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sábado, fevereiro 16, 2019

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Deus das Esferas



Por Hermes C. Fernandes

Política e religião. Fé e Ciência. Igreja e Estado. Vida pública e vida privada. Há coisas que não se deve misturar; são como água e óleo. Pertencem a esferas diferentes. Toda vez que insistimos em misturá-las, a confusão é inevitável.

De acordo com o poema da criação, Deus determinou que houvesse separação “entre águas e águas”, isto é, “entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam sobre o firmamento” (Gênesis 1:6-7). Eram, portanto, duas esferas diferentes: Águas superiores e águas inferiores. Ainda que possuíssem a mesma composição química, duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio, essas águas deveriam se manter separadas.

Se o que Deus uniu, não separa o homem, o que dizer daquilo que o próprio Deus separou? Quem ousaria unir?

Ainda em Gênesis, deparamo-nos com a passagem que narra o episódio do Dilúvio. Poucos se atêm ao fato de que o dilúvio não foi causado apenas pelas chuvas, mas também pelo rompimento das reservas subterrâneas de águas. Pela primeira vez, a ordem determinada por Deus foi subvertida, e as águas antes separadas se mesclaram. “Naquele mesmo dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas dos céus se abriram” (Gênesis 7:11). Foi água para todo lado. Águas vindas de cima e águas vindas de baixo. O cataclismo só cessou quando “cerraram-se as fontes do abismo e as janelas dos céus” (Gênesis 8:2).

Apesar de tudo ter ocorrido sob as ordens do próprio Deus, o cataclismo foi fruto da rebelião humana que se configurou na junção carnal entre os seres angelicais e as filhas dos homens, que teria criado uma raça híbrida de gigantes conhecidos como Nefilins (Gênesis 6).

Não se pode unir o que Deus separou! Assim como não se deve separar o que Deus uniu.
Entretanto, as esferas devem coexistir respeitosamente, cada uma em seu quadrado. Convém salientar, porém, que mantê-las separadas não significa que não deva haver qualquer interação entre elas, sobre a qual falaremos adiante.

A igreja é, por assim dizer, uma sociedade fronteiriça, que vive a constante tensão entre dois mundos, o atual e o do porvir, bem como o secular e o sagrado, transitando livremente entre eles, porém, respeitando suas peculiaridades. Nada a impede de dialogar com a cultura, com a ciência, com a academia, e até com outras tradições religiosas. Diálogo implica caminho de mão dupla. Quem dialoga, tanto fala, quanto ouve. Tanta ensina, quanto aprende. Tanto dá, quanto recebe.

A igreja é como Acsa, filha de Calebe, que descontente com a terra seca que recebeu de herança, pediu que o pai lhe abençoasse, dando-lhe fontes de águas. Em resposta ao seu pedido, Calebe presenteou-a com “as fontes superiores e as fontes inferiores” (Juízes 1:12-15). Somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo  (Romanos 8:17).  Tudo quando Cristo recebeu do Pai, constitui-se também a nossa herança como filhos amados de Deus.  E o escritor de Hebreus afirma que Deus o constituiu “herdeiro de tudo” (Hebreus 1:2). Por isso, o apóstolo Paulo pôde declarar enfaticamente que tudo agora é nosso, “seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro” (1 Coríntios 3:21-23). Entretanto, tal qual aconteceu a Acsa, recebemos como herança “herdades assoladas”, e , de quebra, foi-nos confiada a missão de restaurarmos a terra (Isaías 49:8). Mas para tal, temos que recorrer às fontes, tanto as superiores, quanto as inferiores. Os recursos que nos são disponibilizados são incomensuráveis.

Quando digo igreja, não me refiro aqui à instituição cristã, ou mesmo a uma denominação específica, mas a um povo que recebeu de Deus a vocação de lançar os fundamentos de um novo mundo, que costumo chamar de civilização do reino de Deus. Um povo formado por quem não se conforma com as coisas como elas são, e anelam por um mundo mais justo e igualitário.

Nossa atuação não deve estar circunscrita à esfera religiosa, mas abarcar cada uma das esferas.  Porém, não podemos fazer uso desta prerrogativa para misturar as coisas. Não se pode, por exemplo, impor uma visão moral religiosa a um estado laico. Isso, naturalmente, não impede que um cristão viva plenamente a sua fé mesmo no campo político. Em vez de pautar-se na moral cristã, ele pautará sua atuação na ética e no bem comum, sem favorecer a instituição religiosa a que pertence.

Quando Jacó reuniu seus filhos para abençoá-los pouco antes de sua morte, o patriarca hebreu proferiu uma bênção especial para José, que poderia muito bem ser aplicada à igreja como um todo.

 “José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte; seus ramos correm sobre o muro. Os flecheiros lhe deram amargura, e o flecharam e odiaram. O seu arco, porém, susteve-se no forte, e os braços de suas mãos foram fortalecidos pelas mãos do Valente de Jacó (de onde é o pastor e a pedra de Israel). Pelo Deus de teu pai, o qual te ajudará, e pelo Todo-Poderoso, o qual te abençoará com bênçãos dos altos céus, com bênçãos do abismo que está embaixo, com bênçãos dos seios e da madre. As bênçãos de teu pai excederão as bênçãos de meus pais, até à extremidade dos outeiros eternos; elas estarão sobre a cabeça de José, e sobre o alto da cabeça do que foi separado de seus irmãos.” Gênesis 49:22-26

Quem não gostaria de receber “bênçãos dos altos céus” somadas às “bênçãos do abismo que está embaixo”? Não seria isso o cumprimento da promessa de Romanos 8:28 que diz que todas as coisas cooperam em conjunto para o bem dos que amam a Deus e são chamados segundo o Seu propósito? Mas para isso, temos que ser “ramos frutíferos junto à fonte”, como nossos ramos extrapolando os limites impostos pelos muros. Antes de ser bênção para o seu próprio povo, José foi bênção para o povo que o manteve como escravo, e posteriormente como preso sob acusação injusta.

Temos que romper com esta visão de gueto que nos fez reféns de uma subcultura restrita aos que entender nosso dialeto religioso. Não temos o direito de viver uma espiritualidade alienante, divorciada da realidade.

A exemplo da igreja primitiva que contava com a simpatia de todo o povo, é notavelmente possível vivermos uma espiritualidade que seja “agradável a Deus” e “aprovada aos homens.” Mas não enquanto nos ativermos a questiúnculas morais e de costumes. Bem faríamos se adotássemos a sábia postura de Paulo ao declarar: “Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nada é de si mesmo imundo a não ser para aquele que assim o considera; para esse é imundo. Pois, se pela tua comida se entristece teu irmão, já não andas segundo o amor. Não faças perecer por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu. Não seja pois censurado o vosso bem; porque o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo. Pois quem nisso serve a Cristo agradável é a Deus e aceito aos homens. Assim, pois, sigamos as coisas que servem para a paz e as que contribuem para a edificação mútua” (Romanos 14:14-19). Se naquela época, cristãos infantilizados brigavam por questões dietéticas, hoje brigamos por questões ainda mais banais que dizem respeito à vida privada de cada um.

Creio que a figura arquetípica da Nova Jerusalém poderia nos ajudar a compreender a maneira como deveríamos nos posicionar com relação às coisas relativas às esferas inferiores. Digo inferiores, não no sentido de serem menos importantes que as demais, mas por estarem ligadas a esta vida terrena, sujeitas, portanto, a se desgastarem com o passar do tempo.

O vidente João nos relata que viu “a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido” (Apocalipse 21:2). Repare nisso: a origem desta cidade é celestial. Ela desce do céu. Ela pertence às fontes superiores. Ela é um tipo da igreja. Por isso, João a chama de “esposa do Cordeiro.” Cristo não se casaria com muros, tijolos, paredes. Sua esposa somos nós, Sua igreja, Seu povo.

Apesar de manter-se pura, “ataviada”, é-nos dito que “as nações andarão à sua luz; e os reis da terra TRARÃO PARA ELA a sua glória. AS SUAS PORTAS NÃO SE FECHARÃO de dia, e noite ali não haverá; e a ela trarão a glória e a honra das nações. E não entrará nela coisa alguma impura, nem o que pratica abominação ou mentira; mas somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Apocalipse 21:24-27).

