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sábado, fevereiro 16, 2019

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Deus das Esferas



Por Hermes C. Fernandes

Política e religião. Fé e Ciência. Igreja e Estado. Vida pública e vida privada. Há coisas que não se deve misturar; são como água e óleo. Pertencem a esferas diferentes. Toda vez que insistimos em misturá-las, a confusão é inevitável.

De acordo com o poema da criação, Deus determinou que houvesse separação “entre águas e águas”, isto é, “entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam sobre o firmamento” (Gênesis 1:6-7). Eram, portanto, duas esferas diferentes: Águas superiores e águas inferiores. Ainda que possuíssem a mesma composição química, duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio, essas águas deveriam se manter separadas.

Se o que Deus uniu, não separa o homem, o que dizer daquilo que o próprio Deus separou? Quem ousaria unir?

Ainda em Gênesis, deparamo-nos com a passagem que narra o episódio do Dilúvio. Poucos se atêm ao fato de que o dilúvio não foi causado apenas pelas chuvas, mas também pelo rompimento das reservas subterrâneas de águas. Pela primeira vez, a ordem determinada por Deus foi subvertida, e as águas antes separadas se mesclaram. “Naquele mesmo dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas dos céus se abriram” (Gênesis 7:11). Foi água para todo lado. Águas vindas de cima e águas vindas de baixo. O cataclismo só cessou quando “cerraram-se as fontes do abismo e as janelas dos céus” (Gênesis 8:2).

Apesar de tudo ter ocorrido sob as ordens do próprio Deus, o cataclismo foi fruto da rebelião humana que se configurou na junção carnal entre os seres angelicais e as filhas dos homens, que teria criado uma raça híbrida de gigantes conhecidos como Nefilins (Gênesis 6).

Não se pode unir o que Deus separou! Assim como não se deve separar o que Deus uniu.
Entretanto, as esferas devem coexistir respeitosamente, cada uma em seu quadrado. Convém salientar, porém, que mantê-las separadas não significa que não deva haver qualquer interação entre elas, sobre a qual falaremos adiante.

A igreja é, por assim dizer, uma sociedade fronteiriça, que vive a constante tensão entre dois mundos, o atual e o do porvir, bem como o secular e o sagrado, transitando livremente entre eles, porém, respeitando suas peculiaridades. Nada a impede de dialogar com a cultura, com a ciência, com a academia, e até com outras tradições religiosas. Diálogo implica caminho de mão dupla. Quem dialoga, tanto fala, quanto ouve. Tanta ensina, quanto aprende. Tanto dá, quanto recebe.

A igreja é como Acsa, filha de Calebe, que descontente com a terra seca que recebeu de herança, pediu que o pai lhe abençoasse, dando-lhe fontes de águas. Em resposta ao seu pedido, Calebe presenteou-a com “as fontes superiores e as fontes inferiores” (Juízes 1:12-15). Somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo  (Romanos 8:17).  Tudo quando Cristo recebeu do Pai, constitui-se também a nossa herança como filhos amados de Deus.  E o escritor de Hebreus afirma que Deus o constituiu “herdeiro de tudo” (Hebreus 1:2). Por isso, o apóstolo Paulo pôde declarar enfaticamente que tudo agora é nosso, “seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro” (1 Coríntios 3:21-23). Entretanto, tal qual aconteceu a Acsa, recebemos como herança “herdades assoladas”, e , de quebra, foi-nos confiada a missão de restaurarmos a terra (Isaías 49:8). Mas para tal, temos que recorrer às fontes, tanto as superiores, quanto as inferiores. Os recursos que nos são disponibilizados são incomensuráveis.

Quando digo igreja, não me refiro aqui à instituição cristã, ou mesmo a uma denominação específica, mas a um povo que recebeu de Deus a vocação de lançar os fundamentos de um novo mundo, que costumo chamar de civilização do reino de Deus. Um povo formado por quem não se conforma com as coisas como elas são, e anelam por um mundo mais justo e igualitário.

Nossa atuação não deve estar circunscrita à esfera religiosa, mas abarcar cada uma das esferas.  Porém, não podemos fazer uso desta prerrogativa para misturar as coisas. Não se pode, por exemplo, impor uma visão moral religiosa a um estado laico. Isso, naturalmente, não impede que um cristão viva plenamente a sua fé mesmo no campo político. Em vez de pautar-se na moral cristã, ele pautará sua atuação na ética e no bem comum, sem favorecer a instituição religiosa a que pertence.

Quando Jacó reuniu seus filhos para abençoá-los pouco antes de sua morte, o patriarca hebreu proferiu uma bênção especial para José, que poderia muito bem ser aplicada à igreja como um todo.

 “José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte; seus ramos correm sobre o muro. Os flecheiros lhe deram amargura, e o flecharam e odiaram. O seu arco, porém, susteve-se no forte, e os braços de suas mãos foram fortalecidos pelas mãos do Valente de Jacó (de onde é o pastor e a pedra de Israel). Pelo Deus de teu pai, o qual te ajudará, e pelo Todo-Poderoso, o qual te abençoará com bênçãos dos altos céus, com bênçãos do abismo que está embaixo, com bênçãos dos seios e da madre. As bênçãos de teu pai excederão as bênçãos de meus pais, até à extremidade dos outeiros eternos; elas estarão sobre a cabeça de José, e sobre o alto da cabeça do que foi separado de seus irmãos.” Gênesis 49:22-26

Quem não gostaria de receber “bênçãos dos altos céus” somadas às “bênçãos do abismo que está embaixo”? Não seria isso o cumprimento da promessa de Romanos 8:28 que diz que todas as coisas cooperam em conjunto para o bem dos que amam a Deus e são chamados segundo o Seu propósito? Mas para isso, temos que ser “ramos frutíferos junto à fonte”, como nossos ramos extrapolando os limites impostos pelos muros. Antes de ser bênção para o seu próprio povo, José foi bênção para o povo que o manteve como escravo, e posteriormente como preso sob acusação injusta.

