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sábado, abril 22, 2017

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A verdadeira história de São Jorge



Em torno do século III d.C., quando Diocleciano era imperador de Roma, havia nos domínios do seu vasto Império um jovem soldado chamado Jorge de Anicii. Filho de pais cristãos, converteu-se à fé cristã ainda na infância, quando passou a temer a Deus e a crer em Jesus como o salvador do mundo. Nascido na antiga Capadócia, região que atualmente pertence à Turquia, Jorge mudou-se para a Palestina com sua mãe, após a morte de seu pai. Tendo ingressado para o serviço militar, distinguiu-se por sua inteligência, coragem, capacidade organizativa, força física e porte nobre. Foi promovido a capitão do exército romano devido a sua dedicação e habilidade.

Tantas qualidades chamaram a atenção do próprio Imperador, que decidiu lhe conferir o título de Conde. Com a idade de 23 anos passou a residir na corte imperial em Roma, exercendo altas funções. Nessa mesma época, o Imperador Diocleciano traçou planos para exterminar os cristãos. No dia marcado para o senado confirmar o decreto imperial, Jorge levantou-se no meio da reunião declarando-se espantado com aquela decisão, e, afirmando sua total lealdade a Cristo, recusou-se a prestar culto a qualquer outra divindade . Todos ficaram atônitos ao ouvirem estas palavras de um membro da suprema corte romana, defendendo com grande coragem sua fé.

Indagado por um cônsul sobre a origem desta ousadia, Jorge prontamente respondeu-lhe que era por causa da Verdade. O tal cônsul, não satisfeito, quis saber: "O que é a verdade?". Jorge respondeu: "A verdade é o meu Senhor Jesus Cristo, a quem vós perseguis, e eu sou servo de meu redentor Jesus Cristo, e n'Ele confiando, pus-me no meio de vós para dar testemunho da Verdade." Como Jorge mantinha-se fiel a Jesus, o Imperador tentou fazê-lo desistir da fé torturando-o de vários modos. E, após cada tortura, era levado perante o Imperador, que lhe perguntava se renegaria a Jesus para adorar aos deuses romanos. Porém, este santo homem de Deus jamais abriu mão de suas convicções e de seu amor a Jesus. Todas as vezes em que foi interrogado, sempre declarou-se servo do Deus Vivo, mantendo seu firme posicionamento de somente a Ele prestar culto.

Em seu coração, Jorge de Capadócia discernia claramente o propósito de tudo o que lhe ocorria, lembrando-se das palavras de Jesus aos Seus discípulos: “...vos hão de prender e perseguir, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, e conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Isso vos acontecerá para que deis testemunho”. (Lucas 21.12:13). A fé deste jovem soldado era tamanha que muitas pessoas passaram a crer em Jesus e confessá-lo como Senhor por intermédio do seu testemunho. Durante seu martírio, Jorge mostrou-se tão confiante em Cristo e em Sua obra redentora na cruz, que a própria Imperatriz alcançou a Graça da salvação eterna, rendendo sua vida a Cristo. Sua fidelidade e amor a Deus contagiaram o coração de toda uma geração de romanos.

Por fim, Diocleciano mandou degolar o jovem e fiel discípulo de Jesus em 23 de abril de 303. Em pouco tempo, a devoção a São Jorge se popularizou. Celebrações e petições às imagens que o representavam se espalharam pelo Oriente e, depois das Cruzadas, tiveram grande aceitação no Ocidente. Como se não bastasse, muitas lendas foram se somando à sua história, inclusive a que diz que ele teria enfrentado e amansado um dragão que atormentava uma cidade.

Em 494, a devoção era tamanha que a Igreja Católica o canonizou, estabelecendo cultos e rituais a serem prestados em homenagem à sua memória. Assim, confirmou-se a devoção a Jorge, até hoje largamente difundida, inclusive em grandes centros urbanos, como a cidade do Rio de Janeiro, onde desde 2002 faz-se feriado municipal na data comemorativa de sua morte.

Jorge é cultuado através de imagens produzidas em esculturas, medalhas e cartazes, onde se vê um homem vestindo uma capa vermelha, montado sobre um cavalo branco, atacando um dragão com uma lança. Ironicamente, o que motivou o martírio deste santo homem foi justamente sua batalha contra a adoração e veneração de imagens fartamente adotadas pelos romanos.

Apesar de tudo, o fato é que Jorge de Capadócia obteve um testemunho reto e santo, que causou impacto e conduziu muitas vidas a Cristo. Por amor ao Evangelho, ele não se preocupou em preservar a sua própria vida; em seu íntimo, guardava a Palavra: “ ...Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte” (Filipenses 1:20). Deste modo, cumpriu integralmente o propósito eterno para o qual havia nascido: manifestou o caráter do seu Senhor e atraiu homens e mulheres ao reino de Cristo.

Se você é devoto deste celebrado mártir da fé cristã, faça como ele e atribua toda honra, glória e louvor exclusivamente a Jesus Cristo, por quem Jorge de Capadócia viveu e morreu. Para além das lendas que envolvem seu nome, o grande dragão combatido por ele foi a idolatria que infelizmente hoje impera em torno de seu nome, e até mesmo em torno do nome do Cristo a quem Ele dedicou sua existência. A melhor maneira de honrá-lo e prestigiá-lo não é com fogos de artifício, promessas e festa, mas imitando-o em sua fé e devoção a Cristo. Idolatria não se resume a prostrar-se ante uma escultura qualquer, mas estabelecer uma relação supersticiosa, onde o santo ou o próprio Deus é visto apenas como alguém a quem recorrer na busca de solução para os seus problemas. Cristo, o Deus que Se humanizou para habitar entre nós, é muito mais do que alguém pronto a atender nossos pedidos. Ele é o Salvador dos homens, o Senhor do Mundo, o Mestre do Amor. Homens e mulheres que o serviram e hoje são considerados santos pela tradição podem ser imitados em sua fé, ter sua memória celebrada, mas jamais considerados semi-deuses prontos a atender nossas solicitações. De acordo com os ensinamentos encontrados nos evangelhos, nossos pedidos devem ser dirigidos ao Pai em nome de Seu Filho Jesus. E Ele tem prazer em nos atender, não com a intenção de mostrar o quão poderoso é, mas simplesmente por nos amar e se importar com cada um de Seus filhos.

A pior idolatria denunciada por Jesus ocorre quando nos devotamos ao dinheiro e a aquisição de bens materiais. Façamos deles um meio para socorrer aos necessitados e não um fim em si mesmos. Nada nesta vida pode tomar o lugar de Deus. Esta foi a grande lição que Jorge da Capadócia nos deixou. O dragão que devemos vencer é o do egoísmo, da ganância, do ódio, do preconceito e de tudo o que nos afasta de Deus e do nosso próximo. 

sábado, setembro 10, 2016

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A falência da Indústria Religiosa



Por Hermes C. Fernandes

Por que despertamos o ódio de tanta gente quando expomos a Verdade em contraposição dos métodos e estratégias usadas pela igreja atual? Basta um artigo sobre assuntos polêmicos como a famigerada teologia da prosperidade, para que o ânimo de alguns se altere. Quando comentam em nossos artigos, em vez de exporem seus pensamentos com base nas Escrituras, preferem os ataques pessoais, tentando minar nossa credibilidade e pôr em xeque nossas motivações.

Por incrível que pareça, este não é um fenômeno recente. A igreja primitiva teve que lidar com as mesmas reações, ora por parte dos judeus, ora por parte dos gentios.

Um episódio que pode atestar o que estamos afirmando é o que lemos em Atos 19, e que nos mostra o efeito causado pela atuação do ministério de Paulo em Éfeso.

À medida que as pessoas iam se convertendo à Fé, elas abandonavam suas superstições e crendices. O texto diz que “muitos dos que tinham praticado artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos” (v.19). Até aí, tudo bem. Cada um faz o que quer com o que é seu. Quer rasgar, queimar, quebrar, dar fim, o problema é dele. Mas alguém que assistia resolveu calcular o prejuízo. “Feita a conta do seu preço, acharam que montava a cinqüenta mil moedas de prata”. Uau! Se Judas traiu Jesus por trinta moedas de prata, e isso já era uma quanta considerável, imagine o que representava uma quantia tão vultuosa: cinqüenta mil moedas de prata!

Pra se ter uma idéia do montante, as trinta moedas recebidas por Judas foram suficientes para adquirir um campo. Isso significa que as 50 mil moedas de prata daria pra comprar cerca de 1666 campos! Tudo isso em livros. O mercado editorial de Éfeso entrou em colapso. Aquelas pessoas que dispuseram seus livros para a fogueira, jamais voltariam a consumir tal literatura.

