terça-feira, janeiro 23, 2007

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Por trás do som - Hermes C. Fernandes


Por trás do tom de cada acorde
Minha intenção é de louvar
Se há canção que me recorde
O que Deus fez eu vou cantar

Canções que falem do amor
Que Deus tem pela criação
Quão alto e profundo é
O amor que opera pela fé

Por trás do som de cada canto
Posso ouvir o seu pulsar
Se no perigo eu me espanto
No Seu amor vou descansar

Razões encontro no Amor
Que Deus tem pela criação
Quão alto e profundo é
O amor que opera pela fé

Até meu último suspiro
Sei quem comando meu destino
Até o meu Senhor voltar
Ou me chamar de volta ao lar

Descansarei no grande Amor
Que Deus tem pela criação
Quão largo e extenso é
O amor que opera pela fé

Nenhum poder será capaz
De arrebatar-me de Sua mão
O meu passado ficou pra trás
Não resta mais acusação

Me atrevo a crer no amanhã
futuro há pra criação
Quão largo e extenso é
O amor que opera pela fé

sábado, janeiro 20, 2007

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A impossibilidade de se viver debaixo da Lei

Eis uma carta enviada por um ouvinte a uma apresentadora de um programa evangélico, que insiste em que as pessoas vivam debaixo da Lei.

"Cara Dra. Laura: Obrigado por ter feito tanto para educar as pessoas no que diz respeito à Lei de Deus. Eu tenho aprendido muito com seu show, e tento compartilhar o conhecimento com tantas pessoas quantas posso...

Mas eu preciso de sua ajuda, entretanto, no que diz respeito a algumas leis específicas e como seguí-las:

a) Quando eu queimo um touro no altar como sacrifício, eu sei que isso cria um odor agradável para o Senhor (Levíticos 1:9). O problema são os meus vizinhos. Eles reclamam que o odor não é agradável para eles. Devo matá-los por heresia ?

b) Eu gostaria de vender minha filha como escrava, como é permitido em Êxodo 21:7. Na época atual, qual você acha que seria um preço justo por ela ?

c) Eu sei que não é permitido ter contato com uma mulher enquanto ela está em seu período de impureza menstrual (Levíticos 15:19-24). O problema é: como eu digo isso a ela ? Eu tenho tentado, mas a maioria das mulheres toma isso como ofensa.

d) Levíticos 25:44 afirma que eu posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, se eles forem comprados de nações vizinhas. Um amigo meu diz que isso se aplica a mexicanos, mas não a canadenses. Você pode esclarecer isso ? Por que eu não posso possuir canadenses?

e) Eu tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados. Êxodo 35:2 claramente afirma que ele deve ser morto. Eu sou moralmente obrigado a matá-lo eu mesmo?

f) Um amigo meu acha que comer moluscos seja uma abominação (Levíticos 11:10). Você pode esclarecer esse ponto ?

g) Levíticos 21:20 afirma que eu não posso me aproximar do altar de Deus se eu tiver algum defeito na visão. Eu admito que uso óculos para ler. A minha visão tem mesmo que ser 100%, ou pode-se dar um jeitinho?

h) A maioria dos meus amigos homens apara a barba, inclusive o cabelo das têmporas, mesmo que isso seja expressamente proibido em Levíticos 19:27. Como eles devem morrer ?

i) Eu sei que tocar a pele de um porco morto me faz impuro (Levíticos 11:6-8), mas eu posso jogar futebol americano se usar luvas ? (as bolas de futebol americano são feitas com pele de porco)

j) Meu tio tem uma fazenda. Ele viola Levíticos 19:19 plantando dois tipos diferentes de vegetais no mesmo campo. Sua esposa também viola Levíticos 19:19, porque usa roupas feitas de dois tipos diferentes de tecido (algodão e poliester). Ele também tende a xingar e blasfemar muito. É realmente necessário que eu chame toda a cidade para apedrejá-los (Levíticos 24:10-16) ? Nós não poderíamos simplesmente queimá-los em uma cerimônia privada, como deve ser feito com as pessoas que mantêm relações sexuais com seus sogros (Levíticos 20:14)?

