segunda-feira, abril 05, 2021

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DEUS CUSTOMIZADO: UM DEUS SEGUNDO A MINHA PERVERSIDADE


Por Hermes C. Fernandes

De que me serve um Deus vulnerável, senão para desbancar minhas presunções? 

Do que me serve um Deus despido, ensanguentado, rendido, vencido pela dor, escarnecido,  ridicularizado, senão para expor meus preconceitos mais arraigados e a obscenidade instalada nos recônditos mais obscuros da minha alma?

De que me serve um Deus embriagado de amor? Prefiro um Deus sóbrio que jamais erre a pontaria quando tiver que alvejar e destruir meus desafetos. 

Não quero um Deus que desmascare minhas certezas, que desfaça minhas ilusões. Quero um Deus que me garanta, que seja o fiador de meus desvarios. 

Quero um Deus customizado, que jamais me desaponte. Que nem pense em me dizer um não. Um Deus que seja bom em fazer o mal. Um Deus ao meu inteiro dispor, que atenda aos meus caprichos e justifique minha ganância e ambição. Um Deus que não se atreva a vasculhar os porões da minha alma, nem altere a posição dos móveis nos cômodos do meu ser. Que deixe meu mundo particular intacto. Quando muito, que espane a poeira acumulada ao longo dos anos. 

Um Deus austero com os que pensam diferentemente de mim, mas condescendente com minhas sandices. Que subscreva minha ideologia, ainda que resulte na miséria e na morte de outros. 

Enfim, um Deus segundo as minhas suposições. 

Em que esse Deus se parece com Jesus? Por isso o crucificamos. Ele não atendia aos requisitos. Ele era bom demais com quem não prestava e duro com quem se achava o suprassumo da moral e dos bons costumes, vulgo cidadão do bem. 

O Deus segundo Jesus não cabe em meu andor político, nem pode ser dissecado pela minha teologia, tampouco bajulado em minha liturgia. 

Prefiro um Deus que faz das igrejas seu sepulcro, e de seus ministros, mensageiros da morte, e de seus cultos, procissões em direção do abismo.

Um Deus segundo o meu coração e a minha perversidade. 

* Sei do risco de não compreenderem minha ironia, mas tenho esperança de que este texto desperte a consciência de alguns.


sexta-feira, abril 02, 2021

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A CRUZ NÃO ESTÁ VAZIA!

Por Hermes C. Fernandes

Se o túmulo de Cristo ficou vazio, então, Deus aceitou Sua oferta pelo pecado, e estamos livres. Mas se a Cruz estiver vazia, nosso velho homem escapou ileso, e, portanto, ainda vivemos sob a égide do pecado.

A Cruz é eterna! E a prova disso é que as Escrituras nos informam que o Cordeiro foi morto desde antes da fundação do mundo.[1] Há uma cruz histórica ocorrida na plenitude dos tempos, e que nada mais é do que a manifestação de uma cruz meta-histórica, ocorrida fora do tempo e do espaço.

O que acontece na eternidade não tem começo nem fim. Nesse sentido, a cruz é coexistente com Deus. Desde que há Deus, também há Cruz. Por isso, quando o céu se descortina diante dos olhos de João, o trono que se vê é ocupado por um cordeiro "como que houvesse sido morto".[2]

Ele ressuscitou! Porém, Seu sacrifício não durou apenas seis horas. As mãos que criaram o Universo foram mãos crucificadas. Aos olhos de Deus, tanto o trono, quanto a Cruz, estarão sempre ocupados por Jesus.

Enquanto esteve na cruz histórica, o trono não ficou vago. E enquanto ocupa Seu trono de glória, a Cruz não está vazia. Nisso reside nossa salvação. Se Jesus houvesse descido dessa Cruz meta-histórica, não haveria razão para que Paulo declarasse: "Estou crucificado com Cristo"[3]. Ele não disse que havia sido crucificado, no passado. Ele disse que estava, naquele momento, crucificado com Cristo. Portanto, Cristo continuava na Cruz, e Paulo com Ele. Se Ele desce da Cruz, nosso velho homem escapa.

O sepulcro, porém, está vazio. O sepultamento de Jesus é um fato histórico, porém, não meta-histórico. Sua ressurreição também é histórica. Mas Sua Cruz vem antes de todos os antes, e será sempre viva depois de todos os depois. Por isso, no dizer de Paulo, o Cristo que pregamos é o CRUCIFICADO e não o ex-crucificado. 

Engana-se quem imagina que a Cruz foi a vergonha que só foi sublimada pela glória da Ressurreição. Não! Jamais houve manifestação maior da glória de Deus do que a revelada no Gólgota. Foi aquela glória que Ele desejou, ao pedir que o Pai lhe restituísse a glória que recebera antes que houvesse mundo,[4] posto que o Cordeiro foi morto antes da fundação do mundo. 

As mãos que mantém as órbitas planetárias ainda exibem as cicatrizes. Sob a coroa de glória que há em sua cabeça ainda se vê as marcas deixadas pelos espinhos. O resplendor dos Seus pés é incapaz de disfarçar as feridas feitas pelos cravos. Embora tenham sido feitas num determinado tempo, tais feridas adentraram a eternidade e por isso, tornaram-se co-eternas em Deus. Se fôssemos capazes de retroceder no tempo, e reencontrássemos o Criador caminhando com Adão pelo Jardim, certamente veríamos as marcas. Ele as exibe como troféus, prova do Seu grande e incompreendido amor por Sua criação.

