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quarta-feira, fevereiro 28, 2018

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A banalização do sagrado e a santificação do profano




Por Hermes C. Fernandes

Qual deveria ser a motivação correta para a busca da santificação? Para muitos, tem sido o medo; medo do inferno, do diabo, de perder a salvação, e por aí vai. Outros julgam acumular méritos diante de Deus. Para estes, a santificação é uma moeda de troca. Se me santifico, posso cobrar de Deus o que quiser.  Isto está mais para santiforçação. Santificar-se sobre tais bases equivale a construir sobre a areia movediça. A qualquer momento, tudo desaba.

A única motivação válida e aceita por Deus é o amor. Não nos santificamos por nós mesmos, visando algum benefício próprio, mas pelos outros.

Em Sua oração sacerdotal, Jesus rogou:

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade.” João 17:17-19

O mais santo dentre os homens, mesmo sendo Deus encarnado, precisou santificar-se. Não por Si mesmo, mas visando o bem dos que Lhe foram confiados pelo Pai. Devemos, portanto, seguir os Seus passos e buscar a santificação que visa o bem comum. Paulo expressa seu desejo de que o Senhor nos aumentasse, e nos fizesse “crescer em amor uns para com os outros, e para com todos”, para que assim, nos tornássemos “irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai” (1 Ts.3:12-13). Nosso amor não deve ser direcionado exclusivamente ao grupo a que pertencemos. Pelo contrário, deve ser inclusivo. Ninguém deve ficar de fora de seu alcance. Somente assim alcançaremos o padrão de santidade esperado.

Se a motivação para a santificação deve ser o amor, o resultado dela deve ser a justiça. Não custa lembrar que justiça é dar a cada um o que lhe é de direito. Quando reconhecemos o lugar do outro, sem cobiçá-lo ou invejá-lo, mas estimulando-o a ocupá-lo plenamente, estamos pavimentando o caminho para a prática da justiça do reino de Deus. Na mesma epístola em que Paulo fala sobre crescer em amor para com todos, ele também diz:

“Vede que ninguém dê a outrem mal por mal, mas segui sempre o bem, uns para com os outros, e para com todos (...) Abstende-vos de toda espécie de mal. E o próprio Deus de paz vos santifique completamente.”  1 Tessalonicenses 5:15, 23a

Como amar sem se dispor a beneficiar a quem se ama? Como amar sem ser justo? Sem seguir o bem, uns para com os outros e para com todos? Tornamo-nos irrepreensíveis em santidade quando amamos indistintamente. Mas, somos santificados completamente quando promovemos a justiça indistintamente. Amar sem praticar a justiça é como encher o tanque do carro para deixá-lo na garagem. 

Não basta ter disposição para fazer o bem. Há que se ter disponibilidade para tal. Os membros de nosso corpo, antes oferecidos como instrumentos de iniquidade (injustiça), apresentados “à maldade para maldade”, agora devem ser apresentados para “servirem à justiça para santificação” (Rm.6:19). Tiramos nossas ferramentas do almoxarifado da iniquidade para disponibilizá-las no balcão da justiça. 

Servir à justiça é levantar as mãos cansadas, os joelhos vacilantes, e fazer veredas direitas para os pés, “para que o é manco não se desvie, antes seja curado”. E assim, seguimos “a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb.12:12-14). 

Somos facilitadores. Em vez de dificultar o acesso, preferimos facilitar. Somos chamados a ser pacificadores, não agitadores. Buscamos e promovemos a paz. Todavia, a paz só é possível se precedida pela justiça. E a justiça só se estabelece quando precedida pelo amor. De trás para frente: o amor produz a justiça, e justiça produz a paz, e ambos pavimentam o caminho da santificação. 

O mundo é um terreno acidentado, cheio de montanhas e vales, altos e baixos. O plano de Deus é aplainar, endireitar e nivelar este terreno. Quando finalmente a justiça for estabelecida, não haverá mais ricos e pobres, grandes  e pequenos, dominantes e dominados; logo, não haverá luta de classes, nem injustiça social. Como profetizou Isaías: "Todo vale será exaltado, e todo o monte e todo outeiro será abatido, e o que é torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará. E a glória do Senhor se manifestará, e toda a humanidade a verá, pois a boca do Senhor o disse" (Is.40:4-5). Era com isso em mente que Jesus disse que sem a paz que é resultado da justiça e a santificação resultante do amor, ninguém verá o Senhor. O terreno precisa ser nivelado para que todos O vejam. Não se trata aqui daquela visão que teremos d'Ele no último dia, mas de discerni-lO no dia-a-dia, de enxergá-lO principalmente no outro, tanto no semelhante quanto no diferente, tanto no próximo quanto no distante. Para isso, temos que aplainar o caminho, remover as pedras, facilitar o acesso. "Passai, passai pelas portas; preparai o caminho ao povo; aplanai, aplanai a estrada, limpai-a das pedras" (Is.62:10). Como diz a  canção de Roberto Carlos cantada pelos Titãs: "Toda pedra do caminho você pode retirar. Numa flor que tem espinhos, você se arranhar. Se o bem e o mal existem, você pode escolher. É preciso saber viver."

Cumprir-se-á, então, o que fora profetizado por Isaías:

“E ali haverá uma estrada, um caminho, que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para aqueles; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão.
Isaías 35:8

O imundo é o que insiste em atribuir profanidade à vida. É aquele cuja consciência não foi devidamente purificada. Afinal, tudo é puro para os que são puros, mas para os corrompidos e incrédulos nada é puro; antes tanto a sua mente como a sua consciência estão contaminadas” (Tt.1:15). O imundo não consegue discernir a santidade intrínseca da vida do outro. Ele a profana, a banaliza. Por isso, não consegue tratá-lo com justiça. A vida do outro nada vale. Portanto, que direito ele teria?

Uma vez mais, Paulo nos admoesta:

“Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus. Recebei-nos em vossos corações; a ninguém fizemos injustiça, a ninguém corrompemos, a ninguém exploramos.”  2 Coríntios 7:1-2

Da mesma maneira como devemos santificar a Cristo como Senhor em nossos corações, também devemos receber qualquer ser humano em nossos corações, garantindo-lhe cadeira cativa. Aos olhos de quem ama, todos são santos. Por isso é inadmissível que se faça injustiça a qualquer ser humano, ou que procuremos corrompê-lo ou explorá-lo visando nosso proveito próprio.

Ninguém deve ser reputado por banal, profano, comum, impuro. Como disse Jesus a Pedro: “Não chame impuro ao que Deus purificou” (At.10:15). Os europeus se acharam no direito de explorar os índios porque não conseguiam enxergar a sacralidade de suas vidas. O mesmo se deu com os negros feitos escravos. E com as mulheres ao longo de séculos. Elas nem sequer eram contadas nos censos. Visando corrigir isso, Pedro orienta aos maridos a tratarem suas respectivas esposas com honra, reconhecendo sua fragilidade, e vendo-as como co-herdeiras do dom da graça e da vida. Como se não bastasse, o apóstolo ameaça aos trogloditas de que suas orações não serão ouvidas, caso se neguem a atribuir à mulher o seu devido valor (1 Pe. 3:7). Leis como a “Maria da Penha” é uma tentativa de se resgatar o valor e a sacralidade da mulher. Documentos como o Estatuto da Criança e do Adolescente visam resgatar a sacralidade original da vida infantil. O trabalho infantil profana a mais bela das idades.