Devemos estar cientes que a pregação do genuíno Evangelho sempre fere interesses. Alguém vai ter que arcar com o prejuízo.

Não bastasse a quebra do mercado editorial, sobrou também para a indústria religiosa.

O texto diz que “por esse tempo houve um não pequeno alvoroço acerca do Caminho. Certo ourives, por nome Demétrio, que fazia de prata miniaturas do templo de Diana, dava não pouco lucro aos artífices. Ele os ajuntou, bem como os oficiais de obras semelhantes, e disse: Senhores, vós bem sabeis que desta indústria vem a nossa prosperidade. E bem vedes e ouvis que não só em Éfeso, mas até quase em toda a Ásia, este Paulo tem convencido e afastado uma grande multidão, dizendo que não são deuses os que se fazem com as mãos. Não somente há perigo de que a nossa profissão caia em descrédito, mas também que o próprio templo da grande deusa Diana seja estimado em nada, vindo a ser destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo veneram” (At.19:23-27).

Em outras palavras, a mensagem pregada por Paulo doía no bolso e ainda maculava a reputação deles, colocando-os em descrédito perante a opinião popular. Portanto, era uma questão que envolvia dinheiro e reputação, avareza e vaidade. Para disfarçar, eles alegavam que Diana, sua deusa, estava sendo ultrajada, dando assim um ar de piedade religiosa às suas reivindicações. Foi o suficiente para que houvesse uma manifestação popular. – Grande é Diana dos Efésios! Bradava a turba.

No fundo, no fundo, o que os incomodava não era o culto à deusa. Se o templo de Diana fosse reputado em nada, o que fariam os que viviam da venda de miniaturas dele? Imagine se convencêssemos as pessoas que a Arca da Aliança (tão em voga no meio evangélico hoje em dia) não passava de uma figura de Cristo, e que já não serve para nada. O que fariam os pastores que distribuem miniaturas da Arca por uma oferta módica de 100 reais?

O que seria daquela cidade se o culto a Diana foi exterminado? E os milhares de romeiros que vinham de todas as partes do mundo para ver de perto da imagem que, segundo o dogma, havia caído de Júpiter?

A pregação do Evangelho causou tamanho impacto que bagunçou o coreto daquela sociedade. Todos os esquemas foram desmontados. Era como se a correia dentada do motor que a mantinha em movimento se arrebentasse. De repente, todas as engrenagens pararam. Alguma providência tinha que ser tomada!

Tomaram dois dos companheiros de Paulo e os levaram ao teatro para apresentá-los à turba enfurecida. Paulo quis se apresentar, mas foi dissuadido por algumas autoridades que lhe eram simpáticas. No meio do tumulto, “uns clamavam de uma maneira, outros de outra, porque o ajuntamento era confuso. A maioria não sabia por que se tinha reunido”(v.32). Eis o retrato fiel de um povo “Maria-vai-com-as-outras”, que só serve de massa de manobra nas mãos dos poderosos.

A maioria nem sequer sabia o que estava acontecendo. Mas não hesitavam em unir suas vozes aos demais em protesto gratuito e desprovido de sentido.

Quando Alexandre se apresentou diante do povo, acenando com a mão como quem queria apresentar uma defesa, “todos unanimemente levantaram a voz, clamando por quase duas horas: Grande é a Diana dos Efésios!” (v.34). Repare nisso: Diana era considerada deusa em todo o império romano. Mas em Éfeso, seu culto tomou um vulto inédito. Ela não era apenas “Diana”, e sim “Diana dos Efésios”. Algo parecido com o apego que muita gente tem à sua denominação. Cristo deixa de ser Cristo, para ser o “Cristo dos Batistas”, o “Cristo dos Presbiterianos”, o “Cristo dos Pentecostais”, o "Cristo dos Católicos", e assim por diante.

Finalmente, o escrivão da cidade (provavelmente um figurão da sociedade efésia), conseguiu apaziguar a multidão, dizendo: “Efésios, quem é que não sabe que a cidade dos efésios é a guardadora do templo da grande deusa Diana, e da imagem que caiu de Júpiter? Ora, não podendo isto ser contraditado, convém que vos aquieteis e nada façais precipitadamente” (vv.35-36). Para tentar controlar o manifesto, o tal escrivão apelou ao dogma religioso. Dogma é aquilo que não se pode contestar. É tabu. Está acima do bem e do mal. Por isso, não se discute. É isso e tá acabado.

A igreja evangélica também tem seus dogmas. Ninguém se dá o trabalho bereano de averiguar se o que está sendo pregado bate ou não com as Escrituras. Se o líder falou, está dito. E se alguém se atreve a questionar, é logo tachado de herege, e acusado de estar tocando no ungido do Senhor. E há quem ainda critique o dogma católico da infalibilidade papal!

Alguém viu quando a estátua caiu de Júpiter? De onde provinha tal certeza? Quem anunciou o fato? Provavelmente foram os sacerdotes do templo de Júpiter que queriam atrair o público de volta ao templo a qualquer custo.

Há uma indústria religiosa que se alimenta de mentiras, de dogmas inquestionáveis, e de superstições baratas. É esta indústria que corre o risco de quebrar se a verdade do Evangelho for anunciada, e suas mentiras desmascaradas.

Os fiéis não passam de papagaios de pirata, repetindo o que ouvem sem ao menos refletir. Se dissermos que não há mais maldição a ser quebrada, o que será daqueles cuja prosperidade advém desta mentira? Como poderão cobrar para que as pessoas participem de um Encontro num sítio, a fim de que vejam a Deus cara a cara, e assim, sejam libertas de suas maldições?

Veja: compromissos são feitos em cima desses argumentos chulos. A prestação da propriedade adquirida pela igreja. O programa de rádio. O material de propaganda. O salário do pastor. Tudo isso tem que ser garantido pelo esquema montado. É um ciclo retro-alimentado. Se alguém chega pregando algo que contrarie o esquema, é logo tachado de herege, falso profeta, etc., pois interrompe o ciclo, produzindo um colapso na estrutura.

É isto que o Evangelho faz! Todas as estruturas injustas entram em colapso, para que um novo sistema, com engrenagens justas, se erga, tendo como centro o Trono da Graça de Deus.

Acorde, povo de Deus! Voltemos para as Escrituras! Abandonemos a mentira, o argumento falso, o estelionato, e voltemos à prática do primeiro amor. Caso contrário, Deus nos julgará, e reduzirá nossa indústria religiosa (que chamamos carinhosamente de “igreja”) aos escombros.

Não ficará pedra sobre pedra!

segunda-feira, abril 25, 2016

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O Cristo Patrono de Torturadores e Espertalhões



Por Hermes C. Fernandes

Nasceu no Palácio de Herodes em Jerusalém, centro do poder judaico. Veio para o que era seu, e os seus o receberam, e com muitas pompas! 

Aos doze anos já discutia novas rotas comerciais e estratégias de conquista com os conselheiros reais. Seu primeiro milagre aconteceu num pomposo casamento na realeza. Transformou a água em suco de caju, não por haver faltado bebida na festa, mas apenas para dar uma gorjeta do seu poder. Poderia tê-la transformada em vinho, vodca, ou até Whisky, se quisesse. Mas preferiu não escandalizar a ala mais conservadora e fundamentalista dos religiosos.

Aos 30 anos, foi batizado na piscina da cobertura do palácio, por um dos profetas-gurus badalados da época. Enquanto descia às águas, viu-se uma águia, símbolo de conquista, sobrevoar sua cabeça, e uma voz que bradou de algum lugar: Este é o cara! Vai e arrasa!

Saiu dali e foi para uma região praiana tirar quarenta dias de férias antecipadas. Não precisou ser tentado em nada, pois nunca se negou bem algum. Transformou pedras em pizza, só para se divertir. E ainda fez malabarismo no pináculo do templo, para tirar uma onda com os sacerdotes. No final das férias, subiu num monte bem alto, avistou os reinos deste mundo e disse para si mesmo: Tudo isso me darei!

Quando abordado por algum gentio, do tipo daquele centurião que tinha um servo enfermo, dizia-lhe: Dá um tempo! Não vim para vocês, seus impuros, idólatras e ignorantes. E mais: Nunca vi tanta petulância! Onde já se viu? Pedir por um serviçal! Além de gentio, é burro!