Num certo sentido, pode-se dizer que nem o túmulo, ou mesmo a manjedoura que ocupou ao nascer, ficaram vazios. Aliás, nada do que Ele ocupou ficou vazio novamente. Permita-me explicar: Um dos atributos divinos é a Onipresença. Geralmente, entendemos a Onipresença como um atributo espacial. Ser Onipresente é estar em todos os lugares. Mas como tempo e espaço são duas facetas de uma mesma dimensão, logo, para que esteja em todos os lugares, Ele também teria que estar em todos os tempos. Nenhum lugar por onde Ele tenha passado historicamente ficou vazio. Ele sacralizou cada espaço e eternizou cada momento. 

Aquele que é chamado "Pai da Eternidade"[5] eternizou o que era fugaz e efêmero e sacralizou o que era secular e profano. 

As implicações disso são amplas e profundas. Ao viver cada etapa do desenvolvimento humano, por exemplo, Ele igualmente o eternizou, e assim, Ele segue sendo o Deus-Menino, bem como o Deus-Adolescente, o Deus-Jovem, o Deus-Homem. Tudo quanto Ele foi dentro do tempo e do espaço, Ele segue sendo na Eternidade, porque n'Ele não há mudança, nem sombra de variação.[6]

Ao ocupar Seu trono de glória, elevado sobre tudo e todos, Ele preenche todas as coisas, no passado, no presente e no futuro. Nem mesmo o futuro do pretérito, ou qualquer realidade paralela, escapa-lhe o domínio.

Se esvaziarmos a Cruz de seu sentido mais radical, em vez de encontrarmos nela o nosso velho homem, com o seu egoísmo, presunção e ganância, nós trataremos de ocupá-la com aqueles que desprezamos. E assim, será como se crucificássemos a Cristo novamente. 

Não há meio termo. Ou estamos crucificados ou estamos entre os que crucificam. Somos crucificados com Cristo quando abandonamos nossa arrogância e nos vemos em cada crucificado deste mundo.


[1] 1 Pedro 1:20; Apocalipse 13:8

[2] Apocalipse 5:6

[3] Gálatas 2:20

[4] João 17:5

[5] Isaías 9:6

[6] Hebreus 13:8; Tiago 1:17

quinta-feira, abril 01, 2021

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BOLSONARO: HOMEM SEGUNDO O CORAÇÃO DE QUEM MESMO?


Por Hermes C. Fernandes

FARAÓ: Não importa se ele explorou o trabalho escravo dos hebreus, mantendo-os sob chibatadas, ou se mandou matar os meninos recém-nascidos para coibir a multiplicação daquele povo. O importante é que ele pediu a Moisés que orasse por ele a Deus. Confira: “Mas o Faraó insistiu: “Eu vos permitirei sacrificar a vosso Deus no deserto, mas não deveis ir muito longe. E, por favor, orai por mim também!” (Êxodo 8:28).

NABUCODONOSOR: Não importa se ele foi responsável por levar os judeus em cativeiro para Babilônia, nem que ordenou que os amigos de Daniel fossem lançados numa fornalha ardente por se negarem a se curvar diante de sua estátua. O importante é que ele reconheceu que o Deus de Israel era superior aos deuses de sua devoção. Confira: “Portanto, eu, o rei Nabucodonosor, agradeço ao Rei do céu e lhe dou louvor e glória. Tudo o que ele faz é certo e justo, e ele pode humilhar qualquer pessoa orgulhosa” (Daniel 4:37).

HERODES: Não importa se ele foi responsável pelo genocídio de crianças e pela decapitação do maior dos profetas, João Batista. O importante é que ele se prontificou a adorar o recém-nascido Jesus, mesmo que isso tenha sido uma armadilha visando matar aquele que poderia representar alguma ameaça ao seu trono. Veja o que ele disse aos magos vindos do Oriente: “Ide, e perguntai diligentemente pelo menino, e quando o achardes, comunicai-me, para que também eu vá e o adore”(Mateus 2:8).

BOLSONARO: Não importa que ele seja favorável à tortura, nem que tenha tirado tantos direitos dos trabalhadores, nem que tenha promovido uma reforma previdenciária que prejudicou severamente os aposentados, nem que desdenhe das minorias, nem que tenha sido negligente no combate à pandemia, promovendo aglomerações, combatendo o uso de máscaras, receitando remédios ineficazes, ocasionando na morte de mais de 320 mil brasileiros, nem que seja envolvido com milícias sanguinárias, nem que tenha sua família chafurdada em corrupção. O importante é que ele pediu que os evangélicos orassem e jejuassem por ele. O que importa é que ele foi batizado no rio Jordão, recebeu a unção do bispo Macedo e vive a repetir o mantra "Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!"


