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quarta-feira, fevereiro 22, 2017

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Entre Blocos e Retiros: Uma parábola do papel da igreja no Carnaval


Por Hermes C. Fernandes

Uma parábola sobre o papel da igreja durante o Carnaval

Epêneto era o presbítero responsável pela igreja em Roma, desde que Priscila e Áquila tiveram que deixar a cidade em busca de novos campos missionários. Epêneto foi um dos primeiros a se converterem através do trabalho realizado por Paulo nessa cidade.

Aquela igreja era muito ativa, sempre aberta a acolher as pessoas. Quando havia algum cataclismo, fome ou guerra, os cristãos se mobilizavam para socorrer as vítimas. Por causa de seu envolvimento com a dor humana, ganhou a simpatia de todos, inclusive de funcionários do palácio de César.

Num belo dia, ouviu-se o clangor do clarim. Todos se reuniram para ouvir o que o mensageiro do império tinha para anunciar. Em duas semanas, o exército romano estaria chegando de uma campanha militar bem-sucedida. O próprio César o receberia com uma Parada Triunfal, que seria seguida de um feriado prolongado dedicado aos deuses Marte e Saturno, também conhecidos como Apolo e Baco, divindades da guerra e do vinho, respectivamente. Seria uma grande festa, regada a bebidas alcoólicas e todo tipo de luxúria. A população sairia às ruas para assistir ao desfile das tropas romanas, dando-lhes boas-vindas, e assistiriam à execução de milhares de prisioneiros. Ninguém trabalharia naqueles dias.

Epêneto ficou preocupado com a notícia. Qual deveria ser o papel da igreja durante essa festa pagã? Ainda inexperiente como líder, reuniu alguns dos mais antigos membros da igreja para discutir o que fazer.

Um deles, chamado Narciso, pediu a palavra e deu sua sugestão:

- Amados no Senhor, por que não aproveitamos o ensejo para promover um desfile paralelo, onde demonstraremos ao mundo a nossa força, revelando a todos nossa lealdade ao Rei dos reis, Jesus Cristo? Podemos até copiar algumas de suas canções, adaptando-as à nossa fé. Em vez de exibirmos prisioneiros, exibiremos testemunhos daqueles que foram salvos. Vamos montar nosso próprio bloco, quer dizer, nossa própria parada triunfal. Pode ser uma grande oportunidade evangelística.

Epêneto, depois de algum tempo pensativo, respondeu: Caro Narciso, a idéia parece muito boa. Porém, quem ouviria nossa voz durante os momentos de folia? Nosso modesto bloco se perderia no meio de toda aquela devassidão. Ademais, a maioria das pessoas estará embriagada, incapaz de entender nossa mensagem. Também não estamos preocupados em dar uma demonstração de força. Jesus disse que nosso papel no mundo seria semelhante à de uma pitada de fermento, que de maneira discreta, sem chamar a atenção para si, vai levedando aos poucos toda a massa. Por isso, acho que sua idéia não é pertinente. Quem sabe em gerações futuras, haja quem a aproveite?


Levantou-se então Andrônico, que gozava de muito prestígio por ser parente de Paulo, e sugeriu:

- Amados, durante o Desfile Triunfal e as Saturnais, a situação espiritual da cidade ficará insuportável. Divindades pagãs serão invocadas, orgias serão promovidas em lugares públicos à luz do dia. Não convém que estejamos aqui durante essa festa da carne. A melhor coisa a fazer é nos retirarmos, buscarmos um refúgio fora da cidade, e aproveitamos esse tempo para nos congratularmos, sem nos expormos desnecessariamente às tentações da carne.

Todos acenaram com a cabeça, demonstrando terem gostado da idéia. Já que seria mesmo feriado, ninguém precisaria trabalhar. Um retiro parecia a melhor sugestão.

O velho presbítero ficou um tempo em silêncio, meditando. Todos estavam atônitos esperando sua palavra, quando mansamente respondeu:

- Irmãos, não nos esqueçamos de que somos o sal da terra e a luz do mundo. Se no momento de maior trevas nos retirarmos, o que será desta cidade? Por que a entregaríamos ao controle das hostes espirituais das trevas? Definitivamente, nosso lugar é aqui. Não Precisamos de exposição, como sugeriu nosso irmão Narciso, nem de fazer oposição à festa, retirando-nos da cidade, como sugeriu Andrônico. O que precisamos é estar à disposição para acolher aos necessitados, às vítimas da violência, aos desassistidos, aos marginalizados.

A propósito, não temos estado sempre disponíveis para atender as pessoas durante as tragédias que tem abatido o império? E o que seriam tais desfiles, senão tragédias morais e espirituais? Saiamos às ruas, mesmo sem participar da folia, e estendamo-los as mãos, em vez de apontar-lhes o dedo, oferecendo compaixão em vez de acusação, amor em vez de apatia. Que as casas que usamos para nos reunir estejam de portas abertas para receber quem quer que seja, e assim, revelaremos ao mundo Aquele a quem amamos e servimos. Afinal, o reino de Deus se manifesta sem alarde, sem confetes, sem barulho, mas perturbadoramente discreto.

Depois dessas sábias palavras, ninguém mais se atreveu a dar qualquer outra sugestão.


