terça-feira, setembro 14, 2021

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A CORDA BAMBA DA GRAÇA


Por Hermes C. Fernandes

Estou ciente de todos os riscos de se trilhar o caminho da graça até às últimas consequências. Não encontro melhor analogia disso do que andar na corda bamba. Não se pode fazer estripulias ali. Há que se tomar os devidos cuidados, vigiando cada passo, sem olhar nem para a direita, nem para esquerda, muito menos para trás ou para baixo. Nossos olhos devem ser mantidos na direção do alvo que se deseja alcançar. Olhar para qualquer outra direção poderá provocar vertigem e, eventualmente, nossa queda. 

Se pendermos para a esquerda, cairemos no fosso do fundamentalismo, onde nossa liberdade é restringida por regras e tradições humanas. Se pendermos para a direita, cairemos no abismo do hedonismo, onde a liberdade é confundida com licenciosidade e libertinagem.

Geralmente, o equilibrista recorre ao uso de um bastão que o acompanha em sua caminhada sobre a corda bamba. Se quisermos alcançar o equilíbrio em nossa caminhada sob a graça, teremos que recorrer constantemente à cruz. Não é à toa que a cruz tem duas hastes, uma vertical e outra horizontal. Repare que a horizontal, sobre a qual os braços de Jesus foram estendidos, aparece numa posição reta, sem pender para nenhum dos lados.  Uma graça sem cruz não passa de desgraça em potencial.

A corda da graça é suspensa sobre o abismo. Qualquer desequilíbrio pode ser fatal e provocar uma queda livre. Dura coisa é cair da graça! Mas isso só ocorre quando nos separamos de Cristo, apelando ao nosso senso de justiça própria. Todos os que recorrem ao mero cumprimento dos mandamentos para serem justificados por Deus acabam separando-se de Cristo e caindo da graça. Veja o que Paulo diz sobre este terrível risco:

“Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído.”Gálatas 5:4

Não é possível caminhar por esta corda bamba sem depender inteiramente de Cristo. Para tal, nosso ‘eu’ tem que estar crucificado. Em outras palavras, nosso ‘eu’ é alguém com quem não podemos mais contar, posto que devemos considerá-lo morto com todas as suas presunções. Paulo percebeu isso, razão pela qual já não se atrevia a depender de si mesmo. Ele sabia que se retornasse às obras da Lei, Cristo de nada o aproveitaria (Gálatas 5:2). Estar firme na liberdade conferida pela graça não é algo facultativo (Gálatas 5:1). Negligenciar isso é o mesmo que separar-se de Cristo e de Sua cruz, caminhando sobre a corda bamba sem um bastão para prover-lhe equilíbrio.

Lembre-se de que não há rede protetora lá embaixo. A queda é livre! Por isso, resta-nos fazer coro com o apóstolo: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim. Não aniquilo a graça de Deus; porque, se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu em vão” (Gálatas 2:20-21).

Alguém se atreve a dizer que Cristo morreu em vão? Mas é justamente isso que dizemos quando teimamos em depender de nossos próprios esforços para nos manter de pé. Graça sem cruz é corda bamba sem bastão para equilibrar-se. Não arrisque! Fie-se na obra consumada na cruz e não em sua performance religiosa. Não vá meter-se a fazer malabarismo, misturando lei e graça num mesmo combo. Ou vivemos toda a liberdade que a graça dá ou voltamos para debaixo do jugo da Lei.

segunda-feira, setembro 13, 2021

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JÁ PENSOU QUANTO CUSTARIA MUDAR O MUNDO?


Por Hermes C. Fernandes

Havia sido um dia difícil. Jesus estava exaurido. Não adiantou tentar fugir da multidão ávida por milagres. Quando desembarcou do outro lado do mar de Tiberíades, surpreendeu-se por ver que o povo o seguira, rodeando o mar.

Já entardecia, e Jesus não queria despedir aquele povo sem que antes fosse alimentado. Seu receio era de que muitos desfalecessem pelo caminho, pois estavam com ele desde muito cedo.

Virando-se para Felipe, perguntou-lhe:

- Como vamos fazer pra alimentar tanta gente? Onde compraremos pães suficientes?

Apesar de saber exatamente o que faria, Jesus quis testar Seu discípulo, atribuindo-lhe a posição de diretor de logística.

Imagino que Felipe recorreu à tesouraria para saber quanto havia disponível em caixa. Judas deve ter-lhe informado que só restaram duzentos denários.

Antes de responder à pergunta do mestre, Felipe calculou que aquela quantia não seria suficiente nem para garantir um mísero pedaço de pão para cada pessoa. Afinal, eram cerca de cinco mil homens, fora mulheres e crianças. Estima-se que havia ali ao menos quinze mil pessoas.

Ademais, ainda que houvesse dinheiro suficiente no caixa, que padaria seria capaz de atender a tal demanda em tão pouco tempo?

Talvez Felipe tenha considerado argumentar com Jesus mais ou menos nesses termos:

- Senhor, alimentar este povo não é responsabilidade nossa. O Senhor já os curou, os ensinou; Sua missão está cumprida. É melhor despedi-los agora.

