domingo, outubro 28, 2007

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A Diferença entre Reconciliação e Salvação

A Reconciliação é o que possibilita a Salvação. Deus salva àqueles com quem Ele foi reconciliado. A Salvação é o bem que a cruz proporcionou aos homens; a Propiciação é o bem que a Cruz proporcionou a Deus, satisfazendo a Sua justiça, enquanto que a Reconciliação é o bem que a Cruz proporcionou entre Deus e a Sua Criação como um todo. A Salvação é unilateral, sendo obra de Deus para os homens. A Reconciliação é bilateral, sendo obra de Deus que abrange tanto Ele quanto a Sua Criação, começando pelos homens.

De acordo com Paulo, a Reconciliação é um fato já consumado pela morte do Filho de Deus.

“Pois se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando JÁ RECONCILIADOS, seremos salvos pela sua vida” (Romanos 5:10).

Somos reconciliados pela Sua morte, e salvos pela Sua vida. Mas só somos salvos pela Vida de Cristo, por termos sido reconciliados por Sua Morte.

Em quê consiste a Reconciliação?

“Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens os seus pecados” (2 Co.5:19).

O substantivo grego traduzido em português para “reconciliação” é katallage, que era comumente usado para referir-se à prática do câmbio de moedas.

O verbo katallaso (reconciliar) significa “trocar por valor equivalente”.

E o que houve na Cruz? Uma troca. Alguém tomou nosso lugar: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co. 5:21). Cristo tomou nosso lugar, oferecendo-Se para morrer por nossos pecados. Foi esse câmbio que tornou possível uma reconciliação entre Deus e a humanidade. Ele é a base sobre a qual está sustentada a paz entre o Criador e as criaturas.

Uma das exigências de Roma para que uma cidade conquistada desfrutasse da chamada Pax Romana (paz romana, em português), era que essa adotasse sua moeda. Ainda que a moeda daquela cidade continuasse a ser usada para fins internos, religiosos, ela não poderia ser usada para o pagamento de impostos a Roma, ou em transações comerciais com outras cidades do Império. Por isso, onde o Império Romano chegava, lá chegavam as casas de câmbio. Era sobre bases comerciais que era estabelecida a Pax Romana. Se a cidade não aderisse a esta Paz, ela seria sitiada pelas legiões romanas, e depois tomada e destruída, como aconteceu com Jerusalém no ano 70 d.C. sob Vespasiano.

Os judeus, por exemplo, tinham liberdade para usarem sua própria moeda com fins religiosos, uma vez que moedas com imagens de césares, com inscrições que lhes atribuíam poderes divinos, eram consideradas impróprias para esse propósito.

Foi neste contexto que Jesus expulsou os cambistas do Templo. Eles se aproveitavam da condescendência do Império, para obterem enormes lucros com o câmbio. Jesus não aturou testemunhar sua desonestidade.

Paulo escolheu usar a palavra katallage, porque sabia a carga que ela trazia. Qualquer morador dos territórios dominados por Roma, perceberia o conceito que Paulo desejava transmitir.

Um Novo Império estava surgindo no Mundo, e haveria a necessidade de que houvesse uma troca, um câmbio de moedas. A moeda corrente perdera seu valor, e teria que ser substituída por uma nova moeda.

No Mundo da Velha Aliança, a relação entre Deus e os homens se dava através dos sacrifícios levíticos. Era uma “moeda” cujo valor se defasava sucessivamente pela fúria inflacionária do pecado. Ano após ano, os sacrifícios deveriam ser renovados. E a dívida nunca era saldada. Pelo contrário, só fazia aumentar.

Na verdade, a dívida apenas rolava e aumentava. Era como se novas promissórias substituissem as anteriores.

Mas com a oferta definitiva feita por Cristo, houve um câmbio radical. Os novilhos foram substituído pelo Cordeiro. A justiça humana foi substituída pela Justiça Divina. Nossas boas obras saíram de circulação, para dar lugar a uma “moeda” de valor insuperável: a Obra de Cristo.

As promissórias que constavam contra nós foram rasgadas e fincadas na Cruz. Nosso débito foi totalmente pago.

A partir daí, nossa justiça própria já não possui qualquer valor. É moeda fora de circulação. Passamos a nos estribar na Justiça de Cristo.