Quem percebe a santidade inerente da vida, recusa-se a usar quem quer que seja visando seus interesses. Usar alguém é coisificá-lo, vendo-o como um objeto que mais tarde poderá ser descartado. Quem assim age, atenta contra a sacralidade da vida, banalizando-a, profanando-a, aviltando-a.

Foi neste contexto que Paulo diz que a vontade de Deus é a nossa santificação, e que, portanto, devemos nos abster da fornicação (1 Ts.4:3). Engana-se quem pensa que fornicação seja sinônimo de sexo entre solteiros. O termo grego é “pornéia” que, em linhas gerais, significa impureza sexual, que pode ser claramente identificada como a coisificação do sexo. Mesmo casados podem estar fornicando quando se usam mutuamente na busca por prazer, sem considerar o sentimento e o prazer do outro.  Paulo arremata: “que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra; não na paixão da concupiscência, como os gentios, que não conhecem a Deus. Ninguém oprima ou engane a seu irmão em negócio algum, porque o Senhor é vingador de todas estas coisas, como também antes vo-lo dissemos e testificamos. Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação” (vv. 4-7). A questão não é o sexo em si, mas usá-lo com objetivo torpe de oprimir, enganar, lesar, tirar vantagem. Outras ferramentas além do sexo podem ser perfeitamente usadas para o mesmo intento.

Em Efésios 4:23-28, Paulo nos abre mais o leque:

 “E vos renoveis no espírito da vossa mente; e vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade. Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros. Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo. Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade.” Efésios 4:23-28

Definitivamente, a mentira e o furto não combinam com o nosso novo ser, recriado de acordo com a imagem de Deus, em justiça e santidade.  Como poderíamos enganar a alguém sem que profanássemos a santidade das relações humanas? Como poderíamos lesá-lo sem antes lesarmos nossa própria consciência? Antes, preferimos a verdade ao engano, ainda que nos traga prejuízo. Arregaçamos as mangas e trabalhamos com o objetivo de termos o suficiente para repartir com o que nada tem. Dar lugar ao diabo nada mais é cometer o sacrilégio de permitir sua intromissão em nossas relações. 

Que seja o propósito de nosso coração que, “libertados da mão de nossos inimigos”, sirvamos a Deus sem temor, “em santidade e justiça perante ele, todos os dias da nossa vida” (Lc.1:75). Que o inimigo de nossas almas jamais encontre espaço para profanar a santidade de nossa existência. Que deixemos de enxergar a vida sob a ótica do diabo (etimologicamente, aquele que divide, que compartimentaliza, que segrega), e passemos a enxergá-la da ótica divina, integrada, inteira, santa e repleta de sentido. 

* Caso não tenha lido os dois posts anteriores, sugiro que não deixe de lê-los para uma melhor compreensão do tema. 

segunda-feira, fevereiro 26, 2018

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Santificação, individuação e autenticidade


Por Hermes C. Fernandes

A indústria religiosa patenteou o processo de padronização comportamental em série, nomeando-o dolosamente de santificação. O instrumento usado na produção de crentes em grande escala atende pelo nome de discipulado. Cada novo discípulo é conclamado a reproduzir-se, formando outros que sejam sua réplica. Assim, o que chamamos de discipulado está mais para clonagem.

Definitivamente, santificação nada tem a ver com a produção de soldadinhos de chumbo. O processo de santificação está estreitamente ligado ao de individuação.

Pedro nos insta a que cheguemos a Cristo, “pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas, para com Deus eleita e preciosa”. Semelhantemente, tornamo-nos “pedras vivas, edificados como casa espiritual”, para sermos “sacerdócio santo”, a fim de oferecermos “sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pe. 2:4-5).

Esta não é a única vez em que encontramos esta analogia nas páginas do Novo Testamento. Portanto, seus leitores provavelmente estavam familiarizados com ela, e compreendiam que o novo templo erigido por Deus era composto de gente e não de tijolos inanimados.  Bastava que Pedro se referisse a cada um de nós como “pedras” ou “tijolos”. Porém, ele, deliberadamente, acrescenta o adjetivo “viva”.  Não somos apenas pedras, mas pedras vivas. Qual a razão de ele ter acrescido o adjetivo?

Tudo o que vive está em constante movimento. Não se trata de algo estático, mas dinâmico, em contínua evolução e maturação. Assim somos nós. Nosso maior exemplo é Cristo, que sendo Deus, esvaziou-Se completamente,  para  submeter-Se ao processo de maturação. O escritor de Hebreus nos afiança que Ele, mesmo sendo Filho, “aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu; e, tendo sido aperfeiçoado, veio a ser o autor de eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb.5:8-9).

Todos igualmente estamos envolvidos neste processo de aperfeiçoamento, que deve durar “até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados ao redor por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor” (Ef.4:13-16).

Como tijolos vivos somos devidamente assentados numa das paredes do santuário de Deus. Portanto, não somos mais tijolos soltos, vulneráveis e suscetíveis a qualquer vento. Todavia, depois de assentados, não deixamos de crescer. Trata-se do processo de individuação, a que Paulo chamou de “chegar à estatura de homem perfeito”, ou, homem completo, maduro. Deixamos de ser meramente pessoas para ser plenamente indivíduos. O termo “indivíduo” quer dizer indivisível, inteiro, íntegro.

Uma das características deste processo de individuação é a autenticidade.

Pedro diz que Cristo, como pedra viva e preciosa para Deus, sofreu a rejeição dos homens. O preço da autenticidade é ser rejeitado pelos padrões vigentes no mundo. Por não nos dobrarmos à padronização, somos tidos por rebeldes, insurgentes, seres exóticos que devem ser empurrados para as margens da sociedade.

Já não somos definidos pelos papéis sociais que desempenhamos, nem pelo status que alcançamos, ou por qualquer outra coisa. O que somos deriva-se do que Ele é.  É de nossa relação com Ele e do lugar que ocupamos em Seu propósito que advém o significado de nossa existência.

Ao ser enviado por Deus para retirar o Seu povo da escravidão do Egito, Moisés perguntou-o: O que direi a eles? Em nome de que Deus me apresentarei?  “Respondeu Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos olhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Êx. 3:14).

As divindades egípcias eram conhecidas por seus nomes. Mas o Deus de Israel não poderia ser definido pela junção e pronúncia de alguns fonemas produzidos por lábios humanos. Para além de todas as definições, Ele é o que é. Por isso, Deus proibiu que Lhe fizessem imagens. Por mais talentoso que fosse o artista, ele seria incapaz de representar o Deus Criador dos céus e da terra numa escultura.

Este mesmo Deus ordenou que fôssemos santos, porque Ele é santo. Portanto, não devemos nos deixar definir por coisa alguma, senão pela graça que nos foi concedida por este Deus. É esta graça que possibilita ao homem mortal relacionar-se com o Deus Eterno e que deveria pautar nossa relação com o restante da criação. Com isso em vista, Paulo declara:

“Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus que está comigo.” 1 Coríntios 15:10

O que faço não me define, mas revela quem sou. Ainda que eu faça mais do que todos os que vieram antes de mim, devo creditar o meu desempenho à graça, pois ela que verdadeiramente define quem sou.  O que faço, faço porque sou. Mas não sou o que sou pelo que eu faço. Apenas cumpro o propósito de minha existência.