Vemo-nos diante de uma importante questão: até onde vai a nossa responsabilidade como igreja para com o mundo? Alguns dirão que nossa missão se limita a ‘povoar o céu’, salvar almas, ensinar a sã doutrina, etc. Enquanto isso, o mundo segue faminto por justiça.

A razão pela qual evitamos qualquer envolvimento em questões de ordem social é sabermos o quão oneroso é. Alimentar os famintos, vestir os desnudos, abrigar os sem-teto, denunciar estruturas injustas, tudo isso tem um preço. Quem se dispõe a arcar com ele?

A evasiva é limitar a atuação da igreja à salvação da alma, isto é, garantir às pessoas uma eternidade feliz.

Porém, a proposta do Evangelho abarca o homem por inteiro. Tudo o que diz respeito ao ser humano, suas demandas, seus anseios, devem estar dentro do escopo de nossa missão.

Fica bem mais em conta a manutenção de nossos templos e programas.  Gastamos vastas somas para garantir o conforto dos fiéis. Construímos nossas suntuosas catedrais. 

Compramos equipamentos cada vez mais sofisticados. Mas não nos importamos com o mundo à nossa volta.

A cada dia, novas cracolândias surgem debaixo do nosso nariz. Mas isso não é da nossa conta...

Mães solteiras são abandonadas com os seus filhos... Elas que arquem com o ônus de sua imoralidade!

Quanto será necessário para que mudemos este quadro? Quanto temos em caixa atualmente? Quanto das ofertas e dos dízimos que recolhemos será usado para atenuar a dor dos nossos semelhantes?

Enquanto Felipe fazia seus cálculos, outro discípulo, André, se mete no meio da multidão à procura de alguém que fosse a resposta. André seria o que no mundo empresarial chamamos de gerente de recursos humanos.

No meio de tanta gente faminta, eis que surge um menino trazendo consigo uma lancheira. Sua mãe, ao saber que passaria o dia fora, preparou-lhe uma merenda: cinco pãezinhos e dois peixinhos. Assim mesmo, tudo no diminutivo.

André imagina que aquele garoto poderia, no mínimo, disponibilizar parte do seu lanche para saciar o mestre. Afinal, quem estaria mais faminto do que Ele depois de atender a tanta gente?

O reino de Deus não precisa de dinheiro, mas de gente. Não importa a faixa etária, a etnia, o grau de instrução, ou a situação econômica. A única coisa que, de fato, importa é que haja disposição e disponibilidade. Não adianta estar disposto, mas não estar igualmente disponível, nem vice-versa.

Aquele menino era a solução do problema.

Ao receber de suas mãos o lanchinho que sua mãe lhe preparara, Jesus tomou-o, deu graças, repartiu-o e deu aos Seus discípulos. Quando estes já iam levando à boca  o  seu pedaço, Jesus os interrompe e diz: Agora é a vez de vocês repartirem com os demais.

Quem disse que Deus precisa de muito para fazer grandes coisas? Pelo contrário, Sua especialidade é fazer coisas extraordinárias a partir daquilo que é considerado ínfimo, insignificante.

O que não se pode é multiplicar zero. Deus faz milagres, não mágica. Zero vez mil continua sendo zero. Zero multiplicado por um trilhão ainda é zero. A única vez que Deus fez alguma coisa a partir do nada foi na criação dos céus e da terra. A partir daí, tudo o que Deus fez teve como ponto de partida algo que já existia.

A lógica divina contraria a humana. Para que haja multiplicação, tem que haver divisão. Sem partilha, tudo continua como é.

Não subestime o que Deus lhe tem confiado. Ele sabe exatamente o que fazer para que isso seja potencializado. Porém, para isso, é mister que confiemos às Suas mãos o que temos recebido. Não apenas nossos recursos materiais, mas também intelectuais, emocionais, espirituais, o que inclui nossas aptidões, dons, talentos, know how, experiências. E como confiamos tais recursos a Ele? Quando os disponibilizamos para ser usado em favor do bem comum. Nada do que Deus nos deu foi visando exclusivamente a nossa satisfação pessoal. Nossa vocação primordial é a de ser bênção. E como é gratificante saber que outros estão sendo beneficiados através do que Deus nos conferiu.

Depois de alimentar à multidão, ainda sobraram doze cestos lotados de pães e peixes. Não me pergunte como. Se pudesse ser explicado, já não seria milagre.

Chama-me atenção a ordem dada por Jesus para que os discípulos não permitissem qualquer desperdício. Mesmo sabendo que Seu poder é uma fonte inesgotável, não somos autorizados a sermos pródigos com os recursos que nos têm sido disponibilizados. Um estilo de vida consumista é incompatível com uma consciência transformada pelo Evangelho.