Eu sei que você estudou essas coisas a fundo, então estou confiante que possa ajudar. Obrigado novamente por nos lembrar que a palavra de Deus é eterna e imutável. Seu discípulo e fã ardoroso."

Resta dizer que "o fim da Lei é Cristo" (Rm.10:4). Não estamos mais debaixo de seu insuportável peso, mas debaixo da Surpreendente Graça de Deus. Porém, quem insiste em viver sob ela, tem que cumpri-la integralmente, e não apenas a parte agradável ao paladar religioso de hoje.

*Esta é uma adaptação da carta original.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

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A Mensagem Subversiva do Reino

A concentração de riquezas é um sinal claro da injustiça prevalecente no mundo. Deus jamais aprovou tal modelo. Pelo contrário, Sua Palavra o denuncia freqüentemente, conclamando os homens à prática da justiça.

“A vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta das suas delícias. E esperou que exercessem justiça, mas viu opressão; retidão, mas ouviu clamor. Ai dos que ajuntam casa a casa, e reúnem herdade a herdade, até que não haja mais lugar, e fiquem como únicos moradores da terra (...) Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade, que põem o amargo por doce, e o doce por amargo”. Isaías 5:7-8,20

Nesta passagem encontramos uma dura advertência aos que almejam acumular riquezas. E o pior é que subvertem valores, no afã de justificar seu monopólio. Chamam “certo”, o que Deus diz ser “errado”.

Em uma sociedade capitalista, em que o capital tem supremacia sobre o trabalho, enriquecer às custas do trabalho alheio é visto como um sinal de esperteza, de sagacidade, de inteligência.
Infelizmente, assistimos à igreja sucumbindo a este espírito. Pastores bradam de seus púlpitos que o crente deve almejar ser patrão, em vez de conformar-se em ser empregado. Deve ser “cabeça” em vez de “calda”. O problema não está em motivar as pessoas a melhorarem suas condições econômicas. Não há nada de errado em querer ascender socialmente. O problema é quando esta ascensão é desejada apenas pelo glamour, desprezando a responsabilidade social que ela demanda.

Ao estimular seu povo a ascender socialmente, o pregador deveria focar as oportunidades de trabalho que um empregador poderia criar, diminuindo assim o alto índice de desemprego, e conseqüentemente, a criminalidade. Mas em vez disso, enfatiza-se apenas o conforto material e social que tal ascensão poderá promover. Testemunhos são colhidos de pessoas que usam suas conquistas materiais, como a aquisição de um carro luxuoso, ou uma cobertura de frente para a praia, como aferidor de sua fé. Ainda não vi um pastor perguntando a tais empresários, quantos foram beneficiados através de sua prosperidade.

A advertência profética diz que Deus esperava que Seu povo exercesse justiça, mas viu opressão, retidão, mas ouviu clamor. Há um clamor que Deus jamais gostaria de ouvir.
De quem seria este clamor? Daqueles que são explorados por quem almeja concentrar riquezas. Por isso Deus adverte o Seu povo:

“Não explorarás o assalariado pobre e necessitado, seja ele teu irmão, seja ele estrangeiro que mora na tua terra e nas tuas cidades. No mesmo dia lhe pagarás o seu salário, para que o sol não se ponha sobre a dívida, pois ele é pobre, e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado”. Deuteronômio 24:14-15

A expressão “Ai” encontrada em algumas advertências divinas, tem como propósito ressaltar a seriedade e o rigor com que Deus trata certas injustiças.

“Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus aposentos sem direito, que se serve do serviço do seu próximo sem paga, e não lhe dá o salário do seu trabalho”. Jeremias 22:13

Deus está sempre atento ao clamor dos injustiçados! Embora seja um clamor que Ele preferia jamais ouvir.

Tiago denuncia: “Vede! O salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, e que por vós foi retido com fraude, está clamando. Os clamores dos ceifeitos chegaram aos ouvidos do Senhor Todo-poderoso” (Tg.5:4).

