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quinta-feira, maio 31, 2018

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A MARCHA PARA JESUS E O APARTHEID CRISTÃO



Por Hermes C. Fernandes

Onde poderíamos encontrar a Cristo num dia como hoje em pleno feriado de Corpus Christi?  De um lado, cristãos evangélicos saem às ruas numa marcha que creem ser dedicada a Jesus. Do outro, cristãos católicos se reúnem para celebrar a presença de Jesus na Eucaristia. Não me atrevo a questionar a intenção de ambos. Acredito que muitos envolvidos nessas celebrações tenham um coração puro e sincero em sua devoção e adoração a Cristo. Todavia, creio que haja uma compreensão distorcida acerca da proposta subversiva de Jesus. Digo “subversiva” por ir na contramão de todo sistema religioso vigente tanto em Sua época, quanto hoje.

Não creio que Jesus pretendesse iniciar um movimento que levasse multidões às avenidas para gritarem Seu nome em coros puxados por trio-elétricos.  A genuína “marcha para Jesus” se dá sem data e hora marcadas, sem showmício para eleger candidatos evangélicos, sem discurso moralista, sem disputa para desbancar outras marchas e paradas. A verdadeira “marcha para Jesus” é aquela  em que “levamos sempre por toda a parte o morrer do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos” (2 Coríntios 4:10). Portanto, trata-se de algo discreto, sem alarde, sem chamar a atenção para si mesmo. Como “sal da terra” devemos ser polvilhados no caldeirão cultural, realçando o sabor da comida, e não chamando a atenção para nossa presença. Parece que temos errado na mão. Estamos tornando a comida intragável de tão salgada. Como “luz do mundo” devemos estar direcionados para fora como refletores em vez de querer atrair os holofotes para si. Em vez disso, tornamo-nos massa de manobra de quem almeja fazer de nós capital político para ser usado em suas negociações por trás dos bastidores.

Enquanto os evangélicos se voltam para fora com a pretensão de roubar a cena, os católicos se voltam para dentro numa espiritualidade centrada no ritual eucarístico. Mesmo que deixem suas paróquias para exibir ao mundo o Santíssimo Sacramento em suas procissões, o rito segue sendo restrito aos que professam a mesma fé.

Não quero aqui discutir dogmas. Respeito demasiadamente a fé católica, apesar de não subscrever alguns de seus posicionamentos.

É lindo de se ver a devoção sincera expressada eloquentemente na celebração eucarística. Assim como é lindo de ser ver a empolgação dos evangélicos em suas marchas. Porém, devemos ir além da estética litúrgica.

Sobre a celebração eucarística, o apóstolo Paulo diz que “qualquer que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado do corpo e do sangue do Senhor (...) Pois quem come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor” (1 Coríntios 11:27,29). Em cima destas palavras, criou-se o que poderíamos chamar de Apartheid Eucarístico. Somente os que fizessem parte do corpo místico de Cristo através do batismo, estariam aptos a participar de Seu corpo e sangue presentes na hóstia e no vinho. Seria realmente isso que Paulo chamava de “discernir o corpo do Senhor”? Creio que não. 

Do lado protestante, deparamo-nos com o Apartheid Moral. Somente os que se dispõem a viver dentro dos códigos morais da comunidade evangélica são reconhecidos como "Corpo de Cristo." Se não estiver afinado de acordo com seu diapasão moral, considere-se fora. Se for gay, por exemplo, é considerado indigno de tomar parte da Mesa do Senhor. Dependendo da comunidade, o mesmo se pode dizer dos divorciados, mães solteiras, fumantes, alcoólicos, etc.

Católicos e protestantes perderam tanto tempo discutindo se a presença de Cristo nos elementos eucarísticos era real ou simbólica, que não se aperceberam de que Ele se faz presente mesmo é no ato e não meramente nos elementos em si. Refiro-me ao ato da partilha. O pão e o vinho, elementos comuns na dieta judaica de Seu tempo, representava a vida de Deus partilhada com os homens, conclamando-os a partilhar suas próprias vidas uns com os outros. Como bem disse João, o discípulo amado: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós. E devemos dar a nossa vida pelos irmãos. Quem tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, fechar-lhe o seu coração, como estará nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra nem de língua, mas por obra e em verdade” (1 João 3:16-18).