Ao deparar-se com um cobrador de impostos desonesto, que subira numa árvore só para lhe ver, disse-lhe: Como é que é, meu irmão, vamos ou não vamos dividir esta grana? Desce logo, que tô com pressa! E manda preparar a banheira com sais minerais do Mar Morto, porque hoje vou me hospedar na suíte de sua casa.

Ao ser tocado por uma mulher hemorrágica, esbravejou: Tira essa louca daqui! Não sabe que a Lei proíbe qualquer aproximação de uma pessoa em seu estado? Imunda!

Por onde passava, seus discípulos estendiam um cordão de isolamento, para que leprosos, morféticos, cegos, endemoninhados, e todo tipo de gente asquerosa não ousassem se aproximar do rei da cocada preta.

Diferente era o trato que dispensava aos fariseus e religiosos da época. 

Em sua versão da parábola do bom samaritano, quem socorria o moribundo era o sacerdote, que sem hesitar, tentava extorquir-lhe uma gratificação. O samaritano era o assaltante, que negou-se a dividir a grana com o levita. 

- Venham a mim, todos os que querem alguma vantagem da religião. Vocês serão cabeça e não cauda. Comerão o melhor da terra! Unam-se a mim, e lhes farei milionários. Aprendam comigo, que sou malandro e esperto de coração. Espertos são os que riem da desgraça alheia. Espertos são os que gostam de ver o circo pegar fogo. Espertos são os que têm fome e sede de sucesso. Eu saciarei seu ego!

Quando procurado por um jovem rico, disse-lhe, sem o menor pudor: Topa uma sociedade? Vai ter um lugar especial no meu reino, garoto...

E quando entrou em Jerusalém montado naquele exuberante corcel branco 0 km? Foi tremendo! Não teve pra ninguém!

No episódio em que queriam executar uma mulher flagrada em adultério, ele foi o que lançou a primeira pedra. Sua política com os pecadores era de tolerância zero. Chegou até a dizer: Tortura quero, não misericórdia! Pecador bom, é pecador morto! E se alguém quiser se compadecer, leva pra casa!

Ao visitar o templo, não disfarçou o orgulho com o que viu ali. Fez questão de sair de mesa em mesa recolhendo a décima parte do que fora obtido com o lucro das vendas dos animais para o sacrifício e o ágio cobrado no câmbio. Criticava duramente os publicanos, as prostitutas, os homossexuais, mas com os fariseus e religiosos sobravam elogios.  

Uma vez entrou num prostíbulo clandestino munido de chicote. Achavam até que ele curtia uma onda sadomasoquista. Mas ele saiu expulsando prostitutas e cafetões aos gritos: Seus porcos! Ousam transformar minha zona numa casa de mãe Joana!

Cruz? Que cruz? Tá doido? Cruz é pra gente como Jesus, aquele nazareno nascido numa manjedoura. Dizia frequentemente: Eu vim para ter vida, e vida com abundância. Quem quiser vir após mim, passa tudo o que tem pra minha conta, e me siga. Ou tudo ou nada! Ou dá ou desce!

Revolucionário? Que nada! Graças a um conchavo político feito às escuras com o Império Romano, garantiu para si a sucessão de Herodes.

Ao descobrir que um dos seus asseclas o estava traindo, sem dó nem piedade, mandou enforcá-lo. Quem ousou negá-lo teve sua língua decepada. 

Ao morrer, farto de dias, confiou seu legado a um grupo de discípulos seletos, que juraram que sua mensagem jamais seria esquecida, e que ao longo dos séculos, sempre haveria quem a promovesse em sua própria geração. Partiu ordenando que cada um dos seus discípulos lhe beijasse os pés, em sinal de submissão. E que aprendessem a se servir uns dos outros, e se aproveitarem dos poderes constituídos, sem jamais criticá-los ou censurá-los.

Promessa feita, promessa cumprida.

Basta ligar a TV, o rádio, ou mesmo acessar a internet, para se dar conta de quantos dos seus discípulos ainda dão eco à sua voz. Alguns deles se reuniram e formaram bancadas parlamentares com o único intuito de expandir a mensagem de desamor de seu mestre.

domingo, abril 26, 2015

19

"Só pra exercitar..." A igreja que nada contra a corrente




Por Hermes C. Fernandes


Dois meses antes de casar-me, resolvi fazer uma viagem para conhecer o Pantanal matogrossense. Seria a minha despedida de solteiro. Fiquei hospedado na casa de um presbítero de uma igreja de Cuiabá chamado Severino. Em um de nossos passeios, visitamos uma região de muitas cachoeiras. Conheci um rio caudaloso, de correntezas muito fortes, e com várias quedas acentuadas. Meu amigo desafiou-me a atravessar o rio a nado. Nem deu tempo para que argumentasse com ele. Quando vi, ele já estava dentro d’água. Fiquei observando, temeroso, porque a poucos metros havia uma grande cascata. Sem muita dificuldade, ele chegou ao outro lado e fez sinal para que eu fizesse o mesmo. – Bem, pensei comigo - se ele pode, também posso. Mergulhei e comecei a nadar. A correnteza me empurrava, e comecei a me desesperar ao perceber que estava cada vez mais próximo da cachoeira. Vendo meu desespero, meu amigo mergulhou e saiu em meu socorro. Em vez de levar-me direto para o lado onde havíamos estacionado o carro, Severino nadou na direção oposta. Depois do susto, ele me disse: – Agora vamos ter que voltar para o outro lado. – Mas como? perguntei. – Você quer me matar? Calmamente, Severino me explicou o ‘macete’ para atravessar a correnteza. Eu teria que nadar numa reta diagonal oposta à correnteza, de maneira que, mesmo me empurrando, não conseguiria me arrastar até a altura da cachoeira. Tomei coragem e fôlego e resolvi encarar.

Este episódio me ensinou uma importante lição que serve como analogia do papel da igreja inserida no mundo.

Qualquer pai gostaria de proteger seus filhos, colocando-os numa redoma. Porém isso não contribuiria para o seu amadurecimento, nem para o cumprimento de sua vocação. Nossos filhos devem ser preparados para o mundo.

Em Sua oração sacerdotal, Jesus pede ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo.17:15-18).

Se Jesus rogasse para que o Pai nos removesse do mundo, em vez de santificados, seríamos alienados. Não podemos ficar à margem do rio, apreciando suas correntezas, enquanto nos mantemos enxutos. Temos que mergulhar de cabeça, na certeza de que, se nos virmos em apuros, o Pai virá em nosso socorro.

Porém, para sobrevivermos ao ambiente hostil deste mundo, temos que aprender a nadar contra a correnteza. Um exemplo clássico encontrado nas Escrituras é o de Daniel e seus companheiros exilados na Babilônia. Eles foram inseridos dentro daquela cultura, mas não foram assimilados por ela. Embora vivendo dentro dos palácios, não comeram do manjar do rei.

Deixe-me usar uma analogia para compreendermos a diferença entre inserção e assimilação.

Se você preparar um copo de suco daqueles em pó, perceberá que ele se diluirá na água. É claro que a água será alterada, tanto no sabor, quanto na cor e na textura. Mas o pó se perderá. Não há como recuperá-lo, pois foi assimilado pela água. Já o processo usado para fazer chá é diferente. Mergulha-se a trouxinha de chá na xícara de água quente, de maneira que suas propriedades são absorvidas pela água, alterando igualmente seu sabor, cor e textura. Porém, as folhas do chá não se dissolvem na água. Elas estão guardadas dentro da trouxinha. A este processo chamamos de inserção. O chá foi inserido, mas não assimilado.

Não fomos tirados do mundo, mas enviados a ele com a missão de transformá-lo. Porém, ao nos inserirmos nele, entramos numa rota de colisão com seus interesses, valores e princípios. Somos enviados na contra-mão das tendências que nele predominam. Somos considerados corpos estranhos que devem ser combatidos por anti-corpos hostis. Jesus deixou claro aos Seus discípulos: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu. Mas como não sois do mundo, antes, dele vos escolhi, é por isso que o mundo vos odeia” (Jo.15:18-19). Tornamo-nos uma ameaça ao status quo, pois somos portadores de uma mensagem subversiva e revolucionária proveniente de outro mundo, a saber, o mundo porvir. Esta mensagem vem na direção oposta aos interesses deste mundo, por isso, eventuais colisões são inevitáveis.

Repare no que Paulo diz:

“Ele vos vivificou, estando vós mortos nossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo…” (Ef.2:1-2a).

Antes estávamos sendo arrastados na direção do abismo, e por estarmos espiritualmente mortos, não tínhamos condição de reagir. Mas agora que fomos vivificados, somos impulsionados pelo Espírito, não para deixarmos o mundo, mas para encararmos suas correntezas.