Entretanto, Deus se recusa a ouvir o clamor dos exploradores; daqueles que trabalham com o único intuito de concentrar bens, e que para isso, não hesitam explorar seu semelhante:

“A vós que aborreceis o bem, e amais o mal, que arrancais a pele de cima deles, e a sua carne de cima dos seus ossos, que comeis a carne do meu povo, e lhes arrancais a pele, e lhes esmiuçais os ossos, e os repartis como para a panela, e como carne do meio do caldeirão. Então clamarão ao Senhor, mas ele não os ouvirá, antes esconderá deles a sua face naquele tempo, visto que eles fizeram mal nas suas obras”. Miquéias 3:2-4

Os ricos deste mundo precisam acordar para o fato de que todas as nossas obras são sementes, que mais cedo ou mais tarde, resultarão em colheitas. Oséias os denuncia, dizendo que “eles semeiam ventos, e colhem tormentas” (Oséias 8:7a). Toda a injustiça praticada pelas elites brasileiras, tem resultado numa escalada da violência sem precedentes na História deste país. Os mesmos que se negam a pagar um salário justo a seus empregados, são obrigados a gastar fortunas em segurança, blindando seus carros, colocando sistemas de alarme caríssimos em suas residências, e contratando equipes de vigilância.

Deus está exercendo juízo sobre essa elite indiferente, que enriquece às custas da injustiça feita ao trabalhador:

“Chegar-me-ei a vós para juízo, e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o trabalhador, e pervertem o direito da viúva, e do órfão, e do estrangeiro, e não me temem, diz o Senhor dos Exércitos”.

Malaquias 3:5

O Reino de Deus está sempre na contramão do sistema deste mundo. Por isso, podemos afirmar que a mensagem do Reino é a mais subversiva jamais pregada.

Por que há tão poucos em posse de tantas riquezas, enquanto grande parte da humanidade vive abaixo da linha da pobreza? Como poderíamos reverter isso? Através da pregação do Reino de Deus.

Mas não devemos nos ater a pregar a mensagem. Precisamos encarná-la, trazê-la da teoria para a prática. Em outra palavras, precisamos semear justiça, onde até hoje só se semeou opressão e exploração.

“Semeai para vós em justiça, ceifai o fruto do constante amor, e lavrai o campo de lavoura, porque é tempo de buscar ao Senhor, até que venha e chova a justiça sobre vós”.
Oséias 10:12

Veja que semear a justiça é sinônimo de buscar ao Senhor. Ainda que as mudanças não ocorram com a rapidez que desejamos, não podemos nos cansar de fazer o bem, até que “chova a justiça”. Aqui vale a admoestação apostólica: “Não vos enganeis: Deus não se deixa escarnecer. Tudo que o homem semear, isso também ceifará (...) E não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido. Então, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (Gl.6:7,9-10).

E o escritor de Hebreus complementa: “Não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir com outros, pois com tais sacrifícios Deus se agrada” (Hb.13:16).

Cada vez que praticamos o bem, e repartimos com alguém aquilo que o Senhor nos deu, estamos semeando no Reino de Deus. Em breve, a chuva virá, e toda a Terra será renovada.

“Porque, como a terra produz os seus renovos, e como o jardim faz brotar o que nele se semeia, assim o Senhor Deus fará brotar a retidão e o louvor perante todas as nações”. Isaías 61:11

Tudo o que Deus nos concede é com o fim de abençoar aos que nos cercam. Não temos o direito de concentrar nada em nossas mãos.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

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A Justiça do Reino

Um dos versos prediletos dos pregadores modernos é Mateus 6:33, onde Jesus ordena: “Mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”.
Este verso é sistematicamente usado para convencer aos fiéis a priorizarem o Reino de Deus, que para eles, limita-se à esfera eclesiástica. Priorizar o reino de Deus é entendido como sinônimo de ser assíduo aos cultos e jamais deixar de fazer suas contribuições. Família, negócios, lazer, tudo deve ser preterido, em função da agenda da igreja local.

Mas será exatamente isso que Jesus quis dizer? O que significaria “buscar o Reino de Deus”? E mais: o que significaria buscar a justiça desse reino?

Geralmente, a ênfase recai sobre o Reino, identificando-o com a igreja. E quanto à justiça desse reino, por que é simplesmente ignorada? Afinal, a ordem de Cristo é buscar em primeiro lugar o Seu Reino e a sua justiça.

Estaria Jesus falando da justiça imputada aos pecadores, quando estes admitem seu estado pecaminoso, recorrendo à misericórdia de Deus revelada na Cruz? Estaria Ele falando da tão importante doutrina conhecida entre nós como “justificação pela fé”?

