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sábado, fevereiro 16, 2019

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Deus das Esferas



Por Hermes C. Fernandes

Política e religião. Fé e Ciência. Igreja e Estado. Vida pública e vida privada. Há coisas que não se deve misturar; são como água e óleo. Pertencem a esferas diferentes. Toda vez que insistimos em misturá-las, a confusão é inevitável.

De acordo com o poema da criação, Deus determinou que houvesse separação “entre águas e águas”, isto é, “entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam sobre o firmamento” (Gênesis 1:6-7). Eram, portanto, duas esferas diferentes: Águas superiores e águas inferiores. Ainda que possuíssem a mesma composição química, duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio, essas águas deveriam se manter separadas.

Se o que Deus uniu, não separa o homem, o que dizer daquilo que o próprio Deus separou? Quem ousaria unir?

Ainda em Gênesis, deparamo-nos com a passagem que narra o episódio do Dilúvio. Poucos se atêm ao fato de que o dilúvio não foi causado apenas pelas chuvas, mas também pelo rompimento das reservas subterrâneas de águas. Pela primeira vez, a ordem determinada por Deus foi subvertida, e as águas antes separadas se mesclaram. “Naquele mesmo dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas dos céus se abriram” (Gênesis 7:11). Foi água para todo lado. Águas vindas de cima e águas vindas de baixo. O cataclismo só cessou quando “cerraram-se as fontes do abismo e as janelas dos céus” (Gênesis 8:2).

Apesar de tudo ter ocorrido sob as ordens do próprio Deus, o cataclismo foi fruto da rebelião humana que se configurou na junção carnal entre os seres angelicais e as filhas dos homens, que teria criado uma raça híbrida de gigantes conhecidos como Nefilins (Gênesis 6).

Não se pode unir o que Deus separou! Assim como não se deve separar o que Deus uniu.
Entretanto, as esferas devem coexistir respeitosamente, cada uma em seu quadrado. Convém salientar, porém, que mantê-las separadas não significa que não deva haver qualquer interação entre elas, sobre a qual falaremos adiante.

A igreja é, por assim dizer, uma sociedade fronteiriça, que vive a constante tensão entre dois mundos, o atual e o do porvir, bem como o secular e o sagrado, transitando livremente entre eles, porém, respeitando suas peculiaridades. Nada a impede de dialogar com a cultura, com a ciência, com a academia, e até com outras tradições religiosas. Diálogo implica caminho de mão dupla. Quem dialoga, tanto fala, quanto ouve. Tanta ensina, quanto aprende. Tanto dá, quanto recebe.

A igreja é como Acsa, filha de Calebe, que descontente com a terra seca que recebeu de herança, pediu que o pai lhe abençoasse, dando-lhe fontes de águas. Em resposta ao seu pedido, Calebe presenteou-a com “as fontes superiores e as fontes inferiores” (Juízes 1:12-15). Somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo  (Romanos 8:17).  Tudo quando Cristo recebeu do Pai, constitui-se também a nossa herança como filhos amados de Deus.  E o escritor de Hebreus afirma que Deus o constituiu “herdeiro de tudo” (Hebreus 1:2). Por isso, o apóstolo Paulo pôde declarar enfaticamente que tudo agora é nosso, “seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro” (1 Coríntios 3:21-23). Entretanto, tal qual aconteceu a Acsa, recebemos como herança “herdades assoladas”, e , de quebra, foi-nos confiada a missão de restaurarmos a terra (Isaías 49:8). Mas para tal, temos que recorrer às fontes, tanto as superiores, quanto as inferiores. Os recursos que nos são disponibilizados são incomensuráveis.

Quando digo igreja, não me refiro aqui à instituição cristã, ou mesmo a uma denominação específica, mas a um povo que recebeu de Deus a vocação de lançar os fundamentos de um novo mundo, que costumo chamar de civilização do reino de Deus. Um povo formado por quem não se conforma com as coisas como elas são, e anelam por um mundo mais justo e igualitário.

Nossa atuação não deve estar circunscrita à esfera religiosa, mas abarcar cada uma das esferas.  Porém, não podemos fazer uso desta prerrogativa para misturar as coisas. Não se pode, por exemplo, impor uma visão moral religiosa a um estado laico. Isso, naturalmente, não impede que um cristão viva plenamente a sua fé mesmo no campo político. Em vez de pautar-se na moral cristã, ele pautará sua atuação na ética e no bem comum, sem favorecer a instituição religiosa a que pertence.

Quando Jacó reuniu seus filhos para abençoá-los pouco antes de sua morte, o patriarca hebreu proferiu uma bênção especial para José, que poderia muito bem ser aplicada à igreja como um todo.

 “José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte; seus ramos correm sobre o muro. Os flecheiros lhe deram amargura, e o flecharam e odiaram. O seu arco, porém, susteve-se no forte, e os braços de suas mãos foram fortalecidos pelas mãos do Valente de Jacó (de onde é o pastor e a pedra de Israel). Pelo Deus de teu pai, o qual te ajudará, e pelo Todo-Poderoso, o qual te abençoará com bênçãos dos altos céus, com bênçãos do abismo que está embaixo, com bênçãos dos seios e da madre. As bênçãos de teu pai excederão as bênçãos de meus pais, até à extremidade dos outeiros eternos; elas estarão sobre a cabeça de José, e sobre o alto da cabeça do que foi separado de seus irmãos.” Gênesis 49:22-26

Quem não gostaria de receber “bênçãos dos altos céus” somadas às “bênçãos do abismo que está embaixo”? Não seria isso o cumprimento da promessa de Romanos 8:28 que diz que todas as coisas cooperam em conjunto para o bem dos que amam a Deus e são chamados segundo o Seu propósito? Mas para isso, temos que ser “ramos frutíferos junto à fonte”, como nossos ramos extrapolando os limites impostos pelos muros. Antes de ser bênção para o seu próprio povo, José foi bênção para o povo que o manteve como escravo, e posteriormente como preso sob acusação injusta.