A santificação coloca cada coisa em seu devido lugar. Os fatores são devidamente ordenados para que não alterem o produto.  A santificação realinha o significado de cada coisa, e nos faz vê-la em perspectiva.

Havia uma discussão entre os religiosos dos tempos de Jesus em torno do que seria mais importante, o ouro ou o templo, a oferta ou o altar. Jesus colocou as coisas na perspectiva correta:

“Ai de vós, condutores cegos! pois que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo, isso nada é; mas o que jurar pelo ouro do templo, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro, ou o templo, que santifica o ouro? E aquele que jurar pelo altar isso nada é; mas aquele que jurar pela oferta que está sobre o altar, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: a oferta, ou o altar, que santifica a oferta? Portanto, o que jurar pelo altar, jura por ele e por tudo o que sobre ele está; e, o que jurar pelo templo, jura por ele e por aquele que nele habita; e, o que jurar pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que está assentado nele.” Mateus 23:16-22

Em outras palavras, o todo é que santifica as partes e não vice-versa. A oferta é santificada pelo altar onde foi depositada. Fora do altar, ela deixa de ser oferta, isto é, perde o seu significado como tal, e passa a ser apenas dinheiro.

Como indivíduos, nosso significado advém de nossa relação com o todo. Não confunda individuação com individualismo. Nossa relação com o todo é sinérgica e recíproca. Assim como o todo santifica as partes, as partes devem atribuir santidade ao todo e reconhecer a santidade de cada parte individualmente. 

Não se trata de atribuir significado pela função que desempenha, e sim pela relação que se tem.  Ser pai, por exemplo, agrega significado à nossa vida. É muito mais do que, simplesmente, um papel social.

Uma mão deve seu significado à relação que tem com o resto do corpo. Ainda que, eventualmente, ela fique imobilizada, não deixará de ser o que é.

Nossa relação abarca ao mesmo tempo, o todo e as demais partes de per si, independente da função desempenhada. Pois assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente uns dos outros” (Rm. 12:4-5). Repare no detalhe: somos membros do corpo, mas individualmente membros uns dos outros. Não se pode santificar o todo e desprezar as partes.

Não se trata apenas de ter consciência de sua existência e significado, mas também de se ver como parte de uma rede de cuidado mútuo. O que ocorre num extremo da rede, afeta o outro extremo. Estamos todos conectados.  Por isso, “se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1 Co.12:26).

Somente poderemos oferecer e receber cuidado se admitirmos nossa interdependência. De sorte que “o olho não pode dizer à mão: não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: não tenho necessidade de vós” (1 Co.12:21). Todos, invariavelmente, dependemos uns dos outros. E esta interdependência nos faz santificar uns aos outros, honrando-os, isto é, atribuindo-lhes significado especial e intransferível.

Retomando a analogia do santuário: somos pedras vivas posicionadas em seu próprio lugar nas paredes do templo, e, assim, coletivamente, tornamo-nos habitação de Deus. Ninguém é habitação de Deus em seu isolamento. Carecemos da relação com o todo. Nem tudo o que somos em conjunto, somos em particular.

Paulo diz que “todo o edifício bem ajustado cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito” (Ef. 2:21-22).

Muitos alegam terem deixado de congregar por serem eles mesmos o templo de Deus. Estes parecem ignorar a advertência bíblica de que “aquele que vive isolado busca seu próprio desejo; insurge-se contra a verdadeira sabedoria” (Pv.18:1).

A santificação visa nos preparar para a comunhão. Somos indivíduos aprendendo a nos relacionar com outros indivíduos, atribuindo-lhes significado, e respeitando e honrando seu próprio lugar no Todo. A santificação, portanto, é um processo que começa na individuação e culmina na comunhão.

Cada pedra viva é formada (individuação), depois encaixada em seu lugar (significação), e, finalmente, emboçada (comunhão). Todas as pedras juntas, unidas em amor, suportando umas às outras, formam o templo do Deus vivo. Todavia, nossa individualidade é mantida. Somos absorvidos pelo Todo, mas jamais dissolvidosPor trás da camada de massa que cobre a parede ainda há tijolos assentados cuidadosamente uns sobre os outros.

Qualquer proposta de espiritualidade que promova a diluição do ser não deveria nem sequer se levada a sério. Tudo neste mundo parece conspirar para que o indivíduo perca sua identidade e passe a agir de acordo com decisões tomadas por outros. E é assim que certos grupos se perpetuam no poder.

Quando se perde a individualidade, deixando-se diluir, a pessoa é capaz de fazer coisas que jamais faria em sã consciência. É como se seu senso crítico ficasse em suspensão por um tempo. Fazem o que der na telha. Paulo nos adverte a não andarmos “como andam também os outros gentios, na vaidade da sua mente. Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração; os quais, havendo perdido todo o sentimento, se entregaram à dissolução, para com avidez cometerem toda a impureza” (Ef.4:17-19). A palavra chave desta passagem é dissolução, de onde vem o verbo dissolver. Nossos sentimentos são anulados. Nosso juízo é posto de lado. Agimos como que por instinto, mas, na verdade, apenas nos sujeitamos a uma consciência coletiva temporária.

Lemos em Êxodo 23:2 a admoestação que diz: Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda darás testemunho, acompanhando a maioria, para perverteres a justiça.” Jamais permitamos que pensem e decidam por nós, por mais cômodo que isso pareça ser.  Cada qual terá que responder diante de Deus por suas próprias escolhas. 

Esperar dissolução por parte dos que não conhecem a Deus pode parecer natural. O problema toma outra proporção quando os que se dizem porta-vozes da graça de Deus são os promotores da dissolução. Há que se redobrar o cuidado para que não sejamos enganados pela falsa espiritualidade dos tais. Desde os primórdios, a igreja tem tido que lidar com isso. Por isso, Judas denuncia os que se infiltram na igreja, e “convertem em dissolução a graça de nosso Deus” (Jd.1:4).

Nada mais contraditório do que usar a graça como pretexto para manipular as massas, levando indivíduos a abrir mão de sua individualidade, deixando-se dissolver.

Sejamos, portanto, sóbrios e atentos para que ninguém fale em nosso nome, usando-nos inescrupulosamente para atingirem alvos inconfessáveis. Comunhão, sim. Manipulação, jamais. Santificação, sim. Dissolução, jamais. 


* Caso não tenha lido ainda, leia o artigo anterior a este para uma melhor compreensão do tema. Em breve postarei a última parte desta reflexão. 

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Santidade em seu devido lugar, sem frescuras e fricotes



Por Hermes C. Fernandes

Devo confessar que minha relutância em tratar deste assunto se deve, antes de tudo, ao estigma que ele carrega. Todavia, senti-me desafiado a romper com meu próprio preconceito e a navegar nesses mares revoltos sob os auspícios da graça.