Ou estaria Ele falando da justiça como o modo de vida proposto aos cidadãos do Reino de Deus?
Se Jesus estava referindo-Se à Justiça de Deus, então é provável que Ele estivesse falando da Justificação pela Fé. Mas Se Ele estava referindo-Se à Justiça do Reino, logo, é mais plausível crer que Ele estivesse falando da Justiça como práxis, como prática, e não apenas como algo que nos é imputado. Mesmo porque, a justiça que nos é imputada pela fé, não é resultado de qualquer busca humana, mas de uma intervenção soberana de Deus. Nós não a buscamos. Ela nos encontrou, e nos foi imputada pela fé.

Creio piamente que Jesus estava falando da Justiça do Reino, que é a conseqüência prática que deve ser encontrada na vida daqueles em quem foi imputada a Justiça de Deus.

Em sua primeira epístola, João diz: “Se sabeis que ele é justo, sabeis que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele” (1 Jo.2:29). E mais: “Quem não pratica a justiça não é de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão”(3:10b).

De fato, somos justificados pela fé somente. Isto é, ao crermos no Filho de Deus, e na suficiência de Seu sacrifício por nós, somos declarados justos no Tribunal Celestial. Não somos inocentados, mas justificados. Ser declarado justo não é o mesmo que ser declarado inocente. O inocente é aquele que não tem qualquer culpa. Já o que foi justificado é aquele que teve sua culpa comprovada, mas sua penalidade foi devidamente aplicada. Seu débito, portanto, fora saldado. No caso, Cristo arcou com nossa penalidade na Cruz, morrendo em nosso lugar.

Uma vez declarados justos, devemos buscar viver a Justiça do Reino de Deus.


1 - Definição bíblica de justiça

Justiça é dar a cada um o que lhe é de direito. Nas palavras de Paulo: “Dai a cada um o que deveis” (Rm.13:7a). Toda vez que privamos alguém dos seus direitos, cometemos injustiça.
Paulo define o Reino de Deus como “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”, e afirma que “quem nisto serve a Cristo, agradável é a Deus e aprovado pelos homens” (Rm.14:17b-18). Quem disse que “agradar a Deus” e ser “aprovado pelos homens” são coisas excludentes?

A igreja primitiva experimentou cada uma destas dimensões do Reino de Deus, e por isso é dito que os crentes caíam “na graça de todo o povo” (At.2:47). Eles experimentavam uma verdadeira revolução, não apenas espiritual, mas também social.

Onde quer que a mensagem do Reino era pregada, havia grande alegria, até em cidades como Samaria, onde os discípulos jamais imaginariam ser bem recebidos (At.8:8).

A perseguição sofrida pela igreja era protagonizada pelas autoridades judaicas e romanas, não pelo povo. Era justamente a popularidade daquela nova seita, conhecida como “o Caminho”, que tanto incomodava às autoridades, instigando-as ao ciúme.

Mas enquanto as autoridades se corroíam de ciúmes, a igreja caía na simpatia das camadas populares, que eram contagiadas pela alegria do Espírito.

Aos poucos, a Igreja ía se espalhando pelo mundo, semeando a mensagem subversiva e poderosa do Reino de Deus. E o resultado? Além de alegria contagiadora, Lucas diz em sua reportagem que “as igrejas em toda a Judéia, Galiléia e Samaria tinham paz. Eram fortalecidas e, edificadas pelo Espírito Santo, se multiplicavam, andando no temor do Senhor”(At.9:31). A consciência apaziguada gera relações pacíficas. Quem não tem paz com Deus, não pode estar em paz consigo mesmo, e, conseqüentemente, não consegue ter paz com o semelhante. A paz oferecida por Cristo abrange a relação entre o ser humano e Deus, entre ele e seus semelhantes, e entre ele e sua consciência. E é esta paz que oferece o solo fértil, onde a Justiça possa ser semeada.

Tiago diz: “Ora, o fruto da justiça semeia-se em paz para os que promovem a paz” (Tg.3:18). Sem paz, torna-se impossível a frutificação da justiça do Reino. A Paz produz o ambiente propício para que a justiça, uma vez semeada, possa frutificar.