Compartilhar não é o mesmo que desperdiçar, mas aproveitar ao máximo o que recebemos. O prazer proporcionado ao outro multiplica o nosso próprio prazer. Desperdiçar é jogar fora, ou gastar irresponsavelmente. Como cristãos, deveríamos estar na vanguarda das campanhas de reciclagem. O mundo não suporta mais tanto desperdício. Tanto pela injustiça que produz (uns com tantos, outros com tão pouco), como pelo uso de fontes nem sempre renováveis e o acúmulo de lixo que compromete a sustentabilidade.

* Reflexão baseada em João 6.

Aproveito para deixar aqui um apelo: nosso projeto social distribui cestas básicas para famílias de doze comunidades em estado de vulnerabilidade. Ajude-nos a repartir o pão com nossos irmãos. Seja parte da solução do mundo. 


PIX: 21997978135

terça-feira, julho 13, 2021

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TEOCRACIA E O CONTO DO MALAFAIA


Por Hermes C. Fernandes 

“O Conto da Aia” é um romance distópico de autoria da canadense Margaret Atwood que retrata uma teocracia totalitária que substitui o governo dos Estados Unidos após um ataque terrorista que resultou no assassinato do presidente e no fuzilamento da maioria dos membros do Congresso. O movimento fundamentalista de reconstrução cristã autointitulado "Filhos de Jacó" lança um golpe, suspende a Constituição do país e instala um estado de exceção sob o pretexto de restaurar a ordem, salvando a América da corrupção e da promiscuidade. Para consolidar seu poder, o novo regime chamado de República de Gileade reorganiza a sociedade em um novo modelo totalitário, militarizado e hierárquico pautado no fanatismo religioso e social inspirado numa leitura literalista do Antigo Testamento, limitando severamente os direitos humanos, principalmente os das mulheres que passam a ser subjugadas e oprimidas, proibidas de ler, tornando-se coisas, bens jurídicos, propriedades do Estado, forçadas a uma vida casta de dedicação ao lar e ao gozo de seus senhores. 

Não há como assistir à série de TV ou ler a obra que a inspirou sem questionar se já não estaríamos vivendo um prenúncio desta distopia. Basta verificar o aparelhamento do estado brasileiro por líderes religiosos cristãos de viés fundamentalista. 

Como se não bastasse uma bancada evangélica no congresso que tenta impor uma agenda de costumes, enquanto se alia às bancadas do boi e da bala, engrossando o coro dos que destroem direitos trabalhistas e previdenciários, agora, corremos o risco de ter um ministro “terrivelmente evangélico” ocupando uma cadeira no STF. 

O nome de Deus é evocado em comícios, inaugurações de obras públicas e pronunciamentos do presidente. Versos bíblicos são proferidos à granel como se pudessem legitimar qualquer improbidade. Jejuns são convocados por lideranças alinhadas ao governo. Palavras proféticas são proferidas, garantindo que o país estaria prestes a experimentar um tempo de prosperidade sem precedentes em sua história. Pastores usam suas redes sociais para defender seu Messias tupiniquim a qualquer custo. A ciência é desdenhada. Minorias são perseguidas. A democracia é atacada sistematicamente, preparando o caminho para a instalação de uma teocracia. 

Recentemente, no comício após uma das motociatas promovidas pelo presidente, o locutor o apresentou como “o Messias ungido por Deus para governar o Brasil e livrá-lo da corrupção.” A multidão ali reunida foi ao delírio. 

“O Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”, repete exaustivamente o presidente em cada aparição. O slogan de campanha vai ao encontro de frases de efeito que líderes evangélicos usam durante o período eleitoral quando buscam eleger candidatos que representem os interesses de seu grupo. Frases como “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor!” ou “O Brasil é do Senhor Jesus!” são proferidas como mantra, incutindo na cabeça dos fiéis que o país só prosperará quando se tornar majoritariamente evangélico, ou ainda, quando a Bíblia substituir a Constituição. 

Gileade é aqui. Mas, diferentemente da Gileade bíblica, não há bálsamo que traga qualquer alívio ao nosso tão sofrido povo brasileiro. 

A região de Gileade ea conhecida pela produção de um bálsamo medicinal. O profeta Jeremias diz que o povo de Israel menosprezava tal remédio por não se reconhecer doente, e por dar ouvidos a profetas palacianos, comprometidos com a coroa. Algo análogo ao que tem ocorrido em nosso país neste tempo de pandemia. “Porventura não há bálsamo em Gileade? Ou não há lá médico?”, questiona Jeremias. “Por que, pois, não se realizou a cura da filha do meu povo?” (Jeremias 8:22).

Se fosse hoje, ele perguntaria: Porventura não há vacina suficiente no país? Então, por que a pandemia só faz avançar, enquanto os profetas preferem bajular os poderosos em vez de lamentar a morte de mais de meio milhão de brasileiros?

Se, de fato, fossem comprometidos com a vida e o bem-estar do seu povo, esses profetas cobrariam das autoridades medidas que aliviassem seu sofrimento, e denunciariam qualquer desmando e improbidade. Todavia, eles preferem se ocupar com questões morais e culturais, no afã de impor uma agenda ultraconservadora baseada numa suposta cosmovisão cristã. 