De que “glória das nações” o texto está falando? A resposta está Isaías 60:11, onde esta promessa já havia sido feita anteriormente. Ali lemos que as portas da cidade estariam abertas de contínuo para que lhe fossem trazidas “as riquezas das nações.” Resta saber que riquezas seriam essas.  Recuso-me a crer que sejam insumos ou bens de consumo. Prefiro acreditar tratar-se de riquezas culturais, produzidas pelos povos ao longo das eras.

Então, como conciliar a promessa de que as riquezas das nações seriam introduzidas na cidade santa com a promessa de que ali não entraria coisa impura? Não seria isso o mesmo que misturar as águas inferiores com as águas superiores?

Desde criança ouço pregadores alarmarem os fiéis acerca da infiltração do mundanismo na igreja. Como evitar isso? Teríamos que nos trancafiar em nosso reduto eclesiástico? Teríamos que viver como os Amish[1]? Teríamos que nos abster de qualquer manifestação cultural? Penso que muitos confundem santificação com alienação. Apesar de Deus ter estabelecido uma separação entre as águas superiores e inferiores, não podemos ignorar que haja uma contínua troca entre elas que é conhecida por ciclo da água.  Conhecido cientificamente como o ciclo hidrológico, o ciclo da água refere-se à troca contínua de água na hidrosfera, entre a atmosfera, a água do solo, águas superficiais, subterrâneas e das plantas. Através de um processo lento e quase imperceptível, a água se evapora, formando nuvens que posteriormente a devolvem ao solo através da chuva. Não importa quão sujas essas águas possam estar, a evaporação se encarregará de purifica-las. A lama, a sujeira, os dejetos, não sobem com ela. Por isso, pode-se beber da água da chuva sem receio.

De modo análogo, as culturas produzidas neste mundo podem ser introduzidas na civilização do reino de Deus, sem levar consigo as impurezas que as acompanham. Foi sobre este processo que Paulo falou ao nos advertir a examinar de tudo, retendo somente o que for bom (1 Tessalonicenses 5:21).

Duas coisas precisam ser observadas:

1. Não se deve comprar pacotes fechados. Antes, deve-se examinar item por item, descartando o que não for compatível com os princípios do amor e da justiça.

2. Não se deve jogar fora a criança com a água do banho. Cada cultura revela rastros da graça de Deus ao mesmo tempo em que traz traços de nossa condição pecaminosa de egoísmo e hedonismo.

Recentemente, postei em minhas redes sociais acerca da minha experiência com a acupuntura, depois de ter sofrido por sete meses de uma crise de coluna que afetou meu nervo ciático. Alguém resolveu comentar em meu post, afirmando que tal prática seria demoníaca, pois estaria associada a invocação de espíritos ancestrais e crenças místicas orientais. Respondi que vejo muito mais de demoníaco na indústria farmacêutica ocidental que cria doenças em laboratórios para depois oferecer tratamento, que mantém patentes de remédios para cobrar por eles o quanto quiser, mesmo sabendo que há vidas que dependem de seu uso.

A acupuntura foi declarada Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade pela Unesco em 2010.  Assim como esta prática milenar da medicina chinesa, há outras, como a homeopatia, que se enquadram perfeitamente no que podemos chamar de “riquezas das nações.”

E o que dizer das danças, do folclore, da música, das festas, da culinária, e de tanta coisa bela que tem sido produzida pelos povos ao longo de sua história?

Não creio que a sociedade pela qual anelamos seja uniformizada. Somente a multiforme graça de Deus, bem como Sua multiforme sabedoria, poderiam nos patrocinar a emergência de uma sociedade justa e diversificada, onde cada etnia possa viver pacificamente sem ter que abrir mão da beleza de suas tradições.

O que nos impede de enxergar isso é que desconhecemos a abrangência da obra de Cristo, limitando-a às questões relativas à vida eterna.

Paulo nos conta que Deus nos desvendou o mistério de sua vontade, “de fazer convergir em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:9-10).

N’Ele, a realidade foi reunificada. Porém, trata-se de uma unidade que preserva a diversidade. As fontes superiores trabalham em conjunto com as fontes inferiores. O Espírito que sopra dentro da igreja, sopra também lá fora, e ninguém sabe de onde vem, nem para onde vai. Ele é livre. O mesmo que inspira canções de louvor entre o Seu povo, também inspira profetas seculares para que expressem a angústia e anelo da criação.

Cristo é o ponto de convergência entre as coisas sagradas e as seculares, entre as coisas celestiais e as terrenas, entre as espirituais e as materiais, entre as objetivas e as subjetivas, entre a vivência comunitária e a individualidade, entre a santidade e a autenticidade.

Outro ponto interessante da descrição da cidade santa é a sua completa ausência de templos (Apocalipse 21:22). É-nos dito que o Cordeiro é o seu santuário. Fica claro que não se trata de uma sociedade religiosa, mas secular, o que não significa que perde a sua sacralidade, mas que a resgata plenamente. Agora, em Cristo, todas as coisas foram santificadas, e não apenas umas em detrimento de outras. N’Ele se reúnem todas as fontes, superiores e inferiores. Por isso, o salmista diz: “Todas as minhas fontes estão em ti” (Salmos 87:7). Nada restou fora d’Ele. Como bem disse Paulo citando os filósofos estoicos: “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois dele também somos geração”(Atos 17:28). Cristo, portanto, encerra em Si mesmo toda a realidade.

Já sabemos por analogia a maneira como as águas inferiores são remetidas às esferas celestiais. Agora precisamos entender como as águas superiores são remetidas às esferas terrenas.

Há quem creia que o mundo necessite de uma enxurrada da verdade. Mas ouso dizer que Deus tenha outros planos. Em vez de chuvaréu, garoa. Em vez de uma inundação semelhante ao dilúvio, um orvalho suave que regue a terra calmamente sem fazer estragos. Ou não é isso que vemos em Deuteronômio 32:1-2?

 “Inclinai os ouvidos, ó céus, e falarei; e ouça a terra as palavras da minha boca. Caia como a chuva a minha doutrina; destile a minha palavra como o orvalho, como chuvisco sobre a erva e como chuvas sobre a relva.”

Será assim que a vontade de Deus feita no céu, será finalmente concretizada na terra. Sem alardes. Sem megafones. Sem gritos.  Como disse Isaías acerca do Messias: “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios. Não clamará, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na praça” (Isaías 42:1,2).

Não será por força, por imposição, por violência, pela espada, nem pela canetada, mas exclusivamente pelo convencimento do Espírito, pela iluminação e expansão da consciência (Zacarias 4:6).



[1] Amish é um grupo religioso cristão anabatista baseado nos Estados Unidos e Canadá. São conhecidos por seus costumes conservadores, como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis.

sexta-feira, junho 17, 2016

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O INCONSCIENTE COLETIVO E O SURGIMENTO DA KOINOSFERA - Um encontro épico entre Jung, Freud, Darwin, Bauman e Paulo




Por Hermes C. Fernandes 

A teoria da Noosfera foi originalmente desenvolvida pelo geoquímico russo Vladimir Vernadsky, e refere-se à esfera do pensamento humano. O termo tem origem no vocábulo grego “nous” que significa mente. De acordo com esta teoria, a noosfera seria a terceira etapa do desenvolvimento da Terra, precedida pela geosfera (matéria inanimada) e pela biosfera (vida biológica). Assim como o surgimento da vida provocou mudanças significativas na geosfera, o surgimento do conhecimento humano também alterou a biosfera. 

Este conceito foi ampliado pelo teólogo cristão e paleontólogo francês Teilhard de Chardin, segundo o qual a Noosfera seria o próximo degrau evolutivo do mundo em que emergiria uma espécie de cérebro planetário ou superconsciência, onde todas as mentes estariam interligadas, de maneira análoga aos computadores conectados à internet. Essa mudança caracterizaria a próxima Era Geológica denominada “Psicozoica”. Chardin buscava conciliar a teologia cristã com a evolução de Darwin. Para o padre jesuíta, Deus conduziu todo o processo evolutivo, desde o caos primordial até o despertar da consciência humana sobre a Terra, estágio que deverá ser sucedido por uma Noogênese, que seria a integração de todo o pensamento humano numa única rede inteligente que cobriria todo o planeta. É a esta camada que ele chama de Noosfera. Na vanguarda de todo este processo existiria uma força que agiria a partir de dentro da matéria, orientando a evolução em direção a um ponto de convergência chamado de Ponto Ômega, que ele identifica como sendo o próprio Cristo. 

