Por Hermes C. Fernandes
Nada pior do que fazer algo
contra a vontade. A coisa não flui como deveria. E, geralmente, os resultados
são um fiasco. Mas, por incrível que pareça, não foi assim com Jonas. Ele ainda cheirava a vômito de
peixe, quando entrou em Nínive, a capital do império assírio, anunciando que em
quarenta dias a cidade cairia, caso não se arrependesse de suas injustiças. Sua má vontade era tão nítida que duvido que
não falasse por entre os dentes para dificultar ainda mais o entendimento da mensagem.
Imagine a cena: um andarilho
fedorento, com um sotaque exótico, gritando feito um doido. É claro que não se
poderia esperar qualquer resultado positivo.
Tinha tudo para dar errado. Mas deu certo. Isso mesmo. Funcionou. A
população inteira parou para ouvir o que aquele profeta louco anunciava. Até o
rei se converteu e ainda baixou um decreto de que todos deveriam igualmente se
converter e expressar isso através do jejum. Nem as crianças e os animais foram
poupados disso.
Não há precedentes históricos
para o que ocorreu em Nínive. Nenhum outro profeta obteve êxito semelhante, nem
mesmo em Israel. Nem Elias que fizera descer fogo do céu tantas vezes foi capaz
de levar seu próprio povo ao arrependimento da maneira como Jonas em Nínive. Já
se cogitou que o seu retumbante sucesso se deveu justamente ao fato de ter sido
vomitado por um grande peixe, pois o deus venerado pelos ninivitas era Dagom
que tinha o formado de um peixe. Nem precisava que alguém o houvesse flagrado
quando fora expelido; o odor que exalava revelava sua procedência. Especulação
à parte, o fato é que Jonas tinha muito o que comemorar.
Surpreendentemente, sua reação foi
oposta à esperada. Ele mergulhou num processo de depressão profunda. Chegou ao
ponto de pedir a morte a Deus.
- Eu sabia que o Senhor tinha coração mole! Como fica agora a minha reputação? Eu disse que o Senhor destruiria a cidade. E o que o Senhor faz? Converte o coração desta gente nojenta. Quer saber? Por isso que quando me enviou para cá, eu fugi para Társis.
Calma aí... Não foi ele que
clamou por misericórdia de dentro do ventre do grande peixe? Ele não disse que
estava arrependido? Que estória é esta agora? Então, aquele arrependimento foi
fajuto?
Tenho a impressão de que muita
gente precisa se arrepender de seus arrependimentos fajutos. A pessoa chora,
confessa seus erros, pede perdão, mas no fundo, fica esperando a oportunidade
para reverter o jogo e alegar que tinha mesmo razão. Ao clamar a Deus, Jonas só
queria salvar sua pele. Não estava nem um pouco preocupado com o destino daquele
povo, nem com o cumprimento de sua missão. Bem diferente de Paulo que declarou
não ter sua vida por preciosa, contanto que cumprisse o ministério que lhe fora
confiado.
Como pôde obter tamanho sucesso
com um coração tão egoísta?
A Palavra tem vida em si mesma!
Por isso, independe da condição do portador. Em Isaías lemos que a Palavra de
Deus não volta vazia, mas faz aquilo para o qual é enviada. Mesmo que alguns a
preguem com motivações nada louváveis, como bem advertiu Paulo, ela segue
produzindo transformação por onde quer que seja anunciada. Se a anunciamos de
boa vontade, diz o apóstolo, temos recompensa. Se não, apenas cumprimos nossa
obrigação.
Quão complexo e imprevisível é o
ser humano. Como explicar a inusitada reação de Jonas ao êxito obtido em
Nínive? Ele chega a acampar próximo dos muros da cidade, esperando que Deus
reconsiderasse a decisão e a destruísse.
De repente, brota do chão uma
aboboreira diferente de tudo o que Jonas já havia visto. Em vez de rasteira,
aquele pé de abóbora cresce verticalmente para proporcionar sombra para o
profeta. Como o sol estava de rachar,
era de se esperar que ao menos fosse grato a Deus pela provisão. Mas ele estava
com a mente ocupada demais para demonstrar gratidão. Tudo o que queria era
assistir de camarote à destruição dos ninivitas.
Na manhã seguinte, enquanto ainda
dormia protegido pela sombra da aboboreira, Deus enviou um bicho para
devorá-la. Quando o sol bateu em sua
fronte, Jonas acordou praguejando tudo o que via à sua volta e mais uma vez fez
uma oração suicida.
Deus, então, dirige-se ao profeta
reclamão e diz:
- Jonas, você acha mesmo que deveria se lamentar pela aboboreira que você não plantou, que nasceu num dia e morreu no outro, enquanto eu não deveria me compadecer de milhares de ninivitas que mal sabem distinguir entre uma mão e outra?
Xeque-mate.
E assim termina o livro de Jonas,
com uma pergunta que calou o profeta.
Quantas vezes Deus terá que
permitir que soframos algum prejuízo material para que percebamos o que
realmente tem valor em nossa vida? Até quando daremos mais valor às coisas do que às pessoas, à nossa própria vida do que à missão que nos foi confiada?
O que confere sentido à existência não é o êxito material, mas o sucesso no cumprimento do propósito. Tudo que, por ventura, amealharmos, poderá se perder de uma hora para outra. Não temos controle sobre isso. O que hoje é novinho em folha, amanhã será descartado. Mas o cumprimento de um propósito fica registrado nos anais celestiais. Como diz em Apocalipse, nossas obras nos acompanharão.
Peço ao Senhor que nos cale, não com suas respostas, mas com perguntas que não ousemos responder. Perguntas que jamais se calarão.
* Para melhor compreensão desta reflexão, sugiro a leitura da reflexão anterior.
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