A laicidade do Estado foi uma das maiores conquistas da modernidade e tem como objetivo a construção de uma sociedade em que nenhum grupo social possa se impor aos demais. E para tal, o Estado deve se declarar neutro, não interferindo em nenhum assunto relativo à religião. Em contrapartida, nenhum grupo religioso teria o direito de se intrometer nos temas políticos. O papel do Estado é garantir o direito de cada indivíduo de escolher sua própria religião. 

O poder público, sendo laico, não tem a capacidade nem de favorecer e nem de prejudicar qualquer prática religiosa. Em suma, trata-se de um pacto entre as pessoas de qualquer religião, bem como as que não professem religião alguma, possibilitando uma convivência amistosa. Para isso, nenhuma religião poderia impor seus valores na criação das regras que regem o Estado e a vida em sociedade. 

A proposta do Estado Laico está em consonância com a sociedade sonhada pelos profetas, simbolizada pela Nova Jerusalém, arquétipo da sociedade definitiva, na qual não há templos. 

Em contraposição ao Estado Laico, fala-se da cosmovisão cristã. Este termo foi cunhado por Abraham Kuyper, teólogo calvinista e estadista holandês. Para Kuyper o calvinismo, que dele considerava a forma mais consistente de cristianismo, não era exatamente uma teologia ou um sistema eclesiástico, mas uma cosmovisão completa com implicações para todas as áreas da vida, incluindo politica, arte, ciência, educação, etc. O cristianismo calvinista deveria assim resistir a aliança com outros “ismos” culturais que ele considerava oponentes, tais como o socialismo, o darwinismo, o positivismo e o liberalismo, e desenvolver-se a partir de seu princípio singular em busca da liderança cultural.

O que muitos defensores da “cosmovisão cristã” desconhecem é que as ideias de Kuyper foram as sementes responsáveis pelo surgimento do regime do Apartheid na África do Sul, que manteve a população negra segregada, excluída e oprimida em nome de uma pureza étnica e religiosa. Aliás, o próprio Calvino, em quem Kuyper se inspirava, durante o tempo em que governou Genebra, mandou para a fogueira o médico Miguel Serveto pelo simples fato de considerá-lo herege. Dentre suas contribuições científicas, destaca-se a descrição da circulação pulmonar, sem a qual hoje não se poderia tratar um paciente de COVID-19 cujos pulmões estivessem comprometidos.  

A Holanda, país em que Kuyper serviu como primeiro ministro, vive hoje uma era pós-cristã, em que igrejas antes concorridas foram transformadas em bibliotecas públicas e danceterias. Enquanto a África do Sul luta para cicatrizar as feridas deixadas pela segregação racial.  Graças a homens como Nelson Mandela e o bispo anglicano Desmond Tutu, o bálsamo da reconciliação tem sido derramado sobre tais feridas, possibilitando às próximas gerações sonharem com uma sociedade mais igualitária e solidária. 

A única cosmovisão que admito como cristã é aquela através da qual se enxerga o mundo com as lentes do amor. O resto não passa de projeto de poder cada vez mais distante da proposta original do Cristo. 

Sem dúvida, prefiro abraçar o projeto de Jesus chamado "reino de Deus" do que acreditar no conto de gente da laia dos profetas  midiáticos


segunda-feira, julho 12, 2021

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Tempo SABÁTICO ou SAFÁDICO?


Por Hermes C. Fernandes 

Quem nunca precisou de um tempo sabático para espairecer um pouco, desfocar e recarregar as baterias? Afinal, ninguém é de ferro. Se a máquina humana não der uma parada de vez em quando, a tendência é superaquecer e entrar em pane. Não é à toa que uma das síndromes que mais têm feito vítimas em nossos dias é a de burnout.  Foi por isso que Deus estabeleceu o princípio por trás do mandamento do sábado. O que para o corpo é um descanso necessário, para a alma é um exercício de dependência da graça divina. 

Como pastor e psicólogo, tenho me deparado com uma prática que parece substituir o tal tempo sabático. Trata-se do que tenho chamado de “tempo safádico.” Geralmente, pessoas que passaram boa parte de suas vidas submetidas a um código moral extremamente rigoroso, chegam ao ponto em que não suportam mais o jugo e resolvem chutar o pau da barraca. Como diz o ditado, quem nunca comeu melado, quando come se lambuza. Trata-se do efeito colateral de uma espiritualidade legalista que exige do indivíduo certas renúncias alheias à genuína proposta do evangelho. Paulo denunciou isso de maneira veemente, e advertiu: 

“Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo (...) Se estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos sujeitais ainda a ordenanças, como se vivêsseis no mundo, como, não toques, não proves, não manuseies? Todas essas coisas estão destinadas ao desaparecimento pelo uso, porque são baseadas em preceitos e ensinamentos dos homens. Têm, na verdade, aparência de sabedoria, em culto voluntário, humildade fingida e severidade para com o corpo, mas não têm valor algum contra a satisfação da carne” (Colossenses 2:8,20-23).