Temos que romper com esta visão de gueto que nos fez reféns de uma subcultura restrita aos que entender nosso dialeto religioso. Não temos o direito de viver uma espiritualidade alienante, divorciada da realidade.

A exemplo da igreja primitiva que contava com a simpatia de todo o povo, é notavelmente possível vivermos uma espiritualidade que seja “agradável a Deus” e “aprovada aos homens.” Mas não enquanto nos ativermos a questiúnculas morais e de costumes. Bem faríamos se adotássemos a sábia postura de Paulo ao declarar: “Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nada é de si mesmo imundo a não ser para aquele que assim o considera; para esse é imundo. Pois, se pela tua comida se entristece teu irmão, já não andas segundo o amor. Não faças perecer por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu. Não seja pois censurado o vosso bem; porque o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo. Pois quem nisso serve a Cristo agradável é a Deus e aceito aos homens. Assim, pois, sigamos as coisas que servem para a paz e as que contribuem para a edificação mútua” (Romanos 14:14-19). Se naquela época, cristãos infantilizados brigavam por questões dietéticas, hoje brigamos por questões ainda mais banais que dizem respeito à vida privada de cada um.

Creio que a figura arquetípica da Nova Jerusalém poderia nos ajudar a compreender a maneira como deveríamos nos posicionar com relação às coisas relativas às esferas inferiores. Digo inferiores, não no sentido de serem menos importantes que as demais, mas por estarem ligadas a esta vida terrena, sujeitas, portanto, a se desgastarem com o passar do tempo.

O vidente João nos relata que viu “a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido” (Apocalipse 21:2). Repare nisso: a origem desta cidade é celestial. Ela desce do céu. Ela pertence às fontes superiores. Ela é um tipo da igreja. Por isso, João a chama de “esposa do Cordeiro.” Cristo não se casaria com muros, tijolos, paredes. Sua esposa somos nós, Sua igreja, Seu povo.

Apesar de manter-se pura, “ataviada”, é-nos dito que “as nações andarão à sua luz; e os reis da terra TRARÃO PARA ELA a sua glória. AS SUAS PORTAS NÃO SE FECHARÃO de dia, e noite ali não haverá; e a ela trarão a glória e a honra das nações. E não entrará nela coisa alguma impura, nem o que pratica abominação ou mentira; mas somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Apocalipse 21:24-27).

De que “glória das nações” o texto está falando? A resposta está Isaías 60:11, onde esta promessa já havia sido feita anteriormente. Ali lemos que as portas da cidade estariam abertas de contínuo para que lhe fossem trazidas “as riquezas das nações.” Resta saber que riquezas seriam essas.  Recuso-me a crer que sejam insumos ou bens de consumo. Prefiro acreditar tratar-se de riquezas culturais, produzidas pelos povos ao longo das eras.

Então, como conciliar a promessa de que as riquezas das nações seriam introduzidas na cidade santa com a promessa de que ali não entraria coisa impura? Não seria isso o mesmo que misturar as águas inferiores com as águas superiores?

Desde criança ouço pregadores alarmarem os fiéis acerca da infiltração do mundanismo na igreja. Como evitar isso? Teríamos que nos trancafiar em nosso reduto eclesiástico? Teríamos que viver como os Amish[1]? Teríamos que nos abster de qualquer manifestação cultural? Penso que muitos confundem santificação com alienação. Apesar de Deus ter estabelecido uma separação entre as águas superiores e inferiores, não podemos ignorar que haja uma contínua troca entre elas que é conhecida por ciclo da água.  Conhecido cientificamente como o ciclo hidrológico, o ciclo da água refere-se à troca contínua de água na hidrosfera, entre a atmosfera, a água do solo, águas superficiais, subterrâneas e das plantas. Através de um processo lento e quase imperceptível, a água se evapora, formando nuvens que posteriormente a devolvem ao solo através da chuva. Não importa quão sujas essas águas possam estar, a evaporação se encarregará de purifica-las. A lama, a sujeira, os dejetos, não sobem com ela. Por isso, pode-se beber da água da chuva sem receio.

De modo análogo, as culturas produzidas neste mundo podem ser introduzidas na civilização do reino de Deus, sem levar consigo as impurezas que as acompanham. Foi sobre este processo que Paulo falou ao nos advertir a examinar de tudo, retendo somente o que for bom (1 Tessalonicenses 5:21).

Duas coisas precisam ser observadas:

1. Não se deve comprar pacotes fechados. Antes, deve-se examinar item por item, descartando o que não for compatível com os princípios do amor e da justiça.

2. Não se deve jogar fora a criança com a água do banho. Cada cultura revela rastros da graça de Deus ao mesmo tempo em que traz traços de nossa condição pecaminosa de egoísmo e hedonismo.

Recentemente, postei em minhas redes sociais acerca da minha experiência com a acupuntura, depois de ter sofrido por sete meses de uma crise de coluna que afetou meu nervo ciático. Alguém resolveu comentar em meu post, afirmando que tal prática seria demoníaca, pois estaria associada a invocação de espíritos ancestrais e crenças místicas orientais. Respondi que vejo muito mais de demoníaco na indústria farmacêutica ocidental que cria doenças em laboratórios para depois oferecer tratamento, que mantém patentes de remédios para cobrar por eles o quanto quiser, mesmo sabendo que há vidas que dependem de seu uso.

