e pardos), o número de negros em cargos considerados de destaque é inexpressivo; basta verificar quantos médicos, advogados, engenheiros, juízes, deputados, senadores, apresentadores de TV são negros. Por muito tempo, atores e atrizes negros só representaram papéis de personagens que ocupavam atividades consideradas subservientes como porteiros, motoristas, empregadas domésticas, etc., como se negros estivessem fadados a terem seu espaço restringido a tais funções (dignas, diga-se de passagem). De um tempo para cá, a TV brasileira resolveu seguir os passos dos grandes estúdios norte-americanos com ações afirmativas que visem promover a inclusão socioeconômica de populações historicamente privadas do acesso a oportunidades, razão pela qual hoje vemos artistas negros em papéis antes preenchidos exclusivamente por brancos, como de juízes, prefeitos e até presidente da república. 

O racismo se baseia na ideia de que haja uma hierarquia entre as etnias de modo a justificar que a que se julga superior subjugue as consideradas inferiores. Trata-se de uma forma de legitimar estruturas sociais de poder e dominação. Por isso, quem defende descaradamente o racismo reverso parece ignorar a própria definição do que seja racismo, já que minorias como pretos, pardos e indígenas jamais ocuparam posição hierárquica de superioridade com relação aos brancos em nosso país. Portanto, é absolutamente descabido afirmar que a população branca seja vítima de racismo. Nenhum branco pode afirmar ter sido discriminado pela cor de sua pele, sendo impedido de entrar em estabelecimentos comerciais, bancos e restaurantes, seguido por segurança em shoppings, reprovado em seleção de emprego ou parado numa blitz policial. Assim como não se tem registros de perseguição a religiões de matriz europeia, nem de depredação de seus templos como frequentemente ocorre a centros de umbanda ou candomblé. Aliás, demonizar tradições religiosas de matriz africana também é uma expressão de racismo. No relato do Novo Testamento, Jesus se depara com um homem endemoninhado que ao ser perguntado sobre o seu nome, apresenta-se como legião, nome dado a um agrupamento de soldados romanos. Portanto, os demônios se identificam com as forças opressoras, e não com a espiritualidade dos oprimidos. Antes de busca-los nos terreiros dos que resistem ao poder colonizador, deveríamos identifica-los em expressões de religiosidade que tem como único objetivo justificar a dominação de quem se acha divinamente autorizado a oprimir e explorar. Os demônios estão nos altares, escondidos atrás de discursos de ódio travestidos de piedade. Os demônios estão nos púlpitos dos que se vendem aos interesses de uma elite mesquinha e racista. Deus sempre estará com os oprimidos, independentemente da tradição religiosa que sigam. Deus sempre será contra os opressores, mesmo que usem o Seu santo nome para justificar a opressão. Portanto, compete-nos respeitar qualquer tradição religiosa, ainda que não subscrevamos suas doutrinas, cosmovisão e dogmas. Qualquer religião pode se tornar refém de um discurso que favoreça projetos de poder, inclusive a nossa, inclusive a dos outros. Se tiver que demonizar, demonize a instrumentalização do discurso religioso visando interesses inconfessáveis. É ali que o diabo habita.

O povo hebreu foi escravizado pelos egípcios por mais de quatrocentos anos. A escravidão do povo negro no Brasil durou pouco mais de trezentos anos. Os egípcios não proibiram os hebreus de cultuarem ao seu Deus. Os negros foram proibidos de praticarem sua religião, sendo obrigados a se converterem ao cristianismo ou adotarem o sincretismo. Os hebreus não foram levados à força para o Egito, mas convidados a se refugiarem lá durante o período de fome que abateu sobre o mundo. O Faraó decidiu escraviza-los ao perceber que se multiplicavam, constituindo-se numa ameaça à sua soberania. Os negros foram trazidos para o Brasil em navios negreiros, vendidos como escravos, torturados, estuprados e mortos. Possivelmente, os hebreus sofriam racismo por parte dos egípcios. Mas não no nível sofrido pelos negros no Brasil. Os hebreus foram libertos da escravidão ao deixarem o Egito e marcharem pelo deserto rumo à Canaã. Os negros receberam alforria, porém, foram mantidos no país em condições precárias, abandonados à própria sorte, alijados de sua cultura, privados de moradia, sem direitos básicos, sem trabalho dignamente remunerado.

Um hebreu escravizado pelo simples fato de pertencer a outra etnia poderia se dizer vítima de racismo. Mas não se pode atribuir racismo a Moisés ao matar um egípcio que espancava um hebreu.

Um samaritano contemporâneo de Jesus poderia se dizer vítima de racismo por parte dos judeus, mas um judeu jamais poderia se dizer vítima de racismo por parte dos samaritanos. Isso porque, como vimos acima, o racismo implica numa relação de poder. Racistas se acham etnicamente superiores. São, portanto, supremacistas. O fato dos discípulos terem se escandalizado por flagrarem Jesus aos papos com uma samaritana configurava-se racismo. Já o fato de samaritanos se recusarem a hospedar Jesus e seus discípulos por serem judeus não configurava racismo. Porém, o fato de dois de seus discípulos sugerirem que se rogasse a Deus para que enviasse fogo do céu e consumisse aqueles samaritanos, isso sim, constituía-se num gesto racista.