Tal qual Jesus, não pertencemos ao mundo. Porém, somos enviados a ele. Não se trata, portanto, de pertencimento, mas de engajamento.

Posso imaginar o tom grave da voz de Jesus ao declarar aos Seus discípulos: “Ide. Eu vos envio como cordeiros ao meio de lobos” (Lc.10:3).

Isso significa que o risco de serem devorados era real. O terreno para o qual Jesus os estava enviando era minado. Portanto, eles não deveriam ser ingênuos, e sim “prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt.10:16b). Num certo sentido, estar no centro da vontade de Deus é expor-se ao perigo constante. No dizer de Paulo, “estamos sempre entregues à morte por amo de Jesus” (2 Co.4:11a). Sem a prudência das serpentes, estaríamos vulneráveis aos constantes imprevistos. Sem a simplicidade das pombas, assimilaríamos a maldade do mundo, tornando-nos semelhantes a ele. Há que se cultivar essas duas virtudes para que mantenhamos o equilíbrio, sem perder a essência. Prudência sem simplicidade nos faz maliciosos. Simplicidade sem prudência nos faz ingênuos, portanto, presas fáceis.

Cabe aqui a advertência de Paulo: “Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento” (1 Co.14:20). O problema é quando invertemos a ordem, tornando-nos meninos no entendimento, e adultos na malícia. É como querer boiar na correnteza… Somos açoitados por sua impetuosidade, e levados na direção oposta a que deveríamos seguir. O mesmo apóstolo nos admoesta a que “não sejamos mais meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia induzem ao erro” (Ef.4:14).

Jamais nos esqueçamos de que não pertencemos a este mundo, mas ao mundo do futuro. Por isso, o ambiente do mundo nos parece hostil. O nadador sabe que não é um ser aquático. Ele não é peixe. Não pode respirar dentro d’água. Por isso, tem que voltar à superfície com regularidade para recobrar o fôlego. Ele sequer precisa deixar a água para respirar. Basta posicionar suas narinas de maneira tal que possa encontrar o ar de que necessita pra viver.

Igualmente, vivemos na fronteira entre este mundo e o mundo porvir, de onde provém nosso fôlego espiritual. Nossa sobrevivência depende de nossa constante comunhão com o Espírito Santo. “Enchei-vos do Espírito!”, exclamaria Paulo (Ef.5:18). Não se trata de algo opcional. Não manter o ritmo da respiração enquanto se enfrenta as correntezas, poderá ser fatal.

E como se dá esse enchimento? Quando nos congregamos para ouvir e compartilhar daquilo que Deus nos tem provido. É na congregação que aprendemos o caminho da convivência, sendo desafiados a superar nossas diferenças, sujeitando-nos uns aos outros (Ef.5:18-21). É lá que aprendemos a nos considerar uns aos outros, “para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hb.10:24b).

A vida acontece lá fora, dentro do contexto social nos qual estamos inseridos. Porém, o fôlego espiritual do qual dependemos para sobreviver recebemos na comunhão com os santos, na dinâmica dos relacionamentos entre os irmãos.

quarta-feira, dezembro 24, 2014

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Evidência de que Jesus pode ter nascido em Dezembro



Por João Pedro Robalo

Sempre que nos aproximamos desta quadra, surgem as teorias de conspiração sobre tudo o que rodeiam as celebrações, os símbolos que a identificam e como foi construída toda a festa ao redor da celebração.

A data escolhida colhe a maioria das críticas, além da comercialização ao redor da festa, assim como a perda do significado do natal, ao ponto de haver quem acuse de celebrar o "aniversário" de Jesus, como se fosse isso que estivesse em causa.

Escrevo esta pequena reflexão, porque é da parte da nossa área cristã, de onde surgem as críticas mais ferozes e injustas à celebração do Natal.

Não posso deixar de concordar que alguma parte da mensagem principal do Natal, perdeu-se; melhor dizendo, esbateu-se perante outras figuras e símbolos comerciais, que o interesse econômico impôs.

No, entanto, não são os exageros ou erros que me farão desviar da responsabilidade cristã em festejar uma das mais importantes datas do cristianismo.

A ÁRVORE

Uma das críticas que mais surge, o uso da árvore da natal como símbolo, atrai uma parafernália de suspeições e disparates.

Não vou discutir a possibilidade de origens pagãs que alguns invocam, não que consigam relacionar com o nosso uso do pinheiro de natal, mas relembrar que, segundo a tradição, foi o gigante da reforma Martinho Lutero que, pela primeira vez trouxe para o seu lar um ramo de abeto o enfeitou com velas e papéis coloridos para celebrar em família a data do nascimento de Jesus.

Se conseguirem ligar Lutero a qualquer prática de paganismo ou idolatria, então talvez possamos olhar para o pinheiro de natal desse prisma.

Claro está que para alguns Lutero foi apenas um sujeito que deu uma "mãozinha" para nos emanciparmos do catolicismo doentio em que a cristandade havia caído.

Para reforçar, convido os meus amigos estudiosos da Bíblia, a verificarem quantos encontros com seres celestiais os patriarcas tiveram debaixo de árvores, onde em alguns casos assumiam um significado simbólico de lugar de adoração do verdadeiro Deus.

Como vêem, não precisamos ir às práticas pagãs para encontrar similaridade em alguns símbolos que hoje adotamos.

OS PRESENTES

A troca de presentes, para alguns, também tem origem em todas as religiões pagãs, menos na Bíblia. Dá vontade perguntar se quem afirma tal lê as Sagradas Escrituras.

Não me vou refugiar no fato dos magos vindos do oriente o fazerem - não eram três, nem Reis e não surgiram na noite do nascimento do Salvador - mas oferecer presentes e troca simultânea, era uma prática judaica em certas festividades, as quais ainda hoje algumas delas são mantidas.
Esdras e Neemias incentivaram o povo que se encontrava em lágrimas e profunda comoção, para celebrarem o dia do Senhor com alegria e festa, enviando porções a quem não tinha nada para o fazer.

Se acham hipócrita esta reciprocidade egoísta de troca de presentes - por vezes é - está nas mãos de cada um a oportunidade de fazer diferente. Envie algo a quem nada tem, convide alguém para se juntar a si, construa algo diferente neste natal.

A DATA

A data é talvez o aspecto mais controverso a respeito do nascimento de Jesus. Aprendi desde cedo que esta não seria a data mais apropriada para o fazer, porque seria impossível Jesus ter nascido neste período do ano. (Os pastores estavam no campo, que inviabilizaria a possibilidade de Dezembro)

Não posso garantir que a escolha da data seja inocente, mas não pelas causas que alguns advogam.

Temos uma prática cristã bem enraizada de tomar datas, lugares e símbolos de religiões e cultos pagãos, não para sincretismo, mas demonstrar a superioridade do Deus que adoravam.

Acontece que, de onde menos se esperava surgem agora dados que podem oferecer à data possibilidade verossímil.

O professor S. Talmon da Universidade de Jerusalém, baseado em documentos encontrados em Qumran, conseguiu precisar as 24 ordens cronológicas das classes sacerdotais. A de Abias é que nos interessa, porque com esta ajuda sabemos que o pai de João Baptista, Zacarias, terá servido no templo entre 23 a 25 de Setembro.

Este anuncio da concepção de Isabel que, de acordo com o Evg. de Lucas, nos oferece a precisão cronológica difereniada em seis meses em relação à concepção de Maria, o que aponta o nascimento de Jesus para o mês de Dezembro.

CELEBRAR O NATAL

Seguindo o significado etimológico da palavra natal temos o que celebramos nesta data: O nascimento do Salvador.

Não é um aniversário, mas a celebração da vinda à terra em forma milagrosa e única - como Kaesman refere; irrepetível - do Verbo que encarnou, para nos salvar.

Deus não podia deixar que este evento fosse deixado ao acaso, por isso, os anjos - em número elevado - visitam os pastores e os convidam a juntar-se aos pais jovens naquela noite.

Não sei se isto lhe é relevante, mas Deus organizar esta festa e alarido, não foi de certo um equívoco ou inocente.

A mim é suficiente para escolher alguma data do ano e lembrar que, em dado momento crucial da História o céu invadiu a terra, ainda que de forma frágil e humilde, alterando para sempre o curso da mesma.

"Glória a Deus nas maiores alturas, paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem."
Lc.2.14

Posso celebrar o nascimento de Jesus em qualquer altura do ano, mas se à tradição juntar a possibilidade de ser no momento certo, ainda melhor.