Carl Jung, psiquiatra suíço, conhecido como o pai da psicologia analítica, defendia a existência de um inconsciente coletivo, que seria a camada mais profunda da psique. Para compreendermos o que seria o inconsciente coletivo, temos que entender o que é o inconsciente. De acordo com Sigmund Freud, o inconsciente seria a região da psique onde encontramos o que foi recalcado, escondido, esquecido. Tudo o que foi vivido, porém, esquecido, está lá armazenado. Às vezes, reaparece através dos sonhos, dos chamados atos falhos e até dos sintomas físicos ou psíquicos. Para o pai da psicanálise, o que chamamos de consciência seria apenas a ponta de um iceberg. O inconsciente seria a parte submersa. O inconsciente não seria apenas o porão da psique, mas as bases, os alicerces sobre os quais a consciência é erigida. 

Já o Inconsciente Coletivo não representa o que fora vivido pelo indivíduo, mas pela a humanidade como um todo. É o resíduo psíquico da evolução do homem, acumulado em consequência de experiências repetidas por várias gerações. Os arquétipos são os componentes estruturais do Inconsciente Coletivo. Um arquétipo é uma forma de pensamento universal com imagens que podem ser transmitidas hereditariamente como uma espécie de memória genética. Ao perceber que a transmissão de conteúdos psíquicos por hereditariedade não poderia ser comprovada cientificamente, Jung sugeriu que os arquétipos não seriam propriamente imagens, mas tão-somente a predisposição da psique de gerar certas imagens. Os arquétipos, portanto, seriam estruturais psíquicas herdadas que, ao serem preenchidas com as memórias e percepções do próprio indivíduo, desencadeariam a formação de determinadas imagens. Assim, a forma seria universal, porém, o conteúdo seria específico de cada indivíduo. 

Há uma conexão profunda entre os pensamentos de Jung e de Chardin. Ambos acreditavam no poder exercido pelo futuro sobre a mente humana. Enquanto para Freud, tudo poderia ser explicado a partir do passado, para Jung, o presente não seria determinado apenas pelo passado (causalidade), mas também pelo futuro (teleologia). Algo bem parecido com a ideia de um Ponto Ômega em Chardin, que nos atrai na direção do porvir. Em ambos, o destino do ser humano é essencialmente guiado pelo alvo. Digamos que o passado tenha sido apenas o arco que arremessou a flecha. Mas o arqueiro não o fez a ermo. Em Jung, a personalidade deve ser compreendida em termos do seu destino, e não de sua origem apenas. 

Em seu livro “Estudos sobre Psicologia Analítica”, Jung escreve: 
“Se o material psíquico acumulado no inconsciente individual pode ser alçado à consciência, não é demais acreditar que o mesmo se dê com o inconsciente coletivo.” 
Ora, não seria de se esperar que se emergisse uma consciência coletiva? Não seria esta a Noosfera defendida por Chardin? Tanto Jung, quanto Chardin eram cristãos. Jung, de origem protestante, filho de pastor. Chardin, sacerdote jesuíta. Não se pode, portanto, negar a influência do pensamento cristão nestes dois gigantes do século XX. Ambos tentaram compreender o fenômeno da espiritualidade a partir de uma abordagem que se pretendia científica. 

Haveria nas Escrituras algum indício de que o Criador pretenda conduzir-nos a um novo degrau de evolução? Poderíamos encontrar em suas páginas algo acerca do surgimento de uma Noosfera? 

Antes de prosseguir em nossa investigação sobre o tema, proponho uma digressão. Estamos entrando no terreno sagrado da subjetividade. Portanto, sugiro que descalcemos nossos pés de toda e qualquer presunção. Sigamos à risca a recomendação de Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” 

Nenhuma teoria, por mais elaborada que seja, tem a palavra final quando se trata da alma humana. Por isso, nossas sandálias não nos servem aqui. Quando Moisés apascentava o rebanho de seu sogro no deserto, teve uma visão em que um arbusto se incendiava, porém, não se consumia. Suas folhas e ramos permaneciam intactos. O inusitado fenômeno fisgou sua atenção, de modo que não resistiu à curiosidade e resolveu se aproximar para conferir. Provavelmente, Moisés se perguntou se aquilo seria real ou apenas fruto de sua imaginação. De repente, do meio da sarça ouviu-se uma misteriosa voz: “Não te chegues para cá; tira as sandálias de teus pés; porque o lugar em que pisas é terra santa.”[1] 

O que Deus queria dizer com “terra santa”? Será que se tratava de um território demarcado pela divindade? Se fosse este o caso, por que Moisés, a exemplo do que fizeram outros patriarcas hebreus, não edificou ali um altar? Era de se esperar, uma vez que a voz se apresentou como sendo o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, seus ancestrais. Talvez até lhe tenha ocorrido a ideia. Porém, o restante da fala de Deus fê-lo perceber que a o território sagrado a que se referia era outro e não uma localização geográfica específica. Observe: 
“Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores. Portanto desci para livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra, a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel.” Êxodo 3:7-8a 
O Deus dos patriarcas não abandonara Seu povo à própria sorte. Pelo contrário. Ele observava atentamente a sua aflição sob o regime escravagista imposto pelos egípcios. Se ficasse só na observação, Deus não passaria de um voyeur sádico assistindo apático ao desenrolar da trama humana. Ele diz que também ouvia o clamor dos hebreus. Mas também não era suficiente ver e ouvir. Não bastaria nem mesmo ser empático. Ele declara conhecer as suas dores. Por isso, resolveu dar um passo além, descendo para livrá-los. Imagine: uma divindade que desce, que se rebaixa, que pisa o chão da existência, só para intervir em favor do Seu povo. Isso é mais do que empatia, é compaixão. E repare que Ele desce para fazê-los subir. Terra santa é todo solo onde Deus resolve pisar. Terra santa é toda causa que Ele decide assumir. Terra santa é a alteridade, a subjetividade com suas idiossincrasias. Contrariando Sartre, o existencialista francês, o outro não é o inferno, mas um terreno sagrado. 

O Deus revelado nas Escrituras não é uma divindade apática, que se mantém distante do dilema humano. Em vez disso, mergulha de cabeça na existência, intervindo para livrar Sua criação e elevá-la juntamente com Ele. 

Moisés estava sendo comissionado a participar desta intervenção divina, servindo-lhe de porta-voz. Sua experiência como príncipe do Egito não lhe serviria. Ele teria pisar descalço nesse solo sagrado. 

Descalçar os pés também aponta para vulnerabilidade de nossa condição humana. Somos chamados a abraçar esta condição, sem nos proteger. Chamados a conhecer a dor humana em toda a sua intensidade. Parafraseando Caetano Veloso, somos enviados ao mundo como Moisés a Faraó, para conhecer in loco com cada um a dor e a delícia de ser o que é. 

Não há aqui lugar para presunção, nem precaução desmedida. Quem está na chuva é para se molhar. O calçar as sandálias da preparação do evangelho da paz conforme recomendado por Paulo[2] é justamente descalçar-se, engrossando assim o número de paradoxos encontrado nos evangelhos e epístolas. Paradoxos do tipo o menor será o maior, os últimos serão os primeiros, quando se está fraco é que se é forte, o poder se aperfeiçoa na fraqueza, quem quiser salvar-se acabará se perdendo e quem se deixar perder acabará se salvando, etc. 

A palavra ouvida por Moisés naquele dia só viria a se cumprir cabalmente quando Deus Se fizesse um de nós na pessoa de Seu Filho Jesus Cristo. Paulo nos retrata isso no processo que a teologia chama de Kenósis [3]

“Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, completai a minha alegria, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” Filipenses 2:1-8 

Assim como Moisés, o Filho de Deus também teve que se descalçar para experimentar a condição humana. Talvez por isso, ao vê-lo vir ao seu encontro para ser batizado, João Batista tenha dito que não era digno de desatar Suas sandálias. Foi a partir daí que Ele iniciou Seu ministério terreno. 