* Esta é apenas uma parábola que elaboramos para emitir nossa humilde opinião acerca do papel da igreja durante o período carnavalesco.

Postado originalmente em 11/02/2010

quinta-feira, outubro 20, 2016

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Na Mira dos Caçadores de Almas






Por Hermes C. Fernandes


A igreja cristã contemporânea está enferma. Um vírus chamado “falso profetismo” infiltrou-se em seu organismo e o infectou. Acredito na possibilidade de tal contágio, porém, sem afetar os fundamentos. Deixe-me explicar:

Paulo, o apóstolo, diz que “ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co.3:11). Todas as denominações que professam sua fé em Cristo, têm n’Ele seu único e irremovível fundamento. Por pior e mais letal que seja um vírus, ele é incapaz de afetar a composição genética do organismo. O DNA é o fundamento que não pode ser alterado. Qualquer grupo religioso que confessar que Cristo é o Filho de Deus, vindo ao mundo para salvar a humanidade, pode ser reconhecido como genuinamente cristão.

O problema começa, não no fundamento, mas na edificação das paredes. Embora o fundamento já esteja posto, “veja cada um como edifica sobre ele” (v.10b). Uns poderão levantar um edifício de ouro, outros de madeira, e outros até de palha.

Jamais poderemos culpar a Cristo pela cabeça de porco que alguns ministérios têm edificado sobre Ele. Porém, é mister que se diga que cada obra passará por uma avaliação. Não se vai avaliar a beleza das paredes, mas a sua durabilidade. Afinal de contas, o fruto que produzimos deve permanecer.

Madeira, palha e feno não servem porque são incapazes de resistir ao fogo. Ouro, prata e pedras preciosas são preferidos, não por serem mais apresentáveis, mas por serem resistentes ao tempo, às pressões, às altas temperaturas e à corrosão.

Quem resolve construir com materiais nobres sabe que sua obra não ficará pronta da noite para o dia, porque tais materiais não são facilmente encontrados. Há que se garimpar, depurar, derreter e depois dar formato a eles. Para quem tem pressa, madeira, palha e feno são sempre abundantes, e podem ser encontrados em qualquer esquina.

Essa é a diferença entre edificar com a sabedoria do alto, e edificar a partir de estratégias humanas. O que precisamos não é de marketing, e sim da exposição do Evangelho de Deus que é poder de Deus para a salvação de todo o crê. Mas logo surgem os falsos profetas, com suas insinuações, do tipo: Bem, se fosse do meu jeito, as coisas seriam diferentes; a igreja cresceria mais rapidamente; haveria mais recursos disponíveis.

O falso profeta se apresenta como um baluarte da eficiência. Para eles, o mais importante é atrair as pessoas, e para isso, apresentam sempre uma mensagem ao gosto do freguês.

Veja a denúncia feita por Ezequiel:
“A minha mão será contra os profetas que têm visões falsas e que adivinham mentira (...) Visto que, sim, visto que andam enganando o meu povo, dizendo: Paz, não havendo paz, e quando se edifica a parede, rebocam-na de argamassa fraca, portanto dize aos que a rebocam de argamassa fraca que ela cairá. Haverá uma chuva torrencial, e grandes pedras de saraiva cairão, e um vento tempestuoso a fenderá. Caindo a parede, não vos perguntarão: Onde está o reboco de que a rebocaste?” (Ez.13:9a, 10-12)
Nesta visão, os profetas eram responsáveis pela edificação das paredes. Ainda que se use material de primeira, se as paredes não forem devidamente emboçadas, fatalmente cairão. É o emboço que dá firmeza à parede. Não basta que os tijolos estejam bem ajustados , rejuntados e no prumo. Eles têm que estar firmes.

Os profetas de Israel estavam usando argamassa fraca. Que argamassa era essa? O texto revela:
“Assim diz o Senhor Deus: Ai das que cosem pulseiras mágicas para todos os braços, e que fazem véus de diferentes comprimentos para suas cabeças, a fim de caçarem as almas! Caçareis as almas do meu povo mas preservareis as vossas próprias?” (v.18)
A argamassa usada pelos profetas de Israel era uma mistura de misticismo e legalismo, bem semelhante à que temos presenciado em nossos dias. Porém hoje, o misticismo está mais variado, sofisticado e arrojado. Além de pulseiras mágicas, encontramos também outros pontos de contato, como rosas ungidas, mantos, fogueiras santas, etc.

Os que tais coisas praticam se justificam dizendo que são estratégias para atrair as pessoas a Cristo. Em vez de pescadores de homens, tornaram-se caçadores de almas. O tipo de pesca usada por Cristo como analogia do trabalho de evangelização é a pesca com redes, que dispensa o uso de apetrechos, de iscas e anzóis. Caçadores usam armas e arapucas, pescadores de homens usam apenas redes. Basta lançar a Palavra da Verdade, e as almas virão, como aconteceu no dia de Pentecostes.

O misticismo é, sem dúvida alguma, a marca principal da igreja contemporânea. Mas além dele, também encontramos outro sintoma desta doença que é o ‘falso profetismo’. Trata-se do legalismo.

No texto de Ezequiel, lemos sobre profetizas que faziam véus de diferentes comprimentos para suas cabeças. Tais véus tinham como objetivo vender uma imagem de santidade. Tudo no afã de caçar as almas incautas.