Semelhantemente, pode-se dizer que os romanos poderiam ser racistas com relação aos judeus, por se acharem uma raça superior, e que, portanto, tinha o direito divino de conquistar às demais e exercer primazia sobre elas. Mas não se pode atribuir racismo a Pedro por sentir-se constrangido de entrar na casa de um centurião romano e pregar-lhe o evangelho. Pedro poderia ser acusado de preconceito, de discriminação, mas não de racismo, posto que, como judeu, pertencia ao povo dominado, enquanto Cornélio, como romano, representava as forças invasoras. Judeus eram racistas com samaritanos por se acharem superiores a estes, mas não com os romanos, visto estarem sob seu jugo.

É claro que nenhum branco hoje pode ser responsabilizado pela escravidão dos negros. Entretanto, todo branco desfruta de privilégios advindos dessa escravidão, ao passo que todo negro tem que lidar com as feridas não cicatrizadas da mesma.

Alguns justificam o seu racismo velado no fato de que negros já escravizavam negros na África, antes mesmo de serem trazidos para as Américas. Tal argumentação demonstra o nível de ignorância acerca da história dos povos africanos. Ninguém se refere à Segunda Guerra Mundial como sendo um conflito de brancos com brancos. Geralmente, refere-se aos conflitos bélicos ocorridos na Europa fazendo referência aos países envolvidos, sem considerar a cor da pele de seus cidadãos. Fala-se, por exemplo, da Alemanha contra os aliados encabeçados pela Grã-Bretanha. Tanto alemães, quanto ingleses, franceses e russos eram brancos. Semelhantemente, não há um único povo negro na África. Assim como entre os brancos da Europa, havia conflito entre esses povos.

Outro argumento usado é que os próprios negros são racistas entre si, o que poderia ser comprovado pelo fato de muitas mães negras desejarem que seus filhas e filhos se casem com homens ou mulheres brancas para clarear a família. Os que fazem tal alegação parecem desconsiderar o fato de que muitas dessas mães terem tido que lidar com o racismo a vida inteira e, por isso, desejarem que seus descendentes sejam poupados.

Para desarmar qualquer argumento racista, há que se considerar a história e a cultura de cada povo, atribuindo-lhe a devida importância. Algo como o que encontramos em Amós 9:7, onde Deus confronta a presunção do seu próprio povo:

“Não me sois, vós, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes? diz o SENHOR: Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e aos filisteus de Caftor, e aos sírios de Quir?” Amós 9:7

O mesmo Deus que promoveu o êxodo dos hebreus do Egito, também esteve ao lado dos filisteus em seu próprio êxodo de Caftor, e ao lado dos sírios em seu êxodo de Quir. Onde houve opressão, ali Deus estará, invariavelmente ao lado dos que sofrem e não de seus algozes. Os filhos de Israel jamais foram melhores do que os etíopes, ou do que qualquer outro povo ou etnia.

O Deus de todos os povos jamais autorizou a opressão. Mas sempre incentivou a cooperação, o intercâmbio e o respeito entre os povos. Em Isaías 19:23-25, lemos que chegará o dia em que haverá uma estrada ligando o Egito à Assíria, duas grandes potências do mundo antigo. A profecia diz que os assírios viriam ao Egito, e os egípcios iriam à Assíria, e ambos adorarão ao Senhor. “Naquele dia Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios, uma bênção no meio da terra. O Senhor dos Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, MEU POVO, a Assíria, OBRA DAS MINHAS MÃOS, e Israel, MINHA HERANÇA.”

Com base nesta profecia, meu desejo é que se abram estradas de diálogo entre pessoas de quaisquer etnias, e que a igreja cristã seja uma esquina de encontro entre os mais diferentes povos. Que sejamos ponte, não abismo. Que trabalhemos pelo encontro, não pela colisão, pela reconciliação, pelo perdão, pelo respeito, pelo amor.

sexta-feira, novembro 26, 2021

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DEMÔNIOS ESTRUTURAIS ASSOMBRAM O BRASIL



Por Hermes C. Fernandes 

“Meu nome é legião”, respondeu o homem possesso à pergunta de Jesus. Conhecido como Gadareno, aquele homem vivia como um animal selvagem, perambulando pelas ruas e cemitérios de Decápolis, região dominada pelas legiões romanas. Aquela não era uma possessão comum. O Gadareno era habitado por um coletivo de demônios. Tratava-se dos demônios oriundos de outras terras, que vieram com as forças invasoras, com suas pretensões colonizadoras. Por isso, o demônio implora para não ser expulso daquela região. Quando os europeus desembarcaram nas Américas, trouxeram na bagagem os seus próprios demônios e não apenas doenças para as quais os nativos não tinham imunidade. Não são demônios os que vieram com os escravos em seus cultos animistas, nem os que eram cultuados pelos povos originários. Os demônios vieram com os que devastaram as civilizações que aqui já estavam, pilhando impérios, aproveitando-se da ingenuidade dos que os consideravam deuses. Os demônios que aportaram aqui tinham pele alva, sotaque ibérico e costumes estranhos.. Outros demônios chegaram à Índia com os ingleses, na África do Sul com os holandeses, e em tantas outras terras com aqueles que pretendiam conquistá-las e reivindicá-las às coroas que representavam. Tais castas demoníacas se manifestam nos explorados, mas atuam através dos exploradores. Não habitam apenas corpos, mas estruturais sociais. No Brasil atual, eles não estão nas favelas, mas nos palácios, nos condomínios de luxo e em suntuosas catedrais. Não são como as legiões romanas, mas se organizam em quadrilhas que assaltam o erário público, que exploram os fiéis com promessas mentirosas, que promovem o ódio, o preconceito e a intolerância contra a população LGBTQIA+, as minorias étnicas e os fiéis de religiões de matriz africana, que desqualificam a luta feminista, que desdém dos direitos da classe trabalhadora, que espalham fake news, que tratam seus rebanhos como currais eleitorais, que endossam políticas negacionistas e genocidas em nome da fé, etc. Aqui seu nome não é legião, é religião. Não me refiro à religião em seu sentido lato (do latim religare), que provê a religação entre os seres humanos, independentemente de distinções étnicas, sexistas, confessionais ou sociais, fazendo com que nos preocupemos em cuidar dos mais vulneráveis representados em Tiago pelos órfãos e viúvas. Refiro-me à religião como instrumento que visa legitimar o poder e os interesses de quem lucra com a exploração. Portanto, em vez de religião, deveria ser chamada de reLEGIÃO. Trata-se, portanto, do que o livro de Apocalipse chama de “Grande Babilônia “ que tornou-se morada de todo tipo de demônios. São estes demônios que precisam ser exorcizados do cenário político brasileiro para que finalmente alcancemos a tão sonhada justiça social, tornando-nos, assim, um dos protagonistas na construção da civilização do amor.