Estabeleceu-se em todo o Universo a Pax Christiana. E esta paz esta Essa é a moeda em circulação dentro dos territórios pertencentes ao Império de Cristo.alicerçada na Justiça de Cristo, e não naquela que de acordo com as Escrituras, não passa de trapos de imundícia.

Quando uma moeda entre em um processo inflacionário, o banco central do país se vê diante de um dilema. Ele pode aumentar os juros, e assim, inibir o gasto da população. Se as pessoas segurarem seus recursos, com medo dos juros, isso fará com que os preços despenquem. Quem acaba pagando o pato é a população. E enquanto isso, o governo continua gastando, emitindo moeda para pagar sua dívida externa.

Quando uma moeda passa por uma desvalorização grande, geralmente, o banco central emite novas cédulas, onde alguns zeros são cortados. Assim, mil cruzeiros novos se tornam 1 real. É como uma ilusão de ótica, pra dar a impressão que a moeda valorizou-se da noite pro dia.

Desde Adão, a raça humana contraiu uma dívida com o Criador. A cada nova geração, a dívida foi tomando proporções cada vez maiores. Se desde o início já era uma dívida impagável, quanto mais depois de tantas gerações de seres humanos rebeldes para com Seu Criador.

A religião tornou-se como um banco central. A Lei, através da exigência de sacrifícios contínuos e das sanções decorrentes da quebra de seus mandamentos, fez aumentar os juros, pra que o pecado fosse inibido. Mas se inibiu por um lado, por outro, só fez instigar o homem a pecar. Foi como catucar a onça com vara curta. O problema não era a Lei, mas a natureza humana caída.

A cada sacrifício oferecido, era como se mil cruzeiros novos se tornassem um real. Dava ao homem a sensação de que uma dívida enorme de 1 milhão, passara a ser de apenas mil reais. Os sacrifícios amenizavam a culpa que assolava a consciência dos homens, mas não pagava sua dívida.

Porém, Cristo resolveu de vez este impasse. Seu sacrifício tirou de circulação todos os demais. De sorte que o escritor sagrado pode dizer: “Já não resta mais sacrifícios pelos pecados” (Hb.10:26b).

Com suas proibições e ordenanças, a Lei ofereceu ao homem o material com o qual ele poderia improvisar uma espécie de trapo de imundície. Era uma maneira de tentar conter o fluxo do pecado. Esse material é a nossa justiça própria. Trapo de imundície era o nome dado ao pano usado pelas mulheres hebreias para conter o fluxo menstrual. De tempo em tempo, precisava ser trocado, como um absorvente moderno, pois estava encharcado de sangue. Assim, nossas boas obras são encharcadas pelo nosso orgulho, retrato de nossa condição pecaminosa.

Portanto, a Lei proveu um paliativo para a situação humana, mas somente a Graça revelada na Cruz foi capaz de prover uma solução definitiva.

sexta-feira, outubro 26, 2007

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De quê é feito o Mundo?


Ganância, o mundo é feito de ganância
Lucrar é sempre a nossa ânsia
Quem se dispõe a perder?

Vantagens, todos só querem vantagens
Vende-se a alma, faz-se chantagens
Quem abre mão do poder?

Quem daria a outra face
àquele que o agredisse
Mesmo que isso lhe custasse
um atestado de idiotice?
Quem daria sua capa
ao que lhe tomasse a túnica
abrindo mão de alguma coisa
ainda que fosse a única?
E a segunda milha
quem deseja caminhar?
Mesmo sendo uma armadilha
que esteja a lhe esperar?

Esperança, Seu Reino é feito de Esperança
E quem não for como criança
não pode nele entrar

quarta-feira, outubro 17, 2007

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O Propósito da Igreja no Mundo

O que é que estamos fazendo aqui, afinal? Por que razão Deus tem mantido Sua igreja no mundo? Será este um lugar de provação? Será uma espécie de teste seletivo? Acredito que não. Este é um lugar de crescimento. Afirmar que Deus nos enviou a este mundo simplesmente para sofrermos, é o mesmo que afirmar que Ele é um deus sádico. Definitivamente, não! Ele não nos enviou aqui para sofrer, embora o sofrimento seja eventualmente inevitável. Ele não nos enviou para nos testar, pois já conhece nosso coração melhor do que ninguém. Então, por quê? Isaías nos dá a resposta:

“Eles se chamarão árvores de justiça, plantação do Senhor, para que ele seja glorificado (...) Porque, como a terra produz os seus renovos, e como o jardim faz brotar o que nele se semeia, assim o Senhor Deus fará brotar a retidão e o louvor perante todas as nações”. Isaías 61:3b, 11.