Moisés não se deixou enganar pela artimanha de Faraó. Daniel não deixou de advertir a Nabucodonosor quanto ao juízo de Deus que viria sobre ele por causa de sua arrogância. Os magos não se deixaram enganar pela artimanha de Herodes.  Mas, infelizmente, o povo evangélico se deixou iludir por um homem que carrega “Messias” no sobrenome, mas jamais demonstrou carregá-lo no coração. Triste a sina do povo que se deixa ludibriar com tanta facilidade.

quarta-feira, março 31, 2021

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PASTORES ENTREGARAM OUTROS PASTORES PARA SEREM TORTURADOS DURANTE O REGIME MILITAR



Por Hermes C. Fernandes 

É assustador notar que depois de mais de cinquenta anos do golpe militar, boa parte da liderança evangélica brasileira sinta-se atraída pela possibilidade de que o país retroceda e volte aos "anos dourados" da ditadura. Razão pela qual resolvi postar novamente este artigo que oferece um vislumbre do que foram os anos que se seguiram e de quanto alguns setores da igreja evangélica se beneficiaram do regime, apoiando-o a ponto de pastores entregarem seus colegas para serem torturados.

Durante os primeiros anos do regime militar, os grandes centros do Brasil experimentaram uma enxurrada de pregadores norte-americanos. Com suas tendas portáteis, eles pregavam uma versão do evangelho diluída em uma ideologia reacionária, com discurso notavelmente fundamentalista e declaradamente anti-comunista. Esses movimentos foram os matizes do neo-pentecostalismo brasileiro. Qualquer vertente protestante ou católica socialmente engajada era considerada subversiva, e por isso, tinha que ser combatida. Nesta mesma época o Brasil importava dos EUA o movimento de renovação carismática da igreja católica.

Os militares, atendendo aos interesses do imperialismo americano, perceberam que uma religiosidade mais mística, que promovesse alienação nas camadas populares, inibiria a emergência de uma consciência crítica da realidade. A ênfase exacerbada nos dons espirituais, nas manifestações prodigiosas, somada a uma escatologia escapista, se incumbiriam de manter as pessoas distraídas, enquanto a agenda política americana fosse implantada na América Latina (o mesmo aconteceu no Chile e na Argentina). O fruto disso tudo é o estado atual em que se encontra a igreja brasileira. Lamentável. Deprimente. Para não dizer, desesperador.

Quanto aos pastores delatores, alguns achavam estar prestando um serviço à causa de Deus, e se tornaram marionetes nas mãos dos poderosos. Outros, porém, eram movidos pela ganância e a ambição do poder. Desde então, a igreja evangélica brasileira vem se promiscuindo, aliando-se às famigeradas oligarquias que têm governado este país desde as capitanias hereditárias, em vez de denunciar as injustiças e os descalabros do poder, desperdiçando, assim, a oportunidade de ser voz profética em favor dos que não têm voz.

Temo que a presente animosidade que tem dividido nosso povo tenha chegado também à classe pastoral, e que isso possa gerar disposição semelhante à de outrora; senão de entregar colegas à prisão, pelo menos usar as redes sociais e os púlpitos para desmoralizá-los pelo simples fato de não esboçarem uma visão reacionária ou por não apoiarem o atual governo. Deixa-me perplexo ver homens que têm dado uma grande contribuição à evangelização do país sendo vítimas deste patrulhamento ideológico, execrados por companheiros que antes os apoiavam. Eu mesmo já recebi comentários inusitados em minhas páginas nas redes sociais. Fui chamado de patife, esquerdopata, herege; e o pior de tudo é que isso partiu de irmãos em Cristo. Eles apenas repetem exaustivamente o que ouvem de seus gurus e mentores espirituais. Se, de fato, almejamos dias melhores, temos que aprender a conviver com o contraditório, sem nos ressentir nem sair por aí ofendendo a quem quer que seja. Por favor, mais amor, menos rancor. 

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O Ato Institucional Número Cinco foi o quinto de uma série de decretos emitidos pelo regime militar nos anos seguintes ao Golpe militar de 1964 no Brasil. Redigido pelo Presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968, veio em represália à decisão da Câmara que se negara a conceder licença para que o deputado Márcio Moreira Alves fosse processado por um discurso pedindo ao povo brasileiro que boicotasse as festividades do dia 7 de setembro. Mas o decreto também vinha no correr de um rio de ambições, ações e declarações pelas quais a classe política fortaleceu a chamada linha dura do regime instituído pelo Golpe Militar. O Ato Institucional Número Cinco, ou AI-5, foi um instrumento de poder que deu ao regime poderes absolutos e cuja primeira consequência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano.

O AI-5 era o endurecimento do regime militar. A tortura tornou-se instrumento de política de Estado e a repressão entrou na sua fase mais violenta. Começava então o estranhamento entre o governo militar e a Igreja Católica, principalmente com o setor progressista, defensor da Teologia da Libertação, uma leitura da inspiração marxista do Evangelho. Aquele foi o único espaço que realmente encarou a ditadura. Até jovens evangélicos abandonados por suas igrejas encontraram apoio nos progressistas católicos. Diante do silêncio da maioria das igrejas evangélicas, para muitos seminaristas e pastores, a Igreja Católica tornou-se um grande guarda-chuva onde podiam se abrigar.