A genuína santidade não tem nada a ver com o comprimento das saias, ou dos cabelos, ou com qualquer outra coisa ligada à aparência. A verdadeira santidade tem mais a ver com o comprimento da língua. Tanto o misticismo quanto o legalismo aprisionam as pessoas. São rebocos feitos de argamassa fraca, que a qualquer momento apodrecerão, fazendo com que a parede se fragilize e se deteriore.

Depois que a parede cai, não adianta acusar o diabo ou a oposição. É o próprio Deus quem Se levanta contra tais profetas, para derrubar-lhes as paredes mal emboçadas.

Repare no que diz o texto:
“Portanto, assim diz o Senhor Deus: Aí vou eu contra as vossas pulseiras mágicas, com que vós ali caçais as almas como aves, e as arrancarei de vossos braços; soltarei as almas que vós caçais como aves. Rasgarei os vossos véus, e livrarei o meu povo das vossas mãos; nunca mais estará ao vosso alcance para ser caçado. Então sabereis que eu sou o Senhor” (vv.20-21).
Não importa o sucesso momentâneo que um ministério alcance, se estiver baseado na falsidade, na mentira, no roubo, na extorsão, na traição, a parede um dia virá a baixo. Deus mesmo a derribará.

O fundamento permanecerá intacto, e sobre ele, o próprio Deus reedificará.


quinta-feira, outubro 06, 2016

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"Que rei sou eu?" Pastores entre o poder, a fama, o glamour e a luxúria





Por Hermes C. Fernandes


“O rei Davi era já velho…” Assim começa o relato do último capítulo da vida do grande monarca de Israel (1 Reis 1:1). Prestes a despedir-se do mundo, Davi teria que enfrentar seu último gigante.

Adonias, seu filho, apoiado por algumas das pessoas de maior confiança de Davi, resolvera usurpar o trono do próprio pai, embora soubesse que estava destinado a seu meio-irmão Salomão. Nada indicava que ele fosse capaz de tal ‘proeza’. Crescera à sombra de Absalão, que se destacava por sua beleza e ambição. Este também conspirou contra seu pai, e acabou assassinado pelo comandante do exército de Israel. Depois da morte de Absalão, Davi devotou a Adonias todo o seu amor. Talvez movido de culpa pelo que aconteceu a Absalão. O texto bíblico diz que “seu pai jamais o havia contrariado” (v.6). Enquanto Absalão tinha um espírito independente, e fora criado solto, Adonias fora criado nas barras de seu pai. Ambos conspiraram para tomar o trono de Israel, porém, com motivações bem distintas. Absalão era movido pela vaidade. O que desejava era o poder, a fim de provar à todos que poderia ser um rei mais competente que seu pai (2 Sm.15:4). Já Adonias foi movido pela paixão.

O texto diz que Davi, já de idade avançada, “por mais que o envolvessem com cobertas, não conseguia se aquecer. Então lhe disseram os seus servos: Busque-se para o rei meu senhor uma jovem virgem, que esteja perante o rei, e tenha cuidado dele. Durma ela no seu seio, para que o rei meu senhor se aqueça. Assim procuraram por todos os termos de Israel uma jovem formosa, e acharam a Abisague, sunamita, e a trouxeram ao rei. Era a jovem sobremaneira formosa: cuidava do rei, e o servia, porém o rei não a conheceu. ENTÃO Adonias, filho de Hagite, se exaltou, dizendo: EU REINAREI” (1 Reis 1:1-5a).

Abisague fora escolhida como a última concubina de Davi. Aquele que o sucedesse no trono, herdaria seu harém, e isso, incluía aquela linda jovem. Foi por desejá-la, que Adonias fez o que fez. Não era o trono que lhe interessava, mas o prazer que teria ao possuir àquela linda virgem que cuidava de seu velho pai.

 – Que desperdício! Imaginava Adonias. – Uma jovem tão formosa, cuidando de um velho incapaz de satisfazê-la.

Enquanto Absalão fora seduzido pelo poder, Adonias foi seduzido pela luxúria.

O coração humano é deveras complexo. Há desejos que escondem motivações mais profundas, por vezes, inconfessáveis. Uns almejam o trono pelo poder, outros pelo prazer. Mas poucos são os que o almejam pela motivação certa.

Paulo diz que “se alguém aspira ao episcopado, excelente obra deseja” (1 Tm.3:1). Houve um tempo em que muitos jovens almejavam o ministério com motivações puras. Queriam ganhar almas, servir ao rebanho, e glorificar a Deus através de suas vidas. Hoje, porém, há muitos que aspiram ao ministério pelo glamour, pela fama, pelo dinheiro, pelo poder. Aliás, sempre houve quem nutrisse tais motivações. Paulo  denuncia aqueles que imaginavam que o ministério fosse “fonte de lucro” (1 Tm.6:6). Pedro também os denuncia e diz que “muitos seguirão as suas dissoluções, e por causa deles será blasfemado o caminho da verdade. Por ganância farão de vós negócio, com palavras fingidas” (2 Pe.2:2-3a).