A Igreja foi plantada no mundo para ser o modelo, o protótipo de uma nova humanidade. Por isso se diz que “as nações andarão à sua luz” (Is.60:3a). E isso redundará em glória para Deus.

Assim como o Éden original era a sede da criação, a Igreja de Cristo é a sede da nova criação. Somos o Novo Éden, o Jardim de Deus.

As Escrituras afirmam que havia duas árvores no centro do Jardim: a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, e a Árvore da Vida. A primeira tipifica a humanidade caída e alienada de Deus, que através de Adão desenvolveu toda uma potencialidade para o mal. A segunda tipifica a Nova Humanidade, recriada em Cristo, o segundo Adão.

Na Cruz, a Árvore da Vida foi sacrificada na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Ali estava figurada a escolha humana. Entretanto, os desígnios de Deus estavam por trás dessa escolha. Agora, através do Cristo Ressurrecto, temos acesso à Árvore da Vida, da qual Adão foi proibido de comer por causa de sua desobediência.

Cristo é a Árvore da Vida. E nós, Sua Igreja, fomos enxertados n’Ele, para que participássemos da seiva da vida divina, e assim, déssemos frutos para Deus.

A árvore com sua raiz, seu tronco, suas folhas, suas flores e seus frutos é uma representação dos cinco propósitos estabelecidos por Deus para a igreja no mundo.

O homem jamais vai corresponder às expectativas do Criador, se não for por intermédio de Jesus. Fora de Cristo, o homem não passa de um tronco da velha árvore, Adão, que está condenada a ser lançada no fogo, por ser incapaz de produzir os frutos exigidos pela justiça divina.

Ao sermos enxertados na Videira Verdadeira, a Árvore da Vida, encontramos os cinco propósitos essenciais para a vida.


1. O Propósito da Comunhão – Deus nos fez seres necessitados de se completar n’Ele e em nossos semelhantes. Para isso, Ele nos concedeu a habilidade de nos comunicar. João escreve: “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para também tenhais comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo. Estas coisas vos escrevemos, para que a nossa alegria seja completa” (1 Jo.1:3-4). Trata-se de uma necessidade imperiosa do ser humano. Temos a necessidade de dar e receber, de falar e ouvir, de amar e ser amado. O propósito da comunhão é representado pela raiz da árvore. É através da raiz que árvore recebe todos os nutrientes de que necessita pra sobreviver e crescer. Assim também, o cristão precisa estar bem plantado em solo fértil, que é a igreja local, a fim de que, pela comunhão com Deus e com os irmãos, possa se alimentar, e crescer espiritual e emocionalmente. Como diz o salmista, uma vez “plantados na casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice ainda darão frutos, serão viçosos e florescentes” (Sl.92:13-14). Ao fixar suas raízes em uma igreja, o cristão se torna “como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria, e cujas folhas não caem. Tudo o que fizer prosperará” (Sl.1:3). Os ribeiros de águas tipificam o Espírito Santo, que é quem possibilita nossa comunhão com Deus e com os irmãos. Além de garantir alimento para a árvore, são as raízes que lhe garantem estabilidade. Esta é uma diferença básica entre quem serve a Deus, e quem não O serve. “Os ímpios não são assim, mas são como a moinha que o vento espalha” (v.4). É na comunhão com Deus e com os irmãos que encontramos propósito para a vida. Ali, no ambiente congregacional, temos a oportunidade de servir, e sermos ministrados. Ali encontramos estabilidade, mesmo no tempo da angústia. Quanto mais a árvore lança suas raízes solo abaixo, mais estável e robusta se torna. Devemos, portanto, buscar aprofundar nossa comunhão, e para isso, devemos gastar tempo estreitando nossa amizade com os irmãos, e, principalmente, nos dedicando à oração e à adoração.


2. O Propósito do Discipulado – É representado pelo tronco da árvore. É através dele que a árvore distribui para seus ramos todos os nutrientes que recebeu do solo através da raiz. Além de sustentar e suportar todo o peso da árvore, com sua copa, seus ramos, folhas e frutos. Por isso, precisa ser robusto, forte, para que não se envergue com o vento. É através do discipulado que os nutrientes absorvidos na comunhão são traduzidos em princípios que passam a reger a vida do cristão. Ele nos provê firmeza de caráter, e inflexibilidade, para não transigirmos com os princípios eternos da Palavra de Deus. Se o tronco estiver comprometido, com cupim ou qualquer outra praga, os ramos não produzirão frutos. A saúde da árvore passa pelo tronco.