Paulo toma a Kenósis de Cristo como uma convocação a que também a experimentemos. Somos chamados a descalçar os pés e a pisar no solo sagrado da subjetividade, que inclui tanto a consciência, quanto o inconsciente. Nossos pressupostos, preconceitos, técnicas, teorias, presunções, devem ser postos de lado para não comprometer nossa abordagem. Repare bem na recomendação do apóstolo: “Se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões...” O que nos oferece conforto nesta empreitada é a certeza de Sua companhia. Não estamos sós. É a Sua presença que torna sagrado o terreno em que pisamos. É a convicção de que somos amados que nos consola. É o Seu Espírito que possibilita a comunhão entre nós e os demais. Ele pavimenta o caminho que nos faz acessar o outro. Comunhão é koinonia, palavra grega que significa “ter algo em comum”. Esta comunhão patrocinada pelo Espírito provoca em nós o que Paulo chama de “entranháveis afetos”; isto é, somos intimamente afetados por aquilo que afeta os demais. Não apenas vemos e ouvimos, mas também participamos da sua dor. Não é algo de pele, superficial, mas visceral. 

Acho que nesta passagem, Paulo vai mais longe do que Chardin. Em vez de uma noosfera, que seria, por definição, uma esfera de pensamentos, o apóstolo nos propõe o que eu ousaria chamar de koinosfera: uma esfera onde todas as coisas inerentes à nossa condição humana se tornem comuns, a começar pelos sentimentos. Como bem disse Jung, “quando pensamos, fazêmo-lo com o fim de julgar ou chegar a uma conclusão; quando sentimos, é para atribuir um valor pessoal a qualquer coisa que fazemos.” 

Não se trata apenas de saber o que o outro sabe, de crer no que o outro crê, mas de sentir o que o outro sente. Isso só é possível quando nos abrimos ao mesmo sentimento que houve em Cristo, que sendo em forma de Deus, preferiu rebaixar-se à condição humana, esvaziando-se por completo. Ele desceu todos os degraus, fazendo-se escravo desprovido de qualquer direito, entregando-se para morrer como um meliante, mesmo sem jamais ter cometido nada que o fizesse merecer aquilo. 

Um sentimento oceânico 

A experiência kenótica nos possibilitaria provar daquele “sentimento oceânico” a que se refere Freud em seu famoso livro “O Mal-estar na Civilização”. Mesmo admitindo jamais tê-lo sentido, o médico austríaco diz que “nosso presente sentimento do ego não passa [...] de apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo - na verdade, totalmente abrangente -, que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca. Supondo que há muitas pessoas em cuja vida mental esse sentimento primário do ego persistiu em maior ou menor grau, ele existiria nelas ao lado do sentimento do ego mais estrito e mais nitidamente demarcado da maturidade, como uma espécie de correspondente seu. Nesse caso, o conteúdo ideacional a ele apropriado seria exatamente o de ilimitabilidade e o de um vínculo com o universo – [...] o sentimento oceânico.”[4] Ele chama tal sentimento de “sensação de eternidade”, algo ilimitado, sem fronteiras, de vinculação indissolúvel, de comunhão com todo o mundo exterior que apenas alguns seres humanos experimentam. Freud aponta este sentimento como a fonte da religiosidade. Seria, ainda, uma percepção intelectual provida de certa afetividade. Talvez por jamais tê-lo experimentado, ainda que não ousasse questioná-lo nos outros, Freud julgava que tal sentimento seria apenas uma forma de consolo, um mecanismo psicológico que busca negar os perigos e ameaças do mundo externo. 

Esvaziar-se de toda e qualquer presunção é condição sine qua non para experimentar este sentimento oceânico, esta conexão com o todo e, sobretudo, com o Criador. Não é algo sobre o que se possa especular. Há que se experimentar. 

A contribuição da Neurociência: Os neurônios-espelho e a empatia 

Descobertos acidentalmente, os neurônios-espelho têm sido considerados um dos mais importantes achados das neurociências dos últimos tempos. Há quem ouse dizer que essas células farão pela psicologia o que o DNA fez pela biologia. Outros comparam a importância desses estudos aos das células-tronco. O cérebro tem cerca de 100 bilhões de neurônios - dos quais apenas 5% são espelhos. Apesar de proporcionalmente não serem tantos, respondem por muito do que somos. 

Era 1994, os neurocientistas Giacomo Rizzolatti, Leonardo Fogassi e Vittorio Gallese da Universidade de Parma, na Itália, conduziam um experimento com um macaco, em que instalaram fios numa área do cérebro responsável pelos movimentos. Sempre que o macaco pegava ou movia um objeto, determinadas células cerebrais disparavam. O monitor em que os eletrodos estavam ligados registrava a área de localização desses neurônios e emitia um sinal sonoro. Quando um aluno de pós-graduação entrou no laboratório com uma casquinha de sorvete na mão, o macaco olhou fixamente para ele e, em seguida, algo inusitado aconteceu: quando o estudante levou a casquinha aos lábios, o monitor apitou novamente – mesmo o macaco não tendo feito qualquer movimento, mas apenas observado o aluno. A cena voltou a se repetir com outros alimentos, como amendoins e bananas. Portanto, a resposta de seus neurônios-espelhos só podia vir da ação de outra pessoa. Os cientistas perceberam que as células cerebrais disparavam quando o macaco via ou ouvia alguém fazer algo ou, ainda, quando ele mesmo realizava uma tarefa. Assim chegaram às primeiras conclusões sobre a capacidade dos neurônios-espelhos. Mais tarde, exames de neuroimagem mostraram que os seres humanos têm neurônios-espelho muito mais sofisticados e flexíveis que os dos macacos. 

As pesquisas apontaram que os neurônios-espelho teriam, entre outras coisas, a propriedade de simular a perspectiva do outro. Portanto, eles seriam os responsáveis pela empatia, função que nos habilita a compreender as circunstâncias nas quais o outro se encontra, gerando sentimentos recíprocos tais como a solidariedade e o desejo de compartilhar experiências. A empatia é o aquele sentimento que nos faz enxergar a nós mesmos no outro. Não poderia haver melhor nomenclatura para esses neurônios do que neurônios-espelho. 

O que nos leva a sorrir quando vemos alguém sorrir? E a bocejar quando alguém boceja próximo de nós? Ou a nos emocionar ao flagrar alguém chorando? Empatia. Nosso cérebro funcionaria como um simulador de ação. Mesmo que não conscientemente (implícita, no jargão das ciências cognitivas), imitamos mentalmente qualquer ação que observamos. Quando duas pessoas estão sentadas numa mesa de restaurante, uma tende a copiar a postura da outra. O mais interessante é que isso não acontece somente em termos de linguagem corporal, mas emocional também. Temos a tendência de sentir as mesmas emoções que uma pessoa próxima de nós. Isso se deve à atuação dos neurônios-espelho distribuídos pelas partes essenciais do cérebro, como o córtex pré-motor e os centros de linguagem, empatia e dor [5]. Nosso cérebro reproduz o padrão neural da emoção sugerida pelas expressões faciais e até os movimentos corporais.[6] 

Segundo o pesquisador húngaro Gergely Csibra, do Departamento de Psicologia do Birkbeck College, no Reino Unido,[7] o papel dos neurônios-espelho talvez não seja exatamente o de espelhar ou simular a ação, mas o de antecipar as possíveis respostas a essa ação. O cérebro seria, portanto, um grande gerador de hipóteses que antecipa as consequências da ação, facilitando a tomada de decisão. Esta capacidade nos possibilitaria imaginar o que se passa na mente do outro, colocando-nos em seu lugar e compreendendo suas ações. De modo que, se vemos alguém chorar por qualquer que seja o motivo, os neurônios-espelho nos fazem lembrar de situações em que nós mesmos choramos, e assim, simulamos a sua própria aflição. É justamente esta capacidade de simular a perspectiva do outro que se constitui na base de nossa compreensão de suas emoções. 

Os experimentos com neurônios-espelho parecem contrariar a ideia de que as decisões morais seriam de natureza cognitiva, envolvendo um pensamento moral. Os comportamentos morais teriam um forte traço afetivo, posto serem frutos da capacidade que o indivíduo tem de sentir as emoções do outro. Não aprendemos os valores morais apenas por compreendê-los racionalmente, mas por sermos sentimentalmente educados. 

Os neurônios-espelho nos permitiriam captar a mente dos outros não por meio do raciocínio conceitual, mas pela simulação direta. Sentindo e não apenas pensando.

Sem dúvida, é graças a tal capacidade que podemos estabelecer relações sociais. Predizer as emoções do outro é essencial para um comportamento socialmente aceitável. Isso evita que cometamos atos que sejam dolorosos ou prejudiciais ao nosso semelhante. 