quinta-feira, novembro 25, 2021

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CUIDADO COM O QUE VOCÊ AGRADECE!

Por Hermes C. Fernandes 

Neste Dia de Ação de Graças, sejamos gratos em tudo, mas não por tudo. Há uma diferença enorme ente uma coisa e outra. As Escrituras nos orientam: “em tudo dai graças" (1 Tessalonicenses 5:18). Isto é, em qualquer circunstância, sejamos gratos. Nem que seja pelo simples fato de estarmos vivos. Entretanto, não somos orientados a darmos graças por tudo, como se tudo devesse ser creditado a Deus, inclusive as consequências de nossas próprias escolhas. Por exemplo: que sentido teria agradecer a Deus por uma tragédia como a pandemia que já ceifou a vida de milhões de pessoas no mundo? Seria Ele o responsável por isso? Acredito que não. E que tal agradecermos a Deus por havermos sobrevivido ao COVID-19, enquanto tantos morreram? Isso lhe parece razoável? Pois a mim, não. Como assim? Eu não disse anteriormente que deveríamos agradecer EM TUDO, em qualquer circunstâncias, nem que fosse pelo simples fato de estarmos vivos? Sim. Eu disse. Mas não quando esta gratidão brota da comparação entre o que nos ocorreu e o que ocorreu a outros. Não me sinto à vontade para agradecer por ter sido poupado enquanto milhões tiveram suas vidas ceifadas. Assim como não me sinto à vontade para agradecer por nada que eu tenha conquistado em comparação a quem não teve a mesma sorte que eu. Tampouco deveria agradecer por possuir virtudes que meu próximo aparentemente não tem. Foi isso que fez um dos personagens de uma parábola contada por Jesus. Dois homens subiram ao templo para orar, um religioso fariseu e um publicano (odiado pelos judeus por ser aliado de Roma). "O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo. O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" Na conclusão da parábola, Jesus afirma que o publicano penitente desceu justificado para sua casa, e não o fariseu "agradecido"; "porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado" (Lucas 18:9-14). À luz deste texto, não me atrevo a agradecer a Deus por ser melhor do que ninguém, nem por ter tido sorte diferente ou por qualquer outra razão que brote da comparação entre mim e o meu próximo. Se mil caíram ao meu lado e dez mil à minha direita, sem que eu tenha sido atingido, agradecerei a Deus pela oportunidade de poder ajudá-los a se levantar. Se Ele me preparou um banquete na presença dos meus inimigos, agradecerei a Deus o privilégio de poder repartir com eles o meu pão. Assim, minha gratidão brotará do amor a Deus e ao meu próximo e não da comparação entre mim e quem quer que seja., tampouco da presunção de ser melhor ou estar em situação mais favorável que o meu semelhante. A todos, um feliz Dia de Ações de Graça.

segunda-feira, novembro 22, 2021

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O SUCESSO NA ÓTICA DIVINA


Por Hermes C. Fernandes

Basta entrar numa livraria, secular ou cristã, procurar as prateleiras de livros de autoajuda, para lá encontrar inúmeros títulos sobre sucesso. "Como alcançar sucesso", "Sucesso não é acidente", "Sucesso é ser feliz", "Sucesso não acontece por acaso", "7 passos para o Sucesso", são alguns dos títulos disponíveis. A maioria oferece um tipo de receita de bolo, com passos e ingredientes necessários para se obter sucesso. Até aí, tudo bem. Vamos relevar...

O problema não está na receita em si, mas na definição de sucesso. O que é "sucesso", afinal?

Na ótica do mundo, sucesso pode ser considerado êxito profissional, aquisição de bens de consumo, realização conjugal, etc. O que seria "sucesso" na ótica divina? Qual seria o aferidor usado por Deus para medir nosso sucesso? Será que Ele se impressionaria com nossas realizações?