Em Volta Redonda, no sul do Estado do Rio de Janeiro, o pastor batista Geraldo Marcelo foi preso três vezes como agente da subversão, chegando a ficar 43 dias em poder dos militares. Ex-funcionário da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e membro do Conselho Fiscal do Sindicato dos Metalúrgicos, o religioso, hoje com 84 anos, superou os traumas e relembra dos cultos que realizava na cadeia: “Cinco companheiros se converteram e um deles hoje é pastor”, aponta. A mesma sorte não teve Anivaldo – preso em 1970, ele permaneceu 11 meses incomunicável no famigerado Departamento de Operações e Informações - Centro de Operações e Defesa Interna, o DOI-Codi, principal órgão de repressão do regime militar. Sofrendo torturas diárias, pensou em suicídio para não sucumbir à coação para entregar os amigos e irmãos de fé. “Eu pensava em me matar. A pressão era muito grande. Só que eu era forte – precisava de cinco, seis, para me torturar”, conta, ainda visivelmente comovido com as lembranças. “Foi pela ação de Deus que eu não morri. Eu me sentia como Jesus, querendo passar de mim aquele cálice de dor”.

Por sua vez, Anivaldo soube pelos torturadores que foi denunciado por um pastor e um bispo da Igreja Metodista. Mas a certeza só veio quando, anos depois, teve acesso à sua documentação nos arquivos da ditadura. “No meu processo está o bilhete que o pastor José Sucasas Junior e seu irmão, o bispo Isaías Sucasas, mandaram ao coronel Faustine, diretor do Serviço Nacional de Informações e presbiteriano, me entregando. Havia uma aliança implícita entre os setores conservadores da Igreja e os órgãos de repressão”, denuncia. A falta de registros históricos do período da ditadura pela Igreja Evangélica é uma das formas de não revelar seus paradoxos. A mesma denominação que o delatou também tinha setores que o apoiavam e à sua família. “Houve um bispo que tentou me visitar e não conseguiu. Igrejas oraram em atos de fé e coragem”.

Deduragem – Luiz Caetano Grecco Teixeira, também preso após o AI-5, lembra que a “deduragem era fenomenal” entre os crentes e até entre pastores e as próprias ovelhas. Ele conta que, numa reunião de oração de estudantes cristãos, uma então líder da Aliança Bíblica Universitária, a ABU – hoje, pregadora conhecida – entregou ativistas aos agentes da repressão que entraram no recinto. Entre eles, estava Mozart Noronha, que na época era crente presbiteriano e hoje é pastor luterano no Rio. O nome da mulher, Grecco não revela. “É um acerto de contas pessoal”, justifica.

Para ele, a partir de 1970 houve um desmonte da consciência política da Igreja Evangélica brasileira, movimento com influência americana: “Veio para cá o chamado grupo da Califórnia, da extrema direita protestante americana, uma organização com muito dinheiro.” A ação do movimento consistia em enviar ao Brasil professores de teologia e recursos para tocar projetos educacionais ligados a igrejas. “Era a direita se fortalecendo dentro da Igreja."

A partir dali, começou a falência da Escola Bíblica dominical e o fortalecimento do modelo eclesial americano”, avalia Gracco.Percival de Souza, que em 1968 era repórter do Jornal da Tarde, em São Paulo, foi duas vezes enquadrado na Lei de Segurança Nacional, acusado de jogar o povo contra os militares através de suas matérias. Denunciado na Justiça Militar, o jornalista diz que não recebeu nenhuma palavra de apoio da igreja a que pertencia: “Só não fui preso pelos desígnios divinos”, comenta.

Enquanto o regime prendia pessoas que sequer sabiam porque eram detidas, Percival lembra que movimentos extremistas de esquerda executavam sumariamente companheiros que consideravam ter práticas burguesas. Ele conta um episódio curioso: “Um casal de militantes comunistas foi repreendido simplesmente por cantar "parabéns pra você" no aniversário da filha”. Percival também faz questão de contar que Diógenes de Oliveira, que durante o regime pertencia ao movimento revolucionário, em 2001 foi acusado de fazer acordo com a polícia para não incomodar o jogo do bicho, em Porto Alegre (RS), quando era coordenador financeiro da campanha de Olívio Dutra à reeleição para o governo do Estado. “Escapamos da ditadura militar e entramos na ditadura da mediocridade, inclusive na Igreja”, conclui Percival.

Comissão da Verdade vai apontar religiosos que ajudaram a ditadura

A Comissão Nacional da Verdade criou um grupo para investigar padres, pastores e demais sacerdotes que colaboraram com a ditadura militar (1964-1985), bem como os que foram perseguidos. 

“Os que resistiram [à ditadura] são mais conhecidos do que os que colaboraram”, afirmou Paulo Sérgio Pinheiro, que é o coordenador desse grupo. “É muito importante refazer essa história." 

Ele falou que, de início, o apoio da Igreja Católica ao golpe de Estado “ficou mais visível”, mas ela rapidamente se colocou em uma “situação de crítica e resistência.” 

O bispo Carlos de Castro, presidente do Conselho de Pastores do Estado de São Paulo, admitiu que houve pastores que trabalharam como agentes do Dops, a polícia de repressão política da ditadura. Mas disse que nenhuma igreja apoiou oficialmente os militares. 

No ano passado, a imprensa divulgou o caso do pastor batista e capelão Roberto Pontuschka. De dia ele consolava os presos, falando sobre Deus, e à noite os torturava. Em maio deste ano, a Comissão de Anistia concedeu indenização ao evangélico Anivaldo Padilha, 72, que foi denunciado ao regime pelo bispo Isaías Fernando Sucasas e pastor José Sucasas Jr, da Igreja Metodista. Os sacerdotes desses casos já morreram. 