Convém salientar, entretanto, que as bases neuronais da empatia não diminui em nada o valor do sentimento, mas tão-somente nos ajuda a entender um pouco melhor a nossa condição humana. Assim como aprender a ler pautas musicais não interfere em nossa apreciação de uma bela composição. O Criador nos equipou com todos os itens de fábrica necessários para que vivêssemos plenamente nossa humanidade. Pena que ultimamente a impressão que se tem é de que alguns estejam com o espelho embaçado pelo vapor de seu próprio discurso. 

Para além da empatia 

O evangelho nos propõe dar um passo além da empatia. Digamos, para fins didáticos, que empatia seria o equivalente a calçar as sandálias do outro. Compaixão é descalçar-se para pisar o mesmo chão. A empatia nos faz entender o que o outro passa. A compaixão nos faz sentir o que o outro sente. Por que não basta calçar as sandálias do outro? Por que a empatia não é suficiente? Talvez Jung tenha a resposta: “Uns sapatos que ficam bem numa pessoa são pequenos para uma outra; não existe uma receita para a vida que sirva para todos.” 

Nunca daremos conta de entender plenamente o outro. O outro é, por assim dizer, incognoscível. Um mistério que só é superado pelo mysterium tremendum: Deus! Qualquer tentativa neste sentido constitui-se numa profanação de um território sagrado. Portanto, resta-nos uma abordagem reverente que busque sintonizar-nos com os seus sentimentos, ainda que não logremos decodificá-los. E aqui, faço coro com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman que em seu livro “Modernidade Líquida” diz: “Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas.” 

O amor derramado profusamente em nossos corações através da concessão do Espírito Santo[8] nos habilita a estar conectados uns aos outros num nível que jamais teria sido possível de outra maneira. No dizer do apóstolo, temos agora a mente de Cristo.[9] Estamos aptos a ver o que nossos olhos não viram, a ouvir o que nossos ouvidos jamais ouviram e a sentir o que teve origem no coração de Deus e daqueles que com Ele estão conectados pelo Espírito.[10] Comunhão! Esta é a palavra. Infelizmente, o seu significado ficou restrito ao relacionamento entre Deus e o homem. Porém, o mesmo apóstolo que disse que “nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo”[11], também afirmou que “o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco”, e que “se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros.”[12] Obviamente, esta comunhão é possibilitada quando compartilhamos o evangelho com os demais. Porém, ela não para aí. Não se trata de partilhar sua fé apenas. Paulo escreve aos Tessalonicenses que estes lhes eram tão afeiçoados, que de boa vontade ele queria partilhar-lhes não somente o evangelho, mas a sua própria alma.[13] 

Quando partilhamos o evangelho, tudo quanto queremos é que as pessoas sejam partícipes da mesma alegria que nos invadiu a alma no momento em que ouvimos a boa nova. Porém, antes de apresentar-lhes a razão de nossa esperança, devemos nos abrir a receber deles a razão de sua angústia. Comunhão é uma via de mão dupla. 

Repare, por exemplo, na recomendação do escritor sagrado: 
“Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, dos maltratados, como sendo-o vós mesmos também no corpo.” Hebreus 13:3 
Não basta uma simples lembrança. Isso seria muito raso. Devemos, antes, nos imaginar presos e maltratados juntamente com eles. Enquanto não nos dispusermos a sentir suas dores, não poderemos compartilhar-lhes nossa alegria. E com isso, nossa alegria jamais será plena. Ou não é isso que Paulo diz na passagem em que aborda a Kenósis de Cristo? Ao mencionar os tais“afetos entranháveis”, ele arremata: “Completai a minha alegria, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa.” E um pouco abaixo, ele diz: “Não atente cada um somente para o que é seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus.”[14] 

Este era o padrão seguido pelos cristãos primitivos, que em vez de estarem preocupados com o que possuíam, preocupavam-se com o que podiam repartir com os demais. Não por uma imposição dos apóstolos, mas por nutrirem uns pelos outros o mesmo sentimento que houve em seu mestre. Lucas, o evangelista, dá testemunho disso em seu relato: 
“Era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas eram compartilhadas.” Atos 4:32 
Ninguém era obrigado a nada. Tudo era feito com absoluta espontaneidade, uma vez que o evangelho não trabalha com imposição. Algo compulsório não poderia ser fruto de uma consciência constrangida pelo amor. Lembremo-nos de que “o amor de Cristo nos constrange”[15], de modo que não desejamos mais viver para nós mesmos. 

Foi este amor que fez com que os gálatas acolhessem a Paulo num dos momentos mais críticos de sua vida, quando estava acometido de uma enfermidade nos olhos, talvez até contagiosa. Repare a intensidade de seu relato: 
“E vós sabeis que primeiro vos anunciei o evangelho estando em fraqueza da carne. Embora minha enfermidade na carne vos fosse uma tentação, não me rejeitastes nem me desprezastes; antes me recebestes como a um anjo de Deus, como ao próprio Cristo Jesus. Qual é, logo, a vossa alegria? Dou-vos testemunho de que, se possível fora, teríeis arrancado os vossos olhos, e os teríeis dado a mim.” Gálatas 4:13-15 
Onde impera o amor, não há porque disfarçar nossas fraquezas. Somos levados a acolher uns aos outros independentemente de sua condição física, emocional, financeira ou espiritual. Porém, isso não significa ser indiferente ao sofrimento do outro. Pelo contrário. Os gálatas se dispunham a fazer qualquer coisa para atenuar o sofrimento de seu mentor espiritual. 

Que bom seria se os líderes espirituais de nosso tempo se desvencilhassem desta espiritualidade de fachada, sempre preocupados em parecer bem aos olhos de seus fiéis, como se qualquer admissão de fraqueza atentasse contra a credibilidade de seus ministérios. Foi ninguém menos que o grande rei Davi quem disse que quanto mais se expunha ante os seus súditos, mais eles o honrariam. 

O mundo não busca líderes impecáveis, opulentos, mas francos e coerentes. Tais quais os líderes são os que os seguem. Daí vermos tantos cristãos intragáveis que arrotam arrogância e acabam vacinando as pessoas à sua volta contra o evangelho. Como disse o dramaturgo romeno Eugène Ionesco, "ideologias nos separam, sonhos e angústias nos unem". 

Um dia, todos os homens sentir-se-ão ligados uns aos outros, de modo que a injustiça feita a um, será como se houvesse sido sofrida por todos. Somente assim, este mundo poderá se tornar naquilo com que seu criador sonhou na eternidade.



[1] Êxodo 3:1-8a
[2] Efésios 6:15
[3] Kenósis – Grego: Esvaziamento
[4] FREUD, Sigmund. O Mal-estar da Civilização,  São Paulo: Companhia das Letras, 2013,  pg.8
[5] Rizzolatti, G.; Craighero, L.; The Mirror – Neuron system, Parma: 2004
[6] Ekman, P. & Davidson, R. J.  Voluntary Smiling Changes Regional Brain Activity, Psychological Science, 1993
[7] Csibra G. Action mirroring and action understanding: an alternative account. In: Haggard P, Rosetti Y, Kawato M (eds.) Sensorimotor foundations of higher cognition. Attention and performance XII. Oxford University Press, Oxford: 2007.
[8] Romanos 5:5
[9] 1 Coríntios 2:16
[10] 1 Coríntios 2:9-10
[11] 1 João 1:3
[12] v. 8
[13] 1Tessalonicenses 2:8
[14] Filipenses 2:2,4
[15] 2 Coríntios 5:14

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

14

A assinatura de Deus aparece nos genes humanos



Além de ter criado o homem à Sua imagem e semelhança, Deus compartilha com Seus filhos os atributos do Seu nome, que estaria gravado em suas células. É o que sustenta o escritor e pesquisador Gregg Braden ao ligar os alfabetos bíblicos, hebraico e árabe à química moderna.

Aí, diz ele, encontra-se um código perdido, um alfabeto traduzível que é a chave para os mistérios de nossa origem e vive conosco desde sempre. A pesquisa de Braden revela que os elementos hidrogênio, nitrogênio, oxigênio e carbono, que formam o nosso DNA, podem ser substituídos por letras das antigas línguas. “Com isso, o código da vida se transforma em uma mensagem eterna. Traduzida, ela mostra que as letras do antigo nome de Deus estão codificadas como informação genética em cada célula da vida”, sustenta o pesquisador em seu novo livro “O Código de Deus – O Segredo do Nosso Passado, a Promessa do Nosso Futuro” (editora Cultrix, 256 págs, R$ 34).