A acupuntura foi declarada Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade pela Unesco em 2010.  Assim como esta prática milenar da medicina chinesa, há outras, como a homeopatia, que se enquadram perfeitamente no que podemos chamar de “riquezas das nações.”

E o que dizer das danças, do folclore, da música, das festas, da culinária, e de tanta coisa bela que tem sido produzida pelos povos ao longo de sua história?

Não creio que a sociedade pela qual anelamos seja uniformizada. Somente a multiforme graça de Deus, bem como Sua multiforme sabedoria, poderiam nos patrocinar a emergência de uma sociedade justa e diversificada, onde cada etnia possa viver pacificamente sem ter que abrir mão da beleza de suas tradições.

O que nos impede de enxergar isso é que desconhecemos a abrangência da obra de Cristo, limitando-a às questões relativas à vida eterna.

Paulo nos conta que Deus nos desvendou o mistério de sua vontade, “de fazer convergir em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:9-10).

N’Ele, a realidade foi reunificada. Porém, trata-se de uma unidade que preserva a diversidade. As fontes superiores trabalham em conjunto com as fontes inferiores. O Espírito que sopra dentro da igreja, sopra também lá fora, e ninguém sabe de onde vem, nem para onde vai. Ele é livre. O mesmo que inspira canções de louvor entre o Seu povo, também inspira profetas seculares para que expressem a angústia e anelo da criação.

Cristo é o ponto de convergência entre as coisas sagradas e as seculares, entre as coisas celestiais e as terrenas, entre as espirituais e as materiais, entre as objetivas e as subjetivas, entre a vivência comunitária e a individualidade, entre a santidade e a autenticidade.

Outro ponto interessante da descrição da cidade santa é a sua completa ausência de templos (Apocalipse 21:22). É-nos dito que o Cordeiro é o seu santuário. Fica claro que não se trata de uma sociedade religiosa, mas secular, o que não significa que perde a sua sacralidade, mas que a resgata plenamente. Agora, em Cristo, todas as coisas foram santificadas, e não apenas umas em detrimento de outras. N’Ele se reúnem todas as fontes, superiores e inferiores. Por isso, o salmista diz: “Todas as minhas fontes estão em ti” (Salmos 87:7). Nada restou fora d’Ele. Como bem disse Paulo citando os filósofos estoicos: “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois dele também somos geração”(Atos 17:28). Cristo, portanto, encerra em Si mesmo toda a realidade.

Já sabemos por analogia a maneira como as águas inferiores são remetidas às esferas celestiais. Agora precisamos entender como as águas superiores são remetidas às esferas terrenas.

Há quem creia que o mundo necessite de uma enxurrada da verdade. Mas ouso dizer que Deus tenha outros planos. Em vez de chuvaréu, garoa. Em vez de uma inundação semelhante ao dilúvio, um orvalho suave que regue a terra calmamente sem fazer estragos. Ou não é isso que vemos em Deuteronômio 32:1-2?

 “Inclinai os ouvidos, ó céus, e falarei; e ouça a terra as palavras da minha boca. Caia como a chuva a minha doutrina; destile a minha palavra como o orvalho, como chuvisco sobre a erva e como chuvas sobre a relva.”

Será assim que a vontade de Deus feita no céu, será finalmente concretizada na terra. Sem alardes. Sem megafones. Sem gritos.  Como disse Isaías acerca do Messias: “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios. Não clamará, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na praça” (Isaías 42:1,2).

Não será por força, por imposição, por violência, pela espada, nem pela canetada, mas exclusivamente pelo convencimento do Espírito, pela iluminação e expansão da consciência (Zacarias 4:6).



[1] Amish é um grupo religioso cristão anabatista baseado nos Estados Unidos e Canadá. São conhecidos por seus costumes conservadores, como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis.

sexta-feira, julho 24, 2015

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Não existe música profana!


Por Hermes C. Fernandes 
"Entre as graças que devemos à bondade de Deus, uma das maiores é a música. A música é tal qual como a recebemos: numa alma pura, qualquer música suscita sentimentos de pureza." Miguel de Unamo
 “Todas coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os corrompidos e descrentes. Antes a sua mente como a sua consciência estão contaminadas.” Paulo em sua carta a Tito cap. 1, verso 15

Haveria algum idioma que pudesse ser considerado sagrado? Alguns talvez achem que sim. Há até quem pense que a língua falada no céu seja o hebraico, e que esta seria o idioma original dos homens, antes de Babel.

Recentemente, fui indagado acerca da logomarca de nossa igreja (Uma cruz estilizada que lembra uma estrela, com o que parece uma letra “x” no meio dela). Ao explicar que aquela letra “x” era na verdade a primeira letra grega do nome “Cristo” (Christus), houve quem alegasse que o grego e o latim seriam os idiomas prediletos do satanismo.

Ora, já ouvi tanta asneira nesta vida, mas esta superou a muitas delas. Então, teremos que concluir que o Novo Testamento foi todo escrito em língua satânica e que Paulo pregava no idioma dos demônios!

Um argumento como este revela o quão criativo é o gênio humano, tanto para o bem, quanto para o mal.

Haveria em nosso alfabeto alguma letra maligna? Claro que não! Mas é possível usar as letras de nosso alfabeto para escrever qualquer coisa, desde louvores a Deus até insultos, blasfêmias e obscenidades. Porém isso, não torna aquelas letras profanas.