O batista Enéas Togninini, 97, é um religioso que ficou do lado da repressão militar. Ele chegou a pedir aos aos fiéis um dia jejum e oração ao regime. "Não me arrependo porque eles [os militares] fizeram um bom trabalho", disse ele recentemente à revista Istoé. "Salvaram a pátria do comunismo."

O novo grupo da Comissão da Verdade vai pesquisar documentos, depoimentos, teses e arquivos internacionais. O resultado desse trabalho será divulgado em um relatório final. 

"Podemos indicar elementos de igreja que trabalharam como informantes da ditadura, mas não condená-los", disse Pinheiro.

Pastor torturava à noite presos da ditadura e de dia falava da Bíblia

O pastor batista e capelão Roberto Pontuschka era um assíduo frequentador dos porões da ditadura militar (1964-1985). À noite ele torturava os presos políticos, no pau de arara, e de dia os consolava falando de Deus e lhes dava exemplares do Novo Testamento. Entre os presos, havia evangélicos, como o presbiteriano Rubem Cesar Fernandes, 68.

Fernandes foi preso em 1962 pelos policiais da Oban (Operação Bandeirantes) por ser militante estudantil. Ele disse ter sido dedurado por pastores por ser considerado “elemento perigoso”. Até hoje o antropólogo não se conforma: “Não é justificável usar o poder militar para prender irmãos”.

Outras histórias como a de Fernandes estão vindo à tona a partir do exame das cópias de documentação de tribunais militares que o CMI (Conselho Mundial de Igrejas), organização internacional ecumênica, acaba de repatriar ao Brasil. Mais de um milhão de páginas estavam protegidas em Chicago, no Center For Research Libraries. Sem que os militares suspeitassem, as cópias foram feitas quando os advogados dos presos retiravam dos tribunais os processos para examiná-los por 24 horas.

Os militantes de oposição à ditadura sempre acusaram as igrejas evangélicas de terem dado apoio à repressão, diferentemente da Igreja Católica de dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, que se colocou na linha de frente da resistência ao regime.

A documentação do CMI confirma a conivência institucional dos evangélicos.

Anivaldo Padilha foi torturado pela ditadura militar.

Padilha foi denunciadopor pastores metodistas

Anivaldo Padilha, hoje com 71 anos, foi denunciado pelo pastor José Sucasas Jr. e pelo bispo Isaías Fernandes Sucasas, ambos metodistas e já falecidos.

Padilha foi torturado por 20 dias no DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo entre fevereiro e março de 1970. Estava com 29 anos. Era metodista e estudava ciências sociais na USP (Universidade de São Paulo). O trauma quase o levou ao suicídio. Viveu 13 anos no exílio.

Preso em 1969, Leonildo Silveira Campos foi torturado por dez dias. Estava com 21 anos e era seminarista da Igreja Presbiteriana Independente. Hoje é teólogo e professor de ciências da religião na Umesp. Ele também não se esqueceu das “pregações” de Pontuschka, o pastor torturador.

Zwinglio Mota Dias, 70, hoje pastor emérito da IPU (Igreja Presbiteriana Unida do Brasil), foi expulso em 1962 do Seminário Presbiteriano de Campinas porque defendia que a salvação das almas passava pelas questões sociais. Outros 38 seminaristas foram expulsos.

Na Faculdade de Teologia de São Paulo, da Igreja Metodista, o pastor Boanerges Ribeiro, presidente na época da denominação, “convidou” alunos e professores a se retirarem.

Anivaldo Padilha afirmou que vários evangélicos colaboraram com a repressão, delataram irmãos e assumiram o discurso dos militares. “Eu acreditava ser impossível que alguém que se dedica a ser padre ou pastor, cuja função é proteger suas ovelhas, pudesse dedurar alguém.”

Ele contou que anos depois se encontrou com um de seus torturadores em um Carnaval e o perdoou. “O perdão, para mim, foi uma forma de exorcizar os demônios das torturas que me causaram pesadelos durante quase seis anos”.

Mas nem por isso os torturadores devem ficar impunes, disse.

“A punição deles é importante para resgatar a dignidade dos que foram torturados, da memória dos assassinados, das famílias que não puderam ainda sepultar seus membros desaparecido.”

Fontes: Wikipédia, Eclésia, Istoé e Blog do Paulo Lopes


domingo, março 28, 2021

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O DIA EM QUE JESUS FRUSTROU A EXPECTATIVA DE UM GOLPE


Por Hermes C. Fernandes

Havia uma expectativa no ar. Todos comentavam entre si que finalmente chegara o dia em que o Messias tão esperado adentraria triunfantemente em Jerusalém; dirigindo-se ao palácio, deporia Herodes, o rei fajuto, marionete do império romano. Um tal galileu surgira na periferia, fazendo milagres, exorcizando demônios, alimentando multidões. Além de tudo, tinha pedigree. Só poderia ser Ele, o filho de Davi, que libertaria Seu povo do domínio romano, e assumiria o trono do qual era herdeiro.

A cidade estava em polvorosa. Munidos de ramos, todos dirigiram-se ao portão principal para dar boas vindas ao que vinha em nome do Senhor. HOSANA! Os tempos áureos voltaram! Viva o Filho de Davi!

De repente, desponta no horizonte um figura doce, serena, montada num jumentinho. Seus discípulos O precediam e engrossavam os brados de hosana.