Celebrar o natal é celebrar a boa vontade divina que resulta em esperança para a humanidade.

Que me desculpem todos os detratores da festa do natal - aqueles que tentam desvalorizar esta celebração universal, ou os que despem de sentido o significado do mesmo com consumismos descontrolados - mas neste natal, ainda por cima à espera de mais um membro para a família, vou festejar com alegria e com toda a gratidão pela dádiva de Deus ao mundo.

Continuo, e continuarei a celebrar esta quadra com consciência do seu real e verdadeiro valor: A salvação chegou até nós, "porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu..." Is.9.6

Bem-haja

João Pedro Robalo (Título original: Porque festejo o Natal!)

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

18

Tá quente... tá frio... tá morno!





Por Hermes C. Fernandes

Quem nunca brincou de “tá quente-tá frio”? Se não está ligando o nome à brincadeira, deixe-me explicar: trata-se daquele jogo infantil em que a criança tem seus olhos vendados, e tenta encontrar algo através do tato, enquanto as outras crianças dizem “está quente” ou “está frio” de acordo com a proximidade da coisa que se almeja achar. A graça da brincadeira é dizer que tá quente, quando na verdade tá frio. O problema é que ninguém se segura, e acaba caindo na gargalhada, revelando assim o embuste.

Penso que isso sirva de analogia para a relação entre a igreja e a cultura. Como cristãos, cremos que tivemos nossos olhos desvendados, e fomos arrebatados do império das trevas para o reino da luz. Porém, o mundo ao nosso redor segue mergulhado na escuridão. Devo esclarecer que não me refiro aos cristãos nominais, cegos em sua presunção religiosa, mas àqueles que, de fato, foram encontrados e transformados pelo amor que emana de Deus, e que personalizou-se na figura histórica do Nazareno.

Como cristãos, não podemos fazer vistas grossas ao que acontece à nossa volta. As Escrituras dizem que as nações andariam à nossa luz. Compete-nos, portanto, ajudar àqueles cujas vistas parecem estar ainda vendadas.

É claro que entre os ‘vendados’, há os que estão ‘quentes’ e os que estão ‘frios’ em sua busca. Isso pode ser facilmente percebido através de expressões culturais, seja na música, na poesia, na dramaturgia, nas artes plásticas, e até na ciência. Como também pode ser percebido na práxis adotada por cada um.

Em seu discurso no Areópago de Atenas, Paulo resume a verdade bíblica magistralmente. Ele afirma, sem medo de errar, que o Deus desconhecido a quem eles dedicaram um altar, é o Criador do Mundo e de tudo quanto existia, e que não carece de ser servido por mãos humanas. Também diz que ele mesmo havia estabelecido as nações, ordenando de antemão quais seriam seus limites geográficos e históricos. Segundo o apóstolo dos gentios, “Deus fez isto para que o buscassem, e talvez, tateando, o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós” (At.17:27).

Após esta contundente declaração, Paulo cita os poetas/filósofos gregos: “Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos. Como também alguns dos vossos poetas disseram: Somos também sua geração” (v.28). Seria como se um pregador de nossos dias resolvesse citar um autor secular famoso em um de seus sermões. Quem bom que Paulo não estava se dirigindo a crentes legalistas de nosso tempo, ou estaria se metendo numa encrenca das boas.

Em outras palavras, era como se o apóstolo dissesse: Está quente! Vocês não estão longe d’Ele. Estão chegando cada vez mais perto. Mas estou aqui para desvendar seus olhos para que finalmente vocês O encontrem.

Se fossem alguns pregadores de hoje, aquele altar teria sido derrubado num verdadeiro show de exorcismo e desrespeito à crença alheia. É difícil falar disso e não lembrar do episódio em que o bispo da igreja universal chutou a imagem de uma santa católica em pleno programa de TV. O que teria feito Paulo numa situação daquela? Teria xingado a imagem? Creio que não. Em vez disso, teria dito: Maria, a mãe do Salvador, por quem vocês têm tamanho respeito e devoção, foi quem disse acerca de seu Filho: Fazei tudo quanto Ele mandar. E por aí, Paulo conquistaria o coração até do mais fervoroso devoto mariano.

Imagine um pregador de hoje ter a ousadia de citar Chico Xavier para anunciar as boas novas aos espíritas? Ou ainda: que tal citar Maomé para introduzir a mensagem de Cristo aos muçulmanos? Ousado, não?

Mas a gente prefere gritar: Tá frio! Vocês estão completamente errados em sua fé! Chico Xavier era apenas um embuste! Maomé era um falso profeta! Buda não passava de um glutão safado!

E o pior é que com esta postura, estamos cada vez mais afastados daqueles que realmente necessitam conhecer a Luz do Mundo. E enquanto atacamos os que julgamos estar frios, nós estamos nos amornando, como a igreja dos laodicenses. Achamo-nos tão perto, e não percebemos o quanto estamos nos distanciando da verdade, na mesma medida em que nos distanciamos do amor. Tão perto, mas tão distante. Bom seria se déssemos ouvidos à advertência de Jesus à igreja de Laodicéia: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem qunte, vomitar-te-ei da minha boca. Dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta. Mas não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu.  Aconselho-te que de mim compres ouro refinado no fogo, para que te enriqueças; e vestes brancas para que te vistas, e não seja manifesta a vergonha da tua nudez; e colírio, para ungires os teus olhos, a fim de que vejas” (Ap.3:15-18).

Bem que podiam ter dormido sem esta! Não se enganem. A carapuça cabe em nossas cabeças. Achamo-nos tão ricos, que jamais aceitaríamos que a cultura ao nosso redor tivesse qualquer contribuição a dar. Fechamo-nos hermeticamente em nosso mundinho gospel, a ponto de deixarmos de fora o próprio Jesus, que insistentemente bate à porta, conclamando-nos a cear com Ele. Aliás, Jesus toma a realidade social e cultural da cidade Laodicéia como analogia do estado espiritual em que aquela igreja estava. O colírio, por exemplo, era produto daquela região. Eis o exemplo de uma espiritualidade engajada com a realidade, aberta ao diálogo respeitoso, sem contudo, abrir mão da verdade do Evangelho.

Penso que nosso maior problema é com a presunção. Somos os santos, os eleitos, os sabichões, e que, ainda por cima, têm que aturar este monte de gente pecadora. Cabe aqui a reflexão certeira de Tomás de Aquino: “A santidade não consiste em saber muito, meditar muito, pensar muito. O grande mistério da santidade é amar muito." Tenho a impressão de que muitos cristãos contemporâneos estão entre aqueles para quem Paulo declara: “Confias que és guia dos cegos, luz dos que estão trevas, instruidor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo?”(Rm.2:19-21a).

Que tal se mirássemos nossas críticas mais ferrenhas em nossa própria direção, e olhássemos com mais amor e compaixão aqueles que nos rodeiam?

quinta-feira, maio 16, 2013

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Quando Deus dá asas a cobra





Por Hermes C. Fernandes

Serpentes. Só a menção deste nome já causa arrepios em muita gente. Na primeira vez que morei na Flórida, tive que expulsar uma serpente que invadira nosso quintal. Vali-me do báculo episcopal que havia recebido em minha sagração a bispo. Recentemente, uma serpente negra, muito parecida com aquela que enfrentei, apareceu em nosso jardim. Tânia, minha esposa, tentou espantá-la, porém em vão. Sorte a nossa que essas serpentes negras, tão comuns nesta região da América, não são peçonhentas. Bem diferentes daquelas que, segundo a tradição, foram expulsas da Irlanda por Patrício, bispo cristão que viveu entre 385 e 461 d. C. Até hoje não há cobras em território irlandês. Segundo a lenda, a Irlanda era infestada de serpentes, até o dia em que Patrício as expulsou.

Geralmente, acredita-se que sonhar com serpentes indica que alguém está sendo traído. Eu mesmo passei por uma experiência destas.