Haveria uma abordagem sobre o tema que não incorresse em legalismo, descambando numa tentativa humana de alcançar méritos diante de Deus através de seu desempenho? Estou convencido que sim. Urge buscarmos uma definição bíblica do que seja santidade, sem o pesado ranço religioso.

Ser santo não significa ser moralmente puro, perfeito ou dotado de uma espiritualidade madura. Os cristãos coríntios foram chamados por Paulo de “santificados em Cristo Jesus” e “santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1 Co.1:2). Não obstante, o mesmo apóstolo declara que não pode dirigir-se a eles como “a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo”. Ele se justifica: “ainda sois carnais pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?” (1 Co.3:1,3). Quem jamais imaginaria que pudesse haver santos invejosos, contenciosos, carnais? Mas, há! E como há! Todavia, sua imperfeição não os desqualifica como santos.

Ser santo também não é atribuir poderes especiais a alguém como geralmente se faz no processo de canonização da igreja católica.

Então, que significado haveria por trás do termo “santidade”?

A palavra hebraica traduzida por “santo” é Kadosh, que significa tão somente “separado”.

Sob o pretexto de santidade, a igreja cristã tem se separado literalmente do mundo à sua volta, e desenvolvido uma cultura de gueto. Confunde-se santidade com alienação.

Foi a partir de uma compreensão equivocada que os protestantes de origem holandesa impuseram o regime do Apartheid na África do Sul. Originalmente, os motivos não eram étnicos, mas religiosos. Os cristãos brancos não queriam correr o risco de ter sua fé diluída no fetichismo religioso dos africanos.  Temendo ter a pureza de sua fé comprometida com o sincretismo, preferiram delimitar perímetros, onde brancos e negros viveriam segregados. Todos sabemos aonde isso levou.


Santificar tem muito mais a ver com “separar para” do que “separar de”. Pedro diz que somos geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para anunciar as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pe.2:9). Ora, como anunciaremos algo àqueles de quem fomos separamos? Que propósito haveria de anunciar algo aos de nosso próprio grupo? Para que sejamos ouvidos, temos que nos entrosar, ter vida social, transitar entre os homens, não como alienígenas, mas como um deles. Somos santos, porém, não somos ETs.

Santificar é separar no sentido de distinguir, não de apartar. E distinguir é atribuir significado exclusivo. Portanto, pode-se afirmar que santificar algo ou alguém é reconhecer o lugar peculiar que deve ser ocupado por ele.

Veja, por exemplo, a recomendação de Pedro:

 “Antes santificai em vossos corações a Cristo como Senhor; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós.” 1 Pedro 3:15

Se dermos à santificação o sentido que geralmente se dá, esta recomendação não faz qualquer sentido. Como poderíamos santificar Àquele que já é o Santo dos Santos? Como torná-lO ainda mais santo do que já é? Se santidade tem a ver com perfeição, como poderíamos tornar a Cristo ainda mais perfeito? Além de ser o cúmulo da presunção, seria um paradoxo. Como torná-lO mais puro? Ou atribuir-Lhe mais poder? Porém, se considerarmos a definição aqui apresentada, a recomendação de Pedro se revestirá de um sentido muito especial.

Santificar a Cristo como Senhor em nosso coração nada mais é do que reservar a Ele um lugar especial. Ainda que haja em nosso coração uma cadeira cativa para tudo quanto nos é caro, como por exemplo, para nossos familiares e amigos, o trono de nossa vida deverá ser exclusivo do Senhor. Ele sempre terá primazia em tudo. Atribuímos a Ele um significado distinto, que jamais poderá ser compartilhado com qualquer outro ser.

A santidade da vida

O mesmo apóstolo nos adverte:

 “Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação, sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais.”  1 Pedro 1:15-18

Repare nisso: santidade tem mais a ver com comportamento do que com compartimento. Corro o risco de ser mal interpretado aqui e julgado como legalista. Não se trata disso. Não se trata de submeter-se a um emaranhado de regras, e sim de ressignificar a vida. Quem se apercebe de quão santa é a vida, jamais vai viver de maneira inconsequente. Nossos atos reverberam na eternidade. Fomos resgatados da nossa vã maneira de viver, herdada de nossos antepassados. Já não somos reféns do momento. Fomos conclamados a ir além, transcendendo o tempo e o espaço. Portanto, não faz mais sentido adotar como lema o refrão do samba que diz “deixe a vida me levar, vida leva eu...”

A santidade da vida reside em seu propósito. Nossa existência é muito mais do que um acidente de percurso. Fomos engendrados por Deus para o cumprimento de um propósito. Disponho-me a correr o risco de parecer piegas por esta afirmação. Mas, uma vida desprovida de propósito é igualmente desprovida de significado. Somos mais do que meros prontuários. Mais do que figurantes da trama da existência. Somos, cada qual, protagonistas, ou como diria Mandela, “capitães de nossa alma”.

Paulo expressou tal compreensão ao declarar: Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (At.20:24). Em outras palavras, Paulo se dispunha a enfrentar o martírio, se isso, de alguma maneira, contribuísse pela execução do propósito de sua existência. Afinal, só vale a pena viver por algo pelo qual se disponha a morrer. A santidade da vida, portanto, consiste no significado que lhe atribuímos. Quando já não estivermos aqui, os passos que houvermos dado continuarão a ecoar, a fragrância do sacrifício que houvermos feito seguirá sendo exalada pelos que nos sucederem nesta jornada.

Dispensamos altares! Não se atrevam a nos canonizar! Nem se preocupem em esconder nossas idiossincrasias e contradições sob o verniz de uma biografia idealizada. Que nossas vitórias sejam celebradas e nossos equívocos sirvam de advertência. Mas que todos saibam que buscamos viver plenamente em função do propósito do qual fomos imbuídos, apesar de, às vezes, nos deixarmos distrair.

A biografia de um santo não é um mapa para as próximas gerações, mas tão somente um registro de quem buscou fazer valer a pena sua estada neste planeta. Viveu e deixou viver. Encarnou sua missão. Gastou-se e deixou-se consumir pela chama da paixão que o movia.

No próximo post, falarei sobre santificação e o processo de individuação.

quinta-feira, julho 27, 2017

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Um Deus de transições e não de rupturas abruptas


Hermes C. Fernandes


A maioria dos cristãos crê que haverá um tempo de justiça e paz no mundo. Uns creem que isso se dará paulatinamente através do avanço do evangelho. Mas a maioria prefere acreditar que isso se dará subitamente, quando Cristo vier em glória para estabelecer o Seu reino. Para nutrirmos uma esperança bem fundamentada, precisamos recorrer às Escrituras em busca do modus operandi de Deus.

Como Deus tem trabalhado ao longo da História, através de rupturas ou transições?

Se Ele trabalha com rupturas, é justo esperar que a qualquer momento a História sofrerá uma intervenção radical por parte de Deus, seja através de um vultuoso avivamento repentino, ou através da volta iminente de Cristo para o estabelecimento do Seu reino de paz e justiça.

Mas se for comprovado que o método usado por Deus é caracterizado por transições em vez de rupturas, é plausível esperar que Ele trabalhe de maneira gradativa na expansão do Seu reino entre os homens.

Será que encontramos na natureza algum indício de como Deus trabalha?