“Discernir o corpo do Senhor” é identifica-lo no outro, sobretudo, no necessitado.  “Tive fome e me deste de comer” (Mateus 25:35), dirá Jesus aos que perceberam que o estômago vazio do mendicante é o estômago de Cristo. “Era estrangeiro e me acolhestes” , dirá aos que se deram conta de que aquele corpo de cor e aparência diferentes da sua não é outro que não seja o corpo do Senhor.

Jamais foi a intenção de Cristo separar os homens por credos, etnias, ideologias ou gênero. Porém, no último dia, Ele os separará tendo por critério único o fato de terem vivido para si mesmos ou para o bem do outro. A diferença entre ovelhas e bodes não é o som que emitem, ou aquilo que comem, mas a lã que depois de tirada para aquecer a outros, segue crescendo.  Enquanto a ovelha contribui com sua lã, o bode se ufana na envergadura ameaçadora de seus chifres.

A igreja primitiva não via a Mesa do Senhor como um rito estereotipado,  nem como reedição do sacrifício de Jesus, mas como oportunidade de dispor de seus bens para que outros deles desfrutassem. A isso chamamos COMUNHÃO. Lucas nos oferece um brilhante testemunho acerca disso ao afirmar que os cristãos “perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações (...) Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum” (Atos 2:43,44). Tudo isso se devia ao fato de que “era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas eram compartilhadas (...) Não havia entre eles necessitado algum” (Atos 4:32,34a).

Costumo dizer que se as mesmas mãos que se estendem ao céu em louvor não forem as mesmas que se estendam ao próximo em amor, nossa liturgia não passará de letargia. Da mesma maneira, pode-se dizer que se o pão que comemos na celebração eucarística não nos inspirar a partir nosso próprio pão com o necessitado, tudo não passará de encenação.


A magia não está nas palavras do sacerdote capazes de transformar pão em carne e vinho em sangue. A verdadeira “magia” está no gesto de repartir o que se tem, transformando nosso egoísmo em altruísmo, nossa ganância em amor. 

quarta-feira, maio 03, 2017

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Um profeta "maluco beleza" e a "Marcha para Satanás"




Por Hermes C. Fernandes

Era verão. Estação predileta dos cariocas. O que significa praias lotadas a cada final de semana. E basta que tenhamos um final de semana seguido de feriado, e lá vamos nós para a região dos lagos. Este é o destino mais concorrido pelos cariocas durante a estação mais quente do ano.  Enquanto todos disputam quase que à tapa um metro quadrado das areias de Arraial do Cabo para fincar seu guarda-sol, como carioca atípico que sou, reuni minha família e fomos para Campos do Jordão. Trocamos o “Rio 40º” pelo “Campos do Jordão 14º" em pleno verão. Em vez de roupas de banho, casacos. No lugar dos chinelos de dedo, botas.  Em vez de churrasco na arejada varanda de nosso apartamento, fondue ou massas numa aconchegante cantina italiana.

Destinos. Cada qual tem o direito de escolher o seu. Mas quais os critérios que usamos na hora de decidir entre um e outro? O que influencia nossas escolhas?

Um dos debates mais longos travados pela filosofia e pela teologia gira em torno da tensão entre a soberania divina e a responsabilidade humana, ou se preferirem, entre a predestinação e o livre arbítrio. Esta difícil equação é tratada num dos menores livros do Antigo Testamento: Jonas.

Jonas é enviado por Deus a uma grande cidade chamada Nínive, capital do império assírio. Qualquer um gostaria de passar uma temporada em Nínive. Qualquer um, menos um profeta. Principalmente, tratando-se de um profeta hebreu. Seria um ótimo lugar para se passar férias, mas não para desempenhar uma missão tão árdua. O povo ninivita costumava ser amistoso com os visitantes, mas hostil com quem ousasse questionar seu estilo de vida. Ainda assim, Deus demonstra se importar com eles. Algo teria que ser feito para que se evitasse a degradação daquela sociedade. Ser enviado a Nínive era um voto de confiança e tanto.  Mas Jonas não estava disposto a honrá-lo.

Ao ver a fila dos passageiros que embarcavam para Társis, tratou de comprar seu bilhete. Afinal de contas, Deus é o mesmo em todo lugar, não é mesmo? Se Ele poderia usá-lo em Nínive, por que não o usaria em Társis?