Temos que romper com esta visão de gueto que nos fez reféns de uma subcultura restrita aos que entender nosso dialeto religioso. Não temos o direito de viver uma espiritualidade alienante, divorciada da realidade.

A exemplo da igreja primitiva que contava com a simpatia de todo o povo, é notavelmente possível vivermos uma espiritualidade que seja “agradável a Deus” e “aprovada aos homens.” Mas não enquanto nos ativermos a questiúnculas morais e de costumes. Bem faríamos se adotássemos a sábia postura de Paulo ao declarar: “Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nada é de si mesmo imundo a não ser para aquele que assim o considera; para esse é imundo. Pois, se pela tua comida se entristece teu irmão, já não andas segundo o amor. Não faças perecer por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu. Não seja pois censurado o vosso bem; porque o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo. Pois quem nisso serve a Cristo agradável é a Deus e aceito aos homens. Assim, pois, sigamos as coisas que servem para a paz e as que contribuem para a edificação mútua” (Romanos 14:14-19). Se naquela época, cristãos infantilizados brigavam por questões dietéticas, hoje brigamos por questões ainda mais banais que dizem respeito à vida privada de cada um.

Creio que a figura arquetípica da Nova Jerusalém poderia nos ajudar a compreender a maneira como deveríamos nos posicionar com relação às coisas relativas às esferas inferiores. Digo inferiores, não no sentido de serem menos importantes que as demais, mas por estarem ligadas a esta vida terrena, sujeitas, portanto, a se desgastarem com o passar do tempo.

O vidente João nos relata que viu “a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido” (Apocalipse 21:2). Repare nisso: a origem desta cidade é celestial. Ela desce do céu. Ela pertence às fontes superiores. Ela é um tipo da igreja. Por isso, João a chama de “esposa do Cordeiro.” Cristo não se casaria com muros, tijolos, paredes. Sua esposa somos nós, Sua igreja, Seu povo.

Apesar de manter-se pura, “ataviada”, é-nos dito que “as nações andarão à sua luz; e os reis da terra TRARÃO PARA ELA a sua glória. AS SUAS PORTAS NÃO SE FECHARÃO de dia, e noite ali não haverá; e a ela trarão a glória e a honra das nações. E não entrará nela coisa alguma impura, nem o que pratica abominação ou mentira; mas somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Apocalipse 21:24-27).

De que “glória das nações” o texto está falando? A resposta está Isaías 60:11, onde esta promessa já havia sido feita anteriormente. Ali lemos que as portas da cidade estariam abertas de contínuo para que lhe fossem trazidas “as riquezas das nações.” Resta saber que riquezas seriam essas.  Recuso-me a crer que sejam insumos ou bens de consumo. Prefiro acreditar tratar-se de riquezas culturais, produzidas pelos povos ao longo das eras.

Então, como conciliar a promessa de que as riquezas das nações seriam introduzidas na cidade santa com a promessa de que ali não entraria coisa impura? Não seria isso o mesmo que misturar as águas inferiores com as águas superiores?

Desde criança ouço pregadores alarmarem os fiéis acerca da infiltração do mundanismo na igreja. Como evitar isso? Teríamos que nos trancafiar em nosso reduto eclesiástico? Teríamos que viver como os Amish[1]? Teríamos que nos abster de qualquer manifestação cultural? Penso que muitos confundem santificação com alienação. Apesar de Deus ter estabelecido uma separação entre as águas superiores e inferiores, não podemos ignorar que haja uma contínua troca entre elas que é conhecida por ciclo da água.  Conhecido cientificamente como o ciclo hidrológico, o ciclo da água refere-se à troca contínua de água na hidrosfera, entre a atmosfera, a água do solo, águas superficiais, subterrâneas e das plantas. Através de um processo lento e quase imperceptível, a água se evapora, formando nuvens que posteriormente a devolvem ao solo através da chuva. Não importa quão sujas essas águas possam estar, a evaporação se encarregará de purifica-las. A lama, a sujeira, os dejetos, não sobem com ela. Por isso, pode-se beber da água da chuva sem receio.

De modo análogo, as culturas produzidas neste mundo podem ser introduzidas na civilização do reino de Deus, sem levar consigo as impurezas que as acompanham. Foi sobre este processo que Paulo falou ao nos advertir a examinar de tudo, retendo somente o que for bom (1 Tessalonicenses 5:21).

Duas coisas precisam ser observadas:

1. Não se deve comprar pacotes fechados. Antes, deve-se examinar item por item, descartando o que não for compatível com os princípios do amor e da justiça.

2. Não se deve jogar fora a criança com a água do banho. Cada cultura revela rastros da graça de Deus ao mesmo tempo em que traz traços de nossa condição pecaminosa de egoísmo e hedonismo.

Recentemente, postei em minhas redes sociais acerca da minha experiência com a acupuntura, depois de ter sofrido por sete meses de uma crise de coluna que afetou meu nervo ciático. Alguém resolveu comentar em meu post, afirmando que tal prática seria demoníaca, pois estaria associada a invocação de espíritos ancestrais e crenças místicas orientais. Respondi que vejo muito mais de demoníaco na indústria farmacêutica ocidental que cria doenças em laboratórios para depois oferecer tratamento, que mantém patentes de remédios para cobrar por eles o quanto quiser, mesmo sabendo que há vidas que dependem de seu uso.