Havia um pastor em nosso ministério em quem eu confiava cegamente. Eu o tinha como um filho, e um dos possíveis candidatos à minha sucessão. Minha confiança nele era tão grande, que deixei-o à frente da igreja que eu mais amava. Prestes a viajar para o Exterior, tive uma sensação horrível, e temi que algo fosse acontecer durante essa viagem. Convidei-o a ir à minha casa, e chamando-o ao meu quintal, disse-lhe o quanto confiava nele, e pedi para que, caso algo me acontecesse, ele jamais deixasse apagar a chama da mensagem da graça e do reino de Deus (ênfases em nosso ministério). Com lágrimas nos olhos, eu o abracei como um pai ao filho. Naquele momento, minha mente foi remetida a um sonho que havia tido dias antes. Sonhei que aquele mesmo quintal onde nos abraçamos, estava infestado de serpentes. Uma grande, e muitas pequenas. Não comentei o sonho com ele, mas senti que aquele abraço poderia encontrar paralelo com o beijo dado por Judas em Jesus. Tempos depois, esse mesmo pastor agiu traiçoeiramente contra o meu ministério, expondo-me publicamente com acusações infundadas. Infelizmente, ele não se arrependeu do que fez, embora lhe tivéssemos dado chance para tal, mas provocou a divisão de uma das nossas principais igrejas (que eu mesmo havia iniciado anos antes), contagiando aquele povo que tanto amávamos, provocando-o contra nós e o nosso ministério. Foi um dos momentos mais dolorosos que passei em toda a minha vida. Já havia sido traído antes, mas não por alguém que eu considerava um filho. Embora o tenha perdoado, confesso que ainda dói, principalmente quando lembro das lágrimas dos meus filhos diante daquela injustiça. A hemorragia se estancou, mas a ferida ainda está inflamada. Alguns dos que aderiram à rebelião, se arrependeram depois, procurando-me com pedidos de perdão, pois caíram em si e perceberam o que havia por trás de tudo aquilo: orgulho e ganância, tão característicos da natureza humana.

A serpente não é apenas símbolo de traição, como também é símbolo da malignidade de nossa própria natureza. Por isso, o salmista exclama: “Desviam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nascem, proferindo mentiras. Têm veneno semelhante ao veneno da serpente; são como a víbora surda, que tapa os ouvidos” (Sl.58:3-4). Não era em vão que Jesus se dirigia carinhosamente aos religiosos hipócritas de Sua época, chamando-os de “serpentes, raça de víboras!” (Mt.23:33).

A figura da serpente habita o imaginário popular, deixando de ser apenas um réptil asqueroso e rastejante para tornar-se num poderoso arquétipo. A palavra 'arquétipo' (grego archétypon) pode ser traduzida por "modelo", "padrão", ou "tipo primitivo". De acordo com Carl Jung, pai da Psicologia Analítica, os arquétipos "são as partes herdadas da psiquê", padrões de estruturação do que Jung denominou de inconsciente coletivo. Assim como temos uma herança biológica, também teríamos uma herança psíquica. Estruturas com as quais já nascemos. Cada nova geração assenta num novo tijolo neste muro psíquico.

A serpente é um desses arquétipos que acompanham a humanidade desde os primórdios.

Nas páginas das Escrituras, ela aparece pela primeira vez como aquela que tenta o primeiro casal, fazendo-os comer do fruto que Deus havia proibido. A partir deste episódio fatídico, a serpente passou a habitar no inconsciente coletivo da humanidade, alimentando-se do pó produzido pelo caminhar do homem, conforme Deus havia sentenciado.


Com o passar do tempo, a serpente foi evoluindo. Conquanto tenha perdido a habilidade de andar, passando a rastejar, ela acabou por desenvolver a habilidade de voar. A serpente do Éden ganhou asas, deixando de ser um réptil rastejante, para ser um dragão alado.

Ou não é isso que lemos em Apocalipse?

“E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, que engana a todo o mundo” (Ap.12:9).

Pelo jeito, o diabo conseguiu dar um upgrade na imagem construída no imaginário popular. Mas não deixou de ser o enganador-mor, inspirador de toda dissensão entre os homens; aquele que entra sorrateiramente, sem ser percebido, e ali semeia a discórdia, o ódio, o ressentimento.

O mesmo Deus que permitiu que a serpente se infiltrasse no Paraíso sem ser notada, também permitiu que ela criasse asas, tornando-se assim o príncipe das potestades do ar. Porém, suas asas são como as de Ícarus. Na medida em que tenta se elevar, elas vão derretendo, como asas de cera. O mesmo orgulho que o impulsiona para cima, torna maior o seu tombo. Por isso, ele é precipitado das alturas. Lá não é seu lugar. Todos quanto o seguirem, juntamente cairão.

Embora dotado de asas, o pavão sabe como disfarçá-las. Sabe como entrar num ambiente sem chamar a atenção para si.

Daí a preocupação de Paulo com os fiéis de Corinto:

“Mas temo que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos entendimentos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo. Pois se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, de boa mente o suportais...” (2 Co.11:3-4).

Como pessoas que experimentaram a graça de Deus podem dar ouvido a qualquer espírito? Deixam a simplicidade do genuíno Evangelho da Graça por aquilo que foi gerado em corações doentes, cheios de amargura, vaidade e ganância.

Sem dúvida, o temor de Paulo era justificável. “E não é de admirar, pois o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus ministros se transformem em ministros da justiça. O fim deles será conforme as suas obras” (vv.14-15).

Tais obreiros fraudulentos não sabem o que estão entesourando para si. Veja a exortação que lhes é destinada: “Não te alegres, tu, toda a Filístia, por estar quebrada a vara que te feria; da raiz da cobra sairá um basilisco, e o seu fruto será uma serpente venenosa e voadora” (Is.14:29). Os filisteus festejavam por terem se livrado do domínio de quem os conquistara. Mas não sabiam que estavam chocando ovos de serpente. O mesmo se deu com Israel quando apostatou-se. Isaías os denunciou: “Ninguém há que clame pela justiça; ninguém comparece em juízo pela verdade. Confiam na vaidade, e andam falando mentiras; concebem o mal, e produzem iniqüidade. Chocam ovos de basilisco, e tecem teias de aranha. Aquele que comer dos ovos deles morrerá, e se um dos ovos é quebrado, sai dele uma víbora” (Is.59:4-5).

Deixe que a serpente exiba suas novas asas. Deixe que sua boca se encha de arrogância. Deixe que se gabe de suas conquistas. O Senhor a julgará!

A mentira será revelada! O que estiver escondido virá à tona. Seus ovos eclodirão, e deles sairão seus filhotes que igualmente o trairão.

É praticamente impossível caminhar pelos corredores do mundo cristão sem se deparar com tais serpentes. Elas estão por aí, em nossos púlpitos, exibindo credenciais pastorais e diplomas de doutorado em divindade. O temor de Paulo nos assombra.

Como sobreviver às suas investidas? Como resistir ao seu encantamento? Como escapar de seu carisma e simpatia?

Se voltarmos à simplicidade do Evangelho, seu veneno perderá sua nocividade.

Paulo havia sobrevivido a um naufrágio, e estava aquecendo-se ao redor de uma fogueira juntamente com os demais sobreviventes e alguns nativos da Ilha onde encontraram socorro. De repente, uma serpente salta da fogueira e se lhe apega a mão. Os nativos sabiam que era uma espécie ultra-venenosa, e ficaram esperando pelo momento em que ele cairia morto. Paulo simplesmente sacudiu a serpente, devolvendo-a ao fogo. As horas se passaram, e ele sequer queixou-se de mal estar. Apesar de ter sido julgado mal, de ter sido acusado injustamente, Paulo não deu ouvidos a nada disso, e prosseguiu em seu caminho (At.28:1-5).

Não se preocupe com o que digam a seu respeito. Não tente provar nada a ninguém. Sacode a serpente! Devolva-a ao fogo de onde saiu, e siga em frente. Só não vale prosseguir com a serpente apegada à sua mão.

Jesus garantiu a Seus discípulos que eles segurariam em serpentes, e elas não lhes faria mal algum (Mc.16:18). Estamos vacinados contra o seu veneno. No final, a verdade sempre prevalece. Podemos segurar em serpentes, mas não deixar que elas nos segurem.

Ele nos deu poder para pisarmos serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada, absolutamente nada nos fará dano algum (Lc.10:19).

Na finalização de sua carta aos Romanos, Paulo os admoesta e lhes apresenta uma promessa:

“Rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes. Desviai-vos deles. Pois os tais não servem a Cristo nosso Senhor, mas ao seu ventre. Com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos incautos (...) O Deus de paz esmagará em breve a Satanás debaixo dos vossos pés” (Rm.16:17-18,20a).

Que assim seja!


Publicado originalmente em 08/10/2009

terça-feira, março 05, 2013

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Perdoa-me por me enganares




Por Hermes C. Fernandes

“Perdoa-me por me traíres” é um filme brasileiro de 1983, dirigido por Braz Chediak e com roteiro adaptado de um texto de Nelson Rodrigues. No drama, o marido começa a sentir ciúme doentio da esposa, que, para fazer jus à sua desconfiança, passa a agir de acordo com suas acusações. Chega a um ponto em que o marido tem que reconhecer que é o principal culpado pelas traições da esposa. Este título cairia muito bem dentro da relação vivida em muitas igrejas entre os que enganam e os que se deixam enganar.