Alegria, paz, e... justiça!

Os crentes primitivos buscavam e viviam a justiça do Reino de Deus, em todas as suas implicações. E por isso, “não havia entre eles necessitado algum”(At.4:34). Como Jesus havia predito, todas as coisas lhes seriam acrescentadas, se buscassem prioritariamente a Justiça do Reino.

Porém, o cumprimento desta promessa não se daria através de alguma intervenção sobrenatural, mas através da prática da Justiça. Deus não faria chover pão do céu, como fizera no deserto, durante a peregrinação do povo hebreu.

A Ressurreição e a Ascensão de Cristo nos introduziram na Era do Reino, assim como a atravessia do Jordão introduziu Israel na terra da promessa. Enquanto os filhos de Israel caminhavam no deserto, nunca lhes faltou maná. Mas tão logo foram introduzidos na Terra Prometida, “cessou o maná; os filhos de Israel não o tiveram mais, mas nesse ano comeram das novidades da terra de Canaã”(Josué 5:12). Não faria sentido Deus manter aquilo por mais tempo, uma vez que Canaã era uma terra fértil, pronta pra receber sementes e frutificar.

Uma vez introduzidos no Reino, e recebido o Espírito da Promessa, caberia aos crentes semear, e assim, terem todas as suas necessidades supridas.

Jesus não mais multiplicaria pães e peixes, como fez no deserto por duas vezes. Nem promoveria pescas maravilhosas, como fez também por duas vezes. A partir de agora, a provisão de Deus se manifestaria através de meios naturais por Ele ordenados.

Os crentes primitivos perceberam logo isso. Eles sabiam que os sinais miraculosos continuariam, mas que já não visariam promover a satisfação de suas necessidades materiais. Lucas nos informa que “muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo a necessidade de cada um”(At.2:43b-45). Os sinais realizados pelos apóstolos limitavam-se a curas, libertação de espíritos malignos, algumas ressurreições, e manifestações de dons espirituais. Entre eles, não havia nada como multiplicação de pães, ou qualquer outro sinal que visasse suprir necessidades materiais.

E quanto à promessa de que todas as demais coisas seriam acrescentadas? Isso não incluiria coisas materiais?

É claro que sim. Mas o expediente usado por Deus seria outro, e não pura intervenção sobrenatural. Isso se daria através daquilo que Paulo chamou de “o caminho mais excelente”. Seria vivendo o amor derramado pelo Espírito no coração dos crentes, que a igreja experimentaria o suprimento de todas as suas carências materiais. O Amor e a Justiça devem caminhar sempre de mãos dadas. “O que segue a justiça e o amor acha vida, prosperidade e honra” (Pv.21:21).

A intervenção sobrenatural se dava no coração dos crentes, à medida que a Palavra se multiplicava entre eles (At.12:24).

Lucas dá testemunho de que “não havia entre eles necessitado algum. Pois todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a sua necessidade”(At.4:34-35).
Era assim que eles viviam a justiça do Reino de Deus. Eles tinham tudo em comum. Por isso, não havia necessitado entre eles.

E quem pensa que tal estilo de vida começa e termina nas páginas de Atos dos Apóstolos, está redondamente enganado. Já no Antigo Testamento os judeus o experimentaram ao retornarem do exílio a Jerusalém. Neemais conta que os levitas “leram no livro da lei de Deus, esclarecendo-a e explicando o sentido, de modo que o povo pudesse entender o que se lia. Então Neemias, que era o governador, e Esdras, sacerdote e escriba, e os levitas que ensinavam o povo disseram a todo o povo: Este dia é consagrado ao Senhor vosso Deus, pelo que não vos lamentais, nem choreis. Pois todo o povo chorava, ouvindo as palavras da lei. Disse-lhes mais: Ide, comei as gorduras, e bebei as doçuras, e enviai porções aos que não têm nada preparado para si. Este dia é consagrado ao nosso Senhor. Não vos entristeçais, pois a alegria do Senhor é a vossa força (...) Então todo o povo se foi a comer, a beber, a enviar porçÕes e a celebrar com grande alegria porque agora entendiam as palavras que lhes foram comunicadas” (Nee.8:8-10,12).