3. O Propósito do Ministério (RESTAURAÇÃO) – É representado pela folha. De acordo com Ezequiel 47:12, as folhas servem de remédio, e Ap.22;2 diz que servem para a cura das nações. Ministério significa serviço. A igreja foi plantada no mundo para servir. Isaías profetiza acerca da igreja: “Reedificarão as ruínas antigas, e restaurarão os lugares há muito devastados; renovarão as cidades arruinadas, devastadas de geração em geração (...) E vós sereis chamados sacerdotes do Senhor, e vos chamarão ministros de nosso Deus” (Is.61:4,6). A maioria de nós pensa que ministrar é algo que devemos fazer dentro do círculo da igreja. Mas não é verdade. Devemos ministrar ao mundo. Nossas folhas visam restaurar as nações. Nós temos o remédio de que o mundo tanto necessita para ser sarado. Por isso se diz: “E as folhas da árvore são para a cura das nações” (Ap. 22:2). E mais: “Não cairá a sua folha, nem perecerá o seu fruto. Nos seus meses produzirá novos frutos, porque as suas águas saem do santuário. O seu fruto servirá de alimento e a sua folha de remédio” (Ezequiel 47:12b). Desde a Antigüidade, os homens usam as folhas das árvores para fazerem chás, remédios. Além do mais, a principal função da folha é absorver a luz solar para realizar a chamada fotossíntese. Através deste processo, as folhas absorvem o gás carbônico, e o devolvem à atmosfera como oxigênio. Sem as árvores, a vida no planeta já teria sido extinta. Os homens não são capazes de viverem por si mesmos. Eles consomem o oxigênio, e o transformam em gás carbônico. É papel da igreja oxigenar o mundo. Nós somos os pulmões espirituais do mundo. Devemos absorver o ódio, e transformá-lo em amor. E isso fazemos quando pagamos o mal com o bem. Como recomendou Paulo: “A ninguém torneis mal por mal. Procurai as coisas honestas perante todos os homens (...) Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber (...) Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm.12:17,20a,21). É quando nos dispomos a servir, a ministrar o amor de Deus até mesmo aos nossos inimigos, que damos testemunho do poder e do alcance do Evangelho. Uma vez que as folhas da árvore servem para a cura das nações, o testemunho e o ministério da Igreja de Cristo têm como propósito a restauração da sociedade.


4. O Propósito do Evangelismo – É representado pela flor. Engana-se quem pensa que a flor é apenas um elemento estético da árvore. Muito mais do que beleza e perfume, a flor é a estrutura responsável pela reprodução da árvore. É através do Evangelismo que os crentes espalham a fragrância de Cristo pelo mundo, e atrai a atenção dos incrédulos pela beleza do caráter de Cristo manifesto pelo seu testemunho. A flor antecede o fruto. O Evangelismo antecede a geração de novas almas para o Reino de Deus. Sem Evangelismo, não haverá produção de almas. Uma árvore sem flor, é uma árvore sem fruto. Assim como o néctar da flor atrai as abelhas e beija-flores, a doce unção de Cristo no crente atrai as almas aos pés do Senhor.


5. O Propósito da Adoração – Eis o fruto! O que é que Jesus buscou na figueira e não encontrou? Frutos. E o que é que Deus busca no mundo? Os verdadeiros adoradores, que O adorem em espírito e em verdade. A adoração é o objetivo principal. Todas as demais coisas são apenas meios pra se chegar a ela. A salvação de almas nada mais é do que o  meio pelo qual a igreja recruta novos adoradores para o Pai. O Pai não procura freqüentadores, mas adoradores. O amor é uma via de mão dupla entre Deus e os homens. O amor de Deus para com os homens se chama compaixão. O amor dos homens para como Deus se chama adoração. Ela é a resposta do homem ao amor do Pai. “Portanto” conclui o escritor sagrado, “ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hb.13:15).

quarta-feira, outubro 03, 2007

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A Cruz: início de toda a existência

“...mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o que, na verdade, foi conhecido ainda antes da fundação do mundo, mas manifesto nestes últimos tempos por amor de vós” (1 Pe.1:19-20).