Jonas age como se a ordem divina não passasse de uma sugestão que poderia ou não ser acolhida. No exercício de sua liberdade, Jonas opta por desobedecer.

Convém aqui distinguir entre livre arbítrio e livre agência. O primeiro diz respeito à suposta capacidade do homem de arbitrar de maneira isenta de qualquer influência. Ora, tanto à luz da teologia, quanto da filosofia e até da psicologia, o livro arbítrio não passa de um mito. Todas as nossas escolhas são direta ou indiretamente influenciadas pelo ambiente, pela cultura, por pressões sociais, por taxas hormonais, e tantos outros fatores que dificilmente conseguiria enumerar. Apesar disso, somos responsáveis perante Deus por nossas escolhas. Caso contrário, não faria sentido sermos julgados por elas. Como agentes morais, somos dotados de livre agência. Independentemente de quantas vozes ouçamos no transcorrer do processo de escolha, cabe-nos a decisão final.

E como fica a soberania de Deus nisso tudo? No mesmo lugar de sempre. Absoluta. Somente um Deus verdadeiramente soberano não se sentiria ameaçado pela liberdade humana. Um Deus que precisasse nos privar desta liberdade para assegurar Sua soberania, estaria demonstrando o quão fraco e inseguro é.

Vamos deixar esta discussão para outra hora. Voltemos a Jonas.

O texto bíblico diz que ele pagou pela passagem. Não vejo razão para este detalhe, senão como aviso de que, quando optamos por fazer nossa própria vontade, quem paga o bilhete somos nós.  Mas se nos submetemos à vontade de Deus, Ele mesmo arca com os custos. Assim como ocorreu aos discípulos enviados por Jesus de cidade em cidade, sem lenço e nem documento. Ao retornarem, o mestre perguntou-lhes: Porventura vos faltou alguma coisa? E a resposta dada em uníssono foi: Nada!

Tudo seguia tranquilo até que uma inesperada tempestade atingiu em cheio o navio. Primeira medida tomada pela tripulação: livrar-se da bagagem. Com o barco mais leve, o naufrágio se tornaria numa possibilidade mais remota. Porém, a medida drástica não foi suficiente. O navio ameaçava quebrar ao meio.

Não basta tornar a vida mais leve, livrando-se dos pesos extras da preocupação. Nem basta praticarmos atos benevolentes por desencargo de consciência. Há que se descobrir a razão pela qual nosso barco existencial está a um fio de afundar. Que tal começarmos investigando os porões de nossa alma? Pois ideia semelhante teve o capitão daquela nau. Descendo ao porão do barco, flagrou ali o profeta rebelde tirando um cochilo. Enquanto cada membro da tripulação clamava à divindade de sua devoção, Jonas dormia. Espera aí... quem consegue dormir numa situação daquela? Quem consegue apagar embalado pelos açoites das ondas?

Ora, se Jonas consegue, nós também conseguimos. Jonas é o retrato da igreja cristã de nossos dias. Deixamos a proa do navio e nos aconchegamos em seu úmido porão, sem nos importar com o nauseante balanço provocado pelas ondas. Cultivamos uma espiritualidade que nos aliena da realidade e nos torna indiferentes à tragédia que nos circunda, como se não fôssemos igualmente vítimas dela. E ainda por cima, nos achamos no direito de julgar e condenar os que clamam pelo socorro de outros deuses.

Ficamos ofendidos com a marcha para Satanás, mesmo percebendo não passar de uma sátira que visa expor o anacronismo de nossa agenda. Enquanto dormimos o sono da indolência ao som dos trios elétricos que nos conduzem pela avenida em nossas marchas para Jesus, os que dizem marchar para Satanás clamam em favor das minorias, saem em defesa de valores que nos deveriam ser caros. E nós, os que marchamos para Jesus, estamos mais preocupados em dar uma demonstração de nossa força. Nem sequer cogitamos que nosso fervor está sendo usado como capital político usado inescrupulosamente na barganha entre os líderes eclesiásticos e os detentores do poder político.

Jonas teve que ouvir um sermão do capitão do navio.

- Acorda, dorminhoco! Quem é você? De onde vem? Você não é nenhum gaiato, é?