A acupuntura foi declarada Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade pela Unesco em 2010.  Assim como esta prática milenar da medicina chinesa, há outras, como a homeopatia, que se enquadram perfeitamente no que podemos chamar de “riquezas das nações.”

E o que dizer das danças, do folclore, da música, das festas, da culinária, e de tanta coisa bela que tem sido produzida pelos povos ao longo de sua história?

Não creio que a sociedade pela qual anelamos seja uniformizada. Somente a multiforme graça de Deus, bem como Sua multiforme sabedoria, poderiam nos patrocinar a emergência de uma sociedade justa e diversificada, onde cada etnia possa viver pacificamente sem ter que abrir mão da beleza de suas tradições.

O que nos impede de enxergar isso é que desconhecemos a abrangência da obra de Cristo, limitando-a às questões relativas à vida eterna.

Paulo nos conta que Deus nos desvendou o mistério de sua vontade, “de fazer convergir em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:9-10).

N’Ele, a realidade foi reunificada. Porém, trata-se de uma unidade que preserva a diversidade. As fontes superiores trabalham em conjunto com as fontes inferiores. O Espírito que sopra dentro da igreja, sopra também lá fora, e ninguém sabe de onde vem, nem para onde vai. Ele é livre. O mesmo que inspira canções de louvor entre o Seu povo, também inspira profetas seculares para que expressem a angústia e anelo da criação.

Cristo é o ponto de convergência entre as coisas sagradas e as seculares, entre as coisas celestiais e as terrenas, entre as espirituais e as materiais, entre as objetivas e as subjetivas, entre a vivência comunitária e a individualidade, entre a santidade e a autenticidade.

Outro ponto interessante da descrição da cidade santa é a sua completa ausência de templos (Apocalipse 21:22). É-nos dito que o Cordeiro é o seu santuário. Fica claro que não se trata de uma sociedade religiosa, mas secular, o que não significa que perde a sua sacralidade, mas que a resgata plenamente. Agora, em Cristo, todas as coisas foram santificadas, e não apenas umas em detrimento de outras. N’Ele se reúnem todas as fontes, superiores e inferiores. Por isso, o salmista diz: “Todas as minhas fontes estão em ti” (Salmos 87:7). Nada restou fora d’Ele. Como bem disse Paulo citando os filósofos estoicos: “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois dele também somos geração”(Atos 17:28). Cristo, portanto, encerra em Si mesmo toda a realidade.

Já sabemos por analogia a maneira como as águas inferiores são remetidas às esferas celestiais. Agora precisamos entender como as águas superiores são remetidas às esferas terrenas.

Há quem creia que o mundo necessite de uma enxurrada da verdade. Mas ouso dizer que Deus tenha outros planos. Em vez de chuvaréu, garoa. Em vez de uma inundação semelhante ao dilúvio, um orvalho suave que regue a terra calmamente sem fazer estragos. Ou não é isso que vemos em Deuteronômio 32:1-2?

 “Inclinai os ouvidos, ó céus, e falarei; e ouça a terra as palavras da minha boca. Caia como a chuva a minha doutrina; destile a minha palavra como o orvalho, como chuvisco sobre a erva e como chuvas sobre a relva.”

Será assim que a vontade de Deus feita no céu, será finalmente concretizada na terra. Sem alardes. Sem megafones. Sem gritos.  Como disse Isaías acerca do Messias: “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios. Não clamará, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na praça” (Isaías 42:1,2).

Não será por força, por imposição, por violência, pela espada, nem pela canetada, mas exclusivamente pelo convencimento do Espírito, pela iluminação e expansão da consciência (Zacarias 4:6).



[1] Amish é um grupo religioso cristão anabatista baseado nos Estados Unidos e Canadá. São conhecidos por seus costumes conservadores, como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis.

domingo, setembro 02, 2018

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A dimensão política do amor



“Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor.”
Desmond Tutu


C
omo poderíamos dizer que amamos a alguém sendo condescendentes com as estruturas que o oprimem? O amor nos impele a lutar por justiça. Este é o imperativo do amor.  Não se pode dizer “eu te amo” enquanto se faz vista grossa à todo tipo de opressão, exploração e descalabro de que o ser amado é vítima. E para tal, há que se mobilizar, lançando mão de todos os recursos disponíveis para viabilizar a existência do outro com dignidade. Ao menor sinal de que seus direitos estão sendo violados, nosso amor nos fará abrir a boca em seu favor, ainda que ao custo da própria vida. Pelo menos, é o que aprendemos com Jesus.

Lamentavelmente constatamos que muitos dos que se dizem seguidores de Cristo preferem cerrar fileiras com o que há de mais retrógrado, sujeitando-se,  assim, à agenda dos poderosos. Como discípulos de um preso político, torturado e morto por um Estado opressor, devemos nos posicionar invariavelmente ao lado dos desvalidos, dos que foram vítimas deste sistema cruel de que os poderosos se valem. “Até quando defendereis os injustos, e tomareis partido ao lado dos ímpios?”, questiona o salmista, para então arrematar: “Defendei a causa do fraco e do órfão; protegei os direitos do pobre e do oprimido. Livrai o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, e nada entendem. Andam em trevas.”[1]

Foi com vista a isso, que Paulo engrossou o coro ao declarar que “os poderosos deste mundo” estão destinados a serem aniquilados, pois nenhum deles conheceu a verdadeira sabedoria, “pois se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória.”[2] Por isso, o salmista diz que “eles nada sabem, e nada entendem”. Aliar-se a tais poderes, é o mesmo que aliar-se a algo destinado a ser completamente aniquilado, ou ainda, é como embarcar num navio em pleno naufrágio. Devemos, antes, como povo de Deus, optar pelos oprimidos, pelos fracos, pelos explorados, pelos excluídos, pelos pobres, pelas minorias.