“...cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Ap.13:8b).

Eis duas passagens enigmáticas das Escrituras cristãs. Como entender que o Cordeiro, que é Cristo, foi morto antes da fundação do mundo? Afinal, Sua morte foi um fato histórico ou meta-histórico? Teria havido Cruz, antes mesmo que houvesse luz?

Há duas passagens em Apocalipse que parecem lançar uma nova luz sobre tais questões:

“Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-poderoso” (Ap.1:8).

Nesta primeira passagem, Jesus Se apresenta a João como a primeira e a última letra do alfabeto grego. Ele é o princípio e o fim. Se entrássemos numa máquina do tempo, e retrocedêssemos até o momento inicial do tempo, lá O encontraríamos. Se avançássemos até o momento derradeiro, lá O encontraríamos também. Toda a História está contida n’Ele. Todo o Tempo está contido n’Aquele que é o Pai da Eternidade. A própria existência está inserida n’Ele. Como disse Paulo em seu famoso discurso aos atenienses: “Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At.17:28). Nada há fora d’Ele. “Pois nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele (...) Pois foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus” (Cl.1:16-17,19). Trata-se da plenitude da criação habitando em Cristo. Céu e terra convergiram-se e estão contidos n’Ele. Não há movimento fora d’Ele. Não há existência à parte de Cristo. E não só a plenitude da criação está contida n’Ele, como também “nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl.2:9). Portanto, não há Deus fora de Cristo. A Divindade inteira está n’Ele. Tempo, espaço e eternidade co-existem em Cristo. Criação e Criador se encontram n’Ele.

Ele é o habitat da Divindade e da Criação como um todo. Ele é o point cósmico, onde tudo o que existe converge.

A segunda passagem que queremos considerar é o capítulo 5 de Apocalipse: “Vi na mão direita do que estava no trono um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos” (v.1).

Que livro era aquele? Por que estava lacrado? Por que era escrito por dentro e por fora? Aquele era o livro da existência. Nele estava contida toda a História da Criação, todo o propósito de Deus para Sua obra. Ali estava o projeto de Deus, pronto para ser desencadeado. Naquele rolo estava escrito a História do Cosmos, desde o momento singular, até o seu desfecho. Criação, Queda, Redenção, Restauração e Juízo, tudo estava ali.

Davi anteviu isso profeticamente, quando declarou: “Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim; elevado demais para que possa atingir (...) Todos os dias que foram ordenados para mim, no teu livro foram escritos quando nenhum deles havia ainda. Quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão vasta é a soma deles!” (Sl.139:6,16b-17). Tudo está ali. A História de cada vida, de cada família, de cada nação. É claro que esse livro não deve ser entendido literalmente. Ele representa a vasta soma dos pensamentos de Deus relativos à Sua Obra. Paulo ficou igualmente estupefato diante desta realidade: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que seja recompensado? Porque dele e por ele e para ele são todas as coisas. Glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Rm.11:33-36).

O fato do livro estar selado aponta para a inescrutabilidade dos decretos divinos. Estar escrito por dentro e por fora indica que o propósito de Deus abarca a criação como um todo, tanto a visível quanto a invisível, a material e a espiritual. Nenhuma dimensão da existência está fora do escopo do projeto de Deus. João prossegue em seu relato: “Vi também um anjo forte, bradando com grande voz: Quem é digno de abrir o livro, e de lhe romper os selos? E ninguém no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, podia abrir o livro, nem olhar para ele. E eu chorava muito, porque ninguém fora achado digno de abrir o livro, nem de o ler, nem de olhar para ele” (vv.2-4). Não havia ninguém capaz de dar o ponta-pé inicial, o start para que o projeto de Deus fosse deflagrado. Pra que a trama começasse e fosse bem sucedida, alguém teria que romper os selos, os lacres do misterioso livro. Mas teria que ser alguém digno disso. João se desespera enquanto assiste apreensivo. “Todavia um dos anciãos me disse: Não chores! Olha, o Leão da Tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos” (v.5). Alguém que emerge de dentro daquele pergaminho, o personagem principal da trama, surge no cenário, como aquele que venceu para abrir o livro. Esse personagem é apresentado como que se identificando com duas etapas distintas da História, mas que estão intimamente conectadas. Ele é o Leão da Tribo de Judá, e o Descendete prometido por Deus a Davi, para ocupar seu trono. Ele também é a semente da mulher, o Descendente de Abraão, o Messias de Israel, o Cristo de Deus.
Ele existe dentre e fora da História. N’Ele se conecta o cronos e o kairós, o tempo e a eternidade.