Não é o trono que querem, e sim, Abisague. O trono é apenas o meio de se alcançar o verdadeiro objetivo. Da mesma forma, não é o ministério que aspiram, mas a fama, que eventualmente, vai possibilitá-los concorrer a um cargo político. O nome de Deus é usado para que se consiga outros fins. É triste constatar isso, mas é a mais pura realidade. Chega ser nojento…

E quem não se dobra isso é tachado de idiota. É como o velho Davi, que tem Abisague ao alcance das mãos, mas é incapaz de possuí-la.

Quando Natã, o profeta, soube das intenções de Adonias, chamou Bate-Seba em particular, e pediu que colocasse Davi à par do que estava acontecendo. Afinal de contas, Davi jurara que Salomão, filho de Bate-Seba, seria seu sucessor no trono.

Ao saber que Adonias estava promovendo uma festa em que se auto-proclamava o novo rei de Israel, Davi mandou que buscassem sua mula, e fizessem com que Salomão a montasse, e que, chegando a Giom, fosse ungido pelo profeta Natã, e pelo sacerdote Zadoque, como o legítimo rei de Israel.

Naquele momento, Israel tinha dois reis, um legítimo, outro impostor. O povo, percebendo o que acontecia, deixou a festa de Adonias, e juntou-se aos que celebravam a posse de Salomão.

Ao ser informado do que acontecia, Adonias se desesperou, pois sabia que seria acusado de traição, o que resultaria em sua morte. Para evitar o pior, Adonias agarrou-se às pontas do altar, pois achava que ninguém se atreveria a matá-lo ali. Só deixou aquele lugar, depois de receber a garantia de que Salomão pouparia sua vida. Como Adonias, tem muita gente agarrada às pontas do altar, não por amar a Deus ou ao ministério, mas para protegerem seus interesses.

Depois que a poeira baixou, e o trono de Salomão foi consolidado, Adonias resolveu fazer uma nova investida. Mas agora, ele iria direto ao ponto. Em vez de um complô, Adonias acercou-se de Bate-Seba, mãe do rei, e pediu que intercedesse por ele. Repare em seus argumentos:
“Bem sabes que o reino era meu, e todo o Israel tinha posto a vista em mim para que eu viesse a reinar, ainda que o reino se transferiu e veio a ser de meu irmão; pois foi feito seu pelo Senhor. Agora um só pedido te faço; não mo rejeites. Ela lhe disse: Fala. Ele disse: Peço-te que fales ao rei Salomão (pois não to recusará), que me dê por mulher a Abisague, a sunamita” (2:15-17).
Em outras palavras:  – Já que não posso ter o trono, que eu tenha Abisague! Isso era tudo o que ele realmente queria. Semelhantemente, há muitos que já desistiram do ministério, mas não desistiram do que ele possa oferecer. Alguns ostentam o título de pastor, sem ao menos terem um rebanho para cuidar, ou, pelo menos, ajudar a outro a apascentar. Muitos ainda trocaram o púlpito pelo plenário, ou pelo palanque, ou pelo palco. Virou moda cantores serem ‘ungidos’ a pastores, para dar mais peso ao seu ‘ministério’.

Se der pra ter Abisague, e de quebra, ocupar o trono, melhor ainda. Mas se não der pra ter um, vale a pena lutar para ter o outro. E o pior é que Bate-Seba caiu na estorinha de Adonias. Prestou-se ao papel de interceder para que Salomão liberasse Abisague de seu harém, e a concedesse a Adonias.

Se Salomão se mostrasse fraco naquele instante, ele correria o risco de por tudo a perder. Por isso, não deixou por menos. Ordenou que se aplicasse a Adonias a pena que ele merecia desde que usurpara o trono de seu pai.

Quais são as verdadeiras motivações do nosso coração? Por que desejamos ocupar uma determinada posição? O que nos leva a gastar cinco anos de nossas vidas numa faculdade? Seria o conhecimento lá adquirido, ou simplesmente o canudo que receberemos na conclusão do curso? Por que um pastor luta para encher sua igreja? Seria pela satisfação de ver almas salvas, ou pelo prestígio que isso lhe garantiria? Enfim, as lições apreendidas neste episódio da vida de Davi, podem e devem ser aplicadas em quaisquer circunstâncias, e não apenas no âmbito ministerial.

Lembre-se que o coração humano é enganoso. Não confie em sua capacidade de auto-examinar-se. Faça como Davi. Peça que o Senhor sonde seu coração, e perscrute os porões de sua alma, para ver se há algum caminho mal. Também não se deixe enganar pela aparência. Quem deseja ocupar o trono pode estar de olho é em Abisague.

quarta-feira, junho 29, 2016

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E se Deus nos tirasse pra dançar?



Hermes C. Fernandes

Hoje estive pensando um pouco mais sobre o episódio em que Mical, de sua janela, desprezou e censurou a Davi enquanto este dançava à frente da Arca da Aliança, em seu cortejo de volta a Jerusalém.

Dissemos num artigo anterior que para Mical, o que lhe dava o direito de julgar seu marido daquela maneira era o senso de valor próprio e o senso de justiça própria.

O primeiro, porque Davi havia lhe atribuído um valor maior do que Saul, pai de Mical, pedira como dote.