O próprio Jesus nos advertiu quanto aos religiosos fariseus que exigem dos outros o que eles mesmos não são capazes de fazer.  Os tais “atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los” (Mateus 23:4).

Por que as pessoas são tão propensas a aceitarem tais jugos? Pelo simples fato de que a liberdade oferecida em Cristo nos impõe responsabilidade. Viver sob o jugo de terceiros é o mesmo que transferir nossas responsabilidades. Se algo não der certo, a culpa recairá sobre aquele que nos impôs um jugo insuportável de carregar. Terceirizar nossa consciência nos parece mais confortável do que enfrentar a vertigem que a liberdade pode nos provocar. 

Romper com este jugo demanda firmeza de caráter e de propósito, e não autoindulgência para compensar o tempo perdido, como se houvéssemos computado pontos suficientes que nos garantiriam uma anistia passageira para fazermos o que desse na telha. 

Por isso o apóstolo Paulo afirma que não somos devedores à carne (Romanos 8:12). Todas as renúncias que fizemos ao longo do caminho, das mais legítimas às mais infantis, não nos conferem crédito para desfrutarmos de um tempo safádico, fazendo todas as nossas vontades de maneira pródiga e inconsequente.  O mesmo apóstolo que defendeu com unhas e dentes a liberdade existencial que nos é conferida pela graça, também diz que não devemos usar desta liberdade para “dar ocasião à carne”, mas que, em vez disso, devemos servir uns aos outros por amor (Gálatas 5:13). Ou como dito por Pedro, não devemos tomar essa tal liberdade como “pretexto da malícia” (1 Pedro 2:16), ou como desculpa para viver da maneira como der na telha, sem nos preocupar com o estrago que isso possa provocar na vida de outros. “Que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos” (1 Coríntios 8:9), adverte Paulo. Sem amor e consideração pelos demais, em especial pelos mais fracos, nossa liberdade se transformará em libertinagem, e o tempo sabático pelo qual nossa alma anseia se tornará, de fato, num tempo safádico cujos efeitos poderão nos acompanhar pelo resto da jornada.

A saída não é a submissão cega e acrítica a um código moral inflexível e desumano, mas abraçar nossa vocação existencial corajosamente, não impondo aos outros o que não gostaríamos que nos fosse imposto, nem tampouco exigindo-lhes o que cumprimos somente quando estamos sob os holofotes na busca de por aplausos e aprovação. 

O discurso moralista costuma esconder perversões inconfessáveis. A longo prazo, o efeito pode ser devastador, incluindo a dissolução dos afetos e a cauterização da consciência. Não vale a pena pagar pra ver. 

Se você estiver vivendo agora mesmo em um tempo safádico, permitindo-se viver tudo aquilo de que a religião lhe privou, cuidado! Não atente contra a sua alma. Busque o equilíbrio. Não fira a si mesmo, nem àqueles que lhe amam. Que você não se torne escravo, nem dos vícios que lhe entorpecem, nem das virtudes que lhe alimentam a vaidade. 

sábado, julho 10, 2021

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IDEOLOGIA DE GÊNEROS x IDEOLOGIA DE GÊNESIS


Por Hermes C. Fernandes

Em oposição ao que muitos cristãos chamam  de “ideologia de gênero”, fala-se de uma “ideologia de Gênesis” em alusão ao primeiro livro da Bíblia que narra a criação de todas as coisas em forma de poema. Ambas as expressões estão equivocadas. Não há uma ideologia de gênero, tanto quanto não há uma ideologia de Gênesis. O que há é a instrumentalização da religião objetivando o estabelecimento de um projeto de poder. Gênesis não é um tratado científico, nem tampouco um tratado ético e moral. Mas se apropriaram de sua narrativa poética, transformando-a no que ela jamais pretendeu ser. 

Por exemplo: a diversidade de gêneros é peremptoriamente condenada e descartada pelo simples fato de que Gênesis afirma que Deus criou homem e mulher, macho e fêmea, Adão e Eva, não Adão e Evo. Esta mesma lógica tem sido usada para manter a mulher subserviente ao homem, posto que Deus a criou a partir da costela do homem com o único objetivo de ser sua auxiliadora. Portanto, todo o protagonismo pertence ao homem. Se a mulher resolve roubar a cena, dá no que deu: O fruto proibido é devorado, e ambos são expulsos do paraíso. Ora, se a mulher é um ser de segunda classe, qualquer traço de feminilidade encontrado em um homem, torná-lo-ia um ser repulsivo, traidor de seu gênero, que abriu mão de sua posição de autoridade, aceitando ser tratado como mulher. E foi assim que surgiu a homofobia, gerada e parida pelo machismo. 