A chave para traduzir o código do DNA para uma linguagem significativa é aplicar a descoberta que converte os elementos em letras. “Com base em seus valores equivalentes, o hidrogênio se transforma na letra hebraica yod (y), o nitrogênio na letra hey (h), o oxigênio na letra vav (v) e o carbono na letra gimel (g). Essas substituições revelam que a antiga forma do nome de Deus, YH, existe como química do nosso código genético. Por meio dessa ponte entre o nome de Deus e os elementos da ciência moderna, é possível desvendar o mistério e descobrir um significado ainda maior no antigo código que vive em cada célula do nosso corpo”, sustenta Braden.

O pesquisador considera que a sua pesquisa evidencia um ato divino: “Preservada dentro de cada célula dos cerca de seis bilhões de habitantes do nosso mundo, a mensagem é repetida, muitas vezes, para formar os elementos de nossa existência. Ela está dentro de cada um de nós, independente de raça, religião ou crença”.

Descoberta poderia levar à união dos povos

A pesquisa de Gregg Braden é polêmica. Mas ele acredita que “a assinatura do antigo nome de Deus oferece um denominador comum inédito, que nos permite resolver as diferenças. Essa evidência palpável nos dá também uma razão para acreditar que a paz é viável e vantajosa. Como cidadão do mundo, somos muito mais do que as religiões, crenças, modos de vida, fronteiras ou tecnologias que nos separam. Nos momentos em que duvidamos dessa verdade imutável, basta lembrar da mensagem que trazemos no corpo. Esse é o poder da mensagem que há dentro das nossas células”. O nome de Deus tem as mesmas letras e o mesmo sentido em todas as línguas, alega o pesquisador. Tanto a tradição judaica como a islâmica têm uma ancestralidade comum representada pelo patriarca Abraão, mas suas interpretações dos ensinamentos diferenciaram-se ao longo dos séculos. “Mesmo levando em conta essas diferenças, o código numérico oculto dos alfabetos hebraico e árabe revela precisamente o mesmo valor e produz precisamente o mesmo segredo do nome de Deus no nosso corpo. Com isso, o código leva a mesma mensagem de esperança para as três religiões que congregam mais da metade da população do mundo: o Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo”.

Braden interpreta que a mensagem “Deus eterno dentro do corpo” possa ser traduzida de várias maneiras. “Seja qual for a fonte do nosso código genético, o alto grau de ordem contido na mensagem diz que existe alguma coisa “lá fora”. A mensagem que trazemos no corpo é sem precedentes como base comum para a resolução de nossas diferenças”.

Carbono nos torna diferentes de Deus

“Somos o produto de elementos e moléculas que se combinaram ao acaso para produzir o milagre da vida, ou somos o resultado de um ato intencional de criação? Embora não se elucide a origem do código em nossas células, o simples fato de sua existência e a pouca probabilidade de essa mensagem ter-se formado ao acaso sugerem que há uma inteligência e uma intenção subjacente à nossa origem”, infere Gregg Braden. O pesquisador deixa claro que, antes de escrever o seu livro, foi preciso estabelecer com a maior precisão possível0 o nome pelo qual a presença sobre o Monte Sinai se identificou para Moisés. Após 12 anos de pesquisas, ele concluiu que “há um nome que sobrevive como o nome pessoal de Deus: YHVH, o eterno”. Segundo Braden, “quando substituímos os elementos modernos pelas quatro letras do antigo nome de Deus, temos um resultado inesperado, à primeira vista. Trocando o h final de YHVH pelo seu equivalente químico, o nitrogênio, o oxigênio e nitrogênio (HNON), todos eles são gases sem cor, sem cheiro e invisíveis. Substituir 100% do nome pessoal de Deus pelos elementos deste mundo cria uma substância que é uma forma de criação intangível, mas real”.

O pesquisador lembra que as primeiras definições de Deus dizem que Ele é onipresente e que, no nosso mundo, assume a forma invisível aos olhos. “Então Ele só pode ser conhecido por meio de suas manifestações. Os primeiros capítulos do Gênesis relatam que é nessa forma não-física que o Criador estava presente no tempo da criação”. Braden deixa claro que a humanidade compartilha das três primeiras letras antigas que representam 75% do nome do Criador, “mas a quarta e última letra do nosso nome químico nos separa de Deus. Enquanto a presença de Deus é a forma invisível e impalpável dos três gases, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio, a última letra do nosso nome é aquilo que nos dá a cor, o gosto, a textura e os sons do corpo: o carbono. A única letra que nos separa de Deus é também o elemento que nos torna reais no nosso mundo”.

quarta-feira, julho 15, 2015

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Terraformação: o agir do Espírito na formação de uma Nova Terra


Por Hermes C. Fernandes

H.G.Wells foi um grande gênio, criador do gênero literário de ficção científica. Foi ele que em 1898 imaginou como seria alterar um planeta a fim de torná-lo habitável.  Em seu livro “A Guerra dos Mundos”, extraterrestres invadem a Terra, derrotam a civilização humana e iniciam um processo de terraformação, preparando-a para ser colonizada por sua raça. Recentemente, o filme “O Homem de Aço” utilizou a mesma argumentação. O general Zod e seus asseclas pretendiam transformar nosso planeta num novo Kripton.

Terraformação é a denominação dada ao processo de modificar a atmosfera, temperatura, e geologia de um corpo celeste sólido (como um planeta ou um satélite natural) até deixá-lo em condições adequadas para suportar um ecossistema com seres vivos da Terra. A maior parte do que se sabe sobre a modificação de planetas é baseado no que já observamos em nosso próprio mundo. Os efeitos da poluição sobre o ecossistema de nosso planeta evidenciam que é possível afetar o ambiente em uma escala global a fim de transformá-lo, ainda que esse processo possa ser muito lento. Os cientistas concordam que Marte seja o candidato mais provável para as primeiras experiências em terraformação. A NASA, agência espacial americana, estuda maneiras de aquecer o planeta e de alterar a sua atmosfera, possibilitando uma eventual colonização humana.

Deixando o campo da ficção científica para o campo da teologia, o que muitos cientistas desconhecem é que nosso planeta já passou por uma terraformação, e que, esta se encontra registrada no livro de Gênesis. Ali somos informados de que “a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas” (Gn. 1:2). Interessante notar que o verbo hebraico traduzido por “pairar” é o mesmo usado em referência ao ato de chocar, próprio das aves.  Este verbo aparece em Deuteronômio 32:11, onde lemos: “Como a águia desperta a sua ninhada, paira sobre os seus filhotes, estende as suas asas, toma-os, e os leva sobre as suas asas.” O Espírito de Deus estava, por assim dizer, chocando as águas, preparando o caldo primordial de onde a vida emergiria na Terra. Por isso se diz longo adiante no texto de Gênesis que a ordem de Deus foi para que as águas produzissem a vida. E aqui, ciência e fé se harmonizam, pois ambas concordam que a vida surgiu da água.

O salmista tem um vislumbre da atuação criadora do Espírito Santo ao declarar: “Quando envias o teu Espírito, são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl.104:30). Repare numa coisa importante que esta passagem nos revela. O Espírito não apenas é responsável pela criação e manutenção da vida, mas também pela renovação da face da terra. O processo de terraformação não está acabado. A Terra prossegue em sua renovação contínua. Placas tectônicas são acomodadas. Continentes vão se distanciando uns dos outros alguns centímetros por ano. O nível do mar aumenta em algumas regiões. O que antes era floresta torna-se deserto, e vice-versa. Animais migram. Espécies desaparecem. Vulcões entram em erupção. Aterros são retomados pelas águas do oceano. Enfim, a Terra está em constante mutação.

Em que pese o papel do homem na alteração da paisagem e do clima (seja para o bem ou para o mal), o fato é que, mesmo antes de ele ter aparecido, a Terra já havia sido cenário de várias extinções em massa. Se os dinossauros não houvessem sido extintos, os mamíferos não teriam se desenvolvido e a Terra não seria capaz de abrigar a raça humana.  Quero dizer com isso que as coisas não aconteceram à revilia. O Espírito Santo guiou todo o processo, tenha durado seis dias literais ou bilhões de anos como defende a ciência. Este processo todavia não terminou.  Uma nova terra está a caminho. Não será outro planeta, como acreditam alguns, mas a nossa terra completamente reformatada, pronta para ser habitação da nova humanidade.