Até quando os que alegam representar a Cristo na Terra continuarão se promiscuindo com os opressores? Não há meio termo. Quem deseja viver e propagar a justiça do reino tem que fazer opção pelos oprimidos, e não pelos opressores, trabalhando para tirá-los das mãos dos seus algozes. Isso é amor. Esta é, por assim dizer, a dimensão política do amor que o evangelho nos requer.

O sábio rei Salomão declarou: “Informa-se o justo da causa dos pobres; mas o ímpio não quer saber disso.”[3] O ímpio está sempre “lavando as mãos”, como fez Pilatos. Ele prefere omitir-se, em vez de tomar posição em favor dos menos favorecidos.

Tanto os profetas, quanto os apóstolos, aliaram-se às camadas mais necessitadas, e não aos poderosos. Por serem considerados subversivos, foram duramente perseguidos e mortos.

Entenda: não se trata de predileção, mas de prioridade. Deus não tem filhos prediletos. Porém, o pobre ocupa lugar de proeminência na agenda divina.

Contrário a qualquer tipo de discriminação social, Tiago escreve:

“Se na vossa reunião entrar algum homem com anel de ouro no dedo, e com trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e atentardes para o que tem os trajes de luxo, e lhe disserdes: Assenta-te aqui em lugar de honra, e disserdes ao pobre: Fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do estrado dos meus pés, não fazeis distinção entre vós mesmos, e não vos tornais juízes movidos de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos: Não escolheu Deus aos que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Não são os ricos os que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais?”[4]

Fica claro nessa passagem que o próprio Deus é que prioriza o pobre, o oprimido, o necessitado. Portanto, se pretendemos imitá-lo como filhos amados, não nos resta alternativa.

Como discípulos do Libertador, temos a obrigação de livrar o fraco e o necessitado, transmitindo-lhes a verdade emancipadora do evangelho. Eles precisam ser informados através dos nossos lábios acerca da dignidade que Cristo lhes conferiu. “Glorie-se o irmão de condição humilde na sua alta posição”, conclama Tiago, “o rico, porém, glorie-se na sua insignificância, porque ele passará como a flor da erva.”[5]

O evangelho preconiza a chegada de uma revolução sem precedentes, mas que não demandará derramamento de sangue, nem violência. Trata-se, antes, da revolução do amor, da paz e da justiça, anunciada exaustivamente pelos profetas. Porém ela não será fruto de uma intervenção divina futura, mas de nossa resposta aos Seus constantes apelos. Quem dera se tais apelos ecoassem agora mesmo no coração de todo ser humano que habita este planeta.

“Assim diz o Senhor: Exercei o juízo e a justiça, e livrai o oprimido das mãos do opressor. Não oprimais mais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva, e não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar.”[6]

Violência gera violência. Não se apaga fogo com fogo. Devemos transformar nossas armas em arados, e qualquer desejo de vingança em perdão. A profecia messiânica diz que Cristo “exercerá o seu juízo entre as nações, e repreenderá a muitos povos. Estes converterão as suas espadas em arados e as suas lanças em podadeiras. Não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerra.”[7]  Eis a nossa esperança, razão que nos impulsiona a apostar no futuro da civilização humana.

O exercício da justiça nada mais é do que o amor em ação. Porém, isso, não pode ficar restrito a um conjunto de doutrinas. Não basta o assentimento intelectual da verdade. O verbo tem que se tornar carne. O discurso tem que se transformar em práxis. A fé que opera pelo amor se manifesta através de obras de justiça. “Executai justiça verdadeira”, diz o Senhor, “mostrai bondade e misericórdia cada um a seu irmão. Não oprimais a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente o mal cada um contra o seu irmão em seu coração.”[8]

As viúvas e os órfãos representam para nossa sociedade as classes desassistidas, aqueles para os quais a corda rompe primeiro. Nossa sociedade está cheia de órfãos de pais vivos. Nossas crianças e adolescentes estão crescendo sem qualquer assistência. Embora o Estatuto da Criança e do Adolescente represente um avanço considerável, precisamos de políticas mais eficazes, que promovam uma educação de qualidade para os nossos filhos. O que será de uma geração inteira que cresceu aos cuidados da babá eletrônica?

E quanto aos nossos velhos? Até quando morrerão nas filas do INSS? São viúvos do Estado. Estão entregues à própria sorte, vulneráveis às aves de rapina a serviço deste sistema pérfido, carcomido pelas traças da corrupção.  

O estrangeiro representa o diferente, o pertencente a outra realidade, outra crença, outra ideologia, outra cultura. É triste verificar como os imigrantes brasileiros são explorados no Exterior. Geralmente, trabalham por menos que o salário mínimo do país. Mas é igualmente lamentável que tratemos os imigrantes que chegam ao nosso país de maneira semelhante e até pior, fazendo-os de escravos.

Membros de uma etnia não têm o direito de dominar os de outra etnia. Não há raças superiores, nem física, intelectual, ou espiritualmente. Todos possuem a mesma dignidade intrínseca e, por isso, devem ser respeitados e ter seus direitos assegurados.

Também é deprimente assistir ao crescimento dos bolsões de miséria, das favelas e guetos, habitados por aqueles que deixaram seus rincões, no afã de obterem melhores oportunidades na cidade grande.