Em Gênesis 8:22 lemos: “Enquanto a terra durar, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite”. Verão e inverno são dois extremos dentre as estações. Foram as duas primeiras estações a serem nomeadas pelos humanos. O verão é caracterizado pelo calor, enquanto o inverno, pelo frio. Com o passar do tempo, os homens observaram que entre um extremo e outro, havia uma período de transição. O calor do verão não cede ao frio do inverno de um dia para o outro. Antes que o inverno chegue, o verão tem que ceder lugar ao outono. E antes que o verão volte, o inverno cede sua vez à primavera. Hoje entendemos que o ano é dividido em quatro estações, e não apenas duas.



Da mesma maneira, o dia é dividido em duas partes de doze horas cada: o dia e a noite. O dia não vira noite de um minuto para o outro. Não se acende o sol como quem aperta um interruptor. Para que a noite vire dia, há um período extenso de transição que chamamos de “madrugada”. E para que o dia se torne noite, há um período chamado de “tarde”, ou “entardecer”. Da madrugada para a manhã há um breve momento chamado de “aurora”, ou “alvorada”. Da tarde para a noite há um breve momento chamado de “crepúsculo” (pôr-do-sol). Nada acontece abruptamente. Tudo obedece a uma ordem, a uma seqüência.

Podemos observar algo parecido no desenvolvimento da vida humana. Entre a infância e a vida adulta, há um período intermediário chamado “adolescência”. Neste período o indivíduo se adapta às novas dimensões do seu corpo, bem como às novas responsabilidades sociais da fase adulta. Ora se comporta como criança, ora como adulto. Alguns chamam esta fase de “aborrecência”, devido aos aborrecimentos sofridos pelos pais. Mas até isso é uma maneira de preparar os pais para “perder” seus filhos, atenuando o sofrimento por sua partida.


Da fase adulta à velhice, há um período intermediário que chamamos de “meia-idade”. Aos poucos, nossas forças diminuem, e nos habituamos às limitações da terceira-idade. Já a velhice nos prepara para o grande salto, o momento da morte. O fato de sermos relegados a um segundo plano, nos dá a consciência de que a vida segue sem nós, de que não somos indispensáveis. O maior sofrimento que a morte trás se deve ao fato de não admitirmos que somos dispensáveis. Rubem Alves disse certa vez, quando perguntado se tinha medo da morte: “Não tenho medo da morte, tenho pena”. A gente tem dificuldade de aceitar que o mundo continua em sua trajetória, mesmo em nossa ausência. Não somos indispensáveis. E a velhice é o período que nos dá essa lição.



Imagine se dormíssemos crianças, e acordássemos adultos? E se no outro dia, amanhecêssemos idosos? O filme “De repente trinta” fala sobre uma adolescente que acorda com trinta anos. Sem ter tido tempo para se adaptar, ela passa pelas situações mais inusitadas e cômicas. Cada fase do desenvolvimento humano traz seus próprios desafios, e nos prepara para a próxima. O próprio Cristo teve de passar por cada fase. Ele poderia ter descido do céu já adulto. Mas em vez disso, experimentou ser um espermatozoide, depois um feto, um embrião, um bebê, uma criança, um adolescente, até chegar à maturidade, quando teve Sua trajetória interrompida pela morte, e por isso, não teve oportunidade de envelhecer. Por que Ele não apareceu já adulto, oferecendo-Se para morrer por nossos pecados? Pra quê ter que passar por tudo aquilo? Ter que aprender a engatinhar, a falar, a andar? Tudo isso indica que Deus usualmente trabalha através de transições, e não de rupturas.

Vejamos, agora, através da História, a maneira preferível de Deus trabalhar. Na criação, por exemplo, Ele poderia ter feito todas as coisas instantaneamente. Bastaria um estalar de dedos, e tudo surgiria do nada. Ninguém duvida que teria poder para isso. Entretanto, preferiu seguir uma seqüência. Tenha sido de 6 dias literais, como creem alguns, ou em bilhões de anos, como advogam os cientistas, o fato é que Deus criou todas as coisas gradativamente, sem pressa.

Ao tirar o povo Hebreu do Egito, Deus poderia tê-los arrebatados até a Terra Prometida. Isso não constituiria qualquer dificuldade para Deus. Se Ele foi capaz de arrebatar Filipe, levando-o de um lugar ao outro em segundos, por que não poderia arrebatar todos os hebreus de uma só vez, poupando tanto trabalho? Mas em vez disso, permitiu que eles peregrinassem por 40 anos no deserto, até que estivessem prontos para herdar a Terra da Promessa. Já foi dito que o mais difícil não foi tirá-los do Egito, mas tirar o Egito do coração deles. O deserto representa o período de transição entre o cativeiro e a promessa.

Quando chegaram à Terra que manava leite e mel, Deus poderia ter instituído um reino imediatamente. Mas antes que Israel estivesse pronto para ser governado por um monarca escolhido por Deus, teve que viver debaixo da autoridade dos juízes por muitos anos. Homens como Gideão, Sansão, Samuel, e até uma mulher, Débora, ajudaram a preparar o povo israelita para viver sob a autoridade de um rei ungido por Deus.

Ao inaugurar a Era da Graça, Jesus sabia que a igreja necessitaria de um período de adaptação. O livro de Atos narra essa fase de transição. Por isso, não pode tomar o livro de Atos como normativo para igreja nos dias de hoje. A igreja primitiva não nos serve de modelo. Nela, encontramos situações atípicas, como a que Paulo tomou a Timóteo, que era filho de pai grego, e o circuncidou “por causa dos judeus” (At.16:3). Mais tarde, o próprio Paulo advertiu: “Escutai! Eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará” (Gl.5:2). Atos nos apresenta uma igreja adolescente, que ainda não se acostumara à realidade da Graça, e por isso, insistia em manter alguns resquícios da Lei. O livro de Atos equivale, no Novo Testamento, ao livro de Êxodos no Antigo Testamento. Ele narra a peregrinação do Novo Israel, da escravidão da Lei, para a liberdade da Graça. Por isso, nenhuma doutrina pode se fundamentar unicamente no livro de Atos dos Apóstolos. Entre a remoção da Antiga Aliança, e a implementação da Nova, houve um período de transição. Foram necessários cerca de 40 anos, o equivalente a uma geração, para que a igreja tivesse o seu cordão umbilical cortado, rompendo de vez com o judaísmo. Isso se deu quando Jerusalém foi sitiada pelos romanos, e seu templo destruído, conforme previsto por Jesus. A antiga Jerusalém teve que dar lugar à nova Jerusalém, a igreja de Cristo.

E quanto ao Reino de Deus? De que maneira ele se estabelecerá no mundo? Será por uma intervenção abrupta, ou gradativamente? Deixemos que o próprio Jesus nos diga:

“A que é semelhante o reino de Deus, e a que o compararei? É semelhante ao grão de mostarda que um homem tomou e plantou na sua horta. Cresceu e fez-se árvore, e em seus ramos se aninharam as aves do céu. Perguntou mais: A que compararei o reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo levedou.” Lucas 13:18-21
Ambas as parábolas indicam claramente que a implantação do Reino de Deus é gradual, e não abrupta.