Poderíamos mensurar o sucesso de alguém pelo carro que dirige? Ora, o carro zero de hoje, será a lata-velha de amanhã. Não é em vão que se diz que o sucesso é efêmero, fugaz. Se nossa definição de sucesso se ativer à aquisição de bens, ou mesmo à fama, então tal ditado deve ser confirmado. A celebridade de hoje, poderá cair no esquecimento amanhã. O Retiro dos Artistas, situado em Jacarepaguá, RJ, está cheio de exemplos disso. Gente que foi sucesso um dia, e hoje está abandonada até pela família. Não fosse o belíssimo trabalho realizado por aquela instituição, muitos estariam, não apenas fadados ao esquecimento da população, mas entregues à miséria.

Haveria, então, um sucesso que não fosse passageiro? A resposta é sim! 

Antes de definir "sucesso" na ótica divina, destaquemos dois exemplos bíblicos de sucesso, um segundo Deus, e outro segundo o mundo.

Comecemos pelo exemplo de sucesso segundo Deus: Moisés.

O escritor de Hebreus diz que "pela fé Moisés, sendo já homem, recusou ser chamado filho da filha de Faraó. Escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus do que, por algum tempo, ter o gozo do pecado. Teve por maiores riquezas o opróbrio de Cristo do que os tesouros do Egido, porque tinha em vista a recompensa" (Hebreus 11:24-26).

Quem, em sua sã consciência, recusaria participar da linha sucessória de Faraó? Em termos populares, Moisés estava com a faca e o queijo na mão. Como filho da filha de Faraó, ele era forte candidato ao trono da maior potência do mundo de então. Entretanto, ele abriu mão de tudo isso. Passou quarenta anos peregrinando com os hebreus pelo deserto do Sinai. Ao morrer, sequer teve uma sepultura digna, como as dos faraós.

É sabido pelos arqueólogos que as famosas pirâmides egípcias foram construídas como gigantescos mausoléus para os monarcas do Egito. Nelas eram depositados, não apenas o corpo do rei, mas também todos os seus tesouros. Quanto maior a pirâmide em que fosse sepultado, maior o sucesso que aquele Faraó havia alcançado durante sua gestão como soberano do Egito.

Porém, Moisés nem sequer teve uma sepultura. O texto bíblico apenas indica que o próprio Deus o sepultou, mas seu corpo jamais foi localizado.

Moisés trocou o cetro egípcio por um cajado rústico de pastor. Trocou a vida cômoda dos palácios por uma vida nômade. Alguém se atreveria a dizer que Moisés não obteve sucesso aos olhos de Deus?

A propósito, qual era mesmo o nome do Faraó contemporâneo de Moisés? Alguns milênios se passaram, e pouquíssimas pessoas sabem o nome daquele monarca. Porém, tantos judeus, quanto muçulmanos e cristãos honram o grande libertador e legislador que foi Moisés.

Seu nome e sua obra jamais serão esquecidos. Até os ateus reconhecem em Moisés uma das mais importantes e emblemáticas figuras da História. Portanto, podemos afirmar que Moisés foi um homem de sucesso.

Como poderíamos definir "sucesso"? Ou ainda: como Deus mediria nosso sucesso? Qual o critério pelo qual alguém é considerado bem-sucedido para Deus?

É notório que o apóstolo mais bem-sucedido foi Paulo. Ninguém fez tanto em tão pouco tempo. Foi seu empenho que proporcionou que o evangelho avançasse para além das fronteiras judaicas. É o mesmo apóstolo que nos revela que o sucesso de alguém é medido pelo número de ações de graça que são dirigidas acerca a Deus.

Ao conclamar a igreja de Corinto a participar da oferta que estava sendo levantada para ajudar os pobres em Jerusalém, Paulo os estimula, dizendo: "Em tudo sereis enriquecidos para toda a generosidade, a qual faz que por nós se deem graças a Deus. A ministração deste serviço, não só supre as necessidades dos santos, mas também transborda em muitas graças, que se dão a Deus. Visto que esta ministração prova que sois obedientes, e seguis o evangelho de Cristo, eles louvarão a Deus. E também louvarão a Deus pela liberalidade das vossas dádivas para com eles, e para com todos. E orarão com grande afeto por vós, por causa da excelente graça que Deus vos deu" (2 Coríntios 9:11-14).

Para o mundo, o sucesso é medido por aquilo que conseguimos amealhar, pelas riquezas que concentramos em nossas mãos. Para Deus, o sucesso é medido por aquilo que conseguimos distribuir, fazendo com que ações de graça pela nossa vida cheguem constantemente a Ele.

Pouco importa para Deus a marca do carro que dirigimos. O que importa são as pessoas a quem oferecemos carona, ou a quem socorremos em nosso veículo. O que importa não é quantos cômodos há em nossa casa, e sim quantas pessoas temos hospedado nela. Não importa a grife de nossas roupas, mas aqueles a quem agasalhamos.

Não há oração mais eficaz do que aquela regada de ações de graça.

Quantas pessoas têm se dirigido a Deus em ações de graça pela sua vida? Para quantos sua vida representa um dom dos céus?

A tradição protestante não admite que se faça oração por aqueles que já morreram. Mas nada nos impede de continuar agradecendo a Deus por alguém que já partiu deste mundo.

Quando leio um bom livro de um autor que viveu séculos atrás, eu louvo a Deus por sua vida, e pelo legado que ele deixou.

Agradeço aos céus pelo pai exemplar que tive, mesmo tendo deixado o mundo há quase dezoito anos. Embora ele não tenha deixado um grande patrimônio para a família, seu maior legado foi seu exemplo de vida, e assim como Abel, mesmo depois de morto, seu testemunho não perdeu a eloquência.