Até que ponto temos responsabilidade pelo sucesso adquirido por certos ministérios que se apostataram da verdade?

Recentemente assistimos à confissão de um conferencista que admitiu ter mentido em suas palestras e testemunhos. Que bom que ele pediu perdão. Porém, persistiu na mentira por dez anos. Por quê? Por que não se arrependeu antes? Como pode deitar a cabeça no travesseiro à noite todo esse tempo sabendo que iludia pessoas? Entre outras mentiras, ele contava ter sido curado de síndrome de down. Quantos pais de filhos portadores desta mesma síndrome se encheram de esperança, que logo fora substituída por uma imensa frustração por não terem alcançado o mesmo resultado? Isso me enoja. Tenho uma filha especial e sei o quanto dói. Embora Deus a tenha feito andar, quando os médicos lhe haviam desenganado, ela continua sendo uma criança especial. Não tenho o direito de acrescentar nada ao seu testemunho.

Os aplausos que recebia, os convites para pregar dentro e fora do Brasil, as ofertas, a vendagem dos CDs e DVDs, enfim, era muita coisa em jogo. Romper com tudo isso requereria muita coragem e disposição para sofrer o prejuízo.

Assim como ele veio a público demonstrando arrependimento, sugiro que seus fãs, seguidores e apoiadores também venham a público se arrependendo de sua ingenuidade e do incentivo que deram para que continuasse a mentir. Seu líder, em vez de simplesmente se desculpar, deveria igualmente se arrepender de tê-lo apoiado sem averiguar a veracidade de seus testemunhos.

Enquanto houver quem apoie este circo gospel que se armou em nossa nação, dificilmente alguém terá a coragem que teve este conferencista.

Tão culpados quanto os falsos mestres são aqueles que sentem comichão nos ouvidos, atraídos por novidades, novas revelações e ventos de doutrina. Paulo os denuncia dizendo que os tais “cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças; se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando às fábulas” (2 Tm. 4:3-4).

Tenho a nítida impressão de que essa gente gosta mesmo de ser enganada. Minha conclusão, baseada nas Escrituras, é que tais ministérios de iniquidade são juízo de Deus sobre os que não buscam nem amam a verdade, e sim a conveniência. “Por isso Deus lhes envia a operação do erro, para que creiam na mentira, e para que sejam julgados todos os que não creram na verdade, antes tiveram prazer na iniquidade  (2 Ts. 2:9-12).

Poucos são os que de fato podem ser considerados inocentes. A maioria não é ingênua, mas tão-somente busca ouvir o que lhe apraz. Por isso os mentirosos se dão bem.

Não basta que os enganadores se arrependam. Os enganados também precisam se arrepender e voltar-se para a Verdade.

Há uma indústria de testemunhos que precisa falir. Mas enquanto houver pastores dispostos a pagar os cachês exigidos por esses “testemunheiros profissionais”, esta indústria prosseguirá a todo vapor.
Cantores que cobram cachês de igrejas para louvar têm que vir a público e pedir perdão. Mas pastores que se prontificam a pagar também têm que confessar seu pecado.

Espero sinceramente que a confissão de Davi Silva seja aquela nuvenzinha do tamanho de uma mão, que anuncie a chegada de uma abundante chuva. Que muitos outros o tomem como exemplo e se arrependem de suas mentiras, não só as ditas no púlpito, mas também as espalhadas pelos corredores, proferidas nos gabinetes, estampadas nos outdoors, postadas nos blogs, etc. 

Não adianta dizer que mentiu com a melhor das intenções, no afã de estimular a fé das pessoas, ou mesmo para a glória de Deus. Ora, Deus não precisa de embustes para ser glorificado. Sejamos, pois, verdadeiros em tudo para que mais tarde não tenhamos do que nos envergonhar, nem do que nos arrepender, e assim, poupemos o Evangelho de mais um escândalo.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

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Os Donos da Agenda de Deus




Por Hermes C. Fernandes


Deus agora é refém das agendas feitas por seus empresários. Perdeu Sua soberania! Sabe aquela história de que o vento sopra onde quer, e ninguém sabe de onde vem, nem pra onde vai? Pois é... já era! Agora o vento sopra onde e quando os empresários de Deus determinarem.

Tem quem ache que pode agendar uma audiência com o Criador. Não há mais lugar para surpresas. Agora é tudo com hora marcada e endereço certo. E ai de Deus se não corresponder às expectativas! Corre o risco de perder o trono.

Algumas igrejas oferecem um tipo de cardápio aos seus fiéis, onde há um dia certo para Deus curar, outro para Deus prosperar, e ainda outro para abençoar as famílias. Se o doente vier no dia errado, volta pra casa com sua enfermidade.

Tem até quem agende um dia especial para um encontro com Deus. E se a pessoa morrer antes do tal encontro? Coitada! Vai direto pro beleléu, sem direito a escala.

Perdeu-se completamente a reverência ao sagrado.

Cabe aqui a advertência do sábio Salomão: “Não presumes do dia de amanhã, pois não sabes o que produzirá o dia” (Pv.27:1).

Quanta presunção humana achar que pode impor limites ao agir de Deus!

Tiago ecoa a mesma admoestação:

“E agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, lá passaremos um ano, negociaremos e ganharemos. Ora, não sabeis o que acontecerá amanhã. O que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e logo se desvanece. Em lugar disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo. Vós vos jactais das vossas presunções. Ora, toda jactância tal como esta é maligna.” Tiago 4:13-16

Repare bem: Se não somos donos nem de nossa própria agenda, quanto mais da agenda de Deus. Ele é quem determina os tempos e as horas (Dn.2:21).

Em vez de anunciar que em tal dia Deus vai fazer isso ou aquilo, deveriam anunciar que em tal dia estarão orando em favor de algo, na expectativa de serem atendidos, se for esta a vontade soberana de Deus. Não se trata de falta de fé, mas de total confiança em Deus.

Ele não Se deixa manipular por ninguém!

Lucas registra um episódio interessante que exemplifica isso:

“Naquele mesmo dia chegaram uns fariseus, dizendo-lhe: Sai, e retira-te daqui. Herodes quer matar-te. Respondeu-lhes Jesus: Ide dizer àquela raposa: Eu expulso demônios, e efetuo cura, hoje e amanhã, e no terceiro dia terminarei. Importa, porém, caminhar hoje, amanhã, e no dia seguinte, para que não suceda que morra um profeta fora de Jerusalém.” Lucas 13:31-33

Que petulância dos fariseus! Quem eram eles para tentar apressar Jesus? Pois Ele tem Sua própria agenda a cumprir, e não está disposto a mudar Seu cronograma. Não há ameaças, ou chantagem emocional que possam dissuadi-Lo de seguir a rota programada pelo Pai.

Portanto, deixemos de lado a arrogância religiosa, e submetamo-nos à agenda de Deus, deixando-O à vontade para agir quando, onde e através de quem Ele quiser.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

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Conheça a Igreja Apostólica do Reino da Berinjela

berinjela 
Por Hermes C. Fernandes


Semana passada minha esposa descobriu mais uma receita ‘milagrosa’ para emagrecer. Trata-se do pó da berinjela. Segundo um vídeo que assistimos no youtube, bastaria levar a berinjela ao forno, assá-la bem, deixando-a desitradar-se, e depois moê-la. Daí, é só misturar o pó da berinjela a qualquer suco e tomar esperando o milagre.

A pedido dela, fui ao supermercado comprar 1 kg. de berinjela. Não fiquei muito animado quando vi que o preço dela aqui nos Estados Unidos é bem maior que no Brasil. Mas tudo bem. Pelo menos me ajudaria a livrar-me de alguns centímetros de barriga.

Fizemos tudo como pesquisamos na internet. Misturamos o pó ao suco de uva e tomamos. Já faz mais de uma semana, e ainda aguardamos o tal milagre.

Resolvi pesquisar um pouco mais e deparei-me com a razão pela qual a berinjela parecia não fazer muito efeito para nós.

Além do tal pó, o candidato ao emagrecimento deve seguir uma rigorosa dieta e fazer exercícios e caminhadas diários.

Êpa! Peraí… quer dizer que eu tenho que caminhar trinta minutos todos os dias, deixar de comer as iguarias que tanto aprecio, freqüentar uma academia, e no fim… é a berinjela que recebe as glórias?