Também foi a partir da “ideologia de Gênesis” que se estabeleceu o direito de alguns escravizarem a outros pertencentes a uma etnia amaldiçoada. Os mesmos que hoje defendem que os gays devem voltar para o armário, ou jamais ousar sair dele, são os mesmos que cem anos atrás defenderiam que a mulher jamais deveria se atrever a desejar outra vida que não fosse a doméstica e outra vocação que não fosse a maternal. Também são os mesmos que duzentos anos atrás chicoteariam o negro com uma mão, enquanto empunhassem a Bíblia com a outra. Para eles, o mundo ideal é aquele em que gays se mantenham no armário, mulheres na cozinha e negros na senzala. 

Esta é, em resumo, a “ideologia de Gênesis” em todo o seu esplendor de perversidade, que diz que a culpa do mundo estar como está é das mulheres, que o negro sofre por ser descendente de Caim ou de Cão, o filho amaldiçoado de Noé, e que os gays são uma abominação para Deus, os remanescentes de Sodoma. 

Prefiro ficar com o evangelho que anuncia um novo gênesis, uma nova criação em que não haja distinção étnica, social, cultural ou sexista. Em Cristo, todas as coisas começam do zero, e a lei que prevalece é o amor. Portanto, quando ler Gênesis, rejeite a ideologia perversa construída a partir de uma leitura literalista do texto; leia-o com as lentes deste amor derramado profusamente em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Para muitos é mais fácil crer numa arca capaz de comportar exemplares de todos as espécies de animais do mundo do que crer num amor divino capaz de abarcar todos os seres humanos. É mais fácil crer na queda das muralhas de Jericó ao som das trombetas do que crer que a Cruz de Cristo demoliu todos os muros que nos separavam.


sexta-feira, julho 02, 2021

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CARTA AOS PAIS DE HOMOSSEXUAIS

 


Por Hermes C. Fernandes


Antes de tudo, solidarizo-me com suas angústias e preocupações com o fato de seu filho ou filha ter se assumido gay. Talvez você tenha se surpreendido, pois jamais observou os sinais que indicavam a orientação sexual dele ou dela.  Ou talvez você já houvesse percebido, mas preferia manter uma postura de negação. Mas a verdade não pode ser escondida por muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, isso acabaria acontecendo.


Sabe aquela sensação de perder o chão? Não se culpe por ela. É absolutamente natural. Afinal, há tantas questões envolvendo a homossexualidade. Questões para as quais você ainda não tem a resposta. 


Provavelmente, a primeira que lhe ocorreu foi “onde eu errei?” Jamais se sinta culpado por algo que não deveria gerar culpa. Seu filho não escolheu ser gay. Portanto, a orientação sexual dele não se deve a nenhuma falta de sua parte. Porém, a resposta que você der à questão é de sua total responsabilidade. 


Ao decidir se assumir, seu filho demonstrou ser alguém de caráter firme, corajoso, razão suficiente para que você se orgulho dele em vez de se sentir envergonhado. Se não lhe contou antes, certamente porque temeu a sua reação. Pode imaginar o quanto foi difícil para ele manter tudo isso em sigilo por tanto tempo? Pode imaginar a angústia que enfrentou por temer lhe desapontar? 


Não pense que ele esteja usando isso para lhe insultar. Ele simplesmente não consegue mais esconder de quem mais ama a verdade acerca de sua sexualidade. 


Já não basta tudo o que terá que enfrentar lá fora, os olhares discriminatórios, as piadinhas maliciosas, os julgamentos, o risco iminente da violência física? Tudo o que ele espera encontrar em você é acolhimento. 


"O que os outros vão pensar?", você se pergunta. Às favas com as opiniões dos outros! O mais importante é a felicidade e o bem-estar do seu filho.


Mais do que nunca, ele procura em você alguém capaz de peitar a hipocrisia do mundo por ele. 


Seu filho ou filha ainda lhe dará muito orgulho. Os valores que você lhe passou não se perderam. Virtudes como integridade, honestidade, sinceridade, honradez, lealdade, generosidade, e tantas outras, não podem ser ofuscadas por sua orientação sexual. 


Além do mais, sua orientação sexual não é um defeito, uma vicissitude,  uma perversão, mas apenas uma condição existencial inata. Ninguém se torna gay. O próprio Deus o fez assim, e certamente não o condenará por isso. Não serão meia dúzia de versículos bíblicos mal traduzidos ou mal interpretados que provarão o contrário. 


"O que eu fiz para merecer isso?", "Seria isso uma maneira de Deus me castigar?" Se estes pensamentos lhe ocorreram, então, devo deduzir que o estrago feito pelo discurso religioso foi realmente grande, porém, não irreversível. Enxergue o seu filho pelas lentes da graça, e você perceberá que ele sempre foi, é e continuará sendo uma dádiva, um dom que lhe foi confiado por Deus, jamais um castigo ou um carma. 


Ame-o. Aceitei-o como ele é. Proteja-o. Seja um escudo para ele. Faço-o sentir-se orgulhoso do pai ou mãe que você é, pois certamente ele não deseja outra coisa que não seja ser orgulho de seus pais. 