Escrevendo para os cristãos de Tessalônica, Paulo diz: "Sempre damos graças a Deus por vós todos, fazendo menção de vós em nossas orações, lembrando-nos sem cessar da obra da vossa fé, do vosso trabalho de amor e da vossa firmeza de esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai (...) De maneira que fostes exemplo para todos os fiéis..." (1 Tessalonicences 1:2-3,7a). Um pouco mais adiante, nesta mesma epístola, Paulo exclama: "Que ação de graças poderemos dar a Deus por vós, por todo o gozo com que nos regozijamos por vossa causa diante do nosso Deus...?" (3:9).

Paulo não poupou elogios aos irmãos daquela cidade. Aquela poderia ser considerada uma igreja padrão, exemplo para as demais, digna de que por ela se oferecessem ações de graça a Deus.

Conhecendo este princípio, Paulo não se inibe em pedir: "Ajudando-nos também vós com orações por nós, para que por muitas pessoas sejam dadas graças a nosso respeito..." (2 Coríntios 1:11a). E mais adiante ele arremata: "Tudo isto é por amor de vós, para que a graça, multiplicada por meio de muitos, torne abundantes as ações de graça para a glória de Deus" (4:15).

Em vez de ficarmos por aí, rogando que os irmãos sempre orem por nós, que tal se nos tornarmos motivos de gratidão da parte deles para com Deus? Não será preciso pedir. Eles mesmos, espontaneamente, se lembrarão de nós quando estiverem ante o trono da graça, e agradecerão por nossas vidas.

Isso é sucesso! Que se multiplique o número de ações de graça pela sua vida! E quanto mais formos bênção na vida de outros, mais o Senhor terá prazer em manifestar em e através de nós as Suas bênçãos.

Antes de esperar que outros agradeçam a Deus por sua vida, pare um pouco para pensar, e lembre-se daqueles que têm sido bênçãos em sua vida. Agradeça a Deus por eles.

Que no DIA DE AÇÕES DE GRAÇA que se avizinha, sejamos motivos de gratidão, e jamais nos esqueçamos de agradecer a Deus pelos que nos servem de canal de suas bênçãos e provisão.

quinta-feira, novembro 18, 2021

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POR FAVOR, LEIA!

Às vésperas de completarmos 30 anos de fundação de nossa comunidade de fé, a REINA dá um passo importante com a unificação de seus projetos sociais. Entre esses projetos está o EU ESCOLHI AMAR que distribui cestas básicas, brinquedos, roupas e material escolar para famílias em situação de vulnerabilidade. Durante a pandemia já distribuímos quase três mil cestas básicas. O projeto começou no Lixão de Jardim Gramacho e hoje abrange doze comunidades no Rio e em SP. Outro projeto é o EU ESCOLHI AMAR NAS RUAS que atende à população em situação de rua com comida, kits de higiene e cobertores. Há também o projeto TESOURO ESCONDIDO que oferece cursos de dança, música, desenho, capoeira, escolinha de futebol e outros para jovens e crianças. Além desses, temos ainda o projeto BRAÇOS ESTENDIDOS que promove campanhas de doação de sangue. A partir de agora, nossos projetos sociais estarão unificados sob uma mesma bandeira: RUACH - Rede Unificada de Apoio e Cuidados Humanitários.

Alem das iniciativas próprias, a RUACH se dispõe a apoiar outras iniciativas e projetos como o projeto GRAMACHINHOS que assiste a cerca de trezentas famílias no lixão, oferecendo reforço escolar para as crianças, biblioteca comunitária, refeições diárias, etc. Assim como o apóstolo Paulo que se pôs a buscar gravetos para alimentar a fogueira acesa pelos nativos da Ilha de Malta com o objetivo de aquecer os náufragos, entendemos que há iniciativas que precisam de apoio para que sua chama jamais se apague. Queremos chegar ao sertão brasileiro, às comunidades ribeirinhas da bacia do rio Amazonas, aos refugiados espalhados pela América Latina, América do Norte e Europa, e em especial, à África. Nosso sonho é formar uma grande corrente de solidariedade envolvendo projetos e iniciativas no mundo inteiro. Sim, sei que humanamente falando parece impossível. Mas o que nos move é o amor. Juntos podemos muito mais! Porém, para isso, precisamos do apoio do maior número possível de pessoas que almejem atender ao chamado do evangelho e repartir o seu pão. Não se trata de proselitismo religioso ou político, mas exclusivamente de amor. Estamos dispostos a apoiar inclusive iniciativas ligadas a outros credos, desde que seu objetivo único seja o bem comum. O único recurso de que dispomos são os nossos amigos, aqueles que nos oferecem sua companhia nesta jornada existencial. Você gostaria de juntar-se a nós nesta empreitada de amor ao próximo? Você pode contribuir tornando-se num voluntário, orando pelos nossos projetos e enviando sua contribuição. 

Nosso próximo CHOQUE DE AMOR acontecerá na próxima semana. Temos apenas SEIS dias para reunir os recursos para a aquisição de todas as cestas básicas. Podemos contar com você? 

Envie sua contribuição para:

BRADESCO, agência 0582 c/c 73784-4 em nome de Hermes Carvalho Fernandes CPF 936697207-15 

CHAVE PIX 21997978135 (celular) 

Desde já, grato em nome das famílias assistidas. 