É comum vermos cristãos sinceros esperando por uma manifestação espetacular do Reino de Deus no mundo. Mas o modus operandi de Deus é claramente outro, como temos demonstrado aqui. Ele prefere a discrição, em vez do espetáculo. Jesus deixa isso bem claro ao declarar que “o reino de Deus não vem com aparência visível. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Ei-lo ali! Porque o reino de Deus está dentro de vós”(Lc.17:20-21). Se Ele quisesse, poderia simplesmente aparecer para todos os homens, em um glorioso espetáculo, e dizer: Eu sou Deus! Tratem de obedecer aos meus mandamentos! Mas, pelo que tudo indica, não é isso que Ele pretende fazer.

A semente de mostarda já foi plantada. O Filho de Deus já estabeleceu Seu Reino entre os homens em Seu primeiro advento. E o fermento já começa a levedar! Estamos vivendo em um período de transição. Em breve, aquela pequena semente terá se espalhado em toda a Terra, e justiça do Reino brotará. Não é à toa que Jesus Se apresenta como a “Estrela da Manhã”, aquela que anuncia que o dia já está amanhecendo.

O caminho proposto por Deus à igreja é a vereda dos justos, que “é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Pv. 4:18). Estamos a caminho do dia perfeito, quando o Sol da Justiça brilhará em todo o Seu resplendor. João dá testemunho de que “as trevas vão passando, e já brilha a verdadeira luz” (1 Jo.2:8). Paulo também parece concordar com a afirmação joanina, ao declarar: “A noite é passada, e o dia é chegado. Rejeitemos, pois, as obras das trevas e vistamo-nos das armas da luz”(Rm.13:12). É hora de aposentarmos nossos pijamas, e despertarmos para vivermos o novo dia, que começou quando Cristo rendeu Seu espírito na Cruz, dizendo: Está consumado. Na Cruz, as trevas encontraram o seu apogeu, pois no relógio profético, ela se deu à meia-noite. Por isso Jesus afirmou ao ser preso: “Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas” (Lc.22:53).

A partir da Cruz, começa o novo dia. Portanto, a tendência é que as coisas clareiem, em vez de escurecerem. Em outras palavras, o mundo caminha para a restauração, e não para a destruição, como insistem alguns.

Quando começa um novo dia? Não é no primeiro segundo após a meia -noite? Entretanto, a noite continua tão escura quanto antes. Porém, a partir daí, gradativamente, as trevas vão cedendo à luz. Ainda que os olhos não percebam, dado o caráter paulatino com que o dia vai clareando. As horas que se seguem testemunham o embate entre as trevas e a luz. Invariavelmente, as trevas são vencidas.  Afinal,“a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram sobre ela” (Jo.1:5).

Horas depois, surge no horizonte a estrela da manhã, anunciando que a qualquer momento, os primeiros raios solares serão vistos. Não é à toa que Jesus Se apresenta nas páginas de Apocalipse como a Estrela da Manhã (Ap.22:16).

Em breve, a luz do Evangelho terá alcançado todos os povos, e o novo dia alcançará o seu apogeu. Todas as nações se renderão à Cristo, Luz do Novo Dia. “Todos os confins da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor; todas as famílias das nações adorarão perante ele” (Sl.22:27). Em outras palavras, o bem triunfará. As trevas serão totalmente dissipadas. A verdade e o amor prevalecerão. E aí... será dia perfeito!

Podemos dizer que estamos vivenciando a aurora deste Novo Dia. Já podemos contemplar o degradê, resultado dos primeiros raios solares que despontam no horizonte celeste.

Cabem aqui as palavras proféticas proferidas por Isaías: “Levanta-te, resplandece, pois já vem a tua luz, e a glória do Senhor vai nascendo sobre ti. As trevas cobrem a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti o Senhor vem surgindo, e a sua glória se vê sobre ti” (Is.60:1-2). Repare no uso do gerúndio, demonstrando claramente que se trata de uma transição, e não de algo abrupto: “A glória do Senhor vai nascendo sobre ti (...) Sobre ti o Senhor vem surgindo”. Portanto, é hora de levantar, de despertar de nosso sono letárgico, e assumirmos uma postura de vanguarda neste mundo. Esta é a ordem do dia para igreja de Cristo espalhada no mundo:“Desperta, ó tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará”(Ef.5:14). Em vez de ficarmos aguardando uma manifestação repentina do Reino de Deus, arregacemos as mangas e trabalhemos por sua expansão.

Já, já, poderemos fazer coro com Salomão: “Vê! Já passou o inverno; as chuvas cessaram, e se foram. Aparecem as flores na terra; o tempo de cantar chegou, e a voz das rolas ouve-se em nossa terra. A figueira já deu os seus figos, e as vides em flor exalam o seu aroma” (Ct.2:11-13a).

sábado, junho 03, 2017

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O que você procura pode estar bem debaixo do seu nariz



Por Hermes C. Fernandes

“Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a candeia, e varre a casa, e busca com diligência até a achar? E achando-a, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já achei a dracma perdida.” Lucas 15:8-9

Àquela época, diferentemente de hoje, cobrava-se um dote pela mão de uma mulher pedida em casamento.  Esta era uma maneira de se compensar a família por ter tido filhas, uma vez que estas não poderiam trabalhar e assim, ajudar com as despesas domésticas.

Quando Roma conquistou aquela região, impôs o uso de sua própria moeda, o denário, substituindo a dracma, a moeda grega que circulava desde os dias de Alexandre, o Grande. De maneira criativa, as mulheres judias resolveram adotar as dracmas como adorno, transformando-as em coroas que representavam o valor pago por seu dote. Apesar de não circularem mais como moeda corrente, as dracmas serviam a um propósito inusitado. Perderam o valor, mas não o significado. Por isso, tiveram sua utilidade resgatada. Se não eram mais úteis para comprar e vender, tornaram-se úteis para enfeitar a fronte das mulheres casadas. Tornaram-se num sinal de comprometimento. Somente mulheres casadas as usavam.

Antes de descartar algo, deveríamos considerar a possibilidade de ressignificá-lo. Se não serve mais para algo, pode ser que sirva para outro.

Aquela mulher perdeu uma das dracmas de sua coroa. Isso poderia sugerir que ela não dera o devido valor ao dote pago por seu marido. Daí o desespero com que ela empreendeu tão diligente busca.

Semelhantemente, Jesus pagou o dote por Sua noiva, a Igreja. Recebemos d’Ele uma coroa cujas dracmas representam o valor que nos foi atribuído. De acordo com o diagnóstico apostólico, “todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis”[1], tornando-se “destituídos da glória de Deus.”[2] O pecado nos destituíra de qualquer valor. Porém, Seu amor por nós foi capaz de restituir o valor perdido. Ele não pagou por nós o que valíamos, nem sequer o que merecíamos.

Para Deus, muito mais do que utilidade, temos significado.

Recebemos uma coroa composta de tudo aquilo que Ele nos confiou. Cada dracma representa algo cujo valor está em seu significado, não em sua utilidade. O problema é que a gente não costuma dar valor ao que não nos custa nada. Por isso, quando perdemos uma das dracmas de nossa coroa, muitas vezes, nem ao menos sentimos falta. Precisamos atentar para o fato de que o que nada nos custou, custou a vida de nosso Salvador. Portanto, saiu de graça para nós, não para Ele. E se, de fato, o amamos, valorizaremos tudo o que teve o custo de Sua preciosa vida.