E o segundo, porque Mical havia livrado a Davi de ser assassinado pelos servos de seu pai, dando-lhe fuga pela janela de seu quarto.

Foi daquela mesma janela que Mical o desprezou. Ela se achou no direito de fazê-lo.

Fiquei imaginando se essa história não poderia servir como analogia de Cristo e a Sua Igreja.

Como Mical, muitos cristãos se acham no direito de desprezar o que Deus está fazendo do lado de fora dos seus arraiais religiosos.

Afinal de contas, Deus lhes atribuiu valor muito maior do que de fato mereciam. O preço pago por sua redenção foi o sangue de Jesus. No caso de Mical, seu dote custou a morte de duzentos filisteus. No caso da Igreja, seu dote custou a morte do Filho de Deus.

O que deveria nos envergonhar, tornou-se no motivo de nossa soberba. Achamo-nos mais importantes do que o resto do mundo.

Da janela de nosso edifício teológico, desprezamos o Deus que dança com o resto da criação. Este Deus não é monopólio de ninguém. Ele é Espírito, e o Espírito é livre para soprar e dançar onde quiser.

Além desse senso de valor próprio, os cristãos também têm nutrido um profundo senso de justiça própria.

Achamos que nossas boas obras foram capazes de nos tornar credores de Deus. Se antes, nós é que tínhamos uma dívida com Ele, agora, Ele é quem nos deve. Concluímos que nossas boas obras fazem com que o preço pago por nós seja devidamente compensado. É como se estivéssemos quites com Deus. Quanta pretensão!

Em lugar de gratidão, vaidade. Em lugar de humildade, presunção.

Até quando os cristãos desprezarão o Seu Deus? Até quando se incomodarão com o que Deus está fazendo para além dos muros eclesiásticos? Até quando censurarão e repudiarão o Deus dançarino?

Tornamo-nos como o irmão mais velho do filho pródigo. Recusamo-nos a participar da festa de arromba promovida pelo Pai por causa do filho que retornou. Só dançamos se a festa for nossa, se o baile for gospel!

O desprezo de Mical a Davi lhe rendeu esterilidade por toda a vida. Até que ponto a igreja cristã também não tem se tornado estéril em nossos dias por desprezar o que Deus está fazendo lá fora?

Só há uma maneira de reverter este quadro de esterilidade espiritual: descer de nossas torres eclesiásticas e aceitar o convite que Cristo nos faz: Quer dançar comigo?

quarta-feira, abril 06, 2016

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Procura-se igreja saudável e liderança confiável


Por Hermes C. Fernandes

Em meio a tanta confusão nos arraiais evangélicos, muitos preferem servir a Cristo em seus próprios lares, engrossando assim a fileira da igreja que mais cresce no Brasil e no Mundo: a dos desigrejados. Seu desapontamento com a igreja instituída fez com que agissem como Elias, o profeta solitário que cansou-se de nadar contra maré de corrupção que abatera sobre Israel, planejando terminar seus dias confinado numa caverna. O que ele não sabia é que Deus havia preservado sete mil pares de joelhos que não haviam se dobrado a Baal.

Basta visitar alguns dos milhares de blogs que povoam a blogosfera cristã para certificar-se de que ainda há esperança. A blogosfera transformou-se numa enorme congregação virtual. Gente oriunda de todos os setores da igreja cristã tem a liberdade de expor seu descontentamento com o rumo que a igreja tem tomado.

Como pastor, preocupo-me com aqueles que simplesmente desistiram de congregar e se alimentam unicamente do que é postado em nossos blogs. Precisamos muito mais do que isso. Precisamos construir relacionamentos sólidos, submeter-nos a uma liderança madura e respaldada na Palavra, encaminhar nossos filhos a um ambiente saudável, sentir-nos pertencentes a uma família espiritual, e mesmo, contribuir financeiramente com projetos que visem a glória de Deus e o bem-comum.

Daí surgem algumas questões pertinentes:

Poderíamos congregar numa igreja que não fôssemos capazes de recomendar a outros? Sentir-nos-íamos constrangidos e desconfortáveis em trazer nossos amigos e parentes a um culto?

Que tipo de igreja proveria um ambiente seguro e saudável para os nossos filhos? Que igreja poderia ajudar-nos na formação do caráter deles sem intrometer-se em assuntos domésticos e particulares, e sem expor nossa autoridade como pais? Há igrejas onde o pastor se vê no direito de estabelecer regras nos lares de seus congregados. Filhos crescem sem saber se devem honrar a seus pais ou obedecer cegamente a seus líderes espirituais. Imagine um pastor que exija ser chamado de “pai”, ou ser tratado como tal. Ou ainda: o desconforto de um pai cuja autoridade é rivalizada pela autoridade pastoral.

A que tipo de liderança deveríamos nos submeter? Um pastor que não é respaldado por sua própria família (pais, irmãos, filhos, esposa, etc.), estaria apto a mentorear outras famílias? E quando todos percebem que entre ele e a esposa não há amor? Você se submeteria à orientação de um pastor cujo casamento não passasse de um embuste? Que tipo de tratamento ele dá aos filhos? A família pastoral deve ser referência. Não digo que deva ser perfeita, mas pelo menos saudável.