E que tal se eu fizer todas essas coisas, sem precisar ter o trabalhão de moer berinjela? Será que eu não terei os mesmos resultados?

Pois da primeira vez que emagreci, perdi trinta quilos sem precisar recorrer a qualquer fórmula mágica. Apenas caminhando, fazendo ergométrica e comendo menos.

Onde é que quero chegar com esta analogia? (não sei se todos perceberam, mas é uma analogia tirada da vida real).

Ontem postei um artigo falando dos ministérios enganadores que seguem prosperando, sem que isso signifique que tenham a aprovação divina.

Logo recebi o comentário de alguém achando que eu estava me referindo a uma determinada denominação. Postando como anônimo, defendeu sua igreja declarando que foi lá que teve sua vida transformada, foi curado, alcançou prosperidade, tal e coisa, coisa e tal… Muita gente parte do mesmo raciocínio. Ora, se tem tanta gente sendo beneficiada, então, deve ser de Deus, e não pode ser criticada. Se está sempre lotada, é porque Deus aprovou. Será?

E se tais igrejas não passarem de “pó de berinjela”?  A pessoa que lá chega, deposita sua fé em Deus, busca, ora, e eventualmente é alcançada, mas em vez de reconhecer em Cristo a fonte única das bênçãos, prefere creditá-las à tal igreja, à ‘fogueira santa’, ou ao bispo, pastor ou apóstolo.

Desde os tempos apostólicos, já havia quem pregasse a Cristo com motivações excusas. Nem mesmo Jesus os coibiu, e ainda impediu Seus discípulos que o fizesse (Mc.9:38-40). Paulo chega a dizer que não se importava, desde que Cristo fosse anunciado (Fp.1:15-18). Porém, isso não significa que Jesus ou Paulo estivessem endossando a pregação de tais homens. Em vez disso, Paulo nos admoesta a quem não recebamos quem quer que pregue um evangelho que vá além do genuíno (Gl.1:6-9). E mais: se abraçamos outro evangelho, consequentemente recebemos ‘outro espírito’ (2 Co.11:4). E é aí que mora o perigo. Muita gente tem recebido outro espírito, achando tratar-se do Espírito Santo de Deus. Será por isso que em algumas igrejas, pessoas recebem supostamente o Espírito Santo na quarta-feira, e quando chegam na tal “sessão do descarrego”, manifestam demônios?

Não duvido que nesses ambientes haja pessoas sinceras, e que têm sido alvo das misericórdias de Deus. Porém, os créditos por qualquer benefício deve ser dado ao Senhor. As Escrituras são enfáticas em dizer que Ele não divide Sua glória com ninguém.

A prova bíblica de que sinais miraculosos nem sempre significam aprovação divina pode ser encontrada em Isaías 29:13-16. Leia atentamente:
“Diz o Senhor: Este povo se aproxima de mim com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim. O seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em coisa aprendida por rotina. Portanto, continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá. Ai dos que profundamente escondem do Senhor o seu propósito, e fazem as suas obras às escruas, e dizem: Quem nos vê? E quem nos conhece? Vós a tudo perverteis! Como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse do seu artífice: Ele não me fez; e o vaso formado dissesse do seu oleiro: Nada sabe.”
Confesso que não me impressiono com sinais externos, do tipo, curas, exorcismo, prosperidade. Acredito que o próprio diabo posa promover tais sinais com a intenção de manter as pessoas cativas no erro. Mas quando me deparo com o milagre da conversão, cálo-me reverentemente. Só Deus é capaz de transformar o caráter de alguém. E sinceramente, creio que haja gente realmente convertida em qualquer lugar onde o nome de Jesus seja professado. Este é o maior de todos os milagres. Porém, não deve ser creditado à instituição, mas exclusivamente a Cristo.

Pessoas realmente convertidas não conseguem ficar muito tempo onde o que tem sido pregado não corresponda ao testemunho do Espírito Santo em seu coração. E Este, por Sua vez, testifica acerca da Verdade do Evangelho, e não das convenções e doutrinas humanas.

Chega o momento em que só resta ao convertido uma opção: sair em busca de pastos verdadeiramente verdejantes; romper com o sistema eclesiástico do qual tornou-se prisioneiro, e encontrar um lugar saudável onde possa congregar livremente.

Quem quiser contentar-se com o “pó de berinjela”, sinta-se à vontade.

segunda-feira, janeiro 14, 2013

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Como transformar sua igreja em um Império



Por Paulo C. S. Santos

1. Endureça o coração. Seja indiferente com apelos de mães, padres, bispos, missionários e pastores em crise ou dificuldades. O sofrimento deles não é problema seu.

2. Seja obstinado.  Não deixe ministros, profetas, amigos, colegas, ou qualquer outro a convencê-lo a desistir do seu império.

3. Priorize as coisas.  Entre coisas e pessoas fique com as coisas.

4. Valorize os números. Não importa quem saiu ou quem entrou, o importante é o saldo.

5. Fale as massas. Não perca tempo com indivíduos, fale a auditórios, trabalhe no atacado.

6. Ignore críticas. Mantenha-se surdo quando for criticado, faça ouvido de mercador, rotule os críticos como invejosos.

7. Esconda vulnerabilidades. Convença a todos que tanto você como sua instituiçao não tem problemas, convença aos outros você não se irrita, que não perde a paciência e que tem tudo sobre controle.

8. Ridicularize os reflexivos. Faça pouco caso de intelectuais, pessoas que estudam e os que são capazes de análises profundas, de modo geral eles são pouco influentes com as massas.

9. Dissimule suas intenções. Nunca, nunca, nunca mesmo deixe os outros descobrirem as suas verdadeiras intenções de formar o seu império eclesiástico. A sua carteira de clientes você chamará de ovelhas, a sua mão de obra barata, você chamará de voluntários, os seus empregados você denominará vocacionados. O que importa é a aparência.

10. Domine a linguagem religiosa. Conheça, use e abuse da linguagem religiosa e dos jargões religiosos.

11. Ofereça entretenimento. Mantenha o povo devidamente entretido com programas que enchem os seus olhos e impressionam os seus sentidos. A música ajuda demais.

12. Mantenha o controle. Sob hipótese alguma permita que o poder que você exerce seja dividido com qualquer pessoa. Não participe de associações, alianças ou entidades que você não possa dar a última palavra. Quanto menos pessoas acessarem os balanços menos problema você terá na sua escalada de poder.

13. Cerque-se de limitados. Observe sua equipe, cuide para que somente você brilhe, verifique que a sua equipe é composta de pessoas medíocres e que nunca o ameaçarão.

14. Invista na estrutura. As paredes e os equipamentos valem mais do que os valores, o conforto impressiona mais do que o cuidado. Entre estrutura e pastoreio as pessoas escolherão estrutura.

15. Atente-se para as necessidades. Observe as necessidades do povo e então ofereça o que eles querem, mesmo que você não seja capaz de entregar ofereça. terá se passado muito tempo entre o momento em que eles aderirem e o dia em que descobrirem que você não tem o produto, nesse período o seu império estará consolidado.

16. Seja místico. O misticismo é vital para atrair pessoas desesperadas e inseguras, ele é capaz de escravizar e cegar. Depois de anos de escravidão no misticismo a libertação é quase improvável e às vezes impossível.

17. Aparente ética. Faça com que todos acreditem que você é uma ilha de ética em um mar de iniqüidade. Abuse do discurso ético, mesmo que suas práticas não sejam condizentes. Discursos éticos impressionam e são fáceis de serem feitos.

18. Ria e chore. O sorriso convence as pessoas que você é simpático, o chore convence que você é sensível. Você não deve ser nada disso, contudo as pessoas devem pensar que é.

19. Opte pelos ricos. Não adiante você ter muita gente sobre seu controle se essas pessoas não tem dinheiro no bolso.

20. Evite aproximações. Mantenha uma distancia segura entre você e seus liderados, suas relações devem ser profissionais. Lembre-se imperadores não tem amigos, apenas súditos.

21. O mais importante. Manipule, a massa gosta e não se importa, mesmo que você um dia seja descoberto ainda existirão muitos a sua volta, o suficiente para manter a igreja-império por muitos anos e ainda garantir que seu filho, ou genro herde esse empreendimento.



É possível que agindo assim você terá em meia década algumas centenas ou mesmo milhares de prosélitos, contribuintes alem do mais importante pessoas que não se cansarão de massagear seu ego, afinal é para isso que servem os Impérios, ainda que os chamemos de igrejas.
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Fonte:  Revista Ultimato (Via PCAmaral)