quinta-feira, junho 06, 2013

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Saudade de sentir saudade



Por Hermes C. Fernandes

Este post não tem nada de apologético ou mesmo teológico. Por isso, não se dê o trabalho de lê-lo caso esteja procurando por isso. Quero apenas expor o que sinto agora quando se completam dois anos que voltei dos Estados Unidos.

Ao todo, isto é, nas duas vezes em que morei lá, foram três anos e meio. Isso é menos que o dízimo do meu tempo de vida. Mas devo confessar o quanto sinto falta de algumas coisas que vivi nas terras do Tio Sam.

Saudade de sair com a minha esposa aos sábados pela manhã para as chamadas "garage sale" (vendas de garagem), onde compramos parte da mobília de nossa casa, além de muitas bugigangas. Gostava de ver o sorriso no rosto de Tânia. Passávamos mais de três horas perambulando pelas ruas de Lake Mary atrás de boas pechinchas. Era divertidíssimo. As crianças se recusam a ir conosco por duas razões: primeiro, estavam cansadas de acordarem cedo durante toda a semana para estudar. Segundo, temiam encontrar algum colega de classe.

Saudade de levar meu filho Rhuan para treinar futebol em Sanford, cidade vizinha à nossa. Enquanto ele treinava, eu saía caminhando e orando pelas ruas adjacentes. Foram momentos inesquecíveis que vivi em comunhão intensa com Deus. Gostava de vê-lo jogar e fiquei muito orgulhoso quando o seu time venceu o torneio estadual. No último jogo, eu e Tânia assistimos sentados nas arquibancadas, protegidos por um cobertor. Fazia menos de zero grau. Rhuan jogava de toca e luva.

Saudade de levar minha filha Revelyn para o curso de modelagem. Vê-la desfilar na passarela nos enchia de orgulho. Nossa filha estava se tornando numa linda mulher. Na volta do curso que acontecia sempre aos sábados, eu passava num restaurante grego para comprar o melhor frango assado que já comemos. Saudade de assistir nossa filha em peças teatrais do High School.

Saudade de acordar às cinco da manhã para pregar ao vivo para o Brasil pelo Skype, graças à diferença de fuso horário. Meus filhos e minha esposa se vestiam como se fossem sair para a igreja, só para aparecerem no vídeo. Às vezes ficavam descalços. Eu fazia questão de me vestir por inteiro, com direito a sapato e meia. Depois voltávamos a dormir e quando dava meio dia, saíamos para almoçar em algum restaurante brasileiro a quarenta quilômetros de nossa casa em Orlando. Geralmente comíamos no Vitorio's ou num restaurante pequenininho de um irmão em Cristo chamado Luís. Comer comida brasileira era como estar no céu.

Saudade do cheiro da casa do Bill e da Lisa, meus pais americanos. Ninguém faz um churrasco como o "tio" Bill. E o dia de ação de graça? Lisa se preocupou em explicar o significado da celebração com detalhes. Sempre me senti em casa lá.

Saudade de Gene e Brenda que generosamente nos hospedou em nosso primeiro mês de estada naquele país. A confiança que tinham em nós chegava a ser constrangedora a ponto de entregar a chave de sua casa aos nossos cuidados, mesmo depois de termos alugado nossa própria casa.

Saudade do David, nosso senhorio. Um homem raro. Quando havia qualquer coisa errada no imóvel, como por exemplo, a pia da cozinha entupia, ele vinha pessoalmente, descia de sua cadeira de rodas (era paraplégico) e metia pro baixo da pia e a desentupia. Sempre sorridente, gentil. Alugou-nos a casa sem pedir garantia alguma depois que viu nossa filha Rayane estender-se em seu carpete e espreguiçar-se.

Saudade do Reverendo Jonathas Moreira, um santo homem de Deus, cujo exemplo ainda me motiva. Aos 82 anos viajava frequentemente para a região amazônica para levar conforto e ajuda à população ribeirinha.

Saudade da Rosie e do Tony, esse casal que tantas alegrias nos proporcionou. Saudade do Pedro Rivera e sua família querida. Saudade do Rev. Wesley Porto e o povo da New Hope, dos pastores Fernando e Sylvia e do povo da Seara, e todos os pastores da região que nos acolheram com tanto amor. Saudade do Pastor Junior que nos ajudou com o processo do visto. Saudade da pastora Rita que preside o conselho de pastores local.

Saudade da Nara e do Claudio, da Margareth, minha professora de Direito e de sua mamãe. Como era bom quando viajávamos de carro por horas só para ver estas famílias tão queridas.

Saudade do Chilli's, do Boston Market, do Wendy's, do Chick-fil-A, do Taco Bell, do Publix, da Target, e até do Wal Mart! rs

Saudade de caminhar no shopping de Orlando e ver o brilho nos olhos de nossa filha Rayane quando comprávamos sorvete de iogurte ou quando comíamos rolls no Cinnabon. Saudade da alegria que tínhamos quando encontrávamos pessoas que falavam português.

Saudade da nossa mudança que saiu de lá no mesmo dia em que embarcamos para o Brasil e até agora, graças à burocracia brasileira, ainda está presa no porto de Paranaguá.

Saudade de sentir saudade do Brasil.

Como já disse muitas vezes à minha família: estamos condenados a viver com o coração partido. Quando estávamos lá, morríamos de saudade de cá, e quando estamos aqui, sentimos saudade de lá. Fazer o quê?

2 comentários:

  1. Desculpe-me caro irmão, esse seu texto esta recheado do evangelho de Cristo, a saber, amor ao teu próximo, pois é só o amor que deixa a saudade no nosso coração, perdoe-me a pretensão deste comentário.
    Deus te abençoe e permita que o irmão possa acumular saudades como essas.
    Abraços
    Guaracy I.Martins

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  2. Anônimo10:08 AM

    Aproveite este momento de inspiração nostálgica e leia ORTODOXIA. G.K. CHESTERTON Ed. MC São Paulo.
    O amor de Cristo é ilógico. O Cristo que é cordeiro é também leão da tribo de Judá.

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