O mandamento de Deus quanto ao tratamento que devemos dispensar ao imigrante é categórico: “O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás, pois estrangeiros fostes na terra do Egito.”[9] E mais: “Como o natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco. Amá-lo-eis como a vós mesmos, pois fostes estrangeiros na terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus.”[10]E ainda: “Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno. Ele faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe alimento e vestes. Amai o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.”[11]

O Deus Eterno apela à compaixão. Só podemos nos compadecer daquele que passa por algo pelo qual um dia também passamos. Somos um país de imigrantes. Quem não é imigrante, é, no mínimo, filho, neto ou bisneto de imigrante. Os únicos que têm suas raízes fincadas nesta terra há muito mais tempo são os indígenas. Os demais descendem de europeus, africanos e orientais. Portanto, antes de agirmos com preconceito, ou explorarmos mão-de-obra estrangeira, lembremo-nos de nossos ancestrais.

O trato que Deus ordenou que Seu povo dispensasse ao estrangeiro era de tal ordem, que é usado como referência para o trato que devemos dispensar a nossos irmãos, quando estes atravessarem alguma dificuldade econômica: “Quando teu irmão empobrecer e as suas forças decaírem, sustentá-lo-ás como a um estrangeiro ou peregrino, para que viva contigo.”[12]

Quem diria? Em vez de o estrangeiro ser tratado como irmão, o irmão que deveria ser tratado como estrangeiro. Porém, hoje, tratar um irmão como se fosse um estrangeiro, seria considerado um total descaso, dado o desprezo com que o tratamos.

Urge que se levantem políticos comprometidos com o bem comum, e não com suas ambições pessoais ou com interesses econômicos. A igreja cristã bem que poderia fornecer à sociedade tais políticos. Mas na maioria das vezes, candidatos evangélicos se apresentam apenas como defensores da moral cristã, da família tradicional ou dos interesses de sua própria denominação, garantindo-lhe cargos, privilégios, concessões de rádio e TV, etc.

Não creio que um seguidor de Cristo deveria opor-se aos direitos de qualquer que seja o segmento social. Ser cristão não é ser anti-gay, anti-feminista, anti-direitos trabalhistas, anti-qualquer coisa. Não deveríamos ser vistos como a turma do contra, os estraga-prazeres. Em nome de uma agenda conservadora, boa parte dos políticos ditos evangélicos prefere ser flagrada ao lado dos que defendem o porte de arma, a pena de morte, a redução da maioridade penal, etc. E foi assim que surgiu a união de três bancadas conhecidas pela sigla BBB: Bancada da Bíblia, da Bala e do Boi.[13]

Imagine se os políticos e líderes evangélicos defendessem os direitos das minorias com a mesma veemência com que defendem a moral religiosa. Mas seus escrúpulos religiosos, bem como seus interesses ideológicos não os permitem. E assim, o bem se passa por mal, e o mal por bem. Aos tais, vale a advertência: “Ai dos que ajuntam casa a casa, e reúnem herdade a herdade, até que não haja mais lugar, e fiquem como únicos moradores da terra (...). Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade, que põem o amargo por doce, e o doce por amargo.”[14]

Em uma sociedade capitalista, onde o capital tem supremacia sobre o trabalho, enriquecer às custas do trabalho alheio é visto como um sinal de esperteza, de sagacidade, de inteligência. Trata-se de uma clara inversão de valores.

Infelizmente, assistimos à igreja sucumbindo a este espírito. Pastores bradam de seus púlpitos que o crente deve almejar ser patrão, em vez de conformar-se em ser empregado. Deve ser cabeça em vez de cauda, alusão à promessa contida na Lei de Moisés: “E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo, se obedeceres aos mandamentos do Senhor teu Deus, que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir.”[15] Em contraste a isso, Paulo diz que não devemos fazer nada “por contenda ou por vanglória, mas por humildade”, e que cada um deve considerar “os outros superiores a si mesmo”, não atentando “cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros” (Isso é revolucionário!), “de sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.”[16] De fato, a Nova Aliança da graça contém promessas infinitamente superiores às da Antiga Aliança da Lei.[17] E a maior delas é a de nos tornarmos semelhantes a Cristo. Portanto, o que vale agora não é mais ser cabeça ou cauda, mas ser coração. O que está em jogo não é mais quem está por cima ou por baixo, mas no centro. E o centro ao redor do qual tudo deve orbitar é o amor. Já não vivemos em função de provar nada a quem quer que seja. Já não nos preocupamos em ficar nos comparando aos outros para ver quem é melhor ou mais bem sucedido. O que nos interessa é parecermos cada vez mais com Cristo, a começar pelo mesmo sentimento que o motivava.

O problema não está em encorajar as pessoas a melhorarem sua condição econômica. Não há nada de errado em querer ascender socialmente. O problema é quando esta ascensão é desejada apenas pelo glamour, pela vaidade, desprezando a responsabilidade social que ela demanda. Quem dera estivessem atentos à sabedoria que diz que “onde os bens se multiplicam, ali se multiplicam também os que deles comem.”[18]

Ao estimular seu povo a ascender socialmente, o pregador deveria focar as oportunidades de trabalho que um empregador poderia criar, diminuindo assim o alto índice de desemprego, e consequentemente, a criminalidade. Mas em vez disso, enfatiza-se apenas o conforto material e o status social que tal ascensão poderá promover a ele e à sua família.

Testemunhos são colhidos de pessoas que usam suas conquistas materiais, como a aquisição de carros luxuosos, ou coberturas de frente para a praia, como aferidor de sua fé. Ainda não se viu um pastor midiático perguntando a tais empresários emergentes, quantos foram beneficiados através de sua prosperidade, quantos chefes de família foram empregados, quantas iniciativas foram tomadas para ingressar os jovens no mercado de trabalho, etc. O que tem sido chamado de “testemunho” não passa de ostentação. Testemunhar tornou-se sinônimo de contar vantagem, estimulando os ouvintes à inveja e à esperança de que um dia chegará a sua vez de ganhar nesta loteria de fé.