- Eu sou hebreu e temo ao Senhor.

- Então, trate de nos dizer por que razão nos sobreveio este mal.

Como era costume entre os povos antigos, lançaram sorte e ela caiu sobre Jonas. O profeta agora estava encurralado. Todos cobravam dele uma resposta. Tonto de sono, Jonas assume a responsabilidade pela situação.

- O problema aqui sou eu. Se quiserem poupar suas vidas, lancem-me ao mar.

Ora, até onde sabemos, só havia pagãos naquele barco. O que esperar de gente que não comunga de nossa fé? No mínimo, não titubeariam em arremessar o profeta do navio imediatamente. Em vez disso, optaram por remar com mais força para tentar alcançar a terra seca. De onde menos se espera, compaixão. De onde mais se espera, indiferença. Deus estava dando uma baita de uma lição no profeta rebelde, semelhante à dada por Jesus aos Seus discípulos com a parábola do Bom Samaritano.
Vendo que era inútil remar, os homens daquele navio clamaram ao Senhor. Lançar Jonas ao mar era a última medida que pretendiam tomar. Tenho a impressão de que o próprio Jonas deva ter insistido com eles que, finalmente, cederam.

Homem ao mar!

É disso que a igreja contemporânea necessita desesperadamente. Um choque de realidade. Enquanto não deixarmos o conforto dos porões de nossa religiosidade e não formos arremessados no mar da realidade, não poderemos retomar a rota da qual temos fugido há tanto tempo.

Deus, porém, já havia preparado um submarino para resgatá-lo. Um submarino de carne e osso, coberto de escamas (antes de que digam que baleia não tem escamas, devo salientar que em lugar algum do texto é dito tratar-se de uma baleia). Engolido pelo grande peixe, Jonas concluiu que estava no inferno. O que dizer de um lugar fétido e gosmento e ainda por cima sem luz?

Por alguma razão que não nos é revelada, Jonas cria que mesmo do inferno Deus poderia ouvi-lo e reverter sua sentença. Por isso, clama desesperadamente. Admite seu pecado. Implora por misericórdia.

Três dias depois (que pareceram uma eternidade), surge uma luz que o deixa quase cego. A língua do peixe se estende como um tapete vermelho e Jonas é convidado a se retirar.

Uma voz se faz ouvida desde o céu: Levante-se e vá para Nínive!

Nossa liberdade não interfere nos planos de Deus. Às vezes aprendemos às duras penas que “nenhum dos seus planos pode ser frustrado”.  De uma maneira ou de outra, o propósito de nossa existência se cumprirá. O universo inteiro está calibrado para isso. Por isso, inútil é tentar fugir dos propósitos divinos.  Temos, porém, diante de nós, duas alternativas: a mais fácil e a mais difícil. A indolor e a dolorosa.

O que parecia ser castigo, na verdade era livramento. Não apenas para Jonas que se afogaria caso o peixe não o tragasse, mas também para milhares de ninivitas que pereciam sem a oportunidade de conhecer a vontade de Deus e se arrepender de seus descaminhos. 

Não somos o centro gravitacional do universo.  O Deus que tanto se importa conosco, também se importa com o restante da criação. Ele não vai livrar nossa cara ao custo de perdição dos demais.

Então, que tal deixarmos de “recalcitrar contra os aguilhões” e nos rendermos a este amor do qual somos canais e não apenas receptáculos?


Esta reflexão continuará ao longo da semana. 

***

P.S. Sinto-me feliz de morar num país em que seja possível marchar pelo que quisermos. Pena darmos tanto peso ao que não passa de uma sátira, sem perceber que os satirizados somos nós. E com razão. Em vez de alardearmos a igreja quanto à insurgência do mal, deveríamos submeter-nos a uma autocrítica madura. Quem fornece a munição usada para nos satirizar somos nós mesmos. Tornamo-nos numa igreja caricata, bem distante do ideal proposto pelo Cristo a quem dizemos amar. Quem, de fato, marcha para Satanás, é quem se opõe ao projeto de Deus de redimir toda a criação. É quem segue o rumo ditado pelo sistema baseado em valores contrários aos do reino de Deus. Um sistema em que o maior é o que se impõe sobre os menores, o primeiro é quem sabe se valorizar, o mais forte é quem prevalece sobre os mais fracos e o sábio é quem sabe tirar vantagem de qualquer situação. Em contrapartida, quem, de fato, marcha para Jesus é o que entende que no reino de Deus o menor é o maior, o que admite sua fraqueza é o forte, e o que não se estriba em sua própria sabedoria é o verdadeiro sábio. O resto é gaiatice, não importa o  nome que exiba, Jesus ou Satanás.