"O que será da alma dele?", "Deus não o enviará para o inferno?" A resposta é: Não! Deus não o enviará para o inferno por ser gay. Mas certamente, muitos que pensam falar em nome de Deus vão querer fazer da vida dele um inferno aqui e agora. Não ceda nem um milímetro. Muitos desses religiosos que esbravejam em seus púlpitos e redes sociais, usam seu discurso odioso para esconder suas taras e perversões. Cuidado com quem arrota santidade, mas é incapaz de demonstrar qualquer humanidade para com as minorias ou para com quem pensa ou viva de maneira diferente daquela que tentam impor. 


Sei que provavelmente você tenha investido expectativas sobre o seu filho ou filha, dentre as quais, a de que um dia lhe daria netos. O fato de ser homoafetivo não impede ninguém de ter filhos, mesmo que para isso, tenha que adotar. Quantas crianças foram abandonadas ou perderam seus pais e que poderiam ser acolhidas por casais homoafetivos. Considere esta possibilidade. 


Quando ao mundo, ele está mudando. A cada geração, as pessoas estão mais conscientes de que ninguém deve ser discriminado, quer seja por sua etnia, por seu credo religioso ou por sua orientação sexual. 


Se quisermos deixar um mundo melhor para os nossos filhos, devemos buscar deixar filhos melhores para o nosso mundo. Seu filho é a sua contribuição particular para um mundo mais justo, amoroso e solidário. 


Que tal sair agora ao encontro dele ou dela para lhe dar aquele abraço? Se não for possível hoje por causa da distância, não durma sem enviar uma mensagem de texto, declarando-lhe o seu imenso amor. Vai por mim... Evite cobranças e indiretas, nem se preocupe em dar satisfação ao mundo. Minha sugestão: Poste uma foto bem bonita dele ou dela em suas redes e diga ao mundo o quanto ele ou ela é motivo de orgulho para você.

quarta-feira, junho 02, 2021

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SEXO É CRISTÃO! ESTUPRO DOMÉSTICO, NÃO! (UMA RESPOSTA AOS MACHOS CRISTÃOS ESCROTOS)



Por Hermes C. Fernandes 

Nada mais ambíguo do que o sexo. Talvez por isso, Rita Lee tenha cantado que “amor é cristão, sexo é pagão”. Apesar de admirá-la como uma das mais completas artistas do rock nacional, devo discordar, mesmo lhe dando licença poética. Nem o amor, nem o sexo envolvem necessariamente religião. Mas entendo perfeitamente o que ela quis dizer. De fato, o cristianismo valoriza o sentimento em detrimento do prazer, como se fossem mutuamente excludentes. O amor também pode ser pagão. “Quem ama, conhece a Deus”, afirma o apóstolo João. Portanto, nem mesmo amantes ateus ficam de fora. Se há amor, ali Deus está, independentemente da crença ou da não crença. O mesmo se dá com relação ao sexo. Sim, o sexo pode ser cristão. O que não significa que tenha que ser pudico, sem graça, sem sal, cheio de escrúpulos e tabus. 

Se por um lado o sexo pode ser um instrumento de comunhão, de afeto, de expressão do amor, por outro, pode se tornar num aguilhão, capaz de nos transformar em escravos de nossos mais primitivos impulsos, despersonificando-nos, coisificando-nos. E assim, em vez de nos sentir ALGUÉM, passamos a nos sentir como um mero ALGO, abdicando-nos do propósito de amar e ser amados, por nos satisfazer com tão pouco que é usar e sermos usados. 

Tudo o que extrapola os limites do bom senso deixa de ser saudável para ser nocivo ao ser. O bom apetite se torna em gula. O sono reparador em preguiça. O bem disposto trabalhador se torna num workaholic. O beber socialmente cede ao alcoolismo. O mesmo se dá com o sexo. Num movimento pendular, saímos de um extremo ao outro. Quase que repentinamente, o sexo deixou de ser visto apenas como um meio de procriação para se tornar na mola que move o mundo. Não é exagero afirmar que há sexo para todo lado! Nas propagandas, na música, nas artes plásticas, nos filmes, novelas e séries de TV. Às vezes, de maneira sutil e sugestiva, doutras vezes, de maneira explícita. O mundo parece respirar sexo. E assim, o que era saudável alcança as raias da insalubridade. O bom e velho sexo cede à promiscuidade.  Conquanto o sexo seja bom e aprazível, a promiscuidade o torna sujo e repugnante, pois em vez de nos dar a sensação de plenitude tão esperada, produz uma profunda sensação de vazio existencial.

Deus não inventou o sexo apenas para a perpetuação da raça, como advogam alguns, e, sim, para ser uma expressão de amor, carinho e cumplicidade entre dois seres que se amam.

Estou convencido de que o sexo é uma das mais belas criações de Deus. Sexo é vida! Sexo é prazer! Sexo é festa! Mas também pode se transformar num instrumento de opressão e dominação. Por isso, o apóstolo Paulo diz que cada um deve saber “controlar o próprio corpo de forma santa e honrosa, não dominados pelo desejo desenfreado (...) e que, nesta matéria, ninguém oprima ou engane a seu irmão” (1 Tessalonicenses 4:4-5). Não confunda “santidade” e “honra” com pudor e moralismo. 