A advertência profética diz que Deus esperava que Seu povo exercesse justiça, mas viu opressão, esperou retidão, mas ouviu clamor, e um tipo de clamor que jamais gostaria de ouvir.[19] De quem seria este clamor? Daqueles que são explorados pelos que almejam concentrar riquezas. Quem dera atentassem ao mandamento que diz: “Não explorarás o assalariado pobre e necessitado, seja ele teu irmão, seja ele estrangeiro que mora na tua terra e nas tuas cidades. No mesmo dia lhe pagarás o seu salário, para que o sol não se ponha sobre a dívida, pois ele é pobre, e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado.”[20] Para os tais, isso não passaria de uma sugestão divina, não propriamente um mandamento. Se se recusam a dar ouvidos ao mandamento, que ouçam ao menos a advertência: “Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus aposentos sem direito, que se serve do serviço do seu próximo sem paga, e não lhe dá o salário do seu trabalho.”[21]

A expressão “ai” encontrada em algumas advertências divinas visa ressaltar a seriedade e o rigor com que Deus trata certas injustiças, sem jamais fazer-lhes vistas grossas. O Deus revelado em Jesus está sempre atento ao clamor dos injustiçados. E ainda que estes não saibam como clamar reivindicando seus direitos, a própria injustiça por eles sofrida deporá diante do tribunal divino: “Vede! O salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, e que por vós foi retido com fraude, está clamando. Os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor Todo-poderoso.”[22] Não obstante, Deus se recusa a ouvir o clamor dos exploradores, dos que trabalham com o único intuito de concentrar bens, e que para isso, não hesitam explorar descaradamente a seu semelhante:

“A vós que aborreceis o bem, e amais o mal, que arrancais a pele de cima deles, e a sua carne de cima dos seus ossos, que comeis a carne do meu povo, e lhes arrancais a pele, e lhes esmiuçais os ossos, e os repartis como para a panela, e como carne do meio do caldeirão. ENTÃO CLAMARÃO AO SENHOR, MAS ELE NÃO OS OUVIRÁ, antes esconderá deles a sua face naquele tempo, visto que eles fizeram mal nas suas obras.”[23]

Os ricos deste mundo precisam acordar para o fato de que todas as nossas obras são sementes, que mais cedo ou mais tarde, resultarão em colheitas. Como diz o adágio bíblico, “eles semeiam ventos, e colhem tempestades.”[24]  Toda a injustiça praticada pelas elites brasileiras, tem resultado numa escalada da violência sem precedentes na História deste país. Os mesmos que se negam a pagar um salário justo a seus empregados são obrigados a gastar fortunas em segurança, blindando seus carros, colocando sistemas de alarme caríssimos em suas residências, e contratando equipes de vigilância. De fato, Deus está exercendo juízo sobre essa elite indiferente, que enriquece às custas da injustiça feita ao trabalhador: Depois, não adianta querer espiritualizar as coisas, atribuindo a miséria à atuação de demônios. Como disse Thomas Hobbes, “o homem é o lobo do homem.” Isto é, o homem é o maior inimigo do próprio homem. Ou como repetia exaustivamente meu saudoso pai: “De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados.”[25] Deus exerce Seu juízo sobre nós, simplesmente permitindo que colhamos exatamente o que plantamos. Deus é tão bom que nos confere a liberdade de semear o que quisermos, mas é tão justo que não nos permitirá colher senão o que houvermos semeado. “Chegar-me-ei a vós para juízo”, adverte o Senhor, “e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o trabalhador, e pervertem o direito da viúva, e do órfão, e do estrangeiro, e não me temem.”[26] Para Deus, não há diferença entre o que pratica a feitiçaria, o adultério e o que defrauda o trabalhador. São todos, por assim dizer, farinha do mesmo saco. O feiticeiro usurpa o poder de Deus, achando-se capaz de manipulá-lo a seu favor, o adúltero usurpa a companhia da mulher alheia, e o que defrauda o trabalhador usurpa o inalienável direito de quem sobrevive do suor do seu rosto. Ambos praticam a injustiça e eventualmente colherão o que houver sido semeado.

Por que há tão poucos em posse de tantas riquezas, enquanto grande parte da sociedade humana vive abaixo da linha da pobreza? Como poderíamos reverter isso? A mensagem do reino, sempre na contramão do sistema deste mundo, constitui-se na mais subversiva mensagem jamais pregada. Todavia, não basta pregá-la. Temos que encarná-la, isto é, trazê-la da teoria para a prática. Em outras palavras, precisamos semear justiça, onde até hoje só se semeou opressão e exploração.

“Semeai para vós em justiça, ceifai o fruto do constante amor, e lavrai o campo de lavoura, porque é tempo de buscar ao Senhor, até que venha e chova a justiça sobre vós.”[27]

Observe que semear em justiça é sinônimo de buscar ao Senhor. Ainda que as mudanças não ocorram com a rapidez que desejamos, não podemos nos cansar de fazer o bem, até que chova a justiça sobre a terra.  A admoestação apostólica ecoa esta verdade: “Não vos enganeis: Deus não se deixa escarnecer. Tudo que o homem semear, isso também ceifará (...). E não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido. Então, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé.”[28] E o escritor de Hebreus complementa: “Não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir com outros, pois com tais sacrifícios Deus se agrada.”[29]

Cada vez que praticamos o bem, repartindo com alguém aquilo que o Senhor nos deu, estamos semeando no reino de Deus. Em breve, a chuva virá, e toda a terra será renovada. É sobre isso que repousa nossa esperança.