Assim se dá com a música, por exemplo. Quem criou as notas musicais? Não foi o diabo, ou foi? E quanto aos ritmos diversos, teriam sido criados ou inspirados por ele? Recuso-me a crer neste absurdo.

Não há música profana! O que há são músicas profanadas. Usar a música para estimular sentimentos perversos no coração humano é profanar uma das mais sagradas artes.

Harmonia, melodia e ritmo podem ser igualmente usados para o bem ou para o mal. Assim como posso usar uma faca tanto pra fatiar um pão quanto pra ferir alguém. Isso não faz da faca um instrumento satânico, ou faz?

O que é uma canção senão a combinação de harmonia, melodia e ritmo? Nenhum destes elementos pode ser considerado profano em sua origem. O que se pode é profaná-los, dando-lhes um propósito maligno.

Não posso satanizar um frango só porque alguém o oferece numa encruzilhada num ritual religioso. Não vou deixar de degustar um saboroso frango assado por isso.

Posso usar todo o espectro de cores para pintar uma obra que insulte os valores cristãos, como posso usar o mesmo pincel para criar obras que os enalteçam.

Mesmo uma obra considerada “profana” pode ser apreciada de outros ângulos. Em vez de condená-la, podemos buscar entender a intenção de seu autor, e a maneira como ele tenta expressar o que há em sua alma. Há anseios, frustrações, anelos profundos, amarguras, questionamentos, inquietudes, que nem sempre são verbalizados claramente, mas que vazam através de sua produção cultural.

Em vez de ficar ouvindo discos de trás pra frente em busca de mensagens subliminares, deveríamos ouvi-los com o coração tomado de compaixão, buscando compreender o que de fato essas almas humanas tentam comunicar nas entrelinhas de sua arte.

O que foi profanado pode ter sua sacralidade primordial resgatada. Alguns avivalistas e reformadores perceberam isso nos séculos passados. Charles Wesley, o maior compositor cristão de todos os tempos, tomava emprestado melodias usadas nos cabarés da Inglaterra, e as transformava em louvores a Deus. Aliás, muitos dos hinos da Harpa Cristã e do Cantor Cristão tiveram origem “profana”.

Ademais, devemos considerar a graça comum, que como chuva derramada sobre justos e injustos, é capaz de inspirar o mais vil dentre os homens a produzir coisas belas, dignas de apreciação e aplauso.

A vida enxergada do prisma da graça é muito mais leve, solta e vibrante. Sem neuroses, fanatismo infundado, mania de conspiração, e outras bizarrices.

Sinto-me inteiramente à vontade para apreciar as linhas harmoniosas de uma obra arquitetônica de Niemeyer, e ainda louvar a Deus por sua genialidade, mesmo sabendo que ele se professa ateu.

Prefiro embasbacar-me contemplando o interior da Capela Sistina, a ficar buscando na obra de Michelangelo algum indício de que ele pertencesse a uma sociedade secreta qualquer.

Jamais me preocupei em ser flagrado ouvindo uma boa música secular, nem em ter que dar explicação aos que me censurem por isso.

Posso apreciar uma escultura do ponto de vista artístico, sem por isso comprometer a pureza de minha fé, nem endossar a idolatria que se preste a ela.

Não sou menos espiritual por dar umas boas gargalhadas enquanto assisto a uma comédia.

Deixo-me emocionar enquanto assisto a uma apresentação de ballet ou a uma peça teatral, ou mesmo a um concerto de música clássica ou pop, sem qualquer constrangimento ou culpa, por reconhecer que a fonte primeva de toda beleza é Deus.

Afinal de contas, “d’Ele e por Ele e para Ele são todas as coisas. Glória, pois, a Ele eternamente. Amém” (Rm.11:36).

terça-feira, dezembro 27, 2011

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Fafá de Belém manda um recado para as estrelas gospel


quinta-feira, setembro 29, 2011

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O dia em que Metallica foi a igreja