Que o vento da RUACH divina possa soprar onde menos esperamos!

quarta-feira, novembro 17, 2021

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A FOME, O BEZERRO DE OURO E A IDOLATRIA DO CAPITAL


Por Hermes C. Fernandes

Enquanto açougues vendem gordura e ossos de boi para consumo de famílias empobrecidas pela crise econômica do país, e pessoas são flagradas invadindo caçambas de lixo atrás de resto de comida, nesta semana, a Bolsa de Valores instalou a estátua do Touro de Ouro no Centro de São Paulo inspirada na Harging Bull, o touro de bronze no coração financeiro do mundo, Wall Street em Nova York. Um verdadeiro acinte à dignidade de milhões de brasileiros entregues à miséria.

O que para alguns simboliza a força do mercado financeiro, para outros é um símbolo da fome, da miséria e da exploração do trabalho.

O Harging Bull é o maior símbolo de poder da bolsa de valores de Wall Street e é uma das atrações gratuitas mais visitadas pelo turistas em Nova York. A escultura de bronze idealizada por Arturo di Modica tem se tornado no símbolo do capitalismo americano. Muitos acreditam que esfregar a mão em seu chifre, focinho ou em seus testículos, atrai sorte, prosperidade e dinheiro. Turistas esperam horas em filhas gigantescas para tirar fotos agachados apalpando os testículos do touro. Crendices às parte, o fato é que, para quem conhece um pouco das Escrituras, é impossível não associar o símbolo do capitalismo com o bezerro de ouro confeccionado pelos hebreus enquanto esperavam por Moisés que se demorava no monte para receber das mãos de Deus as tábuas da Lei. Seria o capitalismo uma espécie de ídolo moderno?

O momento político em que estamos vivendo tem o mérito de trazer de volta questões ideológicas para o centro das atenções, fomentando discussões acaloradas em torno de quais seriam as atribuições do Estado e os limites de sua atuação. Distinções antes consideradas superadas voltaram à cena. Termos que já não inspiravam qualquer ameaça são agora considerados abomináveis por alguns setores mais reacionários da sociedade. "Esquerdopatas!", grita um tele-pastor conhecido por suas posições anacrônicas. "Petralhas!", "comunas!", brada o pastor blogueiro. Como se não bastasse o uso de expressões chulas, tentam espiritualizar o debate, tratando seus oponentes como verdadeiros hereges. 

De acordo com alguns cristãos conservadores identificados com a ala direita do espectro ideológico, os esquerdistas atribuiriam ao Estado papéis divinos. Em sua opinião, não competiria ao Estado prover educação, saúde, programas assistenciais, nem tampouco tentar regular a economia. Agindo assim, o Estado estaria usurpando o lugar de Deus. Todavia, por trás deste discurso aparentemente piedoso se esconde motivações nada louváveis. Mesmo um conservador não cristão vai defender que não é justo usar seus impostos para socorrer os menos favorecidos. Já os do outro lado do espectro pensam de maneira inversa. Compete ao Estado diminuir a distância entre as classes, tirando das mais abastadas através de impostos, e provendo serviços que beneficiem a todos, sobretudo, aos mais necessitados.

Para o cristão de direita, o papel do Estado se limita ao que Paulo sucintamente apresenta em Romanos 13:

“Porque os magistrados não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira contra aquele que pratica o mal.” Romanos 13:3-4

Resumindo: Estabelecer a ordem, coibindo o avanço da maldade através do uso da lei e da força, julgando e punindo os criminosos. Isso justificaria forte investimento em segurança através do aparelhamento das forças armadas e das polícias. Um ambiente seguro garantiria um terreno fértil para o desenvolvimento de outras atividades e, consequentemente, a prosperidade da sociedade.

Se observarmos mais atentamente o texto, perceberemos que o papel do Estado vai além de garantir segurança aos seus cidadãos. Ele também deve ser ministro de Deus para a promoção do bem. Portanto, não basta coibir o mal, tem que promover o bem. E o que abrangeria este “bem”? Poderíamos incluir a saúde, a educação? E mais: o Estado deveria igualmente estimular a livre iniciativa que vise o bem comum? Creio que com base neste texto, a resposta é um sonoro sim. Receber louvor do Estado nada mais é do que receber estímulo, incentivo, inclusive de ordem econômica. Estimula-se o desenvolvimento de uma sociedade provendo-lhe educação, qualificando profissionalmente os seus cidadãos, investindo em pesquisas.  Estimula-se o progresso econômico através da desburocratização, e de incentivos fiscais, desonerando serviços essenciais à população, viabilizando o crédito, incentivando a produção.

Não se trata de atribuir ao Estado papéis divinos e sim de conferir-lhe o papel que as Escrituras lhe atribuem: ser ministro de Deus. 

Lutero costumava dizer que Deus age no mundo através de dois braços, o Estado e a Igreja, a Lei e a Graça. Como promotor do bem comum, compete ao Estado contribuir na distribuição de renda. Jamais foi plano de Deus que as riquezas deste mundo fossem concentradas em poucas mãos. A justiça do reino de Deus se caracteriza, sobretudo, pela distribuição equitativa dos recursos. Por isso, Paulo nos fala de um Deus que espalha, dá aos pobres, de modo que, "a sua justiça permanece para sempre” (2 Coríntios 9:9). Tanto a igreja, quanto o Estado têm a obrigação de ser agentes de Deus para espalhar, e não para concentrar. Não se trata de ser uma espécie de Robin Hood, que tira dos ricos para dar aos pobres. A propriedade privada deve ser garantida. O primeiro a comer do fruto do seu trabalho é aquele que o produziu (confira 2 Tim.2:6). Todavia, ser o primeiro não significa ser o único. Paulo nos adverte a trabalhar, “fazendo com as mãos o que é bom”, para que tenhamos “o que repartir com o que tiver necessidade” (Efésios 4:28).