“Porque, como a terra produz os seus renovos, e como o jardim faz brotar o que nele se semeia, assim o Senhor Deus fará brotar a retidão e o louvor perante todas as nações.”[30]

Tudo o que nos é concedido pelo Senhor, tem como objetivo abençoar aos que nos cercam. Não temos o direito de concentrar nada em nossas mãos. Fazê-lo constitui-se em injustiça e franca rebeldia à Sua Palavra. Tomemos, portanto, o exemplo da igreja primitiva em que “era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns.”[31]



[1] Salmos 82.2-5a
[2] 1 Coríntios 2.6,8
[3] Provérbios  29.7
[4] Tiago 2.2-6
[5] Tiago 1.9-10
[6] Jeremias 22.2
[7] Isaías 2.4
[8] Zacarias 7.9-10
[9] Êxodo 22.21
[10] Levítico 19.34
[11] Deuteronômio 10.17-19
[12] Levítico 25.35
[13] A Bancada BBB é um termo pejorativo usado para referir-se conjuntamente à bancada armamentista ("da bala"), bancada ruralista ("do boi") e à bancada evangélica ("da bíblia").
[14] Isaías 5.8,20
[15] Deuteronômio 28.13
[16] Filipenses 2.3-5
[17] Hebreus 8.6
[18] Eclesiastes 5.11
[19] Isaías 5.7
[20] Deuteronômio 24.14-15
[21] Jeremias 22.13
[22] Tiago 5.4
[23] Miquéias 3.2-4
[24] Oséias 8.7a
[25] Lamentações 3.39
[26] Malaquias 3.5
[27] Oséias 10.12
[28] Gálatas 6.7,9-10
[29] Hebreus 13.16
[30] Isaías 61.11
[31] Atos 4.32

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

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A vergonha de Deltan Dallagnol na Lagoinha e a tolice de André Valadão



Por Hermes C. Fernandes

Que pastor midiático esperaria que seu rebanho virasse as costas e deixasse o recinto do templo no momento em que seu púlpito fosse entregue a um procurador da república responsável pela Lava Jato? Pois isso ocorreu na igreja da Lagoinha em Belo Horizonte no “culto fé” dirigido pelo pastor e cantor André Valadão. Pelo menos, de acordo com o próprio, em seu desabafo feito no mesmo culto na semana seguinte. Valadão fez críticas ácidas aos frequentadores de seu culto após a sua inusitada reação ao receber Deltan Dallagnol.

Segue abaixo o desabafo seguido de meu parecer sobre o episódio.

 “Eu falo com você esta noite: Chega de tolice! Vamos dizer? Chega de tolice! São 16 anos que Deus tem me dado a graça de estar aqui na igreja pastoreando voluntariamente e é um prazer muito grande. O “culto fé”, já são aí mais de quinze anos que este culto acontece e tem sido uma grande bênção. Mas os irmãos não entendem aqui, talvez, a força que eu tive que fazer para estar com vocês esta noite, devido à tristeza e a decepção que eu tive com vocês na terça-feira passada. Os irmãos não tem ideia da vergonha que eu passei com a movimentação no culto de tantas pessoas indo embora na terça-feira passada. A atitude da falta de educação de vocês, falta de respeito, falta de interesse. E eu não quero que ninguém saia, por favor. A atitude que vocês tiveram na terça-feira passada me fez repensar em ter o prazer está com vocês na terça-feira. Foi uma atitude completamente infantil, sem educação; uma atitude de desprezo. Uma postura que eu fiquei pensando comigo: quem são estas pessoas que frequentam este culto. Qual o seu interesse de estar aqui neste culto? Tu tá fazendo o que aqui nesta igreja? Eu falo com amor com vocês. Pode ter certeza que eu falo com amor. O que aconteceu na terça-feira passada nesta igreja eu espero que não aconteça nunca mais nos próximos anos na terça-feira. Vocês foram sem educação, desrespeitosos, absurdamente egoístas. Tiveram uma atitude completamente irreverente com a pessoa que veio nesta igreja. Em mais de quinze anos de culto fé, a pessoa mais importante humanamente dizendo foi a pessoa que veio a este culto terça-feira passada e subiu neste altar. É um procurador da república de 36 anos de idade, com uma formação em Harvard. Um cara que tem mudado a história do Brasil através da Lava-jato. Que é de interesse direto no teu bolso, meu irmão. Mais de 70% de vocês que estão aqui hoje estão passando dificuldade financeira e estão vindo na igreja pedindo a Deus ajuda. Estão com problema de dinheiro e estão vindo na igreja pedindo a Deus ajuda. Aí vem um cara, uma batista... quem aqui é batista? Eu sou batista. Vem um batista, crente, líder de célula, referência de Deus, 36 anos de idade, pisa neste alta e você levanta e vira as costas. Você é um tolo, meu irmão. Você é um tolo! Se você quer sua vida mudada, você tem que ouvir pessoas que não ficam apenas espiritualizando as coisas de Deus, mas traz para a realidade cotidiana da vida o que muda a história da humanidade. Eu falo com amor pra você. Eu falo com amor. Que isso nunca mais aconteça! Por favor! Por favor! Por favor! Não sei qual é a situação que você vive ou passa. Mas eu sei que cada um de nós, Deus pode nos usar para mudar a história desta nação. Mas pra isso, nós temos que sair de um posicionamento tolo, limitado, e entender que temos um papel importante. Talvez você hoje é um funcionário. Pode até estar desempregado. E vem uma pessoa com esta trazer uma palavra na igreja, um irmão em Cristo, alguém que está mudando, dando um sinal de mudança na história. A gente ora para mudar o Brasil e quando Deus traz alguém que pode estar sendo usado para mudar a nação, nós viramos as costas e vamos embora? Vocês estão achando que o evangelho é o quê? É contar anjinho? Um anjinho, dois anjinhos, três anjinhos. Tá achando que o evangelho é o quê? Fazer oração para Deus te dar a esposa ideal? Tá pensando que o evangelho é o quê? É na realidade a vida de Deus que transforma, transforma as pessoas. É o reino de Deus na terra. Enquanto nós estamos aqui olhando para o nosso umbigo, tem pessoas, trabalhos e leis sendo feitas, leis contra a família, leis que querem destruir as nossas vidas, leis com liberação de drogas na nação, leis com liberações onde seja proibido pregar o evangelho nas escolas,  nas faculdades,  coisas terríveis acontecendo, e nós estamos contando anjinhos na igreja?”