A criação da nova terra é um processo que se dá concomitantemente à criação da nova humanidade. Porque esta nova terra deverá ser habitação da justiça (2 Pedro 3:13). Portanto, compete ao mesmo Espírito produzir esta nova raça de seres humanos, dotados de uma consciência comprometida com a justiça.

Jesus anunciou-nos que o Consolador por Ele enviado convenceria o mundo “do pecado, e da justiça e do juízo” (Jo.16:7-8). A renovação da mente, sem a qual não podemos experimentar qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus, passa necessariamente por estes três estágios.  Sem que sejamos convencidos do mal (pecado), não poderemos experimentar o bem. Sem que sejamos convencidos acerca da justiça, não provaremos o que é perfeito. Perfeição tem a ver com integridade, inteireza, justiça. Se não formos convencidos acerca do juízo, também não experimentaremos a agradável vontade de Deus. O mesmo Espírito que renova a face da terra, também almeja renovar nossa consciência, reformatando-nos, transformando-nos segundo a imagem do Filho de Deus, Jesus (2 Co.3:18). Se a nova terra fosse habitada pela velha humanidade, esta a destruiria como está fazendo com a atual.

Há três elementos usados como símbolo da ação do Espírito Santo em Sua interação com a terra e seus habitantes: água, vento e fogo.

Todos os três são responsáveis pelo processo que os geólogos chamam de erosão, através do qual a topografia da terra está em permanente transformação.  A ação desses elementos serve-nos como analogia da ação do Espírito Santo na transformação da sociedade.

Esta analogia é proposta pelas próprias Escrituras em várias passagens, dentre as quais destaco a que se segue:

“Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço uma coisa nova, agora sairá à luz; porventura não a percebeis? Eis que porei um caminho no deserto, e rios no ermo.” Isaías 43:18-19

É claro que Deus não está falando de um fenômeno geológico ou ambiental, mas usando-o como analogia da obra que Seu Espírito promoveria entre os homens. Algo novo já estava em andamento, todavia, ninguém se apercebera. Assim se dá com o processo de erosão. Algumas vezes acontece abruptamente, como quando ocorre um terremoto ou tsunami. Mas geralmente, acontece imperceptivelmente. Por isso os geólogos falam de “eras geológicas”. O que para nós, humanos, representa um tempo incalculável, geologicamente não passa de um momento.

Vamos verificar a ação de cada um dos elementos que representam a atuação do Espírito em convencer-nos do pecado, da justiça e do juízo:

1.  Água

Observe como as águas açoitam as rochas na praia. Pode parecer que as pedras estejam resistindo bravamente. Mas, em longo prazo, cumpre-se o adágio que diz: água mole em pedra dura, tanto bate até que fura!  Não só fura, mas a esfarela. De onde vêm a areia da praia, afinal? Não vêm das rochas esfareladas pela ação contínua da água? Sem embargo, águas transformam pedras em areia. De modo semelhante, o Espírito Santo transforma “pedras” em filhos de Abraão.  Para o judeu contemporâneo de Jesus, os gentios não passavam de pedras. Jesus desafiou a sua presunção ao declarar: “mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão”(Mateus 3:9). Ora, era sabido de todos que a promessa feita por Deus a Abraão era que sua descendência seria “como a areia que está na praia do mar” (Gn.22:17). Como transformar pedras em areia? Como transformar gentios pagãos em filhos de Abraão? Através da atuação do Espírito Santo. Sim. Porém, o instrumento usado por Ele para isso é a Palavra. Ela é “como um martelo que esmiúça a rocha” (Jer.23:29).

 Mesmo antes que estas pedras se transformem em grãos de areia, o Espírito desperta nelas o desejo de clamar. Jesus disse que se nós nos calássemos, conformando-nos ao atual estado de coisas, “as pedras clamarão” (Lc.19:40).  Clamarão reconhecendo seu pecado, e o pecado da sociedade na qual estão inseridos. Clamarão por perdão e serão salvos. Clamarão por justiça e serão fartos.

As águas também são condutores de vida. O caminho do pecado conduz à morte. Mas a vereda do Espírito conduz à vida. De acordo com a visão de Ezequiel, há um rio cuja nascente é o templo de Deus, mas cujo destino é desaguar no mundo. Apesar de alegrar “a cidade de Deus”, não temos o direito de represar suas águas. Pois “onde quer que este rio passar tudo viverá” (Ez.47:9). Seu objetivo é irrigar cada área de nossa existência, tornando fértil a terra seca. A cultura, a ciência, o governo, a família, são algumas dessas áreas que necessitam ser irrigadas pelas águas do Espírito.

Além de esfarelar rochas, transformando-as em areia, de conduzir vida por onde passa, as águas do Rio de Deus também nos lavam e purificam de todo resquício do pecado (1 Co.6:11).

2. Vento

O segundo elemento responsável pela erosão é o vento. Quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos reunidos no cenáculo, ouviu-se um ruído “como que de um vento impetuoso” (At.2:2). Foi este vento o responsável por espalhar o que, até então, estava restringido a um grupo fechado. Por isso, os discípulos “ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas”(v.4). Era importante que os estrangeiros reunidos em Jerusalém para celebrar a festa de Pentecoste tivessem a oportunidade de ouvir o evangelho em seus próprios idiomas. Basicamente, é isso que o vento faz: espalha. Daí sua importância no processo de erosão. Ao espalhar, ele distribui o que estava concentrado num único lugar.

Consideremos, por exemplo, as montanhas. Como se formaram? Ao longo de eras geológicas. Cada montanha é um acúmulo de terra e outros materiais. Cada vez que o vento sopra sobre ela, parte deste material é distribuída, e assim, a paisagem é remodelada. É claro que não acontece da noite para o dia. Mas de uma coisa podemos estar certos. Está acontecendo agora mesmo.

Veja o que diz o Senhor pelos lábios de Isaías:

“Todo o vale será exaltado, e todo o monte e todo o outeiro será abatido; e o que é torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará. E a glória do SENHOR se manifestará, e toda a carne juntamente a verá, pois a boca do SENHOR o disse.” Isaías 40:4-516:7-8

Exaltar o vale e abater o monte é uma metáfora para o estabelecimento da justiça do reino. Não é justo que uns tenham tanto, e outros tão pouco. Toda concentração de bens constitui-se numa injustiça (Is.5:8), e devemos priorizar não somente o reino de Deus, como também a sua justiça. Quando o vento do Espírito sopra, há uma redistribuição de riquezas. O terreno acidentado é nivelado.  Tira-se da montanha para aterrar o vale. Como disse Paulo:  “Espalhou, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre” (2 Co.9:9). Não foi isso que aconteceu na igreja primitiva? O resultado da ação daquele vento impetuoso não foi só o falar em línguas, mas também o tornar “um o coração e alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comum” (At.4:32).

Ao convencer-nos da justiça, isto é, do que é justo, o Espírito de Deus nos faz converter-nos ao nosso próximo, buscando atender às suas necessidades com aquilo que nos tem sido confiado.

3.  Fogo

Dentro do simbolismo bíblico, fogo representa juízo. O fogo é, sem dúvida, a mais poderosa ferramenta de erosão disponível na natureza. Basta observar a fúria de um vulcão em erupção para verificar o que digo. A lava que escorre da montanha nada mais é do que rocha derretida. O que a água não houver esfarelado, o fogo certamente derreterá. Ninguém fica imune à ação do fogo. Nada é capaz de resisti-lo. O mesmo pode-se dizer do juízo divino.

Na visão do trono de Deus narrada pelo profeta Daniel, “um rio de fogo manava e saía de diante dele (...) Assentou-se para o juízo, e os livros foram abertos” (Dn. 7:10). Se para o justo, aquele é um rio de água viva, para o ímpio é um rio de fogo, semelhante à lava expelida por um vulcão.

Pedro nos adverte que o dia do juízo surpreenderá a muitos, quando “os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão” (2 Pe.3:10). Não creio que devamos fazer uma leitura literal deste texto, como se o planeta em que vivemos estivesse fadado a ser incinerado. Trata-se, antes, de uma poderosa metáfora para o juízo reservado à todos os que resistiram à ação da água e do vento durante as inúmeras oportunidades dadas por Deus.

Judas diz que o Senhor virá “com os seus milhares de santos, para executar juízo sobre todos e CONVENCER a todos os ímpios de todas as obras de impiedade, que impiamente cometeram” (Jd.1:14-15).