A diferença entre o Estado e a igreja é que o primeiro age por força da lei, enquanto a igreja promove o bem através da conscientização. O Estado não pode me obrigar a partilhar os meus bens com quem quer que seja. O que ele pode e deve é usar os meus impostos para beneficiar a todos, sobretudo aos mais necessitados. Porém, cabe à igreja conscientizar-nos da importância da partilha. Não uma partilha imposta por lei, mas voluntária, motivada pelo amor. O Estado coage pela força. A igreja constrange pelo amor. O Estado impõe. A igreja propõe. O Estado busca prevalecer-se. A igreja, compadecer-se.

A igreja primitiva serve-nos de modelo de uma sociedade justa. Somos informados que “era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns” (Atos 4:32). Consequentemente, “não havia, pois, entre eles necessitado algum” (v.34). Tudo era repartido entre eles. Não de maneira compulsória, mas por amor.

O Estado incentiva, a igreja motiva. O Estado distribuiu através de serviços pagos pelos impostos dos seus cidadãos, a igreja distribuiu através da partilha voluntária. O bem promovido pela igreja não se limita aos seus membros, ainda que estes lhe sejam prioridade. Paulo orienta a que “enquanto temos oportunidade, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6:10). Porém, há aqueles que, motivados por amor, invertem esta prioridade. João dá testemunho disso ao afirmar acerca daquele a quem sua terceira epístola era endereçada: “Amado, procedes fielmente em tudo o que fazes para com os irmãos, especialmente para com os estranhos, os quais diante da igreja testificaram do teu amor” (3 Jo 1:5-6). Sem importar se priorizaremos uns ou outros, o importante é que façamos o bem a todos. E fazer o bem implica repartir.

Nosso maior problema não é o Estado. Se fosse, Paulo teria dito que o amor ao Estado é a raiz de todos os males. Em vez disso, ele diz que o amor ao dinheiro é que é a raiz de todos os males. É o capital, tão defendido por eles, que promiscui o Estado. 

Nem mesmo Jesus enxergava no Estado um rival a ser combatido. Pelo contrário, Ele diz que é possível ser fiel a Deus, e ainda assim, ser leal ao Estado. Basta dar a César o que é de César, porém, sem negar a Deus o que é de Deus. Não obstante, Jesus afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Na verdade, tanto o Estado quanto o Capital têm potencial de se tornarem ídolos. Mas deles, nenhum é tão voraz quanto o dinheiro. O amor a ele é a raiz da corrupção. Quando o Estado se torna na grande prostituta, o Capital é o seu cafetão.

Alguns alegam que o Estado não possui competência para atuar em certas áreas e que a prova disso seria o caos encontrado na saúde, na educação e em tantas outras áreas que deixam a desejar. Para estes, só haveria uma maneira de resolver o problema: privatização. Defendem, inclusive, que uma eventual privatização da Petrobrás, por exemplo, reduziria o preço do combustível. Interessante o argumento. Parece até que faz sentido. Porém, a experiência diz outra coisa. A telefonia foi privatizada e hoje pagamos mais pelo uso do celular que qualquer outro país do mundo. 

O buraco é bem mais embaixo. 

Qual a real razão de nossos hospitais e universidades públicas estarem sucateados? O que estaria por trás da educação de má qualidade? 

Tomemos como exemplo o SUS (Sistema Único de Saúde), que poderia ser considerada uma das maiores conquistas da sociedade brasileira, que já rendeu elogios até de Barack Obama durante sua gestão como presidente dos EUA. O SUS foi criado para prestar atendimento universal e gratuito, sem distinção de classe ou categoria profissional. Obviamente, não interessa aos gestores dos grandes planos de saúde que algo como o SUS garanta atendimento de qualidade a todos. Quem pagaria uma fortuna a Amil, podendo recorrer à saúde pública, caso esta oferecesse um serviço de qualidade? Nas últimas eleições, os planos de saúde distribuíram R$ 52 milhões em doações para 131 candidaturas de 23 partidos diferentes. Na hora de votar o orçamento para a saúde pública, a bancada eleita pela máfia dos planos de saúde vai trabalhar arduamente para sabotar qualquer tentativa de melhorar os serviços.. O mesmo ocorre com a educação. Colégios e Universidades privadas investiram milhões na eleição de representantes para sabotar o ensino público e assim garantir seus lucros galopantes. 

Se quisermos, de fato, que o país mude de rumo, precisamos urgentemente de uma reforma política que inclui o financiamento público das campanhas políticas, acabando de vez com esta orgia que mistura interesses públicos e privados. Somente assim, voltaremos a ter esperança de que o Estado cumprirá cabalmente seu papel de promover o bem comum em vez de aprofundar o abismo entre classes.