Antes de tudo, deixo claro que reconheço o constrangimento passado pelo pastor André Valadão. Talvez não tenha sido maior do que o meu quando me neguei a ceder meu púlpito ao deputado Eduardo Cunha numa visita surpresa que fez à nossa igreja tempos atrás. Dada a insistência de um de nossos membros que o estava assessorando, permiti, com muita relutância, que ele apenas saudasse a audiência. Confesso que meu arrependimento foi imediato, mesmo que ele ainda não estivesse envolvido nos escândalos de corrupção que estourariam posteriormente.  Foi a última vez que recebi um político em nossa igreja. Lá se vão uns dez anos.

Apesar de entender seu constrangimento, não o considero uma boa justificativa para ser tão deselegante com o seu próprio povo. Nenhuma autoridade, por maior e mais importante que seja, merece isso. Se o tal procurador tem feito algo de bom pelo país nos últimos dias, aquele povo tem sustentado seu ministério por dezesseis anos.

Creio que a atitude das pessoas que deram as costas no momento em que Deltan Dallagnol assumiu o microfone deve ser levada a sério, não como um desrespeito, mas, quiçá, como uma demonstração de conscientização. Em tempos de mídias sociais, as pessoas estão cada vez mais informadas, assumindo posturas que nem sempre convergem com a de seus líderes.

Qualquer pastor ou líder religioso deveria pensar duas vezes antes de franquear seu púlpito a um político. No caso de Dallagnol, ele não é bem o que poderíamos chamar de político, mas sua atuação, bem como a de seus pares (inclusive a do juiz Sérgio Moro) tem se revelado cada vez mais política (alguém ainda duvida disso?). Senão em sua intenção (queira Deus que não!), ao menos em seus desdobramentos.

Algumas coisas na fala de Valadão me provocaram reações adversas. Por exemplo: dizer que jamais aquela igreja havia recebido alguém tão importante quanto Dallagnol. Nem é preciso estar tão familiarizado com os ensinamentos de Jesus para perceber o quão distante isso está no espírito do evangelho. Repare no que o mestre nazareno diz aos seus discípulos:

“E houve também entre eles contenda, sobre qual deles parecia ser o maior. E ele lhes disse: Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores. Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve." Lucas 22:24-26

Um procurador da república nada mais é do que um servidor público. Suas credenciais não o tornam melhor do que qualquer cidadão comum.

Veja que não era a primeira vez que esta questão surgia entre os discípulos (e pelo jeito, está longe de ser a última). Capítulos antes, lemos que “suscitou-se entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior. Mas Jesus, vendo o pensamento de seus corações, tomou um menino, pô-lo junto a si, e disse-lhes: Qualquer que receber este menino em meu nome, recebe-me a mim; e qualquer que me receber a mim, recebe o que me enviou; porque aquele que entre vós todos for o menor, esse mesmo será grande” (Lucas 9:46-48).

O fato de estar estudo em Harvard, não constitui ninguém mais importante que os demais. Nem mesmo o fato de ser considera um benfeitor do povo. A graça preconizada no evangelho nos nivela a todos. Entre nós, Dallagnol não é mais importante que uma empregada doméstica ou um porteiro de um prédio qualquer.

Bem faria Valadão se atentasse para a advertência de Tiago, um dos mais engajados discípulo de Jesus:

“Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se entrar na vossa reunião algum homem com anel de ouro no dedo e com traje esplêndido, e entrar também algum pobre com traje sórdido e atentardes para o que vem com traje esplêndido e lhe disserdes: Senta-te aqui num lugar de honra; e disserdes ao pobre: Fica em pé, ou senta-te abaixo do escabelo dos meus pés, não fazeis, porventura, distinção entre vós mesmos e não vos tornais juízes movidos de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que são pobres quanto ao mundo para fazê-los ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não são os ricos os que vos oprimem e os que vos arrastam aos tribunais?” 
Tiago 2:1-6 

À luz deste texto, deveríamos honrar a quem Deus estabeleceu como prioridade em sua agenda e não os figurões que se destacam sob os holofotes da mídia.

Quanto o restante de sua fala, tenho a impressão de que André Valadão fez uma crítica ao seu próprio ministério, bem como ao de sua irmã, a cantora e pastora Ana Paula Valadão, com sua mania de espiritualizar tudo, colocando tudo na conta dos principados e potestades de plantão (termos relacionados a entidades malignas que seriam responsáveis pelos males que assolam a humanidade).

Tantas “palavras proféticas” já foram liberadas daquele “altar”. Sem contar os "atos proféticos" (ou seriam patéticos?). Pena que as pessoas tenham memória tão curta. 

O que a igreja precisa não é de heróis, salvadores da pátria, “referências de Deus” como disse Valadão. A igreja precisa é de consciência política.

Espero, sinceramente, que o ocorrido na Lagoinha seja um precedente que leve os líderes a colocarem suas barbas de molho e a desistirem de manipular politicamente seus rebanhos. 

Abaixo, o vídeo do esculacho do pastor André Valadão no povo da Lagoinha.