Atendendo a pedidos de quem grita da plateia: "Toca Raul!"


sexta-feira, maio 27, 2016

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Por que somos cúmplices do estupro coletivo daquela adolescente



Por Hermes C. Fernandes

Ao deparar-me com a triste notícia da adolescente estuprada por mais de trinta homens numa comunidade do Rio (bem próxima da minha casa), confesso que perdi o chão. Quis externar minha indignação (não sei se deveria chamá-la de santa), e usei as redes sociais para isso. Tive que me conter para não dizer uns impropérios. Não foi um post pensado como este que escrevo agora. Foi um desabafo. Eu tinha que expor meus sentimentos antes de embarcar no avião que me levaria para São Paulo, onde seria entrevistado por um programa de TV. Mas minhas palavras ecoaram internet afora causando reações totalmente antagônicas, e algumas extremadas. Até a imagem que usei no post se popularizou a ponto de muitos a colocarem no lugar de suas fotos de perfil.

Segue abaixo meu desabafo, e em seguida algumas das reações e minha resposta a elas.

“O que dizer do estupro coletivo de uma adolescente perpetrado por mais de 30 homens em pleno século XXI na cidade escolhida para sediar os Jogos Olímpicos? Os criminosos fizeram fotos e vídeos dela no chão, com a vagina e o anus sangrando enquanto eles gargalhavam, e ainda tiveram a ousadia de publicarem no Twitter!  Onde estão os defensores da moral e dos bons costumes? Por que se calam os que esbravejam pela família tradicional? E ainda têm coragem de combater qualquer política que vise proteger a mulher, bem como os homossexuais deste tipo de desumanidade! Quão hipócritas somos! Não merecemos ser chamados de cristãos! Somos cúmplices deste estupro! Conquanto nos calamos, consentindo vergonhosamente com o crime. Se ainda fosse um silêncio reverente ante a dor... mas, não! É o silêncio de quem não está nem aí, e com a maior cara de pau, sai às ruas em suas "marchas para Je$U$", celebrando nossa estupidez, apatia e falta de amor. A menina tinha apenas 16 aninhos! Foi dopada e estuprada por homens desprovidos de qualquer senso de humanidade. Se sua dor não for a nossa, então, teremos tomado parte desta monstruosidade. Que Deus tenha compaixão dela e todos nós.”

Talvez eu devesse ter sido mais comedido em minhas críticas à nossa letargia. Mas assim, eu não estaria sendo sincero. Minha crítica não se dirigiu a A ou B, mas a todos nós. Eu não disse “quão hipócritas eles são” e sim “quão hipócritas somos”. Isso, porque ainda me considero parte deste segmento, apesar da minha relutância. Tenho uma história que remonta várias gerações. Amo a igreja de Cristo, mas detesto aquilo no qual ela está se tornando, abraçando um discurso de ódio às minorias, entrincheirando-se contra aqueles a quem deveria defender.

Alguns entenderam que minha fala não passava de apologia a uma determinada ideologia. Longe disso! O que apontei foi a hipocrisia de quem vive a defender a família em seus moldes tradicionais, porém, não demonstra qualquer compaixão por alguém que sofra algo tão monstruoso quanto um estupro coletivo. Indignamo-nos com um comercial de TV onde homens e mulheres brincam de alternar suas roupas, ou com um beijo consentido entre dois adultos do mesmo sexo, mas não demonstramos a tal "santa indignação" num episódio desta gravidade.

Um dos comentaristas concluiu:

“Infelizmente o Bispo Hermes se aproveita de um caso tão triste para atacar os que pensam diferente dele... está ficando feio isso... Conservadores e os que defendem a "família tradicional" são os que defendem maior punição para esses bandidos, ao contrário da ideologia tão defendida pelo Hermes, que ainda irá tratar esses 33 homens como vítimas da sociedade...”