Sexo santo não é sexo pudico, mas sexo que respeita a sacralidade do corpo alheio. Sexo santo é sexo consentido. Controlar o próprio corpo de forma santa e honrosa é não ultrapassar o perímetro do outro. Sexo sujo é todo aquele que só tem o objetivo de obter prazer, ignorando o dever de proporciona-lo ao outro. Desonrar o corpo alheio é força-lo a fazer o que não quer, submetendo-o a dores ou situações vexatórias e constrangedoras. Se um não quer, os dois não fazem. Não é não, e ponto. Não há o que se discutir. 

Cada um deve estabelecer seu próprio perímetro, pois conhece seus limites. Cabe ao outro respeitar. Porém, qualquer coisa é lícita desde que mutuamente consentida. 

Não há lugar para imposição, mas para a sedução. Limites podem ser eventualmente ultrapassados, desde que o convite a isso parta do outro. É sempre do outro a última palavra.  

Cara de pau é todo aquele que recorre a textos bíblicos para justificar sua canalhice. E um dos textos mais usados está na carta de Paulo aos Coríntios. 

“A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no o marido. Do mesmo modo o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no a mulher. Não vos priveis um ao outro, senão por consentimento mútuo por algum tempo, para vos aplicardes à oração.” 1 Coríntios 7:4-5a

É importante frisar que esta passagem não consiste num mandamento apostólico, mas de uma concessão que parte da percepção particular de Paulo (v.6). O que Paulo está defendendo aqui não um estupro doméstico como tem acontecido em muitos lares cristãos. Paulo não está falando da mulher que, por estar indisposta, se nega a atender às investidas amorosas do marido. Ele se refere ao homem ou mulher que usam a religiosidade como desculpa para privar o outro de seu carinho e do próprio ato sexual em si. Em outras palavras, Paulo está dizendo: Permitam-se! Vocês pertencem um ao outro. Não usem a oração como pretexto, a menos que haja consentimento mútuo neste sentido. 

Não somos sex machines. Nem todo dia estamos a fim de transar. Há dias em que a gente prefere ocupar a mente com outras coisas. Sexo é bom demais, mas não é tudo. A relação entre pessoas que se amam vai além dos desejos físicos. 

Recentemente, um jovem pastor twitteiro que oferece um curso chamado “Teologia Brutal” abriu seu instagram para perguntas. Observe a resposta oferecida a uma dessas “perguntas light” (foi assim, de modo irônico, que ele se referiu à questão).

Internauta: “Se não estiver afim de fazer sexo com marido, tenho que fazer sem vontade?”

Resposta do pastor Jack: “Geração idiota que só faz o que tem vontade. Se teu marido estiver com vontade de te colocar um chifre, ele pode? Se der vontade de te dar um soco ele pode? Óbvio não. Ele tem que te servir. Tem que te amar! Tem que morrer por ti. Qual o problema de deixar ser convencida? De se deixar ser excitada por ele? Qual o problema???? Vocês estão fadados a viver  suas vidas de bosta pois só fazem o que querem. Somente bicho vive assim! Deus nos fez a sua imagem e semelhança! Não viva como bicho! Viva como imagem de Deus!”

Oi? Viver como imagem de Deus é isso? Então, devo imaginar que se  Jesus estiver batendo à porta, e ninguém atender, ele simplesmente a arromba? Não foi justamente esta a figura usada por Jesus em Apocalipse?: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” (Apocalipse 3:20). Uau! Este é o meu Jesus, de quem espero ser imagem e semelhança. Ele ceia conosco, e nos chama a cear com Ele. Em outras palavras, o prazer deve ser mútuo e não apenas de uma das partes. Ele bate à porta, mas não invade o domicílio do coração humano. Mesmo tendo a chave que abre qualquer fechadura, Ele prefere bater à porta e esperar ser atendido. Jesus é mesmo um Gentleman. Ele jamais estupraria a alma humana. 

Os bichos são guiados pelo instinto. Deu vontade, fez. Mas mesmo assim, ele respeita o cio da fêmea. Há homens muito piores do que os bichos. Agem, não por instinto animal, mas por impulsos que deveriam controlar. 

Idiota é quem se deixa usar como mero objeto, sem respeitar o próprio corpo e a vontade. Mais idiota ainda é quem impõe seu desejo, sem levar em conta o desejo do outro. 

Por favor, não use a Bíblia para julgar e sentenciar pecadores, enquanto usa trechos isolados para justificar sua misoginia, seu machismo e sua incapacidade de seduzir sem apelar a chantagens e expedientes indignos. Ame seu parceiro. Entregue-se sem culpa. Permita-se o prazer. Mas jamais desrespeite o sentimento e os escrúpulos de ninguém. 

Casamento não significa sexo grátis a hora que quiser. Casamento, com ou sem papel, significa companheirismo, cumplicidade, confiança, respeito, lealdade e, sobretudo, amor.