John Van Sloten está ficando conhecido como o “pastor canadense da cultura pop”. Em 2004 ele pregou um sermão sobre a banda de heavy metal Metallica e sua “mensagem  espiritual”. Ele não imaginava que alguém de fora de sua congregação, a igreja New Hope (Nova Esperança), na cidade de Calgary, fosse prestar atenção. Mas a propagação dessa mensagem tornou-se matéria em vários jornais do mundo, chegando até a revista Rolling Stone. Até a própria banda ouviu falar dele através de um DJ da rádio CJAY92.
Dias antes, o jornal  Calgary Herald tomou conhecimento do assunto e publicou um pequeno artigo sobre as intenções do pastor de unir duas coisas aparentemente tão conflitantes. O Metallica chegou a enviar uma equipe da Warner Music canadense para filmar o culto da igreja naquela semana. Afinal, o pastor John comparou os músicos aos profetas do Antigo Testamento que se levantavam contra a injustiça reinante em seu tempo. Porém, ao invés de profetizar em nome de Deus, eles fazem músicas que falam sobre esses assuntos. Afirmou ainda que a energia e o entusiasmo dos fãs da banda são um exemplo para os que seguem a Cristo.
No famoso sermão ele abordou ainda aspectos da vida dos músicos. Em especial as dificuldades que o líder da banda, o guitarrista James Hetfield, tinha com Deus e a igreja. Aos 16 anos ele viu sua mãe morrer em decorrência de um câncer após ser proibida de procurar ajuda médica e esperar a cura divina. Por causa dessa experiência o guitarrista compôs, entre outras, músicas como The God that failed (o Deus que falhou), onde canta “Eu vejo fé em seus olhos/ Você nunca ouviu as mentiras desanimadoras/ Eu ouço fé em seus gritos/ promessa quebrada, traição/ A mão curadora esta presa pelo prego enterrado/ Siga o Deus que falhou”.
Toda a repercussão e “fama” inesperada levou o pastor a fazer uma série de sermões sobre a cultura pop, que segundo ele mudaram a sua vida e de sua congregação. Passou então a analisar e pregar sobre filmes como a série do Homem-Aranha, até Gran Torino; bandas como Coldplay e Green Day; artistas como Van Gogh e Rembrandt. Van Sloten afirma que “Deus está falando em todos os lugares, através de todas a coisas. O motivo pelo qual preguei sobre todos estes assuntos é porque acredito que eles pertencem a Deus… E quando as coisas pertencem a Deus, elas são importantes e tem algo a nos dizer”, afirmou. Mas o pastor Van Sloten também precisou “pregar” sobre personalidades controversas como Lenny Kravitz e Freddy Mercury, quem ele admite ter sido o mais difícil.
Certamente é uma idéia intrigante, ainda que controversa, pensar que Deus falando através de tudo. Sério? Tudo? Através de um filme como Se beber não case? Até mesmo através de revistas de fofocas e celebridades? As músicas da Lady Gaga? Tal ideia afastou quase metade dos membros da igreja de Van Sloten.
O pastor de 49 anos viu sua congregação de 400  ficar reduzida a pouco mais de 200pessoas sentados no centro comunitário que a New Hope aluga para os cultos de domingo.Por opção, desde o início a igreja decidiu não investir em um prédio. “Eles pensavam que eu tinha ido longe demais, que iria abandonar completamente a Bíblia. Na maioria das outras denominações eu teria sido afastado”, admite.  Mas está convicto que os que permaneceram, “não conseguem mais assistir a um filme apenas por diversão. Agora eles se pegam constantemente perguntando: O que você está dizendo com isso, meu Deus? Quando se reconhece que Deus está falando em todos os lugares, você é forçado a participar, ver e ouvir com mais discernimento, fazer as perguntas certas .” Agora, seis anos depois de iniciar essa mudança, ele lança seu primeiro livro, que leva o título justamente de “O dia em que o Metallica foi à igreja”.
Mesmo sendo favorável ao discernimento e a necessidade de fazermos as perguntas certas, é difícil para a maioria de nós ver Deus por trás de certas coisas. Às vezes a questão não é: “O que você está dizendo com isso, Deus?”, mas sim “O que esse músico ou compositor ou artista está dizendo com isso?”
Certamente existem muitas obras de arte e elementos da cultura pop que podem revelar a Deus. Ele não se limita às manifestações religiosas e está presente mesmo em algo “secular”. Beleza e a bondade são manifestações da sua glória, seja o responsável  por essas coisas cristãos ou não. Mas algumas coisas são totalmente desprovidas de verdade, beleza e bondade!
Deus pode falar através de todas as coisas? Sim. Já falou inclusive através de uma mula, mas deveríamos ser  capazes de estabelecer um limite. Mesmo assim, ele afirma que pastores da Austrália e do Reino Unido foram inspirados por suas idéias. “Ouvi líderes de igrejas por toda a América do Norte dizendo ‘isso faz sentido’ – mas eles nunca tiveram uma base teológica para confirmar isso”.
Mesmo lançado por uma editora pequena, o livro chegou a ser mencionado pela rede CNN em uma matéria sobre religião. Os lucros obtidos com o livro, disse o pastor, não ficarão em seu bolso, mas serão doados integralmente para a sua igreja. Mesmo assim, este ex-corretor de imóveis, hoje escritor, sabe que muitos questionarão suas intenções. ”O tempo mostrará se essa é só uma moda ou se eu sou apenas mais um aproveitador” diz Van Sloten.
Talvez o pastor John esteja levando isso a um extremo. Talvez não. O tempo dirá. Chama a atenção o fato de a imagem de fundo da página de abertura novo site da New Hope ser a capa do livro. Cerca de metade do conteúdo promovido na página está ligado à promoção do livro. É bom lembrar que a editora Faith Alive também tem um bom site promocional para o livro chamado “Metallica na igreja” (AQUI). O primeiro capítulo pode ser baixado gratuitamente por quem estiver curioso sobre o tema  AQUI (em inglês). Vale destacar um dos comentários disponíveis no site, assinado pelo pastor Jonathan Vandenberg, líder da juventude das igrejas reformadas da Austrália:
“Acabei de ler The Day Metallica Came to Church e gostei muito. Sinto que ele registrou bem a importância de termos uma fé bíblica e, ao mesmo tempo, a necessidade de abraçar e explorar os elementos místicos e existenciais da fé e da revelação, vistos por numa perspectiva Reformada. Enquanto a teologia é algo que já abraçamos a séculos, o autor identifica esses elementos naquilo que vemos em nossos dias, o que renova e reafirma bem nossas teorias. Este livro fala à sociedade pós-evangélica, que está descobrindo uma visão do Reino em meio a (e através da) nossa cultura.”
release do livro disponível no site da Amazon diz:
O que a música feita por Metallica e Bach, o filme Crash, e histórias sobre Batman tem em comum? De acordo com o autor e pastor John Van Sloten, Deus podem falar  através de todas elas – se estivermos dispostos a ouvir. Out of his own startling and sometimes wrenching journey of discovery, Van Sloten mostra como Deus pode falar conosco usando qualquer coisa – músicas de heavy metal, filmes violentos, esportes e mesmo a última moda. Se você está atento, este livro pode mudar a maneira como você está acostumado a ouvir a voz de Deus, ou até mesmo a maneira como você vive.
Veja abaixo um trecho da pregação que deu origem ao livro.