Seria sábio submeter-nos a uma liderança susceptível a todo tipo de modismo doutrinário? Hoje prega uma coisa, amanhã prega outra totalmente diferente? Seria correto submeter-nos a uma liderança emocionalmente desequilibrada? Como nossos pastores reagem ante a uma crise? Como reagem quando são elogiados? E quando são criticados? Costumam trazer problemas de casa para o púlpito, ou vice-versa? Gostam de apelar ao emocionalismo ou à conscientização? Gostam de tornar as pessoas dependentes deles ou trabalham por sua emancipação?

Seria sábio submeter-nos a uma liderança antiética? Quem suporta um pastor que só sabe falar mal dos que o antecederam? Você se submeteria a um pastor que sequer sabe ser grato a quem o instituiu? E mais: com quem ele anda? Quem são seus amigos? Quem frequenta sua casa? Não me refiro a amizade com pessoas não cristãs, e sim a amizade com falsos cristãos, lobos infiltrados no meio do rebanho para causar-lhe dano.

Como acolhem as pessoas que chegam a igreja? Dão o mesmo tratamento independente da posição social? Desprezam os veteranos para dar maior atenção aos novatos? Como são tratados os anciãos? Lembre-se que um dia você será um deles.

Quanto ao discurso, que tipo de reação provoca? É pautado num moralismo extremado ou na ética? Aliena ou insere as pessoas em seu próprio contexto social com o objetivo de contribuir pela sua transformação? Separa o mundo entre "nós" e "eles" ou busca estimular uma visão integrada da sociedade? Provoca posturas preconceituosas para com alguns segmentos sociais ou encoraja a empatia e o engajamento? 

E quanto às contribuições? Seria sábio contribuir numa igreja onde a liderança fosse pródiga? É correto o pastor fazer compromissos maiores do que os que a igreja possa arcar e depois escapelar os irmãos na hora das ofertas? Como as ofertas são pedidas? Há muita apelação, manipulação e pressão psicológica? E como elas são administradas? A quem o pastor presta contas? Há uma instância acima dele? O que entra na igreja é usado exclusivamente ali ou parte é destinada a trabalhos missionários? Há projetos sociais relevantes? Que resultado esses projetos têm alcançado?

É correto usar o dinheiro da igreja para pagar cachês a cantores e bandas convidadas?

E se o pastor eventualmente cometer um deslize grave, como adultério ou roubo, quem poderá admoestá-lo, ou mesmo discipliná-lo?

Como a igreja lida com questões políticas? É certo a liderança apontar em quem os membros devem votar? É correto levar candidatos para o púlpito e ceder-lhes a palavra? Há algum trabalho de conscientização para que as pessoas exerçam sua cidadania cabalmente, sem interferência?

Quais os critérios usados pelo pastor para ceder seu púlpito a outro pregador?

Olhe para as pessoas à sua volta, principalmente para as que chegaram antes de você e pergunte-se: Elas são hoje pessoas melhores do que eram anos atrás? As pessoas que congregam ali estão amadurecendo na fé? Lembre-se: elas podem ser você amanhã.

E quanto ao culto? Percebe-se a presença de Deus naquele lugar? Há reverência ou simplesmente oba-oba? As pessoas que frequentam estão realmente interessadas na Palavra ou só aparecem quando há algum evento ou convidado especial?

Essas são apenas algumas questões que precisam ser consideradas. Se você tiver alguma outra questão igualmente relevante, por favor, poste em seu comentário.

O que não podemos é desistir da igreja de Cristo, seja reunida de maneira formal ou informal. Não basta criticar, urge encontrarmos saída para resgatá-la deste estado calamitoso em que chegou.

Originalmente postado em 27/04/2010

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

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Rastros da Graça no Carnaval - O que a igreja poderia aprender com os desfiles das escolas de samba?




Por Hermes C. Fernandes

Seria lícito tomar o desfile do Carnaval como analogia de nossa caminhada cristã? Certamente, a maioria dirá que não. Afinal de contas, o Carnaval é a festa pagã por excelência, onde, além de toda promiscuidade, entidades pagãs são homenageadas. Eu poderia gastar muitas linhas tecendo críticas justas a esta festa em que tantas famílias são desfeitas, e inúmeras vidas destruídas. Porém hoje, quero pegar a contramão.

Por que será que os cristãos sempre enfatizam os aspectos ruins de qualquer manifestação cultural? Se vivêssemos nos tempos primitivos da igreja cristã, como reagiríamos ao fato de Paulo tomar as Olimpíadas como analogia da trajetória cristã neste mundo? Ora, os jogos olímpicos celebravam os deuses do Olimpo. Portanto, era uma festa idólatra. Os atletas competiam nus. Sem contar as orgias e os sacrifícios que se seguiam às competições. Sinceramente, não saberia dizer qual seria pior, as Olimpíadas ou o Carnaval. Porém Paulo soube enxergar alguma beleza por trás daquela manifestação cultural. A disposição dos atletas, além do seu preparo e empenho, foram destacados pelo apóstolo como virtudes a serem cultivadas pelos seguidores de Cristo.

E quanto ao Carnaval? Haveria nele alguma beleza, alguma virtude que pudesse ser destacada do meio de tanta licenciosidade? Acredito que sim. Embora jamais tenha participado, talvez por ter nascido em berço evangélico tradicional, posso enxergar alguma ordem no meio do caos carnavalesco.