Não estou atacando ninguém. Estou cortando na própria carne. Os estupradores devem ser severamente punidos. Não são uns coitados. Porém, a sociedade tem uma considerável parcela de responsabilidade na degeneração de sua juventude.  Por trás da atrocidade cometida, há uma cultura de estupro, que diminui a mulher, que a torna mero objeto, um ser de segunda classe. A cultura do estupro é um efeito colateral extremado do machismo vigente em nossa sociedade.

Teve até quem conseguiu encontrar espaço para humor em sua crítica ao meu post. Repare no tom jocoso do comentário abaixo:

“Segundo ONGs da esquerda, e os direitos humanos, a menina estuprada será processada, por colocar as vítimas da sociedade, que vivem na favela e estavam armadas para se proteger da polícia opressora, por danos morais.”

Que falta de sensibilidade! Que sarcasmo impróprio para um momento de tamanha dor!

Outro comentário que me deixou pensativo:

“Tavez a dificuldade se dará quando estes 30 estupradores comecarem a frequentar a igreja e por falta de moralidade e conservadorismo, a igreja não oferecer referências éticas e morais biblicas para libertação, transformação de vidas... “(sic)

Seja quem foi que tenha escrito tal coisa, demonstrou não compreender que o que transforma o ser humano no âmbito da fé não é a moralidade ou o conservadorismo, mas a atuação do Espírito da graça que se revela na acolhida, no amor que constrange até o mais duro coração.


Outro comentarista conseguiu enxergar em meu post um incentivo à luta de classes:

Triste, uma barbárie desta e ainda ficarmos preocupado em que lado estamos direita ou esquerda. É mais triste ver a hipocrisia deste pastor aproveitando a desgraça alheia para usar em briga de classes. isso sim é estratégia de esquerda, que no fundo quer que todos se lasquem e o que importa no fundo é o lucro.”

Lucro? Estou aqui tentando entender de que maneira se pode extrair algum lucro de um episódio como este? Lucro a gente consegue quando propõe o boicote de uma marca para beneficiar outra que nos patrocina. Lucro a gente consegue quando usa uma manifestação como as marchas para Jesus com o objetivo de demonstrar capital político. Cada vez que um político sobe a um trio elétrico daqueles, verbas públicas são direcionadas para patrocinar os projetos megalomaníacos de líderes religiosos que não veem mal algum em negociar os votos do seu rebanho.

Houve um comentário que foi editado depois de receber sérias críticas. Mas, por sorte, outra comentarista fez questão de frisá-lo:

“Eu estou com seu primeiro comentário latejando dentro de mim, vi que depois vc editou, mas não posso deixar de comentar: ..... Triste a pessoa comentar que há adolescentes que se doam a esse tipo de orgia... sendo que pra essa pessoa talvez o erro não esteja nos homens ou rapazes que aceitam que uma adolescente se dê a esse tipo de orgia, mas no fato da garota se doar... e nem repara em que ele deveria se escandalizar em saber que há homens que ACEITEM esse tipo de coisa em que uma adolescente que não tem toda uma formação completa, que na verdade muitas vezes está procurando apenas ser aceita e se aproveitam da situação, já que são incapazes de conquistar mulheres pelos seus próprios predicados, (quem estupra tem uma péssima auto estima e um senso de valor muito abaixo do zero), antes as iludem, e as estupram, é lamentável. Ninguém em sã consciência vai pra um estupro de boa vontade, ainda que seja convidada pra uma orgia e aceite, isso não dá o direito ao grupo de estuprá-la... O ato em sim é nojento, é asqueroso, é inominável, é ultrajante, é bárbaro...” (sic)

Culpabilizar a vítima é o cúmulo do absurdo. Imaginar que cristãos se prestem a isso é preocupante. Que evangelho estão lendo, afinal? Em que cartilha estão rezando? Talvez até sigam um Messias que tenha sido batizado no Rio Jordão, mas certamente não é o que foi gerado no ventre da bendita virgem.