Traduzido e editado por Jarbas Aragão © Direitos reservados
Com informações de Christianity Today,  The Calgary Sun e  Amazon
O livro pode ser adquirido  AQUI e o sermão completo do vídeo acima AQUI (em inglês)
Fonte: Pavablog

sábado, fevereiro 26, 2011

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Astros pop acreditam serem escolhidos de Deus


Por que tantas estrelas da música pensam que sua carreira é parte de um plano divino?

Por Neil Strauss
RV AB604 MUSICG D 20110209234006 Carreira com propósitos: Astros pop acreditam serem escolhidos de Deus
Certa noite, no verão passado, Lady Gaga sentou ao meu lado em um ônibus de turismo na Inglaterra. Ela ainda estava coberta com o sangue falso que usara na apresentação daquela noite. Ela me disse que chorou histericamente antes de um show recente, pois teve um sonho em que o diabo estava tentando levá-la. Então me relatou, com certo temor, que o espírito de sua tia falecida estava literalmente dentro do corpo dela. E mais, Gaga comentou que havia comido um coração bovino para enfrentar o medo da cirurgia de coração que seu pai faria poucos dias depois.
Se um desconhecido tivesse sentado ao meu lado no metrô e  me dito tudo isso, eu teria mudado de lugar na hora. Mas ela é uma das mulheres mais famosas do mundo. ”É difícil lidar com tudo isso”, disse Lady Gaga, falando sobre seu sucesso e explicando que existe “uma força maior que está cuidando de mim.”
RV AB605 MUSICG D 20110209234051 Carreira com propósitos: Astros pop acreditam serem escolhidos de Deus
Corta para… a sala da casa do rapper Snoop Dogg, na região de Los Angeles. Enquanto ele fuma um baseado, explica seu retorno aos palcos depois de deixar a gravadora Death Row. ”Deus fez tudo acontecer”, disse ele. ”Ele me colocou nessa situação com a Death Row, e ele me tirou dela.”

Corta para… um quarto de hotel, onde Christina Aguilera está se enchendo de fast food enquanto fala sobre o seu sucesso. ”Tudo isso não fui eu que fiz”,  desabafa. ”É algo que tem um propósito maior.” Durante outra entrevista, a mãe de Cristina explica que o destino da filha era a fama: “Acreditamos que houve alguma intervenção divina. Desde o início, percebi que Deus tem planos para ela.”
Quando os vencedores do Grammy deste ano receberem seus prêmios, Deus provavelmente será agradecido e elogiado muitas vezes. É uma antiga tradição do showbiz. Pode ser vista claramente no Oscar, no Emmy e até mesmo no AVN Awards, que premia filmes adultos. Antes de eu começar a entrevistar muitos dos vencedores destes prêmios importantes, duas décadas atrás, achava que era um sinal de humildade e gratidão (ou, no mínimo, uma mania deles). Mas a verdade é mais interessante do que isso.
Antes de alcançarem o sucesso, muitos dos maiores astros da música pop realmente acreditavam que Deus queria que eles fossem famosos. Este era o propósito divino para eles, como era parte de seu plano que o resto de nós fosse desconhecido. Por outro lado, já entrevistei muitos músicos igualmente talentosos, mas não tão famosos. Estes entendiam que seu sucesso foi algo acidental ou imerecido – e, de fato, logo depois sumiram dos holofotes.
Enquanto reunia e analisava todas essas entrevistas para o meu novo livro, cheguei a uma conclusão surpreendente: acreditar que Deus deseja que você seja famoso aumenta suas chances de obter sucesso. Claro que do ponto de vista da teologia tradicional, ou mesmo na visão calvinista da predestinação, Deus está muito mais preocupado com o destino da alma de uma pessoa do que com o seu sucesso. Além disso, nosso destino sempre é desconhecido. Então, o que ajuda essas estrelas não é tanto a religião mas, sim, uma crença. Especificamente, a crença de que Deus favoreceu o sucesso pessoal e temporal deles, e não quis o mesmo para quase todos os outros habitantes do planeta.
No início do mês, Aaron Rodgers, capitão do Green Bay Packers, foi entrevistado antes do último jogo do campeonato de futebol americano – o Super Bowl. Seu time venceu e ele foi eleito o melhor jogador em campo. Naquela oportunidade, ele explicou: “Deus sempre tem um plano para nós”. Da mesma forma, Santonio Holmes, ex-jogador do Pittsburgh Steelers, declarou que suas recepções durante a vitória que fez dele o melhor jogador em campo, na final de 2009 foi fruto “da vontade de Deus.” E no Super Bowl de 2008, David Tyree, do New York Giants falando sobre a vitória de sua equipe, declarou: “Parece que era o nosso destino… Sabia que Deus faria o que me disse que iria fazer”.
Vamos chamar isso de teísmo competitivo, uma espiritualidade individualista, que pode fazer parte de qualquer religião e nada tem a ver com a moralidade de cada um. Esta lacuna na fé convencional que tenho percebido nas entrevistas que fiz, muitas vezes é o que separa os famosos dos que são absurdamente famosos. É algo que pode fazer a diferença entre alcançar o que é possível e realizar o que parece impossível.
Embora os cientistas, até onde sei, ainda não começaram a estudar a relação da fé com o estrelato, eles já estudam os dependentes químicos, os transplantados e as vítimas de desastres naturais. Eles já descobriram que buscar ativamente a intervenção divina aumenta as chances de sobrevivência das pessoas.
Isso não quer dizer que todo mundo que ocupa o topo das paradas de sucesso acredita na vontade de Deus. Há exceções, mas são menos do que você pensa. Astros da música pop contemporânea raramente se declararam ateus. Na verdade, as estrelas mais condenadas por grupos religiosos muitas vezes são os crentes mais fervorosos – desde Elvis Presley (que estava lendo um livro sobre Jesus quando morreu no banheiro) até Lady Gaga (cujo novo sucesso, “Born This Way”, declara que “não importa se gay, hétero ou bi, somos todos parte do plano de Deus).
RV AB606 MUSICG D 20110209234120 Carreira com propósitos: Astros pop acreditam serem escolhidos de Deus
Até mesmo Eminem, que concorreu a 10 Grammys este ano, compartilha desse senso de missão divina: “Deus me enviou para detonar com o mundo”, ele canta em “My Name Is”, sua primeira música de sucesso. Em um artigo que escreveu para a revistaVibe, ele disse: “Acredito em Deus e faço minhas orações… Deus é o meu poder maior, sempre foi”.