O valor que atribuímos a algo corresponde ao lugar que aquilo ocupa em nossa lista de prioridades. Tudo o que postergamos, que empurramos com a barriga, revela o desconcertante fato de não lhe darmos o devido valor. Às vezes é preciso perder, sentir falta, para só então perceber o valor que aquilo possuía.  

Todavia, há que se cuidar para não permitir que algo ou alguém encabece nossa lista de prioridades. Este lugar pertence exclusivamente ao Senhor. O valor de tudo o que possuímos decorre da importância exercida pelo Senhor em nossa vida. Se Ele não ocupar o primeiríssimo lugar, todas as demais coisas estarão fora de lugar.

Nada do que recebemos d’Ele deve ser banalizado. Mas também nada que d’Ele recebemos deve ocupar o Seu lugar de primazia. E será assim que encontraremos o balanço, o equilíbrio perfeito para seguirmos em nossa jornada.

Quando não damos o devido valor a algo, o Senhor permite que o percamos, ainda que eventualmente possamos reencontrá-lo. Mas quando damos um valor excessivo, o próprio Senhor nos pede aquilo. Se valoriza de menos, perde. Se valoriza demais, Ele pede.

A mesma Bíblia que nos adverte a guardar o que temos recebido para que ninguém tome a nossa coroa[3], revela-nos os anciãos lançando suas coroas aos pés do Cordeiro. [4] Não há lugar mais seguro no universo! 

Voltando à parábola em questão:

A primeira pergunta que devemos nos fazer é: o que temos perdido? Que valor tem para nós? Valeria a pena empreender uma busca? Quem não sabe o que perdeu, não sabe o que procurar. Quem não dá valor ao que perdeu, não encontra razão para procurar.

Estaria faltando alguma dracma em nossa coroa? Talvez necessitemos dar uma conferida olhando-nos no espelho.

A segunda pergunta é: onde o perdemos?

Onde aquela mulher perdeu sua dracma, afinal? Não foi na rua ou no mercado, mas dentro de sua própria casa. Portanto, não fazia sentido procurar em outro lugar.

Quando perdemos algo de valor, procuramos nos lembrar de todos os lugares por onde passamos. Certamente, aquilo se perdeu num desses lugares. Ninguém vai perder tempo procurando em lugares onde não tenha estado.

Não adianta buscar lá fora o que se perdeu dentro de casa.

Uma vez localizado o lugar onde possivelmente o perdemos, precisamos adotar algumas medidas a fim de que nossa busca não seja infrutífera.

A primeira medida tomada por aquela mulher foi providenciar iluminação para o ambiente: o texto diz que ela acende a candeia. Ninguém procura por algo com as luzes apagadas, pois a probabilidade de encontra-lo é quase nula.

O poema da criação diz que no princípio Deus criou os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia (no original, estava mergulhada em caos, em desordem). Antes de colocar ordem naquela bagunça, “disse Deus: haja luz e houve luz.”[5]

Na simbologia bíblica, luz significa entendimento, discernimento, compreensão, conhecimento. Não basta zelo em nossa busca pelo que se perdeu. Há que se ter entendimento. Paulo diz que os judeus eram zelosos, porém faltava-lhes entendimento acerca da vontade de Deus. [6] Zelo sem entendimento é ciúme cego e possessivo. Nossos olhos espirituais devem estar iluminados para que possamos discernir o que há no coração dos outros e em nosso próprio coração, nossas motivações mais profundas e o que nos leva a empreender nossa busca pelo que se perdeu.

A ausência de luz provocará colisões, jamais encontros. Queremos de volta o que é nosso, não por amor, mas por capricho. Nosso orgulho ferido não nos permitirá abrir mão. De repente, sem que percebamos, o amor é substituído pelo ódio. A procura prossegue, mas no escuro. João nos adverte quanto a isso:

“Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há tropeço. Mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos. 1 João 2:9-11

Quando há luz, sabemos por onde andamos e, por isso, evitamos colisões ao invadir inadvertidamente o espaço do outro.

O entendimento gera compreensão, que por sua vez, pavimenta o caminho do reencontro. A ignorância gera ódio, repulsa, revolta, provocando choques potencialmente devastadores.

A segunda medida adotada pela mulher da parábola é varrer a casa. Quão difícil é encontrar algo no meio da bagunça, da sujeira, da desordem. Quantas coisas perdidas dentro de casa já não foram encontradas acidentalmente durante uma faxina? A gente encontra até o que não está procurando. Que o diga o famigerado sofá que mais parece um buraco negro, sugando chaveiros, relógios, moedas e etc. A gente o examina atrás de uma escova, e acaba encontrando muito mais, até aquilo de que não demos a menor falta.

A propósito, por que só resolvemos varrer a casa quando perdemos uma dracma? Por que esperamos as coisas piorarem para decidir que é hora de coloca-las em seus devidos lugares? Não seria mais sábio a adoção de medidas preventivas? Não seria melhor manter a casa sempre asseada e arrumada?

A terceira medida é buscar com diligência. Não basta passar os olhos por desencargo de consciência. Uma busca superficial não será suficiente. Tem que sacudir o tapete, colocar os móveis de pernas para o ar, vasculhar cada canto da casa. Se pensa em desistir na primeira varredura, então é melhor nem começar a procurar. Quem desiste na primeira tentativa demonstra não dar tanto valor assim ao que se perdeu.

Após achar a tão preciosa moeda, ela convoca suas amigas para uma festa. Não lhe soa meio desproporcional (pra não dizer exagerado!) dar uma festa só para comemorar o fato de haver encontrado uma moeda?

Fico imaginando a cara de suas amigas ao tomarem conhecimento da razão daquela celebração. Onde já se viu comemorar uma coisa dessas!

Cada pessoa atribui valor diferenciado às coisas. O que para você não possui qualquer importância, para mim pode ser motivo de insônia. Há quem morreria ou mataria por aquilo que você descarta todos os dias sem qualquer cerimônia. Portanto, não nos cabe julgar, mas tão-somente participar da celebração, atendendo assim à recomendação bíblica de chorar com os que choram e nos alegrar com os que se alegram.

Todo reencontro deveria ser motivo de festa. Por isso, tanto a parábola anterior que conta sobre o pastor que saiu em busca da ovelha perdida, quanto a parábola que vem em seguida que narra a história do filho pródigo, terminam com festa. Havendo motivo para festejar, festeje! Se o motivo não for seu, mas do outro, festeje ainda assim. Se não teve valor para você, teve para ele. Portanto, deixe-se contagiar pela sua alegria. E no dia em que você tiver motivo de festejar, ele igualmente tomará parte em sua alegria.