“Então vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes, e entre os anciãos, em pé, um Cordeiro, como havendo sido morto, e tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados por toda a terra. E veio e tomou o livro da mão direita do que estava assentado no trono” (vv.6-7).

Cristo surge como o centro de tudo. Ele está no meio do trono. Tudo orbita em torno d’Ele. O Cordeiro visto por João se apresentava “como havendo sido morto”. Portanto, trata-se do Cristo Crucificado, aquele de quem Paulo diz: “Pois nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co.2:2). O sacrifício de Cristo foi o detonador da História. A História não começa com a criação de todas as coisas, e sim com o sacrifício do Criador. O Cosmos surge a partir da Cruz. Os sete chifres do Cordeiro representam Sua Onipotência, enquanto Seus sete olhos representam Sua Onisciência e Onipresença. Portanto, o Cordeiro é o próprio Deus, pois compartilha de todos os atributos incomunicáveis da Divindade.

João prossegue: “Logo que tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo todos eles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos” (v.8). Ora, como poderiam ser as orações dos santos, se tudo isso ocorre antes da abertura do livro, e portanto, antes da fundação do mundo? Mais uma vez Davi nos responde: “Sem que haja uma palavra na minha língua, ó Senhor, tudo conheces” (Sl.139:4). Sua Presciência permite que todas as orações dos santos estejam diante d’Ele, mesmo antes de terem sido feitas. Todos os ingredientes estavam postos diante do Trono. Louvores, orações, e acima de tudo, Alguém digno de abrir o livro, e iniciar o processo histórico, que culminaria com a glória de Deus revelada à Criação.

Imagine um livro em forma de um rolo de pergaminho. Ele não tem páginas, como os livros de hoje. Trata-se de uma grande tira de pergaminho, enrolada pelas duas pontas. Quando seus selos são rompidos, ele começa a desenrolar-se por igual. O lado esquerdo pode representar as coisas passadas, e o lado direito as futuras. A Cruz entra no meio, e faz com que o rolo se abra para os dois lados. Tudo acontece na Cruz, com a morte do Cordeiro. A História começa na Cruz, mas já surge contendo um passado e um futuro. No Kairós, a Cruz é o ponto inicial. Mas no Cronos, a Cruz ocorre na plenitude dos tempos.

Deus cria o mundo a partir da Cruz. Mas o cria já com um passado e um futuro. Ainda que os cientistas tenham razão em dizer que o Universo tem 15 bilhões de anos, aos olhos de Deus, esse universo veio a existência a partir da Cruz, como que instantaneamente.

Ali o rolo se abriu, pra esquerda e pra direita. Nada existia antes da Cruz, pelo menos, não da perspectiva divina. Há quem defenda a hipótese de que Deus possa ter criado as coisas com aparência de certa idade. Mas tudo não passaria de “aparência”. Portanto, a Terra “aparenta” ter 4,5 bilhões anos, mas seria, de fato, muito mais jovem (aproximadamente 6 mil anos). Os que defendem tal hipótese, argumentam que Adão fora criado já adulto. Quem quer que o encontrasse, lhe conferiria certa idade, ainda que ele houvesse sido criado um dia antes. Pode parecer um argumento plausível, pelo menos do ponto de vista teológico. Entretanto, não me parece ser este o modus operandi de Deus.

Por que Jesus não surgiu no mundo já em idade adulta? Por que Ele teve que ser gerado no ventre de uma mulher, e experimentado cada etapa do desenvolvimento humano? Se esse fosse o modus operandi de Deus, haveríamos de esperar que o mesmo se sucedesse com o advento de Jesus. Em vez de acreditar que Deus criou um Universo aparentemente velho, prefiro acreditar que Deus criou um Universo já com uma História pregressa, e um futuro glorioso. Não creio que Deus faria alguma coisa com a intenção de criar um ilusão de ótica.

Portanto, concluímos que a Cruz é o início de tudo. Nada existia antes dela! Sem que o Cordeiro fosse morte antes da fundação do mundo, não haveria nada que cobrisse a nudez do primeiro casal. Nossa culpa foi expiada mesmo antes que houvéssemos pecado.


Aleluia! Christus Victor!