Isso não prova que existe um Deus guiando o destino dessas estrelas. No entanto, parece mostrar que confiança inabalável e um forte senso de propósito são bons indicadores de sucesso. Olhe para Justin Bieber, que lançou uma música dois meses atrás chamada “Pray” [Ore] e parecia intocável quando foi vaiado recentemente por torcedores em um jogo de basquete do New York Knicks. Ou considere o escárnio despejado sobre Cristina Aguilera por ela ter se atrapalhado ao cantar o hino nacional americano no Super Bowl. Se uma cantora desconhecido tivesse cometido o mesmo erro, a maioria das pessoas apenas sentiria pena dela.
Quanto mais bem-sucedido você se tornar, mais rápidas, mais altas e mais fortes serão as críticas. Para alguém conseguir lidar com a carga psicológica de ser famoso e os ataques que a acompanham, ajuda muito ser “casca-grossa”. E ajuda muito mais acreditar que você faz parte de uma missão divina e sentir que, mesmo quando todos parecem estar contra, Deus está do seu lado. A maioria das estrelas que tem uma ponta de dúvida sobre desejarem ser o centro das atenções não resiste à pressão constante. Temendo a crítica ou o fracasso, eles optam por não correr riscos e assim acabam desperdiçando as oportunidades.
P. Diddy, o magnata do hip-hop, por exemplo, tem entrado e saído das salas de audiência ao longo dos últimos anos. Já enfrentou acusações por agressão, posse de arma e suborno, mas sempre consegue voltar, mudando seu nome e iniciando uma nova carreira. Quando eperguntei se ele já sentiu medo, sua resposta foi: “Minha fé está em Deus. Tipo, olha que eu estou andando. Veja quem realmente é a minha turma. Minha turma é Deus. Fala sério! Não, eu não tenho medo”.
Os mansos realmente devem herdar a Terra. Mas até lá, as estrelas que são presunçosas o suficiente para se verem como escolhidos de Deus, provavelmente continuarão dominando as paradas, as premiações e os campeonatos esportivos. O talento conta muito, mas também é importante essa força motivadora da sensação de escolha divina.
Neil Strauss é o autor de sete best-sellers. Seu livro mais recente é Everyone Loves You When You’re Dead: Journeys Into Fame and Madness.
Tradução da Agência Pavanews do artigo do Wall Street Journal.(Via Pavablog)

Pra saber minha opinião sobre isso, leia aqui.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

8

Olha o que o amor faz!



Janelas nos céus

As algemas foram retiradas
As balas deixaram a arma
O calor do sol
Nos manterá quando não houver mais nenhum

A regra foi contestada
A pedra foi movida
O grão é agora um bosque
Todos os débitos foram pagos

Oh, você não vê o que o amor fez?
Oh, você não vê o que o amor fez?
Oh, você não vê o que o amor fez?
O que fez comigo?

Amor cria estranhos inimigos
Faz amor onde parece improvável
Despe a alma em um strip-tease
Põe o ódio de joelhos

O céu acima de nossas cabeças
Podemos alcançá-lo de nossa cama
Se você me deixar entrar em seu coração
E sair da minha cabeça... cabeça...

Oh, você não vê o que o amor fez?
Oh, você não vê o que o amor fez?
Oh, você não vê o que o amor fez?
O que fez comigo?

Oh oh oh oh, ohh
Oh oh oh oh, ohh
Por favor, nunca me deixe fugir de você...

Eu não tenho vergonha...
Oh não,Oh não

Oh, você não vê o que o amor fez?
Oh, você não vê?
Oh, você não vê o que o amor fez?
O que está fazendo comigo?

Você não pode ve o que o amor fez?
Eu sei que te feri e te fiz chorar
Você não pode ve o que o amor fez?
Fiz tudo menos matar você e eu
Você não pode ve o que o amor fez?
Mas o amor deixou uma janela nos céus
O que está fazendo comigo?
E eu sou fã do amor

Você não vê o que o amor fez?
Para todo coração partido
Você não pode ve o que o amor fez?
Para todo coração que chora
Você não pode ve o que o amor fez?
O amor deixou uma janela nos céus
O que está fazendo comigo?
E eu sou fã do amor.

Você não vê?!