Fenômeno bem parecido ao ocorrido na igreja primitiva. Bastou que o povo entendesse a Palavra, para que brotasse em seus corações a disposição de partilhar seus pertences. Lucas relata que “os que de bom grado receberam a sua palavra foram batizados (...) E perseveraram na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações”(At.2:41a, 42). Portanto, este estilo de vida surge muito antes de Atos, e prossegue depois dele.

Paulo, apóstolo dos gentios, o endossa em suas epístolas, onde nos ordena a partilhar “com os santos nas suas necessidades” (Rm.12:13). Paulo sabia que na Era do Reino, os crentes precisariam semear, e não esperar por intervenções freqüentes dos céus. E esta semeadura se daria quando os crentes se dispusessem a compartilhar seus bens. Como um visionário, Paulo entendia que a Igreja deveria ser uma agência catalisadora e distribuidora de recursos. Através da semeadura, os bens seriam distribuídos, e assim, todos desfrutariam igualmente dos recursos enviados por Deus.

Ao ordenar que os crentes de Corinto participassem desta graça, Paulo escreve:

“Mas, não digo isto para que os outros tenham alívio, e vós aperto, mas para igualdade. Neste tempo presente, a vossa abundância supra a falta dos outros, para também a sua abundância supra a vossa falta, e haja igualdade, como está escrito: O que muito colheu não teve demais, e o que pouco, não teve falta”

2 Coríntios 8:13-15

Repare que Paulo usa a analogia da semeadura para estimular os crentes a partilharem uns com os outros. Ele sabia que a igreja era o Novo Israel, que deixara o novo Egito (a Jerusalém apóstata)[1], e agora havia recebido “um reino que não pode ser abalado” (Hb.12:28). Portanto, a exemplo do antigo Israel, a Igreja deveria semear na boa terra do Reino, e através disso, produzir a Justiça do Reino.

O mesmo conceito é repetido por Pedro: “Servi uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe.4:10). O que Deus dá a uns, é para que seja usado para benefícios de outros. Deus não é injusto por dar a uns o que nega a outros. Pelo contrário: Através disso, a Justiça de Deus se manifesta, fazendo com que dependamos uns dos outros. Ninguém é auto-suficiente no Reino de Deus. A igualdade ocorre quando a abundância de uns supre a falta de outros, e vice-versa.

Respeitando o princípio da semeadura, Paulo diz que nossa semeadura deveria ser “expressão de generosidade, e não de avareza” (2 C.9:5b). E mais: “O que semeia pouco, pouco também ceifará, e o que semeia com fartura, com fartura também ceifará” (v.6).

Segundo o Apóstolo, a Deus compete prover a semente, mas a nós compete semeá-la.

“Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, e pão para o alimento, também multiplicará a vossa sementeira, e aumentará os frutos da vossa justiça”.

2 Coríntios 9:10

Veja, ainda dependemos de freqüentes intervenções de Deus. Ele ainda multiplica... não mais pães ou peixes, e sim a nossa sementeira. Ele dá a semente. Ele provê oportunidades de trabalho, aptidões profissionais, força física, inspiração e motivação. Mas cabe a nós usar todos estes recursos para o bem comum, e não apenas para satisfação de nossas necessidades e cobiças.

Tiago afirma em sua epístola, que o motivo porque muitos pedidos não são atendidos por Deus é que pedimos mal: “Pedis e não recebeis porque pedis mal, para o gastardes em vossos prazeres” (Tg.4:3). Pedir mal é pedir pensando somente em si. Devemos pedir que Deus multiplique nossa sementeira, para que possamos ser bênção na vida de outros.

Multiplicando nossa sementeira, Ele faz aumentar os frutos da nossa justiça. E desta maneira, Ele espalha recursos, em vez de fazê-los concentrar em algumas mãos somente. Paulo revela que o propósito de Deus é “fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra. Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre”(vv.8-9).

Eis a justiça do Reino de Deus em operação. Sua meta é espalhar recursos, e distribuí-los justamente. Isso é o inverso do sistema que vemos no mundo, onde as riquezas são concentradas em poucas mãos.


[1] Em Apocalipse 11:8 lemos que a cidade onde Jesus fora crucificado é espiritualmente chamada de Egito.