Acostumados em assistir às paradas triunfais, em que reis e generais se apresentavam montados em extravagantes corcéis, a imagem d’Aquele galileu montado num jumento era, no mínimo, frustrante. Mesmo sem entender direito o que acontecia, os brados de hosana se intensificavam. Talvez aquilo fosse um recurso cênico, visando identificá-lO com as camadas mais pobres e oprimidas da sociedade. Ninguém podia supor que o jumentinho era emprestado.

Ao atravessar o portão da cidade, todos imaginavam que Ele Se dirigiria ao palácio, liderando o povo para um golpe de estado, mas em vez disso, Ele toma o lado oposto, e Se dirige ao Templo.

Possivelmente muitos pensaram que Ele faria uma breve escala no templo, a fim de legitimar Seu motim, buscando apoio da casta sacerdotal.

Inusitadamente, Sua feição é transformada. O galileu humilde montado num burrinho, agora improvisa um chicote, adentra os pátios do templo, e de lá expulsa os cambistas e mercadores.

Confusão geral! Os brados de hosana foram substituídos por burburinhos. Todos estavam enganados em suas expectativas. Ele não estava interessado em ser unanimidade. Não buscava apoio dos sacerdotes, nem dos dos principais partidos religiosos.

O reino que Ele representava não propunha mudanças que começassem pelo palácio, mas pelo templo. A Casa de Seu Pai estava sendo profanada, transformada num mercadão a céu aberto. Antes de instaurar a ordem do reino, aquela “ordem” teria que ser subvertida. Mesas de pernas pro ar! Gaiolas abertas! Cambistas expulsos!

O mesmo Cristo do jumentinho é o Cristo do chicote. Não confunda Sua humildade com passividade. Ele jamais fez vista grossa às injustiças dos homens.

Depois de limpar o terreno, cegos e coxos Lhes são trazidos, e Ele os cura ali mesmo. De repente, o silêncio é quebrado por brados de hosana, que desta vez vinham dos lábios de crianças.

Os sacerdotes, indignados, perguntam se Ele não se incomoda com aquilo. Jesus responde: Vocês jamais leram? Da boca das crianças é que sai o mais puro louvor.

Repare nisso: Os hosanas bradados à entrada de Jerusalém não mereceram qualquer comentário de Jesus. Entretanto, Ele sai em defesa das crianças que O louvavam com a mesma expressão. Por quê? Porque estes eram legítimos, desprovidos de interesses. Os hosanas de quem O recepcionou à porta da cidade foram interrompidos, tão logo Jesus feriu seus interesses. Os mesmos lábios que O enalteciam, dias depois clamavam por sua crucificação. Quão volúveis somos nós, humanos. Num dia aplaudimos, noutro vaiamos. Quem hoje é unanimidade, amanhã é execrado. 

Aqueles O louvavam por imaginarem que Jesus planejava um golpe político, e que, em posse do trono, romperia relações com Roma, reduziria a carga tributária, e restabeleceria a monarquia de Davi. Mas Jesus tinha em mente outro tipo de revolução. Somente as crianças estavam prontas para isso. Naquele momento, Jesus Se tornou no super-herói da meninada.

Só Ele teve a coragem de desafiar o status quo. Só Ele ousou enfrentar os que detinham o monopólio religioso.

Enquanto as crianças O louvavam, os adultos, indignados, já pensavam em como detê-lO. Foi esta postura subversiva que Lhe custou a vida. Começava ali a contagem regressiva para que o Cristo subversivo fosse morto, não por defender uma ideologia, mas um ideal, o ideal do Reino de Deus.

Desde então, o grito de “hosana” deveria ter conotação subversiva, e não ser mais um jargão religioso. Que seja o hosana das crianças, dos representantes do futuro, aqueles para os quais é o reino dos céus, e não o hosana dos interesses inconfessáveis, do monopólio, da religiosidade insípida, do jogo político. É triste e revoltante ver tantos cristãos deixando seus cultos dominicais portando ramos nas mãos, sem com isso serem cúmplices de Deus na instauração do Seu reino.

Que a religião instituída desista de tentar domesticar Jesus. Que ninguém se atreva a reduzir Sua agenda às nossas expectativas e paixões ideológicas.

Aos líderes evangélicos que fazem coro com o que há de mais perverso no atual cenário brasileiro, antes de conclamarem o povo a jejuar pela manutenção desta agenda genocida, preparem-se para receber uma visita relâmpago de Jesus em suas próprias igrejas. Assim como os cambistas transformaram o pátio do templo num mercadão a céu aberto, muitos estão transformando a igreja em curral eleitoral. O Cristo que derruba mesas, também derruba púlpitos e altares. Então, antes de apontar seus dedos inquisidores para os de fora, tratem de parar de negociar o apoio de suas ovelhas a este desgoverno e induzi-las com seu discurso negacionista a se posicionarem contra as medidas preventivas que podem contem o avanço desta pandemia. Parem de articular na surdina, nos bastidores dos palácios, golpes contra o seu próprio povo. Lembrem-se de que o juízo de Deus sempre começa pela Sua própria casa, e ele será sem misericórdia com os que não usaram de misericórdia com os seus semelhantes. Como profetizado em Isaías 4:24, o que sucede ao povo, também sucede ao sacerdote. Ninguém está imune! Arrependam-se enquanto é tempo.