Destaco, em primeiro lugar, a criatividade dos foliões, principalmente dos carnavalescos na composição das fantasias, dos carros alegóricos, e do samba-enredo. É notória sua busca pela perfeição. Diz-se que o desfile do ano seguinte começa a ser preparado quando termina o Carnaval. É, de fato, um trabalho árduo que demanda muito empenho. Se houvesse por parte de muitos cristãos uma parcela da dedicação encontrada nos barracões de Escolas de Samba, faríamos um trabalho muito mais elaborado para Deus. Buscaríamos a excelência, em vez de nos contentar com tanta mediocridade. Tomemos por exemplo as composições musicais. Basta ouvir algumas estrofes para perceber o trabalho de pesquisa que envolve a composição de um samba-enredo. Sem contar as rimas ricas, as melodias marcantes, e a ousadia criativa das baterias. Enquanto isso, composições que visam louvar a Deus estão cada vez mais pobres, tanto do ponto de vista melódico, quanto do ponto de vista lírico. Não aguento mais temas repetitivos, tais como chuva, fogo, anjos e etc.

O desfile começa com a concentração. É ali que é dado o grito de guerra da Escola, seguido pelo aquecimento dos tamborins. A concentração equivale à congregação. Nosso lugar de culto (comumente chamado de “templo” ou “igreja”) é onde nos concentramos e aquecemos nosso espírito. Porém, a obra acontece lá fora, “na avenida” do mundo.

Gosto quando Paulo fala que somos conduzidos por Cristo em Seu desfile triunfal. O apóstolo compara a marcha cristã pelo mundo às paradas triunfais promovidas pelo império romano. Era um espetáculo cruento, no qual os presos eram expostos publicamente, acorrentados e arrastados pelas ruas da cidade. Era assim que Roma exibia sua supremacia, e impunha seu poder. Paulo toma emprestada a figura deste majestoso e horroroso evento para afirmar que Cristo está nos exibindo ao Mundo como aqueles que foram conquistados por Seu amor.

Muitos cristãos acreditam ingenuamente que a guerra se dá na concentração. Por isso, a igreja atual é tão ensimesmada, isto é, voltada para dentro de si. Ela passou a ver-se como um fim em si mesmo.

A avenida nos espera!

Encabeçando o desfile vai a comissão de frente, seguida pelo carro abre-alas. Compete aos componentes dessa comissão a primeira impressão. A comissão de frente da igreja de Cristo é formada pelos que nos precederam, que abriram caminho para as novas gerações. Não podemos permitir que caiam no esquecimento. Também são os missionários, que deixam sua pátria para abrir caminho em outros rincões. Grande é sua responsabilidade, e alto é o preço que se dispõem a pagar para que o Evangelho de Cristo chegue à populações ainda não alcançadas. Paulo fazia parte da comissão de frente da igreja primitiva. Escrevendo aos Coríntios, ele diz que sua missão era“anunciar o evangelho nos lugares que estão além de vós, e não em campo de outrem” (2 Co.10:16). Em bom português, o apóstolo dos gentios preferia pescar em alto mar, e não no aquário dos outros.

A Escola de Samba é dividida em alas, cada uma com fantasias e carro alegórico próprios. Porém, o samba-enredo é o mesmo. O que é cantado lá na frente, é sincronicamente cantado na última ala da Escola. A voz do puxador do samba, bem como a batida harmoniosa da bateria, ecoando por toda a avenida, garantem esta sincronia. Não pode haver espaços vazios entre as alas. Há harmonia até nas cores das fantasias. Ninguém entra na avenida vestido como quiser. Imagine se as variadas denominações que compõem o Corpo Místico de Cristo se relacionassem da mesma maneira, respeitando cada uma o espaço da outra, porém dentro de uma evolução harmoniosa.

No meio do desfile encontramos o casal formado pelo mestre-sala e pela porta-bandeira. Eles exibem orgulhosamente o pavilhão da Escola. Seus gestos e passos são cuidadosamente combinados, para que a bandeira receba as honras devidas. É triste verificar o quanto a bandeira do Evangelho tem sido chacoalhada, pois os que a deveriam ostentar, são os primeiros a desonrá-la com seu mal testemunho. Enquanto que os cristãos primitivos se dispunham a pagar com a própria vida para que seu testemunho de fé fosse validado e o nome de Cristo fosse honrado.

Ao término do desfile chega o momento da dispersão. É hora de partir, levando a certeza de que todos deram o melhor de si. Alguns saem machucados, com os pés sangrando, com as forças exauridas. Mas todos saem alegres, esperançosos de que sua escola seja a campeã. Aprenderam a sublimar a dor enquanto desfilam. Ignoram o cansaço. Vencem os limites do seu corpo. Tudo pela alegria de ver sua escola se sagrando campeã. Mas no fim, chega a hora de tirar a fantasia, descer dos carros alegóricos, cuidar das feridas nos pés. Mesmo assim, ninguém reclama. Todos exibem no rosto um sorriso de contentamento. 