* O pior dos cegos é quem tem a vista, mas não quer ver. 

sexta-feira, novembro 19, 2010

2

O Evangelho numa canção dos Beatles



Gerson Borges

Li uma resenha na Veja dessa semana sobre o livro do Padre Marcelo, Ágape. Meteram o pau no texto do sacerdote-cantor, meu par. Longe da minha intenção, ocupar o tempo precioso dos meus treze leitores com uma discussão sobre as virtudes literárias ou teológicas do tal livro. Meu interesse é refletir sobre o comentário final da matéria: "fica a impressão de que o Evangelho inteiro cabe numa canção dos Beatles ". Fiquei com raiva do cara. Achei leviana a observação. Depois, aquiesci: cabe mesmo. Não que o mérito seja de Lennon e McCartney. A canção é até boazinha, não a melhor da sua lavra. Na verdade " All you need is love ", com aquela introdução cafona de banda marcial ( até justificada pelo clima pacifista e anti-vietnã: consta que o single for a o resultado de uma encomenda da BBC para a primeira transmissão ao vivo , via satélite, que se tem notícia. Data de 1967 ) nunca me conquistou. O mérito da frase "o Evangelho inteiro cabe numa canção dos Beatles " é do Evangelho, é de Jesus de Nazaré. John e Paul cavaram no inconsciente coletivo da sua herança cristã desprezada e esquecida ( ou seria Graça Comum, pura e simples? ) a verdade mais bela do Cristianismo: a resposta é simples – amor.
A mensagem de Jesus, o resumo da sua proposta, o coração da sua utopia comunitária-social-política, a revolução de Jesus, como diria Brian MacLaren, é o amor. O amor é o tronco do qual todos os ramos da Vida Boa e Abundante do Reino brota, floresce, frutifica. Todo mundo sabe – ou deveria – que o farisaísmo inflacionou a Torá, a Lei descrita no Pentateuco. Os mandamentos de Deus viraram centenas e centenas. Haja jurisprudência e moralismo religioso! Jesus, com sua capacidade de síntese incomum, mesmo se comparado ao gênio de Sócrates, por exemplo, responde , certo dia, a um jovem em crise espiritual : tudo o que você precisa ( ter ) é amor. A Deus, acima e antes de tudo. Ao próximo como a você mesmo. O amor é tudo. Ponto.
Hoje cedo, café pingado e pão na chapa numa mão, a Folha na outra li com interesse duas colunistas. A primeira, psicanalista, refletia sobre uma crise contemporânea. Com singular felicidade e lucidez de raciocínio Anna Veronica Mautner escreveu: " A oralidade, tenho a impressão, está em crise. Todos fazem de conta que têm o que dizer. O valor das pessoas associa-se mais ao quanto têm a dizer do que ao que têm a dizer (… ) não estou criticando esse vendaval de palavras desnecessárias(…) só quero chamar atenção para esse fenômeno. " Ou seja, a natureza dos talk shows, o recheio das séries, novelas e o caldo grosso do entretenimento da TV, sem falar no sucesso do twitter, vai tudo por aí: " Blá-blá-blá. Ouçam o que eu tenho a dizer ". O que dizemos sobre o amor? Quem dizemos amar? No mesmo jornal a psicóloga, Rosely Sayão denuncia o desaparecimento da infância: "as crianças na atualidade, quando querem brincar não podem e , quando podem, não querem ou nem sabem". Seu argumento algo assustador para um pai ocupado como eu afirma que "a aquisição exagerada de brinquedos colaborou para que a brincadeira ficasse em segundo plano." Pior que é. Tudo o que uma criança precisar é de amor. De mor que se traduza em brincadeira. Não de brinquedos e mais brinquedos, sua iniciação na doença do consumismo. Amar uma criança é permitir que ela seja criança.
Na graduação tive um professor de linguística que marcou minha formação intelectual. Pelo bem e pelo mal. Bem: era brihante, o senhor Alfredo Felipelli. Italiano, cultíssimo. Entendia mais de Saussure e do idioma latino do que os Beatles de hits parades e fama. Seduzia com a bela logicidade cartesiana das suas palestras, com o vigor do seu raciocínio extremamente bem fundamentado et cetera. Mal: fingia que não nos enxergava quando cruzávamos com ele nos corredores da faculdade de letras. Ignóbil é a erudição que nos imagina superiores aos vis mortais que não sabem citar Cícero de cor! Talvez a medida do nosso tão propalado, cantado, propagandeado, alardeado, rimado, pregado, amplificado, anabolizado, maximizado, e no entanto, esvaziado, diminuído, desvalorizado, desmerecido, ridicuralizado, problematizado, empobrecido e desqualificado amor tenha a ver com o modo como lidamos com as pessoas simples, a tal gente humilde, no dia-a-dia ordinário, no chão das coisas e não no mundo das idéias. " Nunca se está diante de alguém comum", dizia C.S.Lewis. Ser cristão é viver segundo o Espírito. O que faz o Espírito Santo em nós, no fundo e na prática da nossa vida cotidiana? A essa pergunta respondeu Thomas Merton, em "No man is an Island" : " Ele nos atrai para o mistério da encarnação e redenção pelo Verbo que se fez carne. Ele não apenas faz-nos compreender algo do amor de Deus manifestado em Cristo como também faz-nos viver mediante a experiência do amor em nosso coração". Resumidamente, é isso. Isso tudo. De fato, o Evangelho cabe numa canção: "tudo o que você precisa é amor". Eu também.
Gerson Borges (Via Cristianismo Criativo)