terça-feira, março 16, 2021

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O JEJUM DE MALAFAIA X O JEJUM BÍBLICO


Por Hermes C. Fernandes

O pastor Silas Malafaia e outras lideranças evangélicas vieram a público ao lado do presidente Jair Bolsonaro para convocar um jejum em favor da nação brasileira. Não é a primeira vez que isso acontece desde o início da pandemia. Em Abril do ano passado, Malafaia fez o mesmo apelo, afirmando que todas as previsões catastróficas acerca da pandemia não se cumpririam e que o Brasil viveria um tempo de prosperidade ímpar na sua história. Muitos atenderam àquela convocação, porém, o pior ainda estava por vir. Quase um ano se passou, e hoje, mais uma vez, o país bate o triste recorde de 2842 mortos pela COVID-19 em 24h. O que será que deu errado? Deus não atendeu ao jejum do seu povo? 

Primeiro, é preciso esclarecer que o jejum que Deus espera de nós não é a privação momentânea e espontânea de alimentos. Aliás, que sentido haveria em se convocar este tipo de jejum em um país onde milhões estão jejuando compulsoriamente por não ter o que comer? 

De acordo com o profeta Isaías, o jejum que Deus espera do Seu povo é “soltar as correntes da injustiça”, “libertar os oprimidos”, “partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu” e “não reusar ajuda ao próximo” (Isaías 58:6-7). 

De que adianta guardar o pão para comer mais tarde enquanto tantos não têm absolutamente nada para comer?

Este tipo de jejum chega a ser um insulto a Deus. Isaías diz que as pessoas jejuavam e questionavam o fato de não serem atendidas por Deus. Sua resposta é contundente: “Acontece que, no dia em que jejuam, vocês cuidam dos seus próprios interesses e oprimem os seus trabalhadores” (v.3).

O mesmo Silas Malafaia que convoca o povo evangélico para jejuar pela nação e pelo seu presidente, aparece em outro vídeo com Bolsonaro, afirmando que os trabalhadores do país têm direitos demais e que isso estaria atravancando a nossa economia. Agora, querem mesmo que Deus atenda ao nosso jejum mequetrefe? 

Confira a conclusão da exortação que Deus faz através do profeta Isaías:

“Então a luz de vocês romperá como a luz do alvorecer, e a sua cura brotará sem demora; a justiça irá adiante de vocês, e a glória do Senhor será a sua retaguarda. Então vocês pedirão ajuda, e o Senhor responderá; gritarão por socorro, e ele dirá: ‘Eis-me aqui.’” “Se tirarem do meio de vocês todo tipo de servidão, o dedo que ameaça e a linguagem ofensiva; se abrirem o seu coração aos famintos e socorrerem os aflitos, então a luz de vocês nascerá nas trevas, e a escuridão em que vocês se encontram será como a luz do meio-dia” (vv.8-10).

Alguém por favor envie este texto ao pastores que apoiam a este desgoverno que só abre a boca para ofender as vítimas e seus familiares, que é incapaz de se condoer e se solidarizar. O que este governo precisa agora não é de apoio em sua agenda genocida, mas de denúncia corajosa e contundente. Mas, infelizmente, os profetas de hoje estão vendidos. 

Quero fazer aqui um desafio aos meus companheiros de redes sociais. Proponho que façamos juntos o jejum recomendado por Deus: partilhar o nosso pão com os famintos. 

Se cada igreja brasileira se reunisse para distribuir cestas básicas nos bolsões de miséria deste país, milhões de famintos seriam saciados. ISTO SIM, SERIA O JEJUM QUE AGRADA A DEUS.
Durante toda a pandemia, temos assistido à comunidade no entorno do lixão de Jardim Gramacho. Mas, sinceramente, isso é tão pouco. Há tanto para ser feito. O Brasil voltou para o mapa da fome. Por isso, a partir deste mês, estaremos abraçando o desafio de distribuir cestas básicas para famílias de pelo menos sete comunidades diferentes na baixada fluminense, e zonas norte e oeste da cidade do Rio de Janeiro. Não temos reservas, nem tampouco recebemos ajuda governamental (não queremos!). Mas acreditamos na mobilização daqueles que têm sido tocados pelo evangelho do amor, independentemente de credo ou de classe social. Queremos, com isso, não apenas saciar a fome de centenas de famílias, mas também inspirar outras iniciativas pelo Brasil afora. Todos podem e devem contribuir. Este é o jejum que Deus espera de nós. Por mais difícil que esteja para cada um, há sempre algo a ser feito para atenuar a dor e o sofrimento do nosso próximo.

Se você quiser fazer parte desta corrente de amor, contribua como você puder. O desafio agora é muito maior do que antes. Em vez de uma comunidade, estaremos servindo a várias. No dia 27 de março, portanto, em apenas 10 dias, estaremos promovendo este Choque de Amor em sete comunidades diferentes. Vem com a gente? Topa jejuar? Abrir mão de parte do seu pão para alimentar a outros?

Há duas maneiras de contribuir: A primeira delas é levando sua contribuição em forma de mantimentos em uma de nossas congregações. A segunda é depositando ou fazendo uma transferência para as seguintes contas: BRADESCO, agência 0582 c/c 73784-4 em nome de Hermes Carvalho Fernandes, CPF 936.697.207-15 (chave do PIX: hermescfernandes@hotmail.com) ou ITAÚ, agência 0500 c/c 0055512719 em nome da REINA ou INVICTUS PRESS EDITORA, CNPJ e Chave do PIX: 26724214/0001-02.