P.S. Lembro-me da ocasião em que o ônibus espacial faria seu último voo. Morávamos há cerca de uma hora e vinte minutos do Cabo Canaveral. Infelizmente, não consegui estar lá. Porém, soube que do meu quintal seria possível assistir. Fiquei de prontidão. De repente, lá estava ele, rasgando o céu da Flórida em direção ao espaço. Vários vizinhos vieram para a rua saudar a última viagem do Columbia. Minha esposa e filhos não parecem ter dado o mesmo valor. Exceto minha caçula, que vindo para a rua, olhou para o céu e disse: É isso? Tentei explicar do que se tratava, mas ela esperava um espetáculo vistoso, exuberante. Mas para quem, como eu, cresceu assistindo a filmes e séries sobre viagens espaciais, aquilo era um espetáculo imperdível e de valor inestimável.

Abaixo, a reação inusitada da minha filha.




[1] Romanos 3:12
[2] v.23
[3] Apocalipse 3:11
[4] Apocalipse 4:10
[5] Gênesis 1:3
[6] Romanos 10:2

sexta-feira, abril 14, 2017

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Paixão e Subversão


Por Hermes C. Fernandes

Uma das características do ministério de Jesus era a coerência. Ele não apenas pregava uma mensagem, mas  era a própria encarnação da mensagem. E para isso, Ele Se dispunha a ir às últimas conseqüências. Por várias vezes, Jesus afirmou que no reino de Deus “os últimos serão os primeiros, e os primeiros, os últimos” (Mt.19:30; 20:16; Mc.10:31; Lc.13:30). Em outras palavras, quem quiser seguir os passos de Jesus, deve colocar-se como o último na fila de prioridades, deixando que todos estejam à sua frente. Quem assim faz, é visto por Deus como Sua prioridade. Porém, aquele que se acha mais importante que todos, colocando-se como o primeiro da fila, Deus o coloca por último.

Paulo repete o mesmo princípio em sua epístola aos Filipenses: “Cada um considere os outros superiores a si mesmo” (2:3b). E em Romanos: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (12:10). Jesus viveu tal princípio intensamente, fazendo-Se servo de todos à Sua volta. Mas é durante Seu suplício que esse princípio é colocado à prova.

Quem não priorizaria Sua própria vida em face da morte? Vejamos como Jesus agiu, lembrando que Ele deixou-nos exemplo, para que sigamos Suas pisadas (1 Pe.2:21).

Quais foram Suas prioridades naqueles momentos de profundo sofrimento?

1 – Gerações Futuras

Enquanto caminhava em Sua via-dolorosa, Jesus avistou um grupo de mulheres comovidas pelo Seu sofrimento. Veja Sua reação:

“Seguia-o grande multidão, e também mulheres que batiam no peito e o lamentavam. Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos” (Lc.23:27-28).
Não significa que Jesus não Se importasse com aquele gesto de carinho. Ele apenas quis realinhar o foco daquelas mulheres, projetando-o para as gerações futuras. Era por tais gerações que Ele estava padecendo, a fim de garantir-lhes um futuro.

Precisamos aprender com Jesus a priorizar o futuro. Em vez de focarmos nas tribulações presentes, devemos focar no testemunho que deixaremos para as gerações que nos sucederem. Este será o nosso legado.

2 – Seus inimigos

Durante o auge de Seu sofrimento, Jesus priorizou o bem de Seus inimigos, suplicando ao Pai que os perdoasse.
“Quando chegaram ao lugar chamado Caveira, ali crucificaram Jesus e com ele os dois criminosos, um à direita e outro à esquerda. Jesus disse: Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc.23:33-34a).
Jesus sabia que muitos daqueles inimigos eram seguidores em potencial. E a prova de que estava certo é que ao dar o último suspiro, o centurião responsável pela crucificação exclamou: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus!” (Mc.15:39).

3 – Seu próximo

Quem é nosso próximo? Foi esta a pergunta que um doutor da Lei fez a Jesus. Com uma parábola, conhecida como “O Bom Samaritano”, Jesus revelou que nosso próximo é aquele com quem nos deparamos na jornada da vida, independente de que as circunstâncias sejam boas ou más. Durante Seu suplício, ninguém estava tão próximo de Jesus do que aqueles ladrões que morriam ao Seu lado.

Mesmo esvaindo em sangue, Jesus ainda encontrou forças para expressar Seu amor pelo moribundo que suplicou: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino.” Aquele clamor não podia ficar sem resposta. Por isso, Jesus ignorou Suas dores, buscou as últimas forças que Lhe restavam, e respondeu: “Em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Lc.23:42-43).

Não temos o direito de achar que o mundo nos orbita. Embora Jesus fosse o centro de toda a Criação, naquele momento Ele voltou toda a Sua atenção para um homem considerado refugo da sociedade. Jesus poderia ter repreendido aquele homem, dizendo: - Você não está vendo a minha situação? Quando as coisas melhorarem para mim, quem sabe eu encontre um tempo para me preocupar com você?

Temos a tendência de valorizar nosso sofrimento, esquecendo daqueles que sofrem à nossa volta. Não deixe pra lembrar-se deles quando as coisas melhorarem. Lembre-se deles agora, enquanto as dores transpassam sua alma.

4 – Sua família

Já quase expirando, Jesus volta Sua atenção para a pessoa mais importante de Sua vida terrena: Sua mãe, que a esta altura, estava viúva, e necessitaria de alguém que cuidasse dela em sua velhice.
“Vendo Jesus ali a sua mãe, e que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse a sua mãe: Mulher, eis o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis a tua mãe. Dessa hora em diante o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo.19:26-27).
Jesus destaca o discípulo em quem mais confiava, para amparar Sua velha mãe. Interessante que Sua primeira prioridade são as gerações futuras, mas isso não ofusca Sua responsabilidade com a geração que O antecedeu.

Infelizmente, nossa sociedade hedonista e consumista não dá a mínima para os anciãos. Esses são considerados pessoas inúteis, um espécie de “mal necessário”, e acabam abandonados em asilos ou em quartinhos cheirando a mofo nos fundos de casa. Temos uma dívida de gratidão com quem nos gerou, criou e educou. Nossos filhos estão assistindo à maneira como tratamos nossos pais, e certamente, reproduzirão em nós o mesmo tratamento. Se plantarmos amor e cuidado, colheremos o mesmo.

5 – A Si mesmo

Cada prioridade equivale a um círculo. Somos o círculo do meio, o menor, e o último, contando de fora pra dentro.

Jesus deixou-Se por último.


“Mais tarde, sabendo Jesus que tudo estava consumado, e para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede!” (Jo.19:28). 

Repare nisso: “Mais tarde”. Será que aquela sede surgiu de repente? Ou será que Ele já a sentia mesmo antes de ser levado à cruz? Por que não a expressou antes? Pelo simples fato de que esta não era Sua prioridade. Para o ladrão penitente, Jesus disse "Hoje mesmo!". Mas para a Sua própria necessidade, Ele disse: "Mais tarde!"



Embora colocando-Se por último, o Pai O exaltou soberanamente, dando-Lhe um nome sobre todos os nomes (Fp.2:9). Estaríamos prontos para cultivarmos o mesmo sentimento que houve em Cristo? Estaríamos dispostos a levar isso às últimas conseqüências, como fez Jesus? Estou certo de que a mensagem da Cruz é muito mais ampla e profunda do que temos imaginado. Basta prestarmos um pouco mais de atenção. Ela é um atentado ao orgulho humano, e por isso mesmo, é a única mensagem capaz de transformar o Mundo, tornando-o um lugar mais justo e digno de se viver.