Soube por outro comentarista que alguns defensores da moral e dos bons costumes foram à página do G1 dizer que se estivesse em casa lavando louça, não teria sido violentada. Pelo amor de Deus! Ainda há mentes tão tacanhas assim? É justamente esta a mentalidade que os torna cúmplices daquele estupro coletivo, posto que reduz a mulher ao ambiente doméstico. Qualquer que se atreva a deixar o perímetro da cozinha, sabe dos riscos que corre e decide assumi-los, portanto, é candidata consciente ao estupro. Isso é ridículo! Machismo do mais descarado e nojento. Tenho ânsias de vômito só em pensar. Vão se converter a Cristo, seus machistas de merda! Tomem vergonha na cara!  Enquanto vocês insistirem com este discurso que estigmatiza e inferioriza as mulheres, ditando o que devem vestir, como devem se comportar e que espaço devem ocupar, privando-as de ter autonomia para decidir por si mesmas, vocês serão cúmplices de toda violência que se pratique contra a mulher.


Teve um ser humano que aproveitou para alfinetar a Dilma e o Lula, culpando-os por abrirem as fronteiras e permitirem que as drogas chegassem aos nossos jovens. Depois, a mesma comentarista complementou: “Chorem os petistas, o choro é livre!”  Quanta sensibilidade vindo de uma mãe! Ela ainda aproveita para defender o atual governo interino: “Agora o Temer já mandou resguardar e fiscalizar mais as fronteiras, pois estava escancaradas” (sic). Ela ainda teve a audácia de culpar os pais da menina. Não bastasse toda dor que os acomete, e ainda têm que aturar críticas idiotas de quem é desprovido de qualquer sentimento de solidariedade. Ela arremata: “Hermes tu perdeu a oportunidade de ficar calado!”(sic).

Ao menos não me chamou de falso profeta como outro comentarista que me acusou de trazer confusão e colocar os evangélicos uns contra os outros.

Os que esses comentários têm em comum é que não demonstraram qualquer respeito à dor alheia. Só fizeram reforçar tudo o que eu disse em meu texto.

Somos uma sociedade capaz de rir de piadas machistas e homofóbicas sem qualquer recato. Prova disso é a confissão que Alexandre Frota fez num programa de TV em rede nacional de ter praticado um estupro, sendo, então, aplaudido pela plateia. Agora, este mesmo ser tem a petulância de visitar o ministro da educação para lhe fazer sugestões para melhorar a qualidade da educação no país. Só mesmo a graça divina para que não percamos a esperança de que este mundo possa mudar. Não que ele seja ruim. Só está muito mal frequentado ultimamente. 

Aproveitando o post do meu mano Renato De Paulo, segue abaixo algumas verdades inconvenientes sobre quem insiste em culpabilizar a vítima de estupro:

Todos os dias 15 mulheres são estupradas por homens normais (carteiros, pastores, advogados, vizinhos, familiares...seus amigos). neste país.

"Se ela estivesse estudando isso não aconteceria!"
Menina estuprada em escola de São Paulo reconhece agressores:http://glo.bo/1TZ6Ej0


"Se ela estivesse na igreja isso não aconteceria!"
Jovem é estuprada dentro de secretaria de igreja em Brasília:http://bit.ly/1NQpoVc

"Se ela estivesse em casa isso não aconteceria!"
Morre jovem encontrada com sinais de estupro dentro de casa na Zona Norte: http://bit.ly/1qMl4Lu

"Se ela estivesse trabalhando isso não aconteceria!"
Jovem é atacada e estuprada a caminho do trabalho: http://bit.ly/1P19Wpq

"Se ela tivesse um namorado fixo isso não aconteceria!"
'Meu namorado me estuprou por um ano enquanto eu dormia':http://bbc.in/27UhJvG

"Se ela fosse mais família isso não aconteceria!"
Adolescente com deficiência física é estuprada pelo tio em RR:http://glo.bo/1THnB47

"Se ela fosse menos 'puta' isso não aconteceria!"
Menina (de 1 ano e meio) morta em igreja foi violentada:http://bit.ly/1Z3LEM4


"Se ela tivesse mais cuidado isso não aconteceria!"
Jovem é estuprada em estação do Metrô de São Paulo:http://bit.ly/1WnjCgw

P.S.: Como se não bastasse o silêncio ensurdecedor das lideranças evangélicas diante deste crime hediondo, os deputados Marco Feliciano e Jair Bolsonaro, em conluio com a bancada evangélica, estão tentando derrubar a Lei 12.845/13 que garante à vítima de estupro pleno atendimento hospitalar, policial e psicológico através da PL 6055/2013 de autoria de Feliciano e do deputado Pastor Eurico (PSB-PE). Talvez venha daí a ausência de qualquer manifestação solidária à menina vítima do estupro coletivo.