Contra a onda do ódio e do negacionismo, somente uma tsunami de amor e solidariedade. 

Desde já, minha profunda gratidão a todos os que aceitarem o nosso desafio.

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

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MAIS UM GRANDE PASSO NA CONQUISTA DO COSMOS


Por Hermes C. Fernandes

Ontem, 18 de fevereiro de 2021, foi um dia importante para a conquista do espaço. Às 17:55h (horário de Brasília) o robô explorador Perseverance da Nasa pousou na superfície de Marte, depois de uma longa viagem que durou sete meses. A chegada, transmitida ao vivo pelas redes sociais da agência espacial, ocorreu na cratera de Jezero, local de pouso mais perigoso já tentado.

O objetivo da missão  é buscar vestígios de vida em um local do planeta que já foi um lago bilhões de anos atrás. Para isso, o robô carrega instrumentos que vão coletar amostras, observar a geologia e transformar dióxido de carbono em oxigênio para viabilizar uma missão com humanos no planeta. Essa conversão será um dos passos essenciais para a Nasa conseguir levar astronautas em uma missão tripulada no futuro.

Acoplado ao Perseverance também está o Ingenuity, um helicóptero de 1,8 kg com hélices que giram cerca de 8 vezes mais rápido do que um helicóptero comum.

O nome "perseverance" (perseverança em português) é bem sugestivo, já que a conquista do espaço exige mais do que avanço tecnológico. Para que cheguemos a cumprir nosso destino de colonizar outros planetas do sistema solar, há que se ter perseverança. 

Há cinquenta e um anos, o homem pisava pela primeira vez em solo lunar. Ao dar seus primeiros passos, Armstrong declarou: “Um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto para a humanidade”.

E ele estava certo.

Mas o que nos levou à Lua, afinal? Simples curiosidade científica? Não. Bem mais que isso.

Estávamos em plena guerra fria, e a competitividade entre as duas potências mundiais, Estados Unidos e União Soviética, foi o combustível que impulsionou o foguete da Apolo 11.

Fincar a bandeira americana, antes que os russos pusessem seus pés na Lua, era questão de honra para a NASA.

Já que a invasão da Baia dos Porcos em Cuba havia sido um fiasco, somente uma realização grandiosa e sem precedentes na História da humanidade, poderia lavar a honra da América diante da “ameaça comunista.”

Os russos já haviam colocado em órbita o primeiro satélite artificial doze anos antes. 1x0 para eles. Foi dos lábios de um cosmonauta russo, Iuri Gagarin, que no início nos anos 60 soubemos a Terra era azul. 2x0 em cima dos Estados Unidos.

Chegara a hora de dar uma virada no jogo.

Uma nave tripulada percorreu 384 mil Km, pousando na superfície da Lua, num espetáculo assistido ao vivo pela TV por mais de um bilhão e duzentos milhões de pessoas no Mundo inteiro.

Quem diria que um dia a raça humana seria capaz de tal proeza?

E não pára por aí. Somos seres insaciáveis. Não nos rendemos à imposição das fronteiras. Queremos sempre ir além.

Foi por isso que deixamos o velho mundo, e descobrimos o continente americano há cinco séculos. Por isso deixamos a África e conquistamos até as partes mais remotas e inóspitas do planeta.

Agora queremos pisar em Marte.

Imagine o espetáculo que será assistir a chegada do homem ao planeta vermelho, acompanhado de bilhões de internautas no Mundo!

E se a nossa raça sobreviver à adolescência tecnológica, vamos atravessar as fronteiras do Sistema Solar.

Desde que deixamos o Paraíso, tornamo-nos peregrinos na Terra.

Embora veja com bons olhos o avanço tecnológico, fico a me perguntar: o que será mais fácil e menos custoso do ponto de vista econômico, colocar nossos pés em Marte, o salvar nosso planeta de um colapso ambiental?

E mais:

Fomos capazes de ir tão longe, deixando pegadas na lua, mas temos sido incapazes de ir ao encontro do próximo, seguindo as pegadas de Cristo.

Uma nova aventura espacial custa muito caro, e até pode ser adiada. Mas reverter o processo autodestrutivo em que a humanidade se encontra é inadiável.

Além de lançar foguetes que alcancem o céu, que tal estendermos nossas mãos na direção do próximo. Foguetes se alimentam de hidrogênio, e gestos solidários são movidos pelo combustível do amor.

O mais significante passo que a humanidade poderia dar é na direção de Deus, e isso só é possível quando rompermos com nosso egoísmo, e caminharmos na direção do outro.

Lindo seria se chegássemos a Marte, e até a um planeta de fora do sistema solar, como representantes de uma civilização que venceu o ódio, o desamor, a injustiça, e agora estaria pronta para conquistar o Cosmos.

Em vez de içar a bandeira de uma nação, fincaríamos lá a bandeira da civilização do amor.

Quem sabe não fomos destinados a isso? Como disse Konstantin Tsiolkovsky: “A Terra é o berço da humanidade, mas ninguém pode viver no berço para sempre!”

Nasci no ano em que o homem pisou na lua pela primeira vez e espero viver o suficiente para vê-lo pisar em Marte.

#Perseverance