Não há regimes ou ideologias perfeitas. Creio que todos estão preparando o caminho para a grande síntese, o reino de Deus. É por ele que a humanidade tanto anseia. Nele a justiça e a liberdade, tão caros à civilização, finalmente se entrelaçarão. E o cupido que promoverá este encontro épico será o amor.

terça-feira, novembro 02, 2021

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A CANONIZAÇÃO DA MORTE

Por Hermes C. Fernandes 

Hoje se comemora no Brasil o dia de finados. Dia de honrar a memória dos que partiram, decorando seus túmulos com flores.  Admiro a maneira leve (e até divertida) com que os mexicanos celebram este dia, chamando-o de “el dia de la santa muerte.” Entre os elementos usados na celebração estão os esqueletos adornados e coloridos. Recentemente, em minha visita ao México, deparei-me com esqueletos decorativos espalhados por lojas, shoppings, hotéis e os  mais diversos ambientes. Se para nós, brasileiros, a imagem inspira terror, para eles, não passa de um lembrete de nossa mortalidade. De primeira mão, tem-se a impressão que eles estejam zombando da morte. Mas na verdade, eles a estão ressignificando. Chamá-la de "santa" (como se a houvessem canonizado) é o mesmo que dizer que ela não os apavora mais. Algo análogo ao que Paulo, apóstolo fez ao exclamar: "Onde está, ó morte, o seu aguilhão? Onde está, ó morte, a sua vitória?"

A despeito da postura que adotemos, o fato inconteste é que a morte é a única certeza que temos. Independentemente de nosso credo, posição social, etnia, orientação sexual, todos, sem exceção, temos um destino comum: a morte.

Por mais que a gente tente driblá-la ou adiá-la, mais cedo ou mais tarde ela vem. Gostemos ou não, morrer faz parte do ciclo natural da vida. Portanto, resta-nos a resiliência e a esperança de que a morte não seja um adeus, mas apenas um “até logo.” Porém, como ser resiliente diante de uma morte que poderia ter sido evitada? Como aceitar passivamente que mais de seiscentos mil brasileiros (5 milhões em todo o mundo) tenham tido sua vida e sonhos interrompidos por uma vírus que poderia ter sido combatido com a devida seriedade?

Como cristão, creio na vida pós-túmulo. Mas para além do dogma, creio que a vida que se viveu aqui em baixo, segue ecoando mesmo após o último suspiro. 

Na narrativa de Gênesis, Deus interpela a Caim acerca de seu irmão Abel a quem assassinara: “Onde está Abel, teu irmão?” Pelo que ele, descaradamente respondeu: “Acaso sou eu guardador do meu irmão?” O Criador, inconformado com a sua desfaçatez, confronta-o: “Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra” (Gênesis 4:9-10). 

Repare nisso: Nem mesmo a morte foi capaz de embargar o clamor da vítima de uma injustiça. 

Assim como sangue de Abel, o sangue de mais de seiscentos mil mortos está clamando a Deus por justiça, e denunciando ante o tribunal divino o descaso daqueles que poderiam ter evitado a tragédia, mas não o fizeram. Pior do que "canonizar" a morte é se atrever a "canonizar" quem facilita o seu trabalho. 

Saltando de Gênesis para Apocalipse, deparamo-nos com uma cena ainda mais intrigante. O vidente João descreve uma multidão de vítimas do poder do estado romano, chamando-a de “mártires” (em grego, “testemunhas”, isto é, “alguém que presta testemunho”). Esta incontável multidão clamava com grande voz diante de Deus: “Até quando ó verdadeiro e santo Soberano, não julgas e vindicas o nosso sangue?” (Apocalipse 6:10). Alguns capítulos depois, esta mesma multidão de mártires do sistema opressor romano reaparece enaltecendo a Deus: “A salvação, a glória, a honra e o poder pertencem ao nosso Deus, pois verdadeiros e justos são os seus juízos. Julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vindicou o sangue dos seus servos” (19:1-2).

Deus não vai deixar barato o descaso com que nossas autoridades lidaram com esta pandemia. O sangue dos que partiram prematuramente está clamando diante de Deus. 

Brasília e sua classe política são a nossa Babilônia, a grande prostituta, que etiquetou a alma dos cidadãos brasileiros, e a negociou na banca dos interesses escusos. 

A CPI pode não dar em nada. O ministério público pode se negar a denunciar o governo. O STF pode fazer vista grossa. Mas não escaparão da justiça divina. 

Não foi somente o sangue de Abel que clamou diante de Deus por justiça. O escritor da epístola aos Hebreus diz que sua oferta, mesmo depois de morto, ainda fala. Em outras palavras, a contribuição que sua vida representou durante sua estada neste mundo não perdeu a eloquência, mas segue ecoando ao longo de infindáveis gerações. A melhor homenagem que podemos fazer aos que partiram, seja pela COVID ou por qualquer outro fator, é ecoar e amplificar a vida que tiveram entre nós, relembrando e aprendendo com seus erros e acertos. Dentro da cultura mexicana pré-hispânica, se os mortos não forem relembrados, eles desaparecerão para sempre. Portanto, não deixemos que suas vozes se calem e que suas vidas sejam relegadas ao esquecimento. Sigamos amando-os e trabalhando pela manutenção de sua memória e de seu legado. Que sejamos, por assim dizer, extensão de sua existência.

A morte pode até não ser santa, mas também não é o bicho-papão que costumava ser. Em Cristo, ela foi vencida e ressignificada, para que em vez de temê-la, possamos encará-la., não como um ponto final, mas como um ponto em meio a reticências.  Celebremos a vida de quem está entre nós e a memória de quem seguirá vivendo em nossos corações.