Semelhantemente, todos estamos a caminho do fim do desfile. O momento da dispersão está chegando, quando deixaremos este corpo, nossa fantasia, e seremos saudados pela Eternidade. Que diremos nesta hora? Não haverá novos desfiles. Terá chegado o fim de nossa trajetória? Não! Será apenas o começo de uma nova fase existencial. Deixaremos nossas fantasias, para nos revestirmos de novas vestes celestiais. Falaremos como Paulo em sua carta de despedida a Timóteo:
“...o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2 Tm.4:6b-8).
Aproveitemos os instantes em que estamos na avenida desta vida, celebremos a verdadeira alegria, infelizmente ainda desconhecida por muitos foliões, e que não terminará em cinzas.

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P.S. Antes que me perguntem se pude perceber rastros da graça nos desfiles das escolas de samba que homenageavam entidades cultuadas nas religiões de matizes africanos, quero dizer que sim. Tudo depende da leitura que se faz. Ainda que não compartilhe de alguns dos valores e doutrinas apregoados em tais religiões, devo buscar compreender o que elas representaram na luta do negro pela manutenção de sua identidade cultural depois de ser arrastado de seu país para servir como escravo. Vejo no sincretismo entre tais cultos e a religião católica e o misticismo cigano, a tentativa desesperada de conciliação em nome da sobrevivência. Não estou aqui defendendo suas crenças, e sim o direito de existirem, ainda que desafiem nossos escrúpulos religiosos. Os demônios que porventura se escondam por trás de sua mitologia e práticas, por muito tempo têm se escondido por trás de nossas liturgias e discursos preconceituosos travestidos de piedade. Qualquer abordagem que almejemos, terá que partir da compreensão e do respeito, e não da demonização do diferente. Cada tradição religiosa, seja africana, europeia, indígena ou oriental, tem algum altar oferecido a um deus que desconhece. Antes de nos apresentarmos como Seus porta-vozes, cuidemos para que se construam pontes e não mais muros.

terça-feira, setembro 29, 2015

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Quando as diferenças já não fazem a menor diferença


Por Hermes C. Fernandes


“Aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, 
mas não aprendemos a conviver como irmãos.” Martin Luther King


Os discípulos estavam preocupados. Motivo? Alguém estava usando o nome de Jesus para fazer milagres. Ao contar a Jesus o que estava acontecendo, imaginaram que Ele daria um basta naquilo, exigindo que se respeitasse os direitos autorais de Sua mensagem. Mas para a surpresa deles, Jesus disse: "Não lhe proibais. Ninguém há que faça milagre em meu nome, e logo a seguir possa falar mal de mim, pois quem não é contra nós, é por nós" (Mc.9:39-40).

Jesus jamais exigiu royalties ou direitos autorais de Suas obras ou mensagem. Ele queria que a mensagem fosse propagada.

Paulo também captou o mesmo espírito, e por isso, declarou: "Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia (...) mas que importa? contanto que Cristo, de qualquer modo, seja anunciado, ou por pretexto ou de verdade, nisto me regozijo, sim, e me regozijarei" (Fp.1:15a,18).

A mensagem de Cristo não é monopólio de quem quer que seja.

Quanto as motivações, deixemos que Deus as julgue no momento certo. Por agora, o que importa é que a mensagem seja anunciada.

Não importa se em uma igreja protestante histórica, ou em uma paróquia católica, ou numa igreja neopentecostal, ou mesmo em um centro espiritualista ou numa mesquita. Verdade é verdade, não importa por quem esteja sendo anunciada. E quem ama a verdade, reconhece-a de cara, ainda que anunciada pelos lábios de um cético. Assim como podemos reconhecer a mentira, mesmo quando dita por aqueles que julgamos estar acima do bem e do mal.

Diferentes, mas nem tanto

Em vez de realçarmos o que nos distingue,  por que não realçamos o que temos em comum? Nem que para isso tenhamos que descobrir quais as ameaças ou inimigos que temos em comum. Talvez assim as diferenças já não façam tanta diferença.

Por exemplo: em um país muçulmano, não faz diferença se você é evangélico ou católico. Ambos se reconhecem mutuamente como cristãos.

Numa classe universitária na França, onde a maioria dos alunos se diz ateia  a diferença entre muçulmanos e cristãos perde a importância. O ateísmo pode ser visto como um "inimigo" comum para ambos os grupos, haja vista serem monoteístas.

E quando somos ameaçados por um inimigo comum a toda a humanidade? Quiçá, um inimigo externo?

Se fosse anunciado que um asteroide estivesse prestes a chocar-se com a Terra, pondo em risco a civilização humana, todas as diferenças religiosas, raciais, étnicas, culturais, perderiam totalmente sua relevância. Ateus, cristãos, espíritas, hindus, budistas, dariam as mãos num esforço coletivo para evitar a tragédia.

Pode ser que não estejamos ameaçados pela queda de um asteroide  mas certamente há outras ameaças que nos assediam, e que demandam que nos unamos em um esforço comum para enfrentá-las. Entre elas, destacamos a violência urbana, o aquecimento global, as injustiças sociais, e por último, a crise financeira global. Estaremos fadados ao fracasso, caso não nos disponhamos a deixar nossos guetos ideológicos e darmos as mãos.

Parafraseando Agostinho: "No essencial a unidade, no não essencial a liberdade, em tudo a caridade".