P.S.2: Tão logo publiquei a informação acima nas redes sociais, vieram os fãs do Bolsonaro postar banners dizendo que ele defende uma punição mais rigorosa dos estupradores, envolvendo castração química, etc. Mas de quê adianta exigir rigor na punição do criminoso e ao mesmo tempo sabotar o direito da vítima de receber o devido amparo médico, psicológico e policial?


sábado, março 12, 2016

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Querem transformar a manifestação numa "marcha para Jesus"




Por Hermes C. Fernandes

A que ponto chegamos para convencer as pessoas a deixarem seus ambientes de culto no domingo para participar da manifestação que pretende derrubar uma presidente democraticamente eleita... Para dar uma aura de espiritualidade, líderes estão convocados seus rebanhos para juntar-se à turba para dar uma espécie de cobertura espiritual ao protesto, orando e louvando enquanto marcham. Agora sim... vamos amarrar a potestade da corrupção e o principado do comunismo... SQÑ.

Enquanto a presidente estiver sendo aviltada com xingamentos dos mais baixos, estaremos falando em línguas. Enquanto muitos estiverem clamando pela volta da ditadura militar, os crentes estarão entoando louvores e encenando atos patéticos, ops, proféticos. 

Vamos transformar a manifestação de domingo numa grande "marcha para Jesus", com palavras de ordem do tipo "O BRASIL É DO SENHOR JESUS!" E assim, vamos destronar Belzebu e deixar o trono vago para Satanás. O que nossos netos pensarão de nós ao lerem sobre isso nos livros de história? Que o Senhor tenha misericórdia desta geração de crentes perdida em seus devaneios de poder.

Como os cristãos se tornaram tão suscetíveis a este tipo de apelo? Como podem ser tão ingênuos a ponto de se deixarem manipular por líderes inescrupulosos que usam e abusam de um discurso religioso moralista só para seduzi-los? Não se enganem! A pauta moralista (família tradicional, contra o aborto e o casamento gay, etc.) não passa de uma isca. No fundo, estão pouco se lixando para tudo isso. Cansei de vê-los apoiar candidatos favoráveis a tudo isso em troca de certas regalias. O que querem mesmo é poder, concessões de rádio e TV, isenção de impostos e outros privilégios.

Ao postar minha indignação em meu perfil numa rede social, alguém insinuou que eu fazia pior ao levar os Beatles para dentro da igreja (referência clara ao "Rastros da Graça", trabalho que promovemos nos cultos dominicais da Reina em que cantamos canções seculares onde julgamos encontrar lampejos da graça de Deus). Ora, o que seria mais 'grave', Paulo citar poetas pagãos em sua pregação ou Jesus entrar na pilha da multidão e marchar em direção ao palácio de Herodes para depô-lo? Sem se deixar engambelar com os gritos de "hosanas" que não passavam de pressão política favorável a um golpe, Jesus tomou o caminho do templo e lá chegando, botou para quebrar em cima dos mercadores. Como podemos exigir o fim da corrupção enquanto cedemos nossos púlpitos para candidatos e em troca de ofertas vultuosas? Cantar os Beatles soa inofensivo diante do que estão fazendo com o evangelho. Tudo por amor... ao poder.

Que tal fazermos como Daniel? Em vez de promover um levante para derrubar o rei da Babilônia que havia promulgado uma lei injusta que prejudicava diretamente a ele e ao seu povo, o profeta hebreu preferiu subir para o seu quarto três vezes ao dia para orar em secreto. Pelo menos, isso é o que pretendo fazer juntamente com a minha família, no intervalo entre os cultos da manhã e da noite. Vamos rogar a Deus para que o país não caia numa armadilha que resulte em retrocesso social. Que Ele conceda sabedoria aos nossos governantes para vencer esta crise e conduzir a nação ao crescimento sustentável. Que as manifestações ocorram sem percalços, na mais perfeita paz. E que nosso povo, já tão sofrido, não dê ouvidos a promessas mirabolantes de quem se apresenta como o salvador da pátria, mas não passa de oportunista espertalhão que só almeja sugar o que nos resta.