Se não nascermos da água, recusando-nos a sermos “instrumentos de justiça”, só nos restará sermos alvos do juízo de Deus.

Deus está redesenhando a geografia do mundo. Um novo mundo emerge diante dos nossos olhos: Um novo céu e uma nova terra em que habita a justiça. Se quisermos ser moradores desta nova realidade, temos que submeter-nos à ação do Espírito, reformatando-nos, tornando-nos cada vez mais parecidos com Jesus. 

terça-feira, abril 14, 2015

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Cientista afirma que a consciência sobrevive à morte





Um livro intitulado “Biocentrism: How Life and Consciousness Are the Keys to Understanding the Nature of the Universe“ (Biocentrismo: Como a Vida e a Consciência São as Chaves para a Compreensão da Natureza do Universo – [tradução livre do título – n3m3]) mexeu com a Internet, porque ele contém a noção de que a vida não acaba quando o corpo morre, e pode durar para sempre.  O autor dessa publicação, o cientista Dr. Robert Lanza, que foi votado pelo NY Times como sendo o 3º cientista mais importante ainda vivo, não tem dúvida de que isso seja possível.

Além do tempo e do espaço

Lanza é um especialista em medicina regenerativa e diretor científico da Companhia de Tecnologia Avançada da Célula.  Ele é conhecido também por sua extensa pesquisa com células tronco, e por vários experimentos de sucesso na clonagem de espécies de animais em extinção.
Mas há pouco tempo, o cientistas se envolveu com a física, a mecânica quântica e a astrofísica.  Esta mistura explosiva deu o nascimento à nova teoria do biocentrismo, a qual o professor tem pregado desde então.  O biocentrismo ensina que a vida e a consciência são fundamentais para o Universo.  É a consciência que cria o universo material e não o contrário.
Lanza aponta para a própria estrutura do Universo, e que as leis, forças e constantes do Universo parecem ser afinadas com a vida, implicando no fato da consciência existir antes da matéria.  Ele também alega que o espaço e tempo não são objetos ou coisas, mas sim ferramentas de nossa compreensão animal.  Lanza diz que carregamos o espaço e o tempo conosco “como tartarugas com cascos“, o que significa que quando o casco é deixado de lado (tempo e espaço), ainda existiremos.
A teoria implica que a morte da consciência simplesmente não existe.  Ela somente existe como pensamento, porque as pessoas se identificam com seus corpos.  Elas acreditam que o corpo irá perecer, mais cedo ou mais tarde, achando que assim sua consciência irá desaparecer também.  Se o corpo gera a consciência, então a consciência morre quando o corpo morre.  Mas se o corpo recebe a consciência da mesma forma que um receptor de TV a cabo recebe sinais, então o curso da consciência não acaba na hora da morte do veículo físico.  Na verdade, a consciência existe fora da limitação do tempo e do espaço.  Ela é capaz de estar em qualquer lugar: no corpo humano e fora dele.  Em outras palavras, ela não tem local, no mesmo sentido que objetos quânticos não possuem local.
Lanza também acredita que universos múltiplos possam existir simultaneamente.  Num universo, o corpo pode estar morto.  E no outro ele continua a existir, absorvendo a consciência que migrou para esse universo.  

Mundos múltiplos

A teoria de Lanza, que infunde esperança mas é extremamente controversa, possui muitos defensores, não somente meros mortais que querem viver para sempre, mas também alguns cientistas bem conhecidos.  Estes são físicos e astrofísicos que tendem a concordar com a existência de mundos paralelos e que sugerem a possibilidade de universos múltiplos.  O multiverso é um, assim chamado, conceito científico, o qual eles defendem.  Eles acreditam que não exista nenhuma lei física que proíba a existência de mundos paralelos.
H.G. Well, o escritor de ficção científica, proclamou isto em 1895, na sua obra “The Door in the Wall” (A Porta na Parede).  E após 62 anos, esta ideia foi desenvolvida pelo Dr. Hugh Everett, em sua tese de graduação na Universidade Princeton.  Ela basicamente apresenta que, em qualquer dado momento, o Universo se divide em inúmeras ocorrência similares.  E no momento seguinte, estes universos ‘recém-nascidos’ se dividem de forma similar.  Em alguns destes mundos você pode estar presente: lendo este artigo em um universo, ou assistindo TV em outro.
Os fatores que disparam estes mundos que se multiplicam são as nossas ações, explicou Everett.  Se fizermos algumas escolhas, instantaneamente um universo se divide em dois, com diferentes versões de resultados.
Na década de 1980, Andrei Linde, um cientista do Instituto de física de Lebedev, desenvolveu a teoria dos universos múltiplos.  Ele agora leciona na Universidade Stanford.  Linde explicou: “O espaço consiste em muitas esferas que se inflam, as quais geram esferas similares, e essas, por sua vez, produzem esferas em números ainda maiores, e assim por diante até o infinito.  No Universo elas são espaçadas umas das outras. Elas não estão cientes da existência das outras.  Mas elas representam partes do mesmo universo físico.
O fato do nosso Universo não estar só é apoiado pelos dados recebidos do telescópio espacial Planck.  Usando estes dados, os cientistas criaram o mais preciso mapa do fundo de microondas, a assim chamada ‘radiação de fundo da relíquia cósmica’, que permanece deste o início do Universo.  Eles também descobriram que o Universo possui muitos recessos escuros, representados por alguns buracos e extensas brechas.
A física teórica Laura Mersini-Houghton, da Universidade da Carolina do Norte, com seus colegas, argumentam: “As anomalias do fundo de microondas existem devido ao fato de que o nosso Universo é influenciado por outros universos que existem nas proximidades.  E os buracos e brechas são um resultado direto dos ataques dos universos vizinhos sobre nós.

Alma

Assim, há uma abundância de lugares, ou outros universos, aonde nossa alma poderia migrar após a morte, de acordo com a teoria do neo-biocentrismo.  Mas a alma existe?  Há uma teoria científica da consciência que poderia acomodar tal alegação?  De acordo com o Dr. Stuart Hameroff, uma experiência de ‘quase-morte’ acontece quando a informação quântica que habita o sistema nervoso deixa o corpo e dissipa no Universo.  Ao contrário das explicações materialistas sobre a consciência, o Dr. Hameroff oferece uma explicação alternativa da consciência, que pode talvez ser atraente, tanto para a mente científica racional, quanto para as intuições pessoais.
De acordo com Stuart e Sir Roger Penrose, este último um físico britânico, a consciência reside em microtúbulos de células cerebrais, os quais são locais primários de processamento quântico.  Na morte, esta informação é liberada pelo seu corpo, o que significa que a nossa consciência vai com ela.  Eles argumentam que a nossa experiência de consciência seja o resultado de efeitos quânticos da gravidade nestes microtúbulos; uma teoria que eles batizaram de ‘redução objetiva orquestrada’ (sigla em inglês: Orch-OR).
A consciência, ou pelo menos a proto-consciência, é teorizada por eles como sendo uma propriedade fundamental do Universo, presente até mesmo no primeiro momento do Universo durante o Big Bang.  “Em tal plano, a experiência proto-consciente é uma propriedade básica da realidade física, acessível a um processo quântico associado à atividade cerebral.
Nossas almas, na verdade, são construídas do mesmo tecido do Universo – e podem ter existido desde o começo do tempo.  Nossos cérebros são somente receptores e amplificadores para a proto-consciência, a qual é intrínseca ao tecido espaço-tempo.  Assim, há realmente uma parte de nossa consciência que não é material e que sobreviverá a morte de nosso corpo físico?
O Dr. Hameroff declarou no documentário ‘Através do Buraco de Minhoca’, do Science Channel: “Digamos que o coração pare de bater, o corpo pare de fluir, os microtúbulos percam seu estado quântico.  A informação quântica dentro dos microtúbulos não é destruída, ela não pode ser destruída, ela somente se distribui e dissipa pelo Universo.”  Robert Lança adicionaria aqui que, não somente ela existe no Universo, mas que talvez também exista em outro universo.
Se o paciente for ressuscitado, reanimado, esta informação quântica pode voltar para dentro dos microtúbulos e o paciente dizer, “eu tive uma experiência de quase morte“.
Hameroff ainda diz: “Se o paciente não for reanimado e morrer, é possível que esta informação quântica possa existir fora do corpo, talvez indefinidamente como uma alma